sábado, fevereiro 28, 2009

Improvisado #26 na Casa das Caldeiras

Demorei pra colocar isso por aqui, mas queria ter tudo já pronto de uma vez.


FlyerNo último dia 18, realizei a primeira exposição com o foco voltado para a teoria do Masculismo que eu estava lendo até agora. Foi na Casa das Caldeiras, graças ao contato de uma colega de trabalho com um dos integrantes do grupo de jazz Improvisado, que toca lá quinzenalmente e sempre convida artistas plásticos para expor junto das apresentações deles. Nesta edição estávamos eu e Achiles Luciano, um pintor muito gente boa que fazia seus quadros ao vivo com pinceladas bem dinâmicas e coloridas. Eu pude ficar com todo o túnel da Casa das Caldeiras enquanto o Achiles pintava perto do palco com o trio.
Para fazer a ponte entre os retratos e a teoria Masculista, fiz uns cartazes grandes, escritos à mão como se fossem pixação, para dar uma estética condizente com o espaço. Neles, diversos textos, alguns meus e algumas citações e referências. Achei que dava um embasamento filosófico para a coisa toda. No fim do extenso corredor, na chaminé final, extendi o meu Lettin' the Cables Sleep. Achei mesmo que não haveria lugar melhor para ele: resumindo o sentimento de um homem diminuído e infantilizado diante de uma mulher endeusada. Uma conclusão legal para a caminhada teórica nesse túnel. O efeito seria aumentado ainda mais pelo aspecto fálico da chaminé, apontando para o céu, que me lembrava a torre no centro da pintura, apontando para a mulher e representando o anseio do garoto em alcançá-la.
No fim, achei que esse último efeito ficou um pouco prejudicado por questões de montagem. Afinal, eu não podia pregar nada nas paredes do túnel e tive que pendurar a tela como dava. Queria ter colocado ela bem no centro da chaminé, mas não havia nada onde amarrá-la.
De qualquer jeito, a exposição foi boa. Muita gente comentando, vindo falar comigo, lendo e argumentando sobre as coisas escritas. Me deu uma sensação de finalmente ter encontrado o assunto para falar com a minha arte. Saí de lá com uma sensação de realização e algumas boas idéias de novas obras na cabeça.

Aguardem!




Veja as fotos do evento no Flickr (Alguém sabe #comofas pra colocar em ordem depois de ter feito o upload?)!

Abaixo, segue a transcrição dos textos que estavam na exposição:

Ne me quitte pas

Ne me quitte pas
Il faut oublier
Tout peut s'oublier
Qui s'enfuit déjà
Oublier le temps
Des malentendus
Et le temps perdu
A savoir comment
Oublier ces heures
Qui tuaient parfois
A coups de pourquoi le coeur du bonheure
Ne me quitte pas (x3)

Moi je t'offrirai
Des perles de pluie
Venues de pays
Où il ne pleut pas
Je creuserai la terre
Jusqu'aprè ma mort
Pour couvrir ton corps
D'or et de lumière
Je ferai un domaine
Où l'amour sera roi
Où l'amour sera loi
Où tu seras reine
Ne me quitte pás (x4)

Je t'inventerai
Des mots insensés
Que tu comprendras
Je te parlerai
De ces amants-là
Qui ont vue deux fois
Leurs coeurs s'embraser
Je te racontrai
L'histoire de ce roi
Mort de n'avoir pas
Pu te rencontrer
Ne me quitte pás (x3)

On a vu souvent
Rejaillir le feu
De l'ancien volcan
Qu'on croyait trop vieux
Il est paraît-il
Des terres brûlées
Donnant plus de blé
Qu'un meilleur avril
Et quand vient le soir
Pour qu'un ciel flamboie
Le rouge et le noir
Ne s'épousent-ils pas
Ne me quitte pas(x4)

Je ne vais plus pleurer
Je ne vais plus parler
Je me cacherai là
A te regarder
Danser et sourire
Et à t'écouter
Chanter et puis rire
Laisse-moi devenir
L'ombre de ton ombre
L'ombre de ta main
L'ombre de ton chien
Ne me quitte pás (x3)

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Não Me Deixes

Não me deixes,
É preciso esquecer,
Tudo se pode esquecer
Que já para trás ficou.
Esquecer o tempo
dos mal-entendidos
E o tempo perdido
a querer saber como
Esquecer essas horas,
Que de tantos porquês,
Por vezes matavam a última felicidade.
Não me deixes (x3)

Te oferecerei
Pétalas de chuva
Vindas de países
Onde nunca chove;
Escavarei a terra
Até depois da morte,
Para cobrir teu corpo
Com ouro, com luzes.
Criarei um país
Onde o amor será rei,
Onde o amor será lei
E você a rainha.
Não me deixes, (x4)

Te Inventarei
Palavras absurdas
Que você compreenderá;
Te falarei
Daqueles amantes
Que viram de novo
Seus corações ateados;
Te contarei
A história daquele rei,
Que morreu por não ter
Podido te conhecer.
Não me deixes, (x3)

Quantas vezes
não se reacendeu o fogo
Do antigo vulcão
Que julgávamos velho?
Até há quem fale
De terras queimadas
A produzir mais trigo;
Que a melhor primavera
É quando a tarde cai,
Vê como o vermelho e o negro
Se casam para que o céu se inflame.
Não me deixes, (x4)

Não vou chorar mais,
Não vou falar mais,
Escondo-me aqui
Para te ver
Dançar e sorrir,
Para te ouvir
Cantar e rir.
Deixa-me ser
a sombra da tua sombra,
A sombra da tua mão,
A sombra do teu cão.
Não me deixes.(x3)

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E se eu recusasse sexo?
E se eu estivesse a pensar em outro assunto, outro prazer, outro objetivo?
E se eu já tivesse me saciado do corpo alheio? Tudo, até mesmo o sexo, tem um limite de saturação.

“Herege!” é o que me diriam, em outras palavras menos castas (“Viado!”, “Gay!”, “Bicha!”, “Fruta!”)

E não seria apenas a Mulher a me castigar com impropérios, mas o próprio Homem. Ele, que tolera mais facilmente, porém não sem escárnio, que eu seja fraco para a bebida, mas não perdoa a recusa ao sexo.

Oh, como o Homem teme essas palavras! E que nesga de auto-estima tenra e vulnerável é essa chamada masculinidade.

Pense a respeito: tudo que a Mulher precisa fazer é prometer. Sequer precisa cumprir, apenas prometer. A promessa de seu apreço, seu carinho, seu agrado. Em troca disso, o Homem ver-se-á obrigado a fazer qualquer coisa. Ele trará pétalas de chuva de países onde nunca chove.

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Há um poema do Drummond sobre um rapaz que tem seu primeiro encontro sexual com uma lavadeira mulata. À noite, ardendo em febre, alucina com uma lavadeira enorme, com peitos enormes, girando pelo quarto. Ou seja, ela o exaure a tal ponto de deixá-lo enfermo: é Mulher demais para um rapaz.

Em outro poema, este de Álvares de Azevedo, ele assiste enquanto uma Mulher dorme, torcendo para que não acorde. Acontece que ele não consegue de fato lidar com ela, com a pessoa que é ela, e quer apenas lidar com sua forma. Teme que ela ria dele: é patético demais para uma mulher.

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Depois de assistir Closer, ela divagou longamente sobre Homens e Mulheres.
[...]

Sobre os Homens, disse existirem Homens como Jude Law e Homens como Clive Owen.
Os primeiros eram artistas. Sensíveis, compreensivos. Confortáveis.
Os segundos eram cientistas. Pragmáticos, factuais. Confiáveis.

Ela comentou o quanto gostava de Homens como Clive Owen. Homens massudos, angulosos, decididos. E brutos e certeiros na hora do sexo, porque sexo tinha que ser áspero. Homem que não chora, porra!

Claro que ela sabia que eu era um Homem como Jude Law. Franzino, sorrateiro e sensível.
Na rua, entre os amigos e na minha família, Jude Law. Somos todos e cada vez mais de nós. Kafkianamente patéticos: envelheceremos como Jeremy Irons, o europeu patético por excelência.

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Do “João de Ferro” de Robert Bly

Na década de 1950 supunha-se que o homem devia gostar de futebol, ser agressivo, defender [seu país], não chorar nunca e sempre sustentar a família. Faltava, porém, o espaço receptivo, ou espaço íntimo, a essa imagem de homem. Faltava à sua personalidade certo sentido de fluxo. À psique faltava compaixão, de uma maneira que estimulava a continuação desequilibrada da guerra do Vietnã [...].
O homem da década de 1950 tinha uma visão clara do que devia ser e das responsabilidades masculinas, mas o isolamento e a unilateralidade dessa visão eram perigosos.
Durante a década de 1960 surgiu outro tipo de homem. O desperdício e a violência da guerra do Vietnã fizeram os homens questionar se realmente sabiam o que era um adulto. Se masculinidade significava o Vietnã, queriam eles participar dela? Enquanto isso, o movimento feminista estimulava a que olhassem realmente para as mulheres, forçando-os a se conscientizarem das preocupações e dos sofrimentos que o homem da década de 1950 procurou evitar.
[...]
O homem, a partir da década de 1970, tornou-se mais ponderado, mais suave. Esse processo, porém, não o tornou mais livre. Ele é um bom menino, que agrada não só a sua mãe, mas também a jovem com quem vive. [...] Mesmo hoje, quando por vezes olho para um auditório, talvez metade dos homens jovens sejam o que eu chamaria de frouxos.

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

João de Ferro 3

Mais do livro (eu sei, tá ficando chato...)

Sutilmente, o autor caiu em uma discussão sobre a figura do pai. Talvez por estar falando do mentor, do exemplo que o jovem homem deveria seguir para atingir a maturidade. Bly já havia falado que, para crescer, o garoto precisava encontrar um "segundo pai", com qualidades e ensinamentos que o primeiro não era capaz de fornecer. Mas no capítulo seguinte, o autor comenta que a situação atual é ainda mais complicada, porque nem mesmo o primeiro pai é como era antes. Há uma "escassez de pai" no mundo atual.

A situação paterna citada é comum a todos nós, meninos e meninas. Veja.
Antigamente, quando a maioria das pessoas tinham trabalhos manuais simples (o pedreiro, o marceneiro, o padeiro), era comum que os pais levassem seus filhos para seus locais de trabalho. Fosse para dar uma folga para as mães ou para ajudar os próprios pais, os filhos eram fisica e simbolicamente transportados do mundo diário da mãe para o do pai. Do feminino para o masculino. Como consequência direta da observação, o menino sabia exatamente o que o pai fazia, recebia conselhos de como fazê-lo da melhor forma, absorvia parte da experiência de vida do pai. Era como se isso fornecesse não só o modelo do que era um homem adulto, mas também desse ao menino uma vantagem técnica, caso ele escolhesse seguir a carreira do pai.
E então veio a era industrial. O homem saía de casa cedo para um local onde as crianças não entravam (exceto por um ou outro dia e sob condições controladas pela empresa). Lá ele fazia uma diminuta parte de um processo que ele não compreendia direito e não sabia explicar ao filho. Ou seja, não era mais a figura do homem poderoso, que controlava todo seu próprio fazer. Mais do que isso, tornara-se tão ingênuo quanto o próprio filho a respeito dos grandes processos. Excluído, diminuído. Agora ele volta tarde para casa, cansado, frustrado e irritadiço. Não ensina nada ao filho, apenas que a vida adulta é fatigosa e desagradável, um ir ao trabalho e voltar para a TV em casa. E no entanto, ele continua a exigir o respeito e a lealdade que os pais de antigamente exigiam. Não faz seu trabalho, mas exige sua recompensa.
O principal disso tudo é que esse sistema cria um vácuo na mentalidade do filho. O que faz o pai durante essas horas todas que o filho não vê? Porque essa atividade o consome tanto se não é tão física quanto, digamos, construir uma mesa ou erguer uma parede em um edifício? O trabalho e a rotina do pai são incompreensíveis e assustadores. Eu mesmo, quando criança, não compreendia a rotina de meu pai. Dizia apenas, em minha expressividade pueril, que ele ficava "escrevendo e lendo". Mas o conteúdo e a relevância dessa atividade literária toda eu desconhecia. É nesse vácuo que os demônios brincam: as suspeitas de que o pai possa estar fazendo algo condenável que ele esconde, de que ele seja corrupto, de que tenha uma amante, de que isso seja de fato a vida adulta. As suspeitas nutrem a figura do pai obscuro. Em Guerra nas Estrelas, o pai ausente e obscuro que depois exige lealdade sem ter direito é chamado de Darth Vader (Dark Father, o pai obscuro).
Estou ainda lendo sobre diferentes reações que os filhos têm diante desse pai escasso. Uma delas, a mais óbvia, é permanecer no mundo feminino, porque a transferência nunca ocorreu. Continuar como o rapaz sensível e bondoso, fortemente ligado à mãe. O homem frouxo. A outra é alçar vôo, ser inspirado a superar a existência pequena e coitada do pai: chegar a um cargo maior que o dele na empresa, bater as conquistas dele e ser inconscientemente mais obscuro e viciado no trabalho do que ele. Porque há essa idéia de que ele sustentou a família mas não foi forte o suficiente para manter sua vitalidade como pai e que o filho acha que pode triunfar onde ele falhou. É possível? Bly ainda não respondeu.

terça-feira, fevereiro 03, 2009

João de Ferro 2

Esse livro que Nana me emprestou fica cada vez melhor. Os paralelos com a minha vida e a situação masculina em geral aumentam a cada página e dá vontade de comentar cada capítulo por aqui. Talvez seja apenas um livro de auto-ajuda bem escrito. Mas confesso que está me fazendo bem.
Na parte onde estou, o garoto da história recebe uma tarefa do João de Ferro que ele não consegue cumprir. Expulso da floresta de modo suave (João de Ferro lhe promete que, se tiver dificuldades, poderá voltar à floresta e gritar por ajuda), o garoto vaga até uma cidade e consegue trabalho como ajudante em uma cozinha. O autor comenta sobre essa mudança brusca, de filho de um rei para ajudante de cozinheiro, e diz que essa "Descida" é muito necessária na formação do homem.
Vou arriscar escrever isso por aqui, porque suponho que já seja hora e se certas pessoas lerem não fará diferença agora: estou planejando minha Descida. Desde que trabalhei no pub em Londres (em uma cozinha, veja que coincidência...), percebi o quanto a minha formação era uma prisão dourada à minha volta. Um dos melhores colégios do país, duas das melhores faculdades, quatro idiomas no total... Tudo isso fazia de mim um esnobe que não aceitaria um emprego qualquer. E eis o resultado: quatro anos de labuta em agências, ganhando pouco, trabalhando como assistente de arte, ilustrador, tradutor e interprete e até revisor de texto, tudo ao mesmo tempo, e recebendo apenas como assistente. Trabalhei em cinco agências diferentes, e ninguém jamais ouviu falar de nenhuma delas ou viu meu trabalho, já que todas trabalhavam com endomarketing, a Sibéria da publicidade...

Pois chega! Em Março terei condições de pagar minhas últimas dívidas e então sairei da floresta. E quero mesmo a liberdade que senti em Londres. Aceitar que esta é minha vida, que não serei gerente de multinacional, ganhador de prêmio de Cannes ou nada disso. Me sujeitarei aos trabalhos humildes, ao status de trabalhador autônomo, aos empregos temporários e mesmo ao desemprego. Se isso me ensinar qualquer coisa e me pagar mais do que esse desrespeito que ganho hoje, serei feliz. Falta-me humildade e não vou esperar a que me joguem no chão para aprender a me levantar.