segunda-feira, dezembro 28, 2009

Truques fáceis

Acho que em todo tipo de arte há truques fáceis.
São aquelas manobras conceitualmente banais, mas que surtem efeito rápido, chamam a atenção do público e causam maravilhamento em quem observa. Elas são experiências agradáveis, ainda que desimportantes. A harmonia de duas vozes com uma oitava de diferença é um exemplo na música: não é nenhuma novidade técnica, mas é muito prazeirosa para quem ouve.
Comecei a prestar atenção em truques fáceis quando estudamos na faculdade o escultor pop suéco Claes Oldenburg. Ele fez uma carreira do maior dos truques fáceis: escala. Qualquer coisa, não importa o quão banal, torna-se digna de contemplação e maravilhamento se feita em uma escala grande o suficiente. Oldenburg fazia tudo gigantesco. Grampos de roupa, comida, utensílios domésticos... tudo de mais mundano. Conceitualmente, é uma banalidade. Mas causa um impacto... er... enorme. Não é à toa que muitos pintores recorrem a tamanhos pouco práticos de tela: você pode até deixar ela em branco que já é um deleite de se ver.
Na pintura, outro truque fácil é volume. Luz de um lado, sombra de outro e seu desenho já ganha um ar de profissionalismo. Lembro de uma época na infância onde descobri volume no desenho. Desenhei o mesmo vaso incontáveis vezes, com a luz de um lado e a sombra do outro. Demorou um pouco pra experimentar o truque em outras formas.
Houve uma época em que eu teria associado truques fáceis à baixa qualidade ou falta de talento do artista. Como se apenas o difícil e complexo fosse relevante. Hoje acho que depende do contexto. Truques fáceis estão aí para serem usados. O que se faz com eles é o que define o bom artista, na minha opinião.


Estou quase terminando de pintar minha avó no quadro do Entre Quatro Paredes. Achei que fosse demorar mais. A pintura foi produzida em um crescendo de dificuldade, começando com a imagem mais fácil de Cacilda com seu rosto sem volume, passando pelo meu avô com as sombras duras no rosto e o casaco cheio de penumbras sinuosas, até deixar minha avó por último por causa do cabelo. Este lhe cai em longas madeixas detalhadas da cabeça que pende para trás, agarrada pelas mãos de violência leve do meu avô. Achei que fosse demorar uns três dias pra fazer todos os volumes daquele cabelo. Levei apenas um. Com o dobro de horas de trabalho normais, mas apenas um. Resta arrumar o rosto.
Cabelos são outro truque fácil. Um macete de pincelada fácil de aprender e que todo mundo acha lindo. O caso da minha avó foi bem mais elaborado, mas é em tese a mesma coisa. E talvez seja o efeito de ter passado cinco horas pintando aquilo, mas acho que está roubando a cena do resto.

Falta fazer o fundo, com várias das surpresas escondidas que estavam no quadro da Maria Della Costa e o detalhe dos sofás, sobre o qual acredito ter encontrado uma solução gostosa. Aguardem fotos em alguns dias.

sexta-feira, dezembro 25, 2009

Vovô

Terminei esta semana de pintar meu avô no quadro do Entre Quatro Paredes. Acho que, pelas festas de Dezembro, não terminarei este dentro do mês como queria. Mas tudo bem.
Em um dos jantares natalinos, uma das tias da Lexy se enganou e me chamou de Sérgio. Sei que o engano não tinha nada a ver, mas imaginei por um momento que ela talvez estivesse vendo semelhanças entre eu e meu avô e falando o nome dele como ato falho.
Já fui mais parecido com meu avô. Hoje, a barba e os óculos, os traços da família de meu pai e outras pequenas peculiaridades me distinguem da figura dele. Mas na infância, a semelhanca era tamanha que muita gente apontava. Tanto para os aspectos físicos como de personalidade. Cheguei a acreditar, na inocência da infância onde tudo é possível, que talvez eu pudesse ser uma reencarnação dele.
No quadro, os detalhes semelhantes estavão lá. O formato do rosto, o cabelo liso que eu tinha quando criança e uma animosidade nos olhos e sobrancelhas. Até mesmo a violência sem força. E algo na boca, que apesar de não ser exatamente igual à minha, me lembrava qualquer coisa. Trabalhar com essa imagem teve o gosto de trabalhar com a minha própria imagem. Ou a estranheza de estar na presença de um outro idêntico a mim.
Não é nada que me incomode. Pelo contrário. Me incomodaria talvez em pintar homens por causa do erotismo de traçar e obcecar com o rosto de uma pessoa, mas quando se trata de uma imagem assim, é como acariciar a si mesmo. Um deleite nascísico.

sábado, dezembro 19, 2009

Ansiedades

Nem tudo tem sido maravilhoso nesta recente vida de artista plástico.
Os dias têm sido inegavelmente mais prazeirosos e a qualidade de vida aumentou consideravelmente. A segunda metade de 2009 me trouxe experiências e memórias boas o suficiente para dar aquela impressão de que o ano esticou, durou mais do que estes 12 meses.
No entanto, carrego comigo um pacotão de culpa que tenho tentado ignorar mas fica a cada dia mais pesado. Pesam sobre mim os anos desperdiçados fazendo duas faculdade simultâneas enquanto eu poderia ter começado a estagiar. Pesam os cinco anos seguintes, dedicando-me à publicidade sem chegar a lugar nenhum. Pesa a ignorância de não ter me informado sobre processos seletivos de empresas de verdade enquanto eu ainda tinha a possibilidade de entrar em alguma delas e ter a tão respeitada carreira empresarial. Pesam as escolhas erradas que fiz depois que voltei de viagem em 2006. Acima de tudo, pesam as comparações. Perceber que todo mundo já tem seu rumo e um salário decente ou ao menos um mestrado (comentário de patricinha: "todas as minhas amigas estão casando e tendo filhos"), enquanto eu estou aqui, começando do zero de novo. Fazendo agora, aos 28, o que eu devia ter feito aos 23.
-"Não se desespere, você ainda é jovem e tá na idade de fazer essas coisas."
Claro, todo mundo diz isso para encorajar. Mas não me furto à noção de que, pelas minhas costas, a conversa é outra. Estão todos preocupados com meu desemprego, com esse meu estado de estar esperando por Londres, pelo mestrado, pela possibilidade de ter uma carreira de verdade. Se tudo correr de acordo com os planos, terei o mestrado e licenciatura, habilitando-me a dar aulas, quando eu fizer 30 anos de idade. É um longo tempo para poder finalmente ter uma carreira. Enquanto isso, eu espero.

["This is an Edgewalker Line train to Waiting Place"]

Quiçá tudo isso seja na verdade o que os psicólogos chamam de projeção: eu estou projetando nos outros a minha própria preocupação. Quiçá ninguém esteja dando a mínima para a minha situação. Não vem ao caso. De qualquer forma, esse meu atraso de vida é uma bagagem cada vez mais saliente no meu pacotão de culpa. É uma lufada de ansiedade que tenho conseguido manter longe de mim até agora, mas é cada vez mais difícil de ignorar. Me ataca nas noites de solidão, dentro do carro na volta pra casa, na inveja frente às notícias de que meu irmão está saíndo de casa antes de mim (e que meus pais o estão ajudando em vez de dificultar como fizeram comigo...). Tranquilizo-me na variedade de histórias de vida de artistas plásticos que só decolaram aos 30.


Soube recentemente que recebi minha primeira crítica. Daquelas que eu esperava receber quando decidi largar a estabilidade da agência: alguém a quem eu não devia dar importância insinuou que eu larguei a publicidade porque tive medo. Um medo infantil de quem não quer crescer. Na verdade foi um outro medo, de quem sabe muito bem onde se meteu: medo de passar mais cinco anos na mesma merda, ganhando o mesmo salário. Mal sabe ele que, exceto por estes meses de Dezembro e Janeiro quando vários dos meus alunos de inglês saem de férias, minhas contas mostram que tenho ganhado nos outros meses o mesmo ou às vezes até o dobro do que ganhava na agência. Mas entendo o ponto de vista dele: funcionários que se aposentam depois de trinta ou quarenta anos trabalhando para os outros pensam apenas na estabilidade cinzenta e insossa que lhes permitiu comprar seus apartamentos vendendo seus sonhos da juventude.
Se eu já esperava receber esta crítica e ela veio de alguém a quem eu devia ignorar, porque é que ela me atinge? Andei pensando nisso durante algum tempo. Hoje vejo que talvez seja porque ainda estou na dúvida. Incerto sobre se isso é de fato o melhor caminho a tomar. Pensando se talvez há alguma outra saída óbvia e rentável que eu não estou enxergando. Parte de mim sabe que não há outro rumo. Este é o meu rumo. Resta enfrentar. Mas outra parte tem medo de estar se metendo em outra besteira que me roubara mais anos da minha vida para nada.
A crítica me atinge porque tenho precisado cada vez mais que me digam que o que eu estou fazendo é correto. Que me façam acreditar. Até mesmo que me forcem a isto. Morro de medo de alguém algum dia dizer o contrário, que isso é errado, que é uma burrice. Morro de medo que alguém desaprove.
Ao mesmo tempo anseio por que alguém o diga. Uma pessoa séria na qual eu acredite, e que diga essa verdade para mim porque quer meu bem. Ao menos assim eu seria forçado a lidar com esse fato antes do passar dos anos, do estilhaçar dos sonhos e de mais frustrações.

E você? O que acha? Faço hoje a coisa certa?

quinta-feira, dezembro 17, 2009

Sobre sofás

Há duas semanas comecei a levar a sério a pintura do Entre Quatro Paredes com meus avos e Cacilda. De início não tinha muita idéia do que fazer com este. Então desenterrei da minha biblioteca o texto da peça, que consegui de minha avó na época em que a estava ensaiando com Lee na faculdade. Os insights vieram naturalmente, quase uma idéia nova por dia. Agora tenho a impressão de que talvez fique melhor e mais completo do que o quadro de Maria Della Costa.
O começo do quadro foi meio confuso. Enquanto desenhava a foto escolhida na tela, pensei muito nos trios da peça: três atores, três sofás de cores distintas, três paredes no cenário (a quarta sendo a platéia). Quase por instinto, comecei a pintar cada ator de uma cor diferente. Lembrava de uma técnica que uma professora tinha me ensinado, de pintar a imagem toda de uma cor e depois pintar por cima. O óleo é meio transparente, e daria uma tênue impressão da cor de baixo. Vovó apareceu e me contou que cada personagem tivera uma cor específica em sua montagem de 1950. Cores diferentes das que eu estava usando. Lá fui eu começar de novo...
Na semana passada, comecei a pintar Cacilda. E enquanto o fazia, as idéias finais do que fazer no quadro apareceram. O fundo da tela, a questão dos sofás na peça, as cores.
Em algum momento, li o texto de novo e achei a parte onde os personagens falam dos sofás. Estelle, a personagem de minha avó, faz manha porque está colocada em um sofá com uma cor que não combina com a sua. É um diálogo gostoso, porque de imediato deixa claras as atitudes de todos eles, o detalhe dos sofás e o nome de cada um, quando eles se apresentam.
Fiquei com uma vontade de colocar isso no site do quadro.

Ah, verdade... Acho que não contei por aqui. Estou pensando em fazer um pequeno hotsite para cada quadro. Uma experiência hipertextual como se faz hoje com bons filmes: você tem a experiência do filme e, se quiser obcecar um pouco mais com o assunto, explora o site, encontra mais informação e aumenta sua experiência sobre o que estava no filme. Já estou terminando o da Maria Della Costa.

Voltando ao assunto, fiquei com vontade não de colocar o texto, visto que ninguém teria paciência para ler, mas de fazer uma gravação. Três pessoas declamando o texto em determinada parte do site. Eu, obvia e narcisicamente, seria Garcin. E nada me tira até agora da cabeça que eu deveria pedir a Lee que fizesse Inês. Mas isso seria factível? Há tantas questões a considerar... Não nos falamos há talvez um ano ou mais. E será que ela aceitaria? Ou julgaria isso tudo como uma tolice e ignoraria o convite? De qualquer forma, seria a voz perfeita. Com as mesmas qualidades que a de Cacilda.

terça-feira, dezembro 15, 2009

Random literature

The flickering neon glow of the fluorescent lights gave no warmth to her skin. Neither actual warmth on her flesh, nor the pinkish hue on her face in the mirror. The lights in her bathroom bathed everything in a sickly artificial green. She supposed everything in her life had somehow acquired that ill quality, that lack of flavour. When did this happen? How long ago? What was the exact day - the hour, the minute - when everything just suddenly faded into this stale aspect?
For quite some time she had basked in the relative comfort of imagining herself going back to a time when life was simpler. Regressing into the former years when life didn't seem so demanding. And then further back, into the pleasant discoveries of her teenage years. When that wasn't enough, she began obssessing with childhood naiveté and the innocent games she played with cousins and neighbors. But just recently even those memories were paling away into their reality: they were substitutes of the real thing. It felt like she was dragging the smudge of greenish, greasy blight across her past, tainting and corrupting everything until it all seemed pointles, tasteless and ever so cold. She wanted to regress further, but found herself unable to consciously remember a time before that.

Still, she needed to go back further for more comfort.

That night, in her pale green bathroom, she peeled away all her clothes. Having regressed so far into childhood, she no longer felt aroused by her own nudity like she had been as a teenager. The discomfort of the cold tiles on the floor was eased when she slipped into the hot water of the bathtub. She held a razor blade between her fingers with all the gentleness of a mother. But what she did after she settled in the warmth of the tub was all but motherly.
Cecilia LisbonJust two mercifully brief moments of sharp pain when she opened her veins. With enough patience, she managed to bare the pain and witness as it progressed, like most cuts usually did, turning from hurt into warmth. She could imagine the flesh around those wounds turning a deeper shade of pink. Painting the water a deeper and more real shade of red. The color and warmth flowing all around her. She closed her eyes, and that evil light of the fluorescent bulbs filtered through her eyelids as a dim red flicker. In the constricted space of that tub, she managed as best she could to curl up and embrace her knees. There was little she could actualy do with her hands, given her open wrists, but she found a way to lean her knees against the hard sides of the tub.
She could then feel the warmth of her cuts slowly mutate into a gentle throbbing she could recognize as her own heart, like most cuts would do when left alone.

And there she stayed, surrounded by that warm red glow. Feeling rather than listening through the water, as the pulse of her life diminished. Regressing further back into a time with no conscious memories to taint. Recognizing a time of sheer experience and bliss. Flowing quieter and quieter, closer and closer, into oblivion.

sábado, dezembro 12, 2009

Bazar Art in Chepa

O ano está terminando muito bem. Acho que consegui uma das minhas promessas de ano novo que era dobrar o número de exposições. Na abertura da Escola São Paulo (o mais importante é sempre a abertura), encontrei Georgia Vilela. Colega do curso de arte, um ano depois do meu, sempre muito alegre. Estava vendendo bem na Escola São Paulo. Antes que eu fosse embora, ela me puxou de lado e me falou do bazar que estava organizando. Não era a primeira vez que ela me convidava, mas na anterior, eu ainda era um publicitário sem tempo.
Alguma troca de e-mails e eu já estava fazendo parte do bazar, junto ocm nomes relativamente conhecidos do mundinhos das artes, como Vivian Kass, Aline van Langendonck, meu professor Matangra e Flávia Junqueira. Mas o que expor? Mais Alices? Que tédio... E obviamente não podia colocar o quadro mais recente, porque não seria compatível com o preço de um bazar.
Foi aí que resolvi tirar da gaveta uma idéia antiga, porém divertida e fácil de fazer: a antiga Battle for Importance. Na verdade já estava cogitando retomar essa série como projeto paralelo do ateliê, dazendo um pouquinho por dia, sempre que batesse aquele marasmo de fim de expediente, onde estou esperando a pintura principal secar pra continuar.
Resolvi quatro pinturas pequenas em dois dias. E com um pouco de organização e amigos prestativos, já fotografei e coloquei no outro blog.

Então aproveitem! Telas recém-saídas do cavalete a preços de bazar. Vai ser a partir de hoje, às 19h00, até terça (com possibilidade de prorrogar se aparecer bastante gente).

Mais detalhes no flyer abaixo.

Art in Chepa


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sexta-feira, dezembro 04, 2009

100 a mil (Escola São Paulo)




Continuando a loucura de Dezembro, depois da exposição no Rio Verde, é a vez agora da 100 a mil na Escola São Paulo. A exposição acontece todo ano e reúne os trabalhos dos alunos e ex-alunos de destaque na Escola em uma feira de arte que tem o objetivo de vender a maior quantidade de obras por preços que variam entre R$100 e R$1.000.
Quem já foi na do ano passado vai notar que fizeram uma pequena modificação na exposição deste ano, começando pelo nome. O valor mínimo da exposição do ano passado era de R$10. Provavelmente nenhum artista teve coragem de fazer algo tão barato.

Estarei por lá vendendo quatro edições da Alice, feitas em chapa de acrílico dupla, figura em uma chapa, fundo na outra. São quatro imagens que contam a entrada de Alice na Blankness, seu encontro com o Tartaruga e a chegada ao Burgo. Há fotos delas no blog profissional.

A exposição começa hoje! A partir das 19h00 na Escola São Paulo (Avenida Augusta, 2239) e vai até 16 de Janeiro. Mas recomendo ir rápido, porque como toda a feira, quem chega primeiro leva as melhores coisas!


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domingo, novembro 29, 2009

Do outro lado do Rio Verde

Acordei hoje de manhã.
A garganta doia muito. No chão do quarto, roupas molhadas. Na área de serviço, seis dos meus quadros e os painéis que usei na Casa das Caldeiras com os textos sobre o Masculismo. Tive receio de tirar os quadros das embalagens. Receio de descobrir que talvez eu tivesse danificado mais algum deles. Desde o fim da faculdade, já perdi os retratos de Bia e Rafaela por problemas de estocagem e transporte. Mas a checagem tinha que ser feita e qualquer perigo de estrago evitado.

Há apenas um jeito de resumir a exposição de ontem: a produção falhou. E falhou pesado. Na quarta anterior, tínhamos nos reunido para ver o local e decidir quem ia expor o que aonde. Consegui ficar com um dos pontos mais legais da balada, uma tenda logo na saída do local onde as bandas estariam tocando. O único problema: iluminação. Me pareceu algo simples de arranjar para uma produtora que estava montando toda uma balada, então não dei muita atenção. Mas então chegou o dia, e a fantástica iluminação que arranjaram pra mim se resumiu a um conjunto de luzes de árvore de natal... Dois, na verdade. Cada um durou cerca de meia hora até queimar e apagar de vez. No escuro, descolei um holofote que sobrara e, com uma folha de papel sulfite, improvisei um abatjour que iluminava por igual todo o ambiente com uma luz difusa. Era o suficiente, embora não o melhor. E eu já estava descontente com minha suposta produtora pro ter sido eu que me virei pra montar isso. A coisa ficou ainda pior quando, depois de mais duas horas de evento, até o holofote queimou. Depois disso, joguei a toalha. Afinal, minhas reclamações já estavam sendo retrucadas por aquele "é mesmo, né?" de quem nem está prestando atenção no que você diz. Se nem os produtores do evento estavam se importando, não tinha muito que eu pudesse fazer.
A iluminação não foi a única falha de produção. Falou-se em imprimir etiquetas ou algo do gênero para os trabalhos expostos, mas eu acabei tendo que fazer isso em casa também, na correria entre a volta da montagem, um banho e o retorno ao local. Fora que em duas semanas tentando, eles não conseguiram achar uma câmera para a Lexy, que fotografaria o evento. Resolvi o assunto com uma mensagem de Twitter e um telefonema. Aliás, valeu Iraê!
Depois que a banda do meu irmão tocou, inventei qualquer desculpa e desmontei a exposição. Apenas com a ajuda da Lexy e com a chuva molhando as coisas a caminho do carro. Quanto mais eu ficasse por lá, mais estragaria os quadros. E não valia a pena o risco para continuar expondo no escuro para um público que estava mais interessado em fumar e ouvir dub do que em artes visuais.

Devo admitir alguns pontos positivos. Como produtores de eventos musicais, eles sabem realmente fazer uma balada. Iluminação das bandas feita por VJs que projetavam imagens ao vivo no palco, deliciosas experiências gastronômicas acontecendo na cozinha, um número decente de pessoas comparecendo apesar do mau tempo, tudo isso em um local muito bem escolhido. Mas não tenho como aproveitar quase nada disso quando eles dão tanto zelo e importância para os músicos e tratam os artistas plásticos como meros decoradores de ambiente.

Ainda assim, houve momentos em que eu quase me esqueci desses "detalhes". As pessoas se reunindo em torno do quadro novo e comentando a respeito sem saber que eu era o autor me deram impressões muito favoráveis do impacto que ele tem ao vivo. Os retratos (Lilly, Tinkerbell, Thaís, Lee e Lexy) dividiam opiniões como sempre, e cada pessoa tinha seu favorito por esta ou aquela razão. Tive feedbacks gostosos dos outros artistas como a Beatriz Chachamovitz, que plantou seus singelos "pólipos" entre a vegetação do lugar; e do Geraldo Yang, que trouxe aquarelas muito bem humoradas.
Geraldo fez-me perceber um detalhe inconsciente no quadro novo. Tendo vivido por um ano no sul dos Estados Unidos, ele percebeu que a casa na pintura tem arquitetura daquela região, devido às referências que procurei. Eu queria mesmo uma dessas casas, porque era a imagem na minha cabeça. Mas ele me fez ver que eu tinha escolhido uma arquitetura de uma sociedade extremamente machista, e colocado ao lado dela uma mulher muito maior do que aquilo. Na minha cabeça, a casa tinha conotações femininas, mas o fato é que ela é um símbolo masculino naquele contexto.
Os gostos doces da noite terminaram com visitas do Tex, amigo da Lexy que chegou até a perguntar preços dos quadros; e o Gonzo, vocalista e líder da banda do meu irmão e que sempre tem um carinho inigualável com outros artistas.

Foi uma noite de sabores e dissabores. Mas muita coisa foi aprendida sobre que exposições aceitar no futuro.

quarta-feira, novembro 25, 2009

Anúncio rápido!

Você sabe que eu sou artista plástico e que meu irmão é músico, mas nunca viu nosso trabalho? No sábado, dia 28, você vai ter a sua chance. Ele vai estar tocando com seu projeto Mais Massa (com músicos de Fortaleza) e eu vou estar expondo um pouco do velho e as coisas mais recentes do Masculismo. Ando até pensando em fazer disso uma verdadeira vernissage e passar verniz no último quadro ao vivo, no meio do evento.

Passa lá!

Vai ser no Centro Cultural Rio Verde:
Rua Belmiro Braga, 119 - Vila Madalena
Tel.: 11 3459-5321


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sexta-feira, novembro 20, 2009

Mudanças

Sejamos francos: este blog estava um porre.

Dia desses, um dolorosamente sincero amigo meu comentou sobre este fato. Começamos a conversar sobre porque isso tinha acontecido. Afinal, esta página já foi muito apreciada pela qualidade da literatura. O que aconteceu?
Quando comecei a escrever, minha proposta era de escrever como se o fizesse para mim mesmo. O que é diferente de fazê-lo de fato, pois se estivesse verdadeiramente escrevendo para mim mesmo, não publicaria meus textos na internet (uma lição que muita gente desconhece e por isso reclama da suposta "falta de privacidade online"). Mas eu queria escrever com a poesia e a autenticidade de quem escreve para si mesmo. O gosto da literatura de diário adolescente.
Acredito que, por pelo menos um ou dois anos, eu fiz exatamente isso. Mas então entrei no processo que todo escritor de blog entra, de descobrir as consequências de ter uma opinião tornada pública. Esse tipo de literatura leva muito de opinião pessoal e pieguices passionais. E essas coisas às vezes machucam quem ficou de fora dos elogios. Ouvi muita reclamação, troquei muitas farpas virtuais... Tive até ex-namorada que veio escarafunchar críticas minhas anos depois que eu as havia escrito. Eu poderia lidar com tudo isso de duas formas: bater de frente e esperar calejar, descartando da vida (e do blog) as pessoas que não conseguissem aguentar opiniões pessoais; ou pisar em ovos, ser diplomático e criterioso com o que eu escrevia por aqui. Não tive força pra escolher a primeira estratégia, então optei pela segunda.
Nos anos que se seguiram, o blog passou a ser uma tediosa procissão de resenhas culturais. Filmes, exposições, ensaios sobre teoria artística e outras chatices acadêmicas... Pessoalmente, eu estava satisfeito. Ainda escrevia "para mim", sobre coisas que muito me interessavam. Mas condenei os leitores a desbravarem uma terra estéril e asséptica, cheia de termos e assuntos que não lhes interessavam. O blog passou a ter um caráter informativo e didático, apoético. A pouca poesia que aqui havia se resumia nas imagens de trabalhos e pequenas coisas que eu colocava. E no entanto, nem mesmo essa função de informar sobre o mundo da arte ele estava cumprindo direito. Fui a muitas exposições e eventos que não tive paciência para relatar aqui. E mesmo que o fizesse, ninguém estava interessado em ler. Minha turma de artes plásticas, que seria a mais interessada, é meio alheia ao mundo dos blogs. E quem conhece e participa desse mundo não é tão interessado assim por arte profissional.

Quando percebi, estava sozinho.

Tinha perdido os poucos leitores que vinham até aqui pela poesia e não soube ganhar novos que aproveitassem a informação. Recentemente, além da solidão, comecei a perceber o lento definhar do pouco que restara neste blog. A preguiça e falta de tempo para relatar as coisas, o desinteresse. Meses inteiros quase sem conteúdo. Praticamente a única coisa que ainda mantem esse blog vivo é sua idade, porque morro de pena de dar um fim a algo que já vem acontecendo há tantos anos e secretamente tenho esse orgulho de ser o último blog vivo da época em que todos nós escrevíamos. Algo como minha avó e o TBC.

Mas estou em uma época fértil de mudanças em que estou reorganizando muitas coisas, prioridades e detalhes da vida. E por que não incluir o blog nesse processo? De fato, eu tinha pensado (como sempre penso e raramente faço) em inaugurar um novo layout no meu aniversário. Aproveitaria assim para inaugurar uma nova fase nos textos. Voltar a ter poesia nas coisas. E que ela atraisse os leitores, antigos e novos.

Pois bem, ei-lo, o novo layout. Passa a fazer parte da identidade visual que estou usando profissionalmente, com meu leão e tudo. Por enquanto, ainda está em fases iniciais. Ainda não descobri como colocar vários dos efeitos e serviços que eu queria, mas isso vai sendo feito aos poucos. Opiniões de todos (tenho dúvidas sobre as cores...) serão muito bem vindas. O que importa por enquanto é sinalizar a mudança. E coroar assim o despertar de consciência que começou há exatamente um ano.

[Ah, sim... e eu tirei a musiquinha pentelha]

terça-feira, novembro 17, 2009

Maria Della Costa

Terminei na semana passada a parte de pintura do primeiro quadro que estou fazendo sobre as atrizes do TBC. Acho que finalmente consigo fazer um quadro em um mês. Foi uma coisaa complicada, porque fui experimentar uma técnica de transferência de imagens impressas para a tela que o Rauschemberg usava. Muito frustrante quando essas coisas não dão certo. Mas eu sou teimoso e acabei gastando uma semana nisso até que desse certo.

Apesar de ter motivos pessoais para começar a série com uma cena do Entre Quatro Paredes (encenado por minha avó, meu avô e Cacilda Becker), por ter ensaiado a peça com a Lee há muitos anos, cedi ao apelo visual da belíssima Maria Della Costa. Na peça Ralé, de Maxim Gorki, dirigida por Flamínio Bollini Cerri, ela encarna a bela e perigosa esposa de um dono de cortiço, que trama a morte do marido e agride a própria irmã ao perceber que seu amante passa a interessar-se por esta. Trajando um longo vestido, ela aparece em uma das fotos em uma pose que lembra as musas do cine noir.

Há algumas semanas, soube por minha avó que Maria Della Costa estaria dando autógrafos no lançamento de sua biografia. Aproveitei a chance para conhecê-la de perto. Simpaticíssima, não se negou a tirar uma foto comigo depois de saber de quem eu era neto.

Eu e Maria Della Costa na Livraria Cultura, durante o lançamento de sua biografia.

quarta-feira, novembro 11, 2009

Red Bull House of Art

Como diria meu professor de física do colégio: "tive três orgasmos com essa notícia..."

A Trip publicou em seu site uma notícia sobre este projeto da Red Bull, a cargo dos curadores Lucas Bambozzi e Maria Monteiro, que colocará a partir de hoje dez artistas de diferentes nacionalidades para habitar um hotel do centro de São Paulo por 30 dias. Durante este tempo, os artistas devem produzir trabalhos relacionados ao espaço, ao centro urbano, à cidade. O rol de "vítimas" desta primeira edição conta com gente do Brasil, África do Sul, Japão, Alemanha, Argentina, Portugal e dos Estados Unido. São pessoas dos mais variados tipo, idades e mídias, sem nada um comum, o que estimula a riqueza do diálogo e a diversidade, bem ao estilo Red Bull. Entre os brasileiros, está em destaque a queridíssima Regina Parra, do desmantelado grupo 2000e8 [1] [2].
Interessante, o site da Trip aponta, é que os artistas vão para o espaço sem um projeto definido, tendo que criar do zero a partir do espaço. Como incentivo, os organizadores ainda levarão seus acólitos a diversas exposições relevantes em São Paulo, como a da Pippilotti Rist no MIS e da própria Regina na Galeria Leme, além de galerias fora do circuito tradicional, como a Choque Cultural e a Casa da Xiclet (!).

Fiquei imaginando o que eu colocaria por lá. Provavelmente etntaria fazer uma idéia antiga, do tempo da faculdade, quando eu ainda estava pintando a Virgem e o Menino e obcecado com temas recorrentes da pintura antiga. Era uma idéia de fazer a Venus, como uma pintura gigantesca na lateral de um prédio do centro. As pinturas da Venus antiga expressavam o ideal de belza feminina da época, e a minha seria uma modelo de revista, daquelas que anunciam "15 maneiras simples de perder uns quilinhos para o verão" ou qualquer outra futilidade estética. Só que apesar da linguagem publicitária, ela não estaria vendendo nada. Apenas estaria lá, do tamanho de uma deusa inatingível e maior do que qualquer homem.
Claro que a atual lei contra outdoors seria um empecilho... Mas será que há excessões para obras de arte? Algo a pesquisar...

quinta-feira, novembro 05, 2009

Homens que dizem não

A propóstio, ao ler meu último post, Nana me passou um link para uma matéria que fala justamente do assunto de sexo como mecanismo de controle masculino. Achei relevante.

quarta-feira, novembro 04, 2009

Atualizando

Quase um mês sem atualizar isso aqui... E eu que queria transformá-lo em um blog sério, estou indo por um péssimo caminho.

Sem títuloNo começo de Outubro, terminei o primeiro quadro da nova série. Apelidado de "A Casa na Colina", mas oficialmente sem título, foi a tentativa de transformar uma tela que eu não conseguia continuar mas não queria jogar fora em algo útil. O resultado me satisfez, embora eu já tenha me dado conta de como poderia ter feito uma pintura ainda melhor. No fim das contas, ficou um quadro gostoso. E eu ainda fiz um vídeo da evolução dele.
O resto do mês de Outubro foi algo de um desperdício benéfico. Pois embora eu não tenha cumprido a promessa de uma obra por mês, tive muitos trabalhos como freelancer e ganhei uma considerável quantidade de dinheiro. Ah, se todos os meses fossem tão produtivos nesse aspecto...
De fato, eu tinha planos para a próxima obra em Outubro, um objeto em vez de uma pintura. Mas não tive coragem. Sabe, esta primeira pintura que fiz lidava com um dos três aspectos que hoje eu identifico da questão masculista: o sentimento de inferioridade do homem atual em relação à mulher atual. Os outros dois aspectos são a ausência da figura do pai/mestre e o uso do sexo como mecanismo de controle do homem. Meu objeto de Outubro tinha a ver com este último. Mas então lembrei de outros trabalhos que fiz que lidavam com sexualidade tão abertamente, e de como no fim acabavam sendo obras vazias, desnecessariamente chocantes e muito frustrantes. Trastes que hoje perambulam o ateliê embalados e cobertos para sempre porque meu pudor não me permite mostrar. Não acho que seja o caso desta obra, mas estou sendo prudente. Ainda estou me acostumando com a idéia. Se eu achar que passou tempo suficiente e ainda não me envergonhei dela, voltarei a entreter a idéia de produzir a peça.
Agora em Novembro, a brincadeira vai tomar outros rumos. A idéia seria produzir algo baseado no terceiro aspecto, a ausência do mestre/pai. Mas em conversas produtivas com o Marco Guerra, um professor de história da arte amigo de minha avó, surgiu outra idéia interessante que talvez renda as minhas primeiras exposições realmente relevantes. Ele interessou-se pelos meus retratos da época da faculdade e sugeriu que eu fizesse retratos dos meus avos, importantes figuras do teatro nacional e principalmente do surgimento do TBC (Teatro Brasileiro de Comédia). A sugestão não poderia vir em melhor hora. Lexy está pesquisando o TBC para seu trabalho de graduação e estamos descobrindo farto material a respeito daquela época.
Assim que resolvi tomar a idéia do professor Guerra e jogar do meu jeito. Peguei os últimos dias de Outubro que me restavam para fazer pesquisa com minha avó, procurando peças relevantes, atrizes fortes e diretores que fizeram história naquela época. E ontem comecei a produção das primeiras duas pinturas dessa série. Todas explorando atrizes do TBC em peças que lhes proporcionaram personagens femininas fortes como as mulheres pós-Feminismo. As imagens de referência são do fotógrafo Fredi Kleeman, que acompanhou o surgimento do TBC, fotografando os primeiros ensaios e as apresentações históricas.
O professor diz que, se eu conseguir produzir essas obras até o começo do ano que vem, poderia me arranjar uma exposição em uma galeria na Augusta. A idéia muito me interessa. Mas ainda que isso não aconteça, seria a forma perfeita de abordar o pessoal do teatro do meu avô e organizar uma exposição por lá. Tenho certeza que isso chamaria alguma atenção. Pelo assunto, pela relação dos avós e do neto, e quem sabe até pela qualidade das obras.

domingo, outubro 11, 2009

Educação Artística

Soube recentemente que o Ministério da Educação andou promovendo reformas no ensino de arte nas escolas. Dentre outras coisas, tornou obrigatório a partir do ano que vem o ensino de música nas escolas de Ensino Fundamental. Achei até que a medida foi tardia. Em outros países onde estive, a música é parte obrigatória do programa de qualquer escola. Aprendi a tocar aquela odiosa flauta doce quando criança por causa disso. Embora tenha esquecido quase tudo do instrumento assim que saí daquele colégio em outro país, as noções de canto me acompanham pela vida toda e facilitaram o episódio da banda de rock que tive em 2007. Mas não é apenas isso, me deram uma noção de música, de composição e de compositores.
De volta à terra natal, tive aulas de educação artística no restante do Ensino Fundamental. Eram aulas de qualidade questionável. Embora ensinassem o desenho de perspectiva, coisa que eu veria novamente no curso de desenho que fiz na adolescência e uma terceira vez quando entrei para a faculdade de arte, o resto de seu conteúdo era praticamente irrelevante. Por exemplo, passamos um semestre vendo o Futurismo, um movimento das vanguardas do século XX que não chega a ser mais do que uma nota de rodapé nos livros de história da arte sobre a época e pouco nos ensinou das importantes mudanças de pensamento que ocorreram nas primeiras décadas do século. Não é de se espantar que o colégio onde estudei fosse notório pela quantidade de alunos que saíam de lá para entrar em faculdades de engenharia e que as estatísticas apontasse pouquíssimos alunos interessados pelos cursos superiores de artes plásticas.
Mas o ensino deficitário de arte na adolescência tem outras consequências visíveis na população do país. Estive conversando com Marília "Bombom" Jardim, uma performance artist conhecida da Lexy que acabou virando boa amiga e colaboradora em projetos de arte. Discutímos recentemente sobre a situação dos colecionadores de arte na cidade e do que de fato chega ao mercado. Obras que na maioria das vezes têm um apelo pop ou decorativo, produzidas por artistas que não estão realmente interessados em fazer qualquer ligação com a história da arte, compradas por gente endinheirada que nada entende do que está comprando e escolhe de acordo com a reputação do artista ou o quanto a obra vai combinar com a sala de estar. Poucos são os colecionadores que de fato entendem de arte: uma elite cultural. Poucos também são os artistas, depois desse tempo todo em que o MEC menosprezou o ensino de arte nas escolas. Bombom parece ser uma pessoa com boa formação artística em colégio construtivista, que sabe o que está fazendo e como aquilo se enquadra na história. De minha parte, tenho que me admitir fruto do colégio onde estudei, e confessar que talvez ainda esteja pensando na minha produção como algo isolado da história, como o fazem todos os outros pintores da minha geração. Afinal, nossas técnicas são centenárias e voltam aos resultados vistos antes dessas décadas de abstração e negação da pintura de cavalete. Na verdade, sequer consideramos muito do que se passou na arte das últimas décadas quando escolhemos o bom e velho óleo sobre tela. Sei que no futuro chamarão este momento de uma espécie de "retorno à ordem e à técnica". Concordo, mas não deixa de ser justamente um retorno, uma espécie de retrocesso.

Voltado à questão dos Ensino Fundamental, passei no meu antigo colégio esta semana. Conversei com professores e com o diretor para ter uma noção do que é preciso para tornar-me um professor de artes do colégio. E fiquei sinceramente maravilhado com o modo como as determinações do MEC mudaram o ensino de arte por lá. O curso agora é bem prático, ensinando desenho, depois pintura, e então fotografia e vídeo nos últimos anos. Os alunos fazem. Não apenas isso, encontrei nos trabalhos que vi, referências a artistas desde Da Vinci até Andy Warhol, e técnicas tão alternativas para crianças quanto a xilogravura, que só fui conhecer no segundo ano da faculdade.
Régis, o coordenador do curso, me conta que alguns vetibulares já estão perguntando até sobre os metaesquemas do Hélio Oiticica, como aconteceu na última prova do recém-criado curso de direito da FGV. Claro: crie essa necessidade no vestibular e todos os colégios passarão a ensinar a matéria.
O assunto todo me deixou interessado: com essa nova determinação do MEC, a demanda por professores de arte vai crescer. É aí que eu entro: já estou pesquisando como e onde fazer a licenciatura...

terça-feira, setembro 29, 2009

Finalmente terminei o pequeno livro sobre pós-modernismo da Eleanor Hartney. Demorei porque passei muito tempo em um capítulo sobre o feminismo no pós-modernismo, querendo esmiuçar todos os detalhes.

Como já expliquei por aqui, as primeiras feministas na arte criavam obras que apresentavam os aspectos da mulher como natureza, corpo e emoção, tentando transformar esses assuntos de críticas e formas de dominação em qualidades boas a serem louvadas. As feministas subsequentes argumentaram que ao fazer isso, elas estavam afirmando as noções de feminino determinadas pela sociedade patriarcal. Então essa nova geração de feministas, do pós-moderno, centraram sua pesquisa mais na iconoclastia, em destruir a forma como a noção do feminino é socialmente construída. Destruir a representação (um dos objetivos-chave do pós-modernismo).
O mesmo tipo de raciocínio é aplicado ao multiculturalismo, onde culturas estrangeiras diferentes da cultural do homem branco ocidental eram relacionadas ao espiritual e ao instintivo, sendo tão ilógicas para a sociedade ocidental quanto o universo feminino. O multiculturalismo pós-moderno procurava também desconstruir essas noções, e em vez de procurar uma volta e validação das tradições raciais, procurava questionar o porquê da superioridade do homem branco ocidental e da inferioridade das outras raças e crenças.

Ao ler tudo isso, imaginei que o mesmo tipo de erro pode e deve ser cometido pelo Masculismo. Acho importante, porque faz parte do processo. Que a primeira fase da pesquisa seja mesmo de reafirmar os valores anteriores do masculino, para depois partir disso e buscar algo mais pós-moderno, novo e autêntico. Por isso talvez seja preciso revisitar o homem de 1950 ou mesmo o anterior, medieval, bárbaro. Para entender o que era valioso nele e que foi perdido, e o que de fato não serve mais. Voltar inicialmente so estereótipo do homem caçador, conquistador, paterno e monárquico.
Depois disso, vamos lidar com a iconoclastia, com a questão das armadilhas sociais e noções socialmente construídas do que deve ser um homem.

Minha produção de ateliê, imagino, está indo por outros caminhos. Já planejo para este próximo mês algo que seria mais próximo dessa segunda fase. Mas de qualquer jeito, é bom ter isso em mente para organizar a produção quando eu finalmente tiver coisas suficientes para expor.

segunda-feira, setembro 28, 2009

And so comes the Dawn

Comemoremos! Aurora nasceu!

Certa vez, quando nasceu um dos filhos do pessoal na fazenda de minha avó, meu pai passou para visitar o recém-nascido. A caminho do lugar, encontrou um dos senhores que trabalhava por lá que disse-lhe, com aquele tipo de sabedoria surpreendente da roça, que ele ia conhecer alguém pela primeira vez. Meu pai ficou surpreso com a veracidade da frase. De fato, ele ia conhecer uma pessoa nova, uma nova consciência, que ele desconhecia antes não só pelo fato de que nunca havia visto a pessoa, mas porque ela de fato não existia. Era uma nova pessoa com mentalidade e decisões próprias.

Sinto uma espécie similar de epifania escrevendo o nome dela pela primeira vez em negrito por aqui, como o faço com outros nomes próprios. Aurora já existe no meu blog, como pessoa e não mais apenas como promessa.

Parabéns, mocinha!

sexta-feira, setembro 11, 2009

O quadro da casa na colina prossegue.

Ocorre-me que ainda não lhe dei um título. Me ensinaram na faculdade que dar aqueles titulos redundantes é feio (uma natureza morta com uma maçã e um vaso entitulada "natureza morta com maçã e vaso"...). Afinal, os títulos deveriam agregar um dado extra à pintura, não simplesmente ser mais do mesmo.
Desenterrei alguns livros antigos de pintura que "herd(roub)ei" das minhas tias do nordeste onde lembrava ter visto dicas sobre pintura de árvores. Achei algumas coisas bem relevantes e desbravei as florestas traumatizantes do quadro. Os resultados me agradam muito. Hoje terminei o gramado. Só falta fazer uma reforma na casa (quem dera reformas fossem tão rápidas quanto uma pintura...) e pronto, o quadro estará pronto para a parte mais legal: pessoas!
Vou retomar minha pesquisa de onde eu parei, na idéia da mulher enorme sendo desejada pelo garotinho [1]. Por enquanto, é a representação mais adequada que tenho da situação masculina hoje.

Lendo sobre o Feminismo naquele livro sobre pós-moderno da Eleanor Hartney, li uma parte que comentava sobre a Primeira Onda do Feminismo na arte, onde as artistas focavam nos aspectos femininos da gravidez e menstruação, na mulher como deusa. Não poupavam imagens de nudez feminina para representar isso. As feministas da geração seguinte criticaram essa postura, porque ainda apresentava a mulher de acordo com parâmetros da sociedade patriarcal: mulher como corpo, mulher como objeto de desejo. As artistas dessa segunda geração procuravam uma arte que não sensualizasse a mulher.
Daí comecei a pensar que, se eu colocasse a gigantesca mulher dessa pintura nua, estaria sendo meio retrógrado. Porém a idéia de vesti-la encontrava duas resistências: primeiro o meu gosto pela nudez em pintura (mesmo que isto seja de fato uma atitude machista retrógrada...), e depois a questão de com que roupa vestir a mulher.

Ainda não resolvi o assunto. Espero estar decidido até terminar de reformar a casa. Voltando do ateliê, ocorreu-me que também estaria ilustrando o rapaz nu. De certa forma, isso nega a configuração machista da mulher aparecer sempre nua e o homem sempre vestido. Mas talvez isso seja apenas eu tentando achar uma justificativa pra ter gente pelada na pintura e me livrar do incômodo de ilustrar roupas...

segunda-feira, setembro 07, 2009

Rearranjo conceitual

Há algum tempo, fui assistir a peça "Os Sete". Eu a recomendaria, se não tivesse sido a última apresentação por falta de patrocínio...
Escondida sob a trama da peça estava a história da Branca de Neve. A peça tinha sete homens assassinados para que uma personagem conseguisse sete ingredientes de uma poção, tinha a lendária maçã, qualquer coisa relacionada a espelhos, velhice e beleza.
Na verdade, o que o autor fez foi um processo muito legal e em voga na arte contemporânea (seja literária, musical, plástica ou teatral), que eu acabo chamando de rearranjo conceitual. Seria mais fácil explicá-lo com imagens, mas tentarei fazer isso por escrito...
Neste caso específico, ele pega um assunto como a história da Branca de Neve e elenca a maior quantidade possível de conceitos relacionados a ele (espelho, beleza, maçã, o número 7, etc...). Depois rearranja as combinações, e principalmente a hierarquia de importância entre os conceitos. No caso da peça, o número 7 que era um detalhe da história original, passou a ser até o título da obra.
A estratégia tem forte ar de contemporaneidade. Estamos em uma época onde linearidade é quase um pecado. Depois da internet, não procuramos mais informação de forma linear. Depois dos ARGs, o nosso entretenimento não é mais linear. Depois de filmes como Magnolia, Mulholland Drive e 21 Grams, nosso modo de contar histórias não é mais linear. Em todos os casos, os conceitos isolados são apresentados a esmo e o público só tem a noção do todo quando conseguir fazer a conexão (não-linear) entre as partes.
Outros exemplos de rearranjo conceitual já passaram por aqui. The Path, o jogo da Chapeuzinho Vermelho, até fazia questão de continuar no âmbito das histórias infantis.

Experimente! É um processo relativamente simples de brainstorming criativo e dá resultados ótimos. Pra quem continua achando que sensibilidade artística não é outro tipo de lógica.

Sensibilidade e disciplina

Levei uma semana para fazer as últimas organizações e limpeza do ateliê e voltar a produzir. Na sexta, quando cheguei à casa de minha avó, ela estava revendo fotos à procura de alguma coisa mais atual de mim e do meu irmão, já que as últimas fotos que tinha eram de épocas em que nenhum de nós ainda tinha decidido cultivar barba. A última foto que tinha de mim devia ser de 2002 ou 2003. Eu estou dentro do ateliê e ele ainda é muito precário. Meio ateliê, meio quarto de depósito, minhas pinturas dividem espaço com tapetes velhos, luminárias e outras coisas espalhadas no chão de madeira. Há muito pó e muita sujeira em tudo. No cavalete, o retrato da Nana está sendo copiado para ser dado a ela como presente de aniversário. Hoje, o quarto já é quase totalmente um ateliê, abrigando apenas um ou outro ítem de memorabília de minha avó. O chão de madeira foi trocado por um de azulejo mais fácil de limpar e branco para melhorar as condições de iluminação. As telas foram cuidadosamente colocadas em um teleiro depois que perdi uma ou outra por descuidos de estocagem e tudo é muito limpo (na medida do possível). Teria orgulho hoje de receber outros artistas no meu ateliê. Acima de tudo, virou um lugar de disciplina. Tudo tem seu lugar e nada deixa seu posto a menos que seja usado. Depois é guardado prontamente. A disciplina só não é completa, porque ainda não consegui estabelecer uma rotina de horário, dar a importância devida ao ato de bater ponto lá em determinada hora e produzir até o fim do dia. Gastei um pouco do tempo desta semana indo atrás de material e últimas coisas que faltavam no ateliê. Mas convenhamos, só tive uma semana disso... Ainda leva algum tempo.
Na fila de produção, resolvi começar desatravancando trabalhos antigos nos quais eu empaquei. O quadro que fazia parte do tríptico para a sala de casa, que parou depois que Bia criticou o modo como eu estava pintando a floresta, vai virar a primeira obra desta nova fase, dentro das premissas da pesquisa masculista. O retrato de Lexy vai receber a chapa de acrílico final com uma brincadeira a mais. E já estou quase terminando a caixa de chá pintada com a Alice que devo de presente à Lexy. Metas de Setembro.

Uma obra por mês. No mínimo. Sempre masculista.

Em conversas recentes com parentes e amigos, surgiu de novo o assunto da sensibilidade. Como sempre pareceu muito estranho para muita gente que eu tivesse essa obssessão espartana por ordem e disciplina e ao mesmo tempo a sensibilidade de um artista plástico. Meu pai, especificamente, não entendia como podía fazer parte da minha estratégia me isolar em outro país por um ano para "sentar a bunda na cadeira e produzir". Não entendia como arte podía ser essa atividade com hora marcada, quase mecânica.
Outro das séries de estereótipos ligados à carreira de artes plásticas é isso de que você vai viver uma vida totalmente dionisíaca e não-cartesiana, onde sua produção vai depender de uma inspiração de momento, imprevisível e soberana, sem a qual você não pode começar a produzir. Minha observação do pessoal do 2000e8 sugere exatamente o contrário. Eles produzem disciplinada e constantemente. A inspiração não define a obra específica ou o começo da produção, mas sim a série inteira de obras. Eles produzem sobre a mesma idéia, dia após dia, até esse lendário momento de inspiração fugaz trazer a próxima grande idéia. E daí começam uma série nova. Pode ser amanhã, pode ser no ano que vem. Mas enquanto essa idéia não vem, eles continuam produzindo sobre a mesma idéia. Só assim garantem um volume de trabalho suficiente para serem artistas comercializáveis.

A sensibilidade não é nada além de outro tipo de lógica.
Uma lógica de escolhas baseada na intuição, que por sua vez é baseada na experiência. Já fiz determinadas coisas tantas vezes, já juntei determinadas cores tantas vezes, que passo a ter uma memória inconsciente do que dá certo ou não. Alguns acham que isso é sensibilidade inata com as cores, com sabores, com palavras; mas é experiência.

Há menos magia na sensibilidade artística do que se pensa ou se admite.

terça-feira, agosto 18, 2009

Quinta passada.
Em um restaurante na Oscar Freire, almocei tendo por compania o Marcos Brias e a Regina Parra, ambos do atualmente desmantelado grupo 2000e8. Brias foi o que se poderia considerar o intelectual do grupo, seus trabalhos sempre baseados em muito recheio literário e suas concepções de uma densidade brutal. Regina foi, dentro do grupo, a pintora com cujo trabalho eu mais simpatizei, por ela também fazer ilustrações fortemente baseadas em fotografias (embora as dela tenham uma teoria muito mais interessante do que as minhas) e pelo nosso interesse comum por artistas como o Gerhard Richter.
O convite fora extendido a todos os participantes do grupo, embora eu tivesse mais proximidade com o Brias. De qualquer jeito, fiquei feliz que pelo menos alguém me respondeu, já que na minha carreira abandonada de publicidade, conseguir o privilégio de conversas relevantes com profissionais de peso era uma utopia.
O motivo do convite: uma conversa informal e não-mediada sobre o que de fato é ter uma carreira de artes plásticas. Não era minha primeira tentativa de abordar um artista plástico para saber dos segredos da profissão. Mas minhas tentativas com a geração mais velha resultaram naquela conversa de "pai pra filho", onde o pai dá respostas vagas do tipo "é complicado..." e diz que você "vai entender um dia". Ou aquelas respostas esotéricas e cheias de termos blasê ("essa coisa de dinheiro é uma falácia do mundo capitalista ocidental pós-industrializado modernista greenberguiano pré-1968"). Imaginei que ao menos, com a geração mais próxima da minha idade, eu poderia conseguir alguns conselhos práticos.
Foi uma espécie de validação saber que eles tiveram trajetórias parecidas com o meu caso atual, começando a trabalhar em outros assuntos e depois desistindo de tudo para seguir as artes. Brias de fato trabalhou com editoração, um assunto não tão distante da publicidade. Mas hoje, ambos dizem viver de suas pinturas. Não estão tão bem quanto o Rodolpho Parigi [1][2] mas pagam suas contas (caras) com sua arte. Estou prestes a jogar na mesa o assunto do Masculismo quando Brias antecipa a conclusão: no caso da Regina, casada, pagar as contas não é tão doloroso. Continuo com a opinião controversa de que essa carreira é mais complacente com mulheres por causa de seus maridos.

No meio do almoço, já estamos no cerne do assunto. Minha primeira pergunta e uma das minhas maiores curiosidades: quanto tempo passam no ateliê? A resposta me faz começar a entender por onde seguir. Obviamente cada um tem seu tempo de ateliê, mas a disciplina é fundamental. Estar no ateliê com a mesma tenacidade com que se comparece a uma empresa. Horário, pontualidade, eficiência no gasto de tempo. A primeira conclusão que eles me dão é que o coração dessa carreira é produzir. Produzir muito, todos os dias, o tempo todo. Eu, é claro, ainda estou bem longe disso. O último quadro que (quase) terminei foi o retrato de Lexy no ano passado. E preciso remediar isso. Antes que alguma empresa me ofereça um salário que eu não posso recusar.
Regina interrompe a conversa para pedir nossa opinião sobre quadros para uma exposição que ela está montando. E me conta que em vésperas de exposição, chega ao ateliê de manhã e só sai às 20:00. Em dias normais, seu horário começa às 14:00. Fico imaginando que eu poderia facilmente me acostumar a uma rotina assim. Ambos me contam que a Ana Elisa Egreja, outra do grupo, passa horas e até noites no ateliê, para produzir suas enormes pinturas cheias de padrões de tecido.
Essa primeira etapa de estabelecer a produção me parece a mais complicada. Como sobreviver e se sustentar enquanto isso acontece? Aulas de inglês, como falei, tomam um tempo absurdo e não pagam nem perto do suficiente. O jeito e manter um stiff upper lip e enfrentar de frente mesmo.
Estabelecida a produção, outras coisas acontecem simultaneamente. A primeira leva da produção já pode ser inscrita em salões de arte. O objetivo é mais rechear o currículo do que ganhar os prêmios, embora uma vitória dessas também garanta um bom fôlego financeiro. Enquanto isso, o comparecimento às vernissages e o networking são fundamentais. É daí que saem as primeiras visitas ao ateliê e contatos de galeria. E eventualmente, as primeiras vendas. Não é fácil... Mas é o caminho, sem segredos, sem respostas paternalistas ou esotéricas.
Regina ainda comenta que em suas primeiras vendas, gastou todo o dinheiro, achando ter faturado uma nota. Grande erro: na seca até sua próxima venda, passou apertos financeiros e aprendeu a poupar.
É claro que não dá pra prever quanto tempo leva tudo isso. Há uma boa dose de gente me dizendo que eu ainda sou jovem aos 27 anos, mas não me sinto assim. Sinto os cinco anos desde que saí da faculdade e deixei as chances de lá morrerem. Eles me tranquilizam reiterando que o mestrado é uma ótima idéia. Voltar à academia e às oportunidades que ela gera, desta vez com consciência para aproveitar.

Quando pego o ônibus de volta para casa, sinto que estou no caminho certo também na carreira. Claro, ainda há MUITO para caminhar. E o mês que vem vai ser duro, voltando ao ateliê e estabelecendo a rotina. Mas pelo menos já não estou mais à deriva. Estou em terra firme, com estrada seguindo adiante.

Toda jornada começa com um passo. Keep Edgewalking...

quarta-feira, agosto 12, 2009

Dois meses depois

Já fazem dois meses que pedi minha demissão da agência. E mais ou menos um mês que cumpri meu aviso prévio e larguei a carreira. Mas o fato é que continuo flertando com a publicidade, à espera de alguém ou alguma empresa que pague o que eu acredito ser o meu valor. O plano passou a ser este: encontrar uma empresa que me pague o suficiente e de preferência agregue um nome relevante ao meu currículo, e continuar tentando ser um artista plástico enquanto essa empresa não aparece. De um jeito ou de outro, saio da estagnação profisssional na qual tenho vivido pelos últimos quatro anos. Chega de agências pequenas, desconhecidas, pobres e sem nada a me oferecer além de "experiência".
Este primeiro mês de liberdade teve algo de semelhante à primeira semana que passei em Londres: um pavor, uma ansiedade frente a uma nova e desconhecida situação que me oferece muita informação e possibilidade de uma só vez e que eu não consigo organizar. Apesar da alegria de estar livre e das infinitas possibilidades, esse medo de perder oportunidades pela desorganização tingiu tudo de cores mais sóbrias.
Mas à medida que o mês foi passando, percebi que essa ansiedade tratava-se de outra coisa. Eu estava atolando em um mar de pequenices, detalhes e afazeres pontuais. Agora que eu estava livre e podia dispor de todo meu dia, cismei em resolver essas pendências, zerar a vida. Coisas como concertar a luz queimada do carro, enquadrar uma foto que eu ia dar de presente, dar um jeito na papelada na minha mesa. Pequenices a serem resolvidas rapidinho, mas que tiram o foco dos meus objetivos a médio prazo. Objetivos como voltar a ser produtivo, voltar a ter a disciplina para ser um artista plástico. Mas uma vez que isso ficou claro, passei a dar o tempo certo a essas pequenices e voltar a me concentrar no que de fato importava: reaprender a me concentrar, a vencer a preguiça, começar a trabalhar rápido e manter o ritmo durante o dia e a organizar meus ambientes de trabalho para que o dia seja eficiente. As pequenices serão resolvidas aos poucos. A verdade é que sempre haverá pequenices.
Com o fim desse segundo mês de desemprego, já começo a ver alguns resultados [1][2][3]. Ando participando de alguns concursos de ilustração para livros infantis (um deles um concurso mexicano que me obriga deliciosamente a reaprender a escrever em espanhol). Não são grandes obras de arte e ainda não acredito que vá ganhar alguma coisa, mas é um começo, um exercício de concentração e disciplina. E é muito bom voltar a me sentir produtivo naquilo que eu considero relevante. Mês que vem, pretendo estabelecer alguma rotina no ateliê e voltar a pintar. Desta vez com algum propósito e não apenas por hobby. Enquanto isso, ando conversando com artistas plásticos e tentando descobrir a teoria do que é de fato ter uma carreira em arte.

As noites atualmente são divididas entre aulas de inglês e o circo. As aulas são a minha única fonte de renda por enquanto, mas são uma clara armadilha: gasto quatro horas do dia entre preparar a aula, ir até a escola, lecionar e voltar para casa. No entanto, o pagamento por essas quatro horas é o que eu esperaria ganhar por uma hora de trabalho. E são tão poucas as aulas que provavelmente só vão pagar minha mensalidade do circo. Mas enfim, o inglês é assunto para outro post, outro dia.

Pensando bem a respeito dessa época, sou tomado de uma sensação muito prazerosa de estar fazendo as coisas das quais gosto e vivendo o tipo de vida que eu gostaria de viver. Uma vida na qual os dias são passados em meio a desenhos e outras atividades artísticas, o tempo é meu para dispor dele como eu quiser, aproveito o circo enquanto minha juventude ainda permite, e ainda convivo com meus vários idiomas de uma forma que me remete à Europa (a propósito, Tullio Seppilli [1][2] esteve aqui e conversamos bastante em italiano, completando minha lista de idiomas usados recentemente...). Ou seja, ando vivendo uma espécie de sonho, uma imersão em felicidade pessoal. Mas a questão do dinheiro para o meu sustento continua a me assombrar like the elephant in the room (algo obvio que todo mundo está vendo, mas ninguém quer falar a respeito). É um demônio que eu ainda não sei como enfrentar.

Como vou transformar esta rotina deliciosa em algo rentável?

quinta-feira, agosto 06, 2009

The Slow Movement

Outra coisa interessante da B-Coolt desta semana foi o Slow Movement. A B-Coolt cita que o movimento nasceu em Roma, mas o sobrenome dos criadores do site, todos da família Claridge, aponta para os Estados Unidos.
O Slow Movement promove o que se conhece como downshifting, algo como "reduzir a marcha" da sua vida. Na sua argumentação, dizem que a pressa com a qual se vive nas grandes cidades tem efeitos negativos que vão além do impacto na saúde. A vida de metrópole nos faz pessoas sempre apressadas, impacientes, intolerantes e atrasadas para o próximo compromisso. A tendência se reflete na incapacidade que algumas pessoas têm por exemplo ao ler grandes quantidades de texto: desistem no começo se o texto não for logo ao assunto, porque sentem que ler tudo aquilo é perder um tempo que eles não têm. Refeições são outro ótimo exemplo: a uma hora que teríamos para o almoço durante a semana é encurtada, dividida com a ida ao banco ou à academia, e acabamos comendo sem prazer, sem aproveitar a conversa com o amigo, sem livro. Ou seja, não nos permitimos tempo para saborear um bom livro, um bom vinho, uma compania e aquela sensação de vida sem graça, sem tempero, sem cor, acaba virando reclamação recorrente. Mas o principal efeito negativo desse estilo de vida apontado pelo site é a perda da conexão com as coisas, com a comunidade. Faz-me pensar nas quesões do Iron John do Robert Bly de novo. A falta de mentores, de figuras paternas, porque todos eles estão correndo demais, atrasados demais.
Detalhe interessante mencionado no site é o papel da tecnologia nesse ritmo frenético. Aparelhos que foram vendidos como soluções para reduzir o tempo e o esforço das obrigações domésticas para que tivéssemos "mais tempo para curtir a vida" acabaram gerando mais tempo para ser preenchido por obrigações e pela correria por dinheiro, já que a mecanização das atividades também lhes reduziu o valor. Vide o artefinalista das antigas agências, que precisava de destreza manual e experiência e foi substituído por qualquer pivete assistente de arte que ganha um terço do salário e faz tudo no computador. O tempo para curtir a vida é hoje gasto no segundo ou terceiro emprego simultaneo porque só um não paga o suficiente.
Curiosamente, a seção da página denominada Slow Money, que trataria de como ganhar o sustento nessa filosofia de vida mais lenta, ainda está em construção. Mas é minha principal dúvida a respeito. É possível diminuir a correria e ainda ganhar o equivalente à pessoa que corre o dia inteiro entre três empregos?

Já fazem 20 dias que saí do meu emprego na agência. Ainda apareço por lá de manhã, para trabalhar como freelancer e ganhar alguns trocados, mas não tenho obrigação e saio pontualmente no horário do almoço. Mas nesses primeiros 20 dias, senti como eu mesmo estava impregnado dessa inércia veloz e terrível apontada pelo Slow Movement. Tardes inteiras que eu podia usar para meus próprios assuntos, mas que passavam desperdiçadas naquela angústia amnésica de achar que eu precisava estar em outro lugar, fazendo outra coisa muito mais relevante, mas sem saber onde ou o quê. O mal deste ritmo é a completa falta de foco. Sei que tenho trezentas coisas e oportunidades, mas não me permito tempo suficiente para focar em uma antes que outra me pareça mais urgente. E no fim do dia, acabo não concluíndo nada. Achei que resolveria todas as pequenices da vida nesse tempo livre das tardes, mas ainda não me acostumei a como priorizar e dar foco às coisas por causa dessa sensação de urgência.
No começo desse mês, resolvi mudar o ritmo. Tenho dedicado minhas tardes a concursos de ilustração. Às vezes, a sensação de estar em casa a tarde toda escrevendo ou desenhando para algum deles me bate como uma irresponsabilidade, vagabundagem. Mas resisto pensando que não tenho outra responsabilidade no momento além desta, e que desenvolver essa capacidade de foco faz parte de desenvolver uma carreira independente.
Ainda me preocupo (e muito) com o dinheiro, com ganhar o suficiente para pagar minhas poucas contas e ainda economizar para Londres no ano que vem. E fazer isso sem me sujeitar de novo a empregos que me desrespeitam. Mas isso, apenas o passar dos meses dirá.

Tara McPherson


Segundo a B-Coolt desta semana, a artista californiana Tara McPherson vem à Galeria Choque Cultural como parte da turnê de divulgação de seu novo trabalho, o livro Lost Constellations.
Conheci o trabalho de Tara McPherson na SP Arte deste ano. Ela é a mais recente novidade da tendência artística que inclui gente do naipe do Mark Ryden, Trevor Brown e Dan May. São imagens com um forte apelo pop, cores fortes e limpas, formas sedutoras e muitas vezes referenciando ícones da cultura de massa. Mas ao mesmo tempo, os temas frequentemente fazem alusão a um certo mal estar do tempo, à melancolia e ao abuso. A influência do movimento Lowbrow (ou Surrealismo Pop) da Califórnia de 1970 me parece bem claro, embora eu ache que alguns desses artistas queiram negar as origens, porque o Lowbrow era um movimento com um teor cômico predominante e esses artistas atuais são mais depressivos. De qualquer forma, é uma tendência que eu estou seguindo com muito interesse e a sessão de autógrafos que acontece na noite deste sábado na Choque Cultural pode ser uma ótima oportunidade pra chegar mais perto.

segunda-feira, agosto 03, 2009

Interpretação de minha mãe

Minha mãe escreveu a sua interpretação de pesquisadora científica sobre a carta de Bouillier a Calle.

Rendeu boas discussões lá em casa.

Sentimento não se explica

Finalmente consegui visitar a exposição da Sophie Calle neste fim de semana. Estava viajando na abertura e passei o fim de semana anterior no Anima Mundi.

Admito que quando li a missiva enviada a Sophie pelo ex-namorado, julguei-o um canalha. A verdade é que toda a obra baseada nessa carta foi orquestrada para virar a mesa e transformá-lo em um canalha. O escrutínio do texto por todos os ângulos imagináveis é uma estratégia formidável para enfraquecer e inferiorizar um homem que tomou uma decisão muito sincera, mas que prejudica a artista.

Lexy foi a primeira a me surpreender quando saí da exposição. "Achei que ela [Calle] foi egoísta e covarde", ela me disse. Egoísta porque tirou proveito da situação sem pensar no prejuízo à imagem pública de Bouillier, o ex. Covarde porque, em vez de peitar a situação sozinha, ela conjurou um exército de mais de cem mulheres para ridicularizá-lo. A idéia da covardia de Calle já era apontada por uma de suas escolhidas, a escritora Christine Angot, que tentara escrever algo nos moldes das outras mulheres, inferiorizando Bouillier, mas depois de várias tentativas, percebeu que não concordava totalmente com esse ponto de vista. Em seu texto final, mencionava que as mulheres se juntaram como tantas outras mulheres se juntavam em torno de fins de relacionamento, para ridicularizar os homens e "transformá-los em mulheres". Havia uma verdade nessa constatação que eu ainda tinha dificuldade em verbalizar.
Saíndo de SESC, Lexy me dizia que a convivência comigo e com esses conceitos do Masculismo já estavam mudando seu jeito de ver essas coisas. Fiquei muito contente com isso! Ela dizia que começava a perceber como os homens eram vítimas de determinadas situações amorosas. Em um comentário que deixei no blog da Maíra, mencionei o estereótipo que existe nos fins de relacionamento, que dita que o homem está sempre errado e a mulher é sempre a vítima (excetuando casos de traição, naturalmente).
A armadilha é muito simples e, no caso de Bouillier, ele caiu nela sozinho e sem qualquer influência ou esforço de Calle, como muitos o fazem. Consiste em achar que ele tem que explicar os porquês de um sentimento ter acabado. O sentimento acabou. Ponto. Não tem que explicar. Qualquer tentativa de explicar sentimentos com lógica é imbecil e imatura. É vulnerável ao tipo de ridicularização que acaba acontecendo na obra de Calle. Se ele tivesse dito apenas isso, "o sentimento acabou", ela não teria como humilhá-lo. Seria honesto, maduro e direto ao assunto. Em vez disso, ele tenta dar razões, se enrola, fica confuso. É um escritor, mas escreve um texto cheio de erros gramaticais e redundâncias, porque não consegue ter a coragem de ser direto.
Homem hoje não tem mais coragem de ser direto, porque tem medo de que isso seja interpretado como insensibilidade e machismo. Ele pisa em ovos o tempo todo sob a premissa de "respeitar as mulheres", mas acaba caíndo nessas armadilhas e se desrespeitando.

Explicar um sentimento é sempre um ato suicida para o qual os homens caminham cegamente. Já caí milhares de vezes na pergunta "por que você me ama?". As explicações que dei faziam perfeito sentido para mim. Me satisfaziam de verdade. Elas sempre as acharam insuficientes, como um sentimento que eu poderia ter por uma boa amiga, ou como prova de que eu pensava nelas como objetos, esse tipo de coisa. Um bom "porque sim" não teria explicado nada e seria bem menos poético, mas teria acabado a discussão. Os homens, via de regra, não perguntam. Ou se contentam com explicações vagas e ilógicas, com os "porque sim".

sexta-feira, julho 31, 2009

Recusado

A quem interessar, recebi a resposta da bolsa para o meu mestrado em Londres:

[...]we regret to inform you that your application was not successful on this occasion.

Feliz ou infelizmente, parece que ficarei aqui mais um ano tentando conseguir dinheiro para essa aventura. Estou tentando colocar as coisas em perspectiva, apesar da tristeza. Tentando me convencer de que ficar por aqui terá seus prazeres. Fico para ver o nascimento de Aurora em Outubro. Fico para aprender a ser um artista de verdade, aprender a me organizar e produzir agora que saí da publicidade. Fico para aprender a sobreviver. Fico para ver a formatura da Lexy no ano que vem.

sexta-feira, julho 24, 2009

Patrícia Piccinini

Há um truque simples porém muito eficaz na arte moderna que consiste em trabalhar com conceitos específicos isolados de seus contextos. A artista australiana Patrícia Piccinini entende bem do assunto. Interessada por assuntos de bioética e manipulação genética, ela participou da Bienal de Veneza em 2003 com algumas das suas criaturas mais orgânicas. São esculturas que lembram muito o trabalho de outro escultor hiperrealista contemporâneo, Ron Mueck. Mas as de Patrícia têm uma característica diferente: não são pessoas reais como as de Mueck. É como se ela tivesse escolhido apenas trabalhar com o conceito da pele, que figura no seu trabalho de uma forma perturbadoramente realista, com pintas, pelos, verrugas e todas as imperfeições randômicas de pessoas reais. Só que em vez de vesti-la em pessoas, ela deu-lhes as formas de seres estranhos, com suas próprias lógicas genéticas. Às vezes, como no Still Life with Stem Cells, as criaturas nem fazem sentido. São apenas orgânicas, com uma pele que respira. Todos os outros conceitos que poderiam ser atrelados a isso são evitados.
Piccinini levanta duas questões que muito me interessam e já tentei começar a escrever um daqueles meu contos que nunca termino a respeito (com a colaboração do Piero, um ótimo biólogo). Primeiramente, aquele assunto místico e indefinível: o que é vida? No conto que eu tentei escrever, chamado Fleshcraft, uma empresa de engenharia genética criava ferramentas e máquinas com partes orgânicas que precisavam de circulação e respiração ou morriam e o produto deixava de funcionar. Ao longo da história, as perguntas eram repetidas: esses objetos estão vivos? O que define a vida? A imagem que eu tinha em mente dos aparelhos era bem parecida com as formas em Still Life with Stem Cells ou as coisas do eXistenZ do David Cronenberg [1][2][3]
que são todos elementos que levantam essas questões sobre o orgânico.
A segunda questão levantada abertamente pelos trabalho da Patrícia Piccinini tem a ver com bioética. Como a nossa sociedade vai lidar com criaturas genéticamente projetadas do zero? Onde vai estar o limiar entre considerar aquilo uma forma de vida digna de respeito, uma máquina orgânica ou mesmo uma coisa com alma (outro assunto místico...)? E como estas respostas mudam a forma como nós pensamos sobre nós mesmos (afinal, não somos também até certo ponto máquinas orgânicas?)?

quarta-feira, julho 15, 2009

Dia Internacional do Homem

Nem eu sabia, mas hoje é o Dia Internacional do Homem por aqui. Digo "por aqui", porque segundo a ONU, UNESCO e outras fontes, o dia oficial é 19 de Novembro. A data foi inicialmente proposta pelo doutor Jerome Teelucksingh, de Trinidad e Tobago, com o objetivo de "melhorar a saúde dos homens (especialmente dos mais jovens), melhorar a relação entre gêneros, promover a igualdade entre gêneros e destacar papéis positivos de homens. É uma ocasião em que homens se reúnem para combater o sexismo e, ao mesmo tempo, celebrar suas conquistas e contribuições na comunidade, na famílias e no casamento, e na criação dos filhos."
Hoje a data de Novembro é oficialmente comemorada na Jamaica, Austrália, Índia, Estados Unidos, Cingapura, Reino Unido e Malta. Ainda não descobri porque comemoramos a ocasião em uma data diferente por aqui. Provavelmente pelo mesmo tipo de razão local que nos leva a comemorar o Dia dos Namorados em uma data diferente do resto do mundo.

A data, claro, levanta alguma polêmica. Alguns consideram que um Dia do Homem é desnecessário, sendo que supostamente todo dia é Dia do Homem e o Dia da Mulher é a única excessão. A discussão me faz lembrar da cômica "Parada do Orgulho Hetero" que acontece no dia seguinte à Parada Gay. Como se celebrar a escolha pela heterossexualidade fosse uma espécie de preconceito contra os homossexuais e celebrar o bom e o ruim de ter nascido homem fosse preconceito contra quem nasceu mulher.

O Dia Internacional do Homem é masculista antes de ser machista. Ainda que para muitos, incluindo alguns homens, a diferença não seja muito clara.

Termino o posto linkando para algumas coisas interessantes que achei recentemente sobre o assunto todo. Tenho que dizer que não concordo com todos os pontos de vista expostos neles, mas começar a discutir essas coisas já é um avanço. Qualquer opinião é bem vinda.
www.papodehomem.com.br
A nova geração de homens mimados (www.papodehomem.com.br) [1]
Why Men Earn More - The Startling Truth Behind the Pay Gap (Palestra de Warren Farrell no YouTube em 8 partes) [1][2][3][4][5][6][7][8]
A Gathering of Men (Robert Bly, autor do João de Ferro, sendo entrevistado pelo Bill Moyers) [1]

quinta-feira, julho 09, 2009

Sophie Calle no SESC

Começa nesse sábado a exposição da Sophie Calle no SESC Pompéia.

[Vergonha: apesar de ser grande fã do seu trabalho, ainda não sei como se pronuncia o sobrenome. "CallÉ"? "CallÊ"? "CAlli"? "Cal", com "e" muda?]

Estou xingando a organização da FLIP deste ano por continuar fazer um evento tão elitista que só vende ingressos para parentes e conhecidos dos organizadores e patrocinadores. Calle esteve no evento, onde reencontrou seu ex-amor,o escritor Grégoire Bouillier. Eles haviam terminado o relacionamento por uma carta dele anos atrás, que terminava com a expressão "cuide de você". A artista, incapaz de lidar com o enorme peso do rompimento, transformou-o em obra de arte, convidando 107 mulheres para ler e interpretar a carta, criando suas próprias expressões sobre o assunto. Bouillier, por sua vez, escreveu o livro O Convidado Surpresa, que acaba de ser publicado no Brasil, e faz referência ao ritual de Calle de convidar um número de pessoas igual à sua idade em cada festa de aniversário e pedir que alguém traga um convidade supresa para ela conhecer, representando o ano seguinte.
Os trabalho de Sophie Calle inspiram em mim tudo que eu não posso ser por causa das amarras sociais. Por causa das pessoas que se entristecem, enraivecem, brigam e reclamam toda vez que escrevo por aqui ou pinto alguma coisa que mostre o que realmente penso. Imagino que não teria tantos fantasmas de relacionamentos passados se me fosse permitido fazer de cada um deles uma pintura decente, mais que um mero retrato. E mais do que isso: se pudesse não ter medo de escrever, pintar e fotografar todos os detalhes perversos e doentios que eu, como todo mundo, tenho sobre meu relacionamento com os outros e sou educado a esconder. As obssessões, os desvios de personalidade, as imoralidades, as amoralidades. Depois de tanto tempo de blog e de arte, eu sei que essas coisas são superadas e ninguém briga pra sempre. Mas ainda me acovardo diante do desgaste emocional e do desperdício de tempo que elas causam. E principalmente diante da culpa que a tristeza e raiva dos outros me fazem sentir. Vale a pena passar por tudo isso pra viver uma vida mais verdadeira e poética? Quisera ter a coragem de levar tudo às últimas consequências como ela.

Já cheguei a comentar por aqui que uma das coisas que mais me interessam do trabalho de Calle é a visão que ela tem do carater catárdico da arte. Da capacidade que o status de arte tem de sublimar o aspecto negativo das perversões e da loucura, transformando-as em coisas respeitáveis, apreciáveis. Em vez da artista esconder seu hábito de stalkear pessoas e seu gosto por escarafunchar a intimidade dos outros, que normalmente seriam considerados desvios de carater, ela os transforma em performances, pesquisa de arte. E assim todo mundo acha lindo e se identifica. Porque no fundo, todo mundo tem um pouco disso mas não admite. É considerado menos doentio espiar a vida dos outros pelo Orkut do que segui-los pela rua no escuro da noite. Mas a rigor, os dois são a mesma coisa e todo mundo gostaria de fazer isso com esta ou aquela pessoa.

Comente. Me diga: quem você stalkearia para fazer um trabalho de arte?

A exposição Cuide de você acontece de 10 de Julho a 7 de Setembro de 2009, no SESC Pompéia (R. Clélia, 93. Pompéia, zona oeste. Tel. (11) 3871-7700). Entrada franca!

terça-feira, julho 07, 2009

Decapitator

A @perseph0ne lançou este no Twitter há alguns dias.

O Flickr do Decapitator mostra intervenções urbanas um pouco inusitadas com um forte teor de crítica contra a indústria da publicidade.
A técnica é simples: ele provavelmente fotografa mídia externa (outdoors, cartazes em pontos de ônibus, publicidade em shoppings), trata as imagens no Photoshop para decapitar alguma das pessoas retratadas da forma mais sangrenta possível, incluíndo o sangue espalhado nas outras pessoas da foto, e imprime a edição em folhas que são coladas por cima da imagem original.
Certamente é uma ação com mais raciocínio e sabor estético do que a pichação, o grafite tradicional ou até a arte de sticker, normalmente preocupados mais em marcar território do que ativamente questionar alguma coisa. E facilmente ganha a simpatia de pessoas que consideram a publicidade desnecessariamente apelativa, inpiradora dessa atitude de nariz empinado que diz "eu posso te tratar como lixo porque visto roupas mais caras ou tenho um celular com mais funções". Tem um gosto delicioso de vingança: a arte de rua atacando o design de grife com uma tirada de humor negro.
Tem ainda algumas sacadas pósmodernas: a apropriação sem dó ou consideração por direitos autorais de imagens da mídia de massa e a elevação de algo mundano para o status de arte por um gesto simples do artista.

Acho que não demora muito até ele ser abordado por uma Choque Cultural da vida e começar a de fato divulgar isso como arte.

[P.S.: a Lexy vai achar este daqui particularmente terrível...]

sexta-feira, julho 03, 2009

Ruffles sexista

Não pude deixar de colocar um comentário por aqui sobre a nova campanha da Ruffles.
Parece que eles desenvolveram um sabor para meninos e um sabor para meninas. O mais legal da página do Comunicadores sobre essa campanha são os comentários dos leitores. Um deles escreve (com toda a razão) que essa coisa de segmentar de acordo com o sexo é típica dos anos 80, como se a campanha fosse um gigantesco retrocesso.
Mas o mais revoltante da coisa toda é a forma como cada um dos comerciais de 30 segundos "analisa" cada um dos sexos. As meninas aparecem com aquela imagem de fúteis que pensam em sapatos, fofocas e gatos (ambos os animais: humanos e felinos...). Já os meninos são ainda mais estereotipadamente ridículos e pensam em uma única coisa: meninas. Preferencialmente de calcinha ou bikini. Se tivessem ao menos colocado futebol e videogames seria um pouco menos estereotipado, embora ainda terrivelmente simplista.
Outra questão também apontada pelos leitores do Comunicadores é o tiro no pé que a Ruffles dá segmentando um produto dirigido a uma faixa etária que já tem problemas suficientes com a definição de sua sexualidade para ficar paranóica com a escolha de um salgadinho. Já imaginou o coitado do moleque que tem um gosto mais vegetariano e adora o sabor cream cheese da Ruffles para meninas? Até que seria inspirador ver um rapaz não se importar com os amigos fazendo chacota de sua masculinidade por essa simples escolha, mas poucos adolescentes têm essa maturidade.

Concordando com o comentário do leitor do Comunicadores, eu já acho que o cerne dessa campanha é um tremendo pisar em ovos. Mas apenas como um relativamente polêmico exercício mental, lanço a pergunta: o que poderia ser considerada como uma análise mais realista e menos estereotipada de meninos e meninas?

segunda-feira, junho 29, 2009

GamePlay Itaú Cultural

O Papo de Artista noticiou a abertura da mostra GamePlay no Itaú Cultural. A mostra faz um panorama do que acontece no âmbito dos jogos atualmente, comdireito a concurso de programadores para desenvolver um jogo em 48 horas (GameJam), festival de músicas criadas com os sintetizadores de som dos games (GameMusic com musiquinhas pentelhas em midi) e mostra de curtas criados dentro dos jogos (os chamados Machinimas, como o famoso Red vs Blue), além de 44 consoles dos mais diversos tipos para os visitantes jogarem (ai, o vício tá começando a se manifestar...).

A exposição foi organizada pelo núcleo de pesquisa em meios digitais do Itaú, o Itaulab. Suspeito a participação de uma ex-professora minha de meios digitais que é uma pesquisadora de peso no país.

O que é muito interessante da exposição é que ela mostra que a equipe do Itaú passa a tratar os games com a mesma atenção que confere a outras mídias tradicionalmente consideradas como formas de arte respeitadas. É o game passando a ser considerado arte. Bom... pelo menos pelos expositores.

Agora cadê os alunos de faculdade de arte assumindo o papel de produtores dessa nova forma de arte? Por aqui, games ainda são produzidos pela galera de programação, com formatos bem tradicionais comos os jogos de plataforma, tiro e RPG. Nada do naipe de jogos abstratos como o russo Tetris ou ambientes como The Path e Endless Forest do estúdio belga Tale of Tales. Nada com mais profundidade do que a velha história de salvar a princesa e coletar 100 moedas. Nada com mais propósito do que um jogo comercial ou advergame. Alguém se habilita?

AHIGE

[dica da @perseph0ne]

Tá, vai parecer meio ridículo no começo...
Continuamos falando da Espanha. Li este artigo sobre a ONG espanhola AHIGE (Associação de Homens pela Igualdade de Gênero) que faz campanha pelo que eles chamam de "pariedade", a igualdade de gênero.
Com cursos sobre cuidados da casa, ela promove que os homens ajudem nos afazeres domésticos, dizendo que o machismo não é coisa de gente menos instruida, como muitos pensam. Tem muito homem culto que age com igualdade na rua, mas deixa todo o cuidado da casa e filhos nas mãos da mulher. A desculpa mais comum é a de não saber fazer essas coisas prosaicas como lavar e passar roupa, por exemplo. Os cursos oferecidos pela ONG ainda incluem costurar, cozinhar e arrumar a casa, além de cursos sobre cuidados dos filhos e auto-estima.
A primeira coisa que tenho a comentar sobre isso é que eu já estive lá. Mas seis meses na Europa, tendo que cuidar de mim mesmo logo concertaram boa parte dessas coisas. Claro, a volta para o lar dos pais colocou essas novas habilidades na geladeira...
Mas acho que a ONG dá um passo muito importante e que frequentemente vai ser mal compreendido. Porque é sinal de força e superação para uma mulher vestir calças e ir disputar no braço um emprego de gerente de multinacional com uma corja de homens acostumados ao patriarcado. Mas o homem que resolve que vai gerenciar uma casa de forma melhor e mais eficiente que uma mulher só ouve chacota, humilhação, masculinidade questionada. Não é de se surpreender que a AHIGE receba tantas ameaças de grupos machistas.
O outro ponto que tenho a colocar por aqui é sempre meio controverso. Se a ideologia pregada é a da igualdade entre os sexos e todos vamos nos tratar como seres humanos neutros em questões de gênero, que se diz daquelas velhas máximas protecionistas ("mulheres primeiro") e minúcias de etiqueta (abrir a porta do carro para a mulher, servi-la primeiro à mesa, pagar a conta do restaurante) que favorecem a mulher? Algumas já viraram clichê do discurso feminista, como a história da conta do restaurante que as mulheres hoje gostam de dividir. Mas nas demais, a contenda é sempre similar: os homens concordam que a ideologia de igualdade deve se estender a tudo, enquanto as mulheres querem manter os privilegios alegando serem questão de boa educação supostamente anterior a toda a discussão. Pessoalmente, e eu sei que essa opinião vai mexer com alguns ânimos, eu continuarei a manter minha (vergonhosamente parca) etiqueta em relação às mulheres, mas concordo com a opinião de que, se elas já podem gerenciar multinacionais e jogar futebol e nós podemos cuidar da casa e ter emoções, então elas podem também abrir suas próprias portas de carro...