Stone Lion - Black Rock version

segunda-feira, Março 24, 2014
 

Equipe do Mural - Semana 1

Vou tentar resumir a história até o momento, aproveitando que estamos ainda no começo. 

Desde que cheguei para dar aulas no Colégio, uma das coisas que me chamou a atenção foi que a professora de Artes que dava aulas antes de mim tinha conseguido um verdadeiro milagre: havia agora trabalhos de arte dos alunos espalhados por algumas paredes do Colégio. O milagre se dava pelo fato de que o arquiteto responsável pela identidade visual do Colégio era radicalmente contra qualquer desses tipos de "interferências", zelando sempre por paredes ou imaculadamente cinzas de concreto, ou com tijolo aparente, que de fato haviam se tornado a marca registrada da instituição. No meu primeiro ano, eu convivi com um enorme mural no pátio, que era uma mistura de referências da história da arte, da Mona Lisa, ao Abaporu. Só que durante as reformas das férias deste ano, devido à colocação de novos aparelhos de ar condicionado, o mural foi danificado, e alguém ordenou que fosse pintado por cima. Fiquei feliz com a reação dos coordenadores, que acharam aquilo um absurdo e prontamente montaram planos para refazer o mural. Eu me candidatei a chefiar a empreitada, que passaria a dar um objetivo para o meu curso de pintura que saíra do Memorial da America Latina no ano passado por causa de uma enchente e um incêndio (sem relação com a minha presença por lá, diga-se de passagem...) e agora estava sendo ministrado no Colégio mesmo. 

Ao contrário do que eu tinha feito no ano passado, anunciei o curso para pessoas que já tivessem alguma experiência de pintura, para montar uma equipe que não precisasse começar do zero em suas noções de cores, materiais e etc. 

A nossa primeira reunião trouxe uma colcha de retalhos de jovens artistas. Muita gente que desenhava, uns poucos que pintavam. Retratos, paisagens, esqueletos, modelos de moda... Eu sentia que dava pra trabalhar com estes poucos. Mas apesar de perceber que eles tinham conhecimento técnico, tinha medo de que eles não conseguissem se soltar, falar de assuntos mais pessoais, aqueles verdadeiramente interessantes, que fariam o Colégio perceber o mural, levá-lo a sério. Eu não queria que o mural acabasse sendo uma pinturinha comportada para papai e mamãe verem. 

Afinal, o que eu queria com o mural? Eram vários impulsos que me moviam... 
É claro que eu queria que o mural tivesse referências da história da arte. Não dá pra ignorar o passado, as origens, os grandes mestres. Mas fazer só isso seria um desperdício de espaço, esforço e esperteza. 
Um outro professor do Colégio tinha recentemente feito uma turma de fotografia extra-curricular, onde ele conseguira explorar com os alunos as opiniões que eles tinham de adolescência. Eles tinham expressado toda a dor, as ansiedades e as dúvidas dessa idade. Eu queria que o mural fosse mais assim. Que ele não exaltasse o Colégio por obrigação, mas também reconhecesse que tinha muita coisa aqui que fazia a adolescência valer a pena. 
Também queria que ele servisse como um chamado para atacar uma mentalidade vigente no Colégio desde a época em que eu era aluno, e que considerava arte uma futilidade. E quem era interessado por arte um diletante estúpido, ou pior, um CDF. Eu queria que o mural desse status a quem faz arte mesmo. A quem sente, a quem presta atenção nas coisas, a quem põe a mão na massa e entende de estética, design. 

E nesse último quesito, fiquei muito feliz quando algumas outras pessoas apareceram no segundo encontro. Eram alunos do segundo ano, algumas que tinham participado do curso de pintura do ano passado. Muita gente com ares de grafiteiros, de gente descolada, ou daquele jeito que na minha época era chamado de gótico, passou a ser emo e hoje era chamado às vezes de hipster. Eles eram desprezado em alguns círculos por serem diferentões, mas eram a turminha popular de outros círculos. Eu gostava bastante dessa gente porque eles experimentavam a vida. Roupas diferentes, novos jeitos de se comportar, de se querer, e principalmente de fazer. Eles não tinham medo. Se ficasse ruim, jogavam fora e começavam de novo. 

Eu ainda não vou dar nome aos bois (e vacas, sem intenção pejorativa...). Ainda é cedo, e eu suponho que muitos desse grupo ainda vão desistir e outros ainda vão entrar. Mas basta dizer que eu acho que temos uma mistura MUITO saudável de todo tipo de gente que o Colégio tem. Tipo um Breakfast Club do Colégio. São pessoas estranhas, e é isso que eu gosto em todos eles. 

No nosso primeiro encontro de trabalho mesmo, eu mostrei a eles como fazer transferência com thinner e fizemos novas edições de dois dos meus Phallics de Londres. Depois propus a eles para criarmos algum espaço para podermos falar anonimamente sobre tudo. Uma das meninas propôs uma conta de e-mail. Todo mundo tem a senha e pode mandar mensagens aos integrantes do grupo por esse e-mail. Ninguém sabe quem mandou. Acho que vai ser bom para desinibir essa turma. Se pudermos quebrar a barreira da timidez e do medo da reação dos outros, acho que esse grupo vai ter ótimas perspectivas.   

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Miopia seletiva

Eu percebi o problema pela primeira vez durante o meu segundo ano de aulas no Colégio, em uma aula sobre proporção humana. Além de ter todo o esquema de proporções do corpo (as 7 cabeças e tal) projetado na frente da sala, tinha feito outros rabiscos e desenhado outro corpo ao lado da projeção. No que, até então, era uma imagem corriqueira das minhas aulas, eu estava passando por entre as mesas, respondendo a chamados de alunos que queriam saber apenas uma coisa: "Psor, tá certo?" Eu ia respondendo com toda sinceridade, sim, não, quase lá, tá errado aqui e ali. Mas em uma turma particularmente barulhenta, me vi sobrecarregado de alunos pedindo minha atenção por essa pergunta tão simples. E aí me bateu: por que é que eles perguntam, se a resposta está diretamente na frente deles? Passei a responder de uma forma até um pouco mais grossa, dizendo "largue o lápis, olhe para a lousa".
"Mas psor, me diz você se está certo!"
"Largue o lápis, olhe para a lousa".
Os alunos demoravam algumas repetições até fazer o que eu estava pedindo. Depois eu perguntava: "está parecido com o seu caderno ali no pescoço da figura?"
"Mas psor...."
"Está parecido com o seu caderno?" eu insistia.
"Não mas..."
"Então não está certo, né?"
O aluno reagia não como se fosse contrariado, mas como se levantar a cabeça e olhar para o que estava sendo colocado diante deles fosse uma tarefa árdua, pensar na informações fosse exaustivo. Ter o rápido sim ou não do professor era muito mais confortável.

Essa aparente miopia dos alunos, que incapacitava por vezes até os que se sentavam à frente de enxergar as respostas dispostas diante dos olhos deles, ganhou ares de seletividade mais adiante, no final daquele ano. Na última aula de um 9º ano, que jamais teria aula comigo de novo, eu me dei por vencido diante de uma classe totalmente descontrolada, que não respondia a pedidos de silêncio nem ao silêncio do professor, mas continuava me rodeando em volta da minha mesa, pedindo orientação sobre o que estudar para a prova. O problema ali era que todos os que me rodeavam estavam essencialmente perguntando a mesma coisa, mas todos queriam uma resposta tête-a-tête, única, para aquele indivíduo.
Vencido, eu abri um Word projetado na lousa e passei a escrever as orientações para a prova. A quem me perguntava, eu respondia lacônico: "na lousa..." e voltava a escrever. A balbúrdia não cessou, mas os alunos passaram a ler, todos juntos, às mensagens que eu projetava, voltando depois à mesa para fazer mais perguntas.
Mas o que mais me chamou a atenção foi quando, entre os alunos lá na frente, eu vi alguns deles tirando seus iPhones para fotografar a tela. Mudei de fonte de letra, e passei a escrever:

[perceberam como ninguém dá a mínima para o que eu falar, mas se eu escrever, todo mundo lê e ainda fotografa? Entendamos assim: contato direto não funciona, vocês precisam ler depois uma foto do que eu ia dizer agora. São três graus de separação: fala - escrita - foto. Quanto mais separado eu estiver de vocês, mas atenção eu terei?]

A ideia parecia familiar. Me lembrava daquela outra cena comum das aulas, quando algum dos alunos perguntava: "Psor, isso tá no site do Colégio?". E a partir do momento em que eu respondia afirmativamente, aquele aluno ia perder qualquer atenção na aula e passar a jogar em seu iPad, crente de que poderia ter o mesmo efeito assistindo à aula ou pegando os arquivos do site. Ninguém mais escrevia nada. Quando muito, fotografavam uma tela projetada lá na frente. A foto, claro, jamais seria vista por eles.

Hoje aconteceu a cena mais recente dessas. Ultrajado porque ninguém lhe disse que os sketchbooks valeriam nota, um aluno do 8º ano me confrontou, dizendo que essa informação não estava no site do Colégio. Aproveitava ainda para confrontar as datas erradas que eu tinha colocado no site sobre a entrega de um exercício fotográfico. Incrédulo, eu só pude questionar se a minha presença lá na frente ainda valia alguma coisa. Eu tinha avisado sobre o valor dos sketchbooks na primeira aula do ano, e anotado no canto da lousa, como de praxe para qualquer lição de casa, a data da entrega do exercício. Mas de nada importava, o site do Colégio ditava as regras. Era ao site que eles respondiam. O site era tudo. Eu, ali na frente, era uma distração barulhenta, incompreensível como os professores do Charlie Brown. Comentei com a classe, que eu conseguira miraculosamente acalmar, que do jeito que as coisas estavam, o Colégio poderia disponibilizar aulas no site, e ninguém precisava estar lá. Alunos pesquisariam em casa, professores só viriam ao Colégio para administrar provas.

E por mais que, no fundo da cabeça de qualquer um, essa possibilidade parecesse tentadora, havia uma falha desumana nesse tipo de raciocínio, e ela tinha absolutamente tudo a ver com a minha matéria. Eu viera a compreender ao final do meu segundo ano de aulas, que o que eu deveria estar ensinando a estes alunos não era a história do surgimento da fotografia, ou que misturando cores primárias nós chegamos às secundárias. Não era a sucessão de movimentos de arte ou o jeito "certo" de fazer um roteiro de filme. Eles precisavam aprender uma coisa ainda mais básica. Uma coisa que eles estavam perdendo com o avanço tecnológico. Uma coisa que eles talvez só fossem perceber muito depois de se formarem da faculdade, quando a vida perdesse o sentido e parecesse fria demais. Eles precisavam aprender a ver.

Eles precisam aprender a ver em vez de apenas enxergar. A ouvir em vez de apenas escutar. Sentir em vez de só tocar (continuo achando o touchscreen a maior ironia desta época...). No âmbito da Lexy, ela diria ainda em saborear em vez de apenas experimentar. Era uma questão de percepção. Estes alunos estavam com a percepção tão embotada, tão atrofiada, tão esquecida, que haviam desenvolvido esse tipo de miopia seletiva, de visão meramente funcional, que só servia para navegar o ambiente sem bater nas mesas. Porque nem para ler servia direito. Para isso, tinha algum professor que lia por eles. As respostas estavam diante deles, assim como aquele desenho de proporção estivera, e eles não conseguiam VER!!

E naquele momento de compreender isso, eu tive raiva. Deles, dos pais deles, dos iPads e iPhones deles, de toda essa situação. De mim, por toda a impotência diante do valor cada vez mais questionável que eu tinha como professor. E a questão não era que eu achasse que seria substituído pela internet e aparelhos de mão. A questão é que estas coisas jamais ensinariam a estes alunos sobre percepção. Elas eram necessárias hoje, faziam parte da realidade deles. Mas valiam à pena se o preço a pagar era o esvaziamento dos sentidos?

Com toda a raiva, eu ao menos havia entendido a importância que os professores tinham, e que parecia cada vez mais indiscutível, na era da informática.

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sábado, Março 22, 2014
 

Trashed


Jeremy Irons é um daqueles atores que, assim como James Earl Jones ou Morgan Freeman, são detentores de vozes que valem a pena serem ouvidas. Pode declamar sonetos de amor e mensagens de genocídio com a mesma beleza.

Em Trashed, documentário exibido neste último sábado em uma sessão organizada pelo Colégio, Irons faz uma pesquisa sobre o modo como nós temos "resolvido" o problema do lixo no mundo. Ele parte das consequências dos aterros sanitários nos países pobres, onde eles não são fiscalizados; e nos ricos, onde mesmo os fiscalizados quebram as leis diante da aparente falta de alternativas. Passa então a ver opções como os incineradores e avalia as consequências da dispersão de seus resultados no ambiente ao redor. E termina o panorama pessimista investigando os giros oceanicos, áreas onde as correntes marítimas ficam dando voltas e concentram o lixo jogado pelo mundo todo.

A voz de Jeremy Irons e seu sotaque britânico reforçam a sensação de desespero nos fatos e imagens do documentário. Imagens muitas vezes impossivelmente fortes, inegavelmente chocantes. Mas em nenhum momento gratuitas. Porque a verdade é que, enquanto não formos chocados até o trauma por documentários como este ou como o Uma Verdade Inconveniente de Al Gore, não tomaremos ações significativas para mudar o que vem acontecendo. Eu assisti ao filme e não conseguia tirar da minha cabeça a longa lista de fatos cotidianos, infrações recorrentes que eu cometia, sabendo por alto das consequências que elas sugeriam. Eu continuava tomando água de copos descartáveis, mesmo tendo canecas à disposição no Colégio. Continuava aceitando meus produtos de feira embalados em sacos plásticos. E ainda não tinha feito a lição de casa básica de perguntar e averiguar se o lixo reciclável do meu prédio estava de fato sendo reciclado em vez de ser jogado junto com o resto.

Porém, mais do que tudo, não tirava da minha cabeça uma outra culpa mais inerente e difícil de mudar: a minha culpa como artista. Porque eu estava levando uma vida em prol da criação de experiências estéticas e de ensinar estas experiências aos alunos, mas isso consumia uma quantidade absurda de materiais: papel, tintas feitas de substâncias não-biodegradáveis, telas, solventes, plásticos de todo tipo. E para que? No fim de tudo, qual era o ganho que justificava tudo isso? O documentário me trouxe de volta questões da época de faculdade de Artes: seria possível reciclar esse material? Reciclar uma tela? A tinta seca e inutilizável que restava no final das sessões de pintura? Os tubos de plástico e alumínio das tintas? Pincéis velhos? Seria possível usar tudo isso para fazer mais material de arte?

Por hora, não tenho respostas a isso. Apenas uma vontade enorme de nunca mais comprar outra tela e passar a pintar em papel ou algo reciclado de jornais. Usar as tintas feitas de modo orgânico que eu ensino nas aulas. E varrer a minha casa atrás de todo plástico que possa ser substituído por papel (forros de lixo, sacolas de supermercado, embalagens para guardar alimentos prontos... ).

Trashed mostra exemplos de que reduzir drasticamente esse resultado nocivo é possível. A cidade de São Francisco, conta Irons, tem um programa que reduziu em 75% o lixo gerado na cidade, criando centenas de empregos no processo e economizando milhares de dólares para a cidade. E o passeio pela cidade é guiado por uma mulher, cuja família de três pessoas (e um coelho) conseguiram produzir, no ano passado inteiro, apenas uma sacola plástica cheia de lixo. São exemplos de que, com pesquisa e combatendo a preguiça e os hábitos de uma sociedade de consumo desenfreado e descarte irresponsável, dá sim para termos ambientes bem mais saudáveis e um futuro para nossos filhos.

Vai lá ser traumatizado um pouquinho. Você está precisando e nem sabe disso.

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sexta-feira, Janeiro 17, 2014
 

Tainted Dreams - Black Lace Gloves

I've been having trouble remembering my dreams. As the mind becomes more mature and complex, it finds new and clever ways to trick and hide things from itself. It used to be that I'd just forget the dream in those few seconds after awakening. But now, when trying to recall the latest dream, I have found evidence that I'm corrupting the memory, tainting it with bits and pieces (sometimes whole subjects) from other dreams. Recurring ideas, desires, compositions and references that weren't in the original dream. I can tell they weren't there nowadays. They are intrusions, like that freight train in Inception.

Allow me to give a few examples.
One of the most common intrusions is the full concept of a journey. Because of past dreams that were recalled in great length in which I travelled, I developed this tendency to start my recollections in the morning with "I think I was traveling to... where?" But I've noticed this comes mostly of a desire to travel, rather than from actually doing so in the dream. It is more of a compulsion and sometimes it wasn't actually there in the dream. 
Last night I caught another one. It was a dream in which I was assisting the arrival of a couple of travel buses with my students at a huge hotel lobby. I felt on display for them, as if I wanted to reassure them that one of the teachers they liked was there to take care of them. At the same time, I was going through the faces on those bus windows, looking for specific students that I liked in order to have the same reassurance that it was going to be a fun event (whatever it was we were arriving at...). Now, as I was showing myself to them, I leaned on one of the white pillars of the hotel lobby in a way that I had my left arm and hand in view. And in my recollection, I was wearing a moss green felt jacket and black lace gloves. But that wasn't there. It's hard to explain how I'm sure it wasn't there in the original dream, but I can say there is a sense of doubt, and a parallel memory of that arm being bare and the hand ungloved. And I know for a fact that this particular reference came from watching a couple of hours of a new Castlevania game last night, in which a character was wearing them.

I'm a purist when it comes to dreams, and I like to keep mine neat, just the way they came to me. My therapist, however, believes there is a lot to be understood from these freudian slips. For one thing, I understand I am placing myself again in the alter ego of a little girl, as I had done with Alice and the Butcher's Daughter. This character (Laura, from Castlevania: Lords of Shadow - Reverie) has the added bonus of being a vampire (and wearing goth lace), therefore tying in with my third and more recent alter ego.
But there is also another thing about this. Laura is a character that constantly taunts the main character with how powerful she is. She flaunts her power with all the sordidness of a child. But all the while, there is an element of helplessness and frailty to her. At one point, she asks the main character not to leaver her alone ever again. And though she boasts about how all the threats in the game are mere entertainment for her and that she will teach her foes a lesson, it always sounds to me more like she is trying to convince herself that there is no real danger there. She seems emotionally fragile.
I believe that element was placed there not only because I watched that game before going to bed, but also because this is somewhat how I feel with my students. Flaunting enormous power as an authority, a teacher, to hide an emotional frailty. 

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quinta-feira, Agosto 29, 2013
 

Carta aos 9os

Carta lida na última aula do 2º bimestre, aos alunos do 9º ano, que estavam estudando rudimentos de cinema.


Turma,

Estamos prestes a concluir o segundo bimestre do nosso curso, e assistimos aos primeiros vídeos feitos por vocês. Eu achei importante tomar um tempo da nossa aula pra dizer algumas coisas muito importantes que eu percebi com a entrega destes trabalhos.

Não é raro eu chegar nas classes no dia que reservamos para apresentar os vídeos e ouvir de um ou outro aluno: “Leão, por favor não passa o meu vídeo para a classe! Eu vou pagar o maior mico!” Esse pedido me entristece não por causa daquela vaidade de professor, de pensar “poxa, eles não gostaram do exercício que eu fiz e que tava muito legal...”. O pedido me entristece porque, além do fato de que o vídeo dessa pessoa vai estar muito mal feito,  eu percebo também que ela não entendeu todo o propósito do exercício e, de forma geral, o propósito de se fazer arte (seja ela vídeo, foto, desenho, o que for). Artistas lidam quase sempre com o desafio da estética (de fazer algo parecer belo, interessante, estimulante).  Eles também têm medo de serem medíocres. E eles só conseguem ser bons e fazer obras geniais se eles aceitarem o desafio. Não é um desafio fácil de propor para estudantes de um colégio que tem tradição em ensinar o pensamento científico, racional, mas que não faz ideia de ensinar como nem para que produzir a beleza. Como consequência, vocês sabem resolver questões de matemática, mas ainda têm dificuldade em resolver os próprios gostos. E como consequência, o desafio de produzir um filme onde vocês vão expor a sua própria imagem é visto como algo inútil (pra que que estamos tendo essa matéria?”).  A verdade é que vocês só vão entender a utilidade desta matéria quando estiverem lá fora, tendo que falar em público em reuniões de negócios, por exemplo.  Mas segurem este pensamento, eu volto a ele daqui a pouco.

No ano passado, eu peguei um curso estruturado de um jeito que vocês teriam que produzir um vídeo por bimestre. Era pouquíssimo tempo para desenvolver roteiros coerentes, se encontrar para gravar cenas que não fossem toscas e ter carinho na edição do produto final. E com os trabalhos das outras matérias, muita gente fazia tudo isso em uma semana. O resultado, claro, era péssimo. Os alunos sentiam que era impossível chegar em um resultado bom e que estavam sendo obrigados a serem expostos ao ridículo daquele jeito. Para resolver isto, esticamos o processo para ocupar um semestre inteiro. Por mim, eu faria o vídeo direito, durante um ano todo. Com tempo para dar retornos mais úteis nos seus roteiros e filmagens.

Mas mesmo com tempos curtos, tinha muita gente que entendia o desafio e tomava gosto por fazer filmes legais. Ou talvez só tivesse medo de pagar mico... O importante é que essas pessoas levavam o exercício a sério. As outras, faziam algo parecido àquela coisa de fazer careta para o autorretrato que discutimos no ano passado. Elas faziam coisas toscas como quem diz: “se eu assumir a tosquice, ninguém vai conseguir me criticar”. E depois justificavam o resultado dizendo: “ah, vai... ficou divertido”. E a verdade é que não ficava divertido. Ficava chato, longo e frequentemente expunha os participantes a ridículos maiores do que as turmas que tentaram levar a sério.

Imagine agora a tal da reunião de negócios. Vocês vão usar a mesma estratégia da careta/tosquice assumida? Olha, eu detesto ficar só nos exemplos de emprego e carreira: a verdade é que eu acho que essa seriedade no que se faz deveria ser um valor aplicado em tudo na vida. Até vídeo caseiro, bolinho de chocolate, e-mail para a namorada. Um bom artista presta atenção nos detalhes, porque eles dão todo o gosto à obra. Tem um ditado que diz que Deus está nos detalhes.

Eu também vejo com pena que, mesmo com toda a racionalidade científica que lhes foi ensinada, vocês ainda não aprenderam a respeitar o trabalho um do outro. E preferem tirar sarro do erro (mesmo quando foi acidental) a comemorar e parabenizar um acerto. Não é novidade então, que tanta gente tenha vergonha de mostrar o que fez. Essa falta de educação básica é uma força negativa, desencorajadora. Eu acredito que seriamos muito mais produtivos, confiantes e geniais se conseguíssemos parabenizar aberta e claramente quem foi criativo e teve soluções legais, e déssemos um toque em particular, na boa, em quem errou. 

Daria menos vergonha, né? 

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segunda-feira, Junho 17, 2013
 

Aula de roteiro

Postado no Facebook, aproveitando as aulas de roteiro que dei aos meus alunos.

CENA 1: 
VIDEO: PG (Plano Geral) aéreo dos manifestantes organizando a maior manifestação pacífica em anos de história da cidade de São Paulo, tomando a Avenida Paulista. 

AUDIO: (cantos em coro mostrando indignação contra os R$3,20 do transporte, o custo da Copa, a violência policial, a corrupção, o Renan Calheiros e a PEC 37.) 


CENA 2: 
VIDEO: "Fade" para cena PC (Plano Conjunto) dos líderes do Movimento Passe Livre dialogando com o governo e a mídia toda achando essa abertura para o diálogo linda. 

AUDIO: Líder do movimento: "Só achei um absurdo sermos recebidos pelo Ministro da Segurança Pública e não pelo Ministro dos Transportes".
CENA 3:
VIDEO: "Fade" para PD (Plano Detalhe) de um canto de TV onde a manchete de um jornal afirma que o governo voltou atrás nos R$3,20 e que as manifestações pararam. 

AUDIO: Âncora do Jornal: "...o governador do Estado Geraldo Alkmin garantiu ontem que as tarifas não sofrerão mais alterações durante seu mandato".
CENA 4:
VIDEO: Corte para PC de dois adolescentes na sala de casa, assistindo TV. 

ÁUDIO: Ele: "Que bom que os protestos acabaram, né? Tanta violência...".
Ela: "É mesmo. E nós conseguimos o que queríamos. O povo brasileiro mostrou que não vai mais ser feito de panaca.˜
Ele: "É... E o Alckmin mostrou que é um cara bacana, um político legal. Metrô voltou a R$3,00. Mas sabe que eu tô com uma sensação de que a gente esqueceu alguma coisa...."
Ela: "O que?"
Ele: "Não sei... Deixa pra lá. Tira desse jornal noticiando mais um escândalo de corrupção sem solução e bota na Globo que o jogo da Copa tá começando!"

Pessoal, muita calma nessa hora. Esses políticos vão saber exatamente como desarmar essa situação e ainda saírem por cima. Prestemos atenção para não nos contentarmos com migalhas. Não deixem este roteiro virar realidade!

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Considerações sobre a Revolta do Vinagre

Tentarei publicar este no blog de Artes do colégio. A parte sobre o Ai WeiWei já foi escrita aqui.

Eu ando acompanhando com muito interesse tudo relacionado aos protestos que têm ocorrido na nossa cidade. Além de perceber como os protestos mudaram minha própria posição de alienação e apatia, eles também têm me proporcionado uma ótima oportunidade para refletir um pouco sobre algumas das coisas que andei ensinando aos meus alunos de 9o ano, no curso sobre cinema. 
Atento-me especificamente a uma aula onde conversamos sobre o cinema sendo usado como ferramenta de dominação. O assunto da aula era o cinema, na forma do filme "Triunfo da Vontade" da cineasta nazista Leni Riefenstahl. Mas a rigor, a aula estende-se à mídia como um todo. Uma das estratégias de mídia que discutimos na aula consistia em omitir o emissor das mensagens. Trocando em miúdos: se você sabe QUEM emite a mensagem, você pode analisar este emissor e chegar à conclusão de que a mensagem é uma opinião de alguém de uma determinada classe social, representando determinados interesses. Mas se o emissor é oculto, a tarefa de contestar essa mensagem fica mais difícil. Nós a aceitamos como verdade mais facilmente. 

A semana pasada nos brindou com um exemplo formidável para estudo. O jornalista Arnaldo Jabor apareceu no espaço reservado a ele pela Rede Globo para emitir sua opinião sobre os protestos. De forma geral, desqualificou os protestantes, dizendo serem filhos da classe média ridiculamente protestando contra míseros R$0,20 que eles não precisavam, e descrevendo os policiais que reprimiam os protestos como as verdadeiras vítimas da violência. A opinião não era novidade. Boa parte da mídia mais conservadora repetia a mesma opinião. Mas, conforme nosso exemplo em aula, quando o William Bonner profere a notícia, sabemos que não é a opinião DELE. É uma opinião de alguém que lhe forneceu a notícia, e que permanece oculto, inquestionável, enquanto o âncora do jornal descreve os manifestantes como vândalos. Não se pode protestar contra o Bonner, seria injusto. Da mesma forma que seria injusto xingar um(a) atendente de call center pelas sacanagens perpetradas pela empresa para a qual ele/ela trabalha. "Odeie a mensagem, não o mensageiro". Mais do que isso: com o emissor oculto por trás do vasto e imponente nome da emissora de televisão mais assistida do país, a maioria das pessoas até desconfia, mas cede à ideia de que, se tamanho grupo de jornalistas está dizendo isso, eles devem saber mais do que nós. 
O caso do Jabor é diferente. Ele assina o comentário, da uma cara à opinião. O emissor não está mais oculto, ele está escancarado. E mal informado. Ele torna-se extremamente vulnerável ao ataque, à contradição de sua opinião. 
Diante da onda de denúncias de violência policial ocorrida na quinta-feira de protestos (dia 13/06), Jabor recebeu uma outra onda de vídeos em resposta ao seu comentário ([1] [2] - para citar alguns). Não teve outra opção que não a de se retratar. Mas fez isso através da CBN, tomando o constrangimento para si e evitando expor a rede Globo. 

Na segunda, eu fui ao protesto que começou na Faria Lima. Fui leve, sem nada que me tornasse uma ameaça para a polícia, pronto para correr. Meu coração acelerava com o número de gente na estação de metrô e as palavras de ordem cantadas por todos. Eu não via nada assim desde Londres, no meu mestrado. Larguei a manifestação e voltei para casa quando comecei a sentir no ar o cheiro característico dos solventes contidos nas latas de spray. Pixar propriedade alheia podia ser motivo para a polícia entrar em ação e a coisa iria escalar. Resolvi contribuir para o protesto de outras formas, incluindo este texto e a tentativa de abrir os olhos da criançada para questionar mais as informações que recebem do mundo lá fora. 

No caminho de volta para casa, fui lembrando do que eu havia escrito sobre a exposição do chinês Ai Weiwei no MISque visitei em Fevereiro deste ano. Eu soube dele pela primeira vez em Londres, uma instalação na Tate Modern onde ele lotou o piso da galeria de sementes de girassol feitas de porcelana. Milhões delas, feitas uma a uma por voluntários chineses. De lá pra cá, Wei Wei foi preso pelo governo chinês, o que causou toda uma polêmica mundial de artistas pela sua libertação, e aparentemente foi viver nos EUA ou algo assim. 

Assim como a Yaoni Sanchez que a minha mãe lê, fala corajosa e abertamente sobre as incoerências, e a miséria causada pela ditadura vigente em seu país de origem. Uma ditadura que prometeu igualdade a todos e forneceu uma igualdade de míngua e burocracia. A exposição no MIS era uma coletânea enorme de fotografias tiradas por Wei Wei e seus assistentes, documentando diversos processos de diversos dos trabalhos do artista. Todos trabalhos que falavam sem romantismos desnecessários sobre tudo o que estava acontecendo. Daquele tipo de documentação direta que qualquer blogueiro hoje faz. O que levou à já bastante recorrente pergunta: "mas isso é arte?" De fato, algumas das fotos que Wei Wei faz não chegam a ser muito mais diferentes do que o que muitos conterrâneos meus postam no Facebook, indignados com o nosso país. Nem é possível dizer que elas sejam dotadas daquela mítica "sensibilidade artística" que as separa das fotos das ditas "pessoas comuns". Mas tudo muda para ele (e para a Yaoni Sanchez), porque existe uma força opositora relevante. Isso muda tudo. Se você posta no Facebook a sua indignação contra este ou aquele partido político, esta ou aquela medida do governo, nada disso importa. Você vive em um país livre e supostamente democrático, onde você pode exercer a sua liberdade de expressão sem medo. Isso torna-se uma faca de dois gumes, porque embora você a possa expressar, a sua opinião também pode ser sumariamente ignorada. Se o governo não fizer nada a respeito (nem acatando o seu desejo de justiça, e nem prendendo você por externar o que sente), é quase como se você não tivesse dito nada. Com Wei Wei e Sanchez, a coisa é outra. Qualquer comentário dissidente e eles misteriosamente "são sumidos" por algum tempo, têm seus bens confiscados, sua vida incrivelmente dificultada. Eles precisam de muito mais coragem para dizer o que nós ouvimos tanto que chegamos a ignorar ("mais uma denúncia de corrupção..."). O choque entre a força opositora que nós não temos aqui em nosso país e a coragem deles é o que faz um gesto tão simples como tirar um autorretrato ou blogar sobre o dia-a-dia virar uma obra de arte política. Não tem absolutamente nada a ver com técnica artística. [Disclaimer: sim, eu sei que o Wei Wei tem obras de arquitetura incríveis, foi responsável em parte pelo estádio conhecido como "Ninho de Pássaro" na China e tem outras obras bem mais tecnicamente interessantes, mas estou me atendo aqui à exposição do MIS].  Encerro a reflexão fazendo a pergunta: sendo que não temos aqui tamanha força opositora que valide as nossas expressões de indignação dissidentes, o que é que nós precisaríamos fazer (como trabalho artístico/expressivo) para ter o mesmo impacto que Wei Wei e Sanchez? Talvez, na hora em que a Tropa de Choque abriu fogo contra os manifestantes na quinta, eles tenham cometido o ato que faltava para validar essa nossa grande obra de arte coletiva que aconteceu nestas últimas semanas.


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sexta-feira, Maio 10, 2013
 

Back in the Bubble

There was a strong and somewhat negative change in me after I began teaching at my former highschool. The fact is that teaching there became a sort of guideline to my existence, my routine and my interests. I was now teaching 11 to 16-year-olds from wealthy families about art, at a school that favored practical thinking. This, in a way, limited my openness exclusively to what I felt was relevant to this scenario. No time, energy or interest in anything else.

I felt hugely comfortable teaching them about the inner workings of photo cameras or the language of cinema, the practical tricks to improving their drawing and the basics of color theory. It was the practical side of art, something that wasn't so vulnerable to being written off as a useless waste of time, because it was tangible knowledge, that could be put to some use by students who had good access to high culture (though whether they chose to make the most of that access or indulge in lower, more futile, but equally usable pop references remained up to them...). This became the direction towards which I was driving all my being.
At some point, I noticed I was inherently different from the other teachers-in-training I was studying with. They were simple people from all walks of life, who had decided to provide children with some artistic experience. But they seemed conformed with ending up as underpaid teachers in public schools, as if the idea of striving for a well-paid job at a private school was an impossibility and I had somehow struck gold with the job I currently had.
It felt to me as well that they had some sort of skewed idea that the poor, the uncultured, the underdogs were the ones who would make the most of what they could offer, as if the wealthy were too priviledged and spoilt to deserve or even need these lessons and they would magically "happen" in their heads with no external help needed.
Furthermore, it bored me to notice that the approach these future teachers favored consisted of a slew of random and patronizing crafting exercises - making paper maché dolls, making stamps out of corks or potatoes, that sort of thing - that resulted in "cute" works from students who were completely clueless as to why they were doing this. The art class was an exercise in futility and students eventually degenerated into treating the class a a second break and the teacher as an idiot (with good reason too, since the class felt like the teacher was treating them as idiots...). I heard gruesome stories of disgruntled and bored public school students physically assaulting teachers -  such was the degree of disrespect. Granted that these exercises did develop students' dexterity and their cognitive abilities, but I was sure that could be done while at the same time teaching them actual conscious skills they could consciously use and facts they could assimilate, rather than one-off parlor tricks. I was expecting to be treated with respect, even if my class wasn't an integral part of the university admission exams. In order to have that, I had to give the students something tangible as well.

But all of this meant I was also becoming somewhat more narrow-minded. I had been to the public schools as part of teacher trainning. I had seen first hand how most of these humbler students were lacking in the basic formation needed to comprehend some of the more complex concepts. How most of them didn't even care. How the schools themselves were unwilling to invest what was needed for a decent art course because they didn't see it as something a future low-class worker would need. Gradually, I myself began to buy into the notion that improving an art course at a public school was a waste of time. I came close to believing that art was indeed irrelevant to these students (other than what they needed to carry out the manufacture of carnival floats and costumes, an industry that kept many of them out of misery). Bottom line: I shut myself off from the outer world, remaining inside this upper-class bubble.

I recognize this enormous prejudice as a way "the System" has of reproducing itself. Still, I see no way of escaping this at present. The teacher trainning classes, my classes, the painting classes on Wednesdays, everything is taking up so much time that there is no way to include volunteering for lower-class schools right now. Perhaps in the future.

And even then, I'll first have to be convinced I can actually make a difference in such children's lives.

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segunda-feira, Maio 06, 2013
 

Bullshitism

Lá em Londres, durante o mestrado, um dos professores nos mostrou este vídeo:




[Fiquei sabendo agora que a artista deu uma palestra na faculdade de Camberwell para os formandos do mestrado de lá naquele mesmo ano. Perdi...]

O vídeo me fez pensar sobre como eu andava ouvindo muito disso por aí. Não é nenhuma novidade que a carreira de arte baseia-se muito na sua capacidade de fazer política, de se apresentar como algo palatável e não como o que você realmente é: um estudante de arte inseguro, sem controle sobre a qualidade do que você faz, tateando no escuro pra ver se você acerta algum veio principal das questões estéticas da nossa época. Nessa tentativa de se vestir de alguém com mais autoconfiança, criamos todo esse vernáculo de palavras bonitas que na verdade não dizem nada além disso: que somos estudantes de artes inseguros, sem controle sobre a qualidade do... deu pra entender, né? Eu fui perceber lá em Chelsea (e já tinha percebido com alguns outros artistas por aqui) que essa estratégia do bullshitism realmente funciona pra muita gente. Entendidos e não entendidos de arte, que engolem as obras, sejam quais forem, se elas vierem empacotadas em palavras complicadas. Assim como engolem os artistas se eles vierem travestidos de personas excêntricas e expansivas.

Em uma tentativa bem-humorada de botar em prática essa crítica, e ao mesmo tempo tentar fazer a turminha que morava comigo na Bernard Myers House em Camberwell lavar a própria louça depois de comer, eu fiz toda uma série de fotos dos restos mofados de comida deles, cada uma acompanhada de um texto bem bullshitista, defendendo cada "obra" como um trabalho de arte pós-moderna. Acabou virando um álbum no meu Facebook, chamado de Kitchen Filth:

The latest trend in Filth Art mixes several elements of the postmodernist discourse. The contempt towards commercial art exemplified by the use of perishable materials, the stylistic promiscuity in the mix of old and new elements, the unconventional and uncategorisable final products and even ethnic elements that challenge Greenbergian modernism.


[Clique nos nomes das obras para ver]
Potception: (Ramekin on mold and unknown substance on bowl)
The geniality of this one resides in the complex play between container and substance, allowing a multiple-layered interpretation. A container sits on substance, which in turn sits on a container. This could go on indefinitely.

Koolaid: (Mold on artificially flavored beverage on glass)
The advent of modern synthetic materials such as artifical beverages gave rise to new possibilities in contemporary Filth Art, like the growth of mold on liquid displayed on this piece.

O negócio caiu tão bem na rotina da Bernard Myers, que no final do nosso período lá, eu até documentei o "trabalho final" que algum artista de Filth Art fez na nossa geladeira (e na de outros cinco apartamentos). Tudo devidamente satirizado com legenda bullshitista

Final Piece: I believe this is our Filth Artist's final piece for his/her degree show.
Notice the nice balance between the empty fridge door and the full fridge interior, linked together by the empty ketchup bottles left on the empty door, with their content reaching out to the other, full area. It's a conceptual link.
Although I have to say that I felt there's an element missing from this piece in relation to the others: the mold. Perhaps our artist just didn't have enough time to grow it before presenting it to us this morning....
You can view other pieces in this final series of works in Kenny Foot's album "June 4th"

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quarta-feira, Abril 24, 2013
 

Evangelion Rebuild 1.01

Quase dez anos depois de assistir a série de anime que influenciou a minha vida, fiquei sabendo que os criadores resolveram fazer um reboot da série. O Evangelion original, em vinte e poucos episódios, foi refeito em alguns (quatro?) filmes de duas horas cada. Tenho encontrado meios de ter acesso a isso.

Fiquei com vontade de escrever a respeito porque esta experiência tem me trazido de volta sentimentos que eu acreditava terem sido esquecidos, deixados naquela época de fim de adolescência. Sentimentos gostosos de se emocionar junto com um seriado de desenho animado.
Mas é diferente agora. Eu cresci, amadureci, e de uma forma muito simbólica, sou também um reboot daquele adolescente que eu era. Expandido, melhorado, com personagens (personas) adicionais e novos efeitos especiais.
O seriado ganhou toda uma roupagem nova, um visual muito mais dark. Os Angels estão muito mais repugnantes, viscerais mesmo. E o que mais me impressionou foi como toda a paisagem emocional dos personagens foi completamente retrabalhada, para ficar muito mais clara, muito mais envolvente e permitir uma identificação muito maior. Ainda estou apenas no primeiro filme, e já me apaixonei de novo por Ayanami, senti um mundo de pena por Shinji, e outro mundo de ódio por seu pai.

Mas rever o seriado também me trás de volta alguns conceitos há muito esquecidos no blog, e que viriam a calhar hoje em dia. O seriado tem muitos termos ligados à psicologia e religião. Eu lembro com grande afeto de usar largamente o conceito do Campo AT para falar do quanto permitimos que outras pessoas se aproximem, penetrem na nossa intimidade, e o quanto as mantemos afastadas. Lidar com alunos é estabelecer todo um novo embate de Campos AT que eu nem considerava naquela época.

Engraçado como o mundo dá voltas. Quiçá isto seja o início de algo, como o seriado foi antigamente.

Ou quiçá eu esteja novamente me apegando de mais a passados gostosos que deveriam ser superados.

Anyway, se vocês (nem sei mais quem são "vocês"...) quiserem me acompanhar, cá está. Eu adoraria ter compania, embora não consiga lembrar de ninguém que tenha curtido o anime comigo antigamente e que teria o mesmo gosto e compreensão nostálgicos que eu estou tendo.






[EDIT: Achei um dublado em português!!]

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segunda-feira, Abril 22, 2013
 

Romantismo no MASP

O melhor de ser professor é que você acaba aprendendo muito para poder ensinar, e desenvolve um olhar mais detalhado sobre coisas que normalmente passariam mais superficialmente. No ano passado, fui com alunos o Ensino Médio para a exposição sobre o Impressionismo no Centro Cultural Banco do Brasil, no centro da cidade. Aprendi muito mais do que ensinei, e saí com uma visão BEM diferente e muito mais madura do que tinha sido o movimento, o que levou aos pintores a fazerem obras daquele jeito e como os artistas seguintes se apropriaram dessa linguagem. Nesse ano, pensando em fazer o mesmo, fui dar uma olhada inicial na exposição do MASP sobre o Romantismo.

Como falar para alunos de um colégio como o meu sobre o Romantismo?


Catedral de Salisbury Vista do Jardim do Bispo
por John Constable
O movimento encerra tudo do que eles mais precisam, e ao mesmo tempo nada do que eles podem compreender tão racionalmente. Pode-se falar das questões formais que fazem uma pintura romântica: como o tom escuro da vegetação às margens do quadro isola o espectador do mundo real, fazendo-o atravessar  por um buraco na mata em penumbra para visualizar um por do sol perfeito e brilhante atrás de uma catedral esfumaçada pela perspectiva atmosférica. Falar disso é falar de como nós, espectadores do quadro, estamos colocados nessa mata fechada que pode representar um monte de coisas: uma vida difícil, sufocante como mata fechada; uma escuridão fria que representa a falta de razão, de sentimento. Enfim, a vida real é tediosa, difícil e fria; é isso que os românticos dizem. E criam até um termo para isso: a vida é cheia de spleen.  O quadro romântico fala da possibilidade de encontrar uma abertura por entre essas folhagens escuras e modorrentas, para visualizar aquele por do sol quentinho, brilhante e colorido, representando sensações positivas e êxtase, como se a vida pudesse ser melhor, mais interessante e plena. O por do sol surge por trás de uma catedral perfeita, representando o acalanto da fé e da civilização, que são vistas como fonte desses sentimentos positivos. Porém o quadro também tem um elemento pessimista, já que a catedral e o por do sol estão muito além da floresta negra em que nos encontramos, fora do alcance. A distância é tanta que os contornos da catedral ficam azulados e perdem a nitidez. A composição é um jogo de seduzir este ser da floresta com esses confortos e segurança, e ao mesmo tempo lhe negar o acesso.
A maioria dos quadros do Romantismo têm essa configuração de ambiguidades: o escuro e a luz, o selvagem e a civilização, o violento e o seguro, o arrebatamento e a razão. E a grande brincadeira do Romantismo vai ser criar tamanha tensão entre essas duas coisas, entre seduzir e negar, que o espectador vai ter medo de quando essa tensão for satisfeita. Medo de ter aquela sensação de "ué, depois de toda essa antecipação, era só isso?". Medo de que a ideia que ele criou do êxtase seja muito maior do que o êxtase em si.
Em termos mundanos, é como ser seduzido(a) pela pessoa gostosa, bem vestida e culta, apenas para descobrir que ele(a) beija mal e é um tédio na cama.  E o resultado, em termos ainda mais mundanos, é que boa parte dos Românticos vai preferir a ereção ao orgasmo, a idealização à realidade.


Mas e daí? Falar para meus alunos sobre estes aspectos visuais do Romantismo (sem mencionar ereções e orgasmos, claro... ¬.¬) faria com que eles entendessem a cara de uma pintura romântica, sem entender sua graça, sua alma. Para entender o Romantismo, seria preciso falar do sublime. Mas que criança de família abastada e vida segura conseguiria entender o pavor, a loucura e o maravilhamento do sublime? O sublime que, na época do Romantismo, era relacionado ao terror do selvagem, da noite, da violência irracional.

Um terror muito maior do que qualquer um de nós, incompreensível, indomável. A Natureza era o maior monstro! E era por isso que pessoas, nos quadros Românticos, apareciam sempre pequeninas, perdidas na mata, à deriva no mar; e as edificações pareciam ser pequenos oásis de civilização e linhas retas, sendo lenta e inexoravelmente tragados pela Natureza (alô, casa da tia Suzy...) de borrões escuros esverdeados até virar ruinas.
Cachoeira de Paulo Afonso
de E. F. Schute
Paisagem com Fonte
de Charles-Émile Vacher de Tournemine

O Romantismo, no MASP, recebeu o subtítulo de "Arte do Entusiasmo". Na verdade, o movimento de fato expressa sentimentos muito fortes. Mas nem sempre positivos, entusiásticos. Nas vertentes mais extremas, foi o movimento que levou ao Werther de Goethe, e ao Drácula de Bram Stoker.  Às poesias de Lord Byron Álvares de Azevedo (no Brasil).  Essa busca por emoções fortes (positivas e negativas) pode ser encontrada até hoje em muito da nossa cultura que procura o êxtase (extasy) a qualquer preço (inclusive pagando com a saúde). O que mostra que o Romantismo foi mais do que um movimento passageiro da primeira metade do século XIX. Ele perdura até hoje, meio escondido, debaixo da sua cama, na escuridão da mata à noite, no fundo do mar. Esperando para atacar com todo seu caráter sublime a qualquer momento.

[SERVIÇO]
Quem se interessar pela exposição, pode encontrar mais informações no site do MASP.
A exposição fica aberta de terça a domingo e feriados, das 11h às 18h. Às quintas, das 11h às 20h.
Preços vão de R$7,00 para estudantes a R$15,00 a inteira. [Terça é de graça!!!]

E mais informações sobre o romantismo podem ser encontradas nos links abaixo:
• http://pt.wikipedia.org/wiki/Romantismo
• http://pt.wikipedia.org/wiki/Romantismo_no_Brasil
• http://www.suapesquisa.com/romantismo/romantismo.htm
• http://www.soliteratura.com.br/romantismo/

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Crônicas de Professor

Terminou então o primeiro bimestre do novo ano como professor de artes. Eu juro que queria muito ter a paciência e a disciplina que eu tinha antes para postar por aqui. Porque este processo que aconteceu durante o ano passado foi MUITO interessante e com certeza tem muito para ser aprendido. Mas em primeiro lugar, a vida tem sido tão intensa de um jeito tão gostoso, que não tenho tido vontade e nem tempo hábil para aquele ritual todo de escrever no blog. Porque é um ritual mesmo: você precisa acalmar, sair do ritmo que se leva nesta cidade, transcender para um estado mais plácido. Só assim dá pra chegar em um texto que não seja tão caótico e que de fato comunique sentimentos com clareza. Em segundo lugar, como já venho mencionando a cada post por aqui, eu fui perdendo o ímpeto de escrever por aqui devido a muito do que se passou no ano passado. Ainda estou tentando superar isso no que diz respeito aos objetivos deste blog.

O pior de tudo é que, quanto mais tempo passa, mais distante eu fico de conseguir estabelecer uma sensação de continuidade em relação ao que eu vou aprendendo paulatinamente como professor. Eu poderia citar aqui o que aconteceu ontem ou na semana passada, mas tudo teria alguma ligação com eventos anteriores, e sem essas ligações, tudo parece uma coleção de fatos desconexos.

De qualquer jeito, resolvi que tentar desembaraçar este nó seria impossível e que o melhor que eu teria a fazer seria de fato começar a registrar esses eventos desconexos para não perder o passo, e ir explicando o que precisar ser explicado. Ou nem explicar e assumir logo que eu estou escrevendo isso para mim mesmo. Sei lá.

Viu? Já não estou fazendo muito sentido...

Mas vamos lá, vou colocar alguns acontecimentos pontuais que vão me ocorrendo, sem cronologia, em bullet-points mesmo, e vocês que selecionem o que for relevante.

• Na época de avaliações do terceiro bimestre do ano passado, um aluno muito promissor me fez a pergunta, de forma muito respeitosa: "Psor, por que é que nós temos que provar que sabemos [nas avaliações], se estamos pagando para aprender?". Eu achei a pergunta interessante. Mais do que isso, sendo esse aluno e do modo como ele me abordou, ficou bem claro que era uma dúvida genuína e não uma daquelas perguntas maliciosas que os alunos mais arruaceiros fazem para desestabilizar a aula. Fiquei ainda mais impressionado com a rapidez com a qual a resposta surgiu na minha cabeça: "É que os pais de vocês estão pagando para que nós ensinemos a vocês sim. Essa parte nós garantimos. Porém se vocês estão de fato aprendendo e prestando atenção é algo que nós não podemos garantir. Para isso rolam as avaliações: para termos certeza de que vocês estão aproveitando. E não estão distraídos jogando joguinhos no iPad...". Eu até esperei algum retorno malicioso. Mas o aluno fez aquela cara de "ah, é!" e pareceu ter entendido alguma coisa fabulosamente interessante.

• Todo começo de ano, em Janeiro, os professores se reunem na Semana dos Professores. É um evento bem elaborado, cheio de requintes, encontros em salas de reuniões de hotéis, exercícios motivacionais, palestras de atualização, encontros de disciplinas com coordenadores e etc. Cada semana tem um tema como base. A deste ano estava lidando com interdisciplinaridade, um termo tão difícil de ser compreendido quanto o pós-moderno. Para falar a respeito, um dos palestrantes foi um filósofo de educação com o qual a equipe de artes tem se encontrado regularmente para moldar o curso. O Bologna era um senhor grande, com uma farta barba branca. Unhas compridas sem nunca ter mencionado qualquer coisa de tocar violão. Frequentemente nos encontrávamos em um instituto que ele tinha, onde quadros seus adornavam as paredes. E ele era um bom pintor.
Na palestra, Bologna contou uma história de quando era jovem e trabalhava como terapeuta. Eu não estou certo de como a história se encaixava dentro do tema de interdisciplinaridade, mas ela me deixou pensando na cena que ele descreveu durante boa parte daquele dia. Porque de alguma forma, ela tocou em algo que eu sentia dando aula de arte em um colégio com uma filosofia tão pragmática. Ele contou que, quando jovem, querendo enfrentar desafios de carreira, ele foi trabalhar em uma instituição para doentes mentais, colocado para trabalhar com aqueles casos mais complicados. Na primeira consulta com um determinado paciente, ele fez a pergunta de praxe: o senhor entende por que foi internado aqui? O paciente respondeu com alguma ansiedade: "Sabe, doutor... um peixe que vive no mar toma conhecimento de muitas coisas. Ele vê os outros peixes, ele vê a areia, vê as algas. Mas doutor, o peixe que vive no mar não vê a água! Eu estou aqui porque eu vejo a água!".

• Eu fiquei interessado no caso da aluno da outra professora de artes, que entrou neste ano. A mãe de Y. morrera quando ela era muito pequena e o pai gradualmente foi saíndo da vida dela até que ela ficou sob os cuidados dos tios. Sofrendo de um problema patológico de auto-estima, sentimentos de abandono e tendências perigosamente suicidas, ela no entanto mostrava um potencial inimaginável de expressão. O tipo de expressão catártica que eu esperava atingir com o grupo de desenho e até agora não conseguira por causa da barreira aluno-professor. Salvo raras excessões, aquelas meninas raramente desenhariam algo chocante de verdade, que botasse pra fora os sentimentos violentos da adolescência. A cada rodada do grupo, crescia nelas a consciência de que eu era um adulto e que elas não deveriam se abrir assim para um adulto, por medo de que eu levasse os desenhos, as expressões e os questionamentos para o grupo de terapeutas do departamento de orientação. Medo de serem taxadas de loucas ou problemáticas. Mal sabiam elas que eu QUERIA que elas se abrissem, e que eu JAMAIS as trairia desse jeito.
Mas Y. era diferente. Tendo passado por tanto na vida, ela estava bem à vontade com a chancela da loucura. Ela a usava com orgulho. Tinha uma única amiga na sua sala, mas andava constantemente com turmas do Ensino Médio, contando-me como este era bissexual assumido e aquele usava um cadeado como pingente no pescoço. Além do caso complicado da vida pessoal dela, chamara-me a atenção o caderno que ela tinha entregado para a avaliação. Desenhos com canetas fosforescentes, letras "fofas". Zero violência. Mas Y. não tinha limites ou bom senso no que falava (característica básica de quem foi levada na base da porrada para além "do que os outros vão pensar"). Em poucos minutos de conversa ela já tinha deixado escapar que não fora ela quem fez o caderno. A única amiga da classe tinha feito isso para ela. E ela tivera o cuidado de arrancar as páginas com seus desenhos porque sabia que eles seriam considerados "inadequados". Parei a conversa. "É por isso mesmo que você devia desenha-los. E deixar eles no caderno". E quando a conversa incluiu o fato curioso dela ter perguntado à outra professora se podia usar sangue ou outros restos humanos no desenho, eu sabia que ela TINHA que fazer parte do grupo de desenho. Ela talvez traria a transgressão que eu não conseguia fazer os outros participantes cometerem. Não que eu fosse incentivar o uso de sangue, mas com certeza dava pra explorar essas e outras ideias sem expor Y. a qualquer perigo.
Na semana de provas, Y. me encontrou debatendo com outros alunos. Ela percebeu o que todos os outros haviam percebido mas tinham pudores em comentar: eu estava de base nas unhas e tinha uma única unha pintada de preto. Ela ficou muito interessada. Em uma conversa anterior, eu havia comentado como eu também era um dos isolados na minha época de colégio, e como frequentemente, por ser sensível e adepto das artes, eu era considerado gay. Ela ficara surpresa: "você NÃO é gay?". As minhas alunas interferiram, com vergonha alheia: claro que não, ele tem uma namorada no Facebook. Mas dava pra ver uma ponta de dúvida nelas agora. Vendo as unhas cuidadas, ela insistia no assunto. "Mas você pinta as unhas". Sem constrangimento ou hesitação, disparei: "Menina que joga bola é lésbica?". Ela pensou por uns segundos antes de se dizer, com ar de vencida: "Não...". Fechei o assunto perguntando: "O que é uma pessoa gay?". "Alguém que gosta do mesmo sexo". "Exato. Hábitos e orientação sexual são duas coisas diferentes". Sem argumentos, ela pareceu olhar para o nada, considerando o que foi dito, em um daqueles momentos de "ahhh!" que indicam uma mudança de conceitos. O momento que professores adoram.
Isso, claro, não significava que ela pararia de me atormentar com o assunto. Pessoas que já foram abusadas pela vida dessa forma têm uma tendência a querer tatear seus limites, provocar, chamar a atenção. Mas no caso dela, eu achava tudo isso muito interessante.

• G. era uma das meninas do grupo de desenho. Na verdade, chama-lo hoje de grupo de desenho seria incorreto, já que o grupo conta com participantes que preferem escrever letras de música, textos curtos, fazer monólogos, e outras possibilidades. Eu aceito qualquer coisa, tentando manter o grupo mais democrático. Mas voltemos ao assunto. A participação de G. no grupo garantia que nosso relacionamento sempre estivesse um passo além daquela coisa distante entre professor e aluna. Conversávamos sobre o depois do colégio, sobre a prática de escrever, sobre os pudores que a instituição de ensino insistia em reforçar (não fale palavrão porque é feio...). E eu, naquela minha ingenuidade, achava que talvez G. estivesse "do meu lado", no sentido de que talvez ela cooperasse com a minha tentativa de ser um professor. Aos poucos, e sem qualquer malícia ou desrespeito proposital, ela foi me mostrando que uma coisa não tinha nada a ver com a outra. Porque G. era desinteressada e preguiçosa. Dizia prestar atenção na minha aula (e só na minha aula, de acordo com ela), mas entregava trabalhos pela metade, sem vontade, sem nem tentar. O ápice da desconexão entre essa nossa amizade e o meu papel de professor se deu em uma das provas do ano passado. Prova de outra matéria, que eu estava fiscalizando. Quase no fim da prova, percebi G. cochichando com a garota atrás dela. Colando? Era como se G. me desafiasse a tomar alguma atitude de professor, daquelas atitudes chatas, enquanto usava a nossa amizade como escudo. Não tive dúvidas e mudei-a de lugar. Mas fiquei o resto da prova fazendo considerações sobre aquela dicotomia de papéis, entre o professor despótico, disciplinador; e o aluno questionador. No fim das contas, era um jogo cruel. O professor precisava fazer da sua matéria e da estrutura disciplinar algo interessante, moderadamente desafiador e constantemente recompensador para o aluno. Caso contrário, este perderia o interesse e consequentemente a disciplina. O aluno, por outro lado, tinha que fingir estar interessado na matéria e cooperando com a disciplina, caso contrário levaria uma punição por não poder domar seu instinto. E na verdade, nem professor e nem aluno estavam de fato achando nada daquela disciplina toda muito relevante e faziam a mesma pergunta: no que se interessa um adolescente do Ensino Fundamental?
[Eu lembro que este texto tinha muitas outras considerações relevantes... É uma pena que tenham sido esquecidas.]

• No meio do ano passado, L. e G. começaram a namorar. Um namoro curto, mas que chamou a atenção de bastante gente. Porque L. e G. tinham seus 12 anos, e não eram da turminha popular. Na verdade, pelo contrário, eram dos retraídos, meio desajeitados, aquela turma que eventualmente acaba virando artista. Ambos eram bem altos e expressivos, embora L. fosse mais espalhafatoso e G. fosse mais do estilo Virginia Wolf. Pensando bem, talvez por isso não tenha durado... Daí o relacionamento acabou - acho que por decisão dela. Sem saber do fato, e amargando alguns abandonos na minha própria vida, recebi de G. no nosso grupo de desenhos o tema "desilusão amorosa", e desenhei uma bota com parte do poema de Yeats, sem me tocar que estava na verdade denunciando a crueldade dela. E na verdade, confirmara o que ela sentia sobre si mesma. Algo sobre o qual suponho talvez conversemos um dia. Em outro canto do colégio, L. amargava sua desilusão amorosa, seus sonhos esmagados pelas botas de G. Havia muito da dor dele que eu entendia. Mas em um dos acantonamentos do colégio ao qual eu fui como professor monitor, percebi que L. estava sendo consolado por M. Ela também era do grupo de desenhos, amiga em comum dos dois. Também muito alta para a idade e muito sensível. Menos Virginia Wolf, e talvez mais... Adriana Calcanhoto? Não sei... É que o modo como eu estou escrevendo já revela toda a intenção do que eu quero dizer: sim, eu estava prevendo algum dia eles perceberem como eles eram grandes amigos, tinha muita coisa em comum, trejeitos, problemas e gostos. E perceberiam a possibilidade de um amor muito diferente, talvez muito mais puro e satisfatório do que qualquer coisa que L. tivera por G. Eu sabia que talvez eles jamais se dessem conta disso e morria de pena da possibilidade. Por outro lado, também sabia que dizer qualquer coisa a respeito para eles seria azedar a experiência. Eu era professor de artes, mas um completo idiota em assuntos do coração. Qualquer interferência seria catastrófica.

• Quatro dos rapazes estavam sentados sobre suas mesas, dois virados de costas pra mim. Em duas das mesas do meio da sala, um moleque com mais gel no cabelo do que deveria ter sobrado no pote se debruçava de tal modo sobre sua colega que qualquer um chamaria aquilo de abuso sexual. Uma outra batia tamborilava o dedo em um joguinho no celular. A porta fora deixada aberta e vi com o canto de olho algum moleque saindo de fininho. Pedi para fecharem a porta e ninguém obedeceu. Dane-se, fui eu mesmo fechar. No meio do caminho, uma patricinha me bloqueou para me informar (não pedir, informar) que estava saindo para ir ao banheiro. A última coisa que me lembro foi algum dos meninos rindo histericamente em algum lugar, como se não estivessem no meio de uma aula. Perdi a cabeça. Olhei fixamente para a patricinha e gritei (coitada...) que ela não sairia e que se sentasse. Tomei ar e bradei a plenos pulmões: "todo mundo senta e cala a boca" (ainda preciso me informar se mandar aluno calar a boca é procedimento kosher em sala de aula...). Alguém diria depois que nunca tinha ouvido eu engrossar a voz daquele jeito. O que se seguiu foi dez minutos de esporro coletivo. Os alunos, em profundo mutismo. De algum lugar, claro, alguém gravava com celular o raro acontecimento.
Eu estava me acostumando a rompantes desse. A pequenos atos de violência com os alunos. O que acontecia era que eles percebiam como eu tinha receios em dar bronca, em excluir da sala, em mandar anotações para os pais e exercer outras atitudes despóticas. Então eles aproveitavam. Não lhes havia sido ensinada em casa qualquer educação por hierarquias superiores, então eles agiam em total barbárie, obedecendo apenas diante de punição. E eu estava ficando farto disso. Já começava a perceber em mim um certo sadismo de querer ter estes rompantes. Uma sessão dessas me garantiria pelo menos umas duas semanas de sossego. Eu precisava aprender. Eu sabia que a minha aula de artes não poderia ter a rigidez de uma aula de matemática, mas também não podia ser este manicômio ("Professor, o que significa 'manicômio'"? "Moleque, procura na Wikipedia, eu não vou te falar" - juro que rolou uma dessas NO MEIO do esporro).

• As aulas de artes não estavam sendo muito bem vistas pelos alunos, embora todo o resto da comunidade do colégio adorasse o que estávamos fazendo. Os alunos, na verdade, achavam tudo aquilo meio irrelevante. Se não era matéria de vestibular, então para que estavam aprendendo? Pra que tinham que perder tempo (de jogo) estudando a origem da fotografia ou técnicas de desenho? A professora anterior tentara doma-los na base da truculência e transformara a experiência de artes em algo completamente intragável mesmo para os interessados. Nós, professores novos, estávamos tentando transforma-la em algo que fosse gratificante, mas ao mesmo tempo levado a sério. E daí caíamos no assunto das provas. Porque o 8o e 9o anos tinham provas teóricas, que de fato nunca seriam gratificantes. Deviam, no entanto, serem levadas a sério.
No primeiro ano, as provas aconteciam na última aula do bimestre, antes da semana de provas oficial. A prova em si, com questões absurdas que exigiam que os alunos decorassem um livro, fora imposta pela professora anterior e causava vários transtornos. Mas o maior deles era que os alunos simplesmente não levavam a prova a sério. Cochichavam, colava, riam, transformavam aquilo em uma algazarra ridícula. Decoravam as páginas do livro sem entender o que memorizavam, para depois esquecer. Mais do que tudo, tratavam-nos como idiotas. Como se não estivéssemos percebendo a movimentação.
No começo deste ano, passamos a prova para a semana de provas. Eu queria fazer isso em parte como retaliação. Os alunos, claro, se revoltaram. Minha resposta era sempre irredutível: vocês fizeram aquela zona no ano passado. Se voltarmos a prova para a semana regular, essa zona vai voltar. Quando vocês conseguirem parar de nos tratar como idiotas, nós poderemos pensar no assunto. Até lá, vocês vão sim ser forçados a pelo menos tratar esta prova com alguma seriedade.
Eles concordavam. Concordavam que estavam nos tratando horrivelmente mal. Aos que insistiam em exigir que as provas voltassem ao que eram, eu perguntava se eles lembravam do que tinham pesquisado ou estudado no ano anterior. A resposta era quase sempre bem vaga.
Preparamos a prova. Era um alívio ter uma prova que finalmente fazia sentido. Questões que não eram apenas decorebas, questões que até tinham a ver com expressões atuais para eles (uma sobre o Harlem Shake!). E bota os moleques pra desenhar! "Mas professor, eu não sou bom de desenho". "Eu também não era bom de química, mas tinha que passar na prova". Ainda assim, eu confesso que fiquei meio ansioso no dia em que eles fizeram as provas. A ansiedade não durou muito. Vários dos professores que fiscalizaram as salas vieram dar os parabéns por uma prova muito bem feita, questões que ensinavam além de cobrar o já aprendido, que trazia a matéria da sala de aula para a realidade deles. Professores querendo assistir as nossas aulas porque achavam a matéria interessante (nisso eu tenho que dar o braço a torcer, a professora anterior estruturou um curso muito legal).
A chave de ouro foi a aluna que me encontrou na porta da sala dos professores e me apertou a mão: "parabéns, professor! Com uma prova você me fez entender porque que eu precisava estudar artes". Eu ainda não sei se ela dizia isso com sarcasmo, mas resolvi me afundar na minha ingenuidade e achar que era um elogio genuíno. Ganhei o dia com essa.

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segunda-feira, Março 18, 2013
 

Considerações sobre vícios químicos

Não, eu nunca me viciei em entorpecentes. Não tenho sequer o estômago necessário para beber decentemente em uma saída com amigos. Mas sim, relatos deste blog já dão conta do fato de que eu já experimentei algumas coisas. A regra, na verdade, sempre foi esta: experimente para ter essa experiência de vida, mas nunca, JAMAIS, EM HIPÓTESE ALGUMA permita que o vício químico se instale. Não posso dizer o mesmo sobre o meu vício por jogos eletrônicos, mas isso já está no passado.

E no entanto, a experiência de pessoas próximas e colegas de faculdade (ah, a faculdade, esse antro de perdição...) me permitiu formar algumas opiniões sobre como o processo todo se desenrola.

Imagine o adolescente típico, seu quarto tão bagunçado quanto sua mente e seus planos de futuro. Certo, para algumas pessoas, essa "adolescência" penetra fundo nos vinte anos, muito além do que devia. Nosso adolescente passa os dias naquele mar de incertezas, tanta angústia, tantos sentimentos novos, tanta cobrança por entrar na melhor faculdade, ter o melhor emprego, etc, etc. Um dia, como rota de fuga temporária, ele descobre uma substância química que lhe confere minutos ou talvez horas de uma tranquilidade perfeita. Ou talvez de uma confiança inabalável. O que quer que seja que esse adolescente precisa e que a própria química do seu corpo não está fornecendo na hora. Ele faz uma descoberta assombrosa e passa a questionar os adultos que lhe dizem que isso é pecado, heresia, proibido, censurado. Sente-se até um pouco traído: como puderam esconder isso de mim? E porque será que isso não é liberado para consumo diário se todo mundo se beneficiaria disso? Mas como eu disse, são minutos ou talvez horas, e eventualmente o efeito acaba. O corpo, tendo recebido uma descarga anormal de algum dos seus componentes químicos cuidadosamente equilibrados, entra em pânico absoluto e solta outra descarga do componente complementar, para restabelecer o equilíbrio. Os efeitos são devastadores nas primeiras vezes: a tranquilidade perfeita torna-se ansiedade sacana, a confiança inabalável torna-se dúvida paranóica. Toda aquela felicidade tem, além do preço pecuniário, o preço emocional de uma depressão equivalente.
Nosso adolescente é forte ainda. Acredita que pode suportar esse preço emocional se tiver sua saúde e o apoio de amigos e parentes, se tiver suas coisas e sua rotina. E podendo suportar esse preço, não vê problema em considerar sua nova substância favorita como um "aditivo" para aqueles dias mais difíceis da adolescência. Oras, os adultos não tomam café pra ficarem acordados no escritório? É a mesma coisa. E é mesmo, mas elevada a uma potência não percebida.
Os dias difíceis da adolescência são muitos, e a pessoa normal suporta a dor para se fortalecer. O nosso adolescente não. Ele acha que não é idiota e que não vai ficar sofrendo à toa quando seu aditivo pode lhe conceder algum tempo de fuga. E nos muitos dias difíceis, ele continua tomando algum tempinho para fugir. Cada vez que faz isso, o corpo entra em novo pânico, solta mais químicos complementares, equilibra novamente a situação. Com cada nova dose e o espaço de tempo entre elas diminuindo, o corpo passa a acreditar que talvez esse seja o novo equilíbrio que tem que manter, como se essa substância a mais que está entrando nele a toda hora não fosse uma anomalia, mas sim uma constante. Gradualmente, o corpo estabelece as doses elevadas dos químicos complementares como a situação normal. O que acontece aqui na verdade é que nosso adolescente acaba de tirar a responsabilidade pelo equilíbrio de sua química interna das mãos de seu próprio corpo. Preocupe-se com o resto que a dopamina eu garanto. E o corpo vai obedecer.
Seria fácil, não fosse pelo componente econômico da equação. Porque esse fornecimento de dopamina que nosso adolescente precisa cumprir custa (e ele de repente ganha um ódio mortal pelo capitalismo...). Ou seja, além de se responsabilizar por algo que o corpo já fazia sozinho, ele também passou a precisar comprar o que o corpo produzia de graça (ele vai argumentar que o corpo produzia em pouca quantidade, e está certo, embora a solução adotada tenha sido errada...). No estado avançado do vício, ele vai precisar comprar cada vez mais da droga só para conseguir manter o equilíbrio dito "normal". Longe estão os dias em que a dose da droga o levava acima do normal. Ele condicionou sua normalidade ao dinheiro.
Considerando, acho que é algo similar à necessidade por comida ou água. Também é preciso pagar por essas coisas para sobreviver. Mas se já é difícil pagar por estas, imagine arranjar mais uma "necessidade básica" para pagar.
Como se não bastasse, enquanto esse processo vai correndo, outro rastro de destruição vai acontecendo nos bastidores: a saúde obviamente se deteriora. E em passo semelhante vão as relações com amigos e familiares. Nosso adolescente já não aguenta mais o passo econômico da vida normal, já que todo o dinheiro vai para manter sua responsabilidade sobre sua dopamina. Se for esperto e ardiloso, ainda conseguirá que algum desse dinheiro venha dos pais, enquanto a relação com eles se mantiver ativa.

Eu não sei como a história termina. Eu perdi contato com os colegas de faculdade que eu observava. Talvez haja algum fim positivo nisso tudo que eu não esteja vendo e todos nós devamos sim descobrir o aditivo de cada um. Eu não acredito nisso ainda. Ainda acho mais adequado procurar resolver os dias difíceis da adolescência na marra. E procurar aumentar dopaminas, serotoninas e outros químicos em parceria com o corpo, em vez de usar a via mais autoritária.

Tá, eu sei, nesse sentido, eu virei um daqueles caras bem caretas com papo de auto-ajuda. E não me envergonho disso.
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