segunda-feira, dezembro 27, 2004

Random Literature

Although they did agree on mostly everything, it was one difference in particular that spawned many a tender moment between them: she was terrified of lightning storms, whereas he found them to be one of the most beautiful phenomena in nature. See, both of them were taken by the sublimeness of it. But where it seemed to be too much for her to bear, it was all he could ask for.

When the summer rain would come upon their home, wrecking havoc on the power lines and leaving them in the dark, she would run to him and burry her face on his chest, listening to his heart beat faster with the exhilataion. She`d try to concentrate on that sound, to make it louder than the booming outside and she`d shut her eyes as tight as possible, trying to ignore the flicker of light that announced another upcoming thunder. and the horrific thought that one of those could actually hit them. He would just stare out the window, at the rain and the cracks in the sky, taking into himself all the raw greatness of it, as if God Himself were entertaining him. He watched it all with an absent-mindedness, as if there wasn`t the slightest chance of them being hit by all that power. As if, somehow, they weren`t even there. It filled him with energy, it marveled him. But above all, it gave him a desire to create something out of it. To marvel others in the same way. There was a sense that this desire to create would be expressed by his hands. His hands as outlets. His hands that held her in those moments. And it was as if this connection acted as a filter for her. A purifier. As if he would take in all the intensity of the storm and feed off of it, and then pass it on to her as a softer thing, a softer sound. Each thunderstrike divided into dozens of beats of his heart. With them, he would offer her the kind of wonder and strange peace he found watching the storm. And she would eventually calm down indeed.

These sessions of stormwatching would last `til the end of the storm, or until they were both overcomed by a forlorn desire to sleep. Possibly the tiresome aftereffect of dealing with so much energy. The`d drift into dreamless unconsciousness and would wake only when the clouds parted.

domingo, dezembro 26, 2004

Mais um daqueles momentos "Ah! Só agora que eu entendi..."

A cena do Matrix virou um clássico. Morpheus senta na cadeira de couro surrado e, na penumbra meio deprê da sala, oferece a Neo duas pílulas: uma azul e outra vermelha. E só agora me vem à cabeça que uma boa quantidade de ansiolíticos são pílulas azuis e que a categoria desses remédios é chamada em geral de pílulas azuis. E o que são ansiolíticos, você pergunta?

*inspirando ar para falar de uma vez...*

Tipo de medicamento usados para combater estados de tensão do paciente. Os ansiolíticos são considerados tranquilizantes e viram drogas ao serem utilizadas por conta própria. Também ativam no cérebro o que os bioquímicos chamam de "Circuito de Recompensa", liberando mais dopamina, o que reforça o consumo. Portanto, viciam.

Ou seja, Morpheus oferece a Neo algo para fazer ele ficar calminho, calminho, esquecer toda a revolta que sente pela "realidade" (e que muitos de nós sentimos...) e viver sua vida na ignorância. Chega a ser cômico, não?

Sim, você já ouviu falar de um ou outro destes. Os mais conhecidos são Valium (que é uma pílular azul bebê...) e o Lexotan (que é rosa).

Não sei o que veio primeiro, a cena do filme ou a denominação para este tipo de remédio... Mas fica claro que um influenciou o outro.

Spice I

Inaugurando uma nova sessão, como as Revelations, porém esta de uso mais prático. Os posts com o título Spice são todos sobre lugares, eventos e pequenos achados da cidade (e de outros lugares, se possível...). Coisas que dão uma temperada na rotina.

Como primeiro spice, apresento a Galeria dos Pães. Situada na esquina da Haddock Lobo com a Estados Unidos, é um pouco mais que uma padaria comum. Tink teve a idéia de me acordar um pouco mais cedo para irmos tomar café lá. Lembrou-me aquela música que fala de Breakfast in Tiffany's. Altamente recomendado, embora um pouco caro para um café da manhã. O preço no entanto é muito bem pago. Come-se muito bem, em esquema buffet. Tão bem que nem precisei comer muito no almoço (mas eu sou meio suspeito pra falar porque funciono no modo econômico: pouca comida, muito rendimento). Tem para todos os gostos e até algumas coisas exóticas, como pães coloridos, além de um pessoal fazendo uma MPB ao vivo. Estacionamento grátis no local.

P.S.: Google é uma caixinha de surpresas. Fui procurar o logo da Galeria e... Bem, tente procurar galeria dos paes nas imagens do Google.

quinta-feira, dezembro 23, 2004

If you have a good level of english and are into the whole internet thing, you should check this out. Watch the full vídeo.

The questions that linger in my mind are:
- Who`s in charge? Man or machine?
- If there's enough info on the net to personalize advertising and services, what does that say about personal privacy? Would you surrender yours? Do you have a choice?
- If someone (or something, depending on the answer to the first question...) is sorting out what you get and what you don't in terms of information, how closer are you to being manipulated by the media (Does George Orwell`s Animal Farm: a Fairy Story spring to anyone`s mind? About overthrowing one aristocracy to intitute another one?)?
- What happens when specific people, powerful people, get their information sorted and only get a part of what they`d normaly get? How does it affect their capacity to make important decisions? Who gets favored by that?

quarta-feira, dezembro 22, 2004

Pequeno momento de ira

Aí você chega em casa depois daquele dia ferrado, corrido e estressante; querendo apenas um pouquinho de conforto ou serotonina no cérebro, e ainda ouve opiniões da namorada sobre seu professor e seus amigos, opiniões dos pais sobre a sua pintura, e aposto que se eu tivesse um cachorro ele ainda teria um jeito de me comunicar uma opinião sobre meu cheiro de roupa molhada por causa da chuva que não parou o dia inteiro. Só não ouço opinião do meu irmão. Mas ele nunca expressa opinião a menos que eu pergunte mesmo. Tem dias em que minha opinião sobre esse último fato é: ainda bem...

Tá, eu sei que nós todos temos que ser seres super pensantes e que não se conformam com a realidade apresentada, como nossos naftalinizados professores de filosofia nos ensinaram. Também sei que vocês têm direito às suas opiniões e que se eu coloquei a tela na maldita exposição, eu me coloquei à disposição de críticas (até dos pais...). E quanto ao sistema de ensino, não vou nem entrar no assunto se não o momento não será mais "pequeno".

Mas é realmente tão difícil assim ter conforto? Veja, não estou falando em apatia total. Eu vou pensar e me rebelar e usar minha juventude para mudar o mundo e etc. Só não a essa hora. A essa hora (meia-noite e meia...) eu quero que as opiniões de vocês se explodam. Eu quero viver minha vida com as minhas escolhas, independente de vocês sequer existirem. Eu quero poder pintar todas as bizarrices grotescas que vierem na minha cabeça (e olha que tem coisa pior do que um falo em uma tela com três pregos e um título com referência bíblica). Eu quero sair da aula sem grandes devaneios sobre o sistema de ensino, só a certeza de que uma comida, banho e cama quentes me esperam. Eu quero pouco me lixar para o quão desinteressados meus amigos estão por aprender. Só a essa hora, nesse final de noite. Torrem minha paciência amanhã de manhã.

Spank you...

segunda-feira, dezembro 20, 2004

Faith...

When I was a teenager (Gosh, it's aweful to be able to say that...) and Role-Playing Games were a part of the weekend, I remeber this one system where you had to assign a certain level of faith to your characters when creating them. I'm not sure wether they really did call it faith, but it was a similar word. A character with a high level of faith could perform great magic (or magik, as they wrote it...) spells, but would also duffer great amounts of damage from magic spells. Likewise, a character with no faith, a skeptical person, would be impervious to magic, but wouldn't be able to cast even the simplest charms.
I found it all to be a very accurate point of view about faith in real life. I had often hear the theory that, when a person jinxes you, if you believe in it, you can get so paranoid about it that it'll eventually happen one way or another. Or some random tragedy would happen and you'd relate it to your "curse". There's some truth and keen observation in that game. Religion has such an amazing power over people. It can heal through prayer, it can give meaning to life, it can render your life completely empty as well... It's like magic, in a way. But you have to believe in it for it to work (isn't that how the fairy tale goes?).

I guess it explains where I'm at when I paint all these terribly heretic paintings of mine: no magic for me and no curses either...

Saindo do coma...

Quando saí da faculdade e comecei a procrar emprego, minha arte foi temporariamente colocada na geladeira. Afinal, ou me dedicava inteiramente a uma coisa ou à outra. Dedicar-me às duas ao mesmo tempo levaria àquela situação que conheço tão bem, de fazer ambas apressadamente, ter resultados medíocres e não viver de verdade nenhuma das duas.
E minha arte ficou lá, em estado de coma induzido, produzino muito poucas coisas e nada muito relevante ao longo do ano. Mas agora que o trabalho já se assentou na rotina diária e tenho consciência do meu tempo livre, posso voltar à ativa.

Há algumas semanas conheci Xiclet, graças à Marcela. Não tenho certeza, mas acho que Xiclet é carioca. É uma mulher esguia, pequena e de aparência bem andrógina, mas com um jeitinho tipicamente brasileiro: muito bem humorada, sempre rindo e falando alto sobre qualquer disparate, independente das dificuldades.
Xiclet mora em uma casa simples há uma quadra de uma grande galeria. Ela aproveita o fato para tirar uma lasca do mercado de arte: abriu sua própria galeria alternativa, em um quarto grande ao lado da casa, e usou das conexões que fez ao longo de anos trabalhando em monitoria de exposições para chamar jovens artistas e críticos conhecidos para suas exposições. Os nomes das exposições sempre têm a ver com piadinhas internas do mundo da arte: Sandra, I`m Sorry (tiração de sarro da Sandra Cinto), Quero ser Nelson Leirner (de Quero ser John Malkovich) ou ainda a atual 26a Bienal de Cu é Rola, referente à 26a Bienal que acabou ontem. O tema: fusca não é arte, referente ao fusca que Leo Schiazi perdurou em elásticos coloridos na Bienal e que era girado de 15 em 15 minutos. A casa foi decorada com fuscas de brinquedo suspensos.
Marcela me falou sobre a exposição e resolvi participar. Ótima maneira de começar o ano que vem expondo e voltar à ativa de algum jeito.
O melhor de tudo é que a exposição abre hoje, no mesmo dia da abertura de uma outra exposição naquela galeria, há uma quadra de distância.

Enfim, repassando os detalhes:

26a Bienal de Cu é Rola
Galeria Casa da Xiclet
Rua Fradique Coutinho 1855
Vernissage: 20/12/2004 - 20:00
Encerramento: 10/1/2005


Muitas coisas interessantes e algumas bizarras, como toda exposição alternativa. Entre os expositores, eu, Marcela Tiboni, Thais Albuquerque, Gabriela Piernikarz e muita gente ótima!

Apareçam! Isso é uma ordem!

sexta-feira, dezembro 17, 2004

Dream

I don't even recall enough of this dream to tell what was the plot about. But I decided to write it down due to the way it ended.
In the final sequence, there`s this little girl who is talking to an alien. The alien has a rough skin, of a strange color that changes from green to prussian blue (if you`re not a painter, don't bother figuring out which blue is prussian blue...) in a way that resembles velvet. It had big, round, dark holes intead of eyes. And it was invisible to everyone else but the little girl. They talked and I seemed to be only a spectator, not a character in the dream. At some point, the alien wanted to know more about a concept the girl had talked about. So it dug it`s think fingers into her head and seemed to mingle with her brain, extracting ideas directly from her mind. It didn't hurt her. Not satisfied, the alien seemed to fuse it`s entire head with hers, her eyes becoming the alien's. For a moment, I was the alien. And I was marveled at the way the little girl saw the world. The alien and the girl figured they had much in common and decided that the alien should make itself visible to the world, and they`d try to make the world understand. Another character enters the dream. A mother. She looked like Sandra Bullock. She watched the little girl from far away, from a porch in a countryside home. The girl was alone. But then, a faint glow began to outline a strange face by her side. It grew and acquired mass, shape, colors. It was the alien by her side. The mother went into a fit of despair and fear and ran to the little girl, shoving the alien away from her. Mom and the alien exchanged a few harsh words.
And then the alien performed a terrifying attack on her, that send her crashing through the livingroom window of the house. And I was the mother, receiving the full force of the attack. I saw the alien swell up like a bullfrog, concentrating his power. Everything around it lost it`s color, became balck and white, then darker. And then I felt that enormous surge of power rushing through my body and lifting me off my feet. The alien's strange voice was booming loud menacing words and I was feeling my heart race wildly and the fear-driven adrenalin course my blood. I crashed through the glass pane of the livingroom window and landed on book shelves.
Then I was the spectator again. My mind, which ran the dream, was preparing itself for an action sequence and then I thought "it can't go this way...". Because the alien had been such a peaceful entity before. Deep inside, I was actually frightened. I knew that this creature was a dream creature, and as such, it could embody all me fears and attack me with them. But just as this notion came to me, I figured it was all just a dream. And this notion ultimately shattered my capacity to keep on dreaming it and living it like a reality. Because it was just a dream. I was suddenly pulled out of the dream, as if I had been sucked out through a drain pipe.
I woke up in the darkness of my bedroom, the adrenalin surge still coursing my veins and muscles and a paranoia in my head making me stare into the darkness looking for the alien. I could almost feel it's presence in the room. I was affraid. And then I saw the green light from my alarm clock, telling me it was five in the morning and I was back in reality. I had to cling desperately to that last notion that it was all a dream to calm myself down. It was just a dream. Just a dream. Just a dream....

References for this last dream sequence come from way back in the past. From Signs, that movie with Mel Gibson. From Poltergeist and Akira. I could even perhaps name Practical Magic and Event Horizon. Movies, movies, movies... Nothing from the real world. i dimally remember other parts of the dream with other real life references. But that`s too blurry even to be written here...

P.S.: The good thing about writting this in english is that I can actually call the alien "it". In portuguese, I`d have to choose a gender for it and call it "he" or "she". And it didn't seem to have any particular gender.

Pessoas, leiam o blog da Nana

Porque é um blog com algum sentimento.
Porque o humor dela é diferente do humor pré-fabricado que a gente vê por aí, de piadas prontas e aprendidas.
Porque ela tem uma noção de como a cabeça das pessoas, e a dela mesma, funciona (óbvio: ela faz psicologia...).
Porque a paixão que ela tem pelo namorado faz qualquer um querer sentir isso algum dia.
Porque ela é uma nerd reformada (ou pelo menos tentando se reformar...) e dá esperança a nós, outros nerds, de que isso é possível.
Porque dá vontade de dar colo pra ela e cuidar dos problemas que ela tem (com todo respeito pelo namorado dela, claro).
Porque ela é uma feminista ferrenha (e isso é motivo?).
Porque ela se preocupa mais com o conteúdo do blog do que com besteiras de layout...
Porque ela sabe quando e como falar de sexo sem cair na pornografia devassa nem na hipocrisia virginal.
Porque ela tem bom gosto para animação japonesa (tá, eu sei que a maioria de vocês aí não dá a mínima pra isso...).

Como diria ela: "Tá, já calei".

quinta-feira, dezembro 16, 2004

Foamy`s rant on X-mas

Do watch Foamy`s rant about X-mas!! It says a thing or two about religous "freedom" ruining great holidays... Oh, and some americans` obssession for lawsuits...

quarta-feira, dezembro 15, 2004

Video game também é cultura?

Riram do nosso ministro da cultura quando ele falou, em uma premiação de um concurso relacionado ao desenvolvimento de games, que o video game era cultura. Desconsiderei o fato durante alguns dias. Mas depois comecei a pensar nisso.
A minha geração tem hoje seus vinte anos de idade e passou uma infância na frente das telas e acompanhando a evolução dos consoles. Não tem como ignorar que isso faz parte do nosso inconsciente. A leva de designers de vinte e poucos anos atuais vive fazendo coisas com aquele visual de game, a pixel art. A própria mania por ícones da atualidade tem lá sua orígem nos ítens de video game. Isso só pra falar em design.
Em outro campo, as lendas mudaram. Pouca gente da minha geração conhece lendas como a de Parsifal e o Santo Graal. Mas conhecem Link e Zelda. Não sabem nem um quinto dos deuses gregos ou egípcios, mas conhecem todos os chefes de fase dos jogos do Mega Man. Já ouviram falar de São Jorge e o dragão, mas conhecem mais o Mario e o Bowser. Para eles, foi a dinastia dos Belmont que matou o Conde Drácula em Castlevania e não o doutor Abraham Van Helsing no clássico de Bram Stoker.
São todos paródias, evoluções dos grandes clássicos? Talvez. Mas contam a história da mesma forma, passam os mesmos valores e alguns novos com ainda mais eficiência porque a linguagem é compreensível e instigante. Ecoa neles a voz deste século porque a dos séculos passados já está muito longe pra ser ouvida.
Como dizer que video game não é cultura? Dá pra negar? Não é cultura para as outras gerações que acham que arte e cultura tem que ser um negócio empoeirado e maçante em tons de sépia. Eles encaram o video game como mera diversão inconsequente e alienante, achando que nos falta cultura por nunca termos visto ópera. Falta cultura para eles: cultura atual, contemporânea.
Vida longa a esta nova mídia.

quarta-feira, dezembro 08, 2004

"Pedro"

O nome começa com um som altamente explosivo, como estouro de bomba ou queda de raio. Pega de surpresa mesmo.
Envereda por um "e" que sempre me deu uma sensação de América Latina. Fosse europeu ou norteamericano e a vogal seria um "a" ou "o" para acompanhar o "P". A explosão seria de filme de Hollywood. Com esse "e", tem som de estouro de fogos em festa de São João ou de bomba caseira em favela. Tem a aspereza da violência cotidiana.
Aí entra o "d" como um estouro abafado. Talvez o eco da primeira explosão, porque não tem o mesmo contraste, o mesmo sharpness.
O "r" é um pequeno solavanco sonoro em uma palavra que está quase acabando. Na verdade, soa um pouco como os detritos daquela explosão atingino o solo.
E a palavra termina em um "o" quase inaudível, mas inegável. Um som que "some no horizonte". Um fade out. Ou aquele zumbido no ouvido depois de um som alto (novamente a explosão...): você pode jurar que escuta, mas na verdade não está lá.

O CLAM do meu irmão

Fui à apresentação anual do meu irmão no CLAM.
A música em si dispensa comentários: ele tocou Pedacinho do céu, de Valdyr Azevedo. Não sei, me divirto quando el toca essa com banda. A música flui como um vôo de um piloto eufórico e dopado. Tem mergulhos que a banda inteira segue, firulas de piano e um ar que alterna entre gracejos e preocupações.
Na platéia, além do burburinho, ouvia a voz de uma ou outra criança, sem dúvida acompanhando um irmão ou irmã mais velho que veio se apresentar. E me lembrei da sensação e das percepções que tive acompanhando meus pais em grandes eventos, viagens e etc. A ingenuidade e imaginação infantis criavam compreensões fantasiosas e cheia de aventura.
Fiquei imaginando a compreensão de uma criança de cinco ou seis anos desse bar onde, a cada música, alguém do público era chamado para asumir um lugar na banda. Não seria maravilhoso ter uma platéia inteira de pessoas que poderiam a qualquer momento passar de entretidos a apresentadores? Um bar onde só entra quem tem a habilidade. E mais: todos na platéia tocam maravilhosamente bem.

segunda-feira, dezembro 06, 2004

Epilogo

Alguns anos depois, Bia casou-se com Eduardo

Quisera poder dizer que fiquei deprimido. Suponho que seria o mais verossímil, se minha vida fosse um livro. Aliás, se minha existência realmente fosse confinada a páginas de um romance, suponho que o final mais interessante seria eu ter feito alguma coisa que parasse o casamento. Aquela cena climática do "fale agora ou cale-se para sempre". Ou melhor ainda, que na semana anterior ao casamento, eu tivesse conversado com ela casualmente, e ela tivesse ficado com uma dúvida na cabeça e um aperto no coração ao perceber que eu era o amor da vida dela e ela o meu.

Mas o fato é que a vida não é um livro. A cerimônia, com a liturgia dos dias atuais, não teve o momento daquela frase desafiante (provavelmente porque muitos casamentos já foram arruinados por respostas àquela frase...). Apesar de termos conversado na semana anterior, nada fez acender em mim ou nela qualquer nostalgia amorosa. E principalmente, apesar de eu achar que fosse uma espécie de obrigação emocional minha, eu não senti nada. Nem pontadas de depressão, nem nó na garganta, nem aquela insustentável sensação de perda. Nada. Sorri e desejei-lhes de coração que fossem felizes juntos. A minha história já era outra e a personagem da amada nada tinha a ver com o jeito ou a aparência dela. Paradigmas mudam.

Comportei-me como um fantasma no casamento... Cheguei alguns minutos depois do começo da cerimônia e sentei-me no fundo, no último lugar. O vestido dela era maravilhoso. Cheio de detalhes. Ele estava irreconhecível. No momento das alianças, música do Senhor dos Anéis. Não tenho sequer certeza se ela percebeu que eu compareci. Na saída, só pra ter certeza, puxei conversa com alguns velhos conhecidos. E acho que a avó dela me viu, embora, como o resto da família, tenha preferido ignorar o fato. Irrelevante: o que importa é que eu estive lá. Minha obssessão por rituais na vida me compeliu. Eu precisava de um epílogo para nossa história.

Agora feche o livro e procure alguma outra coisa pra ler.

sexta-feira, dezembro 03, 2004

Conto 3: Tadzio

Quando ele andava pelas ruas, era tomado por uma hesitação, uma suspeita: seria assaltado se não se cuidasse. Assim que, quando saia do trabalho, deixava guardadas na mochila, além do relógio caro, suas emoções humanas. Caminhava pela rua esquadrinhando tudo com olhos e raciocínio de máquina. Cada figura humana reconhecida tinha seu nível de periculosidade avaliado e as devidas medidas tomadas. O ponto mais crítico era a entrada para o metrô: a multidão era uma massa indivisível de rostos estranhos e ele não conseguia analisá-los um a um. Era Gestalt. Era inato.

Tinha seu modo mecânico de passar pela catraca do metrô sem sequer diminuir a velocidade de seus passos, tamanha era a familiaridade que tinha com todo o processo. Era quase uma reação condicionada e automática à proximidade da máquina.

E então sentou-se no vagão do metrô e abriu o livro que estava terminando de ler. Alí conseguia desligar toda essa preocupação com o mundo exterior e simplesmente descansar nas páginas do livro. As letras tremiam levemente a cada solavanco suave do trem.

Na Tiradentes, alguém sentou-se ao lado dele. Ele não tirou os olhos das páginas. Apenas apreendeu a existência de outra pessoa a seu lado. Mais perto da Sé, ele não resistiu a curiosidade de ao menos saber o sexo da pessoa em questão, e deu uma olhada furtiva, rápida, no rosto da pessoa. Eram olhos azuis. Belíssimos olhos azuis. No rápido flash de visão que se permitira dar, ainda havia conseguido perceber belos lábios cheios e uma pele lisa, muito clara. Cabelos negros ondulados e muito bem cuidades caiam até pouco acima dos ombros. Voltou a ler.
Na Vergueiro, a bela pessoa levantou-se para sair na próxima estação: a Paraíso. Tomaria com certeza a linha verde e ele estava indo nessa direção também. E foi aí que ele percebeu, quando a pessoa segurou nas barras de alumínio do trem, que ela tinha mãos fortes, veias saltadas. Eram mãos de pele clara, delicada. Mas a estrutura toda era austera. E seguindo braço acima com o olhar, deteve-se um momento um tanto longo enquanto indagava se estava ou não vendo o volume de seios por baixo daquele moletom largo.

Na Paraíso, as portas se abriram e a pessoa desceu. Ele esperou alguns segundos antes de saltar do banco e sair pela porta. Tentava sempre ser o último a sair do vagão: que fosse ele seguindo alguém e não sendo seguido. A bela pessoa já caminhava a passos largos para o trêm da linha verde. Os trens naquela estação tinham uma sincronia que permitia saltar de um e entrar no outro se a pouca distância entre eles fosse cruzada com alguma rapidez. Correu os últimos passos atrás da pessoa: um receio de que ela entrasse no trem e ele não. Desespero momentâneo de nunca mais vê-la. Saltou dentro do trêm e a borracha das portas veio beliscar de leve a borracha de seus sapatos. A pessoa cruzou o vagão de ponta a ponta aparentemente sem motivo, indo sentar-se perto da última porta. Ele sentou-e alguns bancos atrás, de modo que ficaram em diagonal um para o outro. Ele já havia guardado o livro na mochila e contentava-se em roubar olhares rápidos, intrigado ainda com a questão irresolvida do gênero daquela pessoa. Era deliciosa a sensação de ser atraído por alguém sem ao menos saber-lhe o sexo. Era uma sensação transgressora, rebelde mesmo. Porque era independente de seu orgulho masculino.

A pessoa dava pequenos sinais de ter percebido a admiração do obssessivo. Devolvia olhares rápidos, igualmente furtivos e levemente incomodados. Fingia-se indiferente. Tentava fixar o olhar na cor creme das paredes do vagão.

Por fim, na Triannon-Masp, a bela pessoa levantou-se de repente e saiu do trem. Foi um movimento súbito, inesperado. Ele esperava ter por perto a presença da pessoa ao menos até a Consolação. E sairía do trem oferecendo-lhe um último olhar de devoção secreta. Mas em vez disso, foi a pessoa que desceu com o mesmo truque que ele empregava ao sair do trem, esperando o último segundo. Fez com que ele tirasse as costas do encosto do banco no susto. Teria a pessoa realmente percebido? O trem colocou-se em movimento e aqueles cabelos ondulados dirigiram-se até a borda da janela enquanto a pessoa virava para subir as escadas.

"Olhe para mim uma última vez." ele sussurrou entre dentes. Queria o estranho azul daqueles olhos. Mas a pessoa sumiu pela borda da janela como um personagem que sai de cena pela borda do palco. Deixou-o com a questão insolúvel na cabeça e o orgulho masculino irremediavelmente ferido.

Na Consolação, foi ele quem desceu do trem. Ainda tinha um ônibus para pegar. No resto do caminho, terminou as últimas páginas do livro, onde o senhor Aschenbach sucumbia à peste e morria vendo o jovem Tadzio caminhar pela praia.

36a Anual de Artes Plásticas da FAAP

Passei pela FAAP nesses dias para ver o que a jovem geração de artistas anda fazendo. A Anual deste ano, apesar de ter poucos trabalhos bon, tinha sim alguns muito bons.
Anotei no meu caderno sobre os vídeos de Rita Meireles, em especial o entitulado Paisagem em Setembro. Nele, vemos através do vidro de uma janela, a paisagem noturna da cidade, os prédios com luzes acesas e antenas piscando sob um céu noturno nublado. Em seguida, a silueta da mão da artista entra em cena e faz escorrer no vidro um gel translúcido que distorce a imagem dos prédios à medida que escorre para a base do vidro. A impressão que dá é que a cidade está derretendo. Meireles experimenta mais a fundo, borrifando um pouco mais do gel e fazendo a imagem pulverizar-se, ou varrendo o gel com um pano e criando padrões. Finalmente, ela começa a secar o gel do vidro, voltando quase à imagem inicial da cidade. Adorei a idéia de mexer com a própria paisagem, a técnica tão lógica e ainda tão simples.

Ao lado dela, um rapaz que chamou-se apenas de R. Sassi apresentou uma série de autoretratos em fotos de Polaroid. O rosto não tinha nada de chamativo. O que era tão especial sobre o trabalho era o lugar das fotos. Cada uma das três séries foi tirada dentro de um banheiro de alguma instituição de arte (a Pinacoteca, a Bienal e uma terceira que não lembro). Algumas fotos documentavam que ele não só tirava essas fotos nos banheiros, como ainda as colava nas paredes, com etiquetas que diziam

"R. Sassi
Autoretrato no banheiro da Bienal (ou respectivo banheiro...)
Fotografia
2004"

como uma obra de arte exposta na instituição. Me fez pensar um bocado. Sobre o fato dos banheiros desses lugares serem os únicos recintos onde o visitante está aparentemente a salvo do assalto das obras de arte e que Sassi tentava "corrigir" isso. Ou ainda, que ele havia achado um jeito meio cômico ou até patético de dizer "estou expondo um trabalho meu na Bienal / Pinacoteca".

Mais à frente, Bruno Faria havia deixado uma porção de armações quadradas de cobre, medindo exatamente um metro quadrado, com alças. Ao lado, fotos documentavam a performance com essas armações, que eram vestidas de modo que a pessoa tinha o quadrado de cobre em volta dela, na horizontal, criando uma distáncia forçada de um metro entre ela e qualquer outro transeunte. O trabalho tinha o nome redundante de Metro quadrado, mas me lembrou da angústia de minha mãe, que dizia que a cidade tem tanta gente, que ficam todos entrando no caminho uns dos outros, criando obstáculos uns para os outros. De qualquer forma, um comentário cômico e interessante sobre superpopulação.

Por alí também encontrei fotos de Fernanda Assumpção, chamadas Percepção. Eram fotos de fachadas de casas contruídas em ladeiras íngremes. Porém a referência da foto não era a ortogonalidade da casa, mas sim a ladeira como base. Imagine que ela trouxe a máquina e um tripé até o local e colocou a máquino sobre o tripé na ladeira. Nas fotos, vê-se a calçada seguindo a base da foto perfeitamente, e a casa em questão construída em diagonal, em um ângulo bizarro, como se o arquiteto responsável não tivesse o mínimo respeito pelo conforto dos moradores. Carros estão estacionados nas garagens como se a qualquer momento pudessem virar de lado. O título, neste caso, só vem complementar a idéia, fazendo-me pensar que realmente nossa percepção das coisas depende apenas da referência tomada.

Na saída, passei pelo vídeo de Rogério Dal `Mas e Farinha, chamado Die. Não é que tenha me maravilhado, mas ficou na cabeça. Trata-se de um único movimento de uma câmera que gira sobre seu eixo para ver um quarto inteiro. Porém esse movimento foi executado duas vezes, primeiro com uma filmagem comum, e depois aparentemente com visão noturna, caracterizada pelas imagens monocromáticas verdes e pelas pupilas absurdamente dilatadas dos personagens. Agora imagine que, ao passar o filme para o público, esse movimento é feito uma única vez, e a imagem alterna em sussessão rápida entre a filmagem normal e a visão noturna, criando um efeito pertubador de imagem dupla. O que mostra o vídeo? A imagem começa com um rosto de uma garotinha em close exagerado. Ela está de boca aberta em uma expresão de espanto e o brilho na face sugere lágrimas que rolaram. A câmera gira pelo quarto pouco decorado com móveis simples, até terminar na figura de uma mulher deitada no chão totalmente torta, vestindo uma saia de tule espalhada pelo chão que lhe cobre boa parte da figura. Em seguida, a imagem volta como no rewind de um vídeocassete, para a menina de boca aberta. A trilha sonora fica a cargo da música violenta do Atari Teenage Riot. Definitivamente não recomendado para portadores de epilepsia, como avisado no começo do vídeo.

Fez-me pensar em um vídeo que quero fazer algum dia, também com alternância de imagens, onde as imagens A mostrarão a primeira metade do filme, e as imagens B mostrarão a segunda. O som deve ser mixado de acordo. A intenção é provocar um efeito de compressão de informação parecido com um zip de arquivos de computador. Deu pra entender?

Anyway, Achei que o tema desta Anual ficou bem a cargo de arte conceitual ou arte lógica. Aquele tipo que tem o seu quê de ciência, de empírico. Coisas que têm resposta para aquela pergunta normalmente feita pelos leigos: "o que isso significa?". Assim como a 34a Anual, que eu participei com a Virgem e o Menino e o retrato da Tink era centrada no retorno à pintura, às questões da imagem bidimensional, do uso de tinta.

Suponho que eu teria gostado de participar desta Anual.