quinta-feira, novembro 20, 2008

Aniversário - clareza

[A pedidos...]

Sabe quando uma coisa é esquisita, mas muito boa?
Não choveu no meu aniversário. Isso por sí só já diz muita coisa. Há um decreto divino que estabelece que em todo dia 15 de novembro os céus verterão água. Pode ser, como no caso do ano passado, uma garoa fina. Pode ser um daqueles dilúvios de verão. Mas sempre chove. Neste ano, os céus estiveram perfeitamente limpos o dia inteiro e a noite contou com uma temperatura muito agradável.

A balada foi no Berlin, que quem conhece disse ter ótima música. O ambiente me lembrava uma versão menor e com pessoas mais comportadas do extinto Atari. E embora o primeiro DJ tenha sido terrível, o que seguiu depois da banda de punk-rock tocou músicas latinas bem interessantes.

Minha Lexy cometeu a loucura de trazer um bolo à festa, que acabou sendo repartido entre mais do que apenas os convidados, mas foi uma loucura gostosa, de generosidade, de delícia. Ajudou-me ainda a fazer um flyer do evento e a montar uma lista de e-mails para mandar.

E como estou eu com essa idade toda? Bom, sabe quando uma coisa é esquisita, mas muito boa?
Nesses meses que antecederam o aniversário, a vida dotou-se de uma extraordinária clareza. Sobre quem eu sou hoje e o que quero ser daqui pra frente. Sobre o que vou fazer no ano que vem. Sobre uma carreira de arte e uma produção que eu retomei este ano. Sobre o que eu quero dizer na minha pintura daqui pra frente. Sobre quem eu quero que esteja comigo daqui pra frente.
É claro que houve a discussão de quem foi e quem deixou de ir. Mas mesmo essa discussão foi recebida com uma clareza dolorosa. Você não sai da sua confortável preguiça e adia compromissos menores e gasta dinheiro e vai para um boteco que não toca o seu tipo de música e conversa com pessoas que não falam o seu tipo de papo por qualquer conhecido seu. Em uma cidade onde todo mundo lida com pelo menos cinco turmas separadas (a do colégio, a da faculdade, a do prédio, a do trabalho e a família) e quinhentos outros micro-universos isolados, você só responde ao chamado de pessoas que realmente valem a pena. E não há tristeza, culpa ou pena de mim mesmo quando digo que eu sei que pra muita gente eu não valho a pena. Eu sou um conhecido. Um conhecido legal, mas apenas um conhecido. Eu também não vou às suas festinhas de aniversário. Todos nós temos lugares muito melhores para ir.
Mas assim como o meu projeto do ano que vem é mudar quem eu sou e o que eu faço, o jeito com o qual eu me relaciono com as pessoas também há de mudar. Pra ganhar importância, relevância, crédito. Pra ser alguém para quem é alguém pra mim.

sexta-feira, novembro 14, 2008

28ª Bienal de São Paulo

Não há como não ser influenciado pelas opiniões a respeito da Bienal. Estão em toda parte, superadas apenas pelas opiniões sobre a vitória de Obama para a presidencia dos EUA. E para quem se liga mais em arte do que em política, é impossível pensar em outra coisa.
Fui sozinho à minha primeira visita à Bienal deste ano. Queria dar o devido tempo às obras que me chamassem a atenção, sem lidar com a pressa alheia. Porém, mais do que isso, queria que minha opinião sobre o evento e as obras fosse só minha. Porque quando estou com alguém nessas exposições, tenho a tendência a fazer o papel de advogado do diabo, defendendo trabalhos que, em outras circunstâncias, eu teria desprezado.
As matérias de jornal se enganam ao dizer que esta edição da Bienal conta com um andar vazio. Na verdade é um andar e meio. O primeiro piso do prédio da Bienal tem sua primeira metade, logo antes da rampa, que não está propriamente vazio, mas quase. Pelo que relatam os textos estilosamente aplicados na dita rampa, essa primeira parte tem o propósito de servir como uma espécie de praça pública, um espaço aberto e verdadeiramente público. Essa era, segundo os curadores, a idéia inicial de Niemeyer para aquele espaço. Só não pude dizer que o espaço está vazio porque ainda estavam por lá os restos do palco do show do Fischerspooner, que a galerinha mais hype disse que foi ótimo. Além disso, há uma curiosa, embora sorrateira videoinstalação do Rubens Mano em um cubículo imperceptível abraçando uma coluna, e a intervenção da turma da Anarcademia (espécie de coletivo de jovens artistas formado pelos asseclas da Dora).

Por causa da "intervenção" dos pixadores no andar vazio, a entrada para a Bienal propriamente dita é agora controlada por um forte esquema de segurança, que inclui detectores de metal, guarda-volumes para bolsas suspeitas e muitos homens de preto. Meus parabéns à turma do Pixobomb... Podem não ter mudado a opinião pública sobre o pixo, mas mudaram a atitude da Bienal, que ficou bem menos receptiva.

Logo na entrada, dei de cara com o Mundo Explicado do argentino Erick Beltrán. Me pareceu um projeto interessante, valendo-se da interatividade com o público e da noção popular (de "nao-especialistas", como ele chama o público) sobre diversos assuntos para criar uma espécie de enciclopédia de conhecimentos gerais e explicações chucras do mundo. O projeto contava com uma pequena equipe de editores, uma impressora off-set e um intrincado sistema de dados.
Outro detalhe que me chamou a atenção no primeiro andar foi o projeto Talisman de Paul Ramirez Jonas. Um chaveiro instalado na Bienal entregava supostas cópias da chave do pavilhão em troca de cópias das chaves dos visitantes. O visitante pode, teoricamente, vir até o pavilhão pela manhã para abrir a Bienal daquele dia. Uma troca interessante, mas acho que depois do ataque ao segundo andar, ações desse tipo ganham outros ares e muitos medos.
Mas o que realmente toma boa parte da atenção e relevância do primeiro andar é a sessão de vídeos. Os curadores desta edição devem ser realmente apaixonados pela mídia, já que dedicaram uma área dividida em várias partes intensamente organizadas a essa forma de expressão. Trata-se quase de uma mostra dentro da mostra, relatando um pouco dos primeiros experimentos em video arte, questões políticas relacionadas e vídeos com uma linguagem mais recente. O mais interessante dessa área de vídeos é que seu conteúdo muda a cada semana. Não sei exatamente o que pensar disso: se a estratégia foi divisada para conseguir expor tão vasto acervo, ou para convencer o visitante a voltar inúmeras vezes, aumentando assim as estatísticas desta edição do evento. Quiçá seja por ambos os motivos.

E então, o segundo andar. O andar "vazio". Escrito assim, entre aspas, porque uma das entradas para os escorregadores do belga Carsten Höller fica aqui. E já fica aqui a minha primeira crítica sobre o segundo andar: se é para ser vazio, que seja realmente vazio. Da forma como está, virou "o andar do escorregador". No mais, embora eu admita que é algo relativamente impressionante estar naquele enorme andar vazio, qualquer visitante assíduo do Ibirapuera vê aquilo se olhar através das enormes janelas do pavilhão nas épocas em que ele está fechado e sem exposições. Ou seja, nenhuma novidade. Até cheguei a murmurar maravilhado sobre como seria legal andar de patins naquele chão perfeitamente liso. Ah, é... pra isso tem a marquise lá fora. Ou seja, nenhuma novidade MESMO.
Encontrei Marcela Tiboni no andar vazio. Vendo-a chegar à distância e reconhecendo-a através da minha miopia. Marcela organizou o corpo de monitores desta edição, chegando até a me mandar um e-mail convidando-me a participar. Vontades de largar a agência de publicidade e ir... Conversamos sobre o ocorrido no domingo de abertura, sobre os pixadores. Ela estava lá no embate entre eles e os seguranças e contou da violência de ambas as partes. Relatou ainda que depois daquilo, muita gente ia ao segundo andar só pra fazer rebeldia gratuita, se comportar mal e gritar aos quatro ventos que estava sendo agredido por seguranças d'O Sistema. Achei talvez a parte mais interessante e estimulante da minha visita ao segundo andar: ouvir em primeira mão o relato do outro lado da história. O de quem tem que lidar com os pixadores na prática, e não apenas fazer divagações teóricas sobre a validade artística dos atos deles. Marcela não queria saber da validade de porra nenhuma. Tinha sido agredida por gente que viera atrapalhar seu trabalho e não teria um pingo de simpatia por aqueles pixadores, artistas ou não. E isso tudo era mais real e dizia mais a ela do que qualquer arte.

O terceiro andar é, via de regra, o melhor da Bienal. Em quase todas as edições que fui. E embora eu não tenha visto tudo por estar começando a sentir os efeitos do cansaço (a impaciência, a dispersão...), gostei muito do que consegui ver. Logo de cara, passei quase uma hora no trabalho de minha ídola Sophie Calle. Assim como os vídeos, a montagem de Calle era uma mostra dentro da mostra. Centrando-se em um trabalho específico, La Filature (A Perseguição), com fotos e anotações penduradas em uma parede sobre a experiência que fez pedindo que sua mãe contratasse um detetive para segui-la, a montagem trazia também cadeiras às quais estavam amarrados exemplares de um livro documentando a experiência simbiótica entre Calle e o escritorPaul Auster. Ele criou uma personagem baseada nas pesquisas e performances de Calle sobre intimidade e identidade para um de seus livros, enquanto ela procurou viver as performances e situações que a personagem de Auster viveu. Nesse processo, diversos dos trabalhos anteriores de Calle foram descritos e documentados no livro, que serve quase como um catálogo da carreira da artista. Poderia escrever um post separado sobre Sophie Calle (talvez o faça algum dia...). Seu trabalho parece validar atitudes tidas como perversas como o voyeurismo, a obssessão e todas as atitudes de um bom stalker.
Logo ao lado, o aguardado trabalho de Marina Abramovic não tinha nada a ver com a fundação que ela criou depois de separar-se de Ulay, como eu tinha previsto. Era um trabalho antigo, uma coleção de auto-retratos em vídeo. Ela os chamava de retratos por serem closes de seu rosto em diversas situações. Fez-me lembrar dos meus retratos, que eram justamente isso: ilustrações de rostos que tomavam toda a tela. Deu vontade de fazer vídeos como os dela. Mas acho que falta-me a poesia. Abramovic também figurou em diversos vídeos da área de vídeos do primeiro andar. Vários deles com o ex-parceiro. Não tenho certeza, mas acho que tem um vídeo dela para cada semana da Bienal na última sessão da área do primeiro andar.
De saída, fiquei com vontade de escrever nas máquinas alteradas de Rivane Neuenschwander. O trabalho também era antigo e conhecido, das máquinas de escrever modificadas, mas a interação do público é sempre interessante. Às vezes acho-a mais interessante do que o próprio trabalho da artista, por ser uma amostra de criatividade anônima, pública, desconhecida. Mas não escrevi nas máquinas. Porque, conforme eu tinha escrito antes, o trabalho de Rivane precisa de seu próprio tempo e dedicação. É um trabalho sutil, delicado, para sentar, apreciar e pensar a respeito por alguns minutos. E colocado assim, no fim de uma longa exposição de várias horas, acaba vitimado pelo cansaço e impaciência do visitante que já saturou-se de arte e quer ir para casa.
Também não desci pelos escorregadores do Carsten Höller. O trabalho faz sucesso e a fila para acessá-lo é consideravelmente longa. Não tiro o mérito do trabalho: embora ele não convide a uma reflexão tão profunda quanto outros trabalhos, é divertido e mantem as crianças ocupadas. Mas quem sabe uma próxima vez...

domingo, novembro 02, 2008

Acho que já faz mais de seis meses que a banda se apresentou pela última vez, no Manifesto. O fato teve o gosto daquelas coincidências que só aconteciam na Itália: o Manifesto foi o mesmo lugar da nossa primeira apresentação, e pareceu o fim perfeito para tudo, o fechamento de um ciclo. A partir daí foi tudo ladeira abaixo até a fatídica conversa em Julho, em um Starbucks. Não vou falar de motivos, mas achei que precisava colocar uma nota disso aqui. Senti na época que não devia, mas hoje sinto que ficou esse vácuo, essa notícia não noticiada, porque muita gente ainda vem me perguntar sobre os próximos shows.

A banda acabou mesmo.

Cada um foi para o seu canto. Pessoalmente, eu voltei a ser artista plástico. Reabri o ateliê em Junho, um mês antes, e voltei a pintar com alguma disciplina que me faltava desde que saí da faculdade, e que estava dedicando à banda. Faz mais sentido: estudei para isso, me interesso por isso, já tenho conhecimento nessa área para me considerar mais que um leigo nisso. No rock, eu sempre serei um leigo. Um leigo com voz, mas um leigo.

And yet, houve uma época em que fazer arte com o afinco e maravilhamento de um leigo, para que até leigos entendessem, era parte da minha ideologia...

Por falar na voz, o lado positivo disso tudo é que já não penso mais na minha garganta. Me dei conta disso hoje: não consigo lembrar quando foi que deixei de pigarrear, tossir seco e viver com um incômodo na garganta. Cada ensaio tinha um prazer como arrancar casca de ferida: é delicioso, mas você sabe que faz mal e reabre um machucado. Mesmo assim, você não consegue parar de fazer. Comparação bizarra, né?

Quer outra coisa bizarra? Nas piores épocas desse meu relacionamento laríngico, eu tinha medo de calejar a garganta, perder a voz e ter que gastar uma fortuna com tratamentos para algo que surgiu de um hobby. Até aí, uma preocupação normal, iniciada pelos conselhos de outros cantores amadores. O bizarro era que havia uma outra preocupação dessas meio infundadas, ridículas, mas que ficava ecoando num recôndito abafado da mente: o câncer. A observação de casos de câncer na família me levou a ter uma crença supersticiosa de que a doença se desenvolve em órgãos usados abusivamente, constantemente maltratados. Câncer cerebral nos mais brilhantes, de laringe nos fumantes, de pâncreas nas doceiras. Mórbido, bizarro e ridículo ao mesmo tempo, eu sei...

Mas enfim, hoje tudo isso são medos do passado. Eu volto a me divertir nos karaokês quando possível e a cantar por prazer e não por obrigação auto-imposta.

Também sentirei muitas saudades daquela época.
Saudades do palco e daquele momento único, que pontilhava meus meses de lembranças e fazia o ano ser mais longo. Saudades de fazer arte de tempo e não de matéria. E saudade de ter aquele conjunto de amigos. Era muito bom e muito tenso ao mesmo tempo. Bom, porque eram amigos que se preocupavam, que se interessavam, que me queriam por perto, presente, enquanto outros nem sabem se eu voltei da Europa ainda. E isso é cada vez mais raro nesta cidade ocupada. Era bom ser parte de algo, não estar sozinho.

[Sabe quando você tem aquela noção de que um post tem alto potencial de causar respostas enfurecidas de gente que entendeu tudo errado?]