Quinta passada.
Em um restaurante na Oscar Freire, almocei tendo por compania o Marcos Brias e a Regina Parra, ambos do atualmente desmantelado grupo 2000e8. Brias foi o que se poderia considerar o intelectual do grupo, seus trabalhos sempre baseados em muito recheio literário e suas concepções de uma densidade brutal. Regina foi, dentro do grupo, a pintora com cujo trabalho eu mais simpatizei, por ela também fazer ilustrações fortemente baseadas em fotografias (embora as dela tenham uma teoria muito mais interessante do que as minhas) e pelo nosso interesse comum por artistas como o Gerhard Richter.
O convite fora extendido a todos os participantes do grupo, embora eu tivesse mais proximidade com o Brias. De qualquer jeito, fiquei feliz que pelo menos alguém me respondeu, já que na minha carreira abandonada de publicidade, conseguir o privilégio de conversas relevantes com profissionais de peso era uma utopia.
O motivo do convite: uma conversa informal e não-mediada sobre o que de fato é ter uma carreira de artes plásticas. Não era minha primeira tentativa de abordar um artista plástico para saber dos segredos da profissão. Mas minhas tentativas com a geração mais velha resultaram naquela conversa de "pai pra filho", onde o pai dá respostas vagas do tipo "é complicado..." e diz que você "vai entender um dia". Ou aquelas respostas esotéricas e cheias de termos blasê ("essa coisa de dinheiro é uma falácia do mundo capitalista ocidental pós-industrializado modernista greenberguiano pré-1968"). Imaginei que ao menos, com a geração mais próxima da minha idade, eu poderia conseguir alguns conselhos práticos.
Foi uma espécie de validação saber que eles tiveram trajetórias parecidas com o meu caso atual, começando a trabalhar em outros assuntos e depois desistindo de tudo para seguir as artes. Brias de fato trabalhou com editoração, um assunto não tão distante da publicidade. Mas hoje, ambos dizem viver de suas pinturas. Não estão tão bem quanto o Rodolpho Parigi [1][2] mas pagam suas contas (caras) com sua arte. Estou prestes a jogar na mesa o assunto do Masculismo quando Brias antecipa a conclusão: no caso da Regina, casada, pagar as contas não é tão doloroso. Continuo com a opinião controversa de que essa carreira é mais complacente com mulheres por causa de seus maridos.
No meio do almoço, já estamos no cerne do assunto. Minha primeira pergunta e uma das minhas maiores curiosidades: quanto tempo passam no ateliê? A resposta me faz começar a entender por onde seguir. Obviamente cada um tem seu tempo de ateliê, mas a disciplina é fundamental. Estar no ateliê com a mesma tenacidade com que se comparece a uma empresa. Horário, pontualidade, eficiência no gasto de tempo. A primeira conclusão que eles me dão é que o coração dessa carreira é produzir. Produzir muito, todos os dias, o tempo todo. Eu, é claro, ainda estou bem longe disso. O último quadro que (quase) terminei foi o retrato de Lexy no ano passado. E preciso remediar isso. Antes que alguma empresa me ofereça um salário que eu não posso recusar.
Regina interrompe a conversa para pedir nossa opinião sobre quadros para uma exposição que ela está montando. E me conta que em vésperas de exposição, chega ao ateliê de manhã e só sai às 20:00. Em dias normais, seu horário começa às 14:00. Fico imaginando que eu poderia facilmente me acostumar a uma rotina assim. Ambos me contam que a Ana Elisa Egreja, outra do grupo, passa horas e até noites no ateliê, para produzir suas enormes pinturas cheias de padrões de tecido.
Essa primeira etapa de estabelecer a produção me parece a mais complicada. Como sobreviver e se sustentar enquanto isso acontece? Aulas de inglês, como falei, tomam um tempo absurdo e não pagam nem perto do suficiente. O jeito e manter um stiff upper lip e enfrentar de frente mesmo.
Estabelecida a produção, outras coisas acontecem simultaneamente. A primeira leva da produção já pode ser inscrita em salões de arte. O objetivo é mais rechear o currículo do que ganhar os prêmios, embora uma vitória dessas também garanta um bom fôlego financeiro. Enquanto isso, o comparecimento às vernissages e o networking são fundamentais. É daí que saem as primeiras visitas ao ateliê e contatos de galeria. E eventualmente, as primeiras vendas. Não é fácil... Mas é o caminho, sem segredos, sem respostas paternalistas ou esotéricas.
Regina ainda comenta que em suas primeiras vendas, gastou todo o dinheiro, achando ter faturado uma nota. Grande erro: na seca até sua próxima venda, passou apertos financeiros e aprendeu a poupar.
É claro que não dá pra prever quanto tempo leva tudo isso. Há uma boa dose de gente me dizendo que eu ainda sou jovem aos 27 anos, mas não me sinto assim. Sinto os cinco anos desde que saí da faculdade e deixei as chances de lá morrerem. Eles me tranquilizam reiterando que o mestrado é uma ótima idéia. Voltar à academia e às oportunidades que ela gera, desta vez com consciência para aproveitar.
Quando pego o ônibus de volta para casa, sinto que estou no caminho certo também na carreira. Claro, ainda há MUITO para caminhar. E o mês que vem vai ser duro, voltando ao ateliê e estabelecendo a rotina. Mas pelo menos já não estou mais à deriva. Estou em terra firme, com estrada seguindo adiante.
Toda jornada começa com um passo. Keep Edgewalking...
Bits and pieces of my life that everyone ignores when I speak, but someone reads when I write.
terça-feira, agosto 18, 2009
quarta-feira, agosto 12, 2009
Dois meses depois
Já fazem dois meses que pedi minha demissão da agência. E mais ou menos um mês que cumpri meu aviso prévio e larguei a carreira. Mas o fato é que continuo flertando com a publicidade, à espera de alguém ou alguma empresa que pague o que eu acredito ser o meu valor. O plano passou a ser este: encontrar uma empresa que me pague o suficiente e de preferência agregue um nome relevante ao meu currículo, e continuar tentando ser um artista plástico enquanto essa empresa não aparece. De um jeito ou de outro, saio da estagnação profisssional na qual tenho vivido pelos últimos quatro anos. Chega de agências pequenas, desconhecidas, pobres e sem nada a me oferecer além de "experiência".
Este primeiro mês de liberdade teve algo de semelhante à primeira semana que passei em Londres: um pavor, uma ansiedade frente a uma nova e desconhecida situação que me oferece muita informação e possibilidade de uma só vez e que eu não consigo organizar. Apesar da alegria de estar livre e das infinitas possibilidades, esse medo de perder oportunidades pela desorganização tingiu tudo de cores mais sóbrias.
Mas à medida que o mês foi passando, percebi que essa ansiedade tratava-se de outra coisa. Eu estava atolando em um mar de pequenices, detalhes e afazeres pontuais. Agora que eu estava livre e podia dispor de todo meu dia, cismei em resolver essas pendências, zerar a vida. Coisas como concertar a luz queimada do carro, enquadrar uma foto que eu ia dar de presente, dar um jeito na papelada na minha mesa. Pequenices a serem resolvidas rapidinho, mas que tiram o foco dos meus objetivos a médio prazo. Objetivos como voltar a ser produtivo, voltar a ter a disciplina para ser um artista plástico. Mas uma vez que isso ficou claro, passei a dar o tempo certo a essas pequenices e voltar a me concentrar no que de fato importava: reaprender a me concentrar, a vencer a preguiça, começar a trabalhar rápido e manter o ritmo durante o dia e a organizar meus ambientes de trabalho para que o dia seja eficiente. As pequenices serão resolvidas aos poucos. A verdade é que sempre haverá pequenices.
Com o fim desse segundo mês de desemprego, já começo a ver alguns resultados [1][2][3]. Ando participando de alguns concursos de ilustração para livros infantis (um deles um concurso mexicano que me obriga deliciosamente a reaprender a escrever em espanhol). Não são grandes obras de arte e ainda não acredito que vá ganhar alguma coisa, mas é um começo, um exercício de concentração e disciplina. E é muito bom voltar a me sentir produtivo naquilo que eu considero relevante. Mês que vem, pretendo estabelecer alguma rotina no ateliê e voltar a pintar. Desta vez com algum propósito e não apenas por hobby. Enquanto isso, ando conversando com artistas plásticos e tentando descobrir a teoria do que é de fato ter uma carreira em arte.
As noites atualmente são divididas entre aulas de inglês e o circo. As aulas são a minha única fonte de renda por enquanto, mas são uma clara armadilha: gasto quatro horas do dia entre preparar a aula, ir até a escola, lecionar e voltar para casa. No entanto, o pagamento por essas quatro horas é o que eu esperaria ganhar por uma hora de trabalho. E são tão poucas as aulas que provavelmente só vão pagar minha mensalidade do circo. Mas enfim, o inglês é assunto para outro post, outro dia.
Pensando bem a respeito dessa época, sou tomado de uma sensação muito prazerosa de estar fazendo as coisas das quais gosto e vivendo o tipo de vida que eu gostaria de viver. Uma vida na qual os dias são passados em meio a desenhos e outras atividades artísticas, o tempo é meu para dispor dele como eu quiser, aproveito o circo enquanto minha juventude ainda permite, e ainda convivo com meus vários idiomas de uma forma que me remete à Europa (a propósito, Tullio Seppilli [1][2] esteve aqui e conversamos bastante em italiano, completando minha lista de idiomas usados recentemente...). Ou seja, ando vivendo uma espécie de sonho, uma imersão em felicidade pessoal. Mas a questão do dinheiro para o meu sustento continua a me assombrar like the elephant in the room (algo obvio que todo mundo está vendo, mas ninguém quer falar a respeito). É um demônio que eu ainda não sei como enfrentar.
Como vou transformar esta rotina deliciosa em algo rentável?
Este primeiro mês de liberdade teve algo de semelhante à primeira semana que passei em Londres: um pavor, uma ansiedade frente a uma nova e desconhecida situação que me oferece muita informação e possibilidade de uma só vez e que eu não consigo organizar. Apesar da alegria de estar livre e das infinitas possibilidades, esse medo de perder oportunidades pela desorganização tingiu tudo de cores mais sóbrias.
Mas à medida que o mês foi passando, percebi que essa ansiedade tratava-se de outra coisa. Eu estava atolando em um mar de pequenices, detalhes e afazeres pontuais. Agora que eu estava livre e podia dispor de todo meu dia, cismei em resolver essas pendências, zerar a vida. Coisas como concertar a luz queimada do carro, enquadrar uma foto que eu ia dar de presente, dar um jeito na papelada na minha mesa. Pequenices a serem resolvidas rapidinho, mas que tiram o foco dos meus objetivos a médio prazo. Objetivos como voltar a ser produtivo, voltar a ter a disciplina para ser um artista plástico. Mas uma vez que isso ficou claro, passei a dar o tempo certo a essas pequenices e voltar a me concentrar no que de fato importava: reaprender a me concentrar, a vencer a preguiça, começar a trabalhar rápido e manter o ritmo durante o dia e a organizar meus ambientes de trabalho para que o dia seja eficiente. As pequenices serão resolvidas aos poucos. A verdade é que sempre haverá pequenices.
Com o fim desse segundo mês de desemprego, já começo a ver alguns resultados [1][2][3]. Ando participando de alguns concursos de ilustração para livros infantis (um deles um concurso mexicano que me obriga deliciosamente a reaprender a escrever em espanhol). Não são grandes obras de arte e ainda não acredito que vá ganhar alguma coisa, mas é um começo, um exercício de concentração e disciplina. E é muito bom voltar a me sentir produtivo naquilo que eu considero relevante. Mês que vem, pretendo estabelecer alguma rotina no ateliê e voltar a pintar. Desta vez com algum propósito e não apenas por hobby. Enquanto isso, ando conversando com artistas plásticos e tentando descobrir a teoria do que é de fato ter uma carreira em arte.
As noites atualmente são divididas entre aulas de inglês e o circo. As aulas são a minha única fonte de renda por enquanto, mas são uma clara armadilha: gasto quatro horas do dia entre preparar a aula, ir até a escola, lecionar e voltar para casa. No entanto, o pagamento por essas quatro horas é o que eu esperaria ganhar por uma hora de trabalho. E são tão poucas as aulas que provavelmente só vão pagar minha mensalidade do circo. Mas enfim, o inglês é assunto para outro post, outro dia.
Pensando bem a respeito dessa época, sou tomado de uma sensação muito prazerosa de estar fazendo as coisas das quais gosto e vivendo o tipo de vida que eu gostaria de viver. Uma vida na qual os dias são passados em meio a desenhos e outras atividades artísticas, o tempo é meu para dispor dele como eu quiser, aproveito o circo enquanto minha juventude ainda permite, e ainda convivo com meus vários idiomas de uma forma que me remete à Europa (a propósito, Tullio Seppilli [1][2] esteve aqui e conversamos bastante em italiano, completando minha lista de idiomas usados recentemente...). Ou seja, ando vivendo uma espécie de sonho, uma imersão em felicidade pessoal. Mas a questão do dinheiro para o meu sustento continua a me assombrar like the elephant in the room (algo obvio que todo mundo está vendo, mas ninguém quer falar a respeito). É um demônio que eu ainda não sei como enfrentar.
Como vou transformar esta rotina deliciosa em algo rentável?
quinta-feira, agosto 06, 2009
The Slow Movement
Outra coisa interessante da B-Coolt desta semana foi o Slow Movement. A B-Coolt cita que o movimento nasceu em Roma, mas o sobrenome dos criadores do site, todos da família Claridge, aponta para os Estados Unidos.
O Slow Movement promove o que se conhece como downshifting, algo como "reduzir a marcha" da sua vida. Na sua argumentação, dizem que a pressa com a qual se vive nas grandes cidades tem efeitos negativos que vão além do impacto na saúde. A vida de metrópole nos faz pessoas sempre apressadas, impacientes, intolerantes e atrasadas para o próximo compromisso. A tendência se reflete na incapacidade que algumas pessoas têm por exemplo ao ler grandes quantidades de texto: desistem no começo se o texto não for logo ao assunto, porque sentem que ler tudo aquilo é perder um tempo que eles não têm. Refeições são outro ótimo exemplo: a uma hora que teríamos para o almoço durante a semana é encurtada, dividida com a ida ao banco ou à academia, e acabamos comendo sem prazer, sem aproveitar a conversa com o amigo, sem livro. Ou seja, não nos permitimos tempo para saborear um bom livro, um bom vinho, uma compania e aquela sensação de vida sem graça, sem tempero, sem cor, acaba virando reclamação recorrente. Mas o principal efeito negativo desse estilo de vida apontado pelo site é a perda da conexão com as coisas, com a comunidade. Faz-me pensar nas quesões do Iron John do Robert Bly de novo. A falta de mentores, de figuras paternas, porque todos eles estão correndo demais, atrasados demais.
Detalhe interessante mencionado no site é o papel da tecnologia nesse ritmo frenético. Aparelhos que foram vendidos como soluções para reduzir o tempo e o esforço das obrigações domésticas para que tivéssemos "mais tempo para curtir a vida" acabaram gerando mais tempo para ser preenchido por obrigações e pela correria por dinheiro, já que a mecanização das atividades também lhes reduziu o valor. Vide o artefinalista das antigas agências, que precisava de destreza manual e experiência e foi substituído por qualquer pivete assistente de arte que ganha um terço do salário e faz tudo no computador. O tempo para curtir a vida é hoje gasto no segundo ou terceiro emprego simultaneo porque só um não paga o suficiente.
Curiosamente, a seção da página denominada Slow Money, que trataria de como ganhar o sustento nessa filosofia de vida mais lenta, ainda está em construção. Mas é minha principal dúvida a respeito. É possível diminuir a correria e ainda ganhar o equivalente à pessoa que corre o dia inteiro entre três empregos?
Já fazem 20 dias que saí do meu emprego na agência. Ainda apareço por lá de manhã, para trabalhar como freelancer e ganhar alguns trocados, mas não tenho obrigação e saio pontualmente no horário do almoço. Mas nesses primeiros 20 dias, senti como eu mesmo estava impregnado dessa inércia veloz e terrível apontada pelo Slow Movement. Tardes inteiras que eu podia usar para meus próprios assuntos, mas que passavam desperdiçadas naquela angústia amnésica de achar que eu precisava estar em outro lugar, fazendo outra coisa muito mais relevante, mas sem saber onde ou o quê. O mal deste ritmo é a completa falta de foco. Sei que tenho trezentas coisas e oportunidades, mas não me permito tempo suficiente para focar em uma antes que outra me pareça mais urgente. E no fim do dia, acabo não concluíndo nada. Achei que resolveria todas as pequenices da vida nesse tempo livre das tardes, mas ainda não me acostumei a como priorizar e dar foco às coisas por causa dessa sensação de urgência.
No começo desse mês, resolvi mudar o ritmo. Tenho dedicado minhas tardes a concursos de ilustração. Às vezes, a sensação de estar em casa a tarde toda escrevendo ou desenhando para algum deles me bate como uma irresponsabilidade, vagabundagem. Mas resisto pensando que não tenho outra responsabilidade no momento além desta, e que desenvolver essa capacidade de foco faz parte de desenvolver uma carreira independente.
Ainda me preocupo (e muito) com o dinheiro, com ganhar o suficiente para pagar minhas poucas contas e ainda economizar para Londres no ano que vem. E fazer isso sem me sujeitar de novo a empregos que me desrespeitam. Mas isso, apenas o passar dos meses dirá.
O Slow Movement promove o que se conhece como downshifting, algo como "reduzir a marcha" da sua vida. Na sua argumentação, dizem que a pressa com a qual se vive nas grandes cidades tem efeitos negativos que vão além do impacto na saúde. A vida de metrópole nos faz pessoas sempre apressadas, impacientes, intolerantes e atrasadas para o próximo compromisso. A tendência se reflete na incapacidade que algumas pessoas têm por exemplo ao ler grandes quantidades de texto: desistem no começo se o texto não for logo ao assunto, porque sentem que ler tudo aquilo é perder um tempo que eles não têm. Refeições são outro ótimo exemplo: a uma hora que teríamos para o almoço durante a semana é encurtada, dividida com a ida ao banco ou à academia, e acabamos comendo sem prazer, sem aproveitar a conversa com o amigo, sem livro. Ou seja, não nos permitimos tempo para saborear um bom livro, um bom vinho, uma compania e aquela sensação de vida sem graça, sem tempero, sem cor, acaba virando reclamação recorrente. Mas o principal efeito negativo desse estilo de vida apontado pelo site é a perda da conexão com as coisas, com a comunidade. Faz-me pensar nas quesões do Iron John do Robert Bly de novo. A falta de mentores, de figuras paternas, porque todos eles estão correndo demais, atrasados demais.
Detalhe interessante mencionado no site é o papel da tecnologia nesse ritmo frenético. Aparelhos que foram vendidos como soluções para reduzir o tempo e o esforço das obrigações domésticas para que tivéssemos "mais tempo para curtir a vida" acabaram gerando mais tempo para ser preenchido por obrigações e pela correria por dinheiro, já que a mecanização das atividades também lhes reduziu o valor. Vide o artefinalista das antigas agências, que precisava de destreza manual e experiência e foi substituído por qualquer pivete assistente de arte que ganha um terço do salário e faz tudo no computador. O tempo para curtir a vida é hoje gasto no segundo ou terceiro emprego simultaneo porque só um não paga o suficiente.
Curiosamente, a seção da página denominada Slow Money, que trataria de como ganhar o sustento nessa filosofia de vida mais lenta, ainda está em construção. Mas é minha principal dúvida a respeito. É possível diminuir a correria e ainda ganhar o equivalente à pessoa que corre o dia inteiro entre três empregos?
Já fazem 20 dias que saí do meu emprego na agência. Ainda apareço por lá de manhã, para trabalhar como freelancer e ganhar alguns trocados, mas não tenho obrigação e saio pontualmente no horário do almoço. Mas nesses primeiros 20 dias, senti como eu mesmo estava impregnado dessa inércia veloz e terrível apontada pelo Slow Movement. Tardes inteiras que eu podia usar para meus próprios assuntos, mas que passavam desperdiçadas naquela angústia amnésica de achar que eu precisava estar em outro lugar, fazendo outra coisa muito mais relevante, mas sem saber onde ou o quê. O mal deste ritmo é a completa falta de foco. Sei que tenho trezentas coisas e oportunidades, mas não me permito tempo suficiente para focar em uma antes que outra me pareça mais urgente. E no fim do dia, acabo não concluíndo nada. Achei que resolveria todas as pequenices da vida nesse tempo livre das tardes, mas ainda não me acostumei a como priorizar e dar foco às coisas por causa dessa sensação de urgência.
No começo desse mês, resolvi mudar o ritmo. Tenho dedicado minhas tardes a concursos de ilustração. Às vezes, a sensação de estar em casa a tarde toda escrevendo ou desenhando para algum deles me bate como uma irresponsabilidade, vagabundagem. Mas resisto pensando que não tenho outra responsabilidade no momento além desta, e que desenvolver essa capacidade de foco faz parte de desenvolver uma carreira independente.
Ainda me preocupo (e muito) com o dinheiro, com ganhar o suficiente para pagar minhas poucas contas e ainda economizar para Londres no ano que vem. E fazer isso sem me sujeitar de novo a empregos que me desrespeitam. Mas isso, apenas o passar dos meses dirá.
Tara McPherson
Segundo a B-Coolt desta semana, a artista californiana Tara McPherson vem à Galeria Choque Cultural como parte da turnê de divulgação de seu novo trabalho, o livro Lost Constellations.
Conheci o trabalho de Tara McPherson na SP Arte deste ano. Ela é a mais recente novidade da tendência artística que inclui gente do naipe do Mark Ryden, Trevor Brown e Dan May. São imagens com um forte apelo pop, cores fortes e limpas, formas sedutoras e muitas vezes referenciando ícones da cultura de massa. Mas ao mesmo tempo, os temas frequentemente fazem alusão a um certo mal estar do tempo, à melancolia e ao abuso. A influência do movimento Lowbrow (ou Surrealismo Pop) da Califórnia de 1970 me parece bem claro, embora eu ache que alguns desses artistas queiram negar as origens, porque o Lowbrow era um movimento com um teor cômico predominante e esses artistas atuais são mais depressivos. De qualquer forma, é uma tendência que eu estou seguindo com muito interesse e a sessão de autógrafos que acontece na noite deste sábado na Choque Cultural pode ser uma ótima oportunidade pra chegar mais perto.
segunda-feira, agosto 03, 2009
Interpretação de minha mãe
Minha mãe escreveu a sua interpretação de pesquisadora científica sobre a carta de Bouillier a Calle.
Rendeu boas discussões lá em casa.
Rendeu boas discussões lá em casa.
Sentimento não se explica
Finalmente consegui visitar a exposição da Sophie Calle neste fim de semana. Estava viajando na abertura e passei o fim de semana anterior no Anima Mundi.
Admito que quando li a missiva enviada a Sophie pelo ex-namorado, julguei-o um canalha. A verdade é que toda a obra baseada nessa carta foi orquestrada para virar a mesa e transformá-lo em um canalha. O escrutínio do texto por todos os ângulos imagináveis é uma estratégia formidável para enfraquecer e inferiorizar um homem que tomou uma decisão muito sincera, mas que prejudica a artista.
Lexy foi a primeira a me surpreender quando saí da exposição. "Achei que ela [Calle] foi egoísta e covarde", ela me disse. Egoísta porque tirou proveito da situação sem pensar no prejuízo à imagem pública de Bouillier, o ex. Covarde porque, em vez de peitar a situação sozinha, ela conjurou um exército de mais de cem mulheres para ridicularizá-lo. A idéia da covardia de Calle já era apontada por uma de suas escolhidas, a escritora Christine Angot, que tentara escrever algo nos moldes das outras mulheres, inferiorizando Bouillier, mas depois de várias tentativas, percebeu que não concordava totalmente com esse ponto de vista. Em seu texto final, mencionava que as mulheres se juntaram como tantas outras mulheres se juntavam em torno de fins de relacionamento, para ridicularizar os homens e "transformá-los em mulheres". Havia uma verdade nessa constatação que eu ainda tinha dificuldade em verbalizar.
Saíndo de SESC, Lexy me dizia que a convivência comigo e com esses conceitos do Masculismo já estavam mudando seu jeito de ver essas coisas. Fiquei muito contente com isso! Ela dizia que começava a perceber como os homens eram vítimas de determinadas situações amorosas. Em um comentário que deixei no blog da Maíra, mencionei o estereótipo que existe nos fins de relacionamento, que dita que o homem está sempre errado e a mulher é sempre a vítima (excetuando casos de traição, naturalmente).
A armadilha é muito simples e, no caso de Bouillier, ele caiu nela sozinho e sem qualquer influência ou esforço de Calle, como muitos o fazem. Consiste em achar que ele tem que explicar os porquês de um sentimento ter acabado. O sentimento acabou. Ponto. Não tem que explicar. Qualquer tentativa de explicar sentimentos com lógica é imbecil e imatura. É vulnerável ao tipo de ridicularização que acaba acontecendo na obra de Calle. Se ele tivesse dito apenas isso, "o sentimento acabou", ela não teria como humilhá-lo. Seria honesto, maduro e direto ao assunto. Em vez disso, ele tenta dar razões, se enrola, fica confuso. É um escritor, mas escreve um texto cheio de erros gramaticais e redundâncias, porque não consegue ter a coragem de ser direto.
Homem hoje não tem mais coragem de ser direto, porque tem medo de que isso seja interpretado como insensibilidade e machismo. Ele pisa em ovos o tempo todo sob a premissa de "respeitar as mulheres", mas acaba caíndo nessas armadilhas e se desrespeitando.
Explicar um sentimento é sempre um ato suicida para o qual os homens caminham cegamente. Já caí milhares de vezes na pergunta "por que você me ama?". As explicações que dei faziam perfeito sentido para mim. Me satisfaziam de verdade. Elas sempre as acharam insuficientes, como um sentimento que eu poderia ter por uma boa amiga, ou como prova de que eu pensava nelas como objetos, esse tipo de coisa. Um bom "porque sim" não teria explicado nada e seria bem menos poético, mas teria acabado a discussão. Os homens, via de regra, não perguntam. Ou se contentam com explicações vagas e ilógicas, com os "porque sim".
Admito que quando li a missiva enviada a Sophie pelo ex-namorado, julguei-o um canalha. A verdade é que toda a obra baseada nessa carta foi orquestrada para virar a mesa e transformá-lo em um canalha. O escrutínio do texto por todos os ângulos imagináveis é uma estratégia formidável para enfraquecer e inferiorizar um homem que tomou uma decisão muito sincera, mas que prejudica a artista.
Lexy foi a primeira a me surpreender quando saí da exposição. "Achei que ela [Calle] foi egoísta e covarde", ela me disse. Egoísta porque tirou proveito da situação sem pensar no prejuízo à imagem pública de Bouillier, o ex. Covarde porque, em vez de peitar a situação sozinha, ela conjurou um exército de mais de cem mulheres para ridicularizá-lo. A idéia da covardia de Calle já era apontada por uma de suas escolhidas, a escritora Christine Angot, que tentara escrever algo nos moldes das outras mulheres, inferiorizando Bouillier, mas depois de várias tentativas, percebeu que não concordava totalmente com esse ponto de vista. Em seu texto final, mencionava que as mulheres se juntaram como tantas outras mulheres se juntavam em torno de fins de relacionamento, para ridicularizar os homens e "transformá-los em mulheres". Havia uma verdade nessa constatação que eu ainda tinha dificuldade em verbalizar.
Saíndo de SESC, Lexy me dizia que a convivência comigo e com esses conceitos do Masculismo já estavam mudando seu jeito de ver essas coisas. Fiquei muito contente com isso! Ela dizia que começava a perceber como os homens eram vítimas de determinadas situações amorosas. Em um comentário que deixei no blog da Maíra, mencionei o estereótipo que existe nos fins de relacionamento, que dita que o homem está sempre errado e a mulher é sempre a vítima (excetuando casos de traição, naturalmente).
A armadilha é muito simples e, no caso de Bouillier, ele caiu nela sozinho e sem qualquer influência ou esforço de Calle, como muitos o fazem. Consiste em achar que ele tem que explicar os porquês de um sentimento ter acabado. O sentimento acabou. Ponto. Não tem que explicar. Qualquer tentativa de explicar sentimentos com lógica é imbecil e imatura. É vulnerável ao tipo de ridicularização que acaba acontecendo na obra de Calle. Se ele tivesse dito apenas isso, "o sentimento acabou", ela não teria como humilhá-lo. Seria honesto, maduro e direto ao assunto. Em vez disso, ele tenta dar razões, se enrola, fica confuso. É um escritor, mas escreve um texto cheio de erros gramaticais e redundâncias, porque não consegue ter a coragem de ser direto.
Homem hoje não tem mais coragem de ser direto, porque tem medo de que isso seja interpretado como insensibilidade e machismo. Ele pisa em ovos o tempo todo sob a premissa de "respeitar as mulheres", mas acaba caíndo nessas armadilhas e se desrespeitando.
Explicar um sentimento é sempre um ato suicida para o qual os homens caminham cegamente. Já caí milhares de vezes na pergunta "por que você me ama?". As explicações que dei faziam perfeito sentido para mim. Me satisfaziam de verdade. Elas sempre as acharam insuficientes, como um sentimento que eu poderia ter por uma boa amiga, ou como prova de que eu pensava nelas como objetos, esse tipo de coisa. Um bom "porque sim" não teria explicado nada e seria bem menos poético, mas teria acabado a discussão. Os homens, via de regra, não perguntam. Ou se contentam com explicações vagas e ilógicas, com os "porque sim".
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