Há algum tempo, soube da história de um casal de conhecidos que estava se separando porque ele ia viajar para o Canadá durante algum tempo. Na conversa, surgiu o conceito de que a dor que ela sentia consumia-a como um cancer.
[Não, um cancer não. Uma amputação.]
Anotei no meu caderno esse pensamento que não cheguei a proferir. A idéia me viera daquele jeito condensado que me enlouquece por dias. Como um grande nó que eu tenho que desfazer aos poucos pra entender completamente. A Lettin' the Cables Sleep, uma das minhas telas favoritas, me veio num nó desses e levou quase um ano pra entender.
O cancer é uma adição: células crescem descontroladamente. Esse rompimento era como a amputação, porque ela já estava acostumada com ele. Mas então ele é subtraído bruscamente e ela fica com aquela sensação de vazio. O inglês tem um termo delicioso para essa subtração, a severance. Tem a frieza científica e melancólica do cirurgião e uma sonoridade adequada para uma música.
Na wikipedia, encontrei outros termos adequados. Propriocepção é a capacidade que temos de sentir o próprio corpo, tanto pelos cinco sentidos externos, quanto internamente. Dá uma noção dos limites e condições dos membros. Quem perde um braço ou perna experimenta uma confusão em sua propriocepção, porque o corpo continua acostumado ao membro que não está mais lá. O que leva ao conhecido fenômeno do membro fantasma.
Voltei a pensar no assunto recentemente depois de um sonho nostálgico. Acordar e perceber que a realidade tinha mudado (para melhor ou pior é irrelevante...) e sentir aquele choque de realidade. Era a sensação de sonhar que se está correndo ou manuseando algo e acordar para uma realidade onde o membro em questão foi recentemente extirpado. Experimentei uma fração da sensação que ela deve sentir hoje ao acordar.
Bits and pieces of my life that everyone ignores when I speak, but someone reads when I write.
quinta-feira, setembro 27, 2007
segunda-feira, setembro 17, 2007
Blended Sunrise
"Me diz, você achava ela perfeita, né?" - ela perguntou. Falava, obviamente, da russa. Todos os meus relacionamentos sempre foram marcados por fantasmas do passado. Acho que Lee foi quem teve a melhor opinião a respeito, dizendo que era impossível superar um desses fantasmas: afinal, como escrevi no post anterior, as memórias são virtualmente perfeitas, enquanto a pessoa-presente-tangível tem seus erros e acertos...
Houve épocas em que eu teria dito que sim, a russa era perfeita. Mas sempre soube que era uma daquelas auto-enganações terapeuticas. Eu não queria pensar nos defeitos dela, porque ela tinha sido um dos fetiches que eu sempre quis e eu não queria denegrir isso. Mas vamos, já passou mais de um ano que ela aconteceu...
Me surpreendi (e suponho ter surpreendido ela também) tendo uma resposta tão pronta para a pergunta. Não, ela não era perfeita. Apesar da aventura carnal, ela trazia toda a frieza e austeridade desse povo do gélido norte europeu. Jamais ouvi e nem pensei algum dia ouvir, segundo contei a Lexy, que a russa me dissesse palavras de carinho daquelas bem clichês. Salvo, é claro, por um "eu gosto de você" bem cordial e dúbio logo que nos conhecemos. E para a breve aventura que foi, essa frieza até deu um tom interessante. Mas eu teria sentido falta disso. Eu ignorei isso por muito tempo, mas é uma verdade gritante em neon garrafal.
No mais, aquele problema recorrente em vários dos meus relacionamentos, de ser um quase-artista atrelado a uma pessoa que percebe a expressão artística apenas como um diletantismo, uma falta do que fazer. Ela dizia, com aquele sotaque lascivo como sexo violento, que minhas Alices eram fantásticas e que eu era talentoso, mas ficava claro que ela sequer arranhava a superfície do que aquilo significava para mim e desconhecia totalmente o deleite de um processo criativo. A longo prazo, desconfio que teria feito a mesma exigência que Taís fez quando éramos alunos de colégio: "ou a pintura, ou eu!"
Houve épocas em que eu teria dito que sim, a russa era perfeita. Mas sempre soube que era uma daquelas auto-enganações terapeuticas. Eu não queria pensar nos defeitos dela, porque ela tinha sido um dos fetiches que eu sempre quis e eu não queria denegrir isso. Mas vamos, já passou mais de um ano que ela aconteceu...
Me surpreendi (e suponho ter surpreendido ela também) tendo uma resposta tão pronta para a pergunta. Não, ela não era perfeita. Apesar da aventura carnal, ela trazia toda a frieza e austeridade desse povo do gélido norte europeu. Jamais ouvi e nem pensei algum dia ouvir, segundo contei a Lexy, que a russa me dissesse palavras de carinho daquelas bem clichês. Salvo, é claro, por um "eu gosto de você" bem cordial e dúbio logo que nos conhecemos. E para a breve aventura que foi, essa frieza até deu um tom interessante. Mas eu teria sentido falta disso. Eu ignorei isso por muito tempo, mas é uma verdade gritante em neon garrafal.
No mais, aquele problema recorrente em vários dos meus relacionamentos, de ser um quase-artista atrelado a uma pessoa que percebe a expressão artística apenas como um diletantismo, uma falta do que fazer. Ela dizia, com aquele sotaque lascivo como sexo violento, que minhas Alices eram fantásticas e que eu era talentoso, mas ficava claro que ela sequer arranhava a superfície do que aquilo significava para mim e desconhecia totalmente o deleite de um processo criativo. A longo prazo, desconfio que teria feito a mesma exigência que Taís fez quando éramos alunos de colégio: "ou a pintura, ou eu!"
Paradise Lost
Em uma exposição sobre poesia concreta, uma frase me chama a atenção:
O único paraíso é o Paraíso Perdido.
Paradise Lost é a obra do escritor John Milton (o mesmo nome do personagem de Pacino em Advogado do Diabo) sobre Satanás tramando para causar a expulsão de Adão e Eva do paraíso.
Mas acima de tudo, a frase faz-me pensar que o paraíso são boas memórias de tempos que já foram, tempos que não voltam porque tudo na vida muda e segue adiante. Nas memórias boas, tudo é perfeito e os defeitos são ignorados. O presente, por outro lado, raras vezes pode se equiparar a um paraíso, posto que leva consigo a perfeição e imperfeição da realidade.
O único paraíso é o Paraíso Perdido.
Paradise Lost é a obra do escritor John Milton (o mesmo nome do personagem de Pacino em Advogado do Diabo) sobre Satanás tramando para causar a expulsão de Adão e Eva do paraíso.
Mas acima de tudo, a frase faz-me pensar que o paraíso são boas memórias de tempos que já foram, tempos que não voltam porque tudo na vida muda e segue adiante. Nas memórias boas, tudo é perfeito e os defeitos são ignorados. O presente, por outro lado, raras vezes pode se equiparar a um paraíso, posto que leva consigo a perfeição e imperfeição da realidade.
sábado, setembro 15, 2007
Strangers when we meet
Babe,
percebi que nunca me dei ao trabalho de pesquisar o suficiente para compreender completamente esta que é uma das minhas músicas favoritas do Bowie. Mas de qualquer jeito, agora que você viciou nela, segue uma tradução meio mambembe da letra, que você não achou na internet. Muito dela não vai ter tanta sonoridade em português e vai parecer meio cafona, mas eu gosto no inglês. E muito dela não vai fazer muito sentido porque são piadinhas internas e críticas que ele escreveu para uma ex-mulher que estava vendendo detalhes sórdidos da vida privada deles para os tablóides. Estou colocando entre "[]" alguns detalhes que pesquisei e outras noções que talvez ajudem a compreender.
All my friends
Now seem so thin and frail
Slinky secrets
Hotter than the sun
No peachy prayers
No trendy rechauffe
I'm with you
So I can't go on
[CHORUS]
All my violence
Raining tears upon the sheet
I'm bewildered/resentful
For we're strangers when we meet
Blank screen TV
Preening ourselves in the snow
Forget my name
But I'm over you
Blended sunrise
And it's a dying world
Humming Rheingold
We scavenge up our clothes
[CHORUS]
Cold tired fingers
Tapping out your memories
Halfway sadness
Dazzled by the new
Your embrace
Was all that I feared
That whirling room
We trade by vendu
Steely resolve
Is falling from me
My poor soul
All bruised passivity
All your regrets
Ride rough-shod over me
I'm so glad
That we're strangers when we meet
I'm so thankful
That we're strangers when we meet
I'm in clover
For we're strangers when we meet
Heel head over
And we're strangers when we meet
=====================================
Todos os meus amigos
Parecem agora finos e frágeis
Segredos sensuais
Mais quentes que o sol
Sem preces suculentas
Sem essa moda de reaquecer [o relacionamento]
Estou com você
Portanto não posso continuar
[CHORUS]
Toda minha violência
Chove lágrimas nos lençóis
Estou encantado / ressentido
Pois somos estranhos quando nos conhecemos.
Tela de TV vazia
Nos arrumarmos na neve
Você esquece meu nome
Mas eu já superei você
Fusão do nascer do sol
E é um mundo moribundo
Murmurando Rheingold [Primeira parte da ópera O Anel dos Nibelungos, do Wagner]
Desenterramos nossas roupas.
[CHORUS]
Dedos frios e cansados
Tamborilando suas memórias
Meia tristeza
Maravilhada pelo novo
Seu abraço
Era tudo o que eu temia
Aquela sala rodopiando
Comercializamos através do "vendue" [??]
Decisões de aço
Partem de mim
Minha pobre alma
É inteira passividade machucada
Todos os seus arrependimentos
Caminham mal-calçados sobre mim
Estou tão contente
Que sejamos estranhos ao nos conhecermos
Estou tão agradecido
Que sejamos estranhos ao nos conhecermos
"I'm in clover" [Aproveitar uma vida abastada]
Pois somos estranhos ao nos conhecermos
Me viro do avesso
E somos estranhos ao nos conhecermos
percebi que nunca me dei ao trabalho de pesquisar o suficiente para compreender completamente esta que é uma das minhas músicas favoritas do Bowie. Mas de qualquer jeito, agora que você viciou nela, segue uma tradução meio mambembe da letra, que você não achou na internet. Muito dela não vai ter tanta sonoridade em português e vai parecer meio cafona, mas eu gosto no inglês. E muito dela não vai fazer muito sentido porque são piadinhas internas e críticas que ele escreveu para uma ex-mulher que estava vendendo detalhes sórdidos da vida privada deles para os tablóides. Estou colocando entre "[]" alguns detalhes que pesquisei e outras noções que talvez ajudem a compreender.
All my friends
Now seem so thin and frail
Slinky secrets
Hotter than the sun
No peachy prayers
No trendy rechauffe
I'm with you
So I can't go on
[CHORUS]
All my violence
Raining tears upon the sheet
I'm bewildered/resentful
For we're strangers when we meet
Blank screen TV
Preening ourselves in the snow
Forget my name
But I'm over you
Blended sunrise
And it's a dying world
Humming Rheingold
We scavenge up our clothes
[CHORUS]
Cold tired fingers
Tapping out your memories
Halfway sadness
Dazzled by the new
Your embrace
Was all that I feared
That whirling room
We trade by vendu
Steely resolve
Is falling from me
My poor soul
All bruised passivity
All your regrets
Ride rough-shod over me
I'm so glad
That we're strangers when we meet
I'm so thankful
That we're strangers when we meet
I'm in clover
For we're strangers when we meet
Heel head over
And we're strangers when we meet
=====================================
Todos os meus amigos
Parecem agora finos e frágeis
Segredos sensuais
Mais quentes que o sol
Sem preces suculentas
Sem essa moda de reaquecer [o relacionamento]
Estou com você
Portanto não posso continuar
[CHORUS]
Toda minha violência
Chove lágrimas nos lençóis
Estou encantado / ressentido
Pois somos estranhos quando nos conhecemos.
Tela de TV vazia
Nos arrumarmos na neve
Você esquece meu nome
Mas eu já superei você
Fusão do nascer do sol
E é um mundo moribundo
Murmurando Rheingold [Primeira parte da ópera O Anel dos Nibelungos, do Wagner]
Desenterramos nossas roupas.
[CHORUS]
Dedos frios e cansados
Tamborilando suas memórias
Meia tristeza
Maravilhada pelo novo
Seu abraço
Era tudo o que eu temia
Aquela sala rodopiando
Comercializamos através do "vendue" [??]
Decisões de aço
Partem de mim
Minha pobre alma
É inteira passividade machucada
Todos os seus arrependimentos
Caminham mal-calçados sobre mim
Estou tão contente
Que sejamos estranhos ao nos conhecermos
Estou tão agradecido
Que sejamos estranhos ao nos conhecermos
"I'm in clover" [Aproveitar uma vida abastada]
Pois somos estranhos ao nos conhecermos
Me viro do avesso
E somos estranhos ao nos conhecermos
sexta-feira, setembro 14, 2007
Ma me mi mo mu...
Visitei minha avó para a primeira sessão de preparação vocal ontem. A decisão contraria a minha filosofia de me dedicar ao canto na banda sem aulas ou preparo, convencido de que só o ímpeto, mesmo sem a técnica (que muitas vezes o anula), é respeitado hoje em dia. Fosse alguma outra habilidade artística, eu teria me mantido fiel à minha convicção. Mas o canto despreparado estava começando a surtir um desgaste da minha garganta que, além de prejudicar o desempenho, estava incomodando físicamente e afetando minha saúde.
Minha avó é muito diferente dando aulas. O tom de voz muda, assim como o modo como ela se dirige a mim. Não é que ela seja severa, mas quando ela fala algo ao qual se deve prestar atenção, ela o faz de forma que a atenção é inevitável. Talvez porque eu sempre a tenha conhecido como a avó carinhosa e brincalhona, suave e confortável. Logo, quando ela assume outra atitude, a diferença salta aos olhos (ouvidos).
A primeira sessão foi fundamentalmente sobre respiração e perceber as deficiências a serem corrigidas: a pouca amplitude de tons, o formato da boca que ajuda em vez de atrapalhar os sons, a voz abafada que precisa aprender a ressoar nos ossos do corpo e projetar-se para fora.
Sentada atrás do teclado antigo que meu irmão lhe deixou quando pegou o piano da casa dela, minha avó sugere notas eletrônicas e corrige minha vocalização. No silêncio, posso ouvir o momento em que sua voz altera, como um clique, e ganha corpo, potência. Uma voz que já lotou salas de teatro.
Ela diz que meu avô também tinha pouca amplitude. Mas com a pequena palheta de notas, pintava milagres vocais.
Minha avó é muito diferente dando aulas. O tom de voz muda, assim como o modo como ela se dirige a mim. Não é que ela seja severa, mas quando ela fala algo ao qual se deve prestar atenção, ela o faz de forma que a atenção é inevitável. Talvez porque eu sempre a tenha conhecido como a avó carinhosa e brincalhona, suave e confortável. Logo, quando ela assume outra atitude, a diferença salta aos olhos (ouvidos).
A primeira sessão foi fundamentalmente sobre respiração e perceber as deficiências a serem corrigidas: a pouca amplitude de tons, o formato da boca que ajuda em vez de atrapalhar os sons, a voz abafada que precisa aprender a ressoar nos ossos do corpo e projetar-se para fora.
Sentada atrás do teclado antigo que meu irmão lhe deixou quando pegou o piano da casa dela, minha avó sugere notas eletrônicas e corrige minha vocalização. No silêncio, posso ouvir o momento em que sua voz altera, como um clique, e ganha corpo, potência. Uma voz que já lotou salas de teatro.
Ela diz que meu avô também tinha pouca amplitude. Mas com a pequena palheta de notas, pintava milagres vocais.
terça-feira, setembro 11, 2007
The times I died

‘The third time I died was when I accepted the idea that talking coherent bullshit about my work was more important than learning.’
(from the series The times I died, by Sara Lando)
I can relate to that.
*sigh*
I'm a broken-hearted artist as well...
segunda-feira, setembro 10, 2007
No Orkut, uma conhecida da faculdade comenta que ouviu o som da minha banda na internet e que adorou. Mais tarde, tendo perdido o show por causa do trânsito insano da cidade e da distância, me pergunta como fazer para comprar o CD que acabamos de gravar.
Há uma parte de mim que continua não querendo ceder ao orgulho fácil de achar que eu sou realmente bom. Uma parte que ainda pergunta, frente a esta situação, "what's the catch?" Ou que ainda se frustra ao perceber que toda a minha capacidade e estudo de quatro anos em artes plásticas não tem um décimo do sucesso e não me dá metade da satisfação que eu ganho da banda na qual comecei há pouco mais de seis meses. A rapidez de tudo faz parecer irreal, falso, perigoso. Desonesto (Nana novamente acertou no termo...) Será que somos bons assim? Pra dizer a verdade, eu nem tenho muitos parâmetros para avaliar. Só sei que estou adorando.
Naquele canto da mente que não se furta de simular situaçõezinhas bestas e fúteis, me imagino sendo entrevistado. O repórter, sabendo da minha formação como artista plástico, faz a pergunta óbvia para saber como saí das artes visuais e fui parar na música. Me imagino respondendo que aconteceu simplemente porque eu tinha mais público cantando do que pintando ou fotografando. A resposta é fútil. A cena inteira é fútil. Mas inerentemente verdadeira. O fato é que cada vez mais me convenço de que o que triunfa na arte de hoje é o ímpeto. Pense menos, faça mais e com mais vontade.
Mas perdoem-me: estou transformando o que seria razão para alegria em uma discussão inútil. Deletem tudo e fiquem com o primeiro parágrafo...
Há uma parte de mim que continua não querendo ceder ao orgulho fácil de achar que eu sou realmente bom. Uma parte que ainda pergunta, frente a esta situação, "what's the catch?" Ou que ainda se frustra ao perceber que toda a minha capacidade e estudo de quatro anos em artes plásticas não tem um décimo do sucesso e não me dá metade da satisfação que eu ganho da banda na qual comecei há pouco mais de seis meses. A rapidez de tudo faz parecer irreal, falso, perigoso. Desonesto (Nana novamente acertou no termo...) Será que somos bons assim? Pra dizer a verdade, eu nem tenho muitos parâmetros para avaliar. Só sei que estou adorando.
Naquele canto da mente que não se furta de simular situaçõezinhas bestas e fúteis, me imagino sendo entrevistado. O repórter, sabendo da minha formação como artista plástico, faz a pergunta óbvia para saber como saí das artes visuais e fui parar na música. Me imagino respondendo que aconteceu simplemente porque eu tinha mais público cantando do que pintando ou fotografando. A resposta é fútil. A cena inteira é fútil. Mas inerentemente verdadeira. O fato é que cada vez mais me convenço de que o que triunfa na arte de hoje é o ímpeto. Pense menos, faça mais e com mais vontade.
Mas perdoem-me: estou transformando o que seria razão para alegria em uma discussão inútil. Deletem tudo e fiquem com o primeiro parágrafo...
terça-feira, agosto 28, 2007
Mairiporã
Foi um daqueles finais de semana para se lembrar.
A banda inteira viajou para Mairiporã, para um show durante a festa de aniversário de Giovana, a namorada do nosso guitarrista. Aconteceu em um condomínio fechado, à beira de uma represa muito similar à da fazenda de minha avó. Chegamos no sábado (depois de um BigMac para o McDia Feliz...) e, após nos refrescarmos da viagem, já estávamos fechados em um casebre à beira da represa para ensaiar. Era uma sensação nova o poder ensaiar sem preocupação de horário: fizemos o setlist do show inteiro, podendo parar, repetir músicas que não ficaram boas, aconselhar uns aos outros e até sobrou tempo para brincadeira no fim, com músicas de shows passados descartadas neste final de semana. Tomei cuidado no ensaio: a seleção de músicas com tons altos exigia bastante da voz e, durante ensaios anteriores, pude sentir o momento em que ela rompia de vez e eu não conseguia mais alcançar os tons agudos. Se isso acontecesse no ensaio, comprometeria o show do dia seguinte. Paramos quando cheguei no limite e passei boa parte do resto da noite calado.
A noite fugaz, passei envolto em minha menina. Sonhei um sonho banalíssimo no qual passava em uma padaria para um rápido café-da-manhã com o guitarrista Nando e uma rodada em máquinas de fliperama.
O domingo foi um crescendo até o show. O equipamento de som alugado pela Gio era digno do Manifesto. Com a diferença de que tivemos todo o tempo do mundo para montar as coisas, afinar instrumentos, passar o som e ter certeza de que tudo correria bem. O palco foi montado em meia quadra de basquete, com uma vista idílica para o pier da represa, ao lado do casebre do dia anterior, onde aconteceria o churrasco.
Chegada a hora e anunciados pela Lexy, subimos ao palco. Na formação, faltava nosso baixista BBK, substituído apenas neste show pelo amigo Rogério que, apesar de alguns deslizes, não desapontou.
A seleção de músicas passou por algumas das já conhecidas e algumas novidades. Abrimos com Keep on Rockin' in the Free World, passamos por Hound Dog do Elvis para animar o pessoal, duas das nossas, algumas outras coisas, uma versão meio moleque de Mrs Robinson e terminamos com uma vesão moderna do Have You Ever Seen the Rain emendada com o Rock & Roll all Night do Kiss (que me rendeu algum tempo de gelo da Lexy porque eu esqueci parte da letra e ela venera Kiss tanto quanto eu gosto do Bowie...). O bis foi nossa deixa para o bom e velho Evenflow que todos da banda adoram.
Feitas as contas dos erros e acertos, acho que nos viramos muito bem. A geração mais jovem do churrasco, em seus vinte e tantos, veio falar conosco, parabenizar, perguntar de shows futuros. Foi diferente dos shows de bares de rock, onde o público já está tão acostumado a isso, que sequer dirige palavra aos músicos iniciantes após um show. Foi muito mais diversão do que apresentação, show, trabalho.
A banda inteira viajou para Mairiporã, para um show durante a festa de aniversário de Giovana, a namorada do nosso guitarrista. Aconteceu em um condomínio fechado, à beira de uma represa muito similar à da fazenda de minha avó. Chegamos no sábado (depois de um BigMac para o McDia Feliz...) e, após nos refrescarmos da viagem, já estávamos fechados em um casebre à beira da represa para ensaiar. Era uma sensação nova o poder ensaiar sem preocupação de horário: fizemos o setlist do show inteiro, podendo parar, repetir músicas que não ficaram boas, aconselhar uns aos outros e até sobrou tempo para brincadeira no fim, com músicas de shows passados descartadas neste final de semana. Tomei cuidado no ensaio: a seleção de músicas com tons altos exigia bastante da voz e, durante ensaios anteriores, pude sentir o momento em que ela rompia de vez e eu não conseguia mais alcançar os tons agudos. Se isso acontecesse no ensaio, comprometeria o show do dia seguinte. Paramos quando cheguei no limite e passei boa parte do resto da noite calado.
A noite fugaz, passei envolto em minha menina. Sonhei um sonho banalíssimo no qual passava em uma padaria para um rápido café-da-manhã com o guitarrista Nando e uma rodada em máquinas de fliperama.
O domingo foi um crescendo até o show. O equipamento de som alugado pela Gio era digno do Manifesto. Com a diferença de que tivemos todo o tempo do mundo para montar as coisas, afinar instrumentos, passar o som e ter certeza de que tudo correria bem. O palco foi montado em meia quadra de basquete, com uma vista idílica para o pier da represa, ao lado do casebre do dia anterior, onde aconteceria o churrasco.
Chegada a hora e anunciados pela Lexy, subimos ao palco. Na formação, faltava nosso baixista BBK, substituído apenas neste show pelo amigo Rogério que, apesar de alguns deslizes, não desapontou.
A seleção de músicas passou por algumas das já conhecidas e algumas novidades. Abrimos com Keep on Rockin' in the Free World, passamos por Hound Dog do Elvis para animar o pessoal, duas das nossas, algumas outras coisas, uma versão meio moleque de Mrs Robinson e terminamos com uma vesão moderna do Have You Ever Seen the Rain emendada com o Rock & Roll all Night do Kiss (que me rendeu algum tempo de gelo da Lexy porque eu esqueci parte da letra e ela venera Kiss tanto quanto eu gosto do Bowie...). O bis foi nossa deixa para o bom e velho Evenflow que todos da banda adoram.
Feitas as contas dos erros e acertos, acho que nos viramos muito bem. A geração mais jovem do churrasco, em seus vinte e tantos, veio falar conosco, parabenizar, perguntar de shows futuros. Foi diferente dos shows de bares de rock, onde o público já está tão acostumado a isso, que sequer dirige palavra aos músicos iniciantes após um show. Foi muito mais diversão do que apresentação, show, trabalho.
sábado, agosto 25, 2007
"Faça"
Apesar de alguns poucos percalços como o de terça, quando saí da agência por volta de uma hora da madrugada, estou gostando muito do novo emprego. Confesso: quando entrei, fiquei assustado com algumas coisas. Mas o sentimento passou logo e, entrando nesta segunda semana, consegui me adaptar.
Trabalho agora em um lugar perto da Avenida Paulista: ótima localização. É um prédio comercial, desses nos quais é preciso um cartão magnético para entrar. Trabalhamos no último andar. De início, já me senti aliviado por voltar a trabalhar em um ambiente de empresa. A agência anterior era em uma casinha que sequer parecia uma empresa, em meio a outras residências, e o contingente total era de sete pessoas, contando com a faxineira. A maioria das pessoas acharia o ambiente muito gostoso, mas me incentivava ao ócio. Chega a ser redundante dizer, mas prefiro um ambiente de trabalho para trabalhar. Fui criado para o ambiente de empresa: as estações de trabalho todas iguais me inspiram um sentimento de equipe, as paredes e a mobília ascéptica me falam de eficiência, a hierarquia me dá segurança.
No entanto, não chega a ser um ambiente árido. Trabalhamos em uma pequena saleta de teto baixo, rodeada por janelas altas em três dos quatro lados, como uma península projetando-se para fora do prédio. As janelas na altura dos ombros ficam altas quando me sento: a visão das coberturas de prédios e antenas dá a impressão de estar trabalhando em um lugar meio surreal, esse cubículo suspenso no ar em meio a um amplo espaço aberto de céu azul.
Me dou bem com meus colegas. São todos mais ou menos da minha idade e com pinta de alternativinhos, salvo algumas excessões. Tom, um rapaz de cabelo liso e comprido, comanda a trilha sonora do horário comercial com um seleção interessante, sempre tocada em um volume civilizado e confortável, quase um murmúrio. Às vezes é Smiths, de vez em quando um Arcade Fire. Há alguns dias, fez um dia de tributo ao Elvis, aproveitando para saudar todo mundo dizendo "Elvis não morreu". Minha supervisora direta, encarregada de boa parte da criação, é Adriana: tem aquele ar blasê de saco cheio que a Loo tinha. Me pergunto se todos os profissionais de direção de arte eventualmente passam por uma fase assim. Na minha frente, a chocólatra Liz divide a redação com Leila, uma senhora em seus quarenta cheia de tiradas sarcásticas murmuradas baixinho. Ao lado, a dupla de mídia eletrônica é composta por Tati e Lu que, apesar desta ser ocidental e aquela oriental, são pessoa cujo conceito é muito semelhante: esguias de estatura média e cabelo preto liso. Perto delas, a última mesa é dividida entre os chefes Wlad (nada a ver com o empalador romeno) e Kátia, ambos com um ar quase paternal ou professoresco; e Mariana.
Mari é uma personagem curiosa. No mesmo dia em que vim fazer a primeira entrevista após achar a vaga na internet, recebi coincidentemente de minha avó um cartão dela: bom presságio de que eu realmente iria trabalhar neste lugar. Parece que ela faz ou fez aulas de teatro com minha avó e não consegue acreditar quando conto detalhes de uma senhorinha de oitenta anos que mais parece uma vovó morando em uma vilinha do que uma atriz que contribuiu no surgimento do teatro profissional brasileiro.
A turma toda é bem animada e não faltam situações propícias para morrer de rir. Casos contados na cozinha, trocadilhos em reuniões de brainstorming, troca de figurinhas a respeito de bandas, tudo muito leve. Mesmo quando criticam este ou aquele layout, parecem fazê-lo de um modo que diverte e não humilha.
Duas semanas se passaram desde que comecei. O início, como mencionei, me assustou um pouco. Porque ninguém me deu o passo-a-passo de como tudo funciona e eu tive que aprender sozinho. Mas principalmente porque eles pareciam confiar demais em mim. Eu vim de um agência onde eu tinha sido relegado ao posto de assistente de arte, daquele que executa, mas não cria, por causa da minha parca capacidade com design. Foi justamente por isso que fiquei cada vez mais receoso e tímido para criar composições. Aqui, eles têm me deixado correr solto, criar meu estilo. E a primeira folha em branco sem restrições é sempre vista como algo sublime, grande demais para abarcar. A responsabilidade gelou-me a espinha no começo.
Resumindo, saí de um lugar onde eu só ouvia negativas e restrições para cair de para-quedas em meio a um amplo espaço aberto onde todos me dizem "faça". Dá medo no começo, mas torna-se algo delicioso.
Vez por outra, ainda sou assaltado por aquela sensação de não pertencer. Ou, como diz a Nana, de que o que estou fazendo é desonesto. Mas ela tem diminuído a cada dia, junto com a minha decisão irrevogável de mudar de ramo. Este emprego ainda pode ser legal...
Trabalho agora em um lugar perto da Avenida Paulista: ótima localização. É um prédio comercial, desses nos quais é preciso um cartão magnético para entrar. Trabalhamos no último andar. De início, já me senti aliviado por voltar a trabalhar em um ambiente de empresa. A agência anterior era em uma casinha que sequer parecia uma empresa, em meio a outras residências, e o contingente total era de sete pessoas, contando com a faxineira. A maioria das pessoas acharia o ambiente muito gostoso, mas me incentivava ao ócio. Chega a ser redundante dizer, mas prefiro um ambiente de trabalho para trabalhar. Fui criado para o ambiente de empresa: as estações de trabalho todas iguais me inspiram um sentimento de equipe, as paredes e a mobília ascéptica me falam de eficiência, a hierarquia me dá segurança.
No entanto, não chega a ser um ambiente árido. Trabalhamos em uma pequena saleta de teto baixo, rodeada por janelas altas em três dos quatro lados, como uma península projetando-se para fora do prédio. As janelas na altura dos ombros ficam altas quando me sento: a visão das coberturas de prédios e antenas dá a impressão de estar trabalhando em um lugar meio surreal, esse cubículo suspenso no ar em meio a um amplo espaço aberto de céu azul.
Me dou bem com meus colegas. São todos mais ou menos da minha idade e com pinta de alternativinhos, salvo algumas excessões. Tom, um rapaz de cabelo liso e comprido, comanda a trilha sonora do horário comercial com um seleção interessante, sempre tocada em um volume civilizado e confortável, quase um murmúrio. Às vezes é Smiths, de vez em quando um Arcade Fire. Há alguns dias, fez um dia de tributo ao Elvis, aproveitando para saudar todo mundo dizendo "Elvis não morreu". Minha supervisora direta, encarregada de boa parte da criação, é Adriana: tem aquele ar blasê de saco cheio que a Loo tinha. Me pergunto se todos os profissionais de direção de arte eventualmente passam por uma fase assim. Na minha frente, a chocólatra Liz divide a redação com Leila, uma senhora em seus quarenta cheia de tiradas sarcásticas murmuradas baixinho. Ao lado, a dupla de mídia eletrônica é composta por Tati e Lu que, apesar desta ser ocidental e aquela oriental, são pessoa cujo conceito é muito semelhante: esguias de estatura média e cabelo preto liso. Perto delas, a última mesa é dividida entre os chefes Wlad (nada a ver com o empalador romeno) e Kátia, ambos com um ar quase paternal ou professoresco; e Mariana.
Mari é uma personagem curiosa. No mesmo dia em que vim fazer a primeira entrevista após achar a vaga na internet, recebi coincidentemente de minha avó um cartão dela: bom presságio de que eu realmente iria trabalhar neste lugar. Parece que ela faz ou fez aulas de teatro com minha avó e não consegue acreditar quando conto detalhes de uma senhorinha de oitenta anos que mais parece uma vovó morando em uma vilinha do que uma atriz que contribuiu no surgimento do teatro profissional brasileiro.
A turma toda é bem animada e não faltam situações propícias para morrer de rir. Casos contados na cozinha, trocadilhos em reuniões de brainstorming, troca de figurinhas a respeito de bandas, tudo muito leve. Mesmo quando criticam este ou aquele layout, parecem fazê-lo de um modo que diverte e não humilha.
Duas semanas se passaram desde que comecei. O início, como mencionei, me assustou um pouco. Porque ninguém me deu o passo-a-passo de como tudo funciona e eu tive que aprender sozinho. Mas principalmente porque eles pareciam confiar demais em mim. Eu vim de um agência onde eu tinha sido relegado ao posto de assistente de arte, daquele que executa, mas não cria, por causa da minha parca capacidade com design. Foi justamente por isso que fiquei cada vez mais receoso e tímido para criar composições. Aqui, eles têm me deixado correr solto, criar meu estilo. E a primeira folha em branco sem restrições é sempre vista como algo sublime, grande demais para abarcar. A responsabilidade gelou-me a espinha no começo.
Resumindo, saí de um lugar onde eu só ouvia negativas e restrições para cair de para-quedas em meio a um amplo espaço aberto onde todos me dizem "faça". Dá medo no começo, mas torna-se algo delicioso.
Vez por outra, ainda sou assaltado por aquela sensação de não pertencer. Ou, como diz a Nana, de que o que estou fazendo é desonesto. Mas ela tem diminuído a cada dia, junto com a minha decisão irrevogável de mudar de ramo. Este emprego ainda pode ser legal...
sexta-feira, agosto 17, 2007
Notes on arousal
There once was a conversation held entirely on stares. There was a stare that meant "hello" (although the actual words were "I see you"). There was a stare that meant "don't just sit there, come and dance". There was a stare and a smile that meant "yes, that's it". There were stares that meant "I like you".
Unfortunately, the language of stares tells no names.
[Althought it's much more interesting than Italian...]
There once was someone who gave me something I really wanted. Who spent the night without the need of lies told to her parents or awkward mornings with the family. It was comfort without the guilt.
But then again, we were both miles away from our homes.
There once was a work colleague who casually mentioned she would go to a fancy party wearing no underpants. People could see the marks they left on the curve of the hips if the dress was made of light fabric such as silk, she told me.
As for me, I was thinking of all the wonderfully perverse things I might do with any girl of mine who would dare play the same strategy.
There once was sex outdoors. Camouflaged only by the dark and late hours of the evening and the adequate choice of a secluded place. Fuelled to the point of combustion by an ample discussion on the subject.
Alas, there was much leaf-picking to be done afterwards...
===================================
[EDITADO EM 25/08/2007]
Uma vez houve uma conversa que aconteceu inteiramente com olhares. Houve um olhar que significou "olá" (embora as palavras exatas fossem "eu te vejo"). Houve um olhar que significou "não fique aí sentado, venha dançar". Houve um olhar e um sorriso que significaram "sim, isso mesmo". Houveram olhares que significaram "eu gosto de você".
Infelizmente, a linguagem dos olhares não diz nomes.
[Mas é muito mais interessante do que italiano...]
Uma vez houve alguém que me deu algo que eu realmente queria. Que passou a noite comigo sem a necessidade de mentiras contadas aos pais ou manhãs desconfortáveis com a família. Era conforto sem a culpa.
Mas também, estávamos ambos há milhas de distância de nossas casas.
Uma vez houve uma colega de trabalho que casualmente mencionou que iria a uma festa chique sem roupas íntimas. As pessoas conseguiam ver as marcas deixadas na curva da cintura se o vestido fosse de um tecido muito leve como a seda, ela me disse.
Quanto a mim, estava pensando em todas as maravilhosamente perversas coisas que eu poderia fazer com qualquer garota minha que ousasse empregar a mesma estratégia.
Uma vez houve sexo em espaço aberto. Camuflado apenas pelas escuras e tardias horas da noite e a escolha adequada de um lugar afastado. Abastecido até o ponto de combustão por ampla discussão sobre o assunto.
Claro, houve muita catação de folha para ser feita depois.
[/EDITADO EM 25/08/2007]
Unfortunately, the language of stares tells no names.
[Althought it's much more interesting than Italian...]
There once was someone who gave me something I really wanted. Who spent the night without the need of lies told to her parents or awkward mornings with the family. It was comfort without the guilt.
But then again, we were both miles away from our homes.
There once was a work colleague who casually mentioned she would go to a fancy party wearing no underpants. People could see the marks they left on the curve of the hips if the dress was made of light fabric such as silk, she told me.
As for me, I was thinking of all the wonderfully perverse things I might do with any girl of mine who would dare play the same strategy.
There once was sex outdoors. Camouflaged only by the dark and late hours of the evening and the adequate choice of a secluded place. Fuelled to the point of combustion by an ample discussion on the subject.
Alas, there was much leaf-picking to be done afterwards...
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[EDITADO EM 25/08/2007]
Notas sobre ânimo
Uma vez houve uma conversa que aconteceu inteiramente com olhares. Houve um olhar que significou "olá" (embora as palavras exatas fossem "eu te vejo"). Houve um olhar que significou "não fique aí sentado, venha dançar". Houve um olhar e um sorriso que significaram "sim, isso mesmo". Houveram olhares que significaram "eu gosto de você".
Infelizmente, a linguagem dos olhares não diz nomes.
[Mas é muito mais interessante do que italiano...]
Uma vez houve alguém que me deu algo que eu realmente queria. Que passou a noite comigo sem a necessidade de mentiras contadas aos pais ou manhãs desconfortáveis com a família. Era conforto sem a culpa.
Mas também, estávamos ambos há milhas de distância de nossas casas.
Uma vez houve uma colega de trabalho que casualmente mencionou que iria a uma festa chique sem roupas íntimas. As pessoas conseguiam ver as marcas deixadas na curva da cintura se o vestido fosse de um tecido muito leve como a seda, ela me disse.
Quanto a mim, estava pensando em todas as maravilhosamente perversas coisas que eu poderia fazer com qualquer garota minha que ousasse empregar a mesma estratégia.
Uma vez houve sexo em espaço aberto. Camuflado apenas pelas escuras e tardias horas da noite e a escolha adequada de um lugar afastado. Abastecido até o ponto de combustão por ampla discussão sobre o assunto.
Claro, houve muita catação de folha para ser feita depois.
[/EDITADO EM 25/08/2007]
E finalmente aconteceu: comecei a trabalhar em um lugar que limita o acesso à internet. Blogs, fotologs, Orkut e diversas outras regalias estão bloqueadas da rede. Da minha vida virtual, apenas o Flickr salvou-se.
O pessoal é interessante. Gente jovem, da minha idade, e que não intimida tanto. Quiça seja o contrário e eu é que cresci e me fortaleci com os outros empregos. Ainda me sinto inadequado: aquela sensação de que os outros têm mais tempo de estrada e sabem muito mais do que eu, de que meus layouts são fracos e pouco criativos em comparação com a capacidade dos outros. Uma sensação geral de que talvez a publicidade não seja realmente a minha praia. Porém eles me dão um pouco mais de tranquilidade do que nos outros empregos. Me passam trabalhos bem mais relacionados com design e confiam na minha parca capacidade. É bom: preciso aprender de algum jeito.
Meu computador fica virado para minha supervisora, e tenho pouca chance de divagar ao longo do dia. Mas por alguma razão, aceito esse desafio. É fato:tenho chegado em casa mais cansado por causa disso. Os dias têm sido trabalho do início ao fim.
O pessoal é interessante. Gente jovem, da minha idade, e que não intimida tanto. Quiça seja o contrário e eu é que cresci e me fortaleci com os outros empregos. Ainda me sinto inadequado: aquela sensação de que os outros têm mais tempo de estrada e sabem muito mais do que eu, de que meus layouts são fracos e pouco criativos em comparação com a capacidade dos outros. Uma sensação geral de que talvez a publicidade não seja realmente a minha praia. Porém eles me dão um pouco mais de tranquilidade do que nos outros empregos. Me passam trabalhos bem mais relacionados com design e confiam na minha parca capacidade. É bom: preciso aprender de algum jeito.
Meu computador fica virado para minha supervisora, e tenho pouca chance de divagar ao longo do dia. Mas por alguma razão, aceito esse desafio. É fato:tenho chegado em casa mais cansado por causa disso. Os dias têm sido trabalho do início ao fim.
domingo, agosto 12, 2007
O cão de meu avô
Neste tempo entre um emprego deixado e outro para começar, fiz uma daquelas organizações gerais que, concordo com a Nana, são muito terapeuticas.
Calculo mais ou menos dois anos desde que usei meu ateliê como um ateliê pela última vez. Desde então, o quarto na casa de minha avó não serviu como outra coisa além de uma espécie de depósito. E desde então, o exercício de minha arte diminuiu cada vez mais, sobrevivendo com a eventual aquarela de Alice e uma ou outra fotografia de fotolog sem grandes pretensões artísticas.
E então este ano veio e nem isso fiz. A última Alice publicada vestia seu novo vestido e expressava minha felicidade em me perceber uma nova pessoa ao voltar da viagem um ano atrás. E demorei seis meses até ter fotos que eu considerava vagamente merecedoras de respeito como técnica. Minha atenção estivera propositalmente voltada inteiramente para a M3 e a banda.
Entrei no ateliê: limpado perfunctoriamente pela empregada de minha avó, que fora instruída para não trocar nada de lugar, tinha poucas mudanças. As pilhas de quadros sucateados e dos meramente incompletos se fundiram em uma pilha uniforme no meio do quarto. Remexer pelas coisas me trouxe uma nostalgia do tempo em que eu me considerava um artista. De quando eu sempre tinha uma idéia instigante e o tempo e paciência de executá-la. Embora estes exercícios nunca tivessem me trazido nada além da atenção de admiradores estéreis como a Xiclet, seus resultados me agradavam. Me traziam um orgulho desfrutado sozinho. A constatação contradizia minha opinião sobre um dos assuntos que sempre discutíamos na faculdade: se é possível fazer arte para si mesmo, sem a pretensão de mostrá-la ao mundo. Eu poderia pintar estas coisas para mim mesmo. Ainda almejaria apresentá-las ao mundo e obter algum reconhecimento, mas essa esperança cristalizou-se como mero sonho há muito tempo e hoje já não acredito ser possível. Sobrou-me a satisfação pessoal de fazer algo que me agradava. Aquela masturbação técnica pura e simples. Sincera.
Depois de jogar fora coisas que jamais terminaria, esculturas quebradas, material estragado, telas irrecuperáveis, saí da casa de minha avó com alguns dos quadros inacabados. Em uma época de tão pouca criatividade, desse sentimento de vácuo, quiçá completar estas obras ajude a dar um novo impulso a essas coisas. Eles sentam agora em um canto do meu quarto, chamando para que eu alguma hora abra a cotoveladas espaço entre o novo trabalho, a banda e tantas outras pequenas obrigações auto-impostas.
O primeiro dos quadro é uma tela que pertenceu ao meu avô (pai de meu pai). Já está coberta uniformemente de tinta a óleo preta, e irá pertencer àquela série de quadros de fundo escuro e personagens macabros. Já tenho nesta série um sonho de Nana pintado. E estou convencido de que a próxima coisa a pintar é uma alucinação de meu avô em sua tela. Faz sentido, do jeito que eu gosto. Conta meu pai que, em uma certa idade, meu avô teve um caso de hepatite. O fígado danificado deixou de processar algumas toxinas naturais encontradas em alguns alimentos, algumas delas com efeitos alucinógenos. Meu pai avisou-o que ele veria coisas inusitadas e ele pode curtir sem medo essas estranhices. Não demorou muito até que ele recebesse a visita de um cão enorme. Era um cão particular: na verdade era como se tivessem enrolado um cachorro com arame rígido, e depois subtraído o cachorro. No centro da figura, queimava um coração que era um carvão em brasa. A ilusão entrou no quarto atravessando uma parede e saiu pela outra.
Passo meia hora ao fim de cada dia rabiscando cachorros de arame. Ainda não solucionei como criar a ilusão do coração contido no meio daquela figura. Ela sempre acaba parecendo bidimensional demais. Mas ao menos tenho esse ânimo para voltar a ser um artista novamente.
Calculo mais ou menos dois anos desde que usei meu ateliê como um ateliê pela última vez. Desde então, o quarto na casa de minha avó não serviu como outra coisa além de uma espécie de depósito. E desde então, o exercício de minha arte diminuiu cada vez mais, sobrevivendo com a eventual aquarela de Alice e uma ou outra fotografia de fotolog sem grandes pretensões artísticas.
E então este ano veio e nem isso fiz. A última Alice publicada vestia seu novo vestido e expressava minha felicidade em me perceber uma nova pessoa ao voltar da viagem um ano atrás. E demorei seis meses até ter fotos que eu considerava vagamente merecedoras de respeito como técnica. Minha atenção estivera propositalmente voltada inteiramente para a M3 e a banda.
Entrei no ateliê: limpado perfunctoriamente pela empregada de minha avó, que fora instruída para não trocar nada de lugar, tinha poucas mudanças. As pilhas de quadros sucateados e dos meramente incompletos se fundiram em uma pilha uniforme no meio do quarto. Remexer pelas coisas me trouxe uma nostalgia do tempo em que eu me considerava um artista. De quando eu sempre tinha uma idéia instigante e o tempo e paciência de executá-la. Embora estes exercícios nunca tivessem me trazido nada além da atenção de admiradores estéreis como a Xiclet, seus resultados me agradavam. Me traziam um orgulho desfrutado sozinho. A constatação contradizia minha opinião sobre um dos assuntos que sempre discutíamos na faculdade: se é possível fazer arte para si mesmo, sem a pretensão de mostrá-la ao mundo. Eu poderia pintar estas coisas para mim mesmo. Ainda almejaria apresentá-las ao mundo e obter algum reconhecimento, mas essa esperança cristalizou-se como mero sonho há muito tempo e hoje já não acredito ser possível. Sobrou-me a satisfação pessoal de fazer algo que me agradava. Aquela masturbação técnica pura e simples. Sincera.
Depois de jogar fora coisas que jamais terminaria, esculturas quebradas, material estragado, telas irrecuperáveis, saí da casa de minha avó com alguns dos quadros inacabados. Em uma época de tão pouca criatividade, desse sentimento de vácuo, quiçá completar estas obras ajude a dar um novo impulso a essas coisas. Eles sentam agora em um canto do meu quarto, chamando para que eu alguma hora abra a cotoveladas espaço entre o novo trabalho, a banda e tantas outras pequenas obrigações auto-impostas.
O primeiro dos quadro é uma tela que pertenceu ao meu avô (pai de meu pai). Já está coberta uniformemente de tinta a óleo preta, e irá pertencer àquela série de quadros de fundo escuro e personagens macabros. Já tenho nesta série um sonho de Nana pintado. E estou convencido de que a próxima coisa a pintar é uma alucinação de meu avô em sua tela. Faz sentido, do jeito que eu gosto. Conta meu pai que, em uma certa idade, meu avô teve um caso de hepatite. O fígado danificado deixou de processar algumas toxinas naturais encontradas em alguns alimentos, algumas delas com efeitos alucinógenos. Meu pai avisou-o que ele veria coisas inusitadas e ele pode curtir sem medo essas estranhices. Não demorou muito até que ele recebesse a visita de um cão enorme. Era um cão particular: na verdade era como se tivessem enrolado um cachorro com arame rígido, e depois subtraído o cachorro. No centro da figura, queimava um coração que era um carvão em brasa. A ilusão entrou no quarto atravessando uma parede e saiu pela outra.
Passo meia hora ao fim de cada dia rabiscando cachorros de arame. Ainda não solucionei como criar a ilusão do coração contido no meio daquela figura. Ela sempre acaba parecendo bidimensional demais. Mas ao menos tenho esse ânimo para voltar a ser um artista novamente.
sexta-feira, agosto 10, 2007
Bitchslapping
Tendo algum tempo livre, voltei a entrar em contato com o pessoal de uma agência pequena porém relativamente famosa na qual eu queria muito entrar. Confiante de que eu já estaria com capacidade suficiente para ao menos ter um cargo de assistente, fui mostrar meu portfolio.
Tomei um sonoro e redondo não.
Daqueles que é preciso tomar de vez em quando, pra se encher de ódio diesel e aprender com raiva, na marra, a melhorar a qualidade do trabalho. É uma daquelas coisas que colocam tudo em perspectiva, porque você percebe que não existe apenas o novato e o veterano, mas uma infinidade de gradações entre um e outro. O trabalho na agência anterior, o freela recente, a produção dos encartes de CD da banda, tudo isso me mostra que eu não estou mais no nível básico. Que eu já consigo fazer muito mais do que pessoas com aquela noção cotidana e média de Photoshop. No entanto, ainda não é o suficiente pra sair das agências anônimas para um lugar que realmente tenha nome. Ainda é preciso aprender mais, fazer mais, perceber mais. Este último é o mais importante, porque o nível de um profissional no meu ramo é muitas vezes definido pela capacidade de perceber e criar picuinha sobre detalhes ínfimos em imagens que, para os outros 95% da população, estariam perfeitas.
A reação depois de uma portada na cara assim é invariavelmente a mesma: você começa querendo rasgar o portfolio em dois e jogar fora, desistir mesmo. Depois passa a querer voltar pra casa o quanto antes e, num ímpeto furioso, reeditar tudo que fez (sem pensar nos custos de impressão) pra corrigir todos os erros que foram apontados e aparecer de volta na agência o mais rápido possível, pra mostrar que você pode e que é um bom menino. A meio caminho de casa, você já está mandando eles às favas e dizendo a si mesmo qualquer desculpa cujo conceito geral é algo do tipo "tudo bem, eu nem queria mesmo...". Finalmente, em casa, você só quer se afundar em qualquer vício auto-gratificante (como o blog, por exemplo...) e esquecer este dia de merda.
Houve uma época, no colégio, em que eu aceitava as regras do jogo e seguia as ordens. E eu fazia isso porque as coisas funcionavam quando eu fazia assim e a gratificação era suficiente. Enchia-me de orgulho estar na primeira classe e ter um relacionamento com os professores que me permitia algumas regalias quando eu não ia bem em alguma prova por motivos pessoais. Fazia sentido seguir as regras do jogo. Eu tinha vontade de seguir as regras.
Agora, a regra seria justamente pesquisar, aprender, reeditar e voltar lá pra mostrar de novo. E talvez eu faça justamente isso, por falta de opção melhor. Porque parte de mim aprendeu a ser assim mesmo. Mas já percebo que farei isso da forma mais mecânica possível. Porque vontade, "tesão pelo que eu faço" e todas essas outras morais de desenho animado já acabaram há muito tempo.
Eu queria tanto simplesmente ser ótimo em alguma coisa. Eu sou bom em várias, mas não sou ótimo em nenhuma. Daquele ótimo que resolve sua vida, sua verdadeira vocação, que te traz reconhecimento, dinheiro e deixa até sua pele mais bonita... Queria tanto simplesmente descobrir uma coisa na qual eu nem me esforçasse muito pra ser excepcionalmente genial. Pra falar a verdade, cansei de ouvir o quanto eu sou bom em coisas que eu faço mas continuar na pindaíba do anonimato sem perspectiva, nessa vidinha medíocre.
Tomei um sonoro e redondo não.
Daqueles que é preciso tomar de vez em quando, pra se encher de ódio diesel e aprender com raiva, na marra, a melhorar a qualidade do trabalho. É uma daquelas coisas que colocam tudo em perspectiva, porque você percebe que não existe apenas o novato e o veterano, mas uma infinidade de gradações entre um e outro. O trabalho na agência anterior, o freela recente, a produção dos encartes de CD da banda, tudo isso me mostra que eu não estou mais no nível básico. Que eu já consigo fazer muito mais do que pessoas com aquela noção cotidana e média de Photoshop. No entanto, ainda não é o suficiente pra sair das agências anônimas para um lugar que realmente tenha nome. Ainda é preciso aprender mais, fazer mais, perceber mais. Este último é o mais importante, porque o nível de um profissional no meu ramo é muitas vezes definido pela capacidade de perceber e criar picuinha sobre detalhes ínfimos em imagens que, para os outros 95% da população, estariam perfeitas.
A reação depois de uma portada na cara assim é invariavelmente a mesma: você começa querendo rasgar o portfolio em dois e jogar fora, desistir mesmo. Depois passa a querer voltar pra casa o quanto antes e, num ímpeto furioso, reeditar tudo que fez (sem pensar nos custos de impressão) pra corrigir todos os erros que foram apontados e aparecer de volta na agência o mais rápido possível, pra mostrar que você pode e que é um bom menino. A meio caminho de casa, você já está mandando eles às favas e dizendo a si mesmo qualquer desculpa cujo conceito geral é algo do tipo "tudo bem, eu nem queria mesmo...". Finalmente, em casa, você só quer se afundar em qualquer vício auto-gratificante (como o blog, por exemplo...) e esquecer este dia de merda.
Houve uma época, no colégio, em que eu aceitava as regras do jogo e seguia as ordens. E eu fazia isso porque as coisas funcionavam quando eu fazia assim e a gratificação era suficiente. Enchia-me de orgulho estar na primeira classe e ter um relacionamento com os professores que me permitia algumas regalias quando eu não ia bem em alguma prova por motivos pessoais. Fazia sentido seguir as regras do jogo. Eu tinha vontade de seguir as regras.
Agora, a regra seria justamente pesquisar, aprender, reeditar e voltar lá pra mostrar de novo. E talvez eu faça justamente isso, por falta de opção melhor. Porque parte de mim aprendeu a ser assim mesmo. Mas já percebo que farei isso da forma mais mecânica possível. Porque vontade, "tesão pelo que eu faço" e todas essas outras morais de desenho animado já acabaram há muito tempo.
Eu queria tanto simplesmente ser ótimo em alguma coisa. Eu sou bom em várias, mas não sou ótimo em nenhuma. Daquele ótimo que resolve sua vida, sua verdadeira vocação, que te traz reconhecimento, dinheiro e deixa até sua pele mais bonita... Queria tanto simplesmente descobrir uma coisa na qual eu nem me esforçasse muito pra ser excepcionalmente genial. Pra falar a verdade, cansei de ouvir o quanto eu sou bom em coisas que eu faço mas continuar na pindaíba do anonimato sem perspectiva, nessa vidinha medíocre.
terça-feira, agosto 07, 2007
Observo e escuto os relatos de quem se desespera.
Eu acho que eu costumava ter alguma coisa semelhante. Quando escrevi sobre meu último ataque de ansiedade, acontecido repentinamente e sem motivo em um bar em Perugia há mais de um ano, descrevi-o como se o mundo perdesse as cores. Porque realmente era essa a sensação. Só que em vez das cores, era o sentido, a graça, a lógica. Ia tudo de uma vez, naquele efeito de fade rápido, como quando você regula uma televisão. De repente, tudo cinza, ilógico e sem graça. Vontade de me atirar de um prédio. E eu somatizava tudo no estômago e passava mal. Um foco de contração muscular irradiando desespero pelos nervos.
Observo e escuto outra pessoa passar por esse desespero P/B. É claro que ela ainda não pensou em dar cabo de si mesma, mas eventualmente vai pensar. Tenho medo, assim como todo mundo, mas não posso dizer nada.
Observo e escuto outra pessoa passar por outro desespero. Um onde o vazio não é de lógica e graça, mas um vazio mais pessoal. De se encontrar sem talentos, sem rumos, sem compania. Aqui eu fico mais tranquilo, porque sei que o tempo vai colorir seu mundo. Lenta e ansiosamente, mas vai.
Observo e escuto outra pessoa passar por um desespero tardio. As décadas finais da sua vida lhe trazem questionamentos que eu tive na adolescência. Ele não sabe, porque nunca experimentou a idéia, mas é essa falta de sentido que é sua maior liberdade. Ele pode fazer o que quiser. Só que não sabe o que quer...
Daqui, do outro lado, eu passo por um desespero que não é desespero. Porque isso seria sentir. E já faz algum tempo que eu não consigo fazer isso. Os dias são uma procissão idêntica de horas e estratégias levadas a cabo sem muito ímpeto. Até a criatividade, que nas lendas urbanas é intrínseca de quem sente muito, é executada de uma forma mecânica. Neste inverno, não estou com frio, eu simplesmente estou frio. E seria triste, but then again, tristeza também é sentimento.
E infelizmente, erotismo também.
Eu acho que eu costumava ter alguma coisa semelhante. Quando escrevi sobre meu último ataque de ansiedade, acontecido repentinamente e sem motivo em um bar em Perugia há mais de um ano, descrevi-o como se o mundo perdesse as cores. Porque realmente era essa a sensação. Só que em vez das cores, era o sentido, a graça, a lógica. Ia tudo de uma vez, naquele efeito de fade rápido, como quando você regula uma televisão. De repente, tudo cinza, ilógico e sem graça. Vontade de me atirar de um prédio. E eu somatizava tudo no estômago e passava mal. Um foco de contração muscular irradiando desespero pelos nervos.
Observo e escuto outra pessoa passar por esse desespero P/B. É claro que ela ainda não pensou em dar cabo de si mesma, mas eventualmente vai pensar. Tenho medo, assim como todo mundo, mas não posso dizer nada.
Observo e escuto outra pessoa passar por outro desespero. Um onde o vazio não é de lógica e graça, mas um vazio mais pessoal. De se encontrar sem talentos, sem rumos, sem compania. Aqui eu fico mais tranquilo, porque sei que o tempo vai colorir seu mundo. Lenta e ansiosamente, mas vai.
Observo e escuto outra pessoa passar por um desespero tardio. As décadas finais da sua vida lhe trazem questionamentos que eu tive na adolescência. Ele não sabe, porque nunca experimentou a idéia, mas é essa falta de sentido que é sua maior liberdade. Ele pode fazer o que quiser. Só que não sabe o que quer...
Daqui, do outro lado, eu passo por um desespero que não é desespero. Porque isso seria sentir. E já faz algum tempo que eu não consigo fazer isso. Os dias são uma procissão idêntica de horas e estratégias levadas a cabo sem muito ímpeto. Até a criatividade, que nas lendas urbanas é intrínseca de quem sente muito, é executada de uma forma mecânica. Neste inverno, não estou com frio, eu simplesmente estou frio. E seria triste, but then again, tristeza também é sentimento.
E infelizmente, erotismo também.
quarta-feira, agosto 01, 2007
ZZzzZZzzZZzzZZ
Há no simples ato de dormir uma característica muito reveladora da maturidade e liberdade do indivíduo.
Quando crianças, não somos donos do nosso sono. As mães nos colocam para dormir em horários determinados por ela, muitas vezes contra nossas vontades. Nos fecham nos quartos ainda que não tenhamos sono e ficamos lá, revirando nas camas até aprendermos a controlar o sono e fazê-lo vir quando precisamos. Elas nos deitam em roupas de cama que elas escolhem e mantem limpas.
A adolescência traz um pouco de privacidade como consequência do nosso pudor em relação a um corpo que está mudando. Dormir já vira uma coisa nossa. Barganhamos com as mães por mais horas de vigília e começamos a tomar consciência de que pouco sono é garantia de um dia infernal a seguir. O quarto já vira território demarcado, que embora ainda seja arrumado por elas, já ganha ares e estética próprios. Mas ainda assim, quem define ainda são elas. Somos questionados sobre elementos estranhos que elas encontram no quarto (nosso santuário violado). Voltamos dos eventos sociais na hora determinada por elas, que mandam os maridos para nos recolher das festinhas. No fim, continuamos dormindo quando e onde elas querem, apenas tendo uma vaga ilusão de liberdade e respeito à privacidade.
Hoje, recém-adulto, eu chego em casa quando quero. Se decidir, durmo duas horas por noite e saio para a rua antes dela acordar, sem receber perguntas (e depois venho me lamentar disso por aqui...). Volto da balada ao raiar do dia e a cama fica impregnada do cheiro de cigarro que nem é meu. E eu que me vire pra resolver. Se eu não tiro do armário os cobertores pesados no inverno, passo frio à noite porque essa tarefa já virou definitivamente minha.
Tudo no simples ato de dormir.
Quando crianças, não somos donos do nosso sono. As mães nos colocam para dormir em horários determinados por ela, muitas vezes contra nossas vontades. Nos fecham nos quartos ainda que não tenhamos sono e ficamos lá, revirando nas camas até aprendermos a controlar o sono e fazê-lo vir quando precisamos. Elas nos deitam em roupas de cama que elas escolhem e mantem limpas.
A adolescência traz um pouco de privacidade como consequência do nosso pudor em relação a um corpo que está mudando. Dormir já vira uma coisa nossa. Barganhamos com as mães por mais horas de vigília e começamos a tomar consciência de que pouco sono é garantia de um dia infernal a seguir. O quarto já vira território demarcado, que embora ainda seja arrumado por elas, já ganha ares e estética próprios. Mas ainda assim, quem define ainda são elas. Somos questionados sobre elementos estranhos que elas encontram no quarto (nosso santuário violado). Voltamos dos eventos sociais na hora determinada por elas, que mandam os maridos para nos recolher das festinhas. No fim, continuamos dormindo quando e onde elas querem, apenas tendo uma vaga ilusão de liberdade e respeito à privacidade.
Hoje, recém-adulto, eu chego em casa quando quero. Se decidir, durmo duas horas por noite e saio para a rua antes dela acordar, sem receber perguntas (e depois venho me lamentar disso por aqui...). Volto da balada ao raiar do dia e a cama fica impregnada do cheiro de cigarro que nem é meu. E eu que me vire pra resolver. Se eu não tiro do armário os cobertores pesados no inverno, passo frio à noite porque essa tarefa já virou definitivamente minha.
Tudo no simples ato de dormir.
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