Em um domingo melancolico, fui jogar bola com a turma do Copacabana. O classico local: os cariocas do Copacabana (e adendos, como eu) versus os rapazes do Tana del Orso. Eu so entrei nessa porque os cariocas estavam sem goleiro.
No campo, uma fadinha alema da festa de Giovedi Grasso torce para os rivais.
Eu sou, talvez, o pior goleiro da historia do esporte, nao conseguindo espantar o frio das maos que, semi-congeladas, mal conseguem segurar as bolas mais simples. Um carioca negro me critica a cada gol. E às tantas, parto pra cima dele e so nao começamos a agressao fisica porqe os outros cariocas nos separam. Nao podendo descontar minha frustraçao dos ultimo dias na bola, acabo descontando nele...
Penso em dar um tempo da turma do Copacabana. O relacionamento nao vai bem: eles nao me pagaram os ultimos serviços que fiz, conservam os brasileirismos que me dao nos nervos apesar dos anos na Italia e de fato ja estou até enjoando do bar.
O fato é que tenho me sentido como se tivesse voltado ao colégio. Eu detestei o colégio e so hoje em dia percebo isso. Quando voce esta do lado oposto ao da galera cool, o colégio é um inferno.
Sinto estar fazendo besteiras demais, me frustrando demais.
Na terça mudo de casa. Vou para as italianas. Talvez conhecer gente nova possa ser uma saida eficaz. Funcionou quando desisti de Linnea e passei esta semana maravilhosa com as Graças inglesas. Ainda que tenha acabado como acabou: Theo foi para a Inglaterra (com a minha mascara, alias...), Rochelle parte na sexta e Mary... bom, tentamos nao complicar ainda mais as coisas.
Bits and pieces of my life that everyone ignores when I speak, but someone reads when I write.
segunda-feira, fevereiro 27, 2006
domingo, fevereiro 26, 2006
E como terminou a historia?
Naquele sabado, fui para casa. Apesar de David e amigos me convidarem para uma balada, eu so queria ir para casa.
Fiz um belo jantar, terminei uma Alice e, pasmem, até fiz algun dos exercicios de italiano. La pelas onze e meia, deitei na cama: o melhor remedio para um dia ruim é simplesmente avançar para o proximo.
E entao lembrei que Mary estaria no Etoile esta noite.
Preguiça. Melancolia. E a certeza de que eu me sentiria ainda pior no dia seguinte se nao fosse. Seria desistir sem lutar. De fato, no Brasil eu teria ficado em casa. Hora de mudar isso.
No relogio, 23:40. Tempo suficiente para me vestir e chegar na Piazza Fortebraccio, onde poderia pegar o onibus para a discoteca. Aqui a coisa funcionava assim: à meia noite, varios onibus estacionavam na Fortebraccio, para pegar a galera e ir para cinco ou seis casas noturnas. Voltavam às quatro.
Na Piazza, nem sinal de Mary. O onibus ja tinha chegado. Convencido de que ela teria mudado de idéia, me senti aliviado de nao ter que ir ao Etoile e resolvi dar uma volta pelos bares antes de ir para casa e terminar este dia de merda. Queria ir ao Merlin novamente. Seria bem do meu feitio: ritualiticamente terminar a coisa onde ela começou. No meio do caminho, encontrei o Tana del Orso, um outro bar muito bom onde normalmente encontro Olga, a islandesa, dançando toda a noite. Um lugar alegre. Talvez precisasse disso mais do que o meu ritual. Entrei.
E o primeiro par de olhos azuis que encontrou os meus era o de Mary. Coincidencia. Alguns diriam destino (bah!). Estava de saida para o Etoile junto com uma vasta turma de gente conhecida. Os brasileiros de Veneza; Emil, um dinamarques muito gente fina; Roman que, apesar do nome, era mexicano; e Ana Beatriz, da Guatemala, entre outros. Em segundos me convenceram a ir com eles. E melhor: de graça. Cortesia da Tana del Orso.
Nao vou me alongar muito nisso. O Etoile era gigantesco. Quando voce ouve isso no Brasil, pensa em um lugar grande. Agora pegue duas salas dessas, unidas por um corredor. Era o Etoile.
A noite foi rapida, fugaz como se me divertisse, coisa que nao fiz. Depois que Mary encontrou seu palestino, dei a luta por encerrada. Dancei muito em compania das novas brasileiras, bebi com Emil e tive uma conversa muito emotiva com Roman, que queria que eu fizesse um desenho para mandar à sua namorada no México. Com este ultimo, falei muito de amor e percebi que talvez nao estivesse assim tao arrasado por Mary como parecia. Que talvez meu problema fosse procurar e procurar por algo que eu ja havia sentido por alguém e queria sentir novamente. E me frustrar toda vez que um relacionamento me parecia mais raso do que o que eu procurava. Roman entendeu quando lhe contei minha historia e o que acontecera em Sao Paulo pouco antes da minha partida. Entre o italiano e o espanhol, repetia para que eu nao me menosprezasse. Que eu encontraria o que procuro eventualmente. Que eu tinha um talento maravilhoso que so precisava da pessoa certa. Ao que respondi que nao seria nem a inglesa, nem a suéca. Ele tinha alguma vaga idéia de que qualquer garota adoraria ver-se desenhada como eu faço. Mal sabia que, ao ver seu rosto no meu caderno, tudo que Linnea tinha dito foi "meu nariz nao é assim"...
A tenacidade com a qual Roman tentava me encorajar era cativante. Pedi licensa por um instante e, nos corredores do Etoile, escondido no anonimato, parei e chorei. Ha muito tempo nao o fazia. Agora tinha sentimento de sobra para isso.
- "Are you alright?" perguntou Mary com aquele gostoso sotaque ingles quando voltei. Ja sem lagrimas, respondi que sim, embora o lado emocional estivesse um caco.
No onibus de volta, uma das brasileiras aferrara-se no meu braço, dizendo-se com frio e beijando-me o rosto. Que fosse apenas para fazer ciumes à inglesa...
Fiz um belo jantar, terminei uma Alice e, pasmem, até fiz algun dos exercicios de italiano. La pelas onze e meia, deitei na cama: o melhor remedio para um dia ruim é simplesmente avançar para o proximo.
E entao lembrei que Mary estaria no Etoile esta noite.
Preguiça. Melancolia. E a certeza de que eu me sentiria ainda pior no dia seguinte se nao fosse. Seria desistir sem lutar. De fato, no Brasil eu teria ficado em casa. Hora de mudar isso.
No relogio, 23:40. Tempo suficiente para me vestir e chegar na Piazza Fortebraccio, onde poderia pegar o onibus para a discoteca. Aqui a coisa funcionava assim: à meia noite, varios onibus estacionavam na Fortebraccio, para pegar a galera e ir para cinco ou seis casas noturnas. Voltavam às quatro.
Na Piazza, nem sinal de Mary. O onibus ja tinha chegado. Convencido de que ela teria mudado de idéia, me senti aliviado de nao ter que ir ao Etoile e resolvi dar uma volta pelos bares antes de ir para casa e terminar este dia de merda. Queria ir ao Merlin novamente. Seria bem do meu feitio: ritualiticamente terminar a coisa onde ela começou. No meio do caminho, encontrei o Tana del Orso, um outro bar muito bom onde normalmente encontro Olga, a islandesa, dançando toda a noite. Um lugar alegre. Talvez precisasse disso mais do que o meu ritual. Entrei.
E o primeiro par de olhos azuis que encontrou os meus era o de Mary. Coincidencia. Alguns diriam destino (bah!). Estava de saida para o Etoile junto com uma vasta turma de gente conhecida. Os brasileiros de Veneza; Emil, um dinamarques muito gente fina; Roman que, apesar do nome, era mexicano; e Ana Beatriz, da Guatemala, entre outros. Em segundos me convenceram a ir com eles. E melhor: de graça. Cortesia da Tana del Orso.
Nao vou me alongar muito nisso. O Etoile era gigantesco. Quando voce ouve isso no Brasil, pensa em um lugar grande. Agora pegue duas salas dessas, unidas por um corredor. Era o Etoile.
A noite foi rapida, fugaz como se me divertisse, coisa que nao fiz. Depois que Mary encontrou seu palestino, dei a luta por encerrada. Dancei muito em compania das novas brasileiras, bebi com Emil e tive uma conversa muito emotiva com Roman, que queria que eu fizesse um desenho para mandar à sua namorada no México. Com este ultimo, falei muito de amor e percebi que talvez nao estivesse assim tao arrasado por Mary como parecia. Que talvez meu problema fosse procurar e procurar por algo que eu ja havia sentido por alguém e queria sentir novamente. E me frustrar toda vez que um relacionamento me parecia mais raso do que o que eu procurava. Roman entendeu quando lhe contei minha historia e o que acontecera em Sao Paulo pouco antes da minha partida. Entre o italiano e o espanhol, repetia para que eu nao me menosprezasse. Que eu encontraria o que procuro eventualmente. Que eu tinha um talento maravilhoso que so precisava da pessoa certa. Ao que respondi que nao seria nem a inglesa, nem a suéca. Ele tinha alguma vaga idéia de que qualquer garota adoraria ver-se desenhada como eu faço. Mal sabia que, ao ver seu rosto no meu caderno, tudo que Linnea tinha dito foi "meu nariz nao é assim"...
A tenacidade com a qual Roman tentava me encorajar era cativante. Pedi licensa por um instante e, nos corredores do Etoile, escondido no anonimato, parei e chorei. Ha muito tempo nao o fazia. Agora tinha sentimento de sobra para isso.
- "Are you alright?" perguntou Mary com aquele gostoso sotaque ingles quando voltei. Ja sem lagrimas, respondi que sim, embora o lado emocional estivesse um caco.
No onibus de volta, uma das brasileiras aferrara-se no meu braço, dizendo-se com frio e beijando-me o rosto. Que fosse apenas para fazer ciumes à inglesa...
sábado, fevereiro 25, 2006
Duas sugestoes para voces passarem este fim de semana.
• Comprem, da Barilla, um molho de pesto alla Siciliana, para fazer uma macarronada. Vao reconhecer porque pesto geralmente é um molho verde e este é diferente: bege. Além do pesto, vai ricota e nozes nele. Muito bom. Tenho comido muito disso aqui, porque viciei.
• Procurem no Kazaa (ou outro programa de vossa escolha para baixar musicas da internet) a musica "Nine million bycicles", da Katie Melua. Outro vicio por aqui. Se acharem o video, é melhor ainda.
• Procurem no Kazaa (ou outro programa de vossa escolha para baixar musicas da internet) a musica "Nine million bycicles", da Katie Melua. Outro vicio por aqui. Se acharem o video, é melhor ainda.
Relatos de um sabado fugaz...
Quando eu digo que as coisas aqui acontecem rapido, é porque acontecem REALMENTE rapido.
Mal tive tempo de escrever o ultimo post, sobre tudo que havia acontecido. Nao escrevi nada na sexta, tendo passado o dia novamente em Brufa, na casa de Carmen, fazendo a farra novamente. Desta vez, com uma Linnea apatica e violenta. Laconica, com um olhar perdido no nada, so se dirigia a mim para me ofender de alguma forma. Nao, ela nao foi ao Madalena, nao sabia de Mary. Simplesmente nao ia com a minha cara mesmo. Eu ia escrever um post sobre isso, sob o titulo de Hej då, vackra flicka ("Adeus, garota bonita", consultoria de suéco graças à vackra Persephone), mas neste ponto, nao acho que Linnea valha mais a pena. Hej då para ela. E além disso, estou dilacerado por outros fatos.
Nao encontrei Mary na sexta. No sabado, esperei por ela na Piazza Fortebraccio, na frente do Palazzo Gallenga. Mas tudo que ela tinha para me dizer é que o que tinha com o maldito colega de classe ainda estava acontecendo. Colocado no banco de reserva, eu sabia muito bem o que tinha acontecido: estando entre o rapaz legal que conversava com ela e o cara bonito porém vazio, ela escolhera o rapaz bonito (ouço alguém rir pensando em vingança). Esmigalhou-me como se estraçalha uma rosa. So pude sorrir e dizer-lhe que eu era grandinho o suficiente pra entender. O que, mesmo se fosse verdade, nao me impediria de passar o resto do sabado arrasado.
Sentei no banco da Piazza depois que Mary foi embora. Um jornal em maos para procurar emprego, mas nada de vontade com este estado emocional. Um italiano me pede um cigarro: talvez a frase que mais ouvi até agora dos italianos. Ninguém compra o proprio cigarro. Vejo minha vizinha atravessar a Piazza: é uma pequena garota escandinava, talvez de seus 17 ou 18 anos, que me lembra uma versao miniatura da Gwyneth Paltrow. Sempre com um cachecol rosa-choque e olheiras tao chamativas quanto. Vai a passos apressados com um volume de tecidos nos braços. Entra em um dos prédios. Tenho curiosidade sobre ela. Nao sei ao certo por que. Em poucos minutos, vejo-a através da janela, subindo para pendurar os tecidos, que de fato sao cortinas, na janela. Por que tanta pressa por cortinas? Me fascina nao conseguir ler as pessoas como faço no Brasil, por causa dos costumes diferentes. Talvez para ela, escandinava, atrasar-se seja algo terrivel e ela marcou uma hora especifica com alguém naquele apartamento. Vou tomar um cafe no bar da Piazza e, no meu descuido, nao a vejo sair. So percebo ao ver o cachecol rosa passando através do Arco Etrusco.
Meu dias aqui tem sido repletos desses pequenos eventos de poesia. Quisera poder escrever sobre tudo para voces (e para mim também). Escrever sobre Dona Julia, espanhola de oitenta anos que ajudei a descer as escadas no outro dia e me disse adorar brasileiros. Escrever sobre os gatos que tenho visto nas ruas. Sobre o turco de turbante que mora no corso Garibaldi. Sobre a padaria do Emiliano, também no corso, onde além da comida, tem sempre boa musica, em versoes que nunca ouvi.
Talvez devesse gastar minhas linhas aqui com isso em vez das garotas. Quiça me faria mais feliz.
Mal tive tempo de escrever o ultimo post, sobre tudo que havia acontecido. Nao escrevi nada na sexta, tendo passado o dia novamente em Brufa, na casa de Carmen, fazendo a farra novamente. Desta vez, com uma Linnea apatica e violenta. Laconica, com um olhar perdido no nada, so se dirigia a mim para me ofender de alguma forma. Nao, ela nao foi ao Madalena, nao sabia de Mary. Simplesmente nao ia com a minha cara mesmo. Eu ia escrever um post sobre isso, sob o titulo de Hej då, vackra flicka ("Adeus, garota bonita", consultoria de suéco graças à vackra Persephone), mas neste ponto, nao acho que Linnea valha mais a pena. Hej då para ela. E além disso, estou dilacerado por outros fatos.
Nao encontrei Mary na sexta. No sabado, esperei por ela na Piazza Fortebraccio, na frente do Palazzo Gallenga. Mas tudo que ela tinha para me dizer é que o que tinha com o maldito colega de classe ainda estava acontecendo. Colocado no banco de reserva, eu sabia muito bem o que tinha acontecido: estando entre o rapaz legal que conversava com ela e o cara bonito porém vazio, ela escolhera o rapaz bonito (ouço alguém rir pensando em vingança). Esmigalhou-me como se estraçalha uma rosa. So pude sorrir e dizer-lhe que eu era grandinho o suficiente pra entender. O que, mesmo se fosse verdade, nao me impediria de passar o resto do sabado arrasado.
Sentei no banco da Piazza depois que Mary foi embora. Um jornal em maos para procurar emprego, mas nada de vontade com este estado emocional. Um italiano me pede um cigarro: talvez a frase que mais ouvi até agora dos italianos. Ninguém compra o proprio cigarro. Vejo minha vizinha atravessar a Piazza: é uma pequena garota escandinava, talvez de seus 17 ou 18 anos, que me lembra uma versao miniatura da Gwyneth Paltrow. Sempre com um cachecol rosa-choque e olheiras tao chamativas quanto. Vai a passos apressados com um volume de tecidos nos braços. Entra em um dos prédios. Tenho curiosidade sobre ela. Nao sei ao certo por que. Em poucos minutos, vejo-a através da janela, subindo para pendurar os tecidos, que de fato sao cortinas, na janela. Por que tanta pressa por cortinas? Me fascina nao conseguir ler as pessoas como faço no Brasil, por causa dos costumes diferentes. Talvez para ela, escandinava, atrasar-se seja algo terrivel e ela marcou uma hora especifica com alguém naquele apartamento. Vou tomar um cafe no bar da Piazza e, no meu descuido, nao a vejo sair. So percebo ao ver o cachecol rosa passando através do Arco Etrusco.
Meu dias aqui tem sido repletos desses pequenos eventos de poesia. Quisera poder escrever sobre tudo para voces (e para mim também). Escrever sobre Dona Julia, espanhola de oitenta anos que ajudei a descer as escadas no outro dia e me disse adorar brasileiros. Escrever sobre os gatos que tenho visto nas ruas. Sobre o turco de turbante que mora no corso Garibaldi. Sobre a padaria do Emiliano, também no corso, onde além da comida, tem sempre boa musica, em versoes que nunca ouvi.
Talvez devesse gastar minhas linhas aqui com isso em vez das garotas. Quiça me faria mais feliz.
sexta-feira, fevereiro 24, 2006
My english rose
Depois da momentanea crise de ansiedade no Merlin, fiquei meio receoso da noite de quinta-feira. Fazendo pequenos serviços para o Copacabana, eu tinha conseguido acesso VIP para a festa de giovedi grasso (quinta-feira gorda, tradiçao de carnaval, embora eu tenha ouvido com outros dias em outras culturas...) no Madalenna. Todo mundo falava da festa. Todo mundo iria na festa. O que significava que seria um evento fantastico, mas também um evento lotado, e isso nao faria muito bem à minha ansiedade. Pensei muito se deveria ir ou nao, mas no fim acabei aceitando.
Cheguei com as Graças inglesas, mas tive problemas para entrar: ninguém sabia da lista do Copacabana. Desculpem, mas brasileiro é foda... Liguei para o Felipe, que me disse que nao era exatamente uma lista do Copacabana; bati boca; falei com o promoter da festa. No fim, acabei entrando.
O que foi aquela noite? A discoteca lotada ao ponto de eu ser levado pela correnteza de gente, mas nem sinal da minha ansiedade. Eu de mascara de gato, passava ao lado de gente fantasiada das mais diversas coisas. De belas fadinhas alemas a outras gatas itailanas, todo o elenco do Village People, gente de cabelo verde, dois ou tres papas, grandes emoticons... tinha de tudo. Os italianos realmente sabem se divertir! Talvez até mais do que os brasileiros. Ou talvez eu nunca estive em uma festa decente em Sao Paulo.
Passei a noite com minhas Graças inglesas. Theo roubava minha mascara e desaparecia por horas na multidao para dançar e esquecer seu frances. Rochelle, meio entediada, bebeu gin & tonic e acabou perdendo a timidez e dançando.
E Mary... Achou uma porta de emergencia e, entre as danças e flertes com o barman para conseguir drinks de graça, dava uma escapada para tomar um ar gelado la fora. Dizia-se uma english rose, que nao suportava o calor e precisava do frio (no dia seguinte, tanto frio deixou-a acamada...). Acendia um cigarro (por que é que todas as belas garotas daqui fumam?), que eu lhe tirava de entre os dedos como fizera com Linnea. Depois me tomava pela mao e me levava de volta ao bar. Dançavamos até quando prensados no mar de gente, um colado no outro, os dedos entrelaçados. Provocava-me. [Meus caros, quando eu digo que eu sou um tapado ingenuo que nao entende indiretas e sinais, é porque eu preciso de coisas desse tipo pra me tocar...]
Faltava uma hora para ir embora. Mary sentada no encosto de um sofa lotado de casacos e bolsas (acho formidavel como aqui é raro alguém roubar algo nas baladas...).
- "Voce vai descer dai ou eu vou ter que subir?"
- "Mas eu estou bem aqui em cima."
- "Nao, nao esta. Esta muito longe."
E ela abaixava para dizer qualquer outra coisa no meu ouvido, para nao ter que gritar por cima da musica alta. E afastava os cabelos loiros do rosto ja suado da festa. E fumava mais um trago do cigarro aceso. E me sorria. E eu a beijei.
Naquela noite, levei-a para casa (sim, eu perdi a aula do dia seguinte de novo...) e nos despedimos na porta. Com todo o jeito de jovem inglesa, ela disse-me que eu teria que ir embora. Eu entendia: fazia alusao ao colega de classe que so queria uma noite de farra.
Voltei para casa. Pé ante pé. Saindo do pequenino e escuro jardim atarracado de plantas na frente da casa dela, subindo quatro ou cinco lances de escadas de tijolo velhas e rachadas e chegando ate a pequena via Calindri. Em seguida, uma caminhada de uns dez minutos pela Annibale Vecchi deserta, até a rotatoria de Elce e finalmente via Fabretti me deixou no meu corso Garibaldi.
Theo ficara com a minha mascara de gato. Mas era a ultima coisa na minha cabeça. O pensamento recorrente era o fato de eu ter feito um caminho tao longo quanto este uma semana antes, em sentidos inversos: caminhava vindo do outro lado da cidade como em uma marcha de derrota. E agora voltava por este lado, com um sorriso no rosto.
Cheguei com as Graças inglesas, mas tive problemas para entrar: ninguém sabia da lista do Copacabana. Desculpem, mas brasileiro é foda... Liguei para o Felipe, que me disse que nao era exatamente uma lista do Copacabana; bati boca; falei com o promoter da festa. No fim, acabei entrando.
O que foi aquela noite? A discoteca lotada ao ponto de eu ser levado pela correnteza de gente, mas nem sinal da minha ansiedade. Eu de mascara de gato, passava ao lado de gente fantasiada das mais diversas coisas. De belas fadinhas alemas a outras gatas itailanas, todo o elenco do Village People, gente de cabelo verde, dois ou tres papas, grandes emoticons... tinha de tudo. Os italianos realmente sabem se divertir! Talvez até mais do que os brasileiros. Ou talvez eu nunca estive em uma festa decente em Sao Paulo.
Passei a noite com minhas Graças inglesas. Theo roubava minha mascara e desaparecia por horas na multidao para dançar e esquecer seu frances. Rochelle, meio entediada, bebeu gin & tonic e acabou perdendo a timidez e dançando.
E Mary... Achou uma porta de emergencia e, entre as danças e flertes com o barman para conseguir drinks de graça, dava uma escapada para tomar um ar gelado la fora. Dizia-se uma english rose, que nao suportava o calor e precisava do frio (no dia seguinte, tanto frio deixou-a acamada...). Acendia um cigarro (por que é que todas as belas garotas daqui fumam?), que eu lhe tirava de entre os dedos como fizera com Linnea. Depois me tomava pela mao e me levava de volta ao bar. Dançavamos até quando prensados no mar de gente, um colado no outro, os dedos entrelaçados. Provocava-me. [Meus caros, quando eu digo que eu sou um tapado ingenuo que nao entende indiretas e sinais, é porque eu preciso de coisas desse tipo pra me tocar...]
Faltava uma hora para ir embora. Mary sentada no encosto de um sofa lotado de casacos e bolsas (acho formidavel como aqui é raro alguém roubar algo nas baladas...).
- "Voce vai descer dai ou eu vou ter que subir?"
- "Mas eu estou bem aqui em cima."
- "Nao, nao esta. Esta muito longe."
E ela abaixava para dizer qualquer outra coisa no meu ouvido, para nao ter que gritar por cima da musica alta. E afastava os cabelos loiros do rosto ja suado da festa. E fumava mais um trago do cigarro aceso. E me sorria. E eu a beijei.
Naquela noite, levei-a para casa (sim, eu perdi a aula do dia seguinte de novo...) e nos despedimos na porta. Com todo o jeito de jovem inglesa, ela disse-me que eu teria que ir embora. Eu entendia: fazia alusao ao colega de classe que so queria uma noite de farra.
Voltei para casa. Pé ante pé. Saindo do pequenino e escuro jardim atarracado de plantas na frente da casa dela, subindo quatro ou cinco lances de escadas de tijolo velhas e rachadas e chegando ate a pequena via Calindri. Em seguida, uma caminhada de uns dez minutos pela Annibale Vecchi deserta, até a rotatoria de Elce e finalmente via Fabretti me deixou no meu corso Garibaldi.
Theo ficara com a minha mascara de gato. Mas era a ultima coisa na minha cabeça. O pensamento recorrente era o fato de eu ter feito um caminho tao longo quanto este uma semana antes, em sentidos inversos: caminhava vindo do outro lado da cidade como em uma marcha de derrota. E agora voltava por este lado, com um sorriso no rosto.
Lista de compras
Il Pane
Il Latte
Il zuchero Lo zucchero
Pap Carta Toilet paper
Vinho branco
Pois é... Aqui até a lista de compras é multiligue...
Il Latte
Vinho branco
Pois é... Aqui até a lista de compras é multiligue...
quarta-feira, fevereiro 22, 2006
Um salto no Abismo
Tinha escolhido a turma do centro. Passei na casa deles uma noite, para conhecer os rapazes que eu nao havia visto no outro dia. Estavam ainda entrevistando possiveis ocupantes para o quartinho. Entrei no aposento mais uma vez: um armario, uma cama de solteiro, uma mesinha e uma janela minuscula. Na cozinha, Manuela me chamava para conhecer os rapazes que faltavam: Giuseppe e Giuliano. Entrevistavam uma garota negra italiana. Sentei na cozinha a ouvi-los falar. E de repente, uma pequena onda de panico. Na verdade, uma sensaçao de que talvez eu nao estivesse fazendo a coisa certa. De qualquer forma, nao disse nada. Eles, por sua vez, disseram que comunicariam a decisao no dia seguinte (as garotas do outro apartamento estavam ainda me apressando por uma resposta: se nao fosse escolhido para esta, ficaria com a outra).
Sabe uma coisa que me deu medo? A forma como os rapazes falavam. Um italiano arrastado: a impressao que eu tinha é que, se isto fosse uma historia em quadrinhos, os baloes de dialogo deles mostrariam letras fora de foco, enormes borroes. Eu captava a forma familiar de palavras conhecidas, mas eram poucas. Imagine viver com isso todo dia até o meu italiano melhorar o suficiente...
Naquela notie, no Merlin...
Tivera sono. Mas o SMS dizendo que duas das tres graças inglesas estariam la me tirara da cama com uma estranha eficacia. Enquanto discutiamos amores presentes, passados e o ateismo, alguém me saudou em italiano. Era Giuseppe, com Manuela e amigos. Escolhemos voce para o quarto! Legal... Onde estava minha felicidade?
Na aula do dia seguinte, esperando o telefonema de Giuseppe para confirmar que havia falado com a proprietaria e recebido o "OK" (Dissera-me que nao sabia se ela aceitaria um estrangeiro), tive repentinamente um overload de pensamentos. Imagine tudo o que segue, ruminado em estado de conceito puro, sem diferenciaçao de idioma, em cinco segundos, tudo ao mesmo tempo.
Flashes do outro quarto, muito maior, e da cama (a dita "cama de viuva", maior que uma de solteiro, menor que uma de casal). A varanda (nao teria acesso do meu quarto), com a vista de uma Perugia desconhecida que eu queria conhecer, toda iluminada à noite, que Alessia, a atual habitante do quarto, me mostrou, apontando a estaçao de trem a poucos quarteiroes. Os livros de filosofia e arte nas estantes e as fotos de publicidade com humor pseudo-gotico afixadas nas paredes. As roupas negras de Alessia e as meninas.
As meninas. Sabe gente com algo a mais no olhar? Gente com personalidade? Manuela, Giuseppe e os outros eram pessoas confortaveis, talvez mais faceis de lidar do que estas meninas, pessoas ditas "de bem". Pessoas entediantes. Quantas vezes eu havia escolhido a gente de bem?
Finalmente, lembrei de Lala's e Lee. De sua vontade de largar tudo e se aventurar, deixando o conforto para a velhice. Do que aprendi com eles nestes ultimos anos. De todas as vezes em que estivera na beira do Abismo e me recusei a saltar, preferindo o conforto, a praticidade, a apatia. Para a frustraçao deles, mas sobretudo a minha. Eu terei muito tempo na minha vida para a apatia. Voltarei para o Brasil e para algum trabalho maçante em uma agencia, para a faculdade onde eu ja nao me dou bem com ninguém. Quer saber? Agora eu vou escolher a aventura.
No intervalo, liguei para as meninas do outro apartamento, aceitando o quarto delas, e depois para Giuseppe pedindo desculpas.
Nao se preocupem: ja achei no mapa de Perugia uma alternativa facil para chegar la quando as escadas estiverem fechadas. Trata-se de uma linha reta que sai de um lugar meio escondido da Piazza Italia e me leva direto para casa em uns dez minutos. A distancia nao é muito maior do que o meu caminho atual, percorrendo o Corso Garibaldi todas as noites.
Sabe uma coisa que me deu medo? A forma como os rapazes falavam. Um italiano arrastado: a impressao que eu tinha é que, se isto fosse uma historia em quadrinhos, os baloes de dialogo deles mostrariam letras fora de foco, enormes borroes. Eu captava a forma familiar de palavras conhecidas, mas eram poucas. Imagine viver com isso todo dia até o meu italiano melhorar o suficiente...
Naquela notie, no Merlin...
Tivera sono. Mas o SMS dizendo que duas das tres graças inglesas estariam la me tirara da cama com uma estranha eficacia. Enquanto discutiamos amores presentes, passados e o ateismo, alguém me saudou em italiano. Era Giuseppe, com Manuela e amigos. Escolhemos voce para o quarto! Legal... Onde estava minha felicidade?
Na aula do dia seguinte, esperando o telefonema de Giuseppe para confirmar que havia falado com a proprietaria e recebido o "OK" (Dissera-me que nao sabia se ela aceitaria um estrangeiro), tive repentinamente um overload de pensamentos. Imagine tudo o que segue, ruminado em estado de conceito puro, sem diferenciaçao de idioma, em cinco segundos, tudo ao mesmo tempo.
Flashes do outro quarto, muito maior, e da cama (a dita "cama de viuva", maior que uma de solteiro, menor que uma de casal). A varanda (nao teria acesso do meu quarto), com a vista de uma Perugia desconhecida que eu queria conhecer, toda iluminada à noite, que Alessia, a atual habitante do quarto, me mostrou, apontando a estaçao de trem a poucos quarteiroes. Os livros de filosofia e arte nas estantes e as fotos de publicidade com humor pseudo-gotico afixadas nas paredes. As roupas negras de Alessia e as meninas.
As meninas. Sabe gente com algo a mais no olhar? Gente com personalidade? Manuela, Giuseppe e os outros eram pessoas confortaveis, talvez mais faceis de lidar do que estas meninas, pessoas ditas "de bem". Pessoas entediantes. Quantas vezes eu havia escolhido a gente de bem?
Finalmente, lembrei de Lala's e Lee. De sua vontade de largar tudo e se aventurar, deixando o conforto para a velhice. Do que aprendi com eles nestes ultimos anos. De todas as vezes em que estivera na beira do Abismo e me recusei a saltar, preferindo o conforto, a praticidade, a apatia. Para a frustraçao deles, mas sobretudo a minha. Eu terei muito tempo na minha vida para a apatia. Voltarei para o Brasil e para algum trabalho maçante em uma agencia, para a faculdade onde eu ja nao me dou bem com ninguém. Quer saber? Agora eu vou escolher a aventura.
No intervalo, liguei para as meninas do outro apartamento, aceitando o quarto delas, e depois para Giuseppe pedindo desculpas.
Nao se preocupem: ja achei no mapa de Perugia uma alternativa facil para chegar la quando as escadas estiverem fechadas. Trata-se de uma linha reta que sai de um lugar meio escondido da Piazza Italia e me leva direto para casa em uns dez minutos. A distancia nao é muito maior do que o meu caminho atual, percorrendo o Corso Garibaldi todas as noites.
As tres Graças inglesas
Tenho dito a muita gente pelo MSN que as coisas aqui estao acontecendo mais rapido do que eu consigo (ou tenho saco para) escrever. O que é, naturalmente, muito bom.
No entanto, para melhor deixa-los a par de alguns aspectos da situaçao, preciso fazer este post rapido e informativo. Aperta o "Fast Forward"...
Conheci Rochelle em Veneza. Tive algum alivio de perceber que ao menos eu tinha mais conversa com ela, em ingles, do que tivera com a suéca, em rascunhos de italiano. E ela tinha um jeito muito engraçado de falar, uma coisa de filmes antigos ingleses, nao sei explicar.
De volta a Perugia, fomos ao Merlin, um pub ingles no Corso Vannucci. La, conheci as amigas de Rochelle, as inglesas Theo e Mary (as in, the lamb...[piadinha interna]). A idéia da noite havia sido conversar com Rochelle. Mas até as tres da manha, nao consegui desgrudar de Mary. Ela brincava com meu chapéu (aquele barato que eu comprei em Veneza e fiquei usando por aqui nos dias chuvosos, junto com o sobretudo: sentindo-me o proprio mafioso...), contava-me o caso frustrado com o colega de classe que so quisera uma noite de farra e ouvia o meu, com Linnea. Dançava. Tinhamos aquela coisa gostosa de ficar um tirando sarro do outro, e que foi um alivio se comparado ao excesso de respeito que eu tinha pela bela suéca e que so me valera seu desprezo. Mas acima de tudo, conversavamos sobre muita coisa. Fazia tanto tempo que eu nao conversava de fato com ninguém...
Terminei a noite levando Mary para casa. Ela tinha medo de andar sozinha, pois morava longe (MUITO longe, como acabei descobrindo: o que me custou a aula da manha seguinte, porque dormi...). Eu brincava dizendo-lhe que nao se preocupasse, que ela estava sob a proteçao da mafia brasileira.
Na noite seguinte, cheguei em casa sem planos. Nao ouvira de Rochelle ou as amigas o dia inteiro. Estava quase pegando no sono, cogitando a hipotese de começar a pintar a mascara, mas ja sabedo que nao o faria naquela noite, quando um SMS rompeu o silencio do quarto. Rochelle dizia que nao sairia hoje, mas que Mary e Theo estariam no Merlin.
Porque é que essas meninas sempre respondem quando eu ja estou na minha casa distante do centro?
A terceira noite em compania das meninas foi principalmente passada com Theo. Era uma daquelas pessoas complicadas (adoro pessoas complicadas!). Tao neurotica que acabava sendo caotica (faz algum sentido? nao? é assim mesmo que ela é...). Começamos a falar de problemas psicologicos depois que eu senti o mundo começar a perder as cores, o sentido, e tudo parecer... real demais. Tao real que doi. Percebi que estava tendo a minha primeira crise de ansiedade em tres semanas bem no meio de um Merlin lotado. Olhei-a nos olhos e percebi que eu podia contar pra ela dos meus disturbios. O resto da noite foi uma montanha-russa psicologica deliciosa, que me fez sentir melhor em poucos minutos.
De fato, estiveramos novamente no Merlin aquela noite para celebrar um acontecimento: Theo beijara o frances por quem ela estava completamente obcecada, no Merlin, na noite anterior. Ele nao apareceu nesta noite e acompanhei uma Theo desolada para casa (mais perto do que Mary, graças a deus...). Trata-se de uma garota que sente qualquer emoçao muito mais forte do que todo mundo. Chorava ao ponto de molhar a echarpe. Mas a forma como falava de seu sofrimento era completamente comica. Abracei-a, quase desisti de ir para casa pra ficar cuidando dela. E fazia também tanto tempo que eu nao tivera esse tipo de contato (mesmo o abraço, contato fisico) com outra pessoa...
Quando cheguei em casa naquela noite, me veio à cabeça a idéia comica de que eu acabara de conhecer as tres graças inglesas (ainda que Rochelle seja australiana, mas...). Faziam um trio interessante, até no aspecto estético: uma ruiva(Rochelle), uma loira(Mary) e uma morena (Theo). Cada uma tinha um aspecto de personalidade principal. Enfim, nao vou me alongar no assunto.
Ah, sim... Depois de tanto tirar sarro da Mary com a coisa do "Mary had a little lamb", ela vingou-se apelidando-me simplesmente de "Brasil" ("Hey, it's Brasil!") e fazendo o apelido pegar entre elas. Muito prazer, sou Brasil Leao agora...
No entanto, para melhor deixa-los a par de alguns aspectos da situaçao, preciso fazer este post rapido e informativo. Aperta o "Fast Forward"...
Conheci Rochelle em Veneza. Tive algum alivio de perceber que ao menos eu tinha mais conversa com ela, em ingles, do que tivera com a suéca, em rascunhos de italiano. E ela tinha um jeito muito engraçado de falar, uma coisa de filmes antigos ingleses, nao sei explicar.
De volta a Perugia, fomos ao Merlin, um pub ingles no Corso Vannucci. La, conheci as amigas de Rochelle, as inglesas Theo e Mary (as in, the lamb...[piadinha interna]). A idéia da noite havia sido conversar com Rochelle. Mas até as tres da manha, nao consegui desgrudar de Mary. Ela brincava com meu chapéu (aquele barato que eu comprei em Veneza e fiquei usando por aqui nos dias chuvosos, junto com o sobretudo: sentindo-me o proprio mafioso...), contava-me o caso frustrado com o colega de classe que so quisera uma noite de farra e ouvia o meu, com Linnea. Dançava. Tinhamos aquela coisa gostosa de ficar um tirando sarro do outro, e que foi um alivio se comparado ao excesso de respeito que eu tinha pela bela suéca e que so me valera seu desprezo. Mas acima de tudo, conversavamos sobre muita coisa. Fazia tanto tempo que eu nao conversava de fato com ninguém...
Terminei a noite levando Mary para casa. Ela tinha medo de andar sozinha, pois morava longe (MUITO longe, como acabei descobrindo: o que me custou a aula da manha seguinte, porque dormi...). Eu brincava dizendo-lhe que nao se preocupasse, que ela estava sob a proteçao da mafia brasileira.
Na noite seguinte, cheguei em casa sem planos. Nao ouvira de Rochelle ou as amigas o dia inteiro. Estava quase pegando no sono, cogitando a hipotese de começar a pintar a mascara, mas ja sabedo que nao o faria naquela noite, quando um SMS rompeu o silencio do quarto. Rochelle dizia que nao sairia hoje, mas que Mary e Theo estariam no Merlin.
Porque é que essas meninas sempre respondem quando eu ja estou na minha casa distante do centro?
A terceira noite em compania das meninas foi principalmente passada com Theo. Era uma daquelas pessoas complicadas (adoro pessoas complicadas!). Tao neurotica que acabava sendo caotica (faz algum sentido? nao? é assim mesmo que ela é...). Começamos a falar de problemas psicologicos depois que eu senti o mundo começar a perder as cores, o sentido, e tudo parecer... real demais. Tao real que doi. Percebi que estava tendo a minha primeira crise de ansiedade em tres semanas bem no meio de um Merlin lotado. Olhei-a nos olhos e percebi que eu podia contar pra ela dos meus disturbios. O resto da noite foi uma montanha-russa psicologica deliciosa, que me fez sentir melhor em poucos minutos.
De fato, estiveramos novamente no Merlin aquela noite para celebrar um acontecimento: Theo beijara o frances por quem ela estava completamente obcecada, no Merlin, na noite anterior. Ele nao apareceu nesta noite e acompanhei uma Theo desolada para casa (mais perto do que Mary, graças a deus...). Trata-se de uma garota que sente qualquer emoçao muito mais forte do que todo mundo. Chorava ao ponto de molhar a echarpe. Mas a forma como falava de seu sofrimento era completamente comica. Abracei-a, quase desisti de ir para casa pra ficar cuidando dela. E fazia também tanto tempo que eu nao tivera esse tipo de contato (mesmo o abraço, contato fisico) com outra pessoa...
Quando cheguei em casa naquela noite, me veio à cabeça a idéia comica de que eu acabara de conhecer as tres graças inglesas (ainda que Rochelle seja australiana, mas...). Faziam um trio interessante, até no aspecto estético: uma ruiva(Rochelle), uma loira(Mary) e uma morena (Theo). Cada uma tinha um aspecto de personalidade principal. Enfim, nao vou me alongar no assunto.
Ah, sim... Depois de tanto tirar sarro da Mary com a coisa do "Mary had a little lamb", ela vingou-se apelidando-me simplesmente de "Brasil" ("Hey, it's Brasil!") e fazendo o apelido pegar entre elas. Muito prazer, sou Brasil Leao agora...
Fim de semana 3: Veneza
Acordei do cochilo no onibus olhando atraves da janela. A paisagem montanhosa era cheia de arvores ressequidas, sem folhas, negras. Queimada. E entao eu ouvi o alemao sendo falado ao meu lado e me dei conta de que ainda estava na Italia. Que a queimada era, de fato, a vegetaçao local de inverno. Sorri por ainda estar aqui. A vegetaçao ressequida dava lugar para pequenas areas de pinheiros de vez em quando, ou clareiras onde o chao de pedra era de um estranho verde pastel e as pedras saiam do chao em curiosos angulos diagonais. Estava nos arredores de Cesena, a unica parada do onibus a caminho de Veneza.
Veneza. Fora meu sonho desde a infancia. A idéia de uma cidade construida sobre a agua me fascinava. Meu desejo infantil sempre fora nadar nos canais venezianos, que logo descobri serem sujos demais para isso. Além do mais, neste inv(f)erno, eu preferia ficar seco...
Poucas pessoas conhecidas na viagem. Dois rapazes e uma garota brasileiros; David, meu companheiro de casa; Olga, uma islandesa que eu conhecera no bar no dia anterior (e que me parecera latina pelo tanto que dançava...) e Rochelle, uma australiana de sardas. No outro onibus, imerso em amigos chineses, também ia Ken Shin, nosso filosofo chines. Era bom assim... Com os acontecimentos da semana passada, dar um tempo da turma e da overdose da garota suéca era uma boa pedida. Conhecer gente nova, ser feliz de novo.
Depois de Cesena, chegamos a uma rotatoria onde eu pude ver em meio à névoa, uma placa indicando Trieste (a névoa... por um momento, achei que estivesse de fato dentro dos desenhos de Alice, imerso na Brancura). Quem sabe em um outro fim de semana. Tantos lugares pra ir, tao pouco tempo...
Fiquei olhando pela janela com toda a atençao do mundo, pra ver o exato momento em que sairiamos de terra firme para as pontes e vielas venezianas. Aconteceu assim: entramos em uma parte industrial, cheia de fabricas e bastante poluiçao. De la, pegamos uma ponte loguissima sobre a agua e chegamos na ilha. Perguntando para nossa guia de viagem, soube que a historia era assim: o povo vivia em uma cidade na costa (o nome tem a ver com agua, mas nao me lembro: Aquea ou algo assim). Durante a queda do Sacro Império e as invasoes barbaras, a cidade fora completamente destruida. Os habitantes que sobraram fugiram para um pequeno aglomerado de ilhas, onde os ataques barbaros poderiam ser melhor repelidos, e ficaram por la. Mas à medida que a populaçao foi crescendo e se recusando a voltar para terra firme, tiveram que resolver o problema de moradia construindo casas sobre a agua, ligando uma pequena ilhota à outra e formando uma grande ilha chamada Veneza. Sempre me perguntei se Venezia flutuava. Mas pude ver claramente que nao: era firmemente apoiada em blocos de pedra.
A agua aqui era estranha. Era um verde-agua esquisito, meio triste. Tinha alguns poucos metros de visibilidade, suficiente para ver os degraus ja submersos (os dados nao sao claros: ja ouvi que a cidade afunda de 1 a 10 centimetros cada ano, mas ninguém me deu um numero preciso...).
O mapa que nossos guias nos deram era um emaranhado de linhas claras e escuras. As claras eram ruelas ainda mais estreitas que as de Perugia onde, obviamente, nao passava nenhum carro. As escuras eram os canais. A cidade era cortada por um grande canal de mais ou menos uns 500 metros de largura, onde trafegavam barcos maiores.
E entao tinha as gondolas... Finos barcos negros reluzentes elegantemente decorados. Cada um tinha na frente, antes da tradicional ponta de gondola, uma imagem de alguma santa ou outro enfeite, à vontade do gondoleiro. Do meio para o fundo do barco, uma pedaço de madeira de forma meio esquisita podia ser dobrado para fora do barco para apoiar o remo. As gondolas trafegavam pelos canais menores, passando por baixo das pontes e sendo recebidas por milhares de flashes de maquinas curiosas.
Nao, nao andei de gondola. Apesar do apelo amistoso dos gondoleiros de chapeu de palha com fitas coloridas, o preço era assustador: €60,00. Dava pra colocar até 6 pessoas na gondola, cada um pagando €10,00. Mas encontrar seis aventureiros foi complicado. E no fim, resolvi gastar meu dinheiro com outras coisas mais interessantes.
Uma delas, uma mascara! Afinal, eu estava em pleno carnaval veneziano, sem enfeite. Passava por lojas com mascaras elaboradissimas com brilho, partituras de musica coladas, pinturas da cidade. Mas o que mais me atraia eram, obviamente, as coisas relacionadas a leoes. Em uma loja em particular, uma mascara completa, pintada à perfeiçao, de um leao chegava a custar até €50,00. Em outra loja, uma capa com abotoaduras de cabeças do felino alcançava €150,00. Ah, quem dera... Acabei optando por algo mais pessoal (e economico, porque eu sou avarento mesmo): comprei uma pequenina mascara de gato de papel mache e gesso branco por €5,00, que eu poderia pintar em casa.
Naquele ponto, eu ja me perdera do resto da turma e estava sendo acompanhado apenas por Rochelle, a australiana de sardas. Também queria uma mascara e, ao saber da minha idéia, comprou uma branca também, para que eu pintasse. Mas como nao queria passar o carnaval sem mascara, levou-me pelas barraquinhas de vendedores perguntando qual ficava melhor para ela. Acabei aconselhando uma de um dourado meio verde (cores estranhas sao o forte de Veneza, né?), cheia de enfeites amarelos e marrons. Ficava perfeita com os olhos castanhos dela assistindo através da mascara, e o esverdeado contrastava com o castanho avermelhado dos cabelos.
Trajando nossas mascaras (a minha branca acabou combinando bastante com minha roupa preta e um chapéu de feltro barato que comprei por impulso), longe de sermos irreconheciveis, chegamos à Piazza San Marco depois de muito andar pelo labirinto veneziano.
A Piazza era ainda outro festival de cores. Mas os protagonistas por aqui eram as mascaras. Eram chamadas assim as pessoas que se vestiam nos coloridos e chamativos vestidos carnavalescos. Aqueles que voce ve em calendarios e fotos de Veneza. Ou os mais soturnos, de mascara e capa, que inspiraram as roupas da festa em Eyes Wide Shut, do Kubrick. Moviam-se muito lentamente, sempre rodeados de gente fotografando. Geralmente andavam aos pares. Pareciam comunicar-se por telepatia: as mascaras nao deixavam ver os labios se movendo. Eles apenas inclinavam em direçao ao outro muito lentamente, balançavam a cabeça em afirmaçao e saiam andando para algum lugar. Havia ainda o pessoal vestido com roupas de época, andando em familias de cinco ou seis, incluindo crianças. Completos com perucas brancas e bengalas.
As pessoas tiravam fotos com eles. E eu observava os turistas folgados simplesmente se jogarem na frente deles e esperarem o flash das cameras de suas mulheres. Rochelle era mais sutil e respeitosa: colcoava-se de frente a eles, fazia-lhes uma saudaçao com a cabeça e perguntava "posso?". Alguns falavam entusiasmados que sim, por favor. Outros, mais no espirito da coisa, apenas estendiam-lhe a mao e abriam espaço entre os dois fantasiados. Ocorre-me agora que a unica foto que tirei com eles esta na maquina dela. Mandara por e-mail daqui a alguns dias. Mas tirei outras, so deles.
Em algum ponto, lembrei dos filmes que vi de Veneza: das pessoas andando pela Piazza San Marco em meio a uma revoada de pombos. De fato, la estavam eles. De tempos em tempos alçavam voo em bandos, cobrindo a Piazza inteira e pousando nos predios ao redor. Vendedores vendiam milho para que as crianças pudessem dar aos pombos. Catei uns poucos do chao e instantaneamente tres ou quatro dos bichos saltaram no meu braço. Um outro no meu ombro. Catavam as sementes com todo o cuidado e me olhavam. O peso deles no meu braço era surreal, gostoso. Rochelle teve medo. Bati duas fotos e entao lancei-os ao ar com um gesto do braço.
Breve noite sem grandes acontecimentos em um hotel fora da Ilha...
Fiquei no quarto com um dos irmaos brasileiros e a irma. O outro, arranjara-se em um quarto com a namorada americana. Tinham todo o cuidado de nao falar portugues perto dela, porque ela nao entendia nada, e até pediam desculpas a ela quando falavam qualquer coisa em portugues comigo sem querer. Mas o italiano, e mesmo o ingles dos rapazes era de dar pena... Achei bonitinho mesmo assim. Lauren, a americana, parecia entediada. Sorria de vez em nunca, mas era uma versao loira da Thora Birch de Beleza Americana.
Os brasileiros, por outro lado, eram os tipicos brasileiros. Sempre atrasados, sempre causando disturbios, desacostumados à ordem européia (mesmo estando ha quase um ano na europa...). Sempre tentando dar um "jeitinho".
O dia seguinte tinha apenas uma grande atraçao nos planos: o Volo della Colombina. Aconteceria na Piazza San marco ao meio dia. Uma pessoa vestida de Colombina (neste ano, por alguma razao, mudaram para um anjo) desceria por um cabo da torre do campanario ao lado da Basilica de San Marco para os dois pilares na entrada da Piazza. Diziam os relatos antigos que a Colombina descia jogando flores na multidao e que, pelo modo como as flores caiam, podia-se prever se seria um ano bom ou ruim. Foi um espetaculo grandioso e cheio de gente. Dei um jeitinho (brasileiro, eu sei...) e subi nas colunas da basilica San Marco para fotografar acima das cabeças dos turistas. Mas, é claro, com a resoluçao poderosissima que eu tenho, so da pra ter uma idéia geral da coisa.


No fim do dia, Tintoretto!!
Sim, Tintoretto...
Quem?
Depois do Caravaggio, o Tintoretto foi meio entediante. O estilo de pintura era mais antigo e nao deu pra aprender muita coisa com ele, a nao ser pela historia de Santa Catarina (a santa, nao a cidade...). Sai de la apenas uns poucos euros mais pobre e tendo gastado nao mais do que meia hora... Rochelle nao apareceu, e acabei vendo a mostra sem ela, que estava acompanhando amigas nas compras.
Quando o domingo começou a mostrar sinais de fadiga e encaminhar-se para o fim, dei meu adeus à cidade vendo o desfile de roupas medievais. Lembrei do Irae: homens passavam trajando armaduras completas e carregando alabardas, bandeiras de heraldica complexa ou instrumentos.
Quando finalmente peguei o barco que me levaria de volta ao estacionamento do onibus, percebi que Veneza me passara uma mistura de sentimentos ja familiares junto com a novidade da cidade sobre a agua. Estava la a sensaçao de maravilha frente aos trajes que eu sentira comparecendo às convençoes de animaçao japonesa, com os otakus fantasiados como seus personagens favoritos. Estava la a sensaçao de folia carnavalesca que eu sentira desfilando na Aguias de Ouro anos atras. Estava la a importancia simbolica de ver verdadeiras obras de arte e nao copias digitais, que eu tivera recentemente visitando Caravaggio. Estava la uma sensaçao antiga, infantil, de mexer com passaros, animais vivos. Veneza fora a mistura de tudo isso e muito mais.
================================
Sessao informativa:
"Carnaval" deriva do latim "carne levare", em relaçao aos diar precedentes ao inicio da Quaresma, quando cessava o consumo da carne. O primeiro dia de carnaval é fixado de acordo com as prescriçoes eclesiasticas e pode ser no 1° de Janeiro, no 17 de Janeiro (dia de Santo Antonio) o no 2 de Fevereiro (festa da "Candelora" (?)) e continua até a quarta-feira de Cinzas (no rito ambrosiano, depois do primeiro domingo de Quaresma).
O carnaval esta entre as festas tradicionais da estaçao de inverno. As explosoes de alegria e o uso de mascaras tinham por finalidade afugentar os maus espiritos. A mascara, de fato, tornava o homem mais parecido com os animais, cedendo-lhe um poder simbolico e temporario sobre eles. Ha ainda a hipotese de que a "licensa sexual" praticada durante o carnaval tenha relaçao com rituais de fertilidade da terra. Outros costumes incluem a queima de bonecos como forma de retomar os sacrificios primitivos.
Na Roma antiga, o carnaval era conhecido como "Saturnalia", festa oferecida ao deus Saturno. Começavam no 17 de Dezembro e duravam sete dias. A festa iniciava-se com um grande banquete publico, seguido depois de festas de varios tipos, com todo tipo de excessos. Durante a Saturnalia, tudo era permitido, incluindo a troca de papeis, onde escravos se fantasiavam de reis, nobres de pobres, e etc. A unica coisa proibida eram os homens se fantasiarem de mulheres. Nesta tradiçao entrava também as mascaras, usadas para esconder o rosto de pessoas que queriam, por exemplo, criticar seus governantes, chefes, familiares e afins sem serem descobertos e punidos.
No Brasil, devido ao clima mais constante, a festa perdeu o conceito da passagem de inverno para primavera, os rituais de fertilidade da terra e etc. Mas toda a força da critica social, da folia de excessos antes da Quaresma e literalmente da "festa da carne" continuaram e até ganharam mais força.
O Carnaval de Veneza de hoje permanece dentro dos conceitos mais "artisticos", do baile de mascaras, de uma folia, digamos, mais comportada.
(Informaçoes extraidas do http://www.italiadonna.it)
Veneza. Fora meu sonho desde a infancia. A idéia de uma cidade construida sobre a agua me fascinava. Meu desejo infantil sempre fora nadar nos canais venezianos, que logo descobri serem sujos demais para isso. Além do mais, neste inv(f)erno, eu preferia ficar seco...
Poucas pessoas conhecidas na viagem. Dois rapazes e uma garota brasileiros; David, meu companheiro de casa; Olga, uma islandesa que eu conhecera no bar no dia anterior (e que me parecera latina pelo tanto que dançava...) e Rochelle, uma australiana de sardas. No outro onibus, imerso em amigos chineses, também ia Ken Shin, nosso filosofo chines. Era bom assim... Com os acontecimentos da semana passada, dar um tempo da turma e da overdose da garota suéca era uma boa pedida. Conhecer gente nova, ser feliz de novo.
Depois de Cesena, chegamos a uma rotatoria onde eu pude ver em meio à névoa, uma placa indicando Trieste (a névoa... por um momento, achei que estivesse de fato dentro dos desenhos de Alice, imerso na Brancura). Quem sabe em um outro fim de semana. Tantos lugares pra ir, tao pouco tempo...
Fiquei olhando pela janela com toda a atençao do mundo, pra ver o exato momento em que sairiamos de terra firme para as pontes e vielas venezianas. Aconteceu assim: entramos em uma parte industrial, cheia de fabricas e bastante poluiçao. De la, pegamos uma ponte loguissima sobre a agua e chegamos na ilha. Perguntando para nossa guia de viagem, soube que a historia era assim: o povo vivia em uma cidade na costa (o nome tem a ver com agua, mas nao me lembro: Aquea ou algo assim). Durante a queda do Sacro Império e as invasoes barbaras, a cidade fora completamente destruida. Os habitantes que sobraram fugiram para um pequeno aglomerado de ilhas, onde os ataques barbaros poderiam ser melhor repelidos, e ficaram por la. Mas à medida que a populaçao foi crescendo e se recusando a voltar para terra firme, tiveram que resolver o problema de moradia construindo casas sobre a agua, ligando uma pequena ilhota à outra e formando uma grande ilha chamada Veneza. Sempre me perguntei se Venezia flutuava. Mas pude ver claramente que nao: era firmemente apoiada em blocos de pedra.
A agua aqui era estranha. Era um verde-agua esquisito, meio triste. Tinha alguns poucos metros de visibilidade, suficiente para ver os degraus ja submersos (os dados nao sao claros: ja ouvi que a cidade afunda de 1 a 10 centimetros cada ano, mas ninguém me deu um numero preciso...).
O mapa que nossos guias nos deram era um emaranhado de linhas claras e escuras. As claras eram ruelas ainda mais estreitas que as de Perugia onde, obviamente, nao passava nenhum carro. As escuras eram os canais. A cidade era cortada por um grande canal de mais ou menos uns 500 metros de largura, onde trafegavam barcos maiores.
Nao, nao andei de gondola. Apesar do apelo amistoso dos gondoleiros de chapeu de palha com fitas coloridas, o preço era assustador: €60,00. Dava pra colocar até 6 pessoas na gondola, cada um pagando €10,00. Mas encontrar seis aventureiros foi complicado. E no fim, resolvi gastar meu dinheiro com outras coisas mais interessantes.
Uma delas, uma mascara! Afinal, eu estava em pleno carnaval veneziano, sem enfeite. Passava por lojas com mascaras elaboradissimas com brilho, partituras de musica coladas, pinturas da cidade. Mas o que mais me atraia eram, obviamente, as coisas relacionadas a leoes. Em uma loja em particular, uma mascara completa, pintada à perfeiçao, de um leao chegava a custar até €50,00. Em outra loja, uma capa com abotoaduras de cabeças do felino alcançava €150,00. Ah, quem dera... Acabei optando por algo mais pessoal (e economico, porque eu sou avarento mesmo): comprei uma pequenina mascara de gato de papel mache e gesso branco por €5,00, que eu poderia pintar em casa.
Naquele ponto, eu ja me perdera do resto da turma e estava sendo acompanhado apenas por Rochelle, a australiana de sardas. Também queria uma mascara e, ao saber da minha idéia, comprou uma branca também, para que eu pintasse. Mas como nao queria passar o carnaval sem mascara, levou-me pelas barraquinhas de vendedores perguntando qual ficava melhor para ela. Acabei aconselhando uma de um dourado meio verde (cores estranhas sao o forte de Veneza, né?), cheia de enfeites amarelos e marrons. Ficava perfeita com os olhos castanhos dela assistindo através da mascara, e o esverdeado contrastava com o castanho avermelhado dos cabelos.
Trajando nossas mascaras (a minha branca acabou combinando bastante com minha roupa preta e um chapéu de feltro barato que comprei por impulso), longe de sermos irreconheciveis, chegamos à Piazza San Marco depois de muito andar pelo labirinto veneziano. As pessoas tiravam fotos com eles. E eu observava os turistas folgados simplesmente se jogarem na frente deles e esperarem o flash das cameras de suas mulheres. Rochelle era mais sutil e respeitosa: colcoava-se de frente a eles, fazia-lhes uma saudaçao com a cabeça e perguntava "posso?". Alguns falavam entusiasmados que sim, por favor. Outros, mais no espirito da coisa, apenas estendiam-lhe a mao e abriam espaço entre os dois fantasiados. Ocorre-me agora que a unica foto que tirei com eles esta na maquina dela. Mandara por e-mail daqui a alguns dias. Mas tirei outras, so deles.
Breve noite sem grandes acontecimentos em um hotel fora da Ilha...
Fiquei no quarto com um dos irmaos brasileiros e a irma. O outro, arranjara-se em um quarto com a namorada americana. Tinham todo o cuidado de nao falar portugues perto dela, porque ela nao entendia nada, e até pediam desculpas a ela quando falavam qualquer coisa em portugues comigo sem querer. Mas o italiano, e mesmo o ingles dos rapazes era de dar pena... Achei bonitinho mesmo assim. Lauren, a americana, parecia entediada. Sorria de vez em nunca, mas era uma versao loira da Thora Birch de Beleza Americana.
Os brasileiros, por outro lado, eram os tipicos brasileiros. Sempre atrasados, sempre causando disturbios, desacostumados à ordem européia (mesmo estando ha quase um ano na europa...). Sempre tentando dar um "jeitinho".
O dia seguinte tinha apenas uma grande atraçao nos planos: o Volo della Colombina. Aconteceria na Piazza San marco ao meio dia. Uma pessoa vestida de Colombina (neste ano, por alguma razao, mudaram para um anjo) desceria por um cabo da torre do campanario ao lado da Basilica de San Marco para os dois pilares na entrada da Piazza. Diziam os relatos antigos que a Colombina descia jogando flores na multidao e que, pelo modo como as flores caiam, podia-se prever se seria um ano bom ou ruim. Foi um espetaculo grandioso e cheio de gente. Dei um jeitinho (brasileiro, eu sei...) e subi nas colunas da basilica San Marco para fotografar acima das cabeças dos turistas. Mas, é claro, com a resoluçao poderosissima que eu tenho, so da pra ter uma idéia geral da coisa.
No fim do dia, Tintoretto!!
Sim, Tintoretto...
Quem?
Depois do Caravaggio, o Tintoretto foi meio entediante. O estilo de pintura era mais antigo e nao deu pra aprender muita coisa com ele, a nao ser pela historia de Santa Catarina (a santa, nao a cidade...). Sai de la apenas uns poucos euros mais pobre e tendo gastado nao mais do que meia hora... Rochelle nao apareceu, e acabei vendo a mostra sem ela, que estava acompanhando amigas nas compras.
Quando o domingo começou a mostrar sinais de fadiga e encaminhar-se para o fim, dei meu adeus à cidade vendo o desfile de roupas medievais. Lembrei do Irae: homens passavam trajando armaduras completas e carregando alabardas, bandeiras de heraldica complexa ou instrumentos.
Quando finalmente peguei o barco que me levaria de volta ao estacionamento do onibus, percebi que Veneza me passara uma mistura de sentimentos ja familiares junto com a novidade da cidade sobre a agua. Estava la a sensaçao de maravilha frente aos trajes que eu sentira comparecendo às convençoes de animaçao japonesa, com os otakus fantasiados como seus personagens favoritos. Estava la a sensaçao de folia carnavalesca que eu sentira desfilando na Aguias de Ouro anos atras. Estava la a importancia simbolica de ver verdadeiras obras de arte e nao copias digitais, que eu tivera recentemente visitando Caravaggio. Estava la uma sensaçao antiga, infantil, de mexer com passaros, animais vivos. Veneza fora a mistura de tudo isso e muito mais.
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Sessao informativa:
"Carnaval" deriva do latim "carne levare", em relaçao aos diar precedentes ao inicio da Quaresma, quando cessava o consumo da carne. O primeiro dia de carnaval é fixado de acordo com as prescriçoes eclesiasticas e pode ser no 1° de Janeiro, no 17 de Janeiro (dia de Santo Antonio) o no 2 de Fevereiro (festa da "Candelora" (?)) e continua até a quarta-feira de Cinzas (no rito ambrosiano, depois do primeiro domingo de Quaresma).
O carnaval esta entre as festas tradicionais da estaçao de inverno. As explosoes de alegria e o uso de mascaras tinham por finalidade afugentar os maus espiritos. A mascara, de fato, tornava o homem mais parecido com os animais, cedendo-lhe um poder simbolico e temporario sobre eles. Ha ainda a hipotese de que a "licensa sexual" praticada durante o carnaval tenha relaçao com rituais de fertilidade da terra. Outros costumes incluem a queima de bonecos como forma de retomar os sacrificios primitivos.
Na Roma antiga, o carnaval era conhecido como "Saturnalia", festa oferecida ao deus Saturno. Começavam no 17 de Dezembro e duravam sete dias. A festa iniciava-se com um grande banquete publico, seguido depois de festas de varios tipos, com todo tipo de excessos. Durante a Saturnalia, tudo era permitido, incluindo a troca de papeis, onde escravos se fantasiavam de reis, nobres de pobres, e etc. A unica coisa proibida eram os homens se fantasiarem de mulheres. Nesta tradiçao entrava também as mascaras, usadas para esconder o rosto de pessoas que queriam, por exemplo, criticar seus governantes, chefes, familiares e afins sem serem descobertos e punidos.
No Brasil, devido ao clima mais constante, a festa perdeu o conceito da passagem de inverno para primavera, os rituais de fertilidade da terra e etc. Mas toda a força da critica social, da folia de excessos antes da Quaresma e literalmente da "festa da carne" continuaram e até ganharam mais força.
O Carnaval de Veneza de hoje permanece dentro dos conceitos mais "artisticos", do baile de mascaras, de uma folia, digamos, mais comportada.
(Informaçoes extraidas do http://www.italiadonna.it)
terça-feira, fevereiro 21, 2006
O burgo: altos e baixos
Lidar com uma cidade no alto da colina tem seus pros e contras. Ta certo que o clima é, geralmente, melhor do que o das cidades de la de baixo e a vista é maravilhosa. Mas ha sempre o problema da diferença de alturas. Porque a cidade começou no alto da colina, mas depois, como é normal para todas as cidades, se espalhou. Nesse caso, para baixo da colina. Como resolver o problema de ter que subir e descer a colina todos os dias?
Lembram-se de que u mencionei um elevador publico perto da casa de Linnea? Essa foi uma das opçoes. Um enorme elevador expresso que apenas subia para o alto da colina, ou descia para a base, sem escalas. A outra opçao, evoluida da soluçao arcaica de fazer lances quilométricos de escadas, foram as escadas rolantes. Sao também lances quilométricos, divididos em quatro ou cinco patamares. Tanto os elevadores como as escadas mostram seus sinais de desgaste pelo tempo, fazendo um cenario meio lugubre, mas que vem a calhar com a cidade de pedra.
O detalhe, no entanto, é que eles adotam a pratica ignobil dos italianos de fechar nas horas mais inoportunas. Leia-se depois das dez da noite, quando todo mundo vai para o bar encher a cara e depois tem que voltar cambaleando para casa. Pessoalmente, a unica vez que eu tentei pegar os caminhos alternativos depois que o elevador tinha fechado foi quando sai com Linnea. Nao recomendo.
Lembram-se de que u mencionei um elevador publico perto da casa de Linnea? Essa foi uma das opçoes. Um enorme elevador expresso que apenas subia para o alto da colina, ou descia para a base, sem escalas. A outra opçao, evoluida da soluçao arcaica de fazer lances quilométricos de escadas, foram as escadas rolantes. Sao também lances quilométricos, divididos em quatro ou cinco patamares. Tanto os elevadores como as escadas mostram seus sinais de desgaste pelo tempo, fazendo um cenario meio lugubre, mas que vem a calhar com a cidade de pedra.
O detalhe, no entanto, é que eles adotam a pratica ignobil dos italianos de fechar nas horas mais inoportunas. Leia-se depois das dez da noite, quando todo mundo vai para o bar encher a cara e depois tem que voltar cambaleando para casa. Pessoalmente, a unica vez que eu tentei pegar os caminhos alternativos depois que o elevador tinha fechado foi quando sai com Linnea. Nao recomendo.
Pois é... como eu imaginava, a galera mais descolada votou nas quatro meninas de longe, e a galera mais sossegada acabou votando na galera do centro. De qualquer forma, levando em consideraçao novos fatos e opinioes da galera por aqui, acabei vendo que morar no lugar longe do centro ia complicar severamente a minha vida. Mas pra explicar isso, terei que escrever um pouco mais sobre o burgo. Vide proximo texto...
Respondendo as perguntas:
• Mae: a paraguaia com a maquina de lavar foi desbancada pelos italianos. Porque eles também tem maquina de lavar, sao em média uns €30,00 mais baratos (sem falar que até agora nao ouvi falar de depositos além do aluguel...) e, obvio, falam italiano.
Quanto ao carnaval de Veneza, foi onde eu passei o fim de semana 3. Mas o texto a respeito vira so daqui a uns dias. Muito aconteceu e tem descriçoes belissimas que precisam ser refinadas.
• Lee: minha cara, eu prefiro os furacoes sim. Voce bem sabe. Mas o caso é que acabei descobrindo outros aspectos desse lugar longinquo que em nada me agradaram: o caminho que eu tomaria para voltar para casa tarde da noite, depois das baladas, fecha a uma certa hora da noite, forçando-me a tomar um caminho ainda maior, semi-bebado e sonolento... Vou escrever sobre essas particularidades de Perugia, esses caminhos que fecham, pra voce ter uma idéia. Nao ia rolar.
• Lala's: actually... nao, eu nao sei qual voce escolheria.
• Gabe: quanto a ficar mais perto da Linnea, as coisas estao mudando... Espere relatos do fim de semana.
Respondendo as perguntas:
• Mae: a paraguaia com a maquina de lavar foi desbancada pelos italianos. Porque eles também tem maquina de lavar, sao em média uns €30,00 mais baratos (sem falar que até agora nao ouvi falar de depositos além do aluguel...) e, obvio, falam italiano.
Quanto ao carnaval de Veneza, foi onde eu passei o fim de semana 3. Mas o texto a respeito vira so daqui a uns dias. Muito aconteceu e tem descriçoes belissimas que precisam ser refinadas.
• Lee: minha cara, eu prefiro os furacoes sim. Voce bem sabe. Mas o caso é que acabei descobrindo outros aspectos desse lugar longinquo que em nada me agradaram: o caminho que eu tomaria para voltar para casa tarde da noite, depois das baladas, fecha a uma certa hora da noite, forçando-me a tomar um caminho ainda maior, semi-bebado e sonolento... Vou escrever sobre essas particularidades de Perugia, esses caminhos que fecham, pra voce ter uma idéia. Nao ia rolar.
• Lala's: actually... nao, eu nao sei qual voce escolheria.
• Gabe: quanto a ficar mais perto da Linnea, as coisas estao mudando... Espere relatos do fim de semana.
segunda-feira, fevereiro 20, 2006
Voce decide
O negocio é o seguinte:
O quarto onde eu estou atualmente é caro demais para pagar mais um mes sem enlouquecer com o tanto de dinheiro que eu gasto. Ainda mais porque tenho andado por ai e visto quartos tao bons quanto por €100,00 a menos. Entao, depois de muito procurar, entrar em becos escusos, falar com gente estranha e até com sosias da Vera Drake, encontrei duas opçoes para habitar no mes que vem. Como nao consegui me decidir por nenhuma delas, resolvi jogar a batata quente na mao de voces, que estao assistindo a este filme e podem agora resolver o destino do seu anti-heroi.
O primeiro lugar é habitado por duas meninas e dois rapazes, todos italianos. Fica perto do Corso Vannucci, portanto perto do centro do burgo onde tudo acontece. Conheci apenas as meninas até agora. Sao boazinhas, gente de bem, muito simpaticas e solicitas. Mais ou menos o tipo de gente que é a minha turma de colégio no Brasil. No entanto, fazem um verdadeiro caos na casa. Roupas jogadas por ai, coisas espalhadas, enfim... Desde que nao desarrumem minhas coisas, ta otimo. O quarto é pequeno, mas eu sou um claustrofilo e nao tenho tanta coisa assim para povoar um quarto grande.
O segundo quarto, tres euros mais barato apenas, é em uma casa habitada por quatro meninas italianas (e dois cachorros...). Sao pessoas mais descoladas, que me lembram muito as meninas do atelie da FAAP (e que portanto nao se assustariam com as minhas bizarrices...). O quarto é bem maior e com uma vista maravilhosa. As meninas sao levemente mais organizadas. Um problema: fica bem longe. Percebi que eu havia conhecido metade da cidade nestas tres semanas e, claro, o quarto fica na outra metade. E toca andar todo dia de manha...
Em qualquer das opçoes, eu serei de uma forma ou de outra o mascote deles, o estrangeirinho que eles estao cuidando. Resta saber entao se fico com o quarto pequeno das meninas boazinhas no centro da cidade, ou com o quarto grande das meninas descoladas onde Judas perdeu as cuécas.
No final... voce decide.
O quarto onde eu estou atualmente é caro demais para pagar mais um mes sem enlouquecer com o tanto de dinheiro que eu gasto. Ainda mais porque tenho andado por ai e visto quartos tao bons quanto por €100,00 a menos. Entao, depois de muito procurar, entrar em becos escusos, falar com gente estranha e até com sosias da Vera Drake, encontrei duas opçoes para habitar no mes que vem. Como nao consegui me decidir por nenhuma delas, resolvi jogar a batata quente na mao de voces, que estao assistindo a este filme e podem agora resolver o destino do seu anti-heroi.
O primeiro lugar é habitado por duas meninas e dois rapazes, todos italianos. Fica perto do Corso Vannucci, portanto perto do centro do burgo onde tudo acontece. Conheci apenas as meninas até agora. Sao boazinhas, gente de bem, muito simpaticas e solicitas. Mais ou menos o tipo de gente que é a minha turma de colégio no Brasil. No entanto, fazem um verdadeiro caos na casa. Roupas jogadas por ai, coisas espalhadas, enfim... Desde que nao desarrumem minhas coisas, ta otimo. O quarto é pequeno, mas eu sou um claustrofilo e nao tenho tanta coisa assim para povoar um quarto grande.
O segundo quarto, tres euros mais barato apenas, é em uma casa habitada por quatro meninas italianas (e dois cachorros...). Sao pessoas mais descoladas, que me lembram muito as meninas do atelie da FAAP (e que portanto nao se assustariam com as minhas bizarrices...). O quarto é bem maior e com uma vista maravilhosa. As meninas sao levemente mais organizadas. Um problema: fica bem longe. Percebi que eu havia conhecido metade da cidade nestas tres semanas e, claro, o quarto fica na outra metade. E toca andar todo dia de manha...
Em qualquer das opçoes, eu serei de uma forma ou de outra o mascote deles, o estrangeirinho que eles estao cuidando. Resta saber entao se fico com o quarto pequeno das meninas boazinhas no centro da cidade, ou com o quarto grande das meninas descoladas onde Judas perdeu as cuécas.
No final... voce decide.
Eh uma coisa estranha estar imerso em tantas linguagens, muitas desconhecidas. Viajando com a turma da Università, fecho os olhos e ouço uma profusao de sons em idiomas europeus, cheios de "h"s e vogais. Nao ouso dizer que ouço palavras porque palavras tem um começo e um fim e o que ouço sao fluxos ininterruptos de sons incompreensiveis. Vez por outra, um pequeno conjunto de sons se destaca do murmurio e quase magicamente adquire sentido. Sao os mesmo sons que os outros, mas colocados em uma ordem que me diz alguma coisa ("...the last time you were sick..."). Até a grafia das palavras surge na cabeça ("sick" e nao "sic" ou "cic"), um suspiro de alivio e familiaridade de uma mente confusa.
A experiencia faz-me compreender como deve parecer estranho o som do portugues para estas pessoas. Por um momento, tento ouvir os brasileiros falando e ignorar o significado dos sons, ouvi-los como ouço os alemaes, russos, suecos.
Percebo ainda que, praticando tantos idiomas ao mesmo tempo, as palavras começam a ter seu sentido proprio. "Sick" nao é traduzido para "doente". Continua sendo apenas "sick", com seu sentido proprio. Da mais trabalho hoje decifrar qual é o idioma em que estou falando do que traduzir as palavras para um outro, uma pratica que ormai ja se tornou inutil... ;)
A experiencia faz-me compreender como deve parecer estranho o som do portugues para estas pessoas. Por um momento, tento ouvir os brasileiros falando e ignorar o significado dos sons, ouvi-los como ouço os alemaes, russos, suecos.
Percebo ainda que, praticando tantos idiomas ao mesmo tempo, as palavras começam a ter seu sentido proprio. "Sick" nao é traduzido para "doente". Continua sendo apenas "sick", com seu sentido proprio. Da mais trabalho hoje decifrar qual é o idioma em que estou falando do que traduzir as palavras para um outro, uma pratica que ormai ja se tornou inutil... ;)
A dança
O Italiano é como uma dança: ele precisa fluir livre. Ele nao quebra as regras de gramatica, mas as modifica no melhor espirito "disciplina é liberdade". Como dançar forro: pode-se aprender o "dois pra la, dois pra ca" basico. Sera o suficiente para tomar uma garota pela mao e se entreter um pouco. E nao se aprende mais do que isso com explicaçoes e livros didaticos. Mas quem tem a prativa de anos nas duas coisas chega a um outro nivel. Gira a garota e a puxa pela outra mao para que gire ao contrario, faz-lhe um toque nas costas e ela sabe para que lado deve ir, pisa a esmo e aparentemente sem ordem, e parece tudo belissimo, ainda que incompreendivelmente caotico. Mas se prestarmos atençao, veremos que esta sempre dentro do ritmo e ainda, que o entende inconscientemente. Acaba sendo sempre um complexo floreado em cima do "dois pra la, dois pra ca". Falar o bom italiano é também assim: fluir, modificar a palavra, a terminaçao do verbo, usar palavras sem objetivo de sintaxe, tudo para procurar um som mais bonito, uma harmonia entre as palavras. Mas sempre dentro das regras basicas. Precisa-se de uma familiaridade com as palavras, coisa que so se adquire com muito tempo e pratica.
Esse é um ponto onde o livro didatico ja nao é suficiente.
Conversando com pessoas que me perguntam da minha facilidade com idiomas, acabo me dando conta de alguns quesitos basicos pra aprender uma lingua (ou pelo menos pra parecer que voce sabe falar direito...).
• Vocabulario: porque é claro que, se voce nao sabe as palavras, nao importa como voce fala. Trata-se de um quesito que vai crescer rapido no começo e diminuir o passo à medida em que voce vai dominando a lingua.
• Modo de pensar as palavras: é uma coisa que professor ou livro didatico nenhum ensina. Cada idioma tem uma logica propria, que muitas vezes nao faz sentido para os outros idiomas. Por exemplo, o modo como o ingles coloca os adjetivos antes dos substantivos e as linguas latinas os colocam depois. Nao tem explicaçao. Simplesmente é assim. Mas se voce aprende esses modos de pensar, fica muito mais facil ouvir quando a frase esta errada ou ainda chutar uma composiçao de frase que voce nao conhece.
• Melodia: é a forma mais comum de identificar um estrangeiro. Porque ele pode falar tudo corretamente, mas se nao canta a frase na melodia correta, da até pra saber de que pais ele é. Cada idioma tem sua musica. O italiano tem um começo em um tom qualquer, que em seguida sobe bastante no meio da frase e volta a descer no fim. Os rapazes jovens falam um italiano meio fora de ritmo, como uma Bossa Nova. Detem-se uma fraçao de segundo a mais nas consoantes duplicadas de algumas palavras como bello ou Caravaggio.
Esse é um ponto onde o livro didatico ja nao é suficiente.
Conversando com pessoas que me perguntam da minha facilidade com idiomas, acabo me dando conta de alguns quesitos basicos pra aprender uma lingua (ou pelo menos pra parecer que voce sabe falar direito...).
• Vocabulario: porque é claro que, se voce nao sabe as palavras, nao importa como voce fala. Trata-se de um quesito que vai crescer rapido no começo e diminuir o passo à medida em que voce vai dominando a lingua.
• Modo de pensar as palavras: é uma coisa que professor ou livro didatico nenhum ensina. Cada idioma tem uma logica propria, que muitas vezes nao faz sentido para os outros idiomas. Por exemplo, o modo como o ingles coloca os adjetivos antes dos substantivos e as linguas latinas os colocam depois. Nao tem explicaçao. Simplesmente é assim. Mas se voce aprende esses modos de pensar, fica muito mais facil ouvir quando a frase esta errada ou ainda chutar uma composiçao de frase que voce nao conhece.
• Melodia: é a forma mais comum de identificar um estrangeiro. Porque ele pode falar tudo corretamente, mas se nao canta a frase na melodia correta, da até pra saber de que pais ele é. Cada idioma tem sua musica. O italiano tem um começo em um tom qualquer, que em seguida sobe bastante no meio da frase e volta a descer no fim. Os rapazes jovens falam um italiano meio fora de ritmo, como uma Bossa Nova. Detem-se uma fraçao de segundo a mais nas consoantes duplicadas de algumas palavras como bello ou Caravaggio.
sexta-feira, fevereiro 17, 2006
Primeiras chances
As coisas por aqui acontecem mais rapido do que eu consigo escrever. E duas, tres ao mesmo tempo.
Enquanto a novela com Linnea acontecia, uma outra historia estava rolando nos bastidores: minha eterna busca pela outra ponta do Laço de Alice, o emprego. Quando escrevi que o dia havia sido cheio de pequenos afazeres, era isso que eu fazia.
A primeira chance que tive veio, claro, do bar brasileiro. Vendo que eu trouxera tanta gente no primeiro dia, Felipe ficou com uma boa impressao de mim. Poucos dias depois, me apareceu com uma proposta assustadora: "pegue a proxima quarta-feira. A balada é sua: voce organiza, voce pensa na promoçao, voce escolhe a garçonete". SOCORRO! A ferida das baladas de despedida começou a doer de novo.
Mas aqui na Italia, havia um outro sentimento: eu sabia que o desafio era muito maior do que eu. Eu nunca havia feito algo tao grande. Mas queria tentar. Acima de tudo, queria o desafio. Em Sao Paulo, eu havia estudado e me preparado para coisas muito especificas: desenho, arte, design de publicidade. Aqui, eu queria os desafios para os quais eu nao tinha preparo algum, so a propria cabeça.
A garçonete foi facil de escolher: Fernandinha, que nos servira no dia em que eu levei a galera, e era toda entusiasmo.
A musica foi um problema, mas quando a vida te da limoes, voce faz uma caipirinha: eu trouxera apenas CDs de pop brasileiro (Cazuza, Marina Lima, Adriana Calcanhotto, Lenine...). Entao resolvi que a festa daria uma remexida na programaçao normal do Copacabana, que so tocava samba e bossa nova. Serata di pop rock brasiliano dizia o flyer que eu produzi, no Photoshop ao qual eu so tinha acesso durante as manhas, no horario de aula...
No dia, pequenos problemas técnicos: o CD de MP3 nao tocava no aparelhos deles, alguns dos meus amigos nao sabiam onde era o Copacabana, o aparelho que tocava o tal CD de MP3 (emprestado da discoteca vizinha) tinha que ser devolvido depois da meia-noite... Tudo resolvido com jeitinho brasileiro, a balada foi boa. Felipe me jogou na mesa de som e, pela primeira vez na vida, eu fiquei encarregado da musica. Pessoalmente, acho que fiz um trabalho decente, assim que consegui pegar o jeito de passar de uma musica para a outra sem interromper o som. O rock trazia pessoas do restaurante para o bar e entusiasmava os brasileiros, que sentiam um saudosismo pela musica antiga. Fernandinha mesmo servia as mesas quase dançando. Christos, o grego, curtiu o instrumental e voz da Adriana Calcanhotto.
Pouca gente veio. Felipe tranquilizava-me dizendo que a primeira noite é assim mesmo. Insinuado na frase estava um convite de talvez fazer isso na proxima semana também.
Ao longo dos outros dias, Felipe me chamou para outros pequenos serviços: distribuiçao de flyers, na maioria das vezes. Me pagava pouco e às vezes com um bom almoço. Eu queria algo mais fixo, que me pagasse um pouco mais. E comecei a cogitar se, de fato, fazer os bicos para o Copacabana nao estava me tomando tempo que seria mais bem utilizado procurando em outros lugares... Afinal, pelo andar da carruagem e pela quantidade de gente ja trabalhando la, eu sabia que eles jamais me efetuariam para, por exemplo, servir mesas: um trabalho onde eu receberia mais grana e teria horarios mais certos, especificos.
Outro dia, andando pelo Corso Vannucci, uma garota me abordou para fazer pesquisa de opiniao e me oferecer uma promoçao de uma livrara. Ao saber que eu era estudante e procurava emprego, me agendou uma entrevista na livraria. O emprego, apesar de me instigar com desafios similares em grandeza à proposta do Felipe, era o tipo de serviço que eu jurei nunca fazer: incomodar gente na rua pra fazer pesquisa de opiniao, tentar empurrar uma promoçao na qual eles nao estavam muito interessados, esse tipo de coisa... Cogitei por um dia inteiro se aceitaria. Precisava de um emprego. Mas os meus horarios de aula encerraram a questao: calculados, eu so conseguiria trabalhar dois dias na semana...
Por fim, andando pelas ruas, encontrei uma agencia chamada "Informagiovanni" (Informa-jovens), onde eu poderia deixar um pequeno curriculo para trabalhos sazonais. Vou me inscrever hoje. Quem sabe...
Ja para a semana que vem, resolvi ser um pouco mais agressivo com toda a coisa dos bares: farei hoje mesmo um pequeno curriculo bem humorado para deixar nos estabelecimentos. Muita gente me sugeriu isso e concordo: é muito mais incisivo (como é que se escreve mesmo?) do que simplesmente entrar e pedir emprego como se fosse um mendigo pedindo esmola...
Pois é... Tenho que botar a vida em ordem por aqui depois de toda a novela amorosa.
Enquanto a novela com Linnea acontecia, uma outra historia estava rolando nos bastidores: minha eterna busca pela outra ponta do Laço de Alice, o emprego. Quando escrevi que o dia havia sido cheio de pequenos afazeres, era isso que eu fazia.
A primeira chance que tive veio, claro, do bar brasileiro. Vendo que eu trouxera tanta gente no primeiro dia, Felipe ficou com uma boa impressao de mim. Poucos dias depois, me apareceu com uma proposta assustadora: "pegue a proxima quarta-feira. A balada é sua: voce organiza, voce pensa na promoçao, voce escolhe a garçonete". SOCORRO! A ferida das baladas de despedida começou a doer de novo.
Mas aqui na Italia, havia um outro sentimento: eu sabia que o desafio era muito maior do que eu. Eu nunca havia feito algo tao grande. Mas queria tentar. Acima de tudo, queria o desafio. Em Sao Paulo, eu havia estudado e me preparado para coisas muito especificas: desenho, arte, design de publicidade. Aqui, eu queria os desafios para os quais eu nao tinha preparo algum, so a propria cabeça.
A garçonete foi facil de escolher: Fernandinha, que nos servira no dia em que eu levei a galera, e era toda entusiasmo.
A musica foi um problema, mas quando a vida te da limoes, voce faz uma caipirinha: eu trouxera apenas CDs de pop brasileiro (Cazuza, Marina Lima, Adriana Calcanhotto, Lenine...). Entao resolvi que a festa daria uma remexida na programaçao normal do Copacabana, que so tocava samba e bossa nova. Serata di pop rock brasiliano dizia o flyer que eu produzi, no Photoshop ao qual eu so tinha acesso durante as manhas, no horario de aula...
No dia, pequenos problemas técnicos: o CD de MP3 nao tocava no aparelhos deles, alguns dos meus amigos nao sabiam onde era o Copacabana, o aparelho que tocava o tal CD de MP3 (emprestado da discoteca vizinha) tinha que ser devolvido depois da meia-noite... Tudo resolvido com jeitinho brasileiro, a balada foi boa. Felipe me jogou na mesa de som e, pela primeira vez na vida, eu fiquei encarregado da musica. Pessoalmente, acho que fiz um trabalho decente, assim que consegui pegar o jeito de passar de uma musica para a outra sem interromper o som. O rock trazia pessoas do restaurante para o bar e entusiasmava os brasileiros, que sentiam um saudosismo pela musica antiga. Fernandinha mesmo servia as mesas quase dançando. Christos, o grego, curtiu o instrumental e voz da Adriana Calcanhotto.
Pouca gente veio. Felipe tranquilizava-me dizendo que a primeira noite é assim mesmo. Insinuado na frase estava um convite de talvez fazer isso na proxima semana também.
Ao longo dos outros dias, Felipe me chamou para outros pequenos serviços: distribuiçao de flyers, na maioria das vezes. Me pagava pouco e às vezes com um bom almoço. Eu queria algo mais fixo, que me pagasse um pouco mais. E comecei a cogitar se, de fato, fazer os bicos para o Copacabana nao estava me tomando tempo que seria mais bem utilizado procurando em outros lugares... Afinal, pelo andar da carruagem e pela quantidade de gente ja trabalhando la, eu sabia que eles jamais me efetuariam para, por exemplo, servir mesas: um trabalho onde eu receberia mais grana e teria horarios mais certos, especificos.
Outro dia, andando pelo Corso Vannucci, uma garota me abordou para fazer pesquisa de opiniao e me oferecer uma promoçao de uma livrara. Ao saber que eu era estudante e procurava emprego, me agendou uma entrevista na livraria. O emprego, apesar de me instigar com desafios similares em grandeza à proposta do Felipe, era o tipo de serviço que eu jurei nunca fazer: incomodar gente na rua pra fazer pesquisa de opiniao, tentar empurrar uma promoçao na qual eles nao estavam muito interessados, esse tipo de coisa... Cogitei por um dia inteiro se aceitaria. Precisava de um emprego. Mas os meus horarios de aula encerraram a questao: calculados, eu so conseguiria trabalhar dois dias na semana...
Por fim, andando pelas ruas, encontrei uma agencia chamada "Informagiovanni" (Informa-jovens), onde eu poderia deixar um pequeno curriculo para trabalhos sazonais. Vou me inscrever hoje. Quem sabe...
Ja para a semana que vem, resolvi ser um pouco mais agressivo com toda a coisa dos bares: farei hoje mesmo um pequeno curriculo bem humorado para deixar nos estabelecimentos. Muita gente me sugeriu isso e concordo: é muito mais incisivo (como é que se escreve mesmo?) do que simplesmente entrar e pedir emprego como se fosse um mendigo pedindo esmola...
Pois é... Tenho que botar a vida em ordem por aqui depois de toda a novela amorosa.
So, how's the weather?
Peguei alguns poucos dias de chuva por aqui. Foi, de certa forma, uma novidade.
No Brasil, nao me importava com a chuva. Gostava mesmo de sair sem proteçao e voltar enxarcado, andar por ai como se eu nao me importasse com a agua, sentir a umidade nas roupas evaporando aos poucos. Afinal, era so agua mesmo.
A diferença, por aqui, sao alguns graus de temperatura. Porque a chuva é gélida e o tempo nao ajuda muito. Ficar molhado por aqui pode ser um perigo. De forma que, assim que tive um pouco de dinheiro extra, comprei um pequeno guarda-chuva.
Os dias chuvosos cobre Perugia de uma névoa densa e persistente, que dura o dia inteiro. As britanicas da classe dizem que é ainda mais densa que o fog londrino. De fato, posso ver apenas a pequena arvore na frente da minha janela. O resto é uma imensa tela branca, que parece pedir que eu pinte a paisagem de novo, de memoria. Ai, que preguiça...
Durante a noite, as luzes da iluminaçao publica difundem seu clarao na névoa, lembrando muito as pinturas do Van Gogh e aumentando seu poder de ofuscar a vista.
Tudo fica molhar por mais ou menos dois dias inteiros. O frio é intensificado.
Passada a chuva, parece-me que os dias tem sido gradual, mas sensivelmente mais quentes. Ja nao tenho qualquer esperança de voltar a ver neve. Mas nao importa. Como é bom nao ter que vestir tanta roupa... Anseio pela primavera, mesmo sabendo que vou sentir saudade das pessoas bem vestidas. Sabe, é diferente do Brasil: la, as pessoas se vestem bem por questao estética, ja que o frio brasileiro nao exige tanto assim das vestimetas. Aqui, as pessoas se vestem bem por necessidade. As roupas de inverno aqui sao feitas para esquentar bastante, serem faceis de tirar e por (porque cada vez que voce entra em um lugar, tem que tirar duas, tres camadas de roupa...), e permitir movimento. Da pra perceber quem é estrangeiro de pais quente, porque vestem casacos grandes e volumosos, e nem conseguem mexer os braços. Ou ainda: enrolam o cachecol em volta do pescoço de qualquer jeito, porque nunca usaram um cachecol na vida. Eu rapidamente aprendi a dar o no a la italiana no meu, pra parecer menos turista...
Que venha a primavera!
No Brasil, nao me importava com a chuva. Gostava mesmo de sair sem proteçao e voltar enxarcado, andar por ai como se eu nao me importasse com a agua, sentir a umidade nas roupas evaporando aos poucos. Afinal, era so agua mesmo.
A diferença, por aqui, sao alguns graus de temperatura. Porque a chuva é gélida e o tempo nao ajuda muito. Ficar molhado por aqui pode ser um perigo. De forma que, assim que tive um pouco de dinheiro extra, comprei um pequeno guarda-chuva.
Os dias chuvosos cobre Perugia de uma névoa densa e persistente, que dura o dia inteiro. As britanicas da classe dizem que é ainda mais densa que o fog londrino. De fato, posso ver apenas a pequena arvore na frente da minha janela. O resto é uma imensa tela branca, que parece pedir que eu pinte a paisagem de novo, de memoria. Ai, que preguiça...
Durante a noite, as luzes da iluminaçao publica difundem seu clarao na névoa, lembrando muito as pinturas do Van Gogh e aumentando seu poder de ofuscar a vista.
Tudo fica molhar por mais ou menos dois dias inteiros. O frio é intensificado.
Passada a chuva, parece-me que os dias tem sido gradual, mas sensivelmente mais quentes. Ja nao tenho qualquer esperança de voltar a ver neve. Mas nao importa. Como é bom nao ter que vestir tanta roupa... Anseio pela primavera, mesmo sabendo que vou sentir saudade das pessoas bem vestidas. Sabe, é diferente do Brasil: la, as pessoas se vestem bem por questao estética, ja que o frio brasileiro nao exige tanto assim das vestimetas. Aqui, as pessoas se vestem bem por necessidade. As roupas de inverno aqui sao feitas para esquentar bastante, serem faceis de tirar e por (porque cada vez que voce entra em um lugar, tem que tirar duas, tres camadas de roupa...), e permitir movimento. Da pra perceber quem é estrangeiro de pais quente, porque vestem casacos grandes e volumosos, e nem conseguem mexer os braços. Ou ainda: enrolam o cachecol em volta do pescoço de qualquer jeito, porque nunca usaram um cachecol na vida. Eu rapidamente aprendi a dar o no a la italiana no meu, pra parecer menos turista...
Que venha a primavera!
quarta-feira, fevereiro 15, 2006
Vackra flicka (parte 3)
O que fazer depois disso? Parece-me que, ainda mais complicadas do que as situaçoes amorosas, sao aquelas em que as coisas nao vao bem. Linnea nao veio à aula no dia seguinte. Alegava, pelo SMS, um ataque fulminante de labirintite que a deixara de cama toda a manha. Nao soube ao certo o que pensar disso. Nao achava que o quiproquo do dia anterrior tivesse-a levado a mentir para mim sobre seu estado de saude, mas estava ciente de que ter que lidar com dois rapazes apaixonados na classe todos os dias, provavelmente nao sentindo o mesmo por nenhum dos dois, nao era a situaçao mais confortavel. Ainda se fosse so eu, seria aturavel e até divertido. Mas desse jeito, ambos competindo de forma tao direta por atençao, ficava maçante.
Imaginei que talvez fosse hora de deixa-la em paz um pouco. Mas logo entao soube que a terça era o dia de Sao Valentino. Mais do que isso: a quarta seguinte era seu aniversario. Maldiçao... Porque nao adiara a saida do dia anterior? Seria perfeito. Pois bem, precisava fazer algo, ainda que mais sutil.
Aqui, todo mundo so conversa por SMS:
- "Esta se sentindo melhor, garota suéca?"
- "Sim. Mas cometi o erro de dormir o dia inteiro"
Meu coraçao se acalmou. Porque mentir sobre a labirintite era uma coisa, mas florea-lo com detalhes como o dela ter dormido o dia inteiro, significava uma de duas coisas: ou ela me dizia a verdade, ou sabia mentir direito. Porque a boa mentira é rica em detalhes aparentemente insignificantes, mas que dao um toque de verossimilhança. Preferi acreditar na primeira opçao.
- "Voce esta em casa?" perguntei.
Neste ponto, eu ja estava na frente do prédio dela. Coisa de stalker. Trazia em um dos bolsos internos do meu casaco o pacotinho azul. Seria uma coisa rapida. Deixaria o pacotinho e ela nem precisaria me ver.
A menos, é claro, que ela nao estivesse mais em casa.
A resposta do SMS demorou para vir. Demorou mesmo. E nada. Entao dei meia volta e comecei meu dolorido caminho para casa. Porque pra mim, essa demora toda dizia apenas uma coisa: me deixe em paz.
Nao moro muito perto dela. Pego um quarteirao da XX Settembre (o predio dela é logo na curva), e entao é uma caminhada de uns cinco minutos até a rotatoria na ponta da regiao de Monteluce. Na rotatoria, mais cinco minutos percorrento a Pinturricchio até o Palazzo Gallenga, e entao sao outros cinco minutos pelo estreito Corso Garibaldi até a esquina com a Via Sperandio, que me leva para fora das muralhas do burgo e para minha casinha na encosta da colina. Fiz todo o caminho aferrado ao celular, esperando sentir a vibraçao de uma mensagem recebida. E nada. Ao lado de minha casa, olhando para as luzes das outras cidades la em baixo e lembrando dos tantos casais pelos quais passei no caminho, murmurei: "Minha inveja e minha bençao a todos os casais desta noite". Cheguei em casa a tempo de ver Soo saindo com uma garota coreana. Até tu, Soo...
Ninguém em casa. Larguei o celular na pequena mesinha de madeira e enchi uma panela de agua para fazer um solitario jantar.
E entao o barulho inconfundivel de um celular vibrando sobre madeira me assustou. Saltei sobre o aparelho:
- "Sim"
O que eu faço com essa menina?
- "Queria apenas lhe dar uma coisa. Nao te perturbo esta noite. A menos que voce queira sair..."
Vesti o casaco novamente, deixando a panela cheia d'agua na mesa e estava na rua em cinco minutos.
- "Mas que coisa? é muito longe para voce vir até aqui a essa hora!"
- "Managgia! Sao so 15 minutos. It's worth it ;) E alias, eu ja sai de casa"
- "Certo, faça como achar melhor."
De novo o mesmo caminho: Corso Garibaldi, Palazzo Gallenga, Via Pinturricchio, rotatoria de Monteluce, Via XX Settembre. Pelo caminho, ficava pensando exatamente como iria fazer aquilo. Queria que o fato dela nao me ver fosse entendido como um sinal de respeito, de que nao queria ser inoportuno. Para minha sorte, quatro garotas estavam na porta do predio. O golpe de sorte me pegou tao de sorpresa, que até errei a conjugaçao verbal: "Alguma de voces abitam aqui?". Me corrigiram com doçura, perguntando-me porque. "Quero apenas deixar uma coisa" falei, abrindo o casaco para mostrar o pacotinho azul. Enterneceram-se.
Linnea recebeu mais um SMS:
- "Deixei-o ao lado da porta. Voce pode descer para pegar? Diga-me depois se o encontrou."
Ela desce as escadas, achando tudo aquilo meio tolo. Encontra o pacotinho azul encostado na porta branca. Cogita abrir a porta para espiar, mas apenas pega o pacote e sobe de volta, abrindo-o no caminho. Nele, encontra um chaveiro: um leaozinho de pelucia com uma juba despenteada. O Bacci cai do pacote nas escadas e ela o pega, ja sabendo que encontraria um dentro do pacote. Por fim, sente ainda um pequeno volume, um bilhete cuidadosamente dobrado de uma forma estranha, até um pouco dificil de abrir. Começa a ler depois de ter aberto a porta de casa:
"Vackra flicka (ainda nao tenho certeza de como se escreve...)
Tinha duvidas de se deveria dar este presente hoje, no dia de Sao Valentino; ou amanha, no dia de seu aniversario. Encontrei este leaozinho na loja onde comprei a tela de pintura. Despenteado desse jeito, me lembra de voce. Gostei dele também porque, talvez ja tenha dito, meu sobrenome quer dizer 'leao' em portugues. Envio também um Bacci (plural de "beijo" em italiano): este, de chocolate, acho que voce nao negara.
Sorry for rushing into things yesterday.
Brasileiro tolo"
Ja dentro de casa, ela vai até a janela, explicando para as amigas curiosas o que é que o maldito brasileiro queria numa hora dessas. Do outro lado da rua, numa das ruelas, ja longe da casa dela e tomando outro caminho do que o de sempre, eu tenho por um momento uma vista das janelas do predio por entre as casas antigas peruginas. Fico imaginando qual das janelas é a dela. Se talvez é aquela com a silhueta espiando por entre as persianas.
- "Recebi sim. Obrigada! Seu bobo!"
- "Sei que sou. Nos vemos amanha."
O que mudaria a partir daqui?
O desenho de Linnea neste post foi feito durante a aula, unico momento em que aquela menina para quieta o suficiente para ser desenhada. Ainda assim, é muito simples, e apenas da uma noçao difusa de como ela é. Posso fazer melhor.
Imaginei que talvez fosse hora de deixa-la em paz um pouco. Mas logo entao soube que a terça era o dia de Sao Valentino. Mais do que isso: a quarta seguinte era seu aniversario. Maldiçao... Porque nao adiara a saida do dia anterior? Seria perfeito. Pois bem, precisava fazer algo, ainda que mais sutil.
Aqui, todo mundo so conversa por SMS:
- "Esta se sentindo melhor, garota suéca?"
- "Sim. Mas cometi o erro de dormir o dia inteiro"
Meu coraçao se acalmou. Porque mentir sobre a labirintite era uma coisa, mas florea-lo com detalhes como o dela ter dormido o dia inteiro, significava uma de duas coisas: ou ela me dizia a verdade, ou sabia mentir direito. Porque a boa mentira é rica em detalhes aparentemente insignificantes, mas que dao um toque de verossimilhança. Preferi acreditar na primeira opçao.
- "Voce esta em casa?" perguntei.
Neste ponto, eu ja estava na frente do prédio dela. Coisa de stalker. Trazia em um dos bolsos internos do meu casaco o pacotinho azul. Seria uma coisa rapida. Deixaria o pacotinho e ela nem precisaria me ver.
A menos, é claro, que ela nao estivesse mais em casa.
A resposta do SMS demorou para vir. Demorou mesmo. E nada. Entao dei meia volta e comecei meu dolorido caminho para casa. Porque pra mim, essa demora toda dizia apenas uma coisa: me deixe em paz.
Nao moro muito perto dela. Pego um quarteirao da XX Settembre (o predio dela é logo na curva), e entao é uma caminhada de uns cinco minutos até a rotatoria na ponta da regiao de Monteluce. Na rotatoria, mais cinco minutos percorrento a Pinturricchio até o Palazzo Gallenga, e entao sao outros cinco minutos pelo estreito Corso Garibaldi até a esquina com a Via Sperandio, que me leva para fora das muralhas do burgo e para minha casinha na encosta da colina. Fiz todo o caminho aferrado ao celular, esperando sentir a vibraçao de uma mensagem recebida. E nada. Ao lado de minha casa, olhando para as luzes das outras cidades la em baixo e lembrando dos tantos casais pelos quais passei no caminho, murmurei: "Minha inveja e minha bençao a todos os casais desta noite". Cheguei em casa a tempo de ver Soo saindo com uma garota coreana. Até tu, Soo...
Ninguém em casa. Larguei o celular na pequena mesinha de madeira e enchi uma panela de agua para fazer um solitario jantar.
E entao o barulho inconfundivel de um celular vibrando sobre madeira me assustou. Saltei sobre o aparelho:
- "Sim"
O que eu faço com essa menina?
- "Queria apenas lhe dar uma coisa. Nao te perturbo esta noite. A menos que voce queira sair..."
Vesti o casaco novamente, deixando a panela cheia d'agua na mesa e estava na rua em cinco minutos.
- "Mas que coisa? é muito longe para voce vir até aqui a essa hora!"
- "Managgia! Sao so 15 minutos. It's worth it ;) E alias, eu ja sai de casa"
- "Certo, faça como achar melhor."
De novo o mesmo caminho: Corso Garibaldi, Palazzo Gallenga, Via Pinturricchio, rotatoria de Monteluce, Via XX Settembre. Pelo caminho, ficava pensando exatamente como iria fazer aquilo. Queria que o fato dela nao me ver fosse entendido como um sinal de respeito, de que nao queria ser inoportuno. Para minha sorte, quatro garotas estavam na porta do predio. O golpe de sorte me pegou tao de sorpresa, que até errei a conjugaçao verbal: "Alguma de voces abitam aqui?". Me corrigiram com doçura, perguntando-me porque. "Quero apenas deixar uma coisa" falei, abrindo o casaco para mostrar o pacotinho azul. Enterneceram-se.
Linnea recebeu mais um SMS: - "Deixei-o ao lado da porta. Voce pode descer para pegar? Diga-me depois se o encontrou."
Ela desce as escadas, achando tudo aquilo meio tolo. Encontra o pacotinho azul encostado na porta branca. Cogita abrir a porta para espiar, mas apenas pega o pacote e sobe de volta, abrindo-o no caminho. Nele, encontra um chaveiro: um leaozinho de pelucia com uma juba despenteada. O Bacci cai do pacote nas escadas e ela o pega, ja sabendo que encontraria um dentro do pacote. Por fim, sente ainda um pequeno volume, um bilhete cuidadosamente dobrado de uma forma estranha, até um pouco dificil de abrir. Começa a ler depois de ter aberto a porta de casa:
"Vackra flicka (ainda nao tenho certeza de como se escreve...)
Tinha duvidas de se deveria dar este presente hoje, no dia de Sao Valentino; ou amanha, no dia de seu aniversario. Encontrei este leaozinho na loja onde comprei a tela de pintura. Despenteado desse jeito, me lembra de voce. Gostei dele também porque, talvez ja tenha dito, meu sobrenome quer dizer 'leao' em portugues. Envio também um Bacci (plural de "beijo" em italiano): este, de chocolate, acho que voce nao negara.
Sorry for rushing into things yesterday.
Brasileiro tolo"
Ja dentro de casa, ela vai até a janela, explicando para as amigas curiosas o que é que o maldito brasileiro queria numa hora dessas. Do outro lado da rua, numa das ruelas, ja longe da casa dela e tomando outro caminho do que o de sempre, eu tenho por um momento uma vista das janelas do predio por entre as casas antigas peruginas. Fico imaginando qual das janelas é a dela. Se talvez é aquela com a silhueta espiando por entre as persianas.
- "Recebi sim. Obrigada! Seu bobo!"
- "Sei que sou. Nos vemos amanha."
O que mudaria a partir daqui?
O desenho de Linnea neste post foi feito durante a aula, unico momento em que aquela menina para quieta o suficiente para ser desenhada. Ainda assim, é muito simples, e apenas da uma noçao difusa de como ela é. Posso fazer melhor.
terça-feira, fevereiro 14, 2006
Vackra flicka (parte 2)
Sim, eu sei... Preocupar-se com a suposta ameaça de uma figura como Hamad era, no minimo, risivel. Ainda assim, eu nao conhecia nada dos gostos das garotas europeias. Ou dos europeus em geral. Como exemplo, o rapaz grego da minha classe, Christos (apelidado por mim de "o deus grego", mais por causa do nome do que pela aparencia...), que interessara-se nas garotas do Chipre (regiao proxima à Grécia), que para mim estavam longe de serem beldades...
Ah, sim... Tinha também o problema da minha habitual baixa auto-estima e complexo de inferioridade.
Fui para classe na segunda de olhos bem atentos, pronto para estragar qualquer avanço de Hamad sobre Linnea. O dia transcorreu tranquilo, mas na ultima aula, meu rival me toca no ombro: nao entendo bem, mas diz algo como "eu vou saber porque voce vai me odiar depois". A guerra declarada.
Na saida, vi-os conversando, trocando numeros de telefone. Meu coraçao disparou. E eu apertei o passo, deixando Ken Shin para tras e alcançando-os apenas a tempo de ver Hamad tomando outro caminho, o plano ja encaminhado. Estive ao lado de uma Linnea visivelmente incomodada que, como se nada tivesse acontecido, virou para mim para perguntar o que eu faria naquela noite...
O resto do dia foi repleto de pequenos afazeres. Nada porém parecia mais importante do que achar um bar para aquela noite. Algo novo ao qual nao tivéssemos ido, com musica boa, porém baixa, para conversar. Encontrei o Hogan's, um pub gostoso perto do alojamento dela.
E toca SMS:
- "Voce ja foi ao Hogan's perto da sua casa?"
- "Nao. Nao conheço aquele bar"
- "Hmm... Que tal experimentarmos hoje?"
- "Nao sei. Me sinto um pouco mal porque o rapaz da nossa classe queria jantar comigo. Se nao vou com ele, também nao posso sair contigo. Entende o que quero dizer?"
O plano revelado. Ainda melhor: o plano falhado. Faltava apenas o golpe de misericordia.
-" Ah, sim... Hamad. Entendo. But I won't tell if you don't ;)"
Minutos interminaveis.
- "Esta bem. A que horas voce vai?"
Edgewalker 1 X 0 Hamad
Algum tempo depois do jantar, estava na frente do alojamento dela. A noite fria recebeu uma Linnea de cabelo preso, mas ainda assim com aquela sedutora selvageria.
O Hogan's abriu suas portas ao som de U2. Um lugar aconcegantemente vazio que, apesar da boa musica, tinha um que de Nighthawks (Edward Hopper). Bailey's daqui, cerveja de la. Na pauta, nossos planos de futuro, uma garota tao perdida quanto eu (embora ha mais tempo: dois anos...) e musica. O estranho dos europeus é que nao respondem do mesmo jeito às coisas: sempre que eu falava que musica e maos falam muito de uma pessoa, recebia no Brasil as mesmas perguntas como "o que lhe dizem minhas maos" ou "qual é o seu tipo de musica favorito" de pessoas que passariam a esconder ou prestar mais atençao nas suas maos. Linnea, apesar de achar a opiniao interessante, nao perguntava nada. Falamos ainda de viagens. Ela ja estivera em Firenze. Eu queria ir daqui a dois fins de semana. Quer vir comigo? Talvez. Um de tantos talvez que ela ja me dissera e que, neste ponto, ja superavam em numero aos Bacci que eu lhe dera.
Com a meia-noite chegando e aula na manha do dia seguinte, resolvemos ir embora. Na porta, Felipe, do bar brasileiro (o Copacabana, tipico né?), viu-me com a garota suéca de quem lhe falara nas nossas longas conversas (assunto para os proximos dias...). Lançou-me um olhar e um sorriso enquanto eu pagava a conta por nos dois.
No caminho para casa, riamos de relatos das amigas de Linnea que escorregavam nas ladeiras ingremes perto da casa dela nos dias de embriaguez. Ela acendeu um cigarro: o habito nas noites frias. Quando chegamos no alojamento dela, estivemos novamente frente a frente. Eu ja perdera um desses momentos...
Em um gesto rapido e sutil, tirei-lhe o cigarro da mao. "Deixe de fumar". E antes que a timidez me invadisse, alcancei sua echarpe e gentilmente a puxei para mim. Um sorriso timido com covinhas no rosto dela.
E entao, no ultimo segundo, ela virou o rosto.
Beijei-lhe a face gelada e rimos constrangidos. A echarpe deslizou entre meus dedos enquanto ela se afastava, abrindo a porta. "Isto é outro 'talvez'?" Mas ela so sorriu enquanto fechava a porta entre nos.
Deixei-me estar frente à porta do predio por mais um minuto. Até perceber que o cigarro dela continuava entre meus dedos. Meus pais, aqui, devem estar pensando preocupados que, em vez de faze-la parar de fumar, ela vai me fazer começar. Duvido. Mas sim, fumei aquele terço de cigarro no caminho para casa, andando a passos muito lentos sob a lua cheia. Quando atirei a bituca no asfalto, me dei conta de que minha frustraçao era minuscula se comparada ao meu orgulho de ao menos haver tentado.
Cheguei em casa e, ainda com o gosto da nicotina nos labios, comecei a escrever-lhe um bilhete. Ao lado, na borda da mesa, um pequeno pacote azul portava um leaozinho de pelucia e ainda outro Bacci.
To be continued...
Ah, sim... Tinha também o problema da minha habitual baixa auto-estima e complexo de inferioridade.
Fui para classe na segunda de olhos bem atentos, pronto para estragar qualquer avanço de Hamad sobre Linnea. O dia transcorreu tranquilo, mas na ultima aula, meu rival me toca no ombro: nao entendo bem, mas diz algo como "eu vou saber porque voce vai me odiar depois". A guerra declarada.
Na saida, vi-os conversando, trocando numeros de telefone. Meu coraçao disparou. E eu apertei o passo, deixando Ken Shin para tras e alcançando-os apenas a tempo de ver Hamad tomando outro caminho, o plano ja encaminhado. Estive ao lado de uma Linnea visivelmente incomodada que, como se nada tivesse acontecido, virou para mim para perguntar o que eu faria naquela noite...
O resto do dia foi repleto de pequenos afazeres. Nada porém parecia mais importante do que achar um bar para aquela noite. Algo novo ao qual nao tivéssemos ido, com musica boa, porém baixa, para conversar. Encontrei o Hogan's, um pub gostoso perto do alojamento dela.
E toca SMS:
- "Voce ja foi ao Hogan's perto da sua casa?"
- "Nao. Nao conheço aquele bar"
- "Hmm... Que tal experimentarmos hoje?"
- "Nao sei. Me sinto um pouco mal porque o rapaz da nossa classe queria jantar comigo. Se nao vou com ele, também nao posso sair contigo. Entende o que quero dizer?"
O plano revelado. Ainda melhor: o plano falhado. Faltava apenas o golpe de misericordia.
-" Ah, sim... Hamad. Entendo. But I won't tell if you don't ;)"
Minutos interminaveis.
- "Esta bem. A que horas voce vai?"
Edgewalker 1 X 0 Hamad
Algum tempo depois do jantar, estava na frente do alojamento dela. A noite fria recebeu uma Linnea de cabelo preso, mas ainda assim com aquela sedutora selvageria.
O Hogan's abriu suas portas ao som de U2. Um lugar aconcegantemente vazio que, apesar da boa musica, tinha um que de Nighthawks (Edward Hopper). Bailey's daqui, cerveja de la. Na pauta, nossos planos de futuro, uma garota tao perdida quanto eu (embora ha mais tempo: dois anos...) e musica. O estranho dos europeus é que nao respondem do mesmo jeito às coisas: sempre que eu falava que musica e maos falam muito de uma pessoa, recebia no Brasil as mesmas perguntas como "o que lhe dizem minhas maos" ou "qual é o seu tipo de musica favorito" de pessoas que passariam a esconder ou prestar mais atençao nas suas maos. Linnea, apesar de achar a opiniao interessante, nao perguntava nada. Falamos ainda de viagens. Ela ja estivera em Firenze. Eu queria ir daqui a dois fins de semana. Quer vir comigo? Talvez. Um de tantos talvez que ela ja me dissera e que, neste ponto, ja superavam em numero aos Bacci que eu lhe dera.
Com a meia-noite chegando e aula na manha do dia seguinte, resolvemos ir embora. Na porta, Felipe, do bar brasileiro (o Copacabana, tipico né?), viu-me com a garota suéca de quem lhe falara nas nossas longas conversas (assunto para os proximos dias...). Lançou-me um olhar e um sorriso enquanto eu pagava a conta por nos dois.
No caminho para casa, riamos de relatos das amigas de Linnea que escorregavam nas ladeiras ingremes perto da casa dela nos dias de embriaguez. Ela acendeu um cigarro: o habito nas noites frias. Quando chegamos no alojamento dela, estivemos novamente frente a frente. Eu ja perdera um desses momentos...
Em um gesto rapido e sutil, tirei-lhe o cigarro da mao. "Deixe de fumar". E antes que a timidez me invadisse, alcancei sua echarpe e gentilmente a puxei para mim. Um sorriso timido com covinhas no rosto dela.
E entao, no ultimo segundo, ela virou o rosto.
Beijei-lhe a face gelada e rimos constrangidos. A echarpe deslizou entre meus dedos enquanto ela se afastava, abrindo a porta. "Isto é outro 'talvez'?" Mas ela so sorriu enquanto fechava a porta entre nos.
Deixei-me estar frente à porta do predio por mais um minuto. Até perceber que o cigarro dela continuava entre meus dedos. Meus pais, aqui, devem estar pensando preocupados que, em vez de faze-la parar de fumar, ela vai me fazer começar. Duvido. Mas sim, fumei aquele terço de cigarro no caminho para casa, andando a passos muito lentos sob a lua cheia. Quando atirei a bituca no asfalto, me dei conta de que minha frustraçao era minuscula se comparada ao meu orgulho de ao menos haver tentado.
Cheguei em casa e, ainda com o gosto da nicotina nos labios, comecei a escrever-lhe um bilhete. Ao lado, na borda da mesa, um pequeno pacote azul portava um leaozinho de pelucia e ainda outro Bacci.
To be continued...
segunda-feira, fevereiro 13, 2006
Fim de semana 2: Brufa, o mercatino e a Porta Santangelo
O plano era ir para Firenze. Mas na sexta, lembrei que Amina vivia em Firenze! Era tarde demais para ligar pra ela e combinar qualquer coisa. Entao resolvi ligar com mais calma e aproveitar um fim de semana por aqui.
Os personagens daquele fim de semana:
• Natalia, a paraguaia ja mencionada aqui.
• Karen, a americana também ja mencionada.
• Ken Shin, o chines, outro personagem antigo.
• Carmen, suiça (apesar do nome...) que morava na Italia faz algum tempo, na casa de uma tia. Com um italiano delicioso e muito comico de se ouvir, cheio de entonaçoes engraçadas, que ela usava para praguejar no transito, sendo a unica com carro da turma.
• Hamad, o palestino. Pensem no Kramer do Seinfeld ou no Spud de Trainspotting. So que muito mais feio... Ele é meio assim. O pazzo alto e desengonçado do grupo. Mal fala qualquer coisa de italiano e muitas vezes nao se faz entender. Ri uma risada torta, e ri de qualquer coisa.
A idéia tinha partido da Karen: ouvindo que muitos de nos so comiam pasta porque era o unico que sabiam fazer, ela resolveu juntar a galera no fim de semana para cozinha bastante. Comeriamos bem e repartiriamos o resto para levar para casa. Achei otimo. Eu mesmo nao comia um pedaço decente de carne ha dias, porque nao tive coragem de gastar tanta grana em carne e arruinar tudo nao sabendo o que fazer.
A manha foi passada no mercatino. Eu ja estivera la. Changteung me levara um dia e compramos o melograno por la. Era a versao italiana da feira brasileira: tudo a preços muito baixos (qualidade idem, a nao ser pelas frutas e flores). Tinha até o substituto do pastel: em cada ponta da feira, um trailler vendia a porcheta, um sanduiche com carne de porco deliciosamente temperada. Sugeri aos amigos que experimentassem.
Passamos a manha no mercatino e em alguns supermercados comprando os ingredientes para a comida. Karen liderou o grupo: era uma verdadeira mae. Barganhava com os vendedores, perguntava a vontade de todos.
Tudo comprado, enfiamos tudo (e todos nos seis...) no pequenino Seat de Carmen. O carro suiço quase nao saiu do lugar. Em meia hora, estavamos em Brufa: uma pequenina cidade ha poucos quilometros de Perugia. Pequenina mesmo: alguns poucos quarteiroes e voce ja estava saindo de Brufa. Ci vediamo! A casa onde Carmen morava com a tia era muito aconchegante, decorada com um ou dois tapetes arabes, que deixaram Hamad feliz de entender as inscriçoes bordadas.
Fazer o almoço foi, no minimo, muito comico. Compramos frango, mas ninguém sabia ao certo como fazer. E às tantas, o bicho foi parar na minha mao e uma faca sem fio na outra. Karen dizendo-me para cortar o bicho...
All in all, sobrevivemos a tarde na cozinha. O molho de salada do meu pai foi novamente um grande sucesso. O frango temperado pela Karen ficou fantastico. So o pobre do Ken Shin que, mesmo no dia anterior, ja estava meio mal do estomago e nao pode comer muito. Mas depois ficou me mostrando o pouco que sabia de artes marciais, apagando as velas que haviamos acendido para decorar a sala com lufadas de ar dos seus socos. Truque bacana.
A noite, depois de assistir a algum filme dublado em italiano (experiencia engraçada...), fizemos uma lasanha colossal, que repartimos entre os seis e levamos para casa, para comer no dia seguinte.
Pouco antes de voltarmos para casa, conversava com Hamad. Ele balbuciava qualquer coisa parcialmente inteligivel sobre alguma das garotas que ele estava afim no curso. Chamava-a de Laura (mencionei uma alema com esse nome por aqui). Mas entao, falando dela, algo nao parecia muito correto... A situaçao que ele mencionava nao era com a baixinha alema, mas com a bela suéca. Linnea. Houston, we have a problem...
Domingo.
Cogitei talvez ir até Firenze. Ou alguma outra cidade vizinha, como Assis ou Orviedo. Ouvi falar de um cemitério etrusco em Orviedo e a idéia pareceu-me interessante. Mas a preguiça, o medo de gastar dinheiro de forma descontrolada e o pouco tempo me mantiveram em Perugia. Eu sei, eu sei... Juro que tento com mais vontade da proxima vez.
Tirei o dia para aproveitar Perugia mesmo. De manha, os carros na via Sperandio, onde estou morando, passavam olhando pra mim com grandes pontos de interrogaçao sobre eles: eu carregava um pequeno banquinho vermelho do meu quarto nos ombros. Parei no alto da colina, entre o burgo e a casa dos Seppilli, e coloquei o banquinho na grama ao lado da estrada. Duas horas depois, tinha um esboço de um dos meus lugares preferidos: a Porta Santangelo.

Fora minha porta de entrada para Perugia. Guiado por Amina, passei por ela e direto em linha (quase) reta pelo Corso Garibaldi até a universidade. Ao lado, a pequena igreja redonda (sim, a mancha de grafite com aquela cruzinha...): a unica igreja redonda, tradicionalmente construida pelos Templarios, ainda de pé na Italia, pelo que me diziam. Seu interior era maravilhoso: um vasto espaço segurado por quatro pilares que demarcavam um altar quadrado no centro. Ao subir no altar, a voz passava a ecoar das paredes, ganhando mais força. Encostados em um canto, tres sinos antigos da igreja ja nao tinham uso.
O resto do dia, passei a fotografar pontos que gostava de Perugia. Espero resolver essa coisa do celular logo pra poder fazer um pequeno tour com voces pela cidade, através das fotos. Mas isso ainda vai ter que esperar.
Fim do dia. E eu comia um pedaço de pizza em uma lojinha junto com Natalia, a paraguaia, que também estava entediada em um domingo perugino. Resolvemos fazer nada juntos... Eis que entra Hamad na loja, para comer qualquer coisa, e nos sauda com seu entusiasmo balbuciante de sempre. Nao fica mais do que cinco minutos. Mas nesse tempo, por entre os sons ininteligiveis, diz qualquer coisa sobre fazer uma grande surpresa à garota de quem gosta no dia seguinte. Vou para casa levemente preocupado...
Os personagens daquele fim de semana:
• Natalia, a paraguaia ja mencionada aqui.
• Karen, a americana também ja mencionada.
• Ken Shin, o chines, outro personagem antigo.
• Carmen, suiça (apesar do nome...) que morava na Italia faz algum tempo, na casa de uma tia. Com um italiano delicioso e muito comico de se ouvir, cheio de entonaçoes engraçadas, que ela usava para praguejar no transito, sendo a unica com carro da turma.
• Hamad, o palestino. Pensem no Kramer do Seinfeld ou no Spud de Trainspotting. So que muito mais feio... Ele é meio assim. O pazzo alto e desengonçado do grupo. Mal fala qualquer coisa de italiano e muitas vezes nao se faz entender. Ri uma risada torta, e ri de qualquer coisa.
A idéia tinha partido da Karen: ouvindo que muitos de nos so comiam pasta porque era o unico que sabiam fazer, ela resolveu juntar a galera no fim de semana para cozinha bastante. Comeriamos bem e repartiriamos o resto para levar para casa. Achei otimo. Eu mesmo nao comia um pedaço decente de carne ha dias, porque nao tive coragem de gastar tanta grana em carne e arruinar tudo nao sabendo o que fazer.
A manha foi passada no mercatino. Eu ja estivera la. Changteung me levara um dia e compramos o melograno por la. Era a versao italiana da feira brasileira: tudo a preços muito baixos (qualidade idem, a nao ser pelas frutas e flores). Tinha até o substituto do pastel: em cada ponta da feira, um trailler vendia a porcheta, um sanduiche com carne de porco deliciosamente temperada. Sugeri aos amigos que experimentassem.
Passamos a manha no mercatino e em alguns supermercados comprando os ingredientes para a comida. Karen liderou o grupo: era uma verdadeira mae. Barganhava com os vendedores, perguntava a vontade de todos.
Tudo comprado, enfiamos tudo (e todos nos seis...) no pequenino Seat de Carmen. O carro suiço quase nao saiu do lugar. Em meia hora, estavamos em Brufa: uma pequenina cidade ha poucos quilometros de Perugia. Pequenina mesmo: alguns poucos quarteiroes e voce ja estava saindo de Brufa. Ci vediamo! A casa onde Carmen morava com a tia era muito aconchegante, decorada com um ou dois tapetes arabes, que deixaram Hamad feliz de entender as inscriçoes bordadas.
Fazer o almoço foi, no minimo, muito comico. Compramos frango, mas ninguém sabia ao certo como fazer. E às tantas, o bicho foi parar na minha mao e uma faca sem fio na outra. Karen dizendo-me para cortar o bicho...
All in all, sobrevivemos a tarde na cozinha. O molho de salada do meu pai foi novamente um grande sucesso. O frango temperado pela Karen ficou fantastico. So o pobre do Ken Shin que, mesmo no dia anterior, ja estava meio mal do estomago e nao pode comer muito. Mas depois ficou me mostrando o pouco que sabia de artes marciais, apagando as velas que haviamos acendido para decorar a sala com lufadas de ar dos seus socos. Truque bacana.
A noite, depois de assistir a algum filme dublado em italiano (experiencia engraçada...), fizemos uma lasanha colossal, que repartimos entre os seis e levamos para casa, para comer no dia seguinte.
Pouco antes de voltarmos para casa, conversava com Hamad. Ele balbuciava qualquer coisa parcialmente inteligivel sobre alguma das garotas que ele estava afim no curso. Chamava-a de Laura (mencionei uma alema com esse nome por aqui). Mas entao, falando dela, algo nao parecia muito correto... A situaçao que ele mencionava nao era com a baixinha alema, mas com a bela suéca. Linnea. Houston, we have a problem...
Domingo.
Cogitei talvez ir até Firenze. Ou alguma outra cidade vizinha, como Assis ou Orviedo. Ouvi falar de um cemitério etrusco em Orviedo e a idéia pareceu-me interessante. Mas a preguiça, o medo de gastar dinheiro de forma descontrolada e o pouco tempo me mantiveram em Perugia. Eu sei, eu sei... Juro que tento com mais vontade da proxima vez.
Tirei o dia para aproveitar Perugia mesmo. De manha, os carros na via Sperandio, onde estou morando, passavam olhando pra mim com grandes pontos de interrogaçao sobre eles: eu carregava um pequeno banquinho vermelho do meu quarto nos ombros. Parei no alto da colina, entre o burgo e a casa dos Seppilli, e coloquei o banquinho na grama ao lado da estrada. Duas horas depois, tinha um esboço de um dos meus lugares preferidos: a Porta Santangelo.

Fora minha porta de entrada para Perugia. Guiado por Amina, passei por ela e direto em linha (quase) reta pelo Corso Garibaldi até a universidade. Ao lado, a pequena igreja redonda (sim, a mancha de grafite com aquela cruzinha...): a unica igreja redonda, tradicionalmente construida pelos Templarios, ainda de pé na Italia, pelo que me diziam. Seu interior era maravilhoso: um vasto espaço segurado por quatro pilares que demarcavam um altar quadrado no centro. Ao subir no altar, a voz passava a ecoar das paredes, ganhando mais força. Encostados em um canto, tres sinos antigos da igreja ja nao tinham uso.
O resto do dia, passei a fotografar pontos que gostava de Perugia. Espero resolver essa coisa do celular logo pra poder fazer um pequeno tour com voces pela cidade, através das fotos. Mas isso ainda vai ter que esperar.
Fim do dia. E eu comia um pedaço de pizza em uma lojinha junto com Natalia, a paraguaia, que também estava entediada em um domingo perugino. Resolvemos fazer nada juntos... Eis que entra Hamad na loja, para comer qualquer coisa, e nos sauda com seu entusiasmo balbuciante de sempre. Nao fica mais do que cinco minutos. Mas nesse tempo, por entre os sons ininteligiveis, diz qualquer coisa sobre fazer uma grande surpresa à garota de quem gosta no dia seguinte. Vou para casa levemente preocupado...
domingo, fevereiro 12, 2006
Vackra flicka
Ouvi seu nome no dia do exame de proficiencia: Sabel Linnea, disse a professora, ao chama-la para entregar o resultado. O nome suéco, de sons afiados, dinamicos e cheios de vogais, combinava com a beleza selvagem, do cabelo loiro-luz sempre despenteado, as botas altas, o passo rapido. Observando-a pegar a folha de papel, nem me lembro se me chamaram pelo nome ou sobrenome primeiro, a unica pista que me diria se devia chama-la de Linnea, ou de Sabel. Para mim, ambos pareciam nomes proprios.
No dia seguinte, a sorte de ve-la na minha classe. Juntei a turma e saimos na noite daquele mesmo dia. Conversa vai, conversa vem, e eu dizia que tinha dificuldade para lembrar os nomes de tante gente. Nao o de Linnea, por razoes, digamos... geométricas. Ela respondeu que o meu também era facil de lembrar. Ela tinha uma amiga da Bosnia e o meu nome lembrava uma palavra no idioma daquele pais. A palavra? Algo como "pederer": homossexual... ceeeeeeerto.
Dias depois, eu fui ao mercato coperto tirar fotos com o celular novo. Ha uma vista linda perto do elevador publico. Na aula, Linneadisse ter me visto da janela de seu quarto. A tarde, voltei ao mercato. Dei as costas para a bela vista e me veio a curiosidade: qual daquelas janelas?
Naquela tarde, invadido de uma melancolia oportunista que se aproveitar do tédio, questionei-me por um momento se ela de fato resolveria meu problema. Ela ou qualquer das garotas que eu havia conhecido por aqui. Sentia alguma coisa por alguma delas? Sentia alguma coisa por Linnea a ponto de querer saber onde ela morava? Era bela, sim. Mas para ama-la, era preciso mais. Como eu podia falar de gostar dela se eu sequer a conhecia direito?
That can be fixed...
Recorri ao SMS do celular:
- "O que voce faz agora, bela suéca? Sou um brasileiro entediado"
Quinze minutos depois, nos encontramos nos Corso Vannucci. Andamos por ai e acabamos encontrando um café aberto, onde paramos para beber algo e conversar. Era um desafio gostoso conversar com Linnea. Porque tinhamos niveis diferentes de italiano e ingles, vocabularios diferentes. Ela parecia conhecer mais do que eu os gestos que os italianos faziam ao falar: tocava um indicador nas belas covinhas da bochecha e girava o pulso para dizer que algo que comia era gostoso ou colocava as maos juntas na altura da cintura para dizer "per carità (o "pelo amor de Deus" italiano)". Eu, por outro lado, quase nao gesticulava, mas precisava parar alguma historia no meio para explicar-lhe alguma palavra ou expressao italiana.
Contei-lhe do Brasil, este pais de caos onde tudo precisava ser feito no "jeitinho brasileiro", e como eu me sentia mais à vontade por aqui, onde as coisas funcionavam, porque eu nao era o tipico brasileiro. Contei do meu irmao e meus pais, e alguma coisa da faculdade. Linnea respondeu contando-me da Suécia, um pais onde tudo funcionava até demais e a vida chegava a ser um tédio, e como ela se apaixonara pela Umbria e queria viver aqui. Contou-me de um irmao mais velho e de amigos da familia com os quais ela morava em Terni, onde tinha até um cavalo. Falou que queria ser professora ou trabalhar com decoraçao. Haviamos nos encontrado na Italia: o meio-termo entre a organizaçao européia e o caos sul-americano...
Na saida do café, ela acendeu um cigarro para espantar o frio. Nao combinava com ela. Sera que eu conseguiria faze-la parar de fumar como havia feito com a Lee anos atras?
A despedida a la européia: um adeus sem abraço nem aperto de mao.
Nos dias seguintes, continuei sem compreender ao certo tudo o que sentia por ela. Esperava sentir mais do que isso. Mas nao posso negar que eu ja passava os dias pensando nela.
Um dia me dei conta de que nunca a ouvira falar em seu idioma. COmo seria seu idioma? Havia visto apenas anotaçoes que ela fazia no caderno quando eu a ajudava com o italiano, com aquela acentuaçao incompreensivel do povo do norte. E entao achei em uma pequena livraria um dicionario italiano/suéco. Folheei o volume atras de duas palavras. Palavras simples mas que, ditas no momento certo, seriam poderosissimas.
Numa sexta-feira qualquer, acompanhei Linnea na saida da aula. Subimos o elevador publico junto com Ken Shin, que logo depois pegou outro caminho e nos deixou a sos. Andamos até o Corso Vannucci, falando de besteirinhas, o significado desta ou daquela palavra. Paramos frente ao banco porque ela precisava tirar dinheiro. Enquanto remexia na bolsa atras da carteira, perguntei se ela podeia me ajudar com a pronuncia de duas palavras. O significado eu sabia, mas tinha problemas com a pronuncia. Ela respondeu monossilabica, ainda compenetrada na bolsa. Perguntei:
- "Pronuncia-se 'vackra flicka (bela garota)'?"
Ela levantou o rosto num sorriso maior do que as portas do Corso Vannucci. Entendam: garota longe de casa, sem ter ouvido seu proprio idioma ha algum tempo, de repente ouve um estrangeiro, que sequer conhece o idioma dela, interessar-se o suficiente nela para procurar palavras de seu idioma, mesmo simplorias, no dicionario. Esse era o poder daquelas simples palavras.
- "Quem te disse isso?"
- "O dicionario..."
- "Managgia!"
Vacilei. Devia ter aproveitado aquele momento.
Disse-lhe adeus no Corso, depois de lhe entregar um Bacci Perugina ("Mas so depois do almoço, 'vackra flicka'"): a deixa para um outro dia...
Meu sorriso a caminho de casa so nao era maior que o dela.
No dia seguinte, a sorte de ve-la na minha classe. Juntei a turma e saimos na noite daquele mesmo dia. Conversa vai, conversa vem, e eu dizia que tinha dificuldade para lembrar os nomes de tante gente. Nao o de Linnea, por razoes, digamos... geométricas. Ela respondeu que o meu também era facil de lembrar. Ela tinha uma amiga da Bosnia e o meu nome lembrava uma palavra no idioma daquele pais. A palavra? Algo como "pederer": homossexual... ceeeeeeerto.
Dias depois, eu fui ao mercato coperto tirar fotos com o celular novo. Ha uma vista linda perto do elevador publico. Na aula, Linneadisse ter me visto da janela de seu quarto. A tarde, voltei ao mercato. Dei as costas para a bela vista e me veio a curiosidade: qual daquelas janelas?
Naquela tarde, invadido de uma melancolia oportunista que se aproveitar do tédio, questionei-me por um momento se ela de fato resolveria meu problema. Ela ou qualquer das garotas que eu havia conhecido por aqui. Sentia alguma coisa por alguma delas? Sentia alguma coisa por Linnea a ponto de querer saber onde ela morava? Era bela, sim. Mas para ama-la, era preciso mais. Como eu podia falar de gostar dela se eu sequer a conhecia direito?
That can be fixed...
Recorri ao SMS do celular:
- "O que voce faz agora, bela suéca? Sou um brasileiro entediado"
Quinze minutos depois, nos encontramos nos Corso Vannucci. Andamos por ai e acabamos encontrando um café aberto, onde paramos para beber algo e conversar. Era um desafio gostoso conversar com Linnea. Porque tinhamos niveis diferentes de italiano e ingles, vocabularios diferentes. Ela parecia conhecer mais do que eu os gestos que os italianos faziam ao falar: tocava um indicador nas belas covinhas da bochecha e girava o pulso para dizer que algo que comia era gostoso ou colocava as maos juntas na altura da cintura para dizer "per carità (o "pelo amor de Deus" italiano)". Eu, por outro lado, quase nao gesticulava, mas precisava parar alguma historia no meio para explicar-lhe alguma palavra ou expressao italiana.
Contei-lhe do Brasil, este pais de caos onde tudo precisava ser feito no "jeitinho brasileiro", e como eu me sentia mais à vontade por aqui, onde as coisas funcionavam, porque eu nao era o tipico brasileiro. Contei do meu irmao e meus pais, e alguma coisa da faculdade. Linnea respondeu contando-me da Suécia, um pais onde tudo funcionava até demais e a vida chegava a ser um tédio, e como ela se apaixonara pela Umbria e queria viver aqui. Contou-me de um irmao mais velho e de amigos da familia com os quais ela morava em Terni, onde tinha até um cavalo. Falou que queria ser professora ou trabalhar com decoraçao. Haviamos nos encontrado na Italia: o meio-termo entre a organizaçao européia e o caos sul-americano...
Na saida do café, ela acendeu um cigarro para espantar o frio. Nao combinava com ela. Sera que eu conseguiria faze-la parar de fumar como havia feito com a Lee anos atras?
A despedida a la européia: um adeus sem abraço nem aperto de mao.
Nos dias seguintes, continuei sem compreender ao certo tudo o que sentia por ela. Esperava sentir mais do que isso. Mas nao posso negar que eu ja passava os dias pensando nela.
Um dia me dei conta de que nunca a ouvira falar em seu idioma. COmo seria seu idioma? Havia visto apenas anotaçoes que ela fazia no caderno quando eu a ajudava com o italiano, com aquela acentuaçao incompreensivel do povo do norte. E entao achei em uma pequena livraria um dicionario italiano/suéco. Folheei o volume atras de duas palavras. Palavras simples mas que, ditas no momento certo, seriam poderosissimas.
Numa sexta-feira qualquer, acompanhei Linnea na saida da aula. Subimos o elevador publico junto com Ken Shin, que logo depois pegou outro caminho e nos deixou a sos. Andamos até o Corso Vannucci, falando de besteirinhas, o significado desta ou daquela palavra. Paramos frente ao banco porque ela precisava tirar dinheiro. Enquanto remexia na bolsa atras da carteira, perguntei se ela podeia me ajudar com a pronuncia de duas palavras. O significado eu sabia, mas tinha problemas com a pronuncia. Ela respondeu monossilabica, ainda compenetrada na bolsa. Perguntei:
- "Pronuncia-se 'vackra flicka (bela garota)'?"
Ela levantou o rosto num sorriso maior do que as portas do Corso Vannucci. Entendam: garota longe de casa, sem ter ouvido seu proprio idioma ha algum tempo, de repente ouve um estrangeiro, que sequer conhece o idioma dela, interessar-se o suficiente nela para procurar palavras de seu idioma, mesmo simplorias, no dicionario. Esse era o poder daquelas simples palavras.
- "Quem te disse isso?"
- "O dicionario..."
- "Managgia!"
Vacilei. Devia ter aproveitado aquele momento.
Disse-lhe adeus no Corso, depois de lhe entregar um Bacci Perugina ("Mas so depois do almoço, 'vackra flicka'"): a deixa para um outro dia...
Meu sorriso a caminho de casa so nao era maior que o dela.
Coisas interessantes...
Isto é so um parentesis pra apresentar alguns adendos interessantes à minha lista de blogs:
• O Alquimista Musical, meu irmao. Sim, demorou. Porque o blog dele ja esta no ar desde que vim para Perugia... Mas agora ta la na lista. Muito bom, ele faz posts sobre eventos relacionados a musica que estao acontecendo em Sampa. Pra todo mundo que quer uma alternativa para o fim de semana.
• Post Secret, enviado pela minha mae em um comentario ha alguns dias. Achei a idéia fantastica. Nao, ainda nao enviei um...
• O surreal é mais normal, que eu pesquei do blog do Ri. Lembra daquilo que eu falei sobre juntar a boa técnica com um conteudo intenso? Entao... Ah, sim, ele também é um vampiro (agora que eu percebi que tem muita gente que começou a ler o blog recentemente e nao entende o significado metaforico desse termo por aqui...).
• O Alquimista Musical, meu irmao. Sim, demorou. Porque o blog dele ja esta no ar desde que vim para Perugia... Mas agora ta la na lista. Muito bom, ele faz posts sobre eventos relacionados a musica que estao acontecendo em Sampa. Pra todo mundo que quer uma alternativa para o fim de semana.
• Post Secret, enviado pela minha mae em um comentario ha alguns dias. Achei a idéia fantastica. Nao, ainda nao enviei um...
• O surreal é mais normal, que eu pesquei do blog do Ri. Lembra daquilo que eu falei sobre juntar a boa técnica com um conteudo intenso? Entao... Ah, sim, ele também é um vampiro (agora que eu percebi que tem muita gente que começou a ler o blog recentemente e nao entende o significado metaforico desse termo por aqui...).
sexta-feira, fevereiro 10, 2006
Miscelanea anotada no caderno
Pequenas coisinhas que esqueci de escrever:
• O tal Palacio Presuntos era um manicomio antigamente. Fiquei sabendo disso e comentei com alguém que nao tinha mudado muito desde entao...
• Um dia, ainda vivendo nos Seppilli, voltei para casa com um jornal para procurar emprego. Tullio comentou com Chanteung: "Ha comprato un giornale per cercare lavoro" ("Comprou um jornal para procurar trabalho"). Na hora, o que me chamou a atençao foi o automatismo com o qual eles compreendiam o sujeito da frase. Era "ele", o menino, a novidade na vida deles. Ha algo que talvez seja estranho de compreender na traduçao da frase para o portugues, mas no italiano ficava claro pra mim que era como se eu fosse o assunto principal da conversa diaria deles. Sendo assim, nao era necessario especificar o sujeito da frase cada vez que se começava a conversa: ja se sabia automaticamente que o sujeito era eu. O italiano tem uns detalhes de linguagem deliciosos. Suponho que o portugues também tenha, mas nao percebemos.
• Na pequena feira de rua de Perugia na praça XIV Novembre, no final do Corso Vanucci, vejo os belissimos quadros pintados por italianos desconhecidos e me pego revisitando minha convicçao de que jamais serei um artista de verdade nessa época. Os artistas daquela feira tem tecnica melhor que a minha, mais pratica, mais truques. Minha verdadeira vontade é ser como eles, tao bom quanto eles. Pintam a arquitetura da cidade com realismo incrivel e perfeita compreensao da luz local. Mas ser bom como eles nao me tornaria um artista, como nao fez deles mais do que pintores de rua. Foi-se o tempo em que artista era aquele que tinha essa sensibilidade para absorver o mundo e apresenta-lo em pintura. O artista de hoje nao precisa disso. Precisa sim ter alguma "grande idéia", um questionamento, uma perturbaçao. O artista precisa estar insatisfeito com o mundo em que vive e ficar reclamando a respeito. O artista de hoje é um chato, um pentelho, um reclamao.
Eu nao tenho a "grande idéia" e nem uma grande insatisfaçao. Eu so quero pintar o que vejo, da forma que vejo, como os artistas da XIV Novembre.
• As portas no Corso Vannucci sao enormes. Estou acostumado com uma certa proporçao inconsciente entre pessoas e portas. Quando olho para o Corso e minha cabeça tenta aplicar essa mesma proporçao entre os italianos e as portas antigas e pesadas do Corso, as pessoas tornam-se uma populaçao de anoes e as portas parecem mais proximas na perspectiva torta so burgo. Ainda preciso desenhar isso. Mas acho que o resultado seria desinteressante.
• O tal Palacio Presuntos era um manicomio antigamente. Fiquei sabendo disso e comentei com alguém que nao tinha mudado muito desde entao...
• Um dia, ainda vivendo nos Seppilli, voltei para casa com um jornal para procurar emprego. Tullio comentou com Chanteung: "Ha comprato un giornale per cercare lavoro" ("Comprou um jornal para procurar trabalho"). Na hora, o que me chamou a atençao foi o automatismo com o qual eles compreendiam o sujeito da frase. Era "ele", o menino, a novidade na vida deles. Ha algo que talvez seja estranho de compreender na traduçao da frase para o portugues, mas no italiano ficava claro pra mim que era como se eu fosse o assunto principal da conversa diaria deles. Sendo assim, nao era necessario especificar o sujeito da frase cada vez que se começava a conversa: ja se sabia automaticamente que o sujeito era eu. O italiano tem uns detalhes de linguagem deliciosos. Suponho que o portugues também tenha, mas nao percebemos.
• Na pequena feira de rua de Perugia na praça XIV Novembre, no final do Corso Vanucci, vejo os belissimos quadros pintados por italianos desconhecidos e me pego revisitando minha convicçao de que jamais serei um artista de verdade nessa época. Os artistas daquela feira tem tecnica melhor que a minha, mais pratica, mais truques. Minha verdadeira vontade é ser como eles, tao bom quanto eles. Pintam a arquitetura da cidade com realismo incrivel e perfeita compreensao da luz local. Mas ser bom como eles nao me tornaria um artista, como nao fez deles mais do que pintores de rua. Foi-se o tempo em que artista era aquele que tinha essa sensibilidade para absorver o mundo e apresenta-lo em pintura. O artista de hoje nao precisa disso. Precisa sim ter alguma "grande idéia", um questionamento, uma perturbaçao. O artista precisa estar insatisfeito com o mundo em que vive e ficar reclamando a respeito. O artista de hoje é um chato, um pentelho, um reclamao.
Eu nao tenho a "grande idéia" e nem uma grande insatisfaçao. Eu so quero pintar o que vejo, da forma que vejo, como os artistas da XIV Novembre.
• As portas no Corso Vannucci sao enormes. Estou acostumado com uma certa proporçao inconsciente entre pessoas e portas. Quando olho para o Corso e minha cabeça tenta aplicar essa mesma proporçao entre os italianos e as portas antigas e pesadas do Corso, as pessoas tornam-se uma populaçao de anoes e as portas parecem mais proximas na perspectiva torta so burgo. Ainda preciso desenhar isso. Mas acho que o resultado seria desinteressante.
Parlando 2
Estou em um continente onde todo mundo fala ao menos duas ou tres linguas e a delicia é passar de uma para a outra quase sem preceber. A comunicaçao vira uma coisa fluida, com menos barreiras. Mas algumas ainda restam.
Pode-se devidir as pessoas em, ao menos, quatro grupos diferentes, no tocante a linguas. O meu é o grupo das linguas latinas, onde encontram-se o italiano, o portugues, o espanhol, o frances, o grego e tantas outras do sul da europa. Um segundo grupo é formado por ingles e alemao, alem de uma ou outra coisa do centro do continente. Um terceiro grupo é formado pelos asiaticos, que embora nao entendam uns as linguas dos outros, tem suas semelhanças: sei que os ideogramas chineses podem ser lidos por japoneses, mas resultam em sons diferentes. Um quarto grupo é formado por todas as linguas do norte da Europa: eles também nao conseguem entender a lingua uns dos outros, mas sabem se a pronuncia esta correta.
No entanto, mesmo com todas essas linguas e tanta gente falando varias delas, podendo transitar entre os grupos, ha momentos em que a comunicaçao é muito dificil. Pra mim, é um desafio maravilhoso, mas tem horas em que é inconveniente.
A exemplo do dia recente em que, sem muito o que fazer, convidei Linnea para tomar um café. Vou deixar no ar o suspense e dizer que conto mais dessa historia mais pra frente...
Outra cena recente foi Soo reclamando. Nao fala muito ingles ou italiano. Chamou todos nos na cozinha e começou a falar que estava um pouco zangado com alguma coisa. Levamos muito tempo sentados na mesa de madeira da cozinha, até entender que ele reclamava que alguém tinha usado alguma coisa que ele comprou para comer e que ele nao tinha gostado. Ficamos cada um olhando para o outro, perguntando com o olhar se o outro tinha entendido alguma coisa, mas sem muito exito. No fim, fechamos um acordo tacito entre os tres que nao entendiam Soo de nao mexermos nas coisas dele até conseguir entender o que pode ou nao ser usado... Alguém ai fala coreano?
Pode-se devidir as pessoas em, ao menos, quatro grupos diferentes, no tocante a linguas. O meu é o grupo das linguas latinas, onde encontram-se o italiano, o portugues, o espanhol, o frances, o grego e tantas outras do sul da europa. Um segundo grupo é formado por ingles e alemao, alem de uma ou outra coisa do centro do continente. Um terceiro grupo é formado pelos asiaticos, que embora nao entendam uns as linguas dos outros, tem suas semelhanças: sei que os ideogramas chineses podem ser lidos por japoneses, mas resultam em sons diferentes. Um quarto grupo é formado por todas as linguas do norte da Europa: eles também nao conseguem entender a lingua uns dos outros, mas sabem se a pronuncia esta correta.
No entanto, mesmo com todas essas linguas e tanta gente falando varias delas, podendo transitar entre os grupos, ha momentos em que a comunicaçao é muito dificil. Pra mim, é um desafio maravilhoso, mas tem horas em que é inconveniente.
A exemplo do dia recente em que, sem muito o que fazer, convidei Linnea para tomar um café. Vou deixar no ar o suspense e dizer que conto mais dessa historia mais pra frente...
Outra cena recente foi Soo reclamando. Nao fala muito ingles ou italiano. Chamou todos nos na cozinha e começou a falar que estava um pouco zangado com alguma coisa. Levamos muito tempo sentados na mesa de madeira da cozinha, até entender que ele reclamava que alguém tinha usado alguma coisa que ele comprou para comer e que ele nao tinha gostado. Ficamos cada um olhando para o outro, perguntando com o olhar se o outro tinha entendido alguma coisa, mas sem muito exito. No fim, fechamos um acordo tacito entre os tres que nao entendiam Soo de nao mexermos nas coisas dele até conseguir entender o que pode ou nao ser usado... Alguém ai fala coreano?
quinta-feira, fevereiro 09, 2006
La stanza del figlio
Algumas pessoas tem me perguntado como é o quarto.
Moro em uma pequena casa logo fora das muralhas do burgo. Ela fica na encosta da colina, dando-me uma vista privilegiada da paisagem umbra (pra quem nao sabe, Umbria é a regiao onde esta Perugia), salvo por uma arvore pequena na frente da minha janela. De fato, meu quarto tem uma janela enorme, de parede a parede, que deixo sempre com as persianas abertas (mas por motivos obvios nunca abor os vidros...) para ver a paisagem e para deixar o sol esquentar o quarto de manha. Acordo todos os dias com o sol. Mesmo quando esqueço o despertador ou volto a dormir, ele aparece por entre as montanhas para me acordar aquecendo-me mais do que meu sono pode suportar. Escondo-me nas cobertas, mas depois de alguns minutos, ele ja aparece de novo por cima do cobertor que Paula (uma amiga brasileira que esteve em Perugia) me deixou, como um personagem travesso que olha por cima do meu ombro a me dizer "acorde, menino dorminhoco". Minhas paredes sao de um branco amarelado, com muitos pontos descascados onde o habitante anterior havia colado fotos e depois descolou ao partir. A pintura por baixo é um verde esquisito, vivo demais. O rapaz anterior deixou colados na parede um mapa de Perugia, um poster de uma festa do chocolate do ano passado, e dois desenhos de Asterix e Obelix. Tenho uma mesinha (minuciosamente organizada: alguns habitos nunca mudam...) com cadeira, armarios e uma TV, que até hoje nao liguei.
Encostado em um canto de cada sala (de cada edificaçao em Perugia, alias...), tem sempre um sistema de calefaçao. Ja o vira na casa de minha avo Nydia: varios tubos brancos com algum gas que circula dentro deles. O sistema é ativado automaticamente às seis da manha e da noite. Dispensaria a manha: o sol ja é suficiente... Mas sempre que retorno nas noites mais frias, a primeira coisa que faço é colocar as maos sobre o ferro para esquentar um pouco.
O banheiro, muito para meu agrado, é otimo. Em perfeitas condiçoes, com um chuveiro maravilhoso que so nao é melhor que o da casa dos Seppilli. Dentre tantos detalhes insignificantes mas poeticos que percebo por aqui todo os dias, noto que o reservatorio da descarga tem sempre gotas de condensaçao que indicam precisamente até onde o reservatorio esta cheio. E cada descarga que vi neste pais foi diferente até agora. Cada uma leva alguns minutos para entender como funciona. Parece comico: cada vez que vou ao banheiro, ha um pequeno desafio de logica para resolver...
Nunca entrei nos quartos dos outros rapazes. Sequer passei pela porta. Como o meu é o primeiro, logo de frente para a cozinha e banheiro, nao ha necessidade de ir mais para dentro da casa. Mas agora que penso nisso, tenho um pouco de curiosidade.
A cozinha, alias, tem qualquer charme de simplicidade. Uma mesa de madeira simples, quase Bauhauss, quase do tamanho da cozinha. De forma que, quando comemos todos juntos, mal da pra andar por ai. A madeira da mesa mostra sinais do tempo, como em pinturas do Caravaggio. Fogao de quatro bocas que praticamente explode cada vez que acendemos, mas sem perigo... Uma pia na qual a agua esquenta em segundos! E uma dispensa sem porta, onde amontoamos diferentes coisas de diferentes culturas e estilos de vida: o cha de Hillis, o arroz e condimentos estranhos de Soo, o cafe e molhos de macarrao do David, meu cappellini e biscoitos. Todos usam tudo sem pudores e compram quando acaba. David, por ter trabalhado em restaurante, tem um estranho prazer, ou disciplina, de lavar todos os pratos cada noite.
A casa, apesar de pequena por fora, abriga varios "apartamentos", conjuntos de quartos. O meu é o mais de baixo, um andar abaixo da entrada da casa. Contabilizei outros tres, mas acho que so um deles é ocupado por uma turma de estudantes gregos.
====================
Mesmo depois das poucas semanas que se passaram, ja consigo voltar para o meu quarto todas as noites e ter uma profunda sensaçao de que esta é minha casa. Um familiar conforto de voltar para um lugar que é meu e onde eu estou seguro. Quase nao ha mais aquela sensaçao, em parte gostosa e em parte desconfortavel, de ser o eterno viajante, longe de casa.
Melhor de tudo: desde aquele primeiro dia em Milao, nao voltei a ter nenhuma crise de ansiedade(salvo rarissimas lufadas de panico que duram segundos...) e nesses dias, percebi que estou até perdendo o medo de te-las. Mudanças ocasionadas pela Italia. Mas isso é assunto para outro post, num outro dia.
Moro em uma pequena casa logo fora das muralhas do burgo. Ela fica na encosta da colina, dando-me uma vista privilegiada da paisagem umbra (pra quem nao sabe, Umbria é a regiao onde esta Perugia), salvo por uma arvore pequena na frente da minha janela. De fato, meu quarto tem uma janela enorme, de parede a parede, que deixo sempre com as persianas abertas (mas por motivos obvios nunca abor os vidros...) para ver a paisagem e para deixar o sol esquentar o quarto de manha. Acordo todos os dias com o sol. Mesmo quando esqueço o despertador ou volto a dormir, ele aparece por entre as montanhas para me acordar aquecendo-me mais do que meu sono pode suportar. Escondo-me nas cobertas, mas depois de alguns minutos, ele ja aparece de novo por cima do cobertor que Paula (uma amiga brasileira que esteve em Perugia) me deixou, como um personagem travesso que olha por cima do meu ombro a me dizer "acorde, menino dorminhoco". Minhas paredes sao de um branco amarelado, com muitos pontos descascados onde o habitante anterior havia colado fotos e depois descolou ao partir. A pintura por baixo é um verde esquisito, vivo demais. O rapaz anterior deixou colados na parede um mapa de Perugia, um poster de uma festa do chocolate do ano passado, e dois desenhos de Asterix e Obelix. Tenho uma mesinha (minuciosamente organizada: alguns habitos nunca mudam...) com cadeira, armarios e uma TV, que até hoje nao liguei.
Encostado em um canto de cada sala (de cada edificaçao em Perugia, alias...), tem sempre um sistema de calefaçao. Ja o vira na casa de minha avo Nydia: varios tubos brancos com algum gas que circula dentro deles. O sistema é ativado automaticamente às seis da manha e da noite. Dispensaria a manha: o sol ja é suficiente... Mas sempre que retorno nas noites mais frias, a primeira coisa que faço é colocar as maos sobre o ferro para esquentar um pouco.
O banheiro, muito para meu agrado, é otimo. Em perfeitas condiçoes, com um chuveiro maravilhoso que so nao é melhor que o da casa dos Seppilli. Dentre tantos detalhes insignificantes mas poeticos que percebo por aqui todo os dias, noto que o reservatorio da descarga tem sempre gotas de condensaçao que indicam precisamente até onde o reservatorio esta cheio. E cada descarga que vi neste pais foi diferente até agora. Cada uma leva alguns minutos para entender como funciona. Parece comico: cada vez que vou ao banheiro, ha um pequeno desafio de logica para resolver...
Nunca entrei nos quartos dos outros rapazes. Sequer passei pela porta. Como o meu é o primeiro, logo de frente para a cozinha e banheiro, nao ha necessidade de ir mais para dentro da casa. Mas agora que penso nisso, tenho um pouco de curiosidade.
A cozinha, alias, tem qualquer charme de simplicidade. Uma mesa de madeira simples, quase Bauhauss, quase do tamanho da cozinha. De forma que, quando comemos todos juntos, mal da pra andar por ai. A madeira da mesa mostra sinais do tempo, como em pinturas do Caravaggio. Fogao de quatro bocas que praticamente explode cada vez que acendemos, mas sem perigo... Uma pia na qual a agua esquenta em segundos! E uma dispensa sem porta, onde amontoamos diferentes coisas de diferentes culturas e estilos de vida: o cha de Hillis, o arroz e condimentos estranhos de Soo, o cafe e molhos de macarrao do David, meu cappellini e biscoitos. Todos usam tudo sem pudores e compram quando acaba. David, por ter trabalhado em restaurante, tem um estranho prazer, ou disciplina, de lavar todos os pratos cada noite.
A casa, apesar de pequena por fora, abriga varios "apartamentos", conjuntos de quartos. O meu é o mais de baixo, um andar abaixo da entrada da casa. Contabilizei outros tres, mas acho que so um deles é ocupado por uma turma de estudantes gregos.
====================
Mesmo depois das poucas semanas que se passaram, ja consigo voltar para o meu quarto todas as noites e ter uma profunda sensaçao de que esta é minha casa. Um familiar conforto de voltar para um lugar que é meu e onde eu estou seguro. Quase nao ha mais aquela sensaçao, em parte gostosa e em parte desconfortavel, de ser o eterno viajante, longe de casa.
Melhor de tudo: desde aquele primeiro dia em Milao, nao voltei a ter nenhuma crise de ansiedade(salvo rarissimas lufadas de panico que duram segundos...) e nesses dias, percebi que estou até perdendo o medo de te-las. Mudanças ocasionadas pela Italia. Mas isso é assunto para outro post, num outro dia.
Celular: quando o barato sai caro
Quando resolvi comprar um celular, obviamente fui procurar o mais barato. Mas resolvi gastar um pouquinho mais com algumas coisas. Procurei uma marca e operadora que me permitisse levar o aparelho pro Brasil e usa-lo la depois da minha aventura por aqui. Em seguida, percebi que a diferença entre o celular mais barato e o mais barato com camera era ridicula. Gastei um pouco mais e comprei o celular com camera. Passei meu numero para toda a galera no Brasil e esperei para ouvir as vozes familiares e confortantes das pessoas que eu nao via ha algumas semanas.
Lala's foi o primeiro a ligar, como eu supunha. Ele nao perde tempo. Em seguida, por motivos obvios, recebi uma ligaçao da Lee. Por ultimo, ontem à noite, uma deliciosa ligaçao da minha familia. Sinto que falo com meu irmao de um jeito que nunca falei na vida.
Hoje de manha, meu celular acordou sem credito. Achei estranho, porque tinha feito duas ligaçoes curtas e mandado cinco mensagens de texto. Na lojinha do celular, enquanto recarregava, o rapaz explicou que ligaçoes recebidas de fora da Europa e mesmo de alguns paises europeus sao pagas por quem liga e quem recebe, metade por cada um... Otimo, nao?
Tem mais: procurei por dois dias um modo de passar minhas fotos para um computador pra poder mandar para voces. Tenho fotos lindas da paisagem, dos lugares, do Duomo de Milao... Ainda nao tirei da turma, mas é porque estou procurando uma luz e lugar legais. E eles sao meio timidos para fotos...
Enfim, fiquei sabendo que minhas duas unicas opçoes para tirar essas fotos do celular sao:
1) Comprar um cabo celular-computador, que custa a bagatela de €35,00 (uns R$80,00 ou mais, metade do preço do celular...) com um software que precisa ser instalado no computador. Detalhe: eu nao tenho computador e nao posso instalar nos computadores das lojas de internet.
2) Mandar por e-mail do celular para o meu e-mail do Yahoo. Otimo. Estou batalhando com a TIM daqui ha dois dias pra conseguir criar minha conta de e-mail do celular. Mas o serviço deles esta sempre convenientemente "indisponivel". Ainda hoje, fiquei sabendo que um unico e-mail com imagem mandado do celular custa algo em torno de €4,00 (uns R$10,00). CADA E-MAIL!
Ou seja, até eu conseguir dar uma de brasileiro esperto e arranjar algum jeito alternativo, voces vao ter que esperar pra ver as fotos deste pequeno paraiso... Sim, rapazes, da Linnea também...
Lala's foi o primeiro a ligar, como eu supunha. Ele nao perde tempo. Em seguida, por motivos obvios, recebi uma ligaçao da Lee. Por ultimo, ontem à noite, uma deliciosa ligaçao da minha familia. Sinto que falo com meu irmao de um jeito que nunca falei na vida.
Hoje de manha, meu celular acordou sem credito. Achei estranho, porque tinha feito duas ligaçoes curtas e mandado cinco mensagens de texto. Na lojinha do celular, enquanto recarregava, o rapaz explicou que ligaçoes recebidas de fora da Europa e mesmo de alguns paises europeus sao pagas por quem liga e quem recebe, metade por cada um... Otimo, nao?
Tem mais: procurei por dois dias um modo de passar minhas fotos para um computador pra poder mandar para voces. Tenho fotos lindas da paisagem, dos lugares, do Duomo de Milao... Ainda nao tirei da turma, mas é porque estou procurando uma luz e lugar legais. E eles sao meio timidos para fotos...
Enfim, fiquei sabendo que minhas duas unicas opçoes para tirar essas fotos do celular sao:
1) Comprar um cabo celular-computador, que custa a bagatela de €35,00 (uns R$80,00 ou mais, metade do preço do celular...) com um software que precisa ser instalado no computador. Detalhe: eu nao tenho computador e nao posso instalar nos computadores das lojas de internet.
2) Mandar por e-mail do celular para o meu e-mail do Yahoo. Otimo. Estou batalhando com a TIM daqui ha dois dias pra conseguir criar minha conta de e-mail do celular. Mas o serviço deles esta sempre convenientemente "indisponivel". Ainda hoje, fiquei sabendo que um unico e-mail com imagem mandado do celular custa algo em torno de €4,00 (uns R$10,00). CADA E-MAIL!
Ou seja, até eu conseguir dar uma de brasileiro esperto e arranjar algum jeito alternativo, voces vao ter que esperar pra ver as fotos deste pequeno paraiso... Sim, rapazes, da Linnea também...
terça-feira, fevereiro 07, 2006
P.S.:
Pessoas, tenho um telefone. O numero:
+39 - 3338244965
Vou deixa-lo aqui por um tempo, depois apago, por medidas de segunrança.
Comunico ainda que o telefone tem uma camera bem ruim, mas que servira para tirar essa névoa que cobre as imagens que voces tem na cabeça de tudo que eu descrevo. Ja fotografei algumas coisas de Perugia, o Duomo de Milao e, claro, a mim mesmo. Mas ainda estou descobrindo como passar as imagens para o computador. Ignorancia tecnologia é fogo...
+39 - 3338244965
Vou deixa-lo aqui por um tempo, depois apago, por medidas de segunrança.
Comunico ainda que o telefone tem uma camera bem ruim, mas que servira para tirar essa névoa que cobre as imagens que voces tem na cabeça de tudo que eu descrevo. Ja fotografei algumas coisas de Perugia, o Duomo de Milao e, claro, a mim mesmo. Mas ainda estou descobrindo como passar as imagens para o computador. Ignorancia tecnologia é fogo...
Fim de semana 1: Milao
Desculpem o hiato desses ultimos dias. Suponho que isso va acontecer frequentemente nos fins de semana.
Percebi que a rotina começou a dar as caras. Passei a falar das pessoas e deixei de lado aquilo que acho ser o mais interessante desses meus relatos: as descriçoes da Italia, das coisas, dos costumes.
No meu primeiro fim de semana aqui, resolvi voltar a Milao para tentar ver a neve de novo e, segundo fiquei sabendo, a exposiçao de Caravaggio (ultimos dias). Dentre os primeiros contatos com a lista de pessoas que minha avo me passou antes de vir para ca, eu ja havia entabulado conversa com o senhor Livio Zeller, em Milao. Escrevia-me em ingles, achando que eu nao falasse nada de italiano (depois fui saber que o fazia por sugestao de minha avo...). Quando me escreveu convidando-me para ficar na casa dele em Milao durante o fim de semana e acompanha-lo a uma festa, isso fechava o momento perfeito para voltar a Milao.
Peguei o trem no sabado de manha. Aprenderia assim que devo sair de Perugia sempre na sexta à tarde: gastei boa parte do dia viajando...
A area ao redor de Perugia nao é exatamente uma planicie. Sao pequenos montes, belissimos, muito menores que a colina onde esta o burgo. A caminho de Milao, no entanto, viajei por uma verdadeira planicie, reta até ver a cadeia de montanhas ao fundo. Passava por campos de trigo e feno, este ultimo enrolado em fardos enormes que pareciam grandes rodas de cortiça perdidas na planicie. As casas, e mesmo os bosques, tinham aquele aspecto de que ja falei: "propositalmente desorganizados", como se fossem direçao de arte de um filme. Tudo aqui parece... estranha, porém deliciosamente artificial. Vi na paisagem pontes de pedra, de arquitetura belissima, muito mais do que meros meios de passar sobre um rio. Vi a teia de estradas de ferro com uma estética particular que eu gostaria de gastar um ano experimentando. E as cidades que ja vi nas outras viagens: por alguma razao, sempre acordo de um cochilo em Arezzo. Alguma força maior talvez esteja me dizendo para ir la.
Na minha cabeça, duas musicas do Historia sem Fim tocavam sem parar. Combinam muito com viagens de trem, suponho. E tem sido minha trilha sonora ultimamente. Queria ter um Kazaa para baixa-las da internet...
Faço uma nota mental de sempre viajar do lado esquerdo do trem: cada vez que outro trem passa na direçao contraria, a lufada de ar golpeia o vidro da janela, dando a impressao de que, qualquer dia, a janela vai explodir. Sei que a possibilidade é nula, mas o susto é sempre enorme.
No trem, tomo pela segunda vez uma bronca do cara que passa checando as passagens. Preciso convalidar a passagem e ainda nao tinha entendido o que era isso. Livio me explicou em Milao. Mas nao vou aborrece-los com isso por aqui. Tenho percebido ainda que muita coisa por aqui acontece sem muita fiscalizaçao. Os europeus, diferente do brasileiro aproveitador, sao ensinados a obedecer as regras e a fiscalizaçao torna-se menos necessaria. De vez em quando, ha alguma coisa. So pra dizer "comporte-se porque estamos olhando". Eu, com minha educaçao espartana, nao sou sacana o suficiente para aproveitar as brechas de fiscalizaçao, com medo de ser pego. Mas que existem, existem. E muita gente economiza com isso, pegando trens sem comprar passagem, metro sem bilhete, essas coisas...
Para minha frustraçao, nao havia mais neve em Milao. Andando pela cidade, encontrei apenas montinhos de gelo sujo derretendo nas ruas. Pareciam-me como restos amarfanhados de confetti, varridos em um montinho depois de uma grande festa. Davam-me, de fato, a sensaçao de que perdi o melhor da festa. A neve dera lugar para uma Milao feia, cheia de paredes pixadas e de tons acinzentados que, em Perugia, faziam parte do video-game, mas que aqui eram a direçao de arte de algum deprimente e tedioso filme frances ou algum romance do Kafka.
Encontrei a casa do senhor Zeller sem muita dificuldade. Era uma vila dessas com um patio no meio. Ele me recebeu na porta: era um senhorzinho pequeno, franzino, com algum problema no olho, mas muito alegre! Sempre sorrindo, sempre com uma piada para fazer. Falava um ingles com sotaque italiano pesado, como desses estereotipos de italianos morando em Nova Iorque.
A casa era uma delicia. Um amontoado de pequenas quinquilharias, boas memorias de uma vida plena. O retrato dele feito pelo pai pintor anos atras, as fotos da neta e do filho, livros de uma vida dedicada à engenharia (estudou muito sobre hidrogenio como alternativa de combustivel! Meu irmao gostaria de falar com ele, suponho!). Tudo com toques de tecnologia européia: Livio mostrou-me, sem muito pudor, a sauna para dois que tinha no banheiro, falando-me de uma garota que tivera... Alias, falar com ele de amores era uma delicia. Mais tarde saberia que foi muito apaixonado pela minha avo quando adolescente, embora nao tenha ficado claro se algo aconteceu entre eles... Seguia ela de longe, sabendo do lançamento do livro dela e de tantas coisas, com a dedicaçao de um verdadeiro stalker pré-internético. Dedicava-se a saber da situaçao atual dela como eu me dediquei a saber da situaçao de todas as minhas ex-paixoes.
Tive pouco tempo para ficar na casa: saimos para a festa dos amigos dele. Uma turma de senhores animadissimos e muito cultos. A conversa girava em torno de dietas, gastronomia, enologia, o Santo Graal e religiao. De fato, fiquei muito interessado em um video que um dos senhores, um antropologo, mostraria mais tarde, de uma expediçao feita à Islandia. Dizia ter estudado pistas escondidas nas obras de Leonardo, Botticelli, Rafael e Dante, todas convergindo para um local especifico do pais gelado, onde, dez metros abaixo da terra, estaria escondida uma camara com documentos secretos da biblia, nunca antes vistos. O proprio Graal do Codigo Da Vinci. Infelizmente, ele ainda precisaria captar recursos financeiros para fazer a excavaçao...
A proposito: comi maravilhosamente bem. O primeiro lugar que estive aqui na Italia onde a comida nao so tinha gosto, como tinha um gosto fantastico! Bebemos varios tipos de vinho, comemos muito queijo, presuntos, pasta (claro...) e conservas das mais diversas frutas.
No dia seguinte, Caravaggio!
O senhor Zeller acompanhou-me até a praça do Duomo de Milao, mas nao entrou na exposiçao pois tinha yoga... O Duomo vale uma nota por aqui. Apesar de estar parcialmente coberto por causa de obras de restauraçao, o pouco que mostrava ja valia a pena. Tamanha era a profusao de detalhes, que de longe parecia daqueles castelos de areia que se faz deixando areia molhada escorrer dos dedos. Cada canto era adornado por uma estatua de um santo, um martir, uma lenda. No topo, uma enorme estatua dourada do que parecia ser um papa.
Uma hora de fila depois, sendo um tanto assediado por africanos tentando vender livros desinteressantes ao pessoa na fila, estava entrando na exposiçao. Tem algo de diverente em comparar o real thing com aquilo que se esta acostumado a ver nos posters e imagens de internet. Imaginava, por exemplo, que um mestre da grandeza de Caravaggio teria encontrado um modo de evitar aquile efeito de pintura rachada das pinturas antigas. Que ele teria descoberto um modo de manter o frescor da pintura. Nao que isso tenha diminuido o maravilhamento! Vi a Madona of the Pilgrims e me detive por um bom tempo a estudar a forma como a saia dela emerge do escuro, sendo vista apenas pelos pontos de luz, ou como o mestre dedica tanta atençao às maos e pés, fazendo cada ruga das juntas dos dedos, mesmo nas crianças. Tipico de Caravaggio sao também as maos brutas dos homens, maos de trabalho pesado que, se tocassem no bebe como a Virgem toca, certamente o machucariam. A Crowning with Thorns é talvez impossivel de ser decentemente fotografada para a internet: no quadro real, a diferença entre o escuro do fundo e a armadura do homem em primeiro plano è sutil, mas perceptivel. O homem sinistro é mais escuro que a escuridao. E porta uma armadura da época de Caravaggio em uma cena da Biblia: a convergencia de tempos é outra coisa tipica do mestre italiano. A exposiçao ainda prosseguia com estudantes do Caravaggio, como os irmaos Gentileschi e Mattia Preti.
Retornei de Milao logo depois da exposiçao. Peguei minha bagagem na casa do senhor Zeller e deixei-lhe um bilhete de agradecimento na porta. Queria passar mais tempo em Milao, talvez para erradicar essa noçao da cidade feia, cheia de graffitti, cinza. Mas tinha um trem a pegar de volta para Perugia e classes para assistir no dia seguinte. A estaçao de Milao, se fosse consciente, teria percebido-me um pouco mais esperto do que quando andei por seu espaço coberto pela primiera vez. Ja era um rapaz que sabia convalidar passagens de trem e achar o trem certo sem hesitaçao.
A volta foi sem grandes acontecimentos. Uma garota chinesa falava no celular (e falou por boa parte das cinco horas de viagem...). Eu entabulei conversa com um cabeleireiro de Prato (sim, é uma cidade a caminho de Perugia...) e uma outra senhora italiana que disse ter achado que eu era frances. Saltei em Perugia e o frio quase me pareceu familiar. Murmurei, para ninguém: “God, it’s cold!” e uma texana simpatica respondeu automaticamente. Chamava-se Bree. Até entao, eu tinha achado que eu estava aborrecendo meus companheiros europeus com o tanto que falava. Até conhecer Bree...
Percebi que a rotina começou a dar as caras. Passei a falar das pessoas e deixei de lado aquilo que acho ser o mais interessante desses meus relatos: as descriçoes da Italia, das coisas, dos costumes.
No meu primeiro fim de semana aqui, resolvi voltar a Milao para tentar ver a neve de novo e, segundo fiquei sabendo, a exposiçao de Caravaggio (ultimos dias). Dentre os primeiros contatos com a lista de pessoas que minha avo me passou antes de vir para ca, eu ja havia entabulado conversa com o senhor Livio Zeller, em Milao. Escrevia-me em ingles, achando que eu nao falasse nada de italiano (depois fui saber que o fazia por sugestao de minha avo...). Quando me escreveu convidando-me para ficar na casa dele em Milao durante o fim de semana e acompanha-lo a uma festa, isso fechava o momento perfeito para voltar a Milao.
Peguei o trem no sabado de manha. Aprenderia assim que devo sair de Perugia sempre na sexta à tarde: gastei boa parte do dia viajando...
A area ao redor de Perugia nao é exatamente uma planicie. Sao pequenos montes, belissimos, muito menores que a colina onde esta o burgo. A caminho de Milao, no entanto, viajei por uma verdadeira planicie, reta até ver a cadeia de montanhas ao fundo. Passava por campos de trigo e feno, este ultimo enrolado em fardos enormes que pareciam grandes rodas de cortiça perdidas na planicie. As casas, e mesmo os bosques, tinham aquele aspecto de que ja falei: "propositalmente desorganizados", como se fossem direçao de arte de um filme. Tudo aqui parece... estranha, porém deliciosamente artificial. Vi na paisagem pontes de pedra, de arquitetura belissima, muito mais do que meros meios de passar sobre um rio. Vi a teia de estradas de ferro com uma estética particular que eu gostaria de gastar um ano experimentando. E as cidades que ja vi nas outras viagens: por alguma razao, sempre acordo de um cochilo em Arezzo. Alguma força maior talvez esteja me dizendo para ir la.
Na minha cabeça, duas musicas do Historia sem Fim tocavam sem parar. Combinam muito com viagens de trem, suponho. E tem sido minha trilha sonora ultimamente. Queria ter um Kazaa para baixa-las da internet...
Faço uma nota mental de sempre viajar do lado esquerdo do trem: cada vez que outro trem passa na direçao contraria, a lufada de ar golpeia o vidro da janela, dando a impressao de que, qualquer dia, a janela vai explodir. Sei que a possibilidade é nula, mas o susto é sempre enorme.
No trem, tomo pela segunda vez uma bronca do cara que passa checando as passagens. Preciso convalidar a passagem e ainda nao tinha entendido o que era isso. Livio me explicou em Milao. Mas nao vou aborrece-los com isso por aqui. Tenho percebido ainda que muita coisa por aqui acontece sem muita fiscalizaçao. Os europeus, diferente do brasileiro aproveitador, sao ensinados a obedecer as regras e a fiscalizaçao torna-se menos necessaria. De vez em quando, ha alguma coisa. So pra dizer "comporte-se porque estamos olhando". Eu, com minha educaçao espartana, nao sou sacana o suficiente para aproveitar as brechas de fiscalizaçao, com medo de ser pego. Mas que existem, existem. E muita gente economiza com isso, pegando trens sem comprar passagem, metro sem bilhete, essas coisas...
Para minha frustraçao, nao havia mais neve em Milao. Andando pela cidade, encontrei apenas montinhos de gelo sujo derretendo nas ruas. Pareciam-me como restos amarfanhados de confetti, varridos em um montinho depois de uma grande festa. Davam-me, de fato, a sensaçao de que perdi o melhor da festa. A neve dera lugar para uma Milao feia, cheia de paredes pixadas e de tons acinzentados que, em Perugia, faziam parte do video-game, mas que aqui eram a direçao de arte de algum deprimente e tedioso filme frances ou algum romance do Kafka.
Encontrei a casa do senhor Zeller sem muita dificuldade. Era uma vila dessas com um patio no meio. Ele me recebeu na porta: era um senhorzinho pequeno, franzino, com algum problema no olho, mas muito alegre! Sempre sorrindo, sempre com uma piada para fazer. Falava um ingles com sotaque italiano pesado, como desses estereotipos de italianos morando em Nova Iorque.
A casa era uma delicia. Um amontoado de pequenas quinquilharias, boas memorias de uma vida plena. O retrato dele feito pelo pai pintor anos atras, as fotos da neta e do filho, livros de uma vida dedicada à engenharia (estudou muito sobre hidrogenio como alternativa de combustivel! Meu irmao gostaria de falar com ele, suponho!). Tudo com toques de tecnologia européia: Livio mostrou-me, sem muito pudor, a sauna para dois que tinha no banheiro, falando-me de uma garota que tivera... Alias, falar com ele de amores era uma delicia. Mais tarde saberia que foi muito apaixonado pela minha avo quando adolescente, embora nao tenha ficado claro se algo aconteceu entre eles... Seguia ela de longe, sabendo do lançamento do livro dela e de tantas coisas, com a dedicaçao de um verdadeiro stalker pré-internético. Dedicava-se a saber da situaçao atual dela como eu me dediquei a saber da situaçao de todas as minhas ex-paixoes.
Tive pouco tempo para ficar na casa: saimos para a festa dos amigos dele. Uma turma de senhores animadissimos e muito cultos. A conversa girava em torno de dietas, gastronomia, enologia, o Santo Graal e religiao. De fato, fiquei muito interessado em um video que um dos senhores, um antropologo, mostraria mais tarde, de uma expediçao feita à Islandia. Dizia ter estudado pistas escondidas nas obras de Leonardo, Botticelli, Rafael e Dante, todas convergindo para um local especifico do pais gelado, onde, dez metros abaixo da terra, estaria escondida uma camara com documentos secretos da biblia, nunca antes vistos. O proprio Graal do Codigo Da Vinci. Infelizmente, ele ainda precisaria captar recursos financeiros para fazer a excavaçao...
A proposito: comi maravilhosamente bem. O primeiro lugar que estive aqui na Italia onde a comida nao so tinha gosto, como tinha um gosto fantastico! Bebemos varios tipos de vinho, comemos muito queijo, presuntos, pasta (claro...) e conservas das mais diversas frutas.
No dia seguinte, Caravaggio!
O senhor Zeller acompanhou-me até a praça do Duomo de Milao, mas nao entrou na exposiçao pois tinha yoga... O Duomo vale uma nota por aqui. Apesar de estar parcialmente coberto por causa de obras de restauraçao, o pouco que mostrava ja valia a pena. Tamanha era a profusao de detalhes, que de longe parecia daqueles castelos de areia que se faz deixando areia molhada escorrer dos dedos. Cada canto era adornado por uma estatua de um santo, um martir, uma lenda. No topo, uma enorme estatua dourada do que parecia ser um papa.
Uma hora de fila depois, sendo um tanto assediado por africanos tentando vender livros desinteressantes ao pessoa na fila, estava entrando na exposiçao. Tem algo de diverente em comparar o real thing com aquilo que se esta acostumado a ver nos posters e imagens de internet. Imaginava, por exemplo, que um mestre da grandeza de Caravaggio teria encontrado um modo de evitar aquile efeito de pintura rachada das pinturas antigas. Que ele teria descoberto um modo de manter o frescor da pintura. Nao que isso tenha diminuido o maravilhamento! Vi a Madona of the Pilgrims e me detive por um bom tempo a estudar a forma como a saia dela emerge do escuro, sendo vista apenas pelos pontos de luz, ou como o mestre dedica tanta atençao às maos e pés, fazendo cada ruga das juntas dos dedos, mesmo nas crianças. Tipico de Caravaggio sao também as maos brutas dos homens, maos de trabalho pesado que, se tocassem no bebe como a Virgem toca, certamente o machucariam. A Crowning with Thorns é talvez impossivel de ser decentemente fotografada para a internet: no quadro real, a diferença entre o escuro do fundo e a armadura do homem em primeiro plano è sutil, mas perceptivel. O homem sinistro é mais escuro que a escuridao. E porta uma armadura da época de Caravaggio em uma cena da Biblia: a convergencia de tempos é outra coisa tipica do mestre italiano. A exposiçao ainda prosseguia com estudantes do Caravaggio, como os irmaos Gentileschi e Mattia Preti.
Retornei de Milao logo depois da exposiçao. Peguei minha bagagem na casa do senhor Zeller e deixei-lhe um bilhete de agradecimento na porta. Queria passar mais tempo em Milao, talvez para erradicar essa noçao da cidade feia, cheia de graffitti, cinza. Mas tinha um trem a pegar de volta para Perugia e classes para assistir no dia seguinte. A estaçao de Milao, se fosse consciente, teria percebido-me um pouco mais esperto do que quando andei por seu espaço coberto pela primiera vez. Ja era um rapaz que sabia convalidar passagens de trem e achar o trem certo sem hesitaçao.
A volta foi sem grandes acontecimentos. Uma garota chinesa falava no celular (e falou por boa parte das cinco horas de viagem...). Eu entabulei conversa com um cabeleireiro de Prato (sim, é uma cidade a caminho de Perugia...) e uma outra senhora italiana que disse ter achado que eu era frances. Saltei em Perugia e o frio quase me pareceu familiar. Murmurei, para ninguém: “God, it’s cold!” e uma texana simpatica respondeu automaticamente. Chamava-se Bree. Até entao, eu tinha achado que eu estava aborrecendo meus companheiros europeus com o tanto que falava. Até conhecer Bree...
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