There was a strong and somewhat negative change in me after I began teaching at my former highschool. The fact is that teaching there became a sort of guideline to my existence, my routine and my interests. I was now teaching 11 to 16-year-olds from wealthy families about art, at a school that favored practical thinking. This, in a way, limited my openness exclusively to what I felt was relevant to this scenario. No time, energy or interest in anything else.
I felt hugely comfortable teaching them about the inner workings of photo cameras or the language of cinema, the practical tricks to improving their drawing and the basics of color theory. It was the practical side of art, something that wasn't so vulnerable to being written off as a useless waste of time, because it was tangible knowledge, that could be put to some use by students who had good access to high culture (though whether they chose to make the most of that access or indulge in lower, more futile, but equally usable pop references remained up to them...). This became the direction towards which I was driving all my being.
At some point, I noticed I was inherently different from the other teachers-in-training I was studying with. They were simple people from all walks of life, who had decided to provide children with some artistic experience. But they seemed conformed with ending up as underpaid teachers in public schools, as if the idea of striving for a well-paid job at a private school was an impossibility and I had somehow struck gold with the job I currently had.
It felt to me as well that they had some sort of skewed idea that the poor, the uncultured, the underdogs were the ones who would make the most of what they could offer, as if the wealthy were too priviledged and spoilt to deserve or even need these lessons and they would magically "happen" in their heads with no external help needed.
Furthermore, it bored me to notice that the approach these future teachers favored consisted of a slew of random and patronizing crafting exercises - making paper maché dolls, making stamps out of corks or potatoes, that sort of thing - that resulted in "cute" works from students who were completely clueless as to why they were doing this. The art class was an exercise in futility and students eventually degenerated into treating the class a a second break and the teacher as an idiot (with good reason too, since the class felt like the teacher was treating them as idiots...). I heard gruesome stories of disgruntled and bored public school students physically assaulting teachers - such was the degree of disrespect. Granted that these exercises did develop students' dexterity and their cognitive abilities, but I was sure that could be done while at the same time teaching them actual conscious skills they could consciously use and facts they could assimilate, rather than one-off parlor tricks. I was expecting to be treated with respect, even if my class wasn't an integral part of the university admission exams. In order to have that, I had to give the students something tangible as well.
But all of this meant I was also becoming somewhat more narrow-minded. I had been to the public schools as part of teacher trainning. I had seen first hand how most of these humbler students were lacking in the basic formation needed to comprehend some of the more complex concepts. How most of them didn't even care. How the schools themselves were unwilling to invest what was needed for a decent art course because they didn't see it as something a future low-class worker would need. Gradually, I myself began to buy into the notion that improving an art course at a public school was a waste of time. I came close to believing that art was indeed irrelevant to these students (other than what they needed to carry out the manufacture of carnival floats and costumes, an industry that kept many of them out of misery). Bottom line: I shut myself off from the outer world, remaining inside this upper-class bubble.
I recognize this enormous prejudice as a way "the System" has of reproducing itself. Still, I see no way of escaping this at present. The teacher trainning classes, my classes, the painting classes on Wednesdays, everything is taking up so much time that there is no way to include volunteering for lower-class schools right now. Perhaps in the future.
And even then, I'll first have to be convinced I can actually make a difference in such children's lives.
From the tracks on the grass, you can tell a Lion walked here at 5/10/2013 12:56:00 PM
Segunda-feira, Maio 06, 2013
Bullshitism
Lá em Londres, durante o mestrado, um dos professores nos mostrou este vídeo:
[Fiquei sabendo agora que a artista deu uma palestra na faculdade de Camberwell para os formandos do mestrado de lá naquele mesmo ano. Perdi...]
O vídeo me fez pensar sobre como eu andava ouvindo muito disso por aí. Não é nenhuma novidade que a carreira de arte baseia-se muito na sua capacidade de fazer política, de se apresentar como algo palatável e não como o que você realmente é: um estudante de arte inseguro, sem controle sobre a qualidade do que você faz, tateando no escuro pra ver se você acerta algum veio principal das questões estéticas da nossa época. Nessa tentativa de se vestir de alguém com mais autoconfiança, criamos todo esse vernáculo de palavras bonitas que na verdade não dizem nada além disso: que somos estudantes de artes inseguros, sem controle sobre a qualidade do... deu pra entender, né? Eu fui perceber lá em Chelsea (e já tinha percebido com alguns outros artistas por aqui) que essa estratégia do bullshitism realmente funciona pra muita gente. Entendidos e não entendidos de arte, que engolem as obras, sejam quais forem, se elas vierem empacotadas em palavras complicadas. Assim como engolem os artistas se eles vierem travestidos de personas excêntricas e expansivas.
Em uma tentativa bem-humorada de botar em prática essa crítica, e ao mesmo tempo tentar fazer a turminha que morava comigo na Bernard Myers House em Camberwell lavar a própria louça depois de comer, eu fiz toda uma série de fotos dos restos mofados de comida deles, cada uma acompanhada de um texto bem bullshitista, defendendo cada "obra" como um trabalho de arte pós-moderna. Acabou virando um álbum no meu Facebook, chamado de Kitchen Filth:
The latest trend in Filth Art mixes several elements of the postmodernist discourse. The contempt towards commercial art exemplified by the use of perishable materials, the stylistic promiscuity in the mix of old and new elements, the unconventional and uncategorisable final products and even ethnic elements that challenge Greenbergian modernism.
[Clique nos nomes das obras para ver] Potception: (Ramekin on mold and unknown substance on bowl)
The geniality of this one resides in the complex play between container and substance, allowing a multiple-layered interpretation. A container sits on substance, which in turn sits on a container. This could go on indefinitely.
Koolaid: (Mold on artificially flavored beverage on glass)
The advent of modern synthetic materials such as artifical beverages gave rise to new possibilities in contemporary Filth Art, like the growth of mold on liquid displayed on this piece.
O negócio caiu tão bem na rotina da Bernard Myers, que no final do nosso período lá, eu até documentei o "trabalho final" que algum artista de Filth Art fez na nossa geladeira (e na de outros cinco apartamentos). Tudo devidamente satirizado com legenda bullshitista
Final Piece: I believe this is our Filth Artist's final piece for his/her degree show.
Notice the nice balance between the empty fridge door and the full fridge interior, linked together by the empty ketchup bottles left on the empty door, with their content reaching out to the other, full area. It's a conceptual link.
Although I have to say that I felt there's an element missing from this piece in relation to the others: the mold. Perhaps our artist just didn't have enough time to grow it before presenting it to us this morning....
You can view other pieces in this final series of works in Kenny Foot's album "June 4th"
From the tracks on the grass, you can tell a Lion walked here at 5/06/2013 01:41:00 PM
Quarta-feira, Abril 24, 2013
Evangelion Rebuild 1.01
Quase dez anos depois de assistir a série de anime que influenciou a minha vida, fiquei sabendo que os criadores resolveram fazer um reboot da série. O Evangelion original, em vinte e poucos episódios, foi refeito em alguns (quatro?) filmes de duas horas cada. Tenho encontrado meios de ter acesso a isso.
Fiquei com vontade de escrever a respeito porque esta experiência tem me trazido de volta sentimentos que eu acreditava terem sido esquecidos, deixados naquela época de fim de adolescência. Sentimentos gostosos de se emocionar junto com um seriado de desenho animado.
Mas é diferente agora. Eu cresci, amadureci, e de uma forma muito simbólica, sou também um reboot daquele adolescente que eu era. Expandido, melhorado, com personagens (personas) adicionais e novos efeitos especiais.
O seriado ganhou toda uma roupagem nova, um visual muito mais dark. Os Angels estão muito mais repugnantes, viscerais mesmo. E o que mais me impressionou foi como toda a paisagem emocional dos personagens foi completamente retrabalhada, para ficar muito mais clara, muito mais envolvente e permitir uma identificação muito maior. Ainda estou apenas no primeiro filme, e já me apaixonei de novo por Ayanami, senti um mundo de pena por Shinji, e outro mundo de ódio por seu pai.
Mas rever o seriado também me trás de volta alguns conceitos há muito esquecidos no blog, e que viriam a calhar hoje em dia. O seriado tem muitos termos ligados à psicologia e religião. Eu lembro com grande afeto de usar largamente o conceito do Campo AT para falar do quanto permitimos que outras pessoas se aproximem, penetrem na nossa intimidade, e o quanto as mantemos afastadas. Lidar com alunos é estabelecer todo um novo embate de Campos AT que eu nem considerava naquela época.
Engraçado como o mundo dá voltas. Quiçá isto seja o início de algo, como o seriado foi antigamente.
Ou quiçá eu esteja novamente me apegando de mais a passados gostosos que deveriam ser superados.
Anyway, se vocês (nem sei mais quem são "vocês"...) quiserem me acompanhar, cá está. Eu adoraria ter compania, embora não consiga lembrar de ninguém que tenha curtido o anime comigo antigamente e que teria o mesmo gosto e compreensão nostálgicos que eu estou tendo.
From the tracks on the grass, you can tell a Lion walked here at 4/24/2013 06:04:00 AM
Segunda-feira, Abril 22, 2013
Romantismo no MASP
O melhor de ser professor é que você acaba aprendendo muito para poder ensinar, e desenvolve um olhar mais detalhado sobre coisas que normalmente passariam mais superficialmente. No ano passado, fui com alunos o Ensino Médio para a exposição sobre o Impressionismo no Centro Cultural Banco do Brasil, no centro da cidade. Aprendi muito mais do que ensinei, e saí com uma visão BEM diferente e muito mais madura do que tinha sido o movimento, o que levou aos pintores a fazerem obras daquele jeito e como os artistas seguintes se apropriaram dessa linguagem. Nesse ano, pensando em fazer o mesmo, fui dar uma olhada inicial na exposição do MASP sobre o Romantismo.
Como falar para alunos de um colégio como o meu sobre o Romantismo?
Catedral de Salisbury Vista do Jardim do Bispo
por John Constable
O movimento encerra tudo do que eles mais precisam, e ao mesmo tempo nada do que eles podem compreender tão racionalmente. Pode-se falar das questões formais que fazem uma pintura romântica: como o tom escuro da vegetação às margens do quadro isola o espectador do mundo real, fazendo-o atravessar por um buraco na mata em penumbra para visualizar um por do sol perfeito e brilhante atrás de uma catedral esfumaçada pela perspectiva atmosférica. Falar disso é falar de como nós, espectadores do quadro, estamos colocados nessa mata fechada que pode representar um monte de coisas: uma vida difícil, sufocante como mata fechada; uma escuridão fria que representa a falta de razão, de sentimento. Enfim, a vida real é tediosa, difícil e fria; é isso que os românticos dizem. E criam até um termo para isso: a vida é cheia de spleen. O quadro romântico fala da possibilidade de encontrar uma abertura por entre essas folhagens escuras e modorrentas, para visualizar aquele por do sol quentinho, brilhante e colorido, representando sensações positivas e êxtase, como se a vida pudesse ser melhor, mais interessante e plena. O por do sol surge por trás de uma catedral perfeita, representando o acalanto da fé e da civilização, que são vistas como fonte desses sentimentos positivos. Porém o quadro também tem um elemento pessimista, já que a catedral e o por do sol estão muito além da floresta negra em que nos encontramos, fora do alcance. A distância é tanta que os contornos da catedral ficam azulados e perdem a nitidez. A composição é um jogo de seduzir este ser da floresta com esses confortos e segurança, e ao mesmo tempo lhe negar o acesso.
A maioria dos quadros do Romantismo têm essa configuração de ambiguidades: o escuro e a luz, o selvagem e a civilização, o violento e o seguro, o arrebatamento e a razão. E a grande brincadeira do Romantismo vai ser criar tamanha tensão entre essas duas coisas, entre seduzir e negar, que o espectador vai ter medo de quando essa tensão for satisfeita. Medo de ter aquela sensação de "ué, depois de toda essa antecipação, era só isso?". Medo de que a ideia que ele criou do êxtase seja muito maior do que o êxtase em si.
Em termos mundanos, é como ser seduzido(a) pela pessoa gostosa, bem vestida e culta, apenas para descobrir que ele(a) beija mal e é um tédio na cama. E o resultado, em termos ainda mais mundanos, é que boa parte dos Românticos vai preferir a ereção ao orgasmo, a idealização à realidade.
Mas e daí? Falar para meus alunos sobre estes aspectos visuais do Romantismo (sem mencionar ereções e orgasmos, claro... ¬.¬) faria com que eles entendessem a cara de uma pintura romântica, sem entender sua graça, sua alma. Para entender o Romantismo, seria preciso falar do sublime. Mas que criança de família abastada e vida segura conseguiria entender o pavor, a loucura e o maravilhamento do sublime? O sublime que, na época do Romantismo, era relacionado ao terror do selvagem, da noite, da violência irracional.
Um terror muito maior do que qualquer um de nós, incompreensível, indomável. A Natureza era o maior monstro! E era por isso que pessoas, nos quadros Românticos, apareciam sempre pequeninas, perdidas na mata, à deriva no mar; e as edificações pareciam ser pequenos oásis de civilização e linhas retas, sendo lenta e inexoravelmente tragados pela Natureza (alô, casa da tia Suzy...) de borrões escuros esverdeados até virar ruinas.
Cachoeira de Paulo Afonso
de E. F. Schute
Paisagem com Fonte
de Charles-Émile Vacher de Tournemine
O Romantismo, no MASP, recebeu o subtítulo de "Arte do Entusiasmo". Na verdade, o movimento de fato expressa sentimentos muito fortes. Mas nem sempre positivos, entusiásticos. Nas vertentes mais extremas, foi o movimento que levou ao Werther de Goethe, e ao Drácula de Bram Stoker. Às poesias de Lord Byron e Álvares de Azevedo (no Brasil). Essa busca por emoções fortes (positivas e negativas) pode ser encontrada até hoje em muito da nossa cultura que procura o êxtase (extasy) a qualquer preço (inclusive pagando com a saúde). O que mostra que o Romantismo foi mais do que um movimento passageiro da primeira metade do século XIX. Ele perdura até hoje, meio escondido, debaixo da sua cama, na escuridão da mata à noite, no fundo do mar. Esperando para atacar com todo seu caráter sublime a qualquer momento.
[SERVIÇO]
Quem se interessar pela exposição, pode encontrar mais informações no site do MASP.
A exposição fica aberta de terça a domingo e feriados, das 11h às 18h. Às quintas, das 11h às 20h.
Preços vão de R$7,00 para estudantes a R$15,00 a inteira. [Terça é de graça!!!]
From the tracks on the grass, you can tell a Lion walked here at 4/22/2013 12:57:00 PM
Crônicas de Professor
Terminou então o primeiro bimestre do novo ano como professor de artes. Eu juro que queria muito ter a paciência e a disciplina que eu tinha antes para postar por aqui. Porque este processo que aconteceu durante o ano passado foi MUITO interessante e com certeza tem muito para ser aprendido. Mas em primeiro lugar, a vida tem sido tão intensa de um jeito tão gostoso, que não tenho tido vontade e nem tempo hábil para aquele ritual todo de escrever no blog. Porque é um ritual mesmo: você precisa acalmar, sair do ritmo que se leva nesta cidade, transcender para um estado mais plácido. Só assim dá pra chegar em um texto que não seja tão caótico e que de fato comunique sentimentos com clareza. Em segundo lugar, como já venho mencionando a cada post por aqui, eu fui perdendo o ímpeto de escrever por aqui devido a muito do que se passou no ano passado. Ainda estou tentando superar isso no que diz respeito aos objetivos deste blog.
O pior de tudo é que, quanto mais tempo passa, mais distante eu fico de conseguir estabelecer uma sensação de continuidade em relação ao que eu vou aprendendo paulatinamente como professor. Eu poderia citar aqui o que aconteceu ontem ou na semana passada, mas tudo teria alguma ligação com eventos anteriores, e sem essas ligações, tudo parece uma coleção de fatos desconexos.
De qualquer jeito, resolvi que tentar desembaraçar este nó seria impossível e que o melhor que eu teria a fazer seria de fato começar a registrar esses eventos desconexos para não perder o passo, e ir explicando o que precisar ser explicado. Ou nem explicar e assumir logo que eu estou escrevendo isso para mim mesmo. Sei lá.
Viu? Já não estou fazendo muito sentido...
Mas vamos lá, vou colocar alguns acontecimentos pontuais que vão me ocorrendo, sem cronologia, em bullet-points mesmo, e vocês que selecionem o que for relevante.
• Na época de avaliações do terceiro bimestre do ano passado, um aluno muito promissor me fez a pergunta, de forma muito respeitosa: "Psor, por que é que nós temos que provar que sabemos [nas avaliações], se estamos pagando para aprender?". Eu achei a pergunta interessante. Mais do que isso, sendo esse aluno e do modo como ele me abordou, ficou bem claro que era uma dúvida genuína e não uma daquelas perguntas maliciosas que os alunos mais arruaceiros fazem para desestabilizar a aula. Fiquei ainda mais impressionado com a rapidez com a qual a resposta surgiu na minha cabeça: "É que os pais de vocês estão pagando para que nós ensinemos a vocês sim. Essa parte nós garantimos. Porém se vocês estão de fato aprendendo e prestando atenção é algo que nós não podemos garantir. Para isso rolam as avaliações: para termos certeza de que vocês estão aproveitando. E não estão distraídos jogando joguinhos no iPad...". Eu até esperei algum retorno malicioso. Mas o aluno fez aquela cara de "ah, é!" e pareceu ter entendido alguma coisa fabulosamente interessante.
• Todo começo de ano, em Janeiro, os professores se reunem na Semana dos Professores. É um evento bem elaborado, cheio de requintes, encontros em salas de reuniões de hotéis, exercícios motivacionais, palestras de atualização, encontros de disciplinas com coordenadores e etc. Cada semana tem um tema como base. A deste ano estava lidando com interdisciplinaridade, um termo tão difícil de ser compreendido quanto o pós-moderno. Para falar a respeito, um dos palestrantes foi um filósofo de educação com o qual a equipe de artes tem se encontrado regularmente para moldar o curso. O Bologna era um senhor grande, com uma farta barba branca. Unhas compridas sem nunca ter mencionado qualquer coisa de tocar violão. Frequentemente nos encontrávamos em um instituto que ele tinha, onde quadros seus adornavam as paredes. E ele era um bom pintor.
Na palestra, Bologna contou uma história de quando era jovem e trabalhava como terapeuta. Eu não estou certo de como a história se encaixava dentro do tema de interdisciplinaridade, mas ela me deixou pensando na cena que ele descreveu durante boa parte daquele dia. Porque de alguma forma, ela tocou em algo que eu sentia dando aula de arte em um colégio com uma filosofia tão pragmática. Ele contou que, quando jovem, querendo enfrentar desafios de carreira, ele foi trabalhar em uma instituição para doentes mentais, colocado para trabalhar com aqueles casos mais complicados. Na primeira consulta com um determinado paciente, ele fez a pergunta de praxe: o senhor entende por que foi internado aqui? O paciente respondeu com alguma ansiedade: "Sabe, doutor... um peixe que vive no mar toma conhecimento de muitas coisas. Ele vê os outros peixes, ele vê a areia, vê as algas. Mas doutor, o peixe que vive no mar não vê a água! Eu estou aqui porque eu vejo a água!".
• Eu fiquei interessado no caso da aluno da outra professora de artes, que entrou neste ano. A mãe de Y. morrera quando ela era muito pequena e o pai gradualmente foi saíndo da vida dela até que ela ficou sob os cuidados dos tios. Sofrendo de um problema patológico de auto-estima, sentimentos de abandono e tendências perigosamente suicidas, ela no entanto mostrava um potencial inimaginável de expressão. O tipo de expressão catártica que eu esperava atingir com o grupo de desenho e até agora não conseguira por causa da barreira aluno-professor. Salvo raras excessões, aquelas meninas raramente desenhariam algo chocante de verdade, que botasse pra fora os sentimentos violentos da adolescência. A cada rodada do grupo, crescia nelas a consciência de que eu era um adulto e que elas não deveriam se abrir assim para um adulto, por medo de que eu levasse os desenhos, as expressões e os questionamentos para o grupo de terapeutas do departamento de orientação. Medo de serem taxadas de loucas ou problemáticas. Mal sabiam elas que eu QUERIA que elas se abrissem, e que eu JAMAIS as trairia desse jeito.
Mas Y. era diferente. Tendo passado por tanto na vida, ela estava bem à vontade com a chancela da loucura. Ela a usava com orgulho. Tinha uma única amiga na sua sala, mas andava constantemente com turmas do Ensino Médio, contando-me como este era bissexual assumido e aquele usava um cadeado como pingente no pescoço. Além do caso complicado da vida pessoal dela, chamara-me a atenção o caderno que ela tinha entregado para a avaliação. Desenhos com canetas fosforescentes, letras "fofas". Zero violência. Mas Y. não tinha limites ou bom senso no que falava (característica básica de quem foi levada na base da porrada para além "do que os outros vão pensar"). Em poucos minutos de conversa ela já tinha deixado escapar que não fora ela quem fez o caderno. A única amiga da classe tinha feito isso para ela. E ela tivera o cuidado de arrancar as páginas com seus desenhos porque sabia que eles seriam considerados "inadequados". Parei a conversa. "É por isso mesmo que você devia desenha-los. E deixar eles no caderno". E quando a conversa incluiu o fato curioso dela ter perguntado à outra professora se podia usar sangue ou outros restos humanos no desenho, eu sabia que ela TINHA que fazer parte do grupo de desenho. Ela talvez traria a transgressão que eu não conseguia fazer os outros participantes cometerem. Não que eu fosse incentivar o uso de sangue, mas com certeza dava pra explorar essas e outras ideias sem expor Y. a qualquer perigo.
Na semana de provas, Y. me encontrou debatendo com outros alunos. Ela percebeu o que todos os outros haviam percebido mas tinham pudores em comentar: eu estava de base nas unhas e tinha uma única unha pintada de preto. Ela ficou muito interessada. Em uma conversa anterior, eu havia comentado como eu também era um dos isolados na minha época de colégio, e como frequentemente, por ser sensível e adepto das artes, eu era considerado gay. Ela ficara surpresa: "você NÃO é gay?". As minhas alunas interferiram, com vergonha alheia: claro que não, ele tem uma namorada no Facebook. Mas dava pra ver uma ponta de dúvida nelas agora. Vendo as unhas cuidadas, ela insistia no assunto. "Mas você pinta as unhas". Sem constrangimento ou hesitação, disparei: "Menina que joga bola é lésbica?". Ela pensou por uns segundos antes de se dizer, com ar de vencida: "Não...". Fechei o assunto perguntando: "O que é uma pessoa gay?". "Alguém que gosta do mesmo sexo". "Exato. Hábitos e orientação sexual são duas coisas diferentes". Sem argumentos, ela pareceu olhar para o nada, considerando o que foi dito, em um daqueles momentos de "ahhh!" que indicam uma mudança de conceitos. O momento que professores adoram.
Isso, claro, não significava que ela pararia de me atormentar com o assunto. Pessoas que já foram abusadas pela vida dessa forma têm uma tendência a querer tatear seus limites, provocar, chamar a atenção. Mas no caso dela, eu achava tudo isso muito interessante.
• G. era uma das meninas do grupo de desenho. Na verdade, chama-lo hoje de grupo de desenho seria incorreto, já que o grupo conta com participantes que preferem escrever letras de música, textos curtos, fazer monólogos, e outras possibilidades. Eu aceito qualquer coisa, tentando manter o grupo mais democrático. Mas voltemos ao assunto. A participação de G. no grupo garantia que nosso relacionamento sempre estivesse um passo além daquela coisa distante entre professor e aluna. Conversávamos sobre o depois do colégio, sobre a prática de escrever, sobre os pudores que a instituição de ensino insistia em reforçar (não fale palavrão porque é feio...). E eu, naquela minha ingenuidade, achava que talvez G. estivesse "do meu lado", no sentido de que talvez ela cooperasse com a minha tentativa de ser um professor. Aos poucos, e sem qualquer malícia ou desrespeito proposital, ela foi me mostrando que uma coisa não tinha nada a ver com a outra. Porque G. era desinteressada e preguiçosa. Dizia prestar atenção na minha aula (e só na minha aula, de acordo com ela), mas entregava trabalhos pela metade, sem vontade, sem nem tentar. O ápice da desconexão entre essa nossa amizade e o meu papel de professor se deu em uma das provas do ano passado. Prova de outra matéria, que eu estava fiscalizando. Quase no fim da prova, percebi G. cochichando com a garota atrás dela. Colando? Era como se G. me desafiasse a tomar alguma atitude de professor, daquelas atitudes chatas, enquanto usava a nossa amizade como escudo. Não tive dúvidas e mudei-a de lugar. Mas fiquei o resto da prova fazendo considerações sobre aquela dicotomia de papéis, entre o professor despótico, disciplinador; e o aluno questionador. No fim das contas, era um jogo cruel. O professor precisava fazer da sua matéria e da estrutura disciplinar algo interessante, moderadamente desafiador e constantemente recompensador para o aluno. Caso contrário, este perderia o interesse e consequentemente a disciplina. O aluno, por outro lado, tinha que fingir estar interessado na matéria e cooperando com a disciplina, caso contrário levaria uma punição por não poder domar seu instinto. E na verdade, nem professor e nem aluno estavam de fato achando nada daquela disciplina toda muito relevante e faziam a mesma pergunta: no que se interessa um adolescente do Ensino Fundamental?
[Eu lembro que este texto tinha muitas outras considerações relevantes... É uma pena que tenham sido esquecidas.]
• No meio do ano passado, L. e G. começaram a namorar. Um namoro curto, mas que chamou a atenção de bastante gente. Porque L. e G. tinham seus 12 anos, e não eram da turminha popular. Na verdade, pelo contrário, eram dos retraídos, meio desajeitados, aquela turma que eventualmente acaba virando artista. Ambos eram bem altos e expressivos, embora L. fosse mais espalhafatoso e G. fosse mais do estilo Virginia Wolf. Pensando bem, talvez por isso não tenha durado... Daí o relacionamento acabou - acho que por decisão dela. Sem saber do fato, e amargando alguns abandonos na minha própria vida, recebi de G. no nosso grupo de desenhos o tema "desilusão amorosa", e desenhei uma bota com parte do poema de Yeats, sem me tocar que estava na verdade denunciando a crueldade dela. E na verdade, confirmara o que ela sentia sobre si mesma. Algo sobre o qual suponho talvez conversemos um dia. Em outro canto do colégio, L. amargava sua desilusão amorosa, seus sonhos esmagados pelas botas de G. Havia muito da dor dele que eu entendia. Mas em um dos acantonamentos do colégio ao qual eu fui como professor monitor, percebi que L. estava sendo consolado por M. Ela também era do grupo de desenhos, amiga em comum dos dois. Também muito alta para a idade e muito sensível. Menos Virginia Wolf, e talvez mais... Adriana Calcanhoto? Não sei... É que o modo como eu estou escrevendo já revela toda a intenção do que eu quero dizer: sim, eu estava prevendo algum dia eles perceberem como eles eram grandes amigos, tinha muita coisa em comum, trejeitos, problemas e gostos. E perceberiam a possibilidade de um amor muito diferente, talvez muito mais puro e satisfatório do que qualquer coisa que L. tivera por G. Eu sabia que talvez eles jamais se dessem conta disso e morria de pena da possibilidade. Por outro lado, também sabia que dizer qualquer coisa a respeito para eles seria azedar a experiência. Eu era professor de artes, mas um completo idiota em assuntos do coração. Qualquer interferência seria catastrófica.
• Quatro dos rapazes estavam sentados sobre suas mesas, dois virados de costas pra mim. Em duas das mesas do meio da sala, um moleque com mais gel no cabelo do que deveria ter sobrado no pote se debruçava de tal modo sobre sua colega que qualquer um chamaria aquilo de abuso sexual. Uma outra batia tamborilava o dedo em um joguinho no celular. A porta fora deixada aberta e vi com o canto de olho algum moleque saindo de fininho. Pedi para fecharem a porta e ninguém obedeceu. Dane-se, fui eu mesmo fechar. No meio do caminho, uma patricinha me bloqueou para me informar (não pedir, informar) que estava saindo para ir ao banheiro. A última coisa que me lembro foi algum dos meninos rindo histericamente em algum lugar, como se não estivessem no meio de uma aula. Perdi a cabeça. Olhei fixamente para a patricinha e gritei (coitada...) que ela não sairia e que se sentasse. Tomei ar e bradei a plenos pulmões: "todo mundo senta e cala a boca" (ainda preciso me informar se mandar aluno calar a boca é procedimento kosher em sala de aula...). Alguém diria depois que nunca tinha ouvido eu engrossar a voz daquele jeito. O que se seguiu foi dez minutos de esporro coletivo. Os alunos, em profundo mutismo. De algum lugar, claro, alguém gravava com celular o raro acontecimento.
Eu estava me acostumando a rompantes desse. A pequenos atos de violência com os alunos. O que acontecia era que eles percebiam como eu tinha receios em dar bronca, em excluir da sala, em mandar anotações para os pais e exercer outras atitudes despóticas. Então eles aproveitavam. Não lhes havia sido ensinada em casa qualquer educação por hierarquias superiores, então eles agiam em total barbárie, obedecendo apenas diante de punição. E eu estava ficando farto disso. Já começava a perceber em mim um certo sadismo de querer ter estes rompantes. Uma sessão dessas me garantiria pelo menos umas duas semanas de sossego. Eu precisava aprender. Eu sabia que a minha aula de artes não poderia ter a rigidez de uma aula de matemática, mas também não podia ser este manicômio ("Professor, o que significa 'manicômio'"? "Moleque, procura na Wikipedia, eu não vou te falar" - juro que rolou uma dessas NO MEIO do esporro).
• As aulas de artes não estavam sendo muito bem vistas pelos alunos, embora todo o resto da comunidade do colégio adorasse o que estávamos fazendo. Os alunos, na verdade, achavam tudo aquilo meio irrelevante. Se não era matéria de vestibular, então para que estavam aprendendo? Pra que tinham que perder tempo (de jogo) estudando a origem da fotografia ou técnicas de desenho? A professora anterior tentara doma-los na base da truculência e transformara a experiência de artes em algo completamente intragável mesmo para os interessados. Nós, professores novos, estávamos tentando transforma-la em algo que fosse gratificante, mas ao mesmo tempo levado a sério. E daí caíamos no assunto das provas. Porque o 8o e 9o anos tinham provas teóricas, que de fato nunca seriam gratificantes. Deviam, no entanto, serem levadas a sério.
No primeiro ano, as provas aconteciam na última aula do bimestre, antes da semana de provas oficial. A prova em si, com questões absurdas que exigiam que os alunos decorassem um livro, fora imposta pela professora anterior e causava vários transtornos. Mas o maior deles era que os alunos simplesmente não levavam a prova a sério. Cochichavam, colava, riam, transformavam aquilo em uma algazarra ridícula. Decoravam as páginas do livro sem entender o que memorizavam, para depois esquecer. Mais do que tudo, tratavam-nos como idiotas. Como se não estivéssemos percebendo a movimentação.
No começo deste ano, passamos a prova para a semana de provas. Eu queria fazer isso em parte como retaliação. Os alunos, claro, se revoltaram. Minha resposta era sempre irredutível: vocês fizeram aquela zona no ano passado. Se voltarmos a prova para a semana regular, essa zona vai voltar. Quando vocês conseguirem parar de nos tratar como idiotas, nós poderemos pensar no assunto. Até lá, vocês vão sim ser forçados a pelo menos tratar esta prova com alguma seriedade.
Eles concordavam. Concordavam que estavam nos tratando horrivelmente mal. Aos que insistiam em exigir que as provas voltassem ao que eram, eu perguntava se eles lembravam do que tinham pesquisado ou estudado no ano anterior. A resposta era quase sempre bem vaga.
Preparamos a prova. Era um alívio ter uma prova que finalmente fazia sentido. Questões que não eram apenas decorebas, questões que até tinham a ver com expressões atuais para eles (uma sobre o Harlem Shake!). E bota os moleques pra desenhar! "Mas professor, eu não sou bom de desenho". "Eu também não era bom de química, mas tinha que passar na prova". Ainda assim, eu confesso que fiquei meio ansioso no dia em que eles fizeram as provas. A ansiedade não durou muito. Vários dos professores que fiscalizaram as salas vieram dar os parabéns por uma prova muito bem feita, questões que ensinavam além de cobrar o já aprendido, que trazia a matéria da sala de aula para a realidade deles. Professores querendo assistir as nossas aulas porque achavam a matéria interessante (nisso eu tenho que dar o braço a torcer, a professora anterior estruturou um curso muito legal).
A chave de ouro foi a aluna que me encontrou na porta da sala dos professores e me apertou a mão: "parabéns, professor! Com uma prova você me fez entender porque que eu precisava estudar artes". Eu ainda não sei se ela dizia isso com sarcasmo, mas resolvi me afundar na minha ingenuidade e achar que era um elogio genuíno. Ganhei o dia com essa.
From the tracks on the grass, you can tell a Lion walked here at 4/22/2013 02:32:00 AM
Segunda-feira, Março 18, 2013
Considerações sobre vícios químicos
Não, eu nunca me viciei em entorpecentes. Não tenho sequer o estômago necessário para beber decentemente em uma saída com amigos. Mas sim, relatos deste blog já dão conta do fato de que eu já experimentei algumas coisas. A regra, na verdade, sempre foi esta: experimente para ter essa experiência de vida, mas nunca, JAMAIS, EM HIPÓTESE ALGUMA permita que o vício químico se instale. Não posso dizer o mesmo sobre o meu vício por jogos eletrônicos, mas isso já está no passado.
E no entanto, a experiência de pessoas próximas e colegas de faculdade (ah, a faculdade, esse antro de perdição...) me permitiu formar algumas opiniões sobre como o processo todo se desenrola.
Imagine o adolescente típico, seu quarto tão bagunçado quanto sua mente e seus planos de futuro. Certo, para algumas pessoas, essa "adolescência" penetra fundo nos vinte anos, muito além do que devia. Nosso adolescente passa os dias naquele mar de incertezas, tanta angústia, tantos sentimentos novos, tanta cobrança por entrar na melhor faculdade, ter o melhor emprego, etc, etc. Um dia, como rota de fuga temporária, ele descobre uma substância química que lhe confere minutos ou talvez horas de uma tranquilidade perfeita. Ou talvez de uma confiança inabalável. O que quer que seja que esse adolescente precisa e que a própria química do seu corpo não está fornecendo na hora. Ele faz uma descoberta assombrosa e passa a questionar os adultos que lhe dizem que isso é pecado, heresia, proibido, censurado. Sente-se até um pouco traído: como puderam esconder isso de mim? E porque será que isso não é liberado para consumo diário se todo mundo se beneficiaria disso? Mas como eu disse, são minutos ou talvez horas, e eventualmente o efeito acaba. O corpo, tendo recebido uma descarga anormal de algum dos seus componentes químicos cuidadosamente equilibrados, entra em pânico absoluto e solta outra descarga do componente complementar, para restabelecer o equilíbrio. Os efeitos são devastadores nas primeiras vezes: a tranquilidade perfeita torna-se ansiedade sacana, a confiança inabalável torna-se dúvida paranóica. Toda aquela felicidade tem, além do preço pecuniário, o preço emocional de uma depressão equivalente.
Nosso adolescente é forte ainda. Acredita que pode suportar esse preço emocional se tiver sua saúde e o apoio de amigos e parentes, se tiver suas coisas e sua rotina. E podendo suportar esse preço, não vê problema em considerar sua nova substância favorita como um "aditivo" para aqueles dias mais difíceis da adolescência. Oras, os adultos não tomam café pra ficarem acordados no escritório? É a mesma coisa. E é mesmo, mas elevada a uma potência não percebida.
Os dias difíceis da adolescência são muitos, e a pessoa normal suporta a dor para se fortalecer. O nosso adolescente não. Ele acha que não é idiota e que não vai ficar sofrendo à toa quando seu aditivo pode lhe conceder algum tempo de fuga. E nos muitos dias difíceis, ele continua tomando algum tempinho para fugir. Cada vez que faz isso, o corpo entra em novo pânico, solta mais químicos complementares, equilibra novamente a situação. Com cada nova dose e o espaço de tempo entre elas diminuindo, o corpo passa a acreditar que talvez esse seja o novo equilíbrio que tem que manter, como se essa substância a mais que está entrando nele a toda hora não fosse uma anomalia, mas sim uma constante. Gradualmente, o corpo estabelece as doses elevadas dos químicos complementares como a situação normal. O que acontece aqui na verdade é que nosso adolescente acaba de tirar a responsabilidade pelo equilíbrio de sua química interna das mãos de seu próprio corpo. Preocupe-se com o resto que a dopamina eu garanto. E o corpo vai obedecer.
Seria fácil, não fosse pelo componente econômico da equação. Porque esse fornecimento de dopamina que nosso adolescente precisa cumprir custa (e ele de repente ganha um ódio mortal pelo capitalismo...). Ou seja, além de se responsabilizar por algo que o corpo já fazia sozinho, ele também passou a precisar comprar o que o corpo produzia de graça (ele vai argumentar que o corpo produzia em pouca quantidade, e está certo, embora a solução adotada tenha sido errada...). No estado avançado do vício, ele vai precisar comprar cada vez mais da droga só para conseguir manter o equilíbrio dito "normal". Longe estão os dias em que a dose da droga o levava acima do normal. Ele condicionou sua normalidade ao dinheiro.
Considerando, acho que é algo similar à necessidade por comida ou água. Também é preciso pagar por essas coisas para sobreviver. Mas se já é difícil pagar por estas, imagine arranjar mais uma "necessidade básica" para pagar.
Como se não bastasse, enquanto esse processo vai correndo, outro rastro de destruição vai acontecendo nos bastidores: a saúde obviamente se deteriora. E em passo semelhante vão as relações com amigos e familiares. Nosso adolescente já não aguenta mais o passo econômico da vida normal, já que todo o dinheiro vai para manter sua responsabilidade sobre sua dopamina. Se for esperto e ardiloso, ainda conseguirá que algum desse dinheiro venha dos pais, enquanto a relação com eles se mantiver ativa.
Eu não sei como a história termina. Eu perdi contato com os colegas de faculdade que eu observava. Talvez haja algum fim positivo nisso tudo que eu não esteja vendo e todos nós devamos sim descobrir o aditivo de cada um. Eu não acredito nisso ainda. Ainda acho mais adequado procurar resolver os dias difíceis da adolescência na marra. E procurar aumentar dopaminas, serotoninas e outros químicos em parceria com o corpo, em vez de usar a via mais autoritária.
Tá, eu sei, nesse sentido, eu virei um daqueles caras bem caretas com papo de auto-ajuda. E não me envergonho disso.
From the tracks on the grass, you can tell a Lion walked here at 3/18/2013 12:35:00 PM
Quinta-feira, Fevereiro 14, 2013
Ai Wei Wei
Ainda não consegui vencer a preguiça e estudar direito toda essa coisa de colocar senhas no blog. Acho que alguns de vocês que não têm contas de blog vão acabar ficando inevitavelmente de fora do meu, a menos que vocês criem contas (só para ler o meu blog...). Então por enquanto eu vou continuando.
Passei aqui apenas para deixar uma reflexão sobre a exposição do chinês Ai Wei Wei que está acontecendo no MIS.
Eu soube dele pela primeira vez em Londres, uma instalação na Tate Modern onde ele lotou o piso da galeria de sementes de girassol feitas de porcelana. Milhões delas, feitas uma a uma por voluntários chineses. De lá pra cá, Wei Wei foi preso pelo governo chinês, o que causou toda uma polêmica mundial de artistas pela sua libertação, e aparentemente foi viver nos EUA ou algo assim.
A reflexão curta que eu queria deixar aqui me ocorreu enquanto visitava a exposição com Lexy e minha mãe. Ele, assim como a Yaoni Sanchez que a minha mãe lê, fala corajosa e abertamente sobre as incoerências, a estupidez e a miséria causada pela ditadura vigente em seu país de origem. Uma ditadura que prometeu igualdade a todos e forneceu uma igualdade de míngua e burocracia.
A exposição no MIS era uma coletânea enorme de fotografias tiradas por Wei Wei e seus assistentes, documentando diversos processos de diversos dos trabalhos do artista. Todos trabalhos que falavam sem romantismos desnecessários sobre tudo o que estava acontecendo. Daquele tipo de documentação direta que qualquer blogueiro hoje faz. O que levou Lexy a fazer em certo ponto aquela derradeira e já bastante recorrente pergunta: "mas isso é arte?"
Eu tenho cada vez menos respeito pelo rótulo. Acredito mesmo que qualquer desenho que ela, sem formação acadêmica em artes, faça nos cadernos que eu lhe fiz possa ser uma obra de arte (e ela tem bastante talento, mas isso é outro termo a ser esmiuçado algum dia...).
A pergunta dela me fez pensar no seguinte (sem mais demoras...): de fato, algumas das fotos que Wei Wei faz não chegam a ser muito mais diferentes do que o que muitos conterrâneos meus postam no Facebook, indignados com o nosso país. Nem é possível dizer que elas sejam dotadas daquela mítica "sensibilidade artística" que as separa das fotos das ditas "pessoas comuns". Mas tudo muda para ele (e para a Yaoni Sanchez), porque existe uma força opositora relevante. Isso muda tudo.
Se você posta no Facebook a sua indignação pelo Renan Calheiros ter assumido a presidência do senado, se você brada nas ruas o quanto você é violentamente contra o PT, se você quase tem uma síncope porque o Paulo Maluf continua gozando de plena liberdade, nada disso importa. Você vive em um país livre e supostamente democrático, onde você pode exercer a sua liberdade de expressão sem medo. Isso torna-se uma faca de dois gumes, porque embora você a possa expressar, a sua opinião também pode ser sumariamente ignorada. Se o governo não fizer nada a respeito (nem acatando o seu desejo de justiça, e nem prendendo você por externar o que sente), é quase como se você não tivesse dito nada. "A Dilma subiu o preço da gasolina! Isso é um absurdo!" E tudo o que a Dilma irá dizer é "pois é, que chato, né?" Mas o preço da gasolina continuará inflacionado.
Com Wei Wei e Sanchez, a coisa é outra. Qualquer comentário dissidente e eles misteriosamente "são sumidos" por algum tempo, têm seus bens confiscados, sua vida incrivelmente dificultada. Eles precisam de muito mais coragem para dizer o que nós ouvimos tanto que chegamos a ignorar ("mais uma denúncia de corrupção..."). O choque entre a força opositora que nós não temos aqui em nosso país e a coragem deles é o que faz um gesto tão simples como tirar um autorretrato ou blogar sobre o dia-a-dia virar uma obra de arte política. Não tem absolutamente nada a ver com técnica artística.
[Disclaimer: sim, eu sei que o Wei Wei tem obras de arquitetura incríveis, foi responsável em parte pelo estádio conhecido como "Ninho de Pássaro" na China e tem outras obras bem mais tecnicamente interessantes, mas estou me atendo aqui à exposição do MIS]
Encerro a reflexão fazendo a pergunta que fiz à minha mãe e Lexy: sendo que não temos aqui tamanha força opositora que valide as nossas expressões de indignação dissidentes, o que é que nós precisaríamos fazer (como trabalho artístico/expressivo) para ter o mesmo impacto que Wei Wei e Sanchez?
From the tracks on the grass, you can tell a Lion walked here at 2/14/2013 01:10:00 AM
Segunda-feira, Janeiro 21, 2013
Ch - Ch - Ch - Changes!
Galera, estou fazendo uma alteração drástica e colocando restrições para acesso ao meu blog pessoal. Queria pedir a todos que ainda estiverem interessados em acessar a página que me mandem seus endereços de e-mail por mensagem privada no Facebook ou no meu e-mail para que eu possa liberar o acesso.
Grato pela compreensão
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Guys, I`m making a radical change and setting restrictions on the access to my personal blog. I`d like to ask anyone who is still interested in accessing the page to send me their e-mail addresses by private message on Facebook or on my e-mail so that I can grant you access to it.
From the tracks on the grass, you can tell a Lion walked here at 1/21/2013 09:12:00 AM
Domingo, Janeiro 20, 2013
"I curse the day you were born"
A cena ontem não foi muito bem essa. Mas essa não me saia da cabeça. Porque embora Lexy não fosse normalmente ligada à Carrie Bradshaw e nem eu ao Mr. Big, na minha cabeça a Luciana sempre havia sido de uma forma ou outra a pequena Charlotte.
Não, a cena tinha sido bem diferente. E me surpreendeu, porque embora no começo ela de fato quisesse amaldiçoar o dia em que eu nasci, ela preferiu lidar com as coisas de uma forma mais adulta. Depois de um almoço com Lexy, encontrou-me em sua casa, conversando com seu namorado, e sentou-se calmamente para ouvir o outro lado da história.
No final das contas, aconselhou que eu e Lexy não nos falássemos naquela noite.
I came to visit this place with Lexy, knowing that perhaps this would be one of the last times that Utinga would be there. At least the Utinga of my childhood, which was inherently tied to the family's ownership of the sugar plant. But the current generation of the family lacked any interest whatsoever in managing the factory. We watched the family's great wealth dwindle over the years, even though Utinga itself remained fairly unchanged - except, as noted on a previous post, for those who died and those who were born within the family and its servants... the city had been founded to house the factory workers and the family of owners and managers. When the factory was sold to foreign buyers a little over a couple of years ago, we naturally assumed that was the end of that. At least for the family. As for the workers and the sugar plant, there was talk of it being dismantled, scrapped. It still stands there as I write, churning the machinery and spewing out pure, refined sugar. It even keeps the family name on its front. But should it ever truly end, I believe Utinga will go with it.
Today, after lunch, I went down to aunt Suzy's place. It was a large manor sitting on the side of the hill that overlooked Utinga's train station. Lexy seemed surprised at the sheer size of the house and it dawned on me that i had never considered it to be a mansion, having spent so many summers there and knowing every nook and cranny of the place. The house itself had remained stagnant like most of the city. The large trees beside it overgrown with parasitic vines drooping from them, white and ghostly like cobwebs, which had always been there. Our room - the one me and my brother had spent our childhood sleeping in - was still unchanged as well: the wooden ceiling with that aluminum ceiling fan threatening to fall on us while we slept and even our old, worn bodyboards with their incoherent neon hues resting atop the closet like they probably had been for years. The floor tiles in the bathroom, in candy-hued yellow and pink still contrasted with the black tiles on the walls. The two pianos in the dinning hall still managed to play my brother's Debussy. I didn't check, but I was sure the porches and balconies would still have that assortment of perfectly kept deck furniture from sometime around the 1930s and the yard would still be in regal order despite the aggressiveness of the surrounding flora. The train still went past the house at around 5pm. Time was kept by a set of wall clocks placed around the house, and you could hear their ticking if things were silent enough.
But as much as I would like to believe that this place would remain like this forever, it was already changing very noticeably. The changes felt like little flaws in the composition, little things that were out of place. It was the way the new locomotives on the trains were silent enough so that I could only hear them when they blew their whistle going past the station, instead of hearing that chugging of machinery a couple of minutes before, coming from afar. It was in the way three of the wall clocks had stopped, probably wanting in vain for time to actually stop there. It was in the increasing number of defective keys in the pianos my brother played.
But other things made de passage of time more terrifyingly obvious. For starters, there had been no Christmas celebration there that year. Aunt Suzy hadn`t even ordered for the Christmas tree to be set up. There wasn`t a trace of Christmas anywhere.
The servants were getting really old. Nita, someone I had always regarded as a plump girl who was an amazing cook and sometimes watched over me and my brother, was now showing clear signs of old age. Thin, a bit slower on the gestures, a bit more wrinkled.
But the final blow to my heart was finding aunt Suzy herself, sitting on the living room chairs watching TV. Nothing special about her watching TV, it was the way I had always remembered her (though the TV kept getting louder over the years...). What was startling was her figure. Withered and thin, so thin she found it difficult to move at all. Her hair had finally turned grey and there seemed to be more skin than the bones to support it. People mentioned she wasn`t eating properly, barely drank anything, just smoked her cigarettes and drank coffee. My visit had to do with her arrival back from the hospital, after she had to be nurtured back to some measure of health there. She appeared to us all like someone who was giving up. On everything: the house, the sugar plant, even her own body. It was understandable. She was one of the last survivors of her generation, apart from one of her sisters who still lived in Maceió. There had been four girls and two boys (one of them my grandfather). The years had taken most of them away, including aunt Margot, who had always appeared to me as the head of the family ("matriarch" would have been the wrong term: she never had any children), and who sat with aunt Suzy in that living room. It felt like her story had ended and all that was left was the existence in that house, defying time and oblivion.
As we left the house, going back to my cousin`s house further up on the hill, my mind wandered through all the melancholy poetry of what was happening there. I thought of that place, and how the remaining wall clocks would stop, halting time so that the next Christmas and New Year`s Eve would forever be kept at bay. The house would freeze in time in the year 2013. No 5pm train would ever be heard again, silent engines or not. The thriving aggressive nature surrounding the house would break through the defences, coming to sunbathe on the deck chairs, to silence my brother`s pianos for good, to make its own makeshift Christmas trees all over the house and to take back the seashell collection that the aunts had stolen from the beaches years ago. Possibly to finally be hit by the fall of that aluminium ceiling fan.
In the living room, the TV would be silent. Those small and comfortable rocking chairs would be motionless. Aunt Suzy would still be sitting on the big chair in front of the TV, her skin turned into the bark of a thriving tree that would preserve her placid and somewhat apathetic eyes.
Outside of the spell that locked the house in time, the rest of the family would go on with their lives. Possibly leaving Utinga once that house was sold and going to live in Maceió. The city was growing and becoming a place of opportunity and my cousins (some of them who I remembered as toddlers until just recently) were finding their ways to make their own wealth in due time. Nothing to do with sugar. Time kept going, faster and faster. Into the future.
Eu vim visitar este lugar com a Lexy, sabendo que talvez esta fosse uma das últimas vezes que Utinga estaria lá. Pelo menos a Utinga da minha infância, que era inerentemente ligada ao controle que a família tinha da usina de açúcar. Mas a geração atual da família não tinha o menor interesse em gerenciar a usina. Assistimos enquanto a grande fortuna da família minguava com os anos, embora Utinga em si permanecesse relativamente inalterada - exceto, como comentado em um post anterior, por aqueles que morriam e aqueles que nasciam entre a família e seus empregados... A cidade fora fundada para abrigar os trabalhadores da usina e as famílias de donos e gerentes. Quando a usina foi vendida para compradores estrangeiros pouco mais de dois anos atrás, nós naturalmente assumimos que era o fim daquilo. Pelo menos para a família. Quanto aos trabalhadores e à usina, havia rumores de que ela seria desmontada. Ela ainda está de pé por lá, enquanto eu escrevo, girando o maquinário e cuspindo açúcar puro e refinado. Ela até mantém o nome da família na sua fachada. Mas se algum dia terminasse de vez, acredito que Utinga em si sucumbiria junto.
Hoje, depois do almoço, desci para a casa de tia Suzy. Era uma grande mansão sentada em um dos lados da colina que se erguia atrás da estação de trem de Utinga. Lexy pareceu surpresa com o tamanho enorme da casa e me ocorreu que eu nunca havia considerado ela uma mansão, tendo passado tantos verões lá e conhecido cada dobra e rachadura do lugar. A casa em si permanecia estagnada como a maior parte da cidade. As árvores grandes ao seu lado infestadas de trepadeiras parasíticas, brancas e fantasmagóricas como teias de aranha, que sempre estiveram lá. Nosso quarto - no qual eu e meu irmão passamos nossa infância dormindo - ainda não havia sido mudado: o teto de madeira com aquele ventilador de alumínio ameaçando cair sobre nós enquanto dormíamos e até as nossas antigas e gastas pranchas de bodyboard, com seus tons de neón incoerentes descansavam sobre o armário como haviam permanecido há anos. Os azulejos no chão do banheiro ainda tinham seus tons de amarelo e rosa parecendo bala de goma e contrastando com os azulejos pretos nas paredes. Os dois pianos na sala de jantar ainda conseguiam tocar o Debussy do meu irmão. Eu não olhei, mas tinha certeza de que as varandas ainda tinham aquele ajuntamento de móveis de varanda mais ou menos da década de 1930, mantidos em perfeito estado, e que os jardins ainda estariam em perfeita ordem apesar da agressividade da flora local. O trem ainda passava pela casa por volta das 5 da tarde. O tempo era informado por uma coleção de relógios de parede colocados pela casa, e era possível ouvir seu tique-taque se tudo estivesse silencioso o suficiente.
Porém por mais que eu quisesse acreditar que este lugar permaneceria assim para sempre, ele já estava mudando perceptivelmente. As mudanças eram sentidas como falhas na composição, pequenas coisas que estavam fora de lugar. Era o modo como as novas locomotivas nos trens eram silenciosas o suficiente para que eu só conseguisse ouví-las quando elas apitavam perto da estação, em vez de ouvir aquele ruído grave de máquinas vindo de longe alguns minutos antes. Era o jeito como três dos relógios de parede tinham parado, provavelmente querendo em vão que o tempo de fato parasse lá. Era o número cada vez maior de teclas defeituosas no piano que meu irmão tocava.
Mas outras coisas deixavam a passagem do tempo ainda mais terrivelmente óbvia. Para começar, não houve comemoração de natal este ano. Tia Suzy nem sequer havia ordenado que montassem a árvore de natal. Não havia traço algum de natal em lugar nenhum.
Os empregados estavam ficando velhos. Nita, alguém que eu sempre reconhecera como uma garota curvilínea que cozinhava muito bem e às vezes cuidava de mim e do meu irmão, estava agora demonstrando sinais claros da idade. Fina, um pouco mais lenta nos gestos, um pouco mais enrugada.
Porém o golpe final no meu coração foi encontrar a própria tia Suzy, sentada nas poltronas da sala de estar, assistindo TV. Nada especial sobre ela assistir TV, era como eu sempre me lembrava dela (embora o volume da TV ficasse mais alto com o passar dos anos...). O que era surpreendente era sua figura. Esmaecida e magra, tão magra que tinha dificuldade de fazer o mínimo movimento. Seu cabelo finalmente tornara-se acinzentado e parecia haver mais pele do que os ossos para suportá-la. Pessoas diziam que ela não estava comendo direito, mal bebia nada, apenas fumava cigarros e bebia café. Minha visita tinha a ver com sua chegada do hospital, onde ela tinha sido alimentada para que voltasse a alguma medida de saúde. Ela parecia para todos nós como alguém que estava desistindo. De tudo: da casa, da usina de açúcar, até de seu próprio corpo. Era compreensível. Ela era uma das últimas sobreviventes da sua geração da família, fora uma de suas irmãs que ainda morava em Maceió. Tinham sido quatro garotas e dois garotos (um deles o meu avô). Os anos haviam levado a maioria deles, incluíndo a tia Margô, que sempre me parecera como a líder da família ("matriarca"seria o termo errado: ela nunca tivera filhos), e que se sentava com tia Suzy naquela sala de estar. Parecia que sua história tinha acabado e tudo que sobrara era a existência naquela casa, desafiando o tempo e o esquecimento.
Enquanto partíamos da casa, voltando para a casa das minhas primas mais para cima da colina, minha mente passeava pela poesia melancólica do que estava acontecendo lá. Eu imaginava aquele lugar, e como os relógios restantes parariam de funcionar, parando o tempo de forma que o próximo natal e reveillon seriam para sempre mantidos à distância. A casa pararia no tempo no ano de 2013. Nenhum trem das 5 seria ouvido novamente, com ou sem motores silenciosos. A natureza agressiva e verdejante ao redor da casa atravessaria as defesas, vindo tomar sol nas cadeiras da varanda, ou silenciar os pianos do meu irmão para sempre, ou fazer suas próprias árvores de natal mambembes pela casa e levar de volta a coleção de conchas que as tias tinham roubado das praias há muitos anos. Possivelmente finalmente seria acertada pela queda daquele ventilador de alumínio.
Na sala de estar, a TV estaria quieta. Aquelas pequenas e confortáveis cadeiras de balanço estariam paradas. Tia Suzy ainda estaria sentada na poltrona em frente à TV, sua pele transformada na casca de uma árvore frondosa que preservaria seus olhos plácidos e consideravelmente apáticos.
Fora do feitiço que trancaria a casa no tempo, o resto da família continuaria com suas vidas. Possivelmente deixando Utinga uma vez que a casa fosse vendida e indo morar em Maceió. A cidade estava crescendo e virando um lugar de oportunidade e meus primos (alguns que eu ainda considerava crianças até pouco tempo), estava encontrando seus jeitos de fazer suas próprias fortunas no tempo certo. Nada relacionado ao açúcar. O tempo continuava avançando, mais e mais rápido. Em direção ao futuro.
From the tracks on the grass, you can tell a Lion walked here at 1/17/2013 11:53:00 AM
Closing a cycle (sayonara, imouto-chan)
Despite the advice of psychoanalyst readers of this blog, I really need to begin this post by apologizing in advance. It will render me a lot of discussion with a lot of people involved. But I can't avoid being minimally committed to what little art I still do and I do consider this blog as a form of art, in a loose sense. That said, I need to close a cycle here that is being closed in my life, to explain a few things to myself, put all the anger away and move on. Otherwise this blog and the things in my head will remain incomplete. This might have dire consequences to the blog, given the long pauses that have happened.
Please notice that it took me something around nine months to write this post. The feelings included in it are no longer current, but I felt it would be important to write them down here anyway.
While I was getting another bunch of things to move from my parents' apartment to my own, I came across my collection of Video Girl Ai manga. It was such a pleasant time in my life. I'm constantly searching for other manga that touch my soul like that one. But I decided not to bring these magazines home yet. There was a metaphor contained in that whole story and taking them home would worsen my current withdrawal symptoms and the sadness. At that time, I had a childish tendency to compare the characters in that romance to people in my own. The main character, Ai Amano, a VideoGirl, was initially compared to Lee, but after a short time (and for a long time after that) that character was transferred to Nana.
The VideoGirl came into the life (literally - from a video tape, she crossed the TV screen into the real world) of a pure-hearted boy who was having sentimental problems. She would serve him as a guide, as a companion while the boy healed, as an advisor in matters of the heart. And theoretically, she would never fall in love. In the case of Ai Amano, whose tape had been executed in a faulty VCR, she appeared with a few glitches. Among those, the ability to fall in love.
In my life, the character meant someone with whom I could have a relationship of complete trust and intimacy, being able to speak of all the subjects I would normally consider taboo when talking to girlfriends (the promiscuity, perversions, gender ambiguity, loyalty, etc...). Because after all, we weren't in any commitment, so there was no implied contract of any sort of loyalty between us, and each had their own affairs. This person was a best friend, and that friendship came before any love relationship, and that allowed for this unconditional freedom. There was however that delicious tension of something between the two.
Nana had been my VideoGirl for a while. We had total access to each other, through blogs, late night chatter on Skype or MSN, the short period we were in the same college class. At any moment, we knew quite well what was going on in each other's lives. We gave each other advice regarding relationships, regarding life. But contrary to a VideoGirl, a normal boy like me had the ability to fall in love. And so, in 2007, when she broke up her 7-year relationship with her boyfriend, I mustered enough courage to tell her. I caught her by surprise, and sweetly and tenderly, she dismissed me. She told me I was like a brother to her (something that would later provide me with the nickname of "Nii-san" - "older brother" in Japanese). Placed in the farthest reaches of the "familyzone" (further away even than the "friendzone"), I accepted the situation and buried any feeling I had. If I was more propper, I would have done what most people do and would have disappeared from her life. Cut off any contact. Sometime later, that would be the final lesson she would teach me.
The fact is I didn't want to be like most people. I wanted to be different, I wanted to be me. More than anything, I wanted to keep this person with whom I could open up, completely unafraid of being judged. After an initial moment's discomfort, life continued normally for both of us. She went back to her boyfriend. And I watched from the rafters while she took that downward spiral through depression, while she got pregnant from the unwanted daughter that would heal her from it, while she broke apart the relationship with the child's father that had lasted for as long as we knew each other.
Five years later. I was spending the year in London for my Masters' degree and our talks had gone back to what they were before I was exiled into the "familyzone". And they were good talks. Talks that were worth burying my feelings like I had done. VideoGirl talks. While I shaved my hair, while I faced my teenage traumas, while I reviewed sexuality, my native culture and my place in the world, she was someone who listened without judging. More than that, she was someone who even applauded and encouraged my attitudes, instead of just tolerating my strangeness. I never heard a single word of censorship from her. And I was someone who, when she found herself a single unemployed post-depressive mother, had been there to tell her she was still worth it. She had always been worth it and would always be. We were each giving the other what the other needed at that time. Falling in love was an obvious thing to happen. And when we talked openly about it, everything I had buried for five years burst up from the ground again and flourished. Neither of us had any control over it. And I must admit: it was beautiful. Writing anything about it would only cheapen what happened, but I can say it was beautiful.
Of course, my being in London was convenient. It gave us the possibility of sleeping on that and thinking it over. Because it wouldn't be that simple. She had ditched me in 2007 and, ever since then, I had started another good relationship that was full of understanding with Lexy. Five years. My longest relationship to date. With someone who went out on a limb to please me, to win my family over and chase her own dreams. Someone whom I'd come to respect as I had never respected any of the previous girlfriends. Someone who also listened to me throughout all the process of change that I had gone through in London and was also going through her own changes in life.
Nana was never a big challenge for Lexy. Because Lexy was someone who would fight for things, for life, someone who liked achieving things. Lexy was an overachiever. Nana, on the other hand, just wanted some peace. She was concerned with her own happiness, and in a certain way, she wanted to be left alone. She didn't care about challenges. Challenges had lost any meaning to her after she recovered from depression (and these illnesses do have a way of putting things in perspective...). She didn't want to fight for anything, the only thing that mattered to her was happiness: pure, simple, limitless and with no concessions. And therefore, when I became a challenge, when I became something to fight for, she had no second thoughts about disconnecting from me and giving up the fight.
I suffered. I suffered a lot with the break-up of a friendship that had lasted for over 10 years. And however, she did teach me a lot. First of all, she opened my eyes regarding several of my little personal illusions. As I had mentioned in Laerte's post, she made me see how I had a tendency to "blame or demand certain things of others (and fate) that were in fact senseless demands". I had a rather vague idea that the world was fair. And in a fair world, those 10+ years I spent getting through her hard times, even if from afar, would be worth something. In a fair world, the fact that I had placed friendship over feelings would have been worth something, perhaps the continuation of that friendship. It would be worth reciprocity from her behalf in this recent situation. But of course, all of that was an illusion: we do not live in a fair world and those who really believe that have a lot of growing up to do. I had a lot of growing up to do.
No. We live in a cynical world, as a friend in London once said. A world that will laugh at you if you believe this sort of thing. I'm not saying Nana was laughing at me. She was simply trying to prove a fact of life: that she had no obligation whatsoever to deal with the likes of me.
She also opened my eyes as to a sort of pride that I had regarding my role in this story. Come to think of it, she had spent the greater part of those 10 years of our friendship dating someone else with whom she had shared a house and with whom she had eventually conceived a child. And then I watched her isolate that same person from her life and only failed to do it completely because their daughter still bonded them together for practical reasons (though, if she could, she would indeed completely ignore the existence of that person after that).
What right did I have to think I could be any more valuable than that person if I hadn't even shared my life with her that way? What right did I have to think that I was deserving of any more special treatment than the one dispensed on him, and that she would think twice or have any remorse in excluding me from her life in the same way? What's more: I didn't have "practical bonds" with her, so she could savor our complete and utter disconnection.
I decided to write this when I noticed a few months back that I had been excluded from her list of friends on Facebook. An apparently trivial, almost childish fact. A fact that might mean the world to people of my students' ages, and that an adult was supposed to ignore. But to me, it meant something. Because without Facebook or access to her blog and Tumblr, she was shutting down any form of contact I could have with her. Any whatsoever. Blocking any possibility that I may know what was going on with my alleged friend. The only way of contacting her again would be to call or write an e-mail (direct contact), which is something I promised her I wouldn't do on our last squabble ("don't worry, I will not bother you again"). And anyhow, I presume that even this sort of contact will soon be cut off as well.
On what little contact we had after that, she became colder and more aggressive. Until the final e-mail came in November, telling me not to contact her again. Ever. As she signed off, she called me by my real name and signed it with hers. It was a very symbolic and violent gesture. We had NEVER used our real names.
Before finishing this post, I need to make it clear that, despite it all, it isn't my intention to turn Nana into a sort of villain. It would be unfair to do it merely because I am the losing side of this story. It is actually quite the opposite, I believe she deserves some sort of recognition for reaching a sort of consciousness about herself that very few people have. I would have said "very few women", but the fact is I believe even very few men have it nowadays. A consciousness of placing her own happiness above everything. Rigorously everything: above matters of equivalence (that which is "fair"), above matters or morality, above friendships of over a decade. Quite the contrary, her happiness is worth A LOT. And she won't allow ANYTHING to threaten it. The careless would label her dangerously selfish. Feminists would call her a free woman.
I'll start simply calling her Mariana. Or even Anonymous. If I have reasons to call her anything at all.
Finally, I mentioned of the dire consequences for this blog. It was created vaguely around the same time I met her (a little more than a year later) and completed its 10th year in April, exactly on the day before she started her new relationship and began cutting all ties with me [1st post]. And since I just love coincidences like that with an almost religious fervor, I gave serious thought to closing down the blog. It would be a perfect cycle.
But alas, we're still here, I just felt I couldn`t give in to this. This cycle needed this closure and I needed to keep going on. Taking her advice on that final e-mail, I had to learn to put the past behind.
I believe I won`t be writing as often on this blog. I came to realise I wrote a great deal of things because I knew she was reading. I must learn again to write for myself. And as this post gets closer to the bottom of the page and can no longer be easily retrieved by readers (since the blog`s archive settings are busted...), so too will I put this whole story and pain aside.
From the tracks on the grass, you can tell a Lion walked here at 1/11/2013 05:55:00 PM
Quarta-feira, Outubro 17, 2012
Crônicas de Professor
Um dos meus alunos me entregou hoje uma sacolinha. Disse que era um presente de dia do professor. Confesso que recebi o mimo um pouco desconfiado: eu nunca tinha recebido nada assim e nem esperava criar esse impacto na cabeça de alguém tão cedo. Por que logo eu de todos os professores? Ele não precisava de nota, era um bom aluno. Também duvido que tivesse feito isso para muitos outros professores, pois os pais teriam desembolsado uma quantia salgada para mimar professores. Me pareceu algo sincero e exclusivo. Me senti especial.
Dentro da sacola, uns poucos produtos da Phebo. O presente gerou sensações engraçadas. Meu pai usava Phebo e eu identificava os perfumes ao estilo de masculinidade dele. Por isso, senti minha "adultice" confirmada com esse presente. O estilo de masculino paterno que eu lembrava na minha infância era um para o qual sabonetes com "1/4 de creme hidratante" ainda eram algo inexistente ou irrelevante. Um estilo que sentia um tipo de validação naquela sensação de pele esticada depois do banho. Eu lembro que eu gostava da sensação (talvez por gostar da ligação aspiracional que ela tinha com meu pai). Era um prazer meio bronco, meio rústico. Uma das minhas colegas professoras chamou de um prazer meio S&M. Eu não o estranharia depois das baladas do meu ano passado...
Havia também o deleite do perfume, que na infância fora marcadamente diferente dos perfumes dos meus produtos infantis. Era alheio, era mais complexo. Era daquele universo simbólico do moleque imberbe que se maravilha com os produtos de barbearia do pai.
Esse significado todo me pegou tão de surpresa que nem agradeci o aluno o suficiente. Preciso fazer isso!
Já fiquei sabendo que amanhã ganharei um outro presentinho. Enquanto isso, fico aqui pensando que deveria ter feito mais pela minha inspiradora professora de história do que apenas uma homenagem sincera no Facebook. Ela tinha que saber o quanto tinha sido importante.
I watched The Bridges of Madison County a few months back. And I thought the movie created this awkward elephant in the room. I wondered if it brought up the same issues on other people's minds as it did in mine. Here we have the story of this housewife who isn't particularly unhappy with her married life, but who isn't completely fulfilled either (is anybody ever completely fulfilled with marriage?). One day, while the husband and teenage kids are away on a trip, she meets this handsome, adventurous photographer who happens to be passing by and will only be there for a short while. They have a torrid love affair that lasts but a few days and when he is set to leave, she must make the choice of simply packing up her things and misteriously disappearing with him, or letting go of what could probably be the love of her life in favor of the safe and reliable family she has built over the years. In the end, she takes what could be considered the "moral" path (written in quotation marks, because once she has effectively cheated on her husband, morality becomes something to be questioned), and stays with the family. That is to say, she does "the right thing" (also written in quotation marks, as something to be heavily questioned...).
I remember hearing about The Bridges of Madison County from so many acquaintances who were married women. They would all say such wonderful things about the movie, about the actors portraying the couple (Merril Streep and Clint Eastwood), about the love they shared and how heartbreaking it was to see those final scenes when she makes the choice. And i hadn't realized until I saw the movie what a big elephant in the room it was. Because it was presented in such a beautiful way, that there was no way any emotionally sane person wouldn't be seduced by the story, wouldn't savour the love affair, wouldn't want them to be together. Still, it was the story of a wife cheating on her fully functional family. Plainly put, the movie sets a situation where it is difficult to concile reason and emotion. The question that lingers in my head and that I'd like to ask my married acquaintances is: "are you then seduced by the idea of having an affair like that (fast, intense, adventurous; but with a very high price to pay)?"
[Author's note: "fully functional family" sounds awful, like comparing a family to an appliance. I lack a better antonym for "disfunctional"...]
I guess the actual question is, does the movie make them think about leaving fully functional relationships for a good adventure? I know a fair share of people that would mindlessly answer "of course!". But when it really comes down to it, it's a really tough step to take! And that brings me to another movie ending, in Little Children. But I'm not going to bother you with spoilers on that.
From the tracks on the grass, you can tell a Lion walked here at 9/20/2012 11:35:00 PM
Quarta-feira, Setembro 19, 2012
Bliss
Andei sumido do blog. Quase dois meses. Um dos hiatos mais longos por aqui ever.
Fato é que antes de continuar, há assuntos complicados em um post insalubre que vai repercutir muito mal, mas que eu sinto a necessidade de colocar por aqui só para documentar a vida e fechar ciclos. Talvez o faça em algum momento. Mas não agora.
Agora eu queria postar para a família que lê o blog e a quem infelizmente as duas carreiras concomitantes não me permitem visitar com a frequência que eu gostaria. Queria escrever para dizer que, apesar dos assuntos supracitados, a vida vai muito bem. Mesmo.
Há uma sensação de contentamento nos dias. É um contentamento bem diferente da alegria meio melancólica e solitária de Londres, daquela aventura louca e maravilhosa de experimentar o impublicável e enfrentar os traumas passados. Mas é um contentamento. A palavra adequada vem do inglês: bliss (ainda existe o iogurte?). Um bliss que chega até a dar um pouco de medo, porque como a vida é sempre feita de altos e baixos, vai fazer uma baita falta quando eu deixar de ter. Mas não vamos sofrer de véspera, vamos curtir. Bliss no trabalho do colégio. Onde eu chego e os inspetores que me conheciam de garoto e aluno me dizem "bom dia, professor". Onde a equipe de artes pergunta a minha opinião, quer saber, quer que eu dê ideias. E as idéias que eu dou são aprovadas e levadas a cabo. Eles também dão idéias fabulosas e me dão vontade de voltar a produzir arte (assim que eu conseguir algum tempo para reativar o ateliê...). Onde coisas estão sob minha responsabilidade e eu, pela primeira vez em muito tempo, me sinto amplamente capacitado para gerenciá-las (embora a quantidade delas seja um tanto atordoante...). Hoje estava pensando que é, além da empresa de tradução, uma das primeiras empresas que me contratam onde eu sinto a transparência e o respeito. Onde eu sinto que não tem jogo escondido, não tem discursos prontos para me convencer de como esse emprego é incrível e eu seria louco em abandoná-lo, não tem maracutaia contratual, evasão fiscal, parcela do salário "por fora", sacanagem com o meu FGTS e etc. Respeito. Assim dá gosto de trabalhar.
O colégio é onde eu lido com alunos da metade da minha idade que me fascinam com o modo como (alguns d')eles absorvem o que eu estou ensinando. Eles são um espelho que me faz sentir ainda muito jovem e paradoxalmente já bem experiente. Eles me lembram de mim, nessa idade. E de como eu queria ser nessa idade também. É moralmente questionável, eu sei, mas hoje com a experiência e atrevimento que eu tenho, eu me faço facilmente amigo da turminha popular que eu criticava mas da qual queria fazer parte na minha época de aluno. É uma sensação de que eu finalmente entendi o que é ser cool. Pelo menos para a idade deles... E eles reagem a isso. É gostoso de ver. Às favas com as críticas.
Bliss também na outra carreira, de uma rotina gostosa também. Receber de vez em quando uma mensagem da simpática Erika com mais um arquivo a ser traduzido, chegar em casa e relaxar antes de começar o "segundo turno" do dia. Neste mês me deram a primeira tradução de áudio, tradução simultânea onde eu tinha que gravar minha voz traduzindo em tempo real uma outra gravação. Achei o desafio interessante e me deu uma sensação de estar progredindo, sendo "promovido". E embora eu às vezes relaxe um pouco e perca a qualidade, a Simone, uma chefe que é uma melhor amiga, sabe me dar o puxão de orelha no tom adequado pra separar o profissional do pessoal. Trabalho de casa, na hora que eu quero, mas às vezes dá vontade de ir lá fazer uma visita no escritório, que fica há poucos quarteirões de casa. Só pra falar da vida.
Entre uma dezena de laudas e outra, eu faço uma pausa para aproveitar o bliss do meu apê. Desço para fazer ginástica quando a academia ainda está aberta. Nesta semana, aproveitando o calor infernal e seco que parece não ter fim tão cedo, terminei uma sessão caindo na piscina. Fiquei boiando lá e sentindo o corpo esfriar, e foi aí que essa palavra me veio à cabeça: bliss. Periga isso tornar-se um hábito. Depois de esfriar um pouco, volto pra cima para fazer comida e um café antes de voltar à tradução. O meu espacinho pequeno porém suficiente já está ficando com uma cara muito gostosa, com plantas, meus quadros e boas idéias de design vindas do Pinterest da minha mãe.
Bliss também em ver a Lexy aos poucos estruturando seu negócio, livre das amarras de empresas, seguindo o que meu pai disse ser o caminho da minha geração: o empreendedorismo. Os brownies ainda trazem pouco retorno financeiro (o que ainda gera bastante ansiedade...), mas há um ar muito promissor nas conversas, nas pessoas que curtem a página do Facebook dela, nas parcerias que até eu estou tentando ajudar a forjar. Gostosos também são os nossos domingos indo ao parque, e ela tentando acompanhar o pique que eu tenho tido desde que comecei a andar de skate.
Claro que há os amargores. Quando eles não estão presentes, a vida fica monótona e eu me ponho a fazer daquelas loucuras meio destrutivas (embora cheias de poesia). Tem sempre para onde desenvolver a vida, os projetos que nunca conseguimos arranjar tempo para fazer, os percalços da carreira de professor que eu ainda preciso aprender a resolver, as feridas das quedas de skate, a decoração do apê que sempre anda lenta demais pela falta de grana. Sem falar nos assuntos insalubres.
No entanto, há que se prestar atenção no positivo da vida. O resto a gente resolve aos poucos. Sem pressa. Se não resolver também, paciência.