Stone Lion - Black Rock version

quinta-feira, Setembro 11, 2014
 

Para Sabrina, sobre ansiedade


Primeiro, adorei que você me escreveu pra perguntar sobre ansiedade em resposta ao texto sobre depressão. Faz muito bem para nós saber que o nosso conhecimento e experiência de vida podem realmente ajudar alguém para além "daquilo que cai no vestibular". 
Eu demorei um pouco pra responder (o que, para uma pessoa ansiosa pode ser terrível, eu sei), porque sempre que eu começava, eu me pegava contando toda a minha história de vida e de como e porque eu tive ansiedade, em vez de entrar logo no assunto como eu fiz com o texto da depressão. É mais difícil pra mim falar sobre isso, porque minha perspectiva é muito de dentro do problema. Com a depressão foi mais fácil, porque eu era um espectador assistido ao drama, sem participar dele. Mas vamos tentar... 

"Solitaire" (2004)
óleo sobre madeira
A respeito da vontade
de não sentir nada
Eu não sou especialista nesses transtornos. Sou apenas alguém com alguma sensibilidade que observa essas coisas. Mas eu frequentemente penso na ansiedade como o oposto completo da depressão. Onde a depressão é uma falta de sentido e de sentimento na vida, a ansiedade é um excesso muito violento de sentimentos e significados imaginados, quase paranóicos em relação a tudo. Você sente demais, você conjectura demais, você atribui significados demais a coisas que talvez não tenham significado nenhum. Tudo parece ter consequências pesadas demais que PRECISAM ser consideradas (ênfase no "parece")! Faz sentido? Nas épocas de crise, tudo que eu queria era poder não sentir nada... 

Bom, eu vejo que não vou conseguir falar do assunto sem falar da minha experiência. Então, pra resumir e tirar logo do caminho a minha história, eu tive uma adolescência de me mudar bastante, viajar muito, começar de novo algumas tantas vezes. Esse movimento todo gerou na minha cabeça uma auto-avaliação constante: será que eu estou agindo certo? A pergunta, na verdade, era "será que eu estou sendo normal"? Ela me afetava bastante, porque moramos fora do Brasil, e como estrangeiro você se pergunta isso bastante. Achei importante falar desse questionamento e auto-avaliação, porque nele está uma das bases da ansiedade (pelo menos do modo como eu a encarei): a ideia de que os outros esperam algo de nós. Esperam que tenhamos determinadas atitudes, que nos encaixemos em determinados estilos, que tenhamos determinados objetivos de vida. Nós não sabemos ao certo o que acontece com quem não corresponde a essas expectativas todas, sabemos apenas que queremos corresponder. Queremos que os outros gostem de nós. Isso é muito importante, mas eu volto a isso daqui a pouco... 

"Sickness" (2004)
Óleo sobre tela
A respeito do enjôo
Me chamou muito a atenção duas coisas que você escreveu: primeiro que você acha que os outros devem te achar muito estranha. E depois, que você tem pavor da ideia de vomitar em público. Essas duas coisas foram muito parte da minha história também. A ansiedade se manifesta em cada pessoa de formas muito diferentes. Pra mim, ela começou com crises de amidalite antes de cada viagem que a família fazia ou provas na escola. Depois, na adolescência, ela mudou para algo mais pontual e instantâneo, um enjôo forte que acontecia em toda balada, toda situação social onde eu achava que estava sendo julgado (ênfase no "achava", porque ninguém estava prestando a mínima atenção em mim...). Ele atacava de repente, as coisas literalmente perdiam a cor, a graça, eu sentia o sangue fugir do meu rosto (devia estar ficando pálido), perdia as forças e começava a me concentrar apenas nesse enjôo. Só existia o enjôo. 
Eu tinha muito medo de mostrar aos outros que eu estava passando mal. Medo como o seu, de me acharem estranho, incapaz de fazer algo tão banal quanto se divertir em uma balada. E isso, claro, alimentava o ciclo (ansiedade dá enjôo, que me dá medo, que gera mais ansiedade, que dá mais enjôo, que gera mais medo...).Então, durante MUITO tempo, eu escondi isso. Eu passei mal sozinho. Tinha ainda mais medo de vomitar em público também. E cheguei a fazê-lo apenas uma vez por causa de ansiedade, em um hotel onde passávamos férias. Bem no saguão do hotel, enquanto eu procurava desesperadamente por um banheiro. O mais importante desse episódio foi que ele não foi o fim do mundo. Ele não significou NADA. Ninguém sequer lembrava disso no dia seguinte.

As coisas pioraram muito antes de melhorarem. O vestibular me levou ao pior período de ansiedade. Porque eu achava que todo mundo esperava que eu passasse direto. Porque eu achava que esperavam que eu fizesse USP. Porque eu achava que esperavam que eu tivesse uma "carreira de verdade" além das artes plásticas. Eu achava que esperavam muito de mim. De novo, ênfase em todos esses "achava". Minha ansiedade alcançou picos insuportáveis. Eu comecei a pensar que eu teria que lidar com ela a vida toda. Eu comecei a imaginar outros 50, 60 anos de enjôos e sentimentos de inadequação. Eu comecei a cogitar dar um fim nisso mais cedo... 

E foi aí que eu procurei ajuda. 

Eu comecei terapia já em um ponto em que a cadeia de raciocínio era tão automática, que o primeiro sinal de enjôo já disparava pensamentos de morte. A terapia me ajudou primeiramente dando um nome a isso que eu sentia (até então, eu apelidava isso de "a síndrome", porque não sabia que era ansiedade...). Depois, me ajudou a entender qual era o peso disso que eu achava que os outros esperavam de mim. Por último, me ajudou a entender que ninguém esperava nada de mim. A única pessoa que esperava algo de mim era eu mesmo. E eu conseguia negociar comigo mesmo. 
Eu considero que me curei de fato quando viajei pela primeira vez, sozinho, para a Europa. Poderia ter sido Ásia, África, ou até aqui do lado, em Sergipe ou Espírito Santo. O que importou foi que eu viajei sozinho. E me hospedei em um lugar onde eu era sim estrangeiro, em meio a muitos outros estrangeiros. Todo mundo agia diferente e não tinha um "normal". Mais do que isso, ninguém tinha ouvido falar de Bandeirantes, de USP, de FAAP (eu acabei fazendo DUAS faculdades por causa disso tudo...). Eu não era nem classe média-alta. Eu era nada. E como nada, eu podia ser tudo. E em um lugar onde todos eram estrangeiros, eu podia agir como eu quisesse e querer o que eu quisesse. 

Eu nunca me senti tão leve... 

Depois dessa viagem, eu compreendi algumas coisas. Primeiro, o poder de entender que ninguém esperava nada de mim. Nem os meus pais esperavam algo de mim de fato: eles queriam apenas que eu fosse feliz e auto-suficiente (se isso ia ser alcançado como artista plástico, arquiteto, vendedor de sapatos ou camelô da 25 de Março, não importava...). Eu que tinha que gostar de mim mesmo e do que eu fazia, não os outros. Comecei a estudar coisas de meu interesse e a mudar meu visual para algo que eu gostasse. Parei de ir nas baladas que os meus amigos iam e procurei outras onde eu pudesse fazer coisas que eu gostava (karaokê, baladas de gótico, etc...). Danem-se os outros. 
Depois, entendi que ser estranho e único me tornava muito mais interessante do que todo mundo que queria ser "normal". E isso tem uma ressonância muito peculiar na adolescência: você quer fazer parte do Bando e ser normal, mas ao mesmo tempo quer ser único e melhor do que os outros. Essa tensão é o que gera a ansiedade. Eu escolhi ser diferentão mesmo. E me orgulhar disso. A barba esquisita é parte desse processo, aliás... 
Por último, eu entendi que revelar isso aos meus amigos de confiança e pedir ajuda nas horas mais tensas aliviava MUITO o peso disso tudo. Tive namoradas que sentaram comigo no canto das baladas até o enjôo passar, amigos que conversavam comigo sobre outras coisas para me distrair da auto-avaliação, pais que me contaram suas próprias histórias de ansiedade. Mas sendo que você já me procurou pra pedir ajuda, acho que não preciso enfatizar essa parte! Você fez muito bem em fazer isso! 

Então, pra fechar esse texto enorme: ninguém espera nada de você. Seja você mesma, diferente, única, estranha e maravilhosa. Converse consigo mesma para entender do que você gosta, use as suas roupas com vontade e com orgulho, considere no Ensino Médio as carreiras que te fascinam e não apenas as que dão dinheiro (o dinheiro vem para quem é apaixonado pelo que faz - vide eu que estou ganhando a vida com arte). 

As coisas não têm todo esse peso, importância e significado que você acha que elas têm. Seja leve. 
Just slide.

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The tracks of 0 creature(s) stir the dirt
quinta-feira, Agosto 21, 2014
 

Resposta para Dora

Não tenho mais escrito por aqui, e acho que o blog está morrendo mesmo. Mas neste ato de morrer, tornou-se também o lugar onde eu venho deixar minhas catarses, meus pontos finais, as soluções dos traumas e conflitos que marcaram meus vinte anos.

Coisas como o pensamento de hoje de tarde.

Por algum motivo, me peguei pensando sobre meus trabalhos dos últimos anos da faculdade de artes. E nessa corrente de pensamento, na série final de retratos que foi meu trabalho de graduação. E sempre que lembro dele, lembro da relação complexa que eu tinha com minha orientadora, Dora Longo Bahia. Como ela parecia escarnecer o fato de que eu estava defendendo como trabalho de graduação uma simples série de retratos. Mais do que isso, escarnecia o fato de eu, um homem, estar pintando retratos suspirosos de mulheres pelas quais eu tinha alguma fixação. Já naquela época, e sem ter estudado os assuntos que levariam ao meu mestrado, eu já conseguia entender que o escárnio dela representava mais do que aquilo que estava na superfície da situação. Era uma mulher forte, independente e contemporânea (leia-se após o estabelecimento dos ideais feministas como parte do status quo), zombando de uma atitude minha que era tingida de um machismo antigo, já bem capenga e moribundo, que nem percebia o quão patriarcal estava sendo. A atitude do pintor homem objetificando mulheres como musas de suas pinturas. Eternizando uma beleza que era apenas beleza, sem conteúdo. Hoje revejo minha série de retratos e tenho pruridos ideológicos em relação ao que eu fiz naquela época.

Mas o pensamento que me ocorreu esta tarde era mais específico do que isso.
Na época da minha banca de graduação, Dora lançou uma pergunta que me assombrou até o dia da banca. Eu morria de medo que meus avaliadores a fizessem porque, segundo Dora, minha resposta não era satisfatória:

"Se a série de retratos (em pintura) é produzida a partir da cópia fiel e realista dos retratos fotográficos destas mulheres, qual é o sentido de se fazer pintura? Por que não simplesmente apresentar as fotos?"

Hoje, tendo compreendido um quê sobre a verdade na arte, compreendi melhor a pergunta. As fotos tinham uma qualidade em si muito mais próxima destas mulheres. Eram o primeiro ato apaixonado de captar a beleza delas. A pintura era um fac-simile de um fac-simile. Perdia força. E tendo compreendido um quê também sobre meu próprio ato de obsessão sobre estas mulheres, compreendi também melhor a resposta. Uma resposta que, por outro lado, validaria esta cópia da cópia como um ato técnico que também tinha seu valor. Quase 11 anos depois da banca de graduação, eu acho que cheguei no que eu deveria ter respondido para minha orientadora.

Dora, o que eu faço é captar, me apropriar da beleza destas mulheres. Desconsideremos (como eu desconsiderava na época) todo o assunto da teoria de gênero (Feminismo, Masculismo, Patriarcado, Big Macho Painters...) que está implícito neste ato. Falemos apenas do ato em si. É um ato obsessivo, de moleque apaixonado que não sabe falar com garotas. De alguém que está procurando, ciente disso, um jeito de sublimar tesão não correspondido. Como ato de fruição estética, eu admito que há mais valor na minha experiência enquanto estou pintando os retratos, do que na experiência de quem vê o retrato pintado e não passa pelo processo. É arte para mim mesmo. Masturbação mesmo.
Neste ato, o mero fotografar da menina é um ato paralelo a uma ficada descompromissada de uma noite. É o usufruto momentâneo e raso da beleza desta garota pelo visor de uma máquina, congelando a imagem com o apertar de um botão, sem prestar atenção em muitos detalhes. Do ponto de vista do meu relacionamento com esta imagem (não com a menina, tenha isto em mente), é um relacionamento superficial, fugaz. Eu terei uma compreensão geral dela, das cores, da gestalt. Ela, a menina (e a imagem também, suponho...), merece mais do que isso.
Pintar o retrato da foto é um ato de obsessão e respeito maior. É paralelo a um namoro, romance de compromisso. É o usufruto demorado, estudado e cuidadoso de cada curva, cada tom acertado de cor naquela luz e naquela pose específica. Um errar e corrigir frequente, como o que fazemos em relacionamentos sérios ao tentar nos adequar ao parceiro. Na minha visão, é um respeito muito maior. Chame-o de objetificação muito maior, de obsessão doentia, chame-o de inocência ou ingenuidade. Não me importo: eu estava pintando para meu próprio deleite, como disse.

Você também pinta a partir de fotografias, né? Mas o que eu vi foram pinturas sem esta paixão estetico-erótica minha. Técnica apuradíssima na cópia realista das imagens, mas sem tesão. Se eu fosse novamente traçar paralelos, diria que é mais como uma transa em uma festa de fetiche. E eu conheço festas de fetiche... O deleite de fazer muito mais do que uma ficada descompromissada (muito mais do que uma fotografia), porém ainda menos do que um namoro firme. Não tenho nada contra. Aliás, até acho instigante. Mas, embora menos obsessivo, também me parece menos respeitoso.

Then again, você não me parecia alguém de namoros firmes.

[Claro que eu não poderia ter dito estas coisas em uma banca de graduação. Elas ficam apenas aqui, como a catarse que eu precisava em relação à Dora e àquela banca. E claro que, tendo estudado teoria de gênero, toda aquela série ganhou nuanças muito mais complexas e desagradáveis para mim, como mencionei.]

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sábado, Junho 14, 2014
 

Para Bárbara, sobre depressão


Dia desses recebi a notícia de que uma aluna do Colégio não estava mais vindo às aulas devido a um caso bem sério de depressão. Ela não tem Facebook e eu não tive outro meio de entrar em contato com ela, mas queria muito escrever para ela. Pensei em escrever por aqui e torcer para que, de boca em boca, esta mensagem chegasse até ela de alguma maneira. Depois percebi que estava escrevendo não só para ela, mas para muitos casos de adolescentes com os quais entro em contato, e que estão passando por coisas assim. 

Eu mesmo nunca tive depressão. Pelo menos nada mais sério do que os pensamentos de morte comuns da adolescência. E demorou muito tempo até que eu entendesse o que era este enorme cachorro preto. Eu precisei de filmes como "Melancholia" (Lars von Trier) e a convivência íntima com amigos vitimados pelo cachorro que conseguiram me levar além do muro de ignorância que se ergue entre os deprimidos e o resto do mundo. O tanto que eu gostava dessas pessoas me fez continuar do lado delas sem criticar, até que eu entendesse que aquilo era real. Que elas não estavam apenas com preguiça da vida. Que elas não estavam tristinhas por brigar com o namorado. Que elas não estavam fazendo manha pra chamar atenção. Elas estavam doentes. Mesmo. 

De novo, eu nunca tive depressão. Tudo que eu posso fazer como alguém que vê de fora, é fazer o possível para entender do meu jeito e não colocar mais tijolos naquele muro de preconceitos. O que eu entendi depois de ler muito e perguntar muito é que parte disso é biológico, é um problema relacionado a neurotransmissores no cérebro. O cérebro é um órgão, e como tal, pode adoecer. Isso se resolve com remédios. Mas eles resolvem sintomas pontuais para aliviar o peso, e não resolvem as causas. Estas devem ser curadas pela luta diária dessa pessoa em criar sentido para a vida. Pra fazer até as coisas mais mundanas e banais. E eu não quero ser pretensioso, achando que arte vai curar isso, mas acredito mesmo, pessoalmente, honestamente, que pode ajudar.

Eu não vou fazer a conversa de auto-ajuda de professor tradicional, de te dizer que a vida é linda e você ainda não percebeu. Até porque ela não é. Ela é dura, injusta e irracional. E ninguém sente isso mais do que o adolescente. Uma colega professora me deu o que pensar nesses dias ao dizer que muita gente menciona a adolescência como a melhor época da sua vida. Imaginei o que sentiria um adolescente passando por todo esse tumulto ao ouvir isso. Se ESTA é a melhor época da vida, que grande porcaria vai ser todo o resto! E eu acho bem o contrário: você está sim na pior época da sua vida. Seu inferno particular. Não vou me alongar nos motivos de eu achar isso, qualquer adolescente fala disso melhor do que eu. A boa notícia é que, se esta é a pior época da sua vida, o que vem depois só pode ser melhor. Você só precisa passar dessa época, aguentar um pouco. A vida fica deliciosa depois, se você se abrir para ela e procurar o que é que te agrada, sem preconceitos ou pudores. Ela fica deliciosa quando você vê aos poucos tudo o que você é e consegue fazer se desenvolver e virar um poder. Um verdadeiro poder. Dá trabalho, mas como qualquer obra de arte, você faz sedento pelo resultado, não choramingando o processo. Quem sabe, talvez você até chegue a curtir os processos. Como em qualquer obra de arte. Pra dizer a verdade, é aí que a arte ajuda: naquele "procurar o que é que te agrada" e poder explorá-lo sem pudores, sob a chancela de arte. E isso que te agrada vai criar uma ilha de conforto nessa coisa dura, injusta e irracional. E esse conforto vai virar um continente com tempo e dedicação. A dureza, injustiça e irracionalidade jamais desaparecerão por completo, mas pelo menos você vai ter terra firme no meio disso. 

Os meus vinte anos foram infinitamente melhores e mais cheios de significado do que a adolescência. E os meus trinta estão sendo a melhor época da minha vida. Desconfio que essa avaliação mude quando eu chegar aos quarenta.
  
Então aguente firme. Você é linda. Você tem um talento a ser nutrido. Você tem um caminho a percorrer. E a vista no caminho é de tirar o fôlego. Espero que você entenda que eu não estou dizendo que a vida é linda, mas que ela pode ficar. 

Em tempo, e mais uma vez, eu nunca tive depressão. Em vez disso, eu lutei por anos com um outro cachorro, o da ansiedade. Mas isso dá todo um outro texto, para uma outra pessoa. 


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I recently got word that one of the students from the School was not showing up to class due to a very bad case of depression. She has no Facebook account and I had no other way of getting in touch with her, but I really wanted to write to her. I thought about writing here in hopes that this message could reach her somehow, passing from person to person. Then I realised I wasn't writing only for her, but for many other cases of teenagers I've come across, who are dealing with stuff like that. 
I myself have never had depression. At least nothing more serious than the average death wishes of teenage. And it took a long time until I understood what this huge black dog was. It took me movies like "Melancholia" (Lars von Trier) and the close proximity to friends who were victims of the dog and were able to take me beyond the wall of ignorance that rises between the depressed and the rest of the world. What love I had for these people made me stick around without criticising them long enough for me to understand that this was real. They weren't merely being lazy about dealing with life. They weren't feeling down because they had a fight with the boyfriend. They weren't just being bitchy to draw attention. They were sick. For real. 
Once again, I've never had depression. The only thing I could do as someone who sees this from the outside, was to try my best to understand it in my own way and not add anymore bricks to that wall of misconceptions. And what I understood after reading a lot and asking a lot is that a part of this is biological, it's a problem with neurotransmitters in the brain. The brain is an organ, and as such, it can get sick. This can be dealt with using medication. But medication solves the specific symptoms to lighten the burden, it does not attack the causes. These must be cured through the individual's daily struggle to create meaning in living. To carry out even the most mundane and trivial tasks. And I don't want to be pretentious, thinking that art will heal this, but I really believe, personally, honestly, that it might help.
I'm not going to go into the whole self-help talk a traditional teacher would, of telling you that life is beautiful and you just haven't noticed it yet. Because it's not. Life is hard, unfair and irrational. And nobody feels that more than the teenager. A teacher colleague of mine gave me much food for thought recently by saying that some people mention teenage as the best time of their lives. Imagine what a teenager would think upon hearing that if he or she was going through all this turmoil. If THIS is the best time of my life, what a load of crap the rest of it is going to be! And I believe in quite the opposite: you are indeed in the worst time of your life. Your own private hell. I'm not going to try to explain this opinion of mine, any teenager can talk about this better than I can. The good news is that, if this is the worst time of your life, what comes later can only take a turn for the better. All you need to do is get through this stage, hold on a bit longer. Life turns out to be delicious after this, if you open up to it and actively look for what it is that pleases you, unabashedly and with an open mind. It turns out to be delicious when you slowly but surely see everything you are and everything you can do evolve and become your power. Real power. It's hard work, but as with any work of art, you do it out of a thirst for the result, not whining about the process. Who knows, you might even enjoy the processes. As with any work of art. To tell you the truth, that's where art helps: in "looking for what it is that pleases you" and being able to explore it unabashedly, under the guise of art. And this thing that pleases you will create an island of comfort within this hard, unfair and irrational thing. And this comfort will turn into a continent if you give it time and dedication. The hardness, unfairness and irrationality will never disappear completely, but at least you will have dry land in the middle of it. 
My twenties were infinitely better and more meaningful than my teens. And my thirties are being the best time of my life. I suspect this assessment will change once I reach my forties. 
So hod on. You are beautiful. You have a talent that must be nurtured. You have a path to travel. And the view along the way is breathtaking. I hope you understand that I am not saying life is beautiful, but it can be made so.  
In time, and once again, I have never had depression. Instead, I fought for years with another dog, that of anxiety. But that's a whole other text, for a whole other person.

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segunda-feira, Março 24, 2014
 

Equipe do Mural - Semana 1

Vou tentar resumir a história até o momento, aproveitando que estamos ainda no começo. 

Desde que cheguei para dar aulas no Colégio, uma das coisas que me chamou a atenção foi que a professora de Artes que dava aulas antes de mim tinha conseguido um verdadeiro milagre: havia agora trabalhos de arte dos alunos espalhados por algumas paredes do Colégio. O milagre se dava pelo fato de que o arquiteto responsável pela identidade visual do Colégio era radicalmente contra qualquer desses tipos de "interferências", zelando sempre por paredes ou imaculadamente cinzas de concreto, ou com tijolo aparente, que de fato haviam se tornado a marca registrada da instituição. No meu primeiro ano, eu convivi com um enorme mural no pátio, que era uma mistura de referências da história da arte, da Mona Lisa, ao Abaporu. Só que durante as reformas das férias deste ano, devido à colocação de novos aparelhos de ar condicionado, o mural foi danificado, e alguém ordenou que fosse pintado por cima. Fiquei feliz com a reação dos coordenadores, que acharam aquilo um absurdo e prontamente montaram planos para refazer o mural. Eu me candidatei a chefiar a empreitada, que passaria a dar um objetivo para o meu curso de pintura que saíra do Memorial da America Latina no ano passado por causa de uma enchente e um incêndio (sem relação com a minha presença por lá, diga-se de passagem...) e agora estava sendo ministrado no Colégio mesmo. 

Ao contrário do que eu tinha feito no ano passado, anunciei o curso para pessoas que já tivessem alguma experiência de pintura, para montar uma equipe que não precisasse começar do zero em suas noções de cores, materiais e etc. 

A nossa primeira reunião trouxe uma colcha de retalhos de jovens artistas. Muita gente que desenhava, uns poucos que pintavam. Retratos, paisagens, esqueletos, modelos de moda... Eu sentia que dava pra trabalhar com estes poucos. Mas apesar de perceber que eles tinham conhecimento técnico, tinha medo de que eles não conseguissem se soltar, falar de assuntos mais pessoais, aqueles verdadeiramente interessantes, que fariam o Colégio perceber o mural, levá-lo a sério. Eu não queria que o mural acabasse sendo uma pinturinha comportada para papai e mamãe verem. 

Afinal, o que eu queria com o mural? Eram vários impulsos que me moviam... 
É claro que eu queria que o mural tivesse referências da história da arte. Não dá pra ignorar o passado, as origens, os grandes mestres. Mas fazer só isso seria um desperdício de espaço, esforço e esperteza. 
Um outro professor do Colégio tinha recentemente feito uma turma de fotografia extra-curricular, onde ele conseguira explorar com os alunos as opiniões que eles tinham de adolescência. Eles tinham expressado toda a dor, as ansiedades e as dúvidas dessa idade. Eu queria que o mural fosse mais assim. Que ele não exaltasse o Colégio por obrigação, mas também reconhecesse que tinha muita coisa aqui que fazia a adolescência valer a pena. 
Também queria que ele servisse como um chamado para atacar uma mentalidade vigente no Colégio desde a época em que eu era aluno, e que considerava arte uma futilidade. E quem era interessado por arte um diletante estúpido, ou pior, um CDF. Eu queria que o mural desse status a quem faz arte mesmo. A quem sente, a quem presta atenção nas coisas, a quem põe a mão na massa e entende de estética, design. 

E nesse último quesito, fiquei muito feliz quando algumas outras pessoas apareceram no segundo encontro. Eram alunos do segundo ano, algumas que tinham participado do curso de pintura do ano passado. Muita gente com ares de grafiteiros, de gente descolada, ou daquele jeito que na minha época era chamado de gótico, passou a ser emo e hoje era chamado às vezes de hipster. Eles eram desprezado em alguns círculos por serem diferentões, mas eram a turminha popular de outros círculos. Eu gostava bastante dessa gente porque eles experimentavam a vida. Roupas diferentes, novos jeitos de se comportar, de se querer, e principalmente de fazer. Eles não tinham medo. Se ficasse ruim, jogavam fora e começavam de novo. 

Eu ainda não vou dar nome aos bois (e vacas, sem intenção pejorativa...). Ainda é cedo, e eu suponho que muitos desse grupo ainda vão desistir e outros ainda vão entrar. Mas basta dizer que eu acho que temos uma mistura MUITO saudável de todo tipo de gente que o Colégio tem. Tipo um Breakfast Club do Colégio. São pessoas estranhas, e é isso que eu gosto em todos eles. 

No nosso primeiro encontro de trabalho mesmo, eu mostrei a eles como fazer transferência com thinner e fizemos novas edições de dois dos meus Phallics de Londres. Depois propus a eles para criarmos algum espaço para podermos falar anonimamente sobre tudo. Uma das meninas propôs uma conta de e-mail. Todo mundo tem a senha e pode mandar mensagens aos integrantes do grupo por esse e-mail. Ninguém sabe quem mandou. Acho que vai ser bom para desinibir essa turma. Se pudermos quebrar a barreira da timidez e do medo da reação dos outros, acho que esse grupo vai ter ótimas perspectivas.   

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Miopia seletiva

Eu percebi o problema pela primeira vez durante o meu segundo ano de aulas no Colégio, em uma aula sobre proporção humana. Além de ter todo o esquema de proporções do corpo (as 7 cabeças e tal) projetado na frente da sala, tinha feito outros rabiscos e desenhado outro corpo ao lado da projeção. No que, até então, era uma imagem corriqueira das minhas aulas, eu estava passando por entre as mesas, respondendo a chamados de alunos que queriam saber apenas uma coisa: "Psor, tá certo?" Eu ia respondendo com toda sinceridade, sim, não, quase lá, tá errado aqui e ali. Mas em uma turma particularmente barulhenta, me vi sobrecarregado de alunos pedindo minha atenção por essa pergunta tão simples. E aí me bateu: por que é que eles perguntam, se a resposta está diretamente na frente deles? Passei a responder de uma forma até um pouco mais grossa, dizendo "largue o lápis, olhe para a lousa".
"Mas psor, me diz você se está certo!"
"Largue o lápis, olhe para a lousa".
Os alunos demoravam algumas repetições até fazer o que eu estava pedindo. Depois eu perguntava: "está parecido com o seu caderno ali no pescoço da figura?"
"Mas psor...."
"Está parecido com o seu caderno?" eu insistia.
"Não mas..."
"Então não está certo, né?"
O aluno reagia não como se fosse contrariado, mas como se levantar a cabeça e olhar para o que estava sendo colocado diante deles fosse uma tarefa árdua, pensar na informações fosse exaustivo. Ter o rápido sim ou não do professor era muito mais confortável.

Essa aparente miopia dos alunos, que incapacitava por vezes até os que se sentavam à frente de enxergar as respostas dispostas diante dos olhos deles, ganhou ares de seletividade mais adiante, no final daquele ano. Na última aula de um 9º ano, que jamais teria aula comigo de novo, eu me dei por vencido diante de uma classe totalmente descontrolada, que não respondia a pedidos de silêncio nem ao silêncio do professor, mas continuava me rodeando em volta da minha mesa, pedindo orientação sobre o que estudar para a prova. O problema ali era que todos os que me rodeavam estavam essencialmente perguntando a mesma coisa, mas todos queriam uma resposta tête-a-tête, única, para aquele indivíduo.
Vencido, eu abri um Word projetado na lousa e passei a escrever as orientações para a prova. A quem me perguntava, eu respondia lacônico: "na lousa..." e voltava a escrever. A balbúrdia não cessou, mas os alunos passaram a ler, todos juntos, às mensagens que eu projetava, voltando depois à mesa para fazer mais perguntas.
Mas o que mais me chamou a atenção foi quando, entre os alunos lá na frente, eu vi alguns deles tirando seus iPhones para fotografar a tela. Mudei de fonte de letra, e passei a escrever:

[perceberam como ninguém dá a mínima para o que eu falar, mas se eu escrever, todo mundo lê e ainda fotografa? Entendamos assim: contato direto não funciona, vocês precisam ler depois uma foto do que eu ia dizer agora. São três graus de separação: fala - escrita - foto. Quanto mais separado eu estiver de vocês, mas atenção eu terei?]

A ideia parecia familiar. Me lembrava daquela outra cena comum das aulas, quando algum dos alunos perguntava: "Psor, isso tá no site do Colégio?". E a partir do momento em que eu respondia afirmativamente, aquele aluno ia perder qualquer atenção na aula e passar a jogar em seu iPad, crente de que poderia ter o mesmo efeito assistindo à aula ou pegando os arquivos do site. Ninguém mais escrevia nada. Quando muito, fotografavam uma tela projetada lá na frente. A foto, claro, jamais seria vista por eles.

Hoje aconteceu a cena mais recente dessas. Ultrajado porque ninguém lhe disse que os sketchbooks valeriam nota, um aluno do 8º ano me confrontou, dizendo que essa informação não estava no site do Colégio. Aproveitava ainda para confrontar as datas erradas que eu tinha colocado no site sobre a entrega de um exercício fotográfico. Incrédulo, eu só pude questionar se a minha presença lá na frente ainda valia alguma coisa. Eu tinha avisado sobre o valor dos sketchbooks na primeira aula do ano, e anotado no canto da lousa, como de praxe para qualquer lição de casa, a data da entrega do exercício. Mas de nada importava, o site do Colégio ditava as regras. Era ao site que eles respondiam. O site era tudo. Eu, ali na frente, era uma distração barulhenta, incompreensível como os professores do Charlie Brown. Comentei com a classe, que eu conseguira miraculosamente acalmar, que do jeito que as coisas estavam, o Colégio poderia disponibilizar aulas no site, e ninguém precisava estar lá. Alunos pesquisariam em casa, professores só viriam ao Colégio para administrar provas.

E por mais que, no fundo da cabeça de qualquer um, essa possibilidade parecesse tentadora, havia uma falha desumana nesse tipo de raciocínio, e ela tinha absolutamente tudo a ver com a minha matéria. Eu viera a compreender ao final do meu segundo ano de aulas, que o que eu deveria estar ensinando a estes alunos não era a história do surgimento da fotografia, ou que misturando cores primárias nós chegamos às secundárias. Não era a sucessão de movimentos de arte ou o jeito "certo" de fazer um roteiro de filme. Eles precisavam aprender uma coisa ainda mais básica. Uma coisa que eles estavam perdendo com o avanço tecnológico. Uma coisa que eles talvez só fossem perceber muito depois de se formarem da faculdade, quando a vida perdesse o sentido e parecesse fria demais. Eles precisavam aprender a ver.

Eles precisam aprender a ver em vez de apenas enxergar. A ouvir em vez de apenas escutar. Sentir em vez de só tocar (continuo achando o touchscreen a maior ironia desta época...). No âmbito da Lexy, ela diria ainda em saborear em vez de apenas experimentar. Era uma questão de percepção. Estes alunos estavam com a percepção tão embotada, tão atrofiada, tão esquecida, que haviam desenvolvido esse tipo de miopia seletiva, de visão meramente funcional, que só servia para navegar o ambiente sem bater nas mesas. Porque nem para ler servia direito. Para isso, tinha algum professor que lia por eles. As respostas estavam diante deles, assim como aquele desenho de proporção estivera, e eles não conseguiam VER!!

E naquele momento de compreender isso, eu tive raiva. Deles, dos pais deles, dos iPads e iPhones deles, de toda essa situação. De mim, por toda a impotência diante do valor cada vez mais questionável que eu tinha como professor. E a questão não era que eu achasse que seria substituído pela internet e aparelhos de mão. A questão é que estas coisas jamais ensinariam a estes alunos sobre percepção. Elas eram necessárias hoje, faziam parte da realidade deles. Mas valiam à pena se o preço a pagar era o esvaziamento dos sentidos?

Com toda a raiva, eu ao menos havia entendido a importância que os professores tinham, e que parecia cada vez mais indiscutível, na era da informática.

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sábado, Março 22, 2014
 

Trashed


Jeremy Irons é um daqueles atores que, assim como James Earl Jones ou Morgan Freeman, são detentores de vozes que valem a pena serem ouvidas. Pode declamar sonetos de amor e mensagens de genocídio com a mesma beleza.

Em Trashed, documentário exibido neste último sábado em uma sessão organizada pelo Colégio, Irons faz uma pesquisa sobre o modo como nós temos "resolvido" o problema do lixo no mundo. Ele parte das consequências dos aterros sanitários nos países pobres, onde eles não são fiscalizados; e nos ricos, onde mesmo os fiscalizados quebram as leis diante da aparente falta de alternativas. Passa então a ver opções como os incineradores e avalia as consequências da dispersão de seus resultados no ambiente ao redor. E termina o panorama pessimista investigando os giros oceanicos, áreas onde as correntes marítimas ficam dando voltas e concentram o lixo jogado pelo mundo todo.

A voz de Jeremy Irons e seu sotaque britânico reforçam a sensação de desespero nos fatos e imagens do documentário. Imagens muitas vezes impossivelmente fortes, inegavelmente chocantes. Mas em nenhum momento gratuitas. Porque a verdade é que, enquanto não formos chocados até o trauma por documentários como este ou como o Uma Verdade Inconveniente de Al Gore, não tomaremos ações significativas para mudar o que vem acontecendo. Eu assisti ao filme e não conseguia tirar da minha cabeça a longa lista de fatos cotidianos, infrações recorrentes que eu cometia, sabendo por alto das consequências que elas sugeriam. Eu continuava tomando água de copos descartáveis, mesmo tendo canecas à disposição no Colégio. Continuava aceitando meus produtos de feira embalados em sacos plásticos. E ainda não tinha feito a lição de casa básica de perguntar e averiguar se o lixo reciclável do meu prédio estava de fato sendo reciclado em vez de ser jogado junto com o resto.

Porém, mais do que tudo, não tirava da minha cabeça uma outra culpa mais inerente e difícil de mudar: a minha culpa como artista. Porque eu estava levando uma vida em prol da criação de experiências estéticas e de ensinar estas experiências aos alunos, mas isso consumia uma quantidade absurda de materiais: papel, tintas feitas de substâncias não-biodegradáveis, telas, solventes, plásticos de todo tipo. E para que? No fim de tudo, qual era o ganho que justificava tudo isso? O documentário me trouxe de volta questões da época de faculdade de Artes: seria possível reciclar esse material? Reciclar uma tela? A tinta seca e inutilizável que restava no final das sessões de pintura? Os tubos de plástico e alumínio das tintas? Pincéis velhos? Seria possível usar tudo isso para fazer mais material de arte?

Por hora, não tenho respostas a isso. Apenas uma vontade enorme de nunca mais comprar outra tela e passar a pintar em papel ou algo reciclado de jornais. Usar as tintas feitas de modo orgânico que eu ensino nas aulas. E varrer a minha casa atrás de todo plástico que possa ser substituído por papel (forros de lixo, sacolas de supermercado, embalagens para guardar alimentos prontos... ).

Trashed mostra exemplos de que reduzir drasticamente esse resultado nocivo é possível. A cidade de São Francisco, conta Irons, tem um programa que reduziu em 75% o lixo gerado na cidade, criando centenas de empregos no processo e economizando milhares de dólares para a cidade. E o passeio pela cidade é guiado por uma mulher, cuja família de três pessoas (e um coelho) conseguiram produzir, no ano passado inteiro, apenas uma sacola plástica cheia de lixo. São exemplos de que, com pesquisa e combatendo a preguiça e os hábitos de uma sociedade de consumo desenfreado e descarte irresponsável, dá sim para termos ambientes bem mais saudáveis e um futuro para nossos filhos.

Vai lá ser traumatizado um pouquinho. Você está precisando e nem sabe disso.

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sexta-feira, Janeiro 17, 2014
 

Tainted Dreams - Black Lace Gloves

I've been having trouble remembering my dreams. As the mind becomes more mature and complex, it finds new and clever ways to trick and hide things from itself. It used to be that I'd just forget the dream in those few seconds after awakening. But now, when trying to recall the latest dream, I have found evidence that I'm corrupting the memory, tainting it with bits and pieces (sometimes whole subjects) from other dreams. Recurring ideas, desires, compositions and references that weren't in the original dream. I can tell they weren't there nowadays. They are intrusions, like that freight train in Inception.

Allow me to give a few examples.
One of the most common intrusions is the full concept of a journey. Because of past dreams that were recalled in great length in which I travelled, I developed this tendency to start my recollections in the morning with "I think I was traveling to... where?" But I've noticed this comes mostly of a desire to travel, rather than from actually doing so in the dream. It is more of a compulsion and sometimes it wasn't actually there in the dream. 
Last night I caught another one. It was a dream in which I was assisting the arrival of a couple of travel buses with my students at a huge hotel lobby. I felt on display for them, as if I wanted to reassure them that one of the teachers they liked was there to take care of them. At the same time, I was going through the faces on those bus windows, looking for specific students that I liked in order to have the same reassurance that it was going to be a fun event (whatever it was we were arriving at...). Now, as I was showing myself to them, I leaned on one of the white pillars of the hotel lobby in a way that I had my left arm and hand in view. And in my recollection, I was wearing a moss green felt jacket and black lace gloves. But that wasn't there. It's hard to explain how I'm sure it wasn't there in the original dream, but I can say there is a sense of doubt, and a parallel memory of that arm being bare and the hand ungloved. And I know for a fact that this particular reference came from watching a couple of hours of a new Castlevania game last night, in which a character was wearing them.

I'm a purist when it comes to dreams, and I like to keep mine neat, just the way they came to me. My therapist, however, believes there is a lot to be understood from these freudian slips. For one thing, I understand I am placing myself again in the alter ego of a little girl, as I had done with Alice and the Butcher's Daughter. This character (Laura, from Castlevania: Lords of Shadow - Reverie) has the added bonus of being a vampire (and wearing goth lace), therefore tying in with my third and more recent alter ego.
But there is also another thing about this. Laura is a character that constantly taunts the main character with how powerful she is. She flaunts her power with all the sordidness of a child. But all the while, there is an element of helplessness and frailty to her. At one point, she asks the main character not to leaver her alone ever again. And though she boasts about how all the threats in the game are mere entertainment for her and that she will teach her foes a lesson, it always sounds to me more like she is trying to convince herself that there is no real danger there. She seems emotionally fragile.
I believe that element was placed there not only because I watched that game before going to bed, but also because this is somewhat how I feel with my students. Flaunting enormous power as an authority, a teacher, to hide an emotional frailty. 

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quinta-feira, Agosto 29, 2013
 

Carta aos 9os

Carta lida na última aula do 2º bimestre, aos alunos do 9º ano, que estavam estudando rudimentos de cinema.


Turma,

Estamos prestes a concluir o segundo bimestre do nosso curso, e assistimos aos primeiros vídeos feitos por vocês. Eu achei importante tomar um tempo da nossa aula pra dizer algumas coisas muito importantes que eu percebi com a entrega destes trabalhos.

Não é raro eu chegar nas classes no dia que reservamos para apresentar os vídeos e ouvir de um ou outro aluno: “Leão, por favor não passa o meu vídeo para a classe! Eu vou pagar o maior mico!” Esse pedido me entristece não por causa daquela vaidade de professor, de pensar “poxa, eles não gostaram do exercício que eu fiz e que tava muito legal...”. O pedido me entristece porque, além do fato de que o vídeo dessa pessoa vai estar muito mal feito,  eu percebo também que ela não entendeu todo o propósito do exercício e, de forma geral, o propósito de se fazer arte (seja ela vídeo, foto, desenho, o que for). Artistas lidam quase sempre com o desafio da estética (de fazer algo parecer belo, interessante, estimulante).  Eles também têm medo de serem medíocres. E eles só conseguem ser bons e fazer obras geniais se eles aceitarem o desafio. Não é um desafio fácil de propor para estudantes de um colégio que tem tradição em ensinar o pensamento científico, racional, mas que não faz ideia de ensinar como nem para que produzir a beleza. Como consequência, vocês sabem resolver questões de matemática, mas ainda têm dificuldade em resolver os próprios gostos. E como consequência, o desafio de produzir um filme onde vocês vão expor a sua própria imagem é visto como algo inútil (pra que que estamos tendo essa matéria?”).  A verdade é que vocês só vão entender a utilidade desta matéria quando estiverem lá fora, tendo que falar em público em reuniões de negócios, por exemplo.  Mas segurem este pensamento, eu volto a ele daqui a pouco.

No ano passado, eu peguei um curso estruturado de um jeito que vocês teriam que produzir um vídeo por bimestre. Era pouquíssimo tempo para desenvolver roteiros coerentes, se encontrar para gravar cenas que não fossem toscas e ter carinho na edição do produto final. E com os trabalhos das outras matérias, muita gente fazia tudo isso em uma semana. O resultado, claro, era péssimo. Os alunos sentiam que era impossível chegar em um resultado bom e que estavam sendo obrigados a serem expostos ao ridículo daquele jeito. Para resolver isto, esticamos o processo para ocupar um semestre inteiro. Por mim, eu faria o vídeo direito, durante um ano todo. Com tempo para dar retornos mais úteis nos seus roteiros e filmagens.

Mas mesmo com tempos curtos, tinha muita gente que entendia o desafio e tomava gosto por fazer filmes legais. Ou talvez só tivesse medo de pagar mico... O importante é que essas pessoas levavam o exercício a sério. As outras, faziam algo parecido àquela coisa de fazer careta para o autorretrato que discutimos no ano passado. Elas faziam coisas toscas como quem diz: “se eu assumir a tosquice, ninguém vai conseguir me criticar”. E depois justificavam o resultado dizendo: “ah, vai... ficou divertido”. E a verdade é que não ficava divertido. Ficava chato, longo e frequentemente expunha os participantes a ridículos maiores do que as turmas que tentaram levar a sério.

Imagine agora a tal da reunião de negócios. Vocês vão usar a mesma estratégia da careta/tosquice assumida? Olha, eu detesto ficar só nos exemplos de emprego e carreira: a verdade é que eu acho que essa seriedade no que se faz deveria ser um valor aplicado em tudo na vida. Até vídeo caseiro, bolinho de chocolate, e-mail para a namorada. Um bom artista presta atenção nos detalhes, porque eles dão todo o gosto à obra. Tem um ditado que diz que Deus está nos detalhes.

Eu também vejo com pena que, mesmo com toda a racionalidade científica que lhes foi ensinada, vocês ainda não aprenderam a respeitar o trabalho um do outro. E preferem tirar sarro do erro (mesmo quando foi acidental) a comemorar e parabenizar um acerto. Não é novidade então, que tanta gente tenha vergonha de mostrar o que fez. Essa falta de educação básica é uma força negativa, desencorajadora. Eu acredito que seriamos muito mais produtivos, confiantes e geniais se conseguíssemos parabenizar aberta e claramente quem foi criativo e teve soluções legais, e déssemos um toque em particular, na boa, em quem errou. 

Daria menos vergonha, né? 

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segunda-feira, Junho 17, 2013
 

Aula de roteiro

Postado no Facebook, aproveitando as aulas de roteiro que dei aos meus alunos.

CENA 1: 
VIDEO: PG (Plano Geral) aéreo dos manifestantes organizando a maior manifestação pacífica em anos de história da cidade de São Paulo, tomando a Avenida Paulista. 

AUDIO: (cantos em coro mostrando indignação contra os R$3,20 do transporte, o custo da Copa, a violência policial, a corrupção, o Renan Calheiros e a PEC 37.) 


CENA 2: 
VIDEO: "Fade" para cena PC (Plano Conjunto) dos líderes do Movimento Passe Livre dialogando com o governo e a mídia toda achando essa abertura para o diálogo linda. 

AUDIO: Líder do movimento: "Só achei um absurdo sermos recebidos pelo Ministro da Segurança Pública e não pelo Ministro dos Transportes".
CENA 3:
VIDEO: "Fade" para PD (Plano Detalhe) de um canto de TV onde a manchete de um jornal afirma que o governo voltou atrás nos R$3,20 e que as manifestações pararam. 

AUDIO: Âncora do Jornal: "...o governador do Estado Geraldo Alkmin garantiu ontem que as tarifas não sofrerão mais alterações durante seu mandato".
CENA 4:
VIDEO: Corte para PC de dois adolescentes na sala de casa, assistindo TV. 

ÁUDIO: Ele: "Que bom que os protestos acabaram, né? Tanta violência...".
Ela: "É mesmo. E nós conseguimos o que queríamos. O povo brasileiro mostrou que não vai mais ser feito de panaca.˜
Ele: "É... E o Alckmin mostrou que é um cara bacana, um político legal. Metrô voltou a R$3,00. Mas sabe que eu tô com uma sensação de que a gente esqueceu alguma coisa...."
Ela: "O que?"
Ele: "Não sei... Deixa pra lá. Tira desse jornal noticiando mais um escândalo de corrupção sem solução e bota na Globo que o jogo da Copa tá começando!"

Pessoal, muita calma nessa hora. Esses políticos vão saber exatamente como desarmar essa situação e ainda saírem por cima. Prestemos atenção para não nos contentarmos com migalhas. Não deixem este roteiro virar realidade!

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Considerações sobre a Revolta do Vinagre

Tentarei publicar este no blog de Artes do colégio. A parte sobre o Ai WeiWei já foi escrita aqui.

Eu ando acompanhando com muito interesse tudo relacionado aos protestos que têm ocorrido na nossa cidade. Além de perceber como os protestos mudaram minha própria posição de alienação e apatia, eles também têm me proporcionado uma ótima oportunidade para refletir um pouco sobre algumas das coisas que andei ensinando aos meus alunos de 9o ano, no curso sobre cinema. 
Atento-me especificamente a uma aula onde conversamos sobre o cinema sendo usado como ferramenta de dominação. O assunto da aula era o cinema, na forma do filme "Triunfo da Vontade" da cineasta nazista Leni Riefenstahl. Mas a rigor, a aula estende-se à mídia como um todo. Uma das estratégias de mídia que discutimos na aula consistia em omitir o emissor das mensagens. Trocando em miúdos: se você sabe QUEM emite a mensagem, você pode analisar este emissor e chegar à conclusão de que a mensagem é uma opinião de alguém de uma determinada classe social, representando determinados interesses. Mas se o emissor é oculto, a tarefa de contestar essa mensagem fica mais difícil. Nós a aceitamos como verdade mais facilmente. 

A semana pasada nos brindou com um exemplo formidável para estudo. O jornalista Arnaldo Jabor apareceu no espaço reservado a ele pela Rede Globo para emitir sua opinião sobre os protestos. De forma geral, desqualificou os protestantes, dizendo serem filhos da classe média ridiculamente protestando contra míseros R$0,20 que eles não precisavam, e descrevendo os policiais que reprimiam os protestos como as verdadeiras vítimas da violência. A opinião não era novidade. Boa parte da mídia mais conservadora repetia a mesma opinião. Mas, conforme nosso exemplo em aula, quando o William Bonner profere a notícia, sabemos que não é a opinião DELE. É uma opinião de alguém que lhe forneceu a notícia, e que permanece oculto, inquestionável, enquanto o âncora do jornal descreve os manifestantes como vândalos. Não se pode protestar contra o Bonner, seria injusto. Da mesma forma que seria injusto xingar um(a) atendente de call center pelas sacanagens perpetradas pela empresa para a qual ele/ela trabalha. "Odeie a mensagem, não o mensageiro". Mais do que isso: com o emissor oculto por trás do vasto e imponente nome da emissora de televisão mais assistida do país, a maioria das pessoas até desconfia, mas cede à ideia de que, se tamanho grupo de jornalistas está dizendo isso, eles devem saber mais do que nós. 
O caso do Jabor é diferente. Ele assina o comentário, da uma cara à opinião. O emissor não está mais oculto, ele está escancarado. E mal informado. Ele torna-se extremamente vulnerável ao ataque, à contradição de sua opinião. 
Diante da onda de denúncias de violência policial ocorrida na quinta-feira de protestos (dia 13/06), Jabor recebeu uma outra onda de vídeos em resposta ao seu comentário ([1] [2] - para citar alguns). Não teve outra opção que não a de se retratar. Mas fez isso através da CBN, tomando o constrangimento para si e evitando expor a rede Globo. 

Na segunda, eu fui ao protesto que começou na Faria Lima. Fui leve, sem nada que me tornasse uma ameaça para a polícia, pronto para correr. Meu coração acelerava com o número de gente na estação de metrô e as palavras de ordem cantadas por todos. Eu não via nada assim desde Londres, no meu mestrado. Larguei a manifestação e voltei para casa quando comecei a sentir no ar o cheiro característico dos solventes contidos nas latas de spray. Pixar propriedade alheia podia ser motivo para a polícia entrar em ação e a coisa iria escalar. Resolvi contribuir para o protesto de outras formas, incluindo este texto e a tentativa de abrir os olhos da criançada para questionar mais as informações que recebem do mundo lá fora. 

No caminho de volta para casa, fui lembrando do que eu havia escrito sobre a exposição do chinês Ai Weiwei no MISque visitei em Fevereiro deste ano. Eu soube dele pela primeira vez em Londres, uma instalação na Tate Modern onde ele lotou o piso da galeria de sementes de girassol feitas de porcelana. Milhões delas, feitas uma a uma por voluntários chineses. De lá pra cá, Wei Wei foi preso pelo governo chinês, o que causou toda uma polêmica mundial de artistas pela sua libertação, e aparentemente foi viver nos EUA ou algo assim. 

Assim como a Yaoni Sanchez que a minha mãe lê, fala corajosa e abertamente sobre as incoerências, e a miséria causada pela ditadura vigente em seu país de origem. Uma ditadura que prometeu igualdade a todos e forneceu uma igualdade de míngua e burocracia. A exposição no MIS era uma coletânea enorme de fotografias tiradas por Wei Wei e seus assistentes, documentando diversos processos de diversos dos trabalhos do artista. Todos trabalhos que falavam sem romantismos desnecessários sobre tudo o que estava acontecendo. Daquele tipo de documentação direta que qualquer blogueiro hoje faz. O que levou à já bastante recorrente pergunta: "mas isso é arte?" De fato, algumas das fotos que Wei Wei faz não chegam a ser muito mais diferentes do que o que muitos conterrâneos meus postam no Facebook, indignados com o nosso país. Nem é possível dizer que elas sejam dotadas daquela mítica "sensibilidade artística" que as separa das fotos das ditas "pessoas comuns". Mas tudo muda para ele (e para a Yaoni Sanchez), porque existe uma força opositora relevante. Isso muda tudo. Se você posta no Facebook a sua indignação contra este ou aquele partido político, esta ou aquela medida do governo, nada disso importa. Você vive em um país livre e supostamente democrático, onde você pode exercer a sua liberdade de expressão sem medo. Isso torna-se uma faca de dois gumes, porque embora você a possa expressar, a sua opinião também pode ser sumariamente ignorada. Se o governo não fizer nada a respeito (nem acatando o seu desejo de justiça, e nem prendendo você por externar o que sente), é quase como se você não tivesse dito nada. Com Wei Wei e Sanchez, a coisa é outra. Qualquer comentário dissidente e eles misteriosamente "são sumidos" por algum tempo, têm seus bens confiscados, sua vida incrivelmente dificultada. Eles precisam de muito mais coragem para dizer o que nós ouvimos tanto que chegamos a ignorar ("mais uma denúncia de corrupção..."). O choque entre a força opositora que nós não temos aqui em nosso país e a coragem deles é o que faz um gesto tão simples como tirar um autorretrato ou blogar sobre o dia-a-dia virar uma obra de arte política. Não tem absolutamente nada a ver com técnica artística. [Disclaimer: sim, eu sei que o Wei Wei tem obras de arquitetura incríveis, foi responsável em parte pelo estádio conhecido como "Ninho de Pássaro" na China e tem outras obras bem mais tecnicamente interessantes, mas estou me atendo aqui à exposição do MIS].  Encerro a reflexão fazendo a pergunta: sendo que não temos aqui tamanha força opositora que valide as nossas expressões de indignação dissidentes, o que é que nós precisaríamos fazer (como trabalho artístico/expressivo) para ter o mesmo impacto que Wei Wei e Sanchez? Talvez, na hora em que a Tropa de Choque abriu fogo contra os manifestantes na quinta, eles tenham cometido o ato que faltava para validar essa nossa grande obra de arte coletiva que aconteceu nestas últimas semanas.


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sexta-feira, Maio 10, 2013
 

Back in the Bubble

There was a strong and somewhat negative change in me after I began teaching at my former highschool. The fact is that teaching there became a sort of guideline to my existence, my routine and my interests. I was now teaching 11 to 16-year-olds from wealthy families about art, at a school that favored practical thinking. This, in a way, limited my openness exclusively to what I felt was relevant to this scenario. No time, energy or interest in anything else.

I felt hugely comfortable teaching them about the inner workings of photo cameras or the language of cinema, the practical tricks to improving their drawing and the basics of color theory. It was the practical side of art, something that wasn't so vulnerable to being written off as a useless waste of time, because it was tangible knowledge, that could be put to some use by students who had good access to high culture (though whether they chose to make the most of that access or indulge in lower, more futile, but equally usable pop references remained up to them...). This became the direction towards which I was driving all my being.
At some point, I noticed I was inherently different from the other teachers-in-training I was studying with. They were simple people from all walks of life, who had decided to provide children with some artistic experience. But they seemed conformed with ending up as underpaid teachers in public schools, as if the idea of striving for a well-paid job at a private school was an impossibility and I had somehow struck gold with the job I currently had.
It felt to me as well that they had some sort of skewed idea that the poor, the uncultured, the underdogs were the ones who would make the most of what they could offer, as if the wealthy were too priviledged and spoilt to deserve or even need these lessons and they would magically "happen" in their heads with no external help needed.
Furthermore, it bored me to notice that the approach these future teachers favored consisted of a slew of random and patronizing crafting exercises - making paper maché dolls, making stamps out of corks or potatoes, that sort of thing - that resulted in "cute" works from students who were completely clueless as to why they were doing this. The art class was an exercise in futility and students eventually degenerated into treating the class a a second break and the teacher as an idiot (with good reason too, since the class felt like the teacher was treating them as idiots...). I heard gruesome stories of disgruntled and bored public school students physically assaulting teachers -  such was the degree of disrespect. Granted that these exercises did develop students' dexterity and their cognitive abilities, but I was sure that could be done while at the same time teaching them actual conscious skills they could consciously use and facts they could assimilate, rather than one-off parlor tricks. I was expecting to be treated with respect, even if my class wasn't an integral part of the university admission exams. In order to have that, I had to give the students something tangible as well.

But all of this meant I was also becoming somewhat more narrow-minded. I had been to the public schools as part of teacher trainning. I had seen first hand how most of these humbler students were lacking in the basic formation needed to comprehend some of the more complex concepts. How most of them didn't even care. How the schools themselves were unwilling to invest what was needed for a decent art course because they didn't see it as something a future low-class worker would need. Gradually, I myself began to buy into the notion that improving an art course at a public school was a waste of time. I came close to believing that art was indeed irrelevant to these students (other than what they needed to carry out the manufacture of carnival floats and costumes, an industry that kept many of them out of misery). Bottom line: I shut myself off from the outer world, remaining inside this upper-class bubble.

I recognize this enormous prejudice as a way "the System" has of reproducing itself. Still, I see no way of escaping this at present. The teacher trainning classes, my classes, the painting classes on Wednesdays, everything is taking up so much time that there is no way to include volunteering for lower-class schools right now. Perhaps in the future.

And even then, I'll first have to be convinced I can actually make a difference in such children's lives.

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segunda-feira, Maio 06, 2013
 

Bullshitism

Lá em Londres, durante o mestrado, um dos professores nos mostrou este vídeo:




[Fiquei sabendo agora que a artista deu uma palestra na faculdade de Camberwell para os formandos do mestrado de lá naquele mesmo ano. Perdi...]

O vídeo me fez pensar sobre como eu andava ouvindo muito disso por aí. Não é nenhuma novidade que a carreira de arte baseia-se muito na sua capacidade de fazer política, de se apresentar como algo palatável e não como o que você realmente é: um estudante de arte inseguro, sem controle sobre a qualidade do que você faz, tateando no escuro pra ver se você acerta algum veio principal das questões estéticas da nossa época. Nessa tentativa de se vestir de alguém com mais autoconfiança, criamos todo esse vernáculo de palavras bonitas que na verdade não dizem nada além disso: que somos estudantes de artes inseguros, sem controle sobre a qualidade do... deu pra entender, né? Eu fui perceber lá em Chelsea (e já tinha percebido com alguns outros artistas por aqui) que essa estratégia do bullshitism realmente funciona pra muita gente. Entendidos e não entendidos de arte, que engolem as obras, sejam quais forem, se elas vierem empacotadas em palavras complicadas. Assim como engolem os artistas se eles vierem travestidos de personas excêntricas e expansivas.

Em uma tentativa bem-humorada de botar em prática essa crítica, e ao mesmo tempo tentar fazer a turminha que morava comigo na Bernard Myers House em Camberwell lavar a própria louça depois de comer, eu fiz toda uma série de fotos dos restos mofados de comida deles, cada uma acompanhada de um texto bem bullshitista, defendendo cada "obra" como um trabalho de arte pós-moderna. Acabou virando um álbum no meu Facebook, chamado de Kitchen Filth:

The latest trend in Filth Art mixes several elements of the postmodernist discourse. The contempt towards commercial art exemplified by the use of perishable materials, the stylistic promiscuity in the mix of old and new elements, the unconventional and uncategorisable final products and even ethnic elements that challenge Greenbergian modernism.


[Clique nos nomes das obras para ver]
Potception: (Ramekin on mold and unknown substance on bowl)
The geniality of this one resides in the complex play between container and substance, allowing a multiple-layered interpretation. A container sits on substance, which in turn sits on a container. This could go on indefinitely.

Koolaid: (Mold on artificially flavored beverage on glass)
The advent of modern synthetic materials such as artifical beverages gave rise to new possibilities in contemporary Filth Art, like the growth of mold on liquid displayed on this piece.

O negócio caiu tão bem na rotina da Bernard Myers, que no final do nosso período lá, eu até documentei o "trabalho final" que algum artista de Filth Art fez na nossa geladeira (e na de outros cinco apartamentos). Tudo devidamente satirizado com legenda bullshitista

Final Piece: I believe this is our Filth Artist's final piece for his/her degree show.
Notice the nice balance between the empty fridge door and the full fridge interior, linked together by the empty ketchup bottles left on the empty door, with their content reaching out to the other, full area. It's a conceptual link.
Although I have to say that I felt there's an element missing from this piece in relation to the others: the mold. Perhaps our artist just didn't have enough time to grow it before presenting it to us this morning....
You can view other pieces in this final series of works in Kenny Foot's album "June 4th"

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quarta-feira, Abril 24, 2013
 

Evangelion Rebuild 1.01

Quase dez anos depois de assistir a série de anime que influenciou a minha vida, fiquei sabendo que os criadores resolveram fazer um reboot da série. O Evangelion original, em vinte e poucos episódios, foi refeito em alguns (quatro?) filmes de duas horas cada. Tenho encontrado meios de ter acesso a isso.

Fiquei com vontade de escrever a respeito porque esta experiência tem me trazido de volta sentimentos que eu acreditava terem sido esquecidos, deixados naquela época de fim de adolescência. Sentimentos gostosos de se emocionar junto com um seriado de desenho animado.
Mas é diferente agora. Eu cresci, amadureci, e de uma forma muito simbólica, sou também um reboot daquele adolescente que eu era. Expandido, melhorado, com personagens (personas) adicionais e novos efeitos especiais.
O seriado ganhou toda uma roupagem nova, um visual muito mais dark. Os Angels estão muito mais repugnantes, viscerais mesmo. E o que mais me impressionou foi como toda a paisagem emocional dos personagens foi completamente retrabalhada, para ficar muito mais clara, muito mais envolvente e permitir uma identificação muito maior. Ainda estou apenas no primeiro filme, e já me apaixonei de novo por Ayanami, senti um mundo de pena por Shinji, e outro mundo de ódio por seu pai.

Mas rever o seriado também me trás de volta alguns conceitos há muito esquecidos no blog, e que viriam a calhar hoje em dia. O seriado tem muitos termos ligados à psicologia e religião. Eu lembro com grande afeto de usar largamente o conceito do Campo AT para falar do quanto permitimos que outras pessoas se aproximem, penetrem na nossa intimidade, e o quanto as mantemos afastadas. Lidar com alunos é estabelecer todo um novo embate de Campos AT que eu nem considerava naquela época.

Engraçado como o mundo dá voltas. Quiçá isto seja o início de algo, como o seriado foi antigamente.

Ou quiçá eu esteja novamente me apegando de mais a passados gostosos que deveriam ser superados.

Anyway, se vocês (nem sei mais quem são "vocês"...) quiserem me acompanhar, cá está. Eu adoraria ter compania, embora não consiga lembrar de ninguém que tenha curtido o anime comigo antigamente e que teria o mesmo gosto e compreensão nostálgicos que eu estou tendo.






[EDIT: Achei um dublado em português!!]

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The tracks of 1 creature(s) stir the dirt
segunda-feira, Abril 22, 2013
 

Romantismo no MASP

O melhor de ser professor é que você acaba aprendendo muito para poder ensinar, e desenvolve um olhar mais detalhado sobre coisas que normalmente passariam mais superficialmente. No ano passado, fui com alunos o Ensino Médio para a exposição sobre o Impressionismo no Centro Cultural Banco do Brasil, no centro da cidade. Aprendi muito mais do que ensinei, e saí com uma visão BEM diferente e muito mais madura do que tinha sido o movimento, o que levou aos pintores a fazerem obras daquele jeito e como os artistas seguintes se apropriaram dessa linguagem. Nesse ano, pensando em fazer o mesmo, fui dar uma olhada inicial na exposição do MASP sobre o Romantismo.

Como falar para alunos de um colégio como o meu sobre o Romantismo?


Catedral de Salisbury Vista do Jardim do Bispo
por John Constable
O movimento encerra tudo do que eles mais precisam, e ao mesmo tempo nada do que eles podem compreender tão racionalmente. Pode-se falar das questões formais que fazem uma pintura romântica: como o tom escuro da vegetação às margens do quadro isola o espectador do mundo real, fazendo-o atravessar  por um buraco na mata em penumbra para visualizar um por do sol perfeito e brilhante atrás de uma catedral esfumaçada pela perspectiva atmosférica. Falar disso é falar de como nós, espectadores do quadro, estamos colocados nessa mata fechada que pode representar um monte de coisas: uma vida difícil, sufocante como mata fechada; uma escuridão fria que representa a falta de razão, de sentimento. Enfim, a vida real é tediosa, difícil e fria; é isso que os românticos dizem. E criam até um termo para isso: a vida é cheia de spleen.  O quadro romântico fala da possibilidade de encontrar uma abertura por entre essas folhagens escuras e modorrentas, para visualizar aquele por do sol quentinho, brilhante e colorido, representando sensações positivas e êxtase, como se a vida pudesse ser melhor, mais interessante e plena. O por do sol surge por trás de uma catedral perfeita, representando o acalanto da fé e da civilização, que são vistas como fonte desses sentimentos positivos. Porém o quadro também tem um elemento pessimista, já que a catedral e o por do sol estão muito além da floresta negra em que nos encontramos, fora do alcance. A distância é tanta que os contornos da catedral ficam azulados e perdem a nitidez. A composição é um jogo de seduzir este ser da floresta com esses confortos e segurança, e ao mesmo tempo lhe negar o acesso.
A maioria dos quadros do Romantismo têm essa configuração de ambiguidades: o escuro e a luz, o selvagem e a civilização, o violento e o seguro, o arrebatamento e a razão. E a grande brincadeira do Romantismo vai ser criar tamanha tensão entre essas duas coisas, entre seduzir e negar, que o espectador vai ter medo de quando essa tensão for satisfeita. Medo de ter aquela sensação de "ué, depois de toda essa antecipação, era só isso?". Medo de que a ideia que ele criou do êxtase seja muito maior do que o êxtase em si.
Em termos mundanos, é como ser seduzido(a) pela pessoa gostosa, bem vestida e culta, apenas para descobrir que ele(a) beija mal e é um tédio na cama.  E o resultado, em termos ainda mais mundanos, é que boa parte dos Românticos vai preferir a ereção ao orgasmo, a idealização à realidade.


Mas e daí? Falar para meus alunos sobre estes aspectos visuais do Romantismo (sem mencionar ereções e orgasmos, claro... ¬.¬) faria com que eles entendessem a cara de uma pintura romântica, sem entender sua graça, sua alma. Para entender o Romantismo, seria preciso falar do sublime. Mas que criança de família abastada e vida segura conseguiria entender o pavor, a loucura e o maravilhamento do sublime? O sublime que, na época do Romantismo, era relacionado ao terror do selvagem, da noite, da violência irracional.

Um terror muito maior do que qualquer um de nós, incompreensível, indomável. A Natureza era o maior monstro! E era por isso que pessoas, nos quadros Românticos, apareciam sempre pequeninas, perdidas na mata, à deriva no mar; e as edificações pareciam ser pequenos oásis de civilização e linhas retas, sendo lenta e inexoravelmente tragados pela Natureza (alô, casa da tia Suzy...) de borrões escuros esverdeados até virar ruinas.
Cachoeira de Paulo Afonso
de E. F. Schute
Paisagem com Fonte
de Charles-Émile Vacher de Tournemine

O Romantismo, no MASP, recebeu o subtítulo de "Arte do Entusiasmo". Na verdade, o movimento de fato expressa sentimentos muito fortes. Mas nem sempre positivos, entusiásticos. Nas vertentes mais extremas, foi o movimento que levou ao Werther de Goethe, e ao Drácula de Bram Stoker.  Às poesias de Lord Byron Álvares de Azevedo (no Brasil).  Essa busca por emoções fortes (positivas e negativas) pode ser encontrada até hoje em muito da nossa cultura que procura o êxtase (extasy) a qualquer preço (inclusive pagando com a saúde). O que mostra que o Romantismo foi mais do que um movimento passageiro da primeira metade do século XIX. Ele perdura até hoje, meio escondido, debaixo da sua cama, na escuridão da mata à noite, no fundo do mar. Esperando para atacar com todo seu caráter sublime a qualquer momento.

[SERVIÇO]
Quem se interessar pela exposição, pode encontrar mais informações no site do MASP.
A exposição fica aberta de terça a domingo e feriados, das 11h às 18h. Às quintas, das 11h às 20h.
Preços vão de R$7,00 para estudantes a R$15,00 a inteira. [Terça é de graça!!!]

E mais informações sobre o romantismo podem ser encontradas nos links abaixo:
• http://pt.wikipedia.org/wiki/Romantismo
• http://pt.wikipedia.org/wiki/Romantismo_no_Brasil
• http://www.suapesquisa.com/romantismo/romantismo.htm
• http://www.soliteratura.com.br/romantismo/

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