quinta-feira, abril 22, 2010

Há algumas semanas, minha Lexy me mostrou um artigo na TPM sobre homens novaiorquinos que cuidavam das crianças enquanto as mulheres iam trabalhar. Achei graça. De fato, até me imaginei sendo um desses pais, já que meu atual trabalho me dá várias horas em casa. Nesse meu querer utópico, imaginei que talvez esse contato paterno logo no início da vida talvez ajudasse a equilibrar melhor o resto da vida do moleque, que provavelmente terá professoras e chefes mulheres empregando-o na maioridade. Ajudaria a ensiná-lo algumas tantas coisas que os pais de escritório não têm tempo de ensinar. Talvez a lição principal seria a de que essa criança, quando adulta, não deve temer o desemprego, a atividade autônoma, a vida fora da empresa. Pelo contrário, deve aprender a vivê-la direito, com qualidade.
O sistema antigo de emprego empresarial está aceitando cada vez menos homens. Vejo isso em diversos ramos que antes só tinham engravatados e hoje ressoam com o bater dos saltos femininos. Grande parte disso se deve, como afirmam muitos artigos de jornal, à maior capacidade de sociabilização das mulheres. As estratégias de venda masculinas, agressivas, que maximizam os lucros, estão dando lugar a estratégias femininas mais focadas em ser a melhor amiga da cliente. É uma grande diferença, e a maioria dos homens não consegue fazer igual. Para nós, os negócios são uma guerra. E homem que tenta ser amiguinho do inimigo é visto como pilantra.

Voltado ao artigo da TPM, o que me interessou a respeito foi que, apesar dele ser um retrato real dessa mudança de ares no mundo empresarial/doméstico, ele ainda conseguia pintar os homens com um pouco de dignidade. Porque ainda existe esse estigma forte de considerar os homens nessa situação como frouxos. Me faz lembrar o texto que escrevi por aqui há algum tempo sobre os Simpsons e o Masculismo. Como o Homer e todos os outros homens da série eram un inúteis frouxos e as mulheres eram formidáveis.
Hoje anunciaram na TV o filme da Erin Brockovich. Outro exemplo onde ela está lá conquistando o mundo e o homem do filme é um motoqueiro cheio de boas intenções mas completamente imaturo e frouxo.

Quanto mais penso a respeito, mais vejo exemplos disso por aí. Queria escrever sobre eles aqui, porque os exemplos chegam a ser caricatos, mas tenho medo de mencionar até os mais óbvios, por não querer parecer pejorativo com os homens das situações. Há até alguns nesse jogo que estão se saíndo admiravelmente bem longe das empresas. Outros permanecem um retrato fiel do homem frouxo que todos nós estamos querendo evitar ser.

A propósito, estou escrevendo um novo projeto para pedido de bolsa na faculdade de Londres. Nele, menciono um dos primeiros livros a serem escritos sobre os assuntos masculistas. Warren Farrell escreveu The Liberated Man enquanto ainda era mais um feminista do que um pensador masculista. No livro, ele fala da dinâmica familiar em famílias onde a mãe trabalha e o pai cuida dos filhos. Detalhe: ele publicou o livro em 1974.

quinta-feira, abril 15, 2010

Chá e Simpatia

Minha avó apareceu recentemente em um programa do Ronnie Von para falar do TBC e dos livros que ela escreveu sobre os atores e o teatro em si. Achei uma graça o programa, e a homenagem do apresentador a ela e ao trabalho da Imprensa Oficial, que publica esses e muitos outros livros biográficos sobre o teatro brasileiro.
Em um ponto da entrevista, ele perguntou a ela qual fora a peça mais especial que ela tinha feito. Ela pensou por alguns segundos e respondeu: "Chá e Simpatia". Lembro de ter ouvido falar da importância da peça na época, que questionava o preconceito contra a homossexualidade masculina em uma sociedade muito conservadora. E repentinamente me deu vontade de fazer mais um quadro para a série do TBC sobre essa peça. Seria uma homenagem direta à minha avó, que até então só apareceu no quadro do Entre Quatro Paredes e mesmo nele, apenas como uma de três atores homenageados no quadro (os outros sendo meu avô Sérgio e Cacilda Becker). O interesse pelo quadro aumentou quando ela comentou no programa que meu avô dirigiu a peça. Descobri com alguma pesquisa que a peça fora montada três vezes e ele de fato tinha dirigido duas delas, a terceira sendo dirigida por minha avó, baseada na direção dele.
Mas foi quando comecei a ler o roteiro da peça (olha que chique: o original, que minha avó usara para decorar as falas de sua personagem), que percebi as outras semelhanças deliciosas entre realidade e ficção.
Na realidade, eu ocupo um quarto nos fundos da casa de minha avó, subindo um lance de escadas, onde faço meu ateliê. Eu: um jovem aspirante a pintor envolto em questionamentos sobre masculinidade, frutos dos anos de abuso na escola por parte de valentões que viam na minha escolha pelas artes um claro indício de homossexualidade. Ela: uma histórica atriz de teatro que transita entre as reminiscências de sua época vanguardista e os modos e pose europeus que ela exerce no dia a dia, frutos de sua infância na Itália.
Na ficção, Tom ocupa um quarto no segundo andar da casa de Laura, subindo um lance de escadas. Ele: um jovem aspirante a músico envolto em questionamentos sobre sexualidade, frutos dos recentes abusos no colégio por parte de valentões que vêem em sua escolha por atividades mais amenas e sensíveis um claro indício de homossexualidade. Ela: uma ex-atriz de teatro que transita entre as reminiscências de sua época nos palcos e os modos e pose de dona de casa americana que ela exerce no dia a dia, frutos de seu casamento com o professor do colégio interno.

terça-feira, abril 13, 2010

Como o masculismo pode se relacionar com a homosexualidade masculina?

Tinha escrito uma resposta ótima para essa pergunta muito inspirada, mas o sistema do formspring aparentemente comeu... Vamos lá de novo.

Pessoalmente acho que há dois âmbitos dessa questão.
Em primeiro lugar, acho complicada a militância masculista do homem homossexual. Isso porque a meu ver, o Masculismo lida tanto com a relação de negação, como a de desejo do homem pelo sexo feminino. Ou seja, são considerações a respeito do relacionamento do homem consigo mesmo ("O que é ser um homem?"), como também do homem com a mulher pós-Feminismo ("Como A relação homem/mulher muda após o Feminismo?"). E pelo que eu entendo, a militância homossexual masculista lidaria apenas com um desses aspectos, por não ter interesse pelo outro. Enfim, posso estar enganado a esse respeito...

Em segundo lugar, acho ao mesmo tempo que o homem masculista teria ainda muito a aprender justamente com os homossexuais, sobre não ter medo de perceber-se diminuído ("menos macho") por admitir e usufruir de sua feminilidade e os benefícios que ela poderia trazer. O homem homossexual se cuida, sabe ser belo, correto e ter bom gosto, sem medo dessas coisas serem "viadagem". Muitos homens poderiam aprender com isso em vez de ficar batendo a cabeça na parede com inutilidades truculentas para provar a macheza.

Bom, acho que é por aí.

Ask me anything

segunda-feira, abril 12, 2010

Marcelo Rubens Paiva no Estado de sábado

Achei relevante.
Tirando o bom Feliz Ano Velho, o escritor Marcelo Rubens Paiva nunca me chamou muito a atenção. Mas dia desses minha mãe apareceu com o Estado de sábado, dizendo que tinha um texto do Paiva nele que tinha a ver com os meus assuntos. Gostei tanto dos primeiros parágrafos do texto, que os publico aqui, porque de fato acho que tem a ver. Ele faz uma passada geral na história do surgimento do Feminismo e das questões masculinas que se seguiram.

Em busca do homem perdido
Na 2ª Guerra, os mocinhos foram para o front de batalha. No esforço de guerra, as mocinhas que queriam casar, ter filhos e esperar os maridos com a mesa pronta, de banho tomado e laquê nos cabelos, fora para as fábricas.
Acabou a guerra, o ideal do mundo livre venceu, os moços voltaram. Mas elas gostaram das carteiras assinadas, planos de saúde e aposentadoria, mundo livre e cabelos soltos.
A revolução sexual ganhou parceiros: máquina de lavar e secar, enceradeira, micro-ondas, comida gelada, creches e o universo do descarável.
Com a pílula, o controle da natalidade possibilitou, enfim, que as mulheres passassem a gerenciar carreiras e herdeiros. E assim ela se emancipou, queimou sutiãs e anáguas, conquistou espaço e exigiu um outro tipo de homem. Qual?
Em busca dele, muitos mocinhos perdem noites de sono, leem livros de autoajuda, fazem cursos de culinária e pedem conselhor aos amigos gays, de quem elas gostam tanto e afirmam "ah, se não fosse gay..."
O casal Sartre e Simone de Beauvoir radicalizou. Foi o primeiro a propor publicamente um relacionamento aberto. Ele papava quem queria, inclusive as alunas dela. E ela tinha amantes espalhados.
[...]
O casamento aberto seria a saída para os novos tempos? "Entre a fidelidade e a liberdade, haverá uma conciliação possível? A que preço?", filosofou Simone.
Recentemente, imaginaram que o homem moderno seria aquele ser que faz a unha, cabelo e sobrancelha, veste-se caprichosamente, usa roupas, malas e carteiras de grife, cuida da pele, tem uma barriga em que se pode lavar a roupa de baixo e é sensível, o tal metrossexual.
Fez sucesso no espelho, mas não entre a mulherada, que continua preferindo homem com pegada, nem tanto personagem de comerical de cerveja, nem tanto sujeitos que gastam mais tempo para se arrumar do que elas.


Curioso é quem, antes do texto, eu realmente não tinha pensado na emancipação feminina como produto da Segunda Guerra. Imaginei-a sim fruto de uma vontade das mulheres em se engajarem na política, mas nunca tinha percebido a ligação.
O resto do texto demora-se debatendo a reação que outro texto do mesmo autor teve no programa Saia Justa e a defesa do romantismo. Mas achei que esse começo merecia figurar por aqui.