Edgewalker Lion -- Pessoa com carro, contraceptivo e madrugada

Sexta-feira, Novembro 20, 2009
 

Mudanças

Sejamos francos: este blog estava um porre.

Dia desses, um dolorosamente sincero amigo meu comentou sobre este fato. Começamos a conversar sobre porque isso tinha acontecido. Afinal, esta página já foi muito apreciada pela qualidade da literatura. O que aconteceu?
Quando comecei a escrever, minha proposta era de escrever como se o fizesse para mim mesmo. O que é diferente de fazê-lo de fato, pois se estivesse verdadeiramente escrevendo para mim mesmo, não publicaria meus textos na internet (uma lição que muita gente desconhece e por isso reclama da suposta "falta de privacidade online"). Mas eu queria escrever com a poesia e a autenticidade de quem escreve para si mesmo. O gosto da literatura de diário adolescente.
Acredito que, por pelo menos um ou dois anos, eu fiz exatamente isso. Mas então entrei no processo que todo escritor de blog entra, de descobrir as consequências de ter uma opinião tornada pública. Esse tipo de literatura leva muito de opinião pessoal e pieguices passionais. E essas coisas às vezes machucam quem ficou de fora dos elogios. Ouvi muita reclamação, troquei muitas farpas virtuais... Tive até ex-namorada que veio escarafunchar críticas minhas anos depois que eu as havia escrito. Eu poderia lidar com tudo isso de duas formas: bater de frente e esperar calejar, descartando da vida (e do blog) as pessoas que não conseguissem aguentar opiniões pessoais; ou pisar em ovos, ser diplomático e criterioso com o que eu escrevia por aqui. Não tive força pra escolher a primeira estratégia, então optei pela segunda.
Nos anos que se seguiram, o blog passou a ser uma tediosa procissão de resenhas culturais. Filmes, exposições, ensaios sobre teoria artística e outras chatices acadêmicas... Pessoalmente, eu estava satisfeito. Ainda escrevia "para mim", sobre coisas que muito me interessavam. Mas condenei os leitores a desbravarem uma terra estéril e asséptica, cheia de termos e assuntos que não lhes interessavam. O blog passou a ter um caráter informativo e didático, apoético. A pouca poesia que aqui havia se resumia nas imagens de trabalhos e pequenas coisas que eu colocava. E no entanto, nem mesmo essa função de informar sobre o mundo da arte ele estava cumprindo direito. Fui a muitas exposições e eventos que não tive paciência para relatar aqui. E mesmo que o fizesse, ninguém estava interessado em ler. Minha turma de artes plásticas, que seria a mais interessada, é meio alheia ao mundo dos blogs. E quem conhece e participa desse mundo não é tão interessado assim por arte profissional.

Quando percebi, estava sozinho.

Tinha perdido os poucos leitores que vinham até aqui pela poesia e não soube ganhar novos que aproveitassem a informação. Recentemente, além da solidão, comecei a perceber o lento definhar do pouco que restara neste blog. A preguiça e falta de tempo para relatar as coisas, o desinteresse. Meses inteiros quase sem conteúdo. Praticamente a única coisa que ainda mantem esse blog vivo é sua idade, porque morro de pena de dar um fim a algo que já vem acontecendo há tantos anos e secretamente tenho esse orgulho de ser o último blog vivo da época em que todos nós escrevíamos. Algo como minha avó e o TBC.

Mas estou em uma época fértil de mudanças em que estou reorganizando muitas coisas, prioridades e detalhes da vida. E por que não incluir o blog nesse processo? De fato, eu tinha pensado (como sempre penso e raramente faço) em inaugurar um novo layout no meu aniversário. Aproveitaria assim para inaugurar uma nova fase nos textos. Voltar a ter poesia nas coisas. E que ela atraisse os leitores, antigos e novos.

Pois bem, ei-lo, o novo layout. Passa a fazer parte da identidade visual que estou usando profissionalmente, com meu leão e tudo. Por enquanto, ainda está em fases iniciais. Ainda não descobri como colocar vários dos efeitos e serviços que eu queria, mas isso vai sendo feito aos poucos. Opiniões de todos (tenho dúvidas sobre as cores...) serão muito bem vindas. O que importa por enquanto é sinalizar a mudança. E coroar assim o despertar de consciência que começou há exatamente um ano.

[Ah, sim... e eu tirei a musiquinha pentelha]

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Quarta-feira, Novembro 11, 2009
 

Red Bull House of Art

Como diria meu professor de física do colégio: "tive três orgasmos com essa notícia..."

A Trip publicou em seu site uma notícia sobre este projeto da Red Bull, a cargo dos curadores Lucas Bambozzi e Maria Monteiro, que colocará a partir de hoje dez artistas de diferentes nacionalidades para habitar um hotel do centro de São Paulo por 30 dias. Durante este tempo, os artistas devem produzir trabalhos relacionados ao espaço, ao centro urbano, à cidade. O rol de "vítimas" desta primeira edição conta com gente do Brasil, África do Sul, Japão, Alemanha, Argentina, Portugal e dos Estados Unido. São pessoas dos mais variados tipo, idades e mídias, sem nada um comum, o que estimula a riqueza do diálogo e a diversidade, bem ao estilo Red Bull. Entre os brasileiros, está em destaque a queridíssima Regina Parra, do desmantelado grupo 2000e8 [1] [2].
Interessante, o site da Trip aponta, é que os artistas vão para o espaço sem um projeto definido, tendo que criar do zero a partir do espaço. Como incentivo, os organizadores ainda levarão seus acólitos a diversas exposições relevantes em São Paulo, como a da Pippilotti Rist no MIS e da própria Regina na Galeria Leme, além de galerias fora do circuito tradicional, como a Choque Cultural e a Casa da Xiclet (!).

Fiquei imaginando o que eu colocaria por lá. Provavelmente etntaria fazer uma idéia antiga, do tempo da faculdade, quando eu ainda estava pintando a Virgem e o Menino e obcecado com temas recorrentes da pintura antiga. Era uma idéia de fazer a Venus, como uma pintura gigantesca na lateral de um prédio do centro. As pinturas da Venus antiga expressavam o ideal de belza feminina da época, e a minha seria uma modelo de revista, daquelas que anunciam "15 maneiras simples de perder uns quilinhos para o verão" ou qualquer outra futilidade estética. Só que apesar da linguagem publicitária, ela não estaria vendendo nada. Apenas estaria lá, do tamanho de uma deusa inatingível e maior do que qualquer homem.
Claro que a atual lei contra outdoors seria um empecilho... Mas será que há excessões para obras de arte? Algo a pesquisar...

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Quinta-feira, Novembro 05, 2009
 

Homens que dizem não

A propóstio, ao ler meu último post, Nana me passou um link para uma matéria que fala justamente do assunto de sexo como mecanismo de controle masculino. Achei relevante.

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Quarta-feira, Novembro 04, 2009
 

Atualizando

Quase um mês sem atualizar isso aqui... E eu que queria transformá-lo em um blog sério, estou indo por um péssimo caminho.

Sem títuloNo começo de Outubro, terminei o primeiro quadro da nova série. Apelidado de "A Casa na Colina", mas oficialmente sem título, foi a tentativa de transformar uma tela que eu não conseguia continuar mas não queria jogar fora em algo útil. O resultado me satisfez, embora eu já tenha me dado conta de como poderia ter feito uma pintura ainda melhor. No fim das contas, ficou um quadro gostoso. E eu ainda fiz um vídeo da evolução dele.
O resto do mês de Outubro foi algo de um desperdício benéfico. Pois embora eu não tenha cumprido a promessa de uma obra por mês, tive muitos trabalhos como freelancer e ganhei uma considerável quantidade de dinheiro. Ah, se todos os meses fossem tão produtivos nesse aspecto...
De fato, eu tinha planos para a próxima obra em Outubro, um objeto em vez de uma pintura. Mas não tive coragem. Sabe, esta primeira pintura que fiz lidava com um dos três aspectos que hoje eu identifico da questão masculista: o sentimento de inferioridade do homem atual em relação à mulher atual. Os outros dois aspectos são a ausência da figura do pai/mestre e o uso do sexo como mecanismo de controle do homem. Meu objeto de Outubro tinha a ver com este último. Mas então lembrei de outros trabalhos que fiz que lidavam com sexualidade tão abertamente, e de como no fim acabavam sendo obras vazias, desnecessariamente chocantes e muito frustrantes. Trastes que hoje perambulam o ateliê embalados e cobertos para sempre porque meu pudor não me permite mostrar. Não acho que seja o caso desta obra, mas estou sendo prudente. Ainda estou me acostumando com a idéia. Se eu achar que passou tempo suficiente e ainda não me envergonhei dela, voltarei a entreter a idéia de produzir a peça.
Agora em Novembro, a brincadeira vai tomar outros rumos. A idéia seria produzir algo baseado no terceiro aspecto, a ausência do mestre/pai. Mas em conversas produtivas com o Marco Guerra, um professor de história da arte amigo de minha avó, surgiu outra idéia interessante que talvez renda as minhas primeiras exposições realmente relevantes. Ele interessou-se pelos meus retratos da época da faculdade e sugeriu que eu fizesse retratos dos meus avos, importantes figuras do teatro nacional e principalmente do surgimento do TBC (Teatro Brasileiro de Comédia). A sugestão não poderia vir em melhor hora. Lexy está pesquisando o TBC para seu trabalho de graduação e estamos descobrindo farto material a respeito daquela época.
Assim que resolvi tomar a idéia do professor Guerra e jogar do meu jeito. Peguei os últimos dias de Outubro que me restavam para fazer pesquisa com minha avó, procurando peças relevantes, atrizes fortes e diretores que fizeram história naquela época. E ontem comecei a produção das primeiras duas pinturas dessa série. Todas explorando atrizes do TBC em peças que lhes proporcionaram personagens femininas fortes como as mulheres pós-Feminismo. As imagens de referência são do fotógrafo Fredi Kleeman, que acompanhou o surgimento do TBC, fotografando os primeiros ensaios e as apresentações históricas.
O professor diz que, se eu conseguir produzir essas obras até o começo do ano que vem, poderia me arranjar uma exposição em uma galeria na Augusta. A idéia muito me interessa. Mas ainda que isso não aconteça, seria a forma perfeita de abordar o pessoal do teatro do meu avô e organizar uma exposição por lá. Tenho certeza que isso chamaria alguma atenção. Pelo assunto, pela relação dos avós e do neto, e quem sabe até pela qualidade das obras.

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Domingo, Outubro 11, 2009
 

Educação Artística

Soube recentemente que o Ministério da Educação andou promovendo reformas no ensino de arte nas escolas. Dentre outras coisas, tornou obrigatório a partir do ano que vem o ensino de música nas escolas de Ensino Fundamental. Achei até que a medida foi tardia. Em outros países onde estive, a música é parte obrigatória do programa de qualquer escola. Aprendi a tocar aquela odiosa flauta doce quando criança por causa disso. Embora tenha esquecido quase tudo do instrumento assim que saí daquele colégio em outro país, as noções de canto me acompanham pela vida toda e facilitaram o episódio da banda de rock que tive em 2007. Mas não é apenas isso, me deram uma noção de música, de composição e de compositores.
De volta à terra natal, tive aulas de educação artística no restante do Ensino Fundamental. Eram aulas de qualidade questionável. Embora ensinassem o desenho de perspectiva, coisa que eu veria novamente no curso de desenho que fiz na adolescência e uma terceira vez quando entrei para a faculdade de arte, o resto de seu conteúdo era praticamente irrelevante. Por exemplo, passamos um semestre vendo o Futurismo, um movimento das vanguardas do século XX que não chega a ser mais do que uma nota de rodapé nos livros de história da arte sobre a época e pouco nos ensinou das importantes mudanças de pensamento que ocorreram nas primeiras décadas do século. Não é de se espantar que o colégio onde estudei fosse notório pela quantidade de alunos que saíam de lá para entrar em faculdades de engenharia e que as estatísticas apontasse pouquíssimos alunos interessados pelos cursos superiores de artes plásticas.
Mas o ensino deficitário de arte na adolescência tem outras consequências visíveis na população do país. Estive conversando com Marília "Bombom" Jardim, uma performance artist conhecida da Lexy que acabou virando boa amiga e colaboradora em projetos de arte. Discutímos recentemente sobre a situação dos colecionadores de arte na cidade e do que de fato chega ao mercado. Obras que na maioria das vezes têm um apelo pop ou decorativo, produzidas por artistas que não estão realmente interessados em fazer qualquer ligação com a história da arte, compradas por gente endinheirada que nada entende do que está comprando e escolhe de acordo com a reputação do artista ou o quanto a obra vai combinar com a sala de estar. Poucos são os colecionadores que de fato entendem de arte: uma elite cultural. Poucos também são os artistas, depois desse tempo todo em que o MEC menosprezou o ensino de arte nas escolas. Bombom parece ser uma pessoa com boa formação artística em colégio construtivista, que sabe o que está fazendo e como aquilo se enquadra na história. De minha parte, tenho que me admitir fruto do colégio onde estudei, e confessar que talvez ainda esteja pensando na minha produção como algo isolado da história, como o fazem todos os outros pintores da minha geração. Afinal, nossas técnicas são centenárias e voltam aos resultados vistos antes dessas décadas de abstração e negação da pintura de cavalete. Na verdade, sequer consideramos muito do que se passou na arte das últimas décadas quando escolhemos o bom e velho óleo sobre tela. Sei que no futuro chamarão este momento de uma espécie de "retorno à ordem e à técnica". Concordo, mas não deixa de ser justamente um retorno, uma espécie de retrocesso.

Voltado à questão dos Ensino Fundamental, passei no meu antigo colégio esta semana. Conversei com professores e com o diretor para ter uma noção do que é preciso para tornar-me um professor de artes do colégio. E fiquei sinceramente maravilhado com o modo como as determinações do MEC mudaram o ensino de arte por lá. O curso agora é bem prático, ensinando desenho, depois pintura, e então fotografia e vídeo nos últimos anos. Os alunos fazem. Não apenas isso, encontrei nos trabalhos que vi, referências a artistas desde Da Vinci até Andy Warhol, e técnicas tão alternativas para crianças quanto a xilogravura, que só fui conhecer no segundo ano da faculdade.
Régis, o coordenador do curso, me conta que alguns vetibulares já estão perguntando até sobre os metaesquemas do Hélio Oiticica, como aconteceu na última prova do recém-criado curso de direito da FGV. Claro: crie essa necessidade no vestibular e todos os colégios passarão a ensinar a matéria.
O assunto todo me deixou interessado: com essa nova determinação do MEC, a demanda por professores de arte vai crescer. É aí que eu entro: já estou pesquisando como e onde fazer a licenciatura...

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Terça-feira, Setembro 29, 2009
  Finalmente terminei o pequeno livro sobre pós-modernismo da Eleanor Hartney. Demorei porque passei muito tempo em um capítulo sobre o feminismo no pós-modernismo, querendo esmiuçar todos os detalhes.

Como já expliquei por aqui, as primeiras feministas na arte criavam obras que apresentavam os aspectos da mulher como natureza, corpo e emoção, tentando transformar esses assuntos de críticas e formas de dominação em qualidades boas a serem louvadas. As feministas subsequentes argumentaram que ao fazer isso, elas estavam afirmando as noções de feminino determinadas pela sociedade patriarcal. Então essa nova geração de feministas, do pós-moderno, centraram sua pesquisa mais na iconoclastia, em destruir a forma como a noção do feminino é socialmente construída. Destruir a representação (um dos objetivos-chave do pós-modernismo).
O mesmo tipo de raciocínio é aplicado ao multiculturalismo, onde culturas estrangeiras diferentes da cultural do homem branco ocidental eram relacionadas ao espiritual e ao instintivo, sendo tão ilógicas para a sociedade ocidental quanto o universo feminino. O multiculturalismo pós-moderno procurava também desconstruir essas noções, e em vez de procurar uma volta e validação das tradições raciais, procurava questionar o porquê da superioridade do homem branco ocidental e da inferioridade das outras raças e crenças.

Ao ler tudo isso, imaginei que o mesmo tipo de erro pode e deve ser cometido pelo Masculismo. Acho importante, porque faz parte do processo. Que a primeira fase da pesquisa seja mesmo de reafirmar os valores anteriores do masculino, para depois partir disso e buscar algo mais pós-moderno, novo e autêntico. Por isso talvez seja preciso revisitar o homem de 1950 ou mesmo o anterior, medieval, bárbaro. Para entender o que era valioso nele e que foi perdido, e o que de fato não serve mais. Voltar inicialmente so estereótipo do homem caçador, conquistador, paterno e monárquico.
Depois disso, vamos lidar com a iconoclastia, com a questão das armadilhas sociais e noções socialmente construídas do que deve ser um homem.

Minha produção de ateliê, imagino, está indo por outros caminhos. Já planejo para este próximo mês algo que seria mais próximo dessa segunda fase. Mas de qualquer jeito, é bom ter isso em mente para organizar a produção quando eu finalmente tiver coisas suficientes para expor.

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Segunda-feira, Setembro 28, 2009
 

And so comes the Dawn

Comemoremos! Aurora nasceu!

Certa vez, quando nasceu um dos filhos do pessoal na fazenda de minha avó, meu pai passou para visitar o recém-nascido. A caminho do lugar, encontrou um dos senhores que trabalhava por lá que disse-lhe, com aquele tipo de sabedoria surpreendente da roça, que ele ia conhecer alguém pela primeira vez. Meu pai ficou surpreso com a veracidade da frase. De fato, ele ia conhecer uma pessoa nova, uma nova consciência, que ele desconhecia antes não só pelo fato de que nunca havia visto a pessoa, mas porque ela de fato não existia. Era uma nova pessoa com mentalidade e decisões próprias.

Sinto uma espécie similar de epifania escrevendo o nome dela pela primeira vez em negrito por aqui, como o faço com outros nomes próprios. Aurora já existe no meu blog, como pessoa e não mais apenas como promessa.

Parabéns, mocinha!

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Sexta-feira, Setembro 11, 2009
  O quadro da casa na colina prossegue.

Ocorre-me que ainda não lhe dei um título. Me ensinaram na faculdade que dar aqueles titulos redundantes é feio (uma natureza morta com uma maçã e um vaso entitulada "natureza morta com maçã e vaso"...). Afinal, os títulos deveriam agregar um dado extra à pintura, não simplesmente ser mais do mesmo.
Desenterrei alguns livros antigos de pintura que "herd(roub)ei" das minhas tias do nordeste onde lembrava ter visto dicas sobre pintura de árvores. Achei algumas coisas bem relevantes e desbravei as florestas traumatizantes do quadro. Os resultados me agradam muito. Hoje terminei o gramado. Só falta fazer uma reforma na casa (quem dera reformas fossem tão rápidas quanto uma pintura...) e pronto, o quadro estará pronto para a parte mais legal: pessoas!
Vou retomar minha pesquisa de onde eu parei, na idéia da mulher enorme sendo desejada pelo garotinho [1]. Por enquanto, é a representação mais adequada que tenho da situação masculina hoje.

Lendo sobre o Feminismo naquele livro sobre pós-moderno da Eleanor Hartney, li uma parte que comentava sobre a Primeira Onda do Feminismo na arte, onde as artistas focavam nos aspectos femininos da gravidez e menstruação, na mulher como deusa. Não poupavam imagens de nudez feminina para representar isso. As feministas da geração seguinte criticaram essa postura, porque ainda apresentava a mulher de acordo com parâmetros da sociedade patriarcal: mulher como corpo, mulher como objeto de desejo. As artistas dessa segunda geração procuravam uma arte que não sensualizasse a mulher.
Daí comecei a pensar que, se eu colocasse a gigantesca mulher dessa pintura nua, estaria sendo meio retrógrado. Porém a idéia de vesti-la encontrava duas resistências: primeiro o meu gosto pela nudez em pintura (mesmo que isto seja de fato uma atitude machista retrógrada...), e depois a questão de com que roupa vestir a mulher.

Ainda não resolvi o assunto. Espero estar decidido até terminar de reformar a casa. Voltando do ateliê, ocorreu-me que também estaria ilustrando o rapaz nu. De certa forma, isso nega a configuração machista da mulher aparecer sempre nua e o homem sempre vestido. Mas talvez isso seja apenas eu tentando achar uma justificativa pra ter gente pelada na pintura e me livrar do incômodo de ilustrar roupas...

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Segunda-feira, Setembro 07, 2009
 

Rearranjo conceitual

Há algum tempo, fui assistir a peça "Os Sete". Eu a recomendaria, se não tivesse sido a última apresentação por falta de patrocínio...
Escondida sob a trama da peça estava a história da Branca de Neve. A peça tinha sete homens assassinados para que uma personagem conseguisse sete ingredientes de uma poção, tinha a lendária maçã, qualquer coisa relacionada a espelhos, velhice e beleza.
Na verdade, o que o autor fez foi um processo muito legal e em voga na arte contemporânea (seja literária, musical, plástica ou teatral), que eu acabo chamando de rearranjo conceitual. Seria mais fácil explicá-lo com imagens, mas tentarei fazer isso por escrito...
Neste caso específico, ele pega um assunto como a história da Branca de Neve e elenca a maior quantidade possível de conceitos relacionados a ele (espelho, beleza, maçã, o número 7, etc...). Depois rearranja as combinações, e principalmente a hierarquia de importância entre os conceitos. No caso da peça, o número 7 que era um detalhe da história original, passou a ser até o título da obra.
A estratégia tem forte ar de contemporaneidade. Estamos em uma época onde linearidade é quase um pecado. Depois da internet, não procuramos mais informação de forma linear. Depois dos ARGs, o nosso entretenimento não é mais linear. Depois de filmes como Magnolia, Mulholland Drive e 21 Grams, nosso modo de contar histórias não é mais linear. Em todos os casos, os conceitos isolados são apresentados a esmo e o público só tem a noção do todo quando conseguir fazer a conexão (não-linear) entre as partes.
Outros exemplos de rearranjo conceitual já passaram por aqui. The Path, o jogo da Chapeuzinho Vermelho, até fazia questão de continuar no âmbito das histórias infantis.

Experimente! É um processo relativamente simples de brainstorming criativo e dá resultados ótimos. Pra quem continua achando que sensibilidade artística não é outro tipo de lógica.

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Sensibilidade e disciplina

Levei uma semana para fazer as últimas organizações e limpeza do ateliê e voltar a produzir. Na sexta, quando cheguei à casa de minha avó, ela estava revendo fotos à procura de alguma coisa mais atual de mim e do meu irmão, já que as últimas fotos que tinha eram de épocas em que nenhum de nós ainda tinha decidido cultivar barba. A última foto que tinha de mim devia ser de 2002 ou 2003. Eu estou dentro do ateliê e ele ainda é muito precário. Meio ateliê, meio quarto de depósito, minhas pinturas dividem espaço com tapetes velhos, luminárias e outras coisas espalhadas no chão de madeira. Há muito pó e muita sujeira em tudo. No cavalete, o retrato da Nana está sendo copiado para ser dado a ela como presente de aniversário. Hoje, o quarto já é quase totalmente um ateliê, abrigando apenas um ou outro ítem de memorabília de minha avó. O chão de madeira foi trocado por um de azulejo mais fácil de limpar e branco para melhorar as condições de iluminação. As telas foram cuidadosamente colocadas em um teleiro depois que perdi uma ou outra por descuidos de estocagem e tudo é muito limpo (na medida do possível). Teria orgulho hoje de receber outros artistas no meu ateliê. Acima de tudo, virou um lugar de disciplina. Tudo tem seu lugar e nada deixa seu posto a menos que seja usado. Depois é guardado prontamente. A disciplina só não é completa, porque ainda não consegui estabelecer uma rotina de horário, dar a importância devida ao ato de bater ponto lá em determinada hora e produzir até o fim do dia. Gastei um pouco do tempo desta semana indo atrás de material e últimas coisas que faltavam no ateliê. Mas convenhamos, só tive uma semana disso... Ainda leva algum tempo.
Na fila de produção, resolvi começar desatravancando trabalhos antigos nos quais eu empaquei. O quadro que fazia parte do tríptico para a sala de casa, que parou depois que Bia criticou o modo como eu estava pintando a floresta, vai virar a primeira obra desta nova fase, dentro das premissas da pesquisa masculista. O retrato de Lexy vai receber a chapa de acrílico final com uma brincadeira a mais. E já estou quase terminando a caixa de chá pintada com a Alice que devo de presente à Lexy. Metas de Setembro.

Uma obra por mês. No mínimo. Sempre masculista.

Em conversas recentes com parentes e amigos, surgiu de novo o assunto da sensibilidade. Como sempre pareceu muito estranho para muita gente que eu tivesse essa obssessão espartana por ordem e disciplina e ao mesmo tempo a sensibilidade de um artista plástico. Meu pai, especificamente, não entendia como podía fazer parte da minha estratégia me isolar em outro país por um ano para "sentar a bunda na cadeira e produzir". Não entendia como arte podía ser essa atividade com hora marcada, quase mecânica.
Outro das séries de estereótipos ligados à carreira de artes plásticas é isso de que você vai viver uma vida totalmente dionisíaca e não-cartesiana, onde sua produção vai depender de uma inspiração de momento, imprevisível e soberana, sem a qual você não pode começar a produzir. Minha observação do pessoal do 2000e8 sugere exatamente o contrário. Eles produzem disciplinada e constantemente. A inspiração não define a obra específica ou o começo da produção, mas sim a série inteira de obras. Eles produzem sobre a mesma idéia, dia após dia, até esse lendário momento de inspiração fugaz trazer a próxima grande idéia. E daí começam uma série nova. Pode ser amanhã, pode ser no ano que vem. Mas enquanto essa idéia não vem, eles continuam produzindo sobre a mesma idéia. Só assim garantem um volume de trabalho suficiente para serem artistas comercializáveis.

A sensibilidade não é nada além de outro tipo de lógica.
Uma lógica de escolhas baseada na intuição, que por sua vez é baseada na experiência. Já fiz determinadas coisas tantas vezes, já juntei determinadas cores tantas vezes, que passo a ter uma memória inconsciente do que dá certo ou não. Alguns acham que isso é sensibilidade inata com as cores, com sabores, com palavras; mas é experiência.

Há menos magia na sensibilidade artística do que se pensa ou se admite.

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