O bom do meu estilo de vida atual é que possuo poucas coisas. Tudo cabe nesse diminuto quarto/banheiro em Londres. Então a organização anual de reveillon que normalmente durava uma semana toda, desta vez durou dois dias. Organizar finanças, liberar espeço no computador, fazer o balanço do ano.
Eis os highlights deste ano em que eu...
• ...continuei a série de pinturas sobre o TBC [1][2][3][4][5][6][7][8]
• ...fiz meus primeiros grafites (justo eu, quem diria...) [1][2][3]
• ...passei a viver dos meus idiomas e meu gosto pelas palavras [1]
• ...continuei a perceber sexismos inversos [1]
• ... me aprofundei nas minhas questões iniciais do Masculismo [1]
• ... me revoltei com o trânsito paulista [1][2][3]
• ...achei exemplos da discussão masculista por aí [1][2][3][4]
• ...embarquei em uma viagem que ainda definirá muita coisa [1][2]
• ...conheci muita gente nova [1][2][3][4]
• ...comecei o mestrado, com as palestras instigantes do professor Cussans [1][2][3]
• ...senti as diferenças da questão masculista na América e na Europa [1]
• ...me envolvi na política local [1][2][3][4][5]
• ...anotei algumas particularidades de Londres [1][2][3][4]
• ...fiquei sabendo mais sobre vampiros, de fontes confiáveis [1]
• ...passei pelo choque dos meus primeiros tutoriais e expurguei demônios sobrevivendo à Dawn Mellor [1][2][3]
• ...passei a considerar fazer arte mais ligada à realidade cotidiana [1][2]
• ...recebi minha menina em Londres, para duas semanas que ficarão na memória para sempre (the Limbo of Perfect Winter?)
• ...tive mais contato com a neve [1]
• ...passei um Dezembro melancólico e solitário [1]
E para o próximo ano, pretendo...
• ...terminar o mestrado com uma noção clara da minha arte e de para onde seguir depois disso.
• ...continuar aprendendo a viver sozinho, cuidar de mim e de onde eu vivo.
• ...chegar a posições mais maduras sobre o Masculismo e outras políticas.
• ...expor minhas coisas na Europa, tanto quanto for possível!
Bits and pieces of my life that everyone ignores when I speak, but someone reads when I write.
sexta-feira, dezembro 31, 2010
Interlúdio
Esses dias entre Natal e reveillon foram mais daquele estranho tipo de contentamento. O apartamento e a cidade vazios, nada acontecendo. Meus dias passados neste quarto, trabalhando em um ritmo vagaroso nas últimas traduções e em algumas peças de design para concursos da faculdade em Janeiro. Adormeci cada vez mais tarde, acordei cada vez mais tarde, me alimentei cada vez mais tarde. Quase chego a trocar a noite pelo dia.
Entre uma coisa e outra, comia minhas refeições assistindo a animes no YouTube. Video Girl Ai, com a personagem principal mais meiga do gênero, foi minha paixão por uns três dias. Depois parti para outras coisas. Não deixo de notar como o gênero de anime baseado em relacionamentos amorosos ainda tem aquela dinâmica onde a mulher, mesmo sendo uma semi-deusa poderosíssima, escolhe ser submissa ao rapaz desengonçado e frouxo. É uma lavagem cerebral pré-Feminismo, mas mesmo assim é tão divertido!
Parte de mim queria que essa dinâmica de vida pudesse durar para sempre. Outra parte acha que eu me mataria depois de três meses dessa mesmice. Ainda bem que acaba na semana que vem...
Entre uma coisa e outra, comia minhas refeições assistindo a animes no YouTube. Video Girl Ai, com a personagem principal mais meiga do gênero, foi minha paixão por uns três dias. Depois parti para outras coisas. Não deixo de notar como o gênero de anime baseado em relacionamentos amorosos ainda tem aquela dinâmica onde a mulher, mesmo sendo uma semi-deusa poderosíssima, escolhe ser submissa ao rapaz desengonçado e frouxo. É uma lavagem cerebral pré-Feminismo, mas mesmo assim é tão divertido!
Parte de mim queria que essa dinâmica de vida pudesse durar para sempre. Outra parte acha que eu me mataria depois de três meses dessa mesmice. Ainda bem que acaba na semana que vem...
sábado, dezembro 25, 2010
Noite de Natal
Foi um Natal triste, claro.
Sem família exceto pelas pessoas com as quais falei pelo Skype. Sem amigos, exceto pelas mensagens no Facebook. Sem presentes graças aos atrasos dos correios. Sem neve, graças a uma "melhora" no tempo que derreteu tudo.
Valendo-me de meu otimismo, comprei coisas para fazer brigadeiro para a turma que havia ficado no prédio. Eu havia visto luzes acesas em outros apartamentos e pequenos sinais de que pessoas ainda estavam por lá. Mas no fim, não consegui encontrar ninguém. Portas trancadas, silêncio, minhas batidas nas portas não foram respondidas.
Sobrei. Aliás, sobramos, já que Shivangi, minha companheira de apartamento hindu, também ficara por aqui. Contemplamos a solidão do prédio e decidimos agir. Se não tínhamos a compania das pessoas próximas, Londres nos faria compania. Então saímos para o centro, em direção à Catedral de St. Paul.
Eu não havia entrado na Catedral na minha primeira visita a Londres. Ainda que, naquela primeira viagem, eu estivesse redefinindo minha idéia de religião. Talvez por isso mesmo eu a tenha evitado. Curioso: da Catedral, é possível fazer um curto trajeto em linha reta até o que eu brincava ser a "minha catedral", o Tate Modern.
A missa de Natal na Catedral de St. Paul foi belíssima. Juntou em uma só experiência a opulência e organização européias, com a nostalgia dos natais passados nas missas mais simples na cidade da familia de meu pai. O Adeste fidelis cantado pelas carolas regidas por tia Margot tornara-se Come o ye faithful cantado por um coral muito bem treinado que reverberava nos espaços amplos da catedral. O ritual católico onde se comia "o corpo de Cristo", nos moldes da Igreja Anglicana, permitia também beber o "sangue de Cristo", um vinho muito bom. E após a mesma leitura do Evangelho de sempre, narrando o nascimento de Jesus, o bispo de Londres deu seu sermão. Dizia que a leitura do dia começava citando fatos do mundo da época: o censo ordenado pelo imperador Augusto na época em que Quirino era governador da Síria, que gerou revolta entre os judeus, já que censos eram proibidos pela cultura judaica da época. No entanto, o evento mais importante, o nascimento de Jesus, deu-se nos campos, longe dos grandes centros, anunciado aos pastores que estavam em silêncio, no escuro, longe do epicentro dos acontecimentos políticos. Era preciso silenciar para ouvir a voz divina. Era preciso estar no escuro, longe da poluição visual do mundo laico, para poder ver a luz. Era um meditar, como o ensinavam os budistas.
A realidade da missa era outra, claro. Eu estava em um dos lugares mais belos de Londres, ouvindo música orquestral ressoando em espaços feitos para música. Tudo, apesar de religioso, era mundano. Mas mesmo assim, absolutamente maravilhoso. Fez-me meditar sobre a minha compreensão de religião novamente. Sobre a ordem do universo e Deus como a junção de todas as reações e toda a existência. E como estar lá, acalmado pela música e fazendo parte de um ritual que incluía centenas de pessoas naquele lugar, era como fazer parte desse Deus que ia muito além do Deus católico, anglicano ou budista. Que seria aquilo e aquela sensação independente do ritual que fosse praticado.
Shivangi assistia a tudo do meu lado. Perguntava o que aquelas pessoas iam fazer lá na frente quando as filas para a hóstia se formaram. Disse-me que estivera poucas vezes em uma igreja católica, mas apenas para admirar o lugar, nunca para uma missa. Eu achava tão curioso estar na presença de alguém que, mais do que falar outra língua, tinha uma religião inteira completamente diferente da minha.
O fim da nossa noite de Natal teve interpretações diversas. Fora da Catedral, já era o dia 25. O sistema de transportes de Londres estava de folga. Havíamos lido sobre isso na itnernet, mas imaginávamos que a folga começaria em um horário decente, às 6 do dia 25, depois de todo mundo ter voltado da missa. Mas não, a lógica inglesa era imperdoável e assim que o dia 25 começou, a folga também teve início. Caminhamos pela margem do Tâmisa, no frio, até Waterloo, onde tomaríamos um taxi mais barato. Mas foi uma linda caminhada, Londres iluminada para o Natal e completamente silenciosa e vazia. Quase uma cidade fantasma, não fosse por alguns poucos carros. Há algo de milagroso em uma grande metrópole vazia.
Chegando em casa, comi algo rápido e fui dormir. Meu presente de Natal para mim mesmo eram 10 horas de sono sem culpa, que eu devia a meu corpo há já algum tempo. [Além de outros presentinhos mais materiais...]
Sem família exceto pelas pessoas com as quais falei pelo Skype. Sem amigos, exceto pelas mensagens no Facebook. Sem presentes graças aos atrasos dos correios. Sem neve, graças a uma "melhora" no tempo que derreteu tudo.
Valendo-me de meu otimismo, comprei coisas para fazer brigadeiro para a turma que havia ficado no prédio. Eu havia visto luzes acesas em outros apartamentos e pequenos sinais de que pessoas ainda estavam por lá. Mas no fim, não consegui encontrar ninguém. Portas trancadas, silêncio, minhas batidas nas portas não foram respondidas.
Sobrei. Aliás, sobramos, já que Shivangi, minha companheira de apartamento hindu, também ficara por aqui. Contemplamos a solidão do prédio e decidimos agir. Se não tínhamos a compania das pessoas próximas, Londres nos faria compania. Então saímos para o centro, em direção à Catedral de St. Paul.
A missa de Natal na Catedral de St. Paul foi belíssima. Juntou em uma só experiência a opulência e organização européias, com a nostalgia dos natais passados nas missas mais simples na cidade da familia de meu pai. O Adeste fidelis cantado pelas carolas regidas por tia Margot tornara-se Come o ye faithful cantado por um coral muito bem treinado que reverberava nos espaços amplos da catedral. O ritual católico onde se comia "o corpo de Cristo", nos moldes da Igreja Anglicana, permitia também beber o "sangue de Cristo", um vinho muito bom. E após a mesma leitura do Evangelho de sempre, narrando o nascimento de Jesus, o bispo de Londres deu seu sermão. Dizia que a leitura do dia começava citando fatos do mundo da época: o censo ordenado pelo imperador Augusto na época em que Quirino era governador da Síria, que gerou revolta entre os judeus, já que censos eram proibidos pela cultura judaica da época. No entanto, o evento mais importante, o nascimento de Jesus, deu-se nos campos, longe dos grandes centros, anunciado aos pastores que estavam em silêncio, no escuro, longe do epicentro dos acontecimentos políticos. Era preciso silenciar para ouvir a voz divina. Era preciso estar no escuro, longe da poluição visual do mundo laico, para poder ver a luz. Era um meditar, como o ensinavam os budistas.
A realidade da missa era outra, claro. Eu estava em um dos lugares mais belos de Londres, ouvindo música orquestral ressoando em espaços feitos para música. Tudo, apesar de religioso, era mundano. Mas mesmo assim, absolutamente maravilhoso. Fez-me meditar sobre a minha compreensão de religião novamente. Sobre a ordem do universo e Deus como a junção de todas as reações e toda a existência. E como estar lá, acalmado pela música e fazendo parte de um ritual que incluía centenas de pessoas naquele lugar, era como fazer parte desse Deus que ia muito além do Deus católico, anglicano ou budista. Que seria aquilo e aquela sensação independente do ritual que fosse praticado.
Shivangi assistia a tudo do meu lado. Perguntava o que aquelas pessoas iam fazer lá na frente quando as filas para a hóstia se formaram. Disse-me que estivera poucas vezes em uma igreja católica, mas apenas para admirar o lugar, nunca para uma missa. Eu achava tão curioso estar na presença de alguém que, mais do que falar outra língua, tinha uma religião inteira completamente diferente da minha.
O fim da nossa noite de Natal teve interpretações diversas. Fora da Catedral, já era o dia 25. O sistema de transportes de Londres estava de folga. Havíamos lido sobre isso na itnernet, mas imaginávamos que a folga começaria em um horário decente, às 6 do dia 25, depois de todo mundo ter voltado da missa. Mas não, a lógica inglesa era imperdoável e assim que o dia 25 começou, a folga também teve início. Caminhamos pela margem do Tâmisa, no frio, até Waterloo, onde tomaríamos um taxi mais barato. Mas foi uma linda caminhada, Londres iluminada para o Natal e completamente silenciosa e vazia. Quase uma cidade fantasma, não fosse por alguns poucos carros. Há algo de milagroso em uma grande metrópole vazia.
Chegando em casa, comi algo rápido e fui dormir. Meu presente de Natal para mim mesmo eram 10 horas de sono sem culpa, que eu devia a meu corpo há já algum tempo. [Além de outros presentinhos mais materiais...]
sexta-feira, dezembro 24, 2010
Snowy December
O mestrado entrou em recesso. Aproveitei os últimos dias antes do natal para passar na biblioteca, que ainda estava aberta. Li em uma semana o que devia ter lido em um mês. As idéias foram clareando, chegando em pontos interessantes e evidenciando as perigosas generalizações das quais todo mundo tem me avisado. Ando lutando com isso de não fazer generalizações. Eu sempre fui interessado em achar padrões, repetições, coisas assim. E acho mesmo que ideologias são generalizações, então arte baseada em ideologia vai perigosamente passar por isso. Enfim, devo escrever um resumo das minhas conclusões até agora em Janeiro, e tudo ficará bem mais claro para postar por aqui.
Fora do âmbito acadêmico, as coisas giram em torno de forte maniaco-depressão. Acordo maravilhado com a neve e seus desafios. Saio do quarto e me incomodo com o apartamento e todo o prédio cada vez mais vazios, inertes e frios. Tenho aproveitado uma estranha espécie de contentamento. É o prazer anti-social da não-interação. De poder organizar meu quarto, meu dia, minha mente, sem ter as interferências que decorrem do relacionamento com outras pessoas. Mas então chega a noite (e aqui ela atualmente chega às 16h00 e dura mais de 12 horas) e a solidão bate forte. Uma necessidade de carinho, palavra, risadas compartilhadas. Uma culpa de não ser sociável, de não procurar as pessoas que se escondem nas duas ou três janelas ainda acesas do prédio. Talvez o faça hoje, na noite de natal.
Isso tudo acontece enquanto as notas da guitarra de Jeff Buckley se repetem uma e outra vez, sempre que vejo os sofás vazios do prédio.
Mas no fim do dia, o silêncio. Deito pra dormir e não ouço mais a balburdia dos adolescentes londrinos, drogados e festeiros, nos outros apartamentos. Apenas o tique-taque do meu relógio, que por sinestesia transforma-se em algo diferente à medida que escorrego para dentro do sonho.
Avisaram-me desta forte melancolia desde que mencionei que estaria em Londres no inverno. Confesso que eu tinha curiosidade para senti-la. A melancolia que eu tinha no colégio, que impulsioava minha criatividade da época e que foi transmutada quando comecei a namorar pessoas alegres, virando algo muito mais positivo, embora menos potente. Hello darkness, my old friend. I've come to talk to you again.
quarta-feira, dezembro 15, 2010
Reconsiderando
Hoje outros três dos meus colegas de mestrado se juntaram às vozes dissidentes nos e-mails. Acho melhor explicar mais um pouco o que está acontecendo.
No começo de Fevereiro, teremos o Interim Show. O que inicialmente era uma exposição do que foi produzido na primeira parte do curso, neste ano virou algo um pouco mais livre. Nossos professores nos ofereceram o espaço em Chelsea para que, em vez de mostrarmos trabalhos em uma exposição comum, trabalhássemos colaborativamente em um projeto de tema livre. Trocando em miúdos, seria como o exercício do manifesto, sem a obrigatoriedade do formato, do tema, de nada. A única obrigatoriedade era trabalharmos em conjunto em algo e apresentá-lo durante 10 dias. O que já é um tremendo acontecimento, já que somos 75 alunos, de acordo com a última contagem.
Nos reunimos recentemente para abordar o desafio. Ou melhor, 32 de nós nos reunimos, os outros furaram... Muitas idéias interessantes apareceram, de simplesmente montar uma enorme rave de dez dias, a montar um supermercado com obras pequenas que seriam trocadas por objetos em vez de vendidas, a um sistema de speed dating entre visitantes e obras. Eu mesmo sugeri uma participação bem simplória na balada (a rave acabou virando uma balada de uma noite, talvez mais) onde os estudantes estrangeiros trariam uma música e sua tradução para experimentar como a poesia mudava de acordo com o idioma.
A discussão ia bem até um rebelde de alta octanagem (adorei o termo que ouvi aqui) escrever que tudo aquilo estava contribuindo para a "condição normativa de merda e arte monótona" (normative condition of shite and boring art(sic)). O complicado dos rebeldes de alta octanagem é que eles não conseguem "sugerir" a coisa, eles chutam o pau da barraca com os dois pés e continuam rindo depois de cair de bunda no chão. Vão direto para a abordagem mais desrespeitosa possível, sob a alegação de que "só assim os conformistas ouvem". A sugestão dele para o Interim Show, aliás, era simplesmente não fazermos nada. Nos rebelarmos contra as "ideologias opressivas e antediluvianas do capital". Até então, eu reagi do modo que sempre reajo: ignorei. Se ele queria se rebelar contra o capital, o que ele estava fazendo pagando por um mestrado caro?
Mas hoje, quando os outros três entraram na discussão, resolvi que o mínimo que eu podia fazer era ler o que eles tinham a dizer e depois fazer uma escolha bem informada. Quando um deles postou o link para uma interessante leitura sobre os protestos e o clima aqui em Londres, além de citar o Nomadic Hive Manifesto, comecei a ter uma noção muito mais abrangente do que estava se passando. Essa noção se juntava à minha idéia anterior de largar o meu projeto e fazer arte sobre o que estava se passando por aqui. Porque isso era real e imediato. Havia nas ruas rumores de que mais protestos continuariam acontecendo, o futuro da educação superior inglesa estava sendo decidido e as repercussões na economia e sociedade inglesas eram debatidas diariamente. Mas nós, em nossos e-mails e dentro dos muros daquela instituição, só discutíamos como apresentar nossos pequenos mundinhos para potenciais compradores. Havia um fundamento no que estes dissidentes do nosso curso estavam dizendo. Eu começava a concordar perigosamente com eles.
Fazia sentido interessar-me por isso, depois de eu ter me interessado pela crítica dos Stuckists ao Turner Prize. Eles diziam que o conceituado prêmio de arte britânica recentemente estava premiando arte que não tinha ligação alguma com o "aqui e agora" da Inglaterra, com o que é ser inglês hoje. Arte que, como eu digo, lidava com questões metafísicas e gerais demais e não tinha pé no chão. Arte para chatos acadêmicos, longe do público.
Além disso, minha primeira tutora me intimara a fazer arte mais próxima da minha realidade imediata. Minha realidade imediata agora eram os protestos, a política, os acontecimentos das ruas.
Enquanto a discussão do Interim Show prosseguia sob ânimos exaltados no e-mail, a minha discussão interna continuava tentando arrumar coragem para consumar a mudança de direção no meu mestrado e responder à questão prática de como exatamente começar.
No começo de Fevereiro, teremos o Interim Show. O que inicialmente era uma exposição do que foi produzido na primeira parte do curso, neste ano virou algo um pouco mais livre. Nossos professores nos ofereceram o espaço em Chelsea para que, em vez de mostrarmos trabalhos em uma exposição comum, trabalhássemos colaborativamente em um projeto de tema livre. Trocando em miúdos, seria como o exercício do manifesto, sem a obrigatoriedade do formato, do tema, de nada. A única obrigatoriedade era trabalharmos em conjunto em algo e apresentá-lo durante 10 dias. O que já é um tremendo acontecimento, já que somos 75 alunos, de acordo com a última contagem.
Nos reunimos recentemente para abordar o desafio. Ou melhor, 32 de nós nos reunimos, os outros furaram... Muitas idéias interessantes apareceram, de simplesmente montar uma enorme rave de dez dias, a montar um supermercado com obras pequenas que seriam trocadas por objetos em vez de vendidas, a um sistema de speed dating entre visitantes e obras. Eu mesmo sugeri uma participação bem simplória na balada (a rave acabou virando uma balada de uma noite, talvez mais) onde os estudantes estrangeiros trariam uma música e sua tradução para experimentar como a poesia mudava de acordo com o idioma.
A discussão ia bem até um rebelde de alta octanagem (adorei o termo que ouvi aqui) escrever que tudo aquilo estava contribuindo para a "condição normativa de merda e arte monótona" (normative condition of shite and boring art(sic)). O complicado dos rebeldes de alta octanagem é que eles não conseguem "sugerir" a coisa, eles chutam o pau da barraca com os dois pés e continuam rindo depois de cair de bunda no chão. Vão direto para a abordagem mais desrespeitosa possível, sob a alegação de que "só assim os conformistas ouvem". A sugestão dele para o Interim Show, aliás, era simplesmente não fazermos nada. Nos rebelarmos contra as "ideologias opressivas e antediluvianas do capital". Até então, eu reagi do modo que sempre reajo: ignorei. Se ele queria se rebelar contra o capital, o que ele estava fazendo pagando por um mestrado caro?
Mas hoje, quando os outros três entraram na discussão, resolvi que o mínimo que eu podia fazer era ler o que eles tinham a dizer e depois fazer uma escolha bem informada. Quando um deles postou o link para uma interessante leitura sobre os protestos e o clima aqui em Londres, além de citar o Nomadic Hive Manifesto, comecei a ter uma noção muito mais abrangente do que estava se passando. Essa noção se juntava à minha idéia anterior de largar o meu projeto e fazer arte sobre o que estava se passando por aqui. Porque isso era real e imediato. Havia nas ruas rumores de que mais protestos continuariam acontecendo, o futuro da educação superior inglesa estava sendo decidido e as repercussões na economia e sociedade inglesas eram debatidas diariamente. Mas nós, em nossos e-mails e dentro dos muros daquela instituição, só discutíamos como apresentar nossos pequenos mundinhos para potenciais compradores. Havia um fundamento no que estes dissidentes do nosso curso estavam dizendo. Eu começava a concordar perigosamente com eles.
Fazia sentido interessar-me por isso, depois de eu ter me interessado pela crítica dos Stuckists ao Turner Prize. Eles diziam que o conceituado prêmio de arte britânica recentemente estava premiando arte que não tinha ligação alguma com o "aqui e agora" da Inglaterra, com o que é ser inglês hoje. Arte que, como eu digo, lidava com questões metafísicas e gerais demais e não tinha pé no chão. Arte para chatos acadêmicos, longe do público.
Além disso, minha primeira tutora me intimara a fazer arte mais próxima da minha realidade imediata. Minha realidade imediata agora eram os protestos, a política, os acontecimentos das ruas.
Enquanto a discussão do Interim Show prosseguia sob ânimos exaltados no e-mail, a minha discussão interna continuava tentando arrumar coragem para consumar a mudança de direção no meu mestrado e responder à questão prática de como exatamente começar.
terça-feira, dezembro 14, 2010
Considerações recentes sobre arte
Entre angústias derivadas dos tutoriais e obeservações do que tem acontecido em Londres e no curso do mestrado ultimamente, tenho formulado alguns pesamentos pontuais sobre arte. A minha arte especificamente.
• Em primeiro lugar, passei a assumir que a linguagem do que eu faço é pop mesmo, tem seu viés publicitário devido ao meu passado em agências. Mas considerando que eu estou lidando com a transmissão de uma ideologia (as questões masculinas), acaba sendo até mais adequado ter uma linguagem de fácil compreensão que atinge o maior número de pessoas, do que uma dessas linguagens rebuscadas, complexas e que só são compreendidas por acadêmicos e profissionais do assunto. Sob essa ótica, o pop acaba sendo a linguagem mais apropriada. Há quem argumente dizendo que é "nivelar por baixo". Eu acho que dá pra achar um meio termo.
• Lendo sobre o pós-moderno e assistindo às palestras do professor Cussans, comecei a pensar na paródia, ironia e pastiche, três métodos que o professor citou como inerentes ao pós-moderno e que explicam porque hoje dificilmente encontramos arte séria e tudo parece ser uma enorme sátira de tudo. Na verdade, andei pensando como isso é uma estratégia defensiva formidável: quando você aborda algo seriamente, você se coloca em uma posição muito vulnerável à ridicularização e ao sarro de oportunistas. Você está vulnerável a ser contrariado. Mas se você está fazendo a piada sobre si mesmo ou sobre o assunto que você quer tratar, dificilmente alguém consegue humilhá-lo ainda mais. Conceitualmente, parece uma coisa contraditória onde, quanto mais você se humilha, mais forte você fica.
Infelizmente, sinto que eu passei tanto tempo da minha vida tentando levar as coisas a sério, que não se se consigo fazer esse tipo de humor como se deve. Mas enfim, estou aqui para experimentar mesmo...
• Ando acompanhando discussões por e-mail com meus colegas sobre diversos assuntos. Há sempre um dos nossos colegas de mestrado que coloca-se veementemente contra tudo e tem uma atitude extremamente rebelde de negar absolutamente tudo que é proposto. Acho francamente contra-producente. Há sim na arte um chamado para se rebelar e evitar o conformismo, mas acho que isso tem um limite além do qual a coisa começa a ficar impraticável e desnecessariamente incômoda. Sinto que a atitude dele é um pouco como a rebeldia pela rebeldia. Não propõe uma alternativa que represente algum tipo de progresso, apenas quer destruir as coisas.
É um pouco como pendurar uma melancia no pescoço pra chamar a atenção: claro, você está sendo não-conformista e chamando um monte de atenção, mas será que o desconforto e a dor nas costas que você vai sentir no fim do dia compensam isso?
• Em primeiro lugar, passei a assumir que a linguagem do que eu faço é pop mesmo, tem seu viés publicitário devido ao meu passado em agências. Mas considerando que eu estou lidando com a transmissão de uma ideologia (as questões masculinas), acaba sendo até mais adequado ter uma linguagem de fácil compreensão que atinge o maior número de pessoas, do que uma dessas linguagens rebuscadas, complexas e que só são compreendidas por acadêmicos e profissionais do assunto. Sob essa ótica, o pop acaba sendo a linguagem mais apropriada. Há quem argumente dizendo que é "nivelar por baixo". Eu acho que dá pra achar um meio termo.
• Lendo sobre o pós-moderno e assistindo às palestras do professor Cussans, comecei a pensar na paródia, ironia e pastiche, três métodos que o professor citou como inerentes ao pós-moderno e que explicam porque hoje dificilmente encontramos arte séria e tudo parece ser uma enorme sátira de tudo. Na verdade, andei pensando como isso é uma estratégia defensiva formidável: quando você aborda algo seriamente, você se coloca em uma posição muito vulnerável à ridicularização e ao sarro de oportunistas. Você está vulnerável a ser contrariado. Mas se você está fazendo a piada sobre si mesmo ou sobre o assunto que você quer tratar, dificilmente alguém consegue humilhá-lo ainda mais. Conceitualmente, parece uma coisa contraditória onde, quanto mais você se humilha, mais forte você fica.
Infelizmente, sinto que eu passei tanto tempo da minha vida tentando levar as coisas a sério, que não se se consigo fazer esse tipo de humor como se deve. Mas enfim, estou aqui para experimentar mesmo...
• Ando acompanhando discussões por e-mail com meus colegas sobre diversos assuntos. Há sempre um dos nossos colegas de mestrado que coloca-se veementemente contra tudo e tem uma atitude extremamente rebelde de negar absolutamente tudo que é proposto. Acho francamente contra-producente. Há sim na arte um chamado para se rebelar e evitar o conformismo, mas acho que isso tem um limite além do qual a coisa começa a ficar impraticável e desnecessariamente incômoda. Sinto que a atitude dele é um pouco como a rebeldia pela rebeldia. Não propõe uma alternativa que represente algum tipo de progresso, apenas quer destruir as coisas.
É um pouco como pendurar uma melancia no pescoço pra chamar a atenção: claro, você está sendo não-conformista e chamando um monte de atenção, mas será que o desconforto e a dor nas costas que você vai sentir no fim do dia compensam isso?
The Nomadic Hive Manifesto
Eis o manifesto produzido no teach-in da National Gallery:
A spectre is haunting Europe- the spectre of debt slaves refusing to pay. All the powers within Europe have entered into a holy alliance to regenerate a failing economy, to realise a lethal dream of returning to business as usual, and to level education and culture, so as to transform the educational and cultural sectors into a consumer society success story.
Their dream is of an education system in which education means obtaining skills to sell in the marketplace, a system in which to produce research means nothing more than making the country competitive in the global market. The vandalism of arts and humanities in this country is designed to produce a new definition of knowledge, defined as that which an individual can bring to the economy or marketplace. Where is the space given over by the architects of this extreme-make-over for those who have ideas and habits different to those favoured by the holy alliance? Where is the space given over to those who believe universities have a role in thinking and reflecting upon life, and what life can be?
If you listen carefully, a humming can be heard, the noise of dissatisfaction becomes dissent. The Holy Alliance fears that this noise has become a song on the lips of all?
Those who have demanded a space apart from this extreme-make-over have been painted as dangerous spoilers or parasites?
Two things need to be said about all this and the existence of the nomadic hive:
I. A nomadic hive is an aesthetic practice, not just a means of survival but an aesthetic mode of existence that manifests through producing networks, means of communications, protest, relations and assemblages: collective machines and situations for thinking and acting.
II. A nomadic hive has a queen (or two or more). The sole role of the queen is to facilitate the reproduction and maintenance of the hive. If the queen becomes more than a facilitator she must be killed.
III. The nomadic hive must declare its aims, way of life and values, to meet this nursery tale of the holy alliance that leads to nothing but debt slavery.
A manifesto has to be written.
On the 9th December 2010, from 16.45 to 19.45, in Room 43 of the National Gallery London, the nomadic hive produced the following manifesto:
1. The hive redefines public space. The hive reclaims public space and public spaces in private ownership (museums, shopping malls, streets).
2. Wherever the hive camps is our home.
3. Movement is imperative - keep moving - but to move or stay is our decision, and our decision to move or stay is our right.
4. The practice of questioning and critique is central to our movement and this questioning goes beyond the discursive.
5. The hive has a commitment to dissemination of information.
6. The movement is an emotional journey - involving thinking and affects.
7. The hive claims the right to happiness and rejects life as a debt slave until death.
8. The hive recognises the struggle for happiness is an international struggle.
9. The hive is a catalyst for change and for difference; it is a spark of light produced by the movement of the hive. The spark of light illuminates a situation for others.
10. This spark of light, the art of the hive, is produced in and presented within the spaces and situations of everyday life and not just in specialist institutions.
11. The movement of the hive expands beyond education, beyond the universities, the students and lecturers.
12. The hive does not preserve the status quo.
13.The hive does not oppose individualism to the collective.
14. The hive does not make anything for sale, the hive does not make 'works' for he market. The hive aims to change how the art world operates.
15. The hive is fluid and reassesses itself.
16 The hive speaks - 'act now!'
17. The hive is open on all levels. The hive needs open access at all times for the purposes of exchange, it is interactive and interdependent.
18. The hive actualises the power we have now.
19. The hive agrees to disagree and use disagreement as a platform and a starting point for action.
20. The hive addresses the problem of pedagogy.
21. The hive does not patronise, but it brings its art to the people.
22. The hive is not a meritocracy but a passionocracy: a passionocracy of skills, values and intentions.
23. What can we do? We can produce actions in public and private space to grow the hive.
24. The internet is a hive - through the internet the hive can cut out the middle man of the mass media corporations.
25. The hive is viral and online but the hive is an embodied practice - it exists in the spaces we occupy and the way we relate to space and others in space.
26. The hive exists in opposition to prevailing circumstances. In this, the hive produces a political imaginary - an affirmation of what we can do.
27. The hive has a honey pump, like Beuy's honey pump, for energy production.
28. The honey pump powers different forms of communication - songs, talk, noise.
29. The hive knows how to get things done, individually and collectively.
30. The audience for the songs, talk and noise of the hive is everybody - how we communicate is important.
31. We communicate through language but also without using language, by dancing and pheromones
32. Trust in the hive. And for people to trust in the hive there must be trust within the hive.
33. The hive reaffirms solidarity with all occupiers, with all taking action on the streets, with all public sector workers, and all workers, and all involved in labour that produces the social (students, carers, school students).
34. We oppose the methods that oppress our collective movement.
35. The manifesto of nomadic hive is in constant development.
36. The manifesto is drafted through action.
37. The hive works together, stings and makes honey.
38. The hive stings but does not die.
The Hive 9/12/2010
====
Um espectro está assombrando a Europa - o espectre de escravos de dívidas que se recusam a pagar. Todos os podered na Europa forjaram uma aliança sagrada para regenerar a economia falida, para realisar o sonho letal de voltar aos negócios de sempre, e para nivelar a educação e a cultura, de modo a transformar os setores cultural e educativo em histórias de suceso da sociedade de consumo.
O sonhos deles é o de um sistema educativo onde educação significa obter habilidades para vender no mercado, um sistema onde produzir pesquisa não significa mais do que tornar o país competitivo no mercado globar. O vandalismo das artes e humanidades neste país foi desenvolvido para produzir a nova definição do conhecimento, definido como aquilo que o indivíduo pode trazer à economia ou ao mercado. Onde está o espaço cedido pelos arquitetos desta repaginação total para aqueles que têm idéias e hábitos diferentes daqueles favorecidos pela aliança sagrada? Onde está o espaço cedido àqueles que acreditam que as universidades têm o papel de pensar e refletir sobre a vida e o que a vida pode ser?
Se você escutar cuidadosamente, um zumbido pode ser ouvido, o ruído de insatisfação torna-se dissidência. A Sagrada Aliança teme que este ruído tenha se tornado uma canção nos lábios de todos?
Aqueles que exigiram um espaço separado desta repaginação total foram pintados como perigosos conspurcadores ou parasitas?
Duas coisas devem ser ditas sobre tudo isso e a existência da colméia nômade:
I. A colméia nômade é uma prática estética, não apenas um meio de sobrevivência, mas um modo estético de existência que se manifesta através da prática de redes, meios de comunicação, protesto, relassões e montagens: máquinas coletivas e situações para pensar e agir.
II. A colméia nômade tem uma rainha (ou duas ou mais). O único papel da rainha é de facilitar a reprodução e manutenção da colméia. Se a rainha se tornar mais do que um facilitador, ela deve ser morta.
III. A colméia nômade deve delcarar suas metas, maneira de viver e valores, para confrontar este conto da carochinha da sagrada aliança que não leva a nada além da escravidão por dívida.
Um manifesto deve ser escrito.
No dia 9 de Dezembro de 2010, das 16h45 às 19h45, na sala 43 da National Gallery London, a colméia nômade produziu o seguinte manifesto:
1. A colméia redefine o espaço público. A colméia se reapropria do espaço público e espaços públicos de domínio privado (museus, shopping centers, ruas).
2. A nossa casa será aonde quer que a colméia monte acampamento.
3. Movimento é imperativo - manter-se em movimento - mas mover-se ou permanecer é a nossa decisão, e nossa decisão de nos movermos ou permanecermos é nosso direito.
4. A prática do questionamento e crítica é central ao movimento e este questionamento vai além do discurso.
5. A colméia está comprometida com a disseminação de informação.
6. O movimento é uma jornada emocional - envolvendo o pensamento e afeto.
7. A colméia reserva-se o direito à felicidade e rejeita a vida como escravos de dívida até a morte.
8. A colméia reconhece que a luta pela felicidade é uma luta internacioanl.
9. A colméia é um catalisador de mudança e diferença; é uma fagulha de luz produzida pelo movimento da colméia. A fagulha de luz ilumina a situação para os outros.
10. Esta fagulha de luz, a arte da colméia, é produzida e apresentada dentro dos espaços e situações da vida cotidiana e não apenas nas instituições especializadas.
11. O movimento da colméia se extende além da educação, além das universidades, dos estudantes e das palestras.
12. A colméia não preserva o status quo.
13. A colméia não faz oposição entre o individual e o coletivo.
14. A colméia não faz nada para vender, a colméia não faz 'obras' para o mercado. A colméia visa mudar a forma como o mundo da arte opera.
15. A colméia é fluida e se reavalia.
16 A colméia fala - 'a hora de agir é agora!'
17. A colméia é aberta a todos os níveis. A colméia precisa de acesso aberto em tempo integral objetivando a mudança, ela é interativa e interdependente.
18. A colméia ativa o poder que temos atualmente.
19. A colméia concorda em discordar e usar o discordar como plataforma e ponto de partida para a ação.
20. A colméia aborda os problemas da pedagogia.
21. A colméia não é paternalista, mas leva sua arte para o povo.
22. A colméia não é uma meritocracia mas uma paixonocracia: a paixonocracia de habilidades, valores e intenções.
23. O que podemos fazer? Podemos produzir ações em espaços públicos e privados para expandir a colméia.
24. A internet é uma colméia - através da internet a colméia pode excluir os intermediadores nas corporações de mídia de massa.
25. A colméia é viral e online mas a colméia é uma prática corporificada - ela existe nos espaços que ocupamos e na forma como nos relacionamos ao espaço e aos outros no espaço.
26. A colméia existe em oposição às circunstâncias prevalescentes. Nesse sentido, a colméia produz um imaginário político - uma afirmação do que podemos fazer.
27. A colméia tem uma bomba [de sucção] de mel , como a bomba de mel de [Joseph] Beuys, para a produção de energia.
28. A bomba de mel alimenta diferentes formas de comunicação - canções, fala, ruído.
29. A colméia sabe como fazer as coisas, individual e coletivamente.
30. Todo mundo é público para as canções, fala e ruído da colméia - como nos comunicamos é o que é importante.
31. Nos comunicamos através da linguagem, mas também sem a linguage, pela dança e ferormônios.
32. Confie na colméia. E para que pessoas confiem na colméia, deve haver confiança dentro da colméia.
33. A colméia reafirma a solidariedade pelos ocupantes, por todos agindo nas ruas, por todos os trabalhadores do setor público, e todos os trabalhadores, e todos envolvidos no trabalho que produz o social (estudantes, acompanhantes, estudantes de escola).
34. Nos opomos aos métodos que oprimem nosso movimento coletivo.
35. O manifesto da colméia nômade está em constante desenvolvimento.
36. O manifesto é elaborado através da ação.
37. A colméia trabalha em conjunto, pica e produz mel.
38. A colméia pica, mas não morre.
A Colméia 9/12/2010
Correndo o risco pós-moderno de amalgamar duas referências perigosamente contraditórias, fecho o post com uma colagem de frases:
Our name is Hive, for we are many.
A spectre is haunting Europe- the spectre of debt slaves refusing to pay. All the powers within Europe have entered into a holy alliance to regenerate a failing economy, to realise a lethal dream of returning to business as usual, and to level education and culture, so as to transform the educational and cultural sectors into a consumer society success story.
Their dream is of an education system in which education means obtaining skills to sell in the marketplace, a system in which to produce research means nothing more than making the country competitive in the global market. The vandalism of arts and humanities in this country is designed to produce a new definition of knowledge, defined as that which an individual can bring to the economy or marketplace. Where is the space given over by the architects of this extreme-make-over for those who have ideas and habits different to those favoured by the holy alliance? Where is the space given over to those who believe universities have a role in thinking and reflecting upon life, and what life can be?
If you listen carefully, a humming can be heard, the noise of dissatisfaction becomes dissent. The Holy Alliance fears that this noise has become a song on the lips of all?
Those who have demanded a space apart from this extreme-make-over have been painted as dangerous spoilers or parasites?
Two things need to be said about all this and the existence of the nomadic hive:
I. A nomadic hive is an aesthetic practice, not just a means of survival but an aesthetic mode of existence that manifests through producing networks, means of communications, protest, relations and assemblages: collective machines and situations for thinking and acting.
II. A nomadic hive has a queen (or two or more). The sole role of the queen is to facilitate the reproduction and maintenance of the hive. If the queen becomes more than a facilitator she must be killed.
III. The nomadic hive must declare its aims, way of life and values, to meet this nursery tale of the holy alliance that leads to nothing but debt slavery.
A manifesto has to be written.
On the 9th December 2010, from 16.45 to 19.45, in Room 43 of the National Gallery London, the nomadic hive produced the following manifesto:
1. The hive redefines public space. The hive reclaims public space and public spaces in private ownership (museums, shopping malls, streets).
2. Wherever the hive camps is our home.
3. Movement is imperative - keep moving - but to move or stay is our decision, and our decision to move or stay is our right.
4. The practice of questioning and critique is central to our movement and this questioning goes beyond the discursive.
5. The hive has a commitment to dissemination of information.
6. The movement is an emotional journey - involving thinking and affects.
7. The hive claims the right to happiness and rejects life as a debt slave until death.
8. The hive recognises the struggle for happiness is an international struggle.
9. The hive is a catalyst for change and for difference; it is a spark of light produced by the movement of the hive. The spark of light illuminates a situation for others.
10. This spark of light, the art of the hive, is produced in and presented within the spaces and situations of everyday life and not just in specialist institutions.
11. The movement of the hive expands beyond education, beyond the universities, the students and lecturers.
12. The hive does not preserve the status quo.
13.The hive does not oppose individualism to the collective.
14. The hive does not make anything for sale, the hive does not make 'works' for he market. The hive aims to change how the art world operates.
15. The hive is fluid and reassesses itself.
16 The hive speaks - 'act now!'
17. The hive is open on all levels. The hive needs open access at all times for the purposes of exchange, it is interactive and interdependent.
18. The hive actualises the power we have now.
19. The hive agrees to disagree and use disagreement as a platform and a starting point for action.
20. The hive addresses the problem of pedagogy.
21. The hive does not patronise, but it brings its art to the people.
22. The hive is not a meritocracy but a passionocracy: a passionocracy of skills, values and intentions.
23. What can we do? We can produce actions in public and private space to grow the hive.
24. The internet is a hive - through the internet the hive can cut out the middle man of the mass media corporations.
25. The hive is viral and online but the hive is an embodied practice - it exists in the spaces we occupy and the way we relate to space and others in space.
26. The hive exists in opposition to prevailing circumstances. In this, the hive produces a political imaginary - an affirmation of what we can do.
27. The hive has a honey pump, like Beuy's honey pump, for energy production.
28. The honey pump powers different forms of communication - songs, talk, noise.
29. The hive knows how to get things done, individually and collectively.
30. The audience for the songs, talk and noise of the hive is everybody - how we communicate is important.
31. We communicate through language but also without using language, by dancing and pheromones
32. Trust in the hive. And for people to trust in the hive there must be trust within the hive.
33. The hive reaffirms solidarity with all occupiers, with all taking action on the streets, with all public sector workers, and all workers, and all involved in labour that produces the social (students, carers, school students).
34. We oppose the methods that oppress our collective movement.
35. The manifesto of nomadic hive is in constant development.
36. The manifesto is drafted through action.
37. The hive works together, stings and makes honey.
38. The hive stings but does not die.
The Hive 9/12/2010
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Um espectro está assombrando a Europa - o espectre de escravos de dívidas que se recusam a pagar. Todos os podered na Europa forjaram uma aliança sagrada para regenerar a economia falida, para realisar o sonho letal de voltar aos negócios de sempre, e para nivelar a educação e a cultura, de modo a transformar os setores cultural e educativo em histórias de suceso da sociedade de consumo.
O sonhos deles é o de um sistema educativo onde educação significa obter habilidades para vender no mercado, um sistema onde produzir pesquisa não significa mais do que tornar o país competitivo no mercado globar. O vandalismo das artes e humanidades neste país foi desenvolvido para produzir a nova definição do conhecimento, definido como aquilo que o indivíduo pode trazer à economia ou ao mercado. Onde está o espaço cedido pelos arquitetos desta repaginação total para aqueles que têm idéias e hábitos diferentes daqueles favorecidos pela aliança sagrada? Onde está o espaço cedido àqueles que acreditam que as universidades têm o papel de pensar e refletir sobre a vida e o que a vida pode ser?
Se você escutar cuidadosamente, um zumbido pode ser ouvido, o ruído de insatisfação torna-se dissidência. A Sagrada Aliança teme que este ruído tenha se tornado uma canção nos lábios de todos?
Aqueles que exigiram um espaço separado desta repaginação total foram pintados como perigosos conspurcadores ou parasitas?
Duas coisas devem ser ditas sobre tudo isso e a existência da colméia nômade:
I. A colméia nômade é uma prática estética, não apenas um meio de sobrevivência, mas um modo estético de existência que se manifesta através da prática de redes, meios de comunicação, protesto, relassões e montagens: máquinas coletivas e situações para pensar e agir.
II. A colméia nômade tem uma rainha (ou duas ou mais). O único papel da rainha é de facilitar a reprodução e manutenção da colméia. Se a rainha se tornar mais do que um facilitador, ela deve ser morta.
III. A colméia nômade deve delcarar suas metas, maneira de viver e valores, para confrontar este conto da carochinha da sagrada aliança que não leva a nada além da escravidão por dívida.
Um manifesto deve ser escrito.
No dia 9 de Dezembro de 2010, das 16h45 às 19h45, na sala 43 da National Gallery London, a colméia nômade produziu o seguinte manifesto:
1. A colméia redefine o espaço público. A colméia se reapropria do espaço público e espaços públicos de domínio privado (museus, shopping centers, ruas).
2. A nossa casa será aonde quer que a colméia monte acampamento.
3. Movimento é imperativo - manter-se em movimento - mas mover-se ou permanecer é a nossa decisão, e nossa decisão de nos movermos ou permanecermos é nosso direito.
4. A prática do questionamento e crítica é central ao movimento e este questionamento vai além do discurso.
5. A colméia está comprometida com a disseminação de informação.
6. O movimento é uma jornada emocional - envolvendo o pensamento e afeto.
7. A colméia reserva-se o direito à felicidade e rejeita a vida como escravos de dívida até a morte.
8. A colméia reconhece que a luta pela felicidade é uma luta internacioanl.
9. A colméia é um catalisador de mudança e diferença; é uma fagulha de luz produzida pelo movimento da colméia. A fagulha de luz ilumina a situação para os outros.
10. Esta fagulha de luz, a arte da colméia, é produzida e apresentada dentro dos espaços e situações da vida cotidiana e não apenas nas instituições especializadas.
11. O movimento da colméia se extende além da educação, além das universidades, dos estudantes e das palestras.
12. A colméia não preserva o status quo.
13. A colméia não faz oposição entre o individual e o coletivo.
14. A colméia não faz nada para vender, a colméia não faz 'obras' para o mercado. A colméia visa mudar a forma como o mundo da arte opera.
15. A colméia é fluida e se reavalia.
16 A colméia fala - 'a hora de agir é agora!'
17. A colméia é aberta a todos os níveis. A colméia precisa de acesso aberto em tempo integral objetivando a mudança, ela é interativa e interdependente.
18. A colméia ativa o poder que temos atualmente.
19. A colméia concorda em discordar e usar o discordar como plataforma e ponto de partida para a ação.
20. A colméia aborda os problemas da pedagogia.
21. A colméia não é paternalista, mas leva sua arte para o povo.
22. A colméia não é uma meritocracia mas uma paixonocracia: a paixonocracia de habilidades, valores e intenções.
23. O que podemos fazer? Podemos produzir ações em espaços públicos e privados para expandir a colméia.
24. A internet é uma colméia - através da internet a colméia pode excluir os intermediadores nas corporações de mídia de massa.
25. A colméia é viral e online mas a colméia é uma prática corporificada - ela existe nos espaços que ocupamos e na forma como nos relacionamos ao espaço e aos outros no espaço.
26. A colméia existe em oposição às circunstâncias prevalescentes. Nesse sentido, a colméia produz um imaginário político - uma afirmação do que podemos fazer.
27. A colméia tem uma bomba [de sucção] de mel , como a bomba de mel de [Joseph] Beuys, para a produção de energia.
28. A bomba de mel alimenta diferentes formas de comunicação - canções, fala, ruído.
29. A colméia sabe como fazer as coisas, individual e coletivamente.
30. Todo mundo é público para as canções, fala e ruído da colméia - como nos comunicamos é o que é importante.
31. Nos comunicamos através da linguagem, mas também sem a linguage, pela dança e ferormônios.
32. Confie na colméia. E para que pessoas confiem na colméia, deve haver confiança dentro da colméia.
33. A colméia reafirma a solidariedade pelos ocupantes, por todos agindo nas ruas, por todos os trabalhadores do setor público, e todos os trabalhadores, e todos envolvidos no trabalho que produz o social (estudantes, acompanhantes, estudantes de escola).
34. Nos opomos aos métodos que oprimem nosso movimento coletivo.
35. O manifesto da colméia nômade está em constante desenvolvimento.
36. O manifesto é elaborado através da ação.
37. A colméia trabalha em conjunto, pica e produz mel.
38. A colméia pica, mas não morre.
A Colméia 9/12/2010
Correndo o risco pós-moderno de amalgamar duas referências perigosamente contraditórias, fecho o post com uma colagem de frases:
Our name is Hive, for we are many.
segunda-feira, dezembro 13, 2010
"Você não estava no teach-in da National Gallery?"
Levantei a cabeça: era o professor Cussans. Fiquei feliz por ver que já estávamos no nível em que ele me reconhecia na rua (e em eventos de rebeldia estudantil...). No caminho para o metrô perto de Chelsea, ele me perguntou o que eu tinha achado de tudo aquilo. Escolhi não falar sobre meus mixed feelings em relação aos cortes, já que o professor era de convicções socialistas e totalmente contra o que estava acontecendo. Mas tinha algo a lhe dizer:
"Na verdade, aquilo tudo está fazendo com que eu pense seriamente em deixar de lado o meu projeto e fazer arte inteiramente sobre aquilo. É muito mais real e imediato."
"Ótimo! Por que não?" ele respondeu tirando os olhos da calçada e olhando-me fixamente. "Na verdade, o objetivo do curso de mestrado é desconstruir a sua prática".
Grandiloquência. Ele queria dizer que o objetivo do curso era pegar pessoas como eu, que haviam chegado lá com projetos milimetricamente definidos, e instilar incerteza, destruir tudo e começar do zero. Ao contrário do que eu faço parecer, a prática é comum, saudável e muito estimulante no meio artístico. Ela expõe as fraquezas do nosso trabalho (como Dawn fez comigo) e deixa essas fraquezas corroerem tudo. Você tem a chance de recomeçar levando em conta esses erros e fazer algo mais forte. Dawn tinha me mostrado o quanto eu era alheio à realidade. Eu estava reagindo a isso mergulhando direto nela.
Ando de fato considerando muito isso de mudar o rumo. Na verdade, há uma ponte que estou trilhando por enquanto entre uma coisa e outra: a questão do poder. Em uma página do meu caderno, anotei um dia desses que o Feminismo tinha procurado maneiras de dar poder às mulheres, enquanto o Masculismo procurava superar a perda de poder dos homens. Era tudo uma questão de poder. E eu andava reconhecendo em muitas atitudes masculinas um gosto por ele: pelo poder do dinheiro, pelo poder físico, pelo poder político. Eu andava me interessando mais pelas minhas transferências enormes de canetas e outros objetos fálicos do que pela sátira publicitária. Apenas pela característica totêmica delas, como representações de puro poder. E nessa brincadeira com poder, havia visto o paralelo com o embate de poder acontecendo nas ruas. Um embate que não tinha a ver com questões masculinas ou femininas, mas com questões de poder, puro e simples. E de infligi-lo nos mais fracos.
Levantei a cabeça: era o professor Cussans. Fiquei feliz por ver que já estávamos no nível em que ele me reconhecia na rua (e em eventos de rebeldia estudantil...). No caminho para o metrô perto de Chelsea, ele me perguntou o que eu tinha achado de tudo aquilo. Escolhi não falar sobre meus mixed feelings em relação aos cortes, já que o professor era de convicções socialistas e totalmente contra o que estava acontecendo. Mas tinha algo a lhe dizer:
"Na verdade, aquilo tudo está fazendo com que eu pense seriamente em deixar de lado o meu projeto e fazer arte inteiramente sobre aquilo. É muito mais real e imediato."
"Ótimo! Por que não?" ele respondeu tirando os olhos da calçada e olhando-me fixamente. "Na verdade, o objetivo do curso de mestrado é desconstruir a sua prática".
Grandiloquência. Ele queria dizer que o objetivo do curso era pegar pessoas como eu, que haviam chegado lá com projetos milimetricamente definidos, e instilar incerteza, destruir tudo e começar do zero. Ao contrário do que eu faço parecer, a prática é comum, saudável e muito estimulante no meio artístico. Ela expõe as fraquezas do nosso trabalho (como Dawn fez comigo) e deixa essas fraquezas corroerem tudo. Você tem a chance de recomeçar levando em conta esses erros e fazer algo mais forte. Dawn tinha me mostrado o quanto eu era alheio à realidade. Eu estava reagindo a isso mergulhando direto nela.
Ando de fato considerando muito isso de mudar o rumo. Na verdade, há uma ponte que estou trilhando por enquanto entre uma coisa e outra: a questão do poder. Em uma página do meu caderno, anotei um dia desses que o Feminismo tinha procurado maneiras de dar poder às mulheres, enquanto o Masculismo procurava superar a perda de poder dos homens. Era tudo uma questão de poder. E eu andava reconhecendo em muitas atitudes masculinas um gosto por ele: pelo poder do dinheiro, pelo poder físico, pelo poder político. Eu andava me interessando mais pelas minhas transferências enormes de canetas e outros objetos fálicos do que pela sátira publicitária. Apenas pela característica totêmica delas, como representações de puro poder. E nessa brincadeira com poder, havia visto o paralelo com o embate de poder acontecendo nas ruas. Um embate que não tinha a ver com questões masculinas ou femininas, mas com questões de poder, puro e simples. E de infligi-lo nos mais fracos.
Cy Twombly e o pixo contemporâneo
Pequena nota de algo visto enquanto minha Lexy esteve aqui.

Na coleção desta temporada da Tate Modern há três quadros do Cy Twombly. Embora eu não conheça nada do artista a não ser o nome e sua pintura não faça muito meu gênero (que na verdade está mudando durante o mestrado...), eu fiquei com essas pinturas na cabeça. Eram telas enormes (uns dois metros por três) de uns rabiscos vermelhos de tinta bem diluída, provavelmente feitos com vassouras em vez de pincéis. Agora que estou escrevendo, me vêm à cabeça considerações sobre como a pintura normalmente tem uma certa proporção com o corpo humano, com o comprimento dos braços e pernas. Vendo essas pinturas dele, isso é totalmente descartado.
Mas a consideração que eu queria fazer por aqui tem a ver com outro detalhe: grafite. Aliás, usemos a designação certa: pixo. Twombly quis fazer essa explosão de tamanho na pintura, e queria fazer aqui um paralelo com algo que andei percebendo há alguns anos em São Paulo e recentemente vi aqui em Londre. Seja com a referência de Twombly ou por inspiração própria, alguns pixadores começaram a fazer pixos gigantes em alguns lugares de São Paulo. Ouvi rumores de que isso era feito com extintores de incêndio. Eles arranjavam um jeito de trocar o pó químico por pigmento. Dá pra reconhecer porque, assim como a pintura de Twombly, essa "arte" extrapola as proporções do pixador, que é forçado a virar o jato do extintor em um ângulo para alcançar as partes mais altas, que ficam mais borradas, cheias de gotas grandes, indefinidas. Precisão quase nula.
Por aqui, onde o grafite e o pixo ainda são duramente combatidos, tenho visto apenas uns poucos exemplares dessa mídia nos terrenos baldios e lugares abandonados. Mas já faz algumas semanas que passo por esse prédio com um "54" enorme e esqueço de ter a câmera à mão para fotografar. Ontem lembrei. Eis aí minha observação de que essa modinha não é uma coisa puramente brazuca.
Mas a consideração que eu queria fazer por aqui tem a ver com outro detalhe: grafite. Aliás, usemos a designação certa: pixo. Twombly quis fazer essa explosão de tamanho na pintura, e queria fazer aqui um paralelo com algo que andei percebendo há alguns anos em São Paulo e recentemente vi aqui em Londre. Seja com a referência de Twombly ou por inspiração própria, alguns pixadores começaram a fazer pixos gigantes em alguns lugares de São Paulo. Ouvi rumores de que isso era feito com extintores de incêndio. Eles arranjavam um jeito de trocar o pó químico por pigmento. Dá pra reconhecer porque, assim como a pintura de Twombly, essa "arte" extrapola as proporções do pixador, que é forçado a virar o jato do extintor em um ângulo para alcançar as partes mais altas, que ficam mais borradas, cheias de gotas grandes, indefinidas. Precisão quase nula.
Por aqui, onde o grafite e o pixo ainda são duramente combatidos, tenho visto apenas uns poucos exemplares dessa mídia nos terrenos baldios e lugares abandonados. Mas já faz algumas semanas que passo por esse prédio com um "54" enorme e esqueço de ter a câmera à mão para fotografar. Ontem lembrei. Eis aí minha observação de que essa modinha não é uma coisa puramente brazuca.
quinta-feira, dezembro 09, 2010
O Manifesto de verdade - 21 votos
O dia de hoje prometia.
Recebi um e-mail de alguém comentando uma ação de protesto que seria realizada no parlamento britânico hoje ao meio-dia. A idéia era fazer uma corrente humana ao redor da instituição enquanto os ministros votavam sobre as medidas que definiriam se os preços de educação superior na Inglaterra seriam triplicados no ano seguinte.
Neste ponto, eu já estava com mixed feelings sobre todo o assunto. Claro, ver essa mudança de preços tão brusca para as gerações futuras (já que eu felizmente já tinha pago pelo meu curso), o alargamento do abismo de classes decorrente e a derrocada da fé na democracia na inglesa (depois que os políticos do partido Liberal-Democrata prometeram votar contra a medida para se elegerem e estavam mudando de idéia depois de eleitos) eram coisas que me inspiravam a marchar em protesto também. Por outro lado, conversas com Claire, uma vizinha estranhamente sensata, me fizeram ver que cortes nos gastos públicos eram necessários e, embora parecesse lógico cobrar mais dos ricos, não fazia sentido taxar empresários que não tinham nada a ver com artes para que moleques pudessem ir à faculdade de arte aprenderem a ser contra o capitalismo. Enfim, a coisa toda tinha muita polêmica involvida e nenhum dos outros partidos estava propondo nenhuma outra solução para o problema financeiro enfrentado pela Grã Bretanha.
Meio-dia, do lado do parlamento. Pensando na idéia da corrente humana, pareceu-me cômico compreender que o que de fato estaríamos fazendo seria uma espécie de kettling do parlamento, um kettling invertido. Me dei conta do poder da sátira como uma forma de expressão que não pode ser contrariada. Mas isso é assunto para outro post, porque tem a ver com o meu trabalho mais adiante...
A corrente não aconteceu. O altíssimo contingente de policiais por lá intimidou as pessoas. Não tinha gente suficiente para dar a volta no parlamento. Mas se os policiais quizessem fazer, eles bem que poderiam...
De volta a Chelsea, tentei continuar o dia e fazer algo de produtivo hoje. Não teríamos mais as aulas do professor Cussans até Janeiro. Em compensação, fiquei sabendo de algo que poderia compensar isso: os chamados teach-ins. Trocando em miúdos, professores revoltados com os cortes de recurso estavam organizando aulas abertas em museus. A coisa, combinada por internet, acontecia de forma bem sorrateira: as pessoas iam chegando, uma a uma, sem parecer que se conheciam; repentinamente determinada obra do museu começava a ficar bem popular e muita gente se aglomerava em torno dela; em dado momento, todo mundo sentava e o professor lá ne frente começava a ministrar uma aula inteira sobre a obra e como ela estava ligada ao contexto atual. Tinha a ver com a reapropriação do espaço público para fins públicos, como se fazia na Grécia antiga. E como os curadores da Bienal de dois anos atrás alegaram tentar fazer com o tal espaço vazio (mas mudaram de atitude quando o público de fato se apropriou do espaço...).
Outros modos de protesto estavam acontecendo na cidade que levavam em conta a apropriação de espaços. Perto de onde eu estava morando, em Camberwell, os alunos da Faculdade de Artes de Camberwell ocuparam a faculdade, seguindo uma tendência que incluía as faculdades de Slade e Goldsmiths. Eles se recusavam a sair quando a faculdade fechava e dormiam por lá, geralmente nas bibliotecas, alegando estarem "defendendo o conhecimento". As bibliotecas enviavam e-mails cínicos alegando estarem "fechadas para reformas" ou algo do gênero. Hoje de manhã, a caminho de Chelsea, passei pela Faculdade de Camberwell e dei de cara com
as faixas proclamando a faculdade como mais uma das ocupadas.
Resolvi ir para o teach-in de hoje, na National Galery. Não foi difícil achar a sala apertada de alunos de todas as faculdades ocupadas e outros curiosos. Entre eles, artistas velhos. A discussão foi em frente a um quadro de Manet, a Execução de Maximiliano (entre, dá pra navegar pelo guadro que nem no Google Maps). A primeira palestrante apresentou o quadro, que parecia retratar o fuzilamento do nobre austríaco Maximiliano de Habsburgo, apontado imperador no México na época em que as revoltas camponesas tentavam instaurar a república democrática.
Peraí... Maximiliano de Habsburgo!? Agora sim estou na Europa que eu conheço: cheia de coincidências poéticas.
O quadro havia sido escolhido na verdade mais por causa do esquadrão de fuzilamento que aparecia em quatro quintos de quadro: eram todos mexicanos fuzilando o imperador, vestindo os uniformes de soldados frances, que haviam colocado Maximiliano no poder. Essa incoerência partidária tinha um paralelo com a incoerência partidária dos parlamentaristas votando naquele momento.
Ao final da palestra, o professor organizador do evento sugeriu que permanecessemos alí. A galeria anunciava pelos alto-falantes que fecharia dentro de meia hora. Ele propôs que deveríamos permanecer e escrever em conjunto um manifesto. Depois de ter discutido à exaustão sobre a futilidade de manifestos em uma época onde tudo era permitido, ainda assim descobri-me achando aquilo uma idéia fantástica. O problema daquele péssimo manifesto proposto em Chelsea era que havíamos sido colocados em grupos de pessoas que não conhecíamos, para tentar chegar a um acordo sobre algo indefinido. Isto era diferente, estávamos todos alí por um motivo, algo no qual todos nós concordávamos: o protesto contra a medida sendo votada naquele instante.
No meio disso tudo, a notícia chegou por celular: a medida tinha sido aprovada por 21 votos (323 contra 302). Silêncio pesado. Sabíamos que daqui pra frente, a violência dos protestos ia escalar. A diminuta margem que garantira a aprovação tinha muito significado. Queria dizer que se as 43 abstenções das quais soubemos depois fossem votos efetivos, a história teria sido outra. Queria dizer que o próprio parlamento não concordava em número expressivo com a medida. Mas acima de tudo, queria dizer que, por muito pouco, estes protestos não fizeram efeito. Isso para mim era novo. Eu tinha visto como em meu país os protestos não levavam a nada e eram ignorados com um aceno de mão enfadado pelos governantes. Mas aqui, aparentemente, fazia sentido ser politizado.
A discussão prosseguiu por mais três horas. Os coitados dos funcionários da galeria olhavam para todo mundo com mau humor patente. Alguém anunciou que a polícia estáva lá fora. Outro ligou para algum serviço de aconselhamento jurídico: juridicamente, estávamos "invadindo". Aquilo viraria "invasão grave" (possibilitando a polícia de nos prender) se os donos da galeria exigissem formalmente que saíssemos. Até então ninguém havia aparecido. Continuamos a discussão. Aquilo sim fazia sentido como manifesto: era a expressão de um grupo que não estava contente com o jeito das coisas e não voltaria à apatia de antes até divisar uma solução para aquilo. Falávamos no "Manifesto da Colônia Nômade", em ocupar lugares, em fazer arte que voltasse a ter algo a ver com a vida, com o cotidiano, com a realidade. Arte que ajudasse a comunidade, que não tivesse a venda como objetivo, que não dependesse do dinheiro do governo. Eu não concordava com tudo. Mas fazia parte daquilo.
Nas discussões, percebi um detalhe cômico, porém útil. Pessoas discursavam e, em pontos enfáticos, várias pessoas faziam aquele gesto de "jazz hands" quando concordavam com o que estava sendo proposto, chacoalhando as mãos no ar. Levantavam os dois indicadores quando tinham algo a dizer que era diretamete relacionado ao que estava sendo dito. Fazíam um "T" com as mãos quanto tinham perguntas de caráter técnico ("como fazer isso"). Ou um "P" quando tínham uma proposta. O resultado era uma mímica coletiva cômica, porém muito útil. Mantinha o clima civilizado e evitada a gritaria de pessoas tentando falar mais alto do que as outras. Não entendi ao certo quem havia desenvolvido isso, mas os protestantes mais "hardcore" todos pareciam conhecer os gestos. Coisa de quem já estava nisso há um bom tempo.
No fim, terminamos lendo os pontos do Manifesto of the Nomadic Hive ("Colônia" foi tirado do nome pela alusão a colonialismos). Devo recebê-los por e-mail para colocar por aqui em algum momento.
Como eu falei, eu não concordava com tudo. No entanto, tinha ímpetos de largar todo o assunto do meu projeto de mestrado e lidar com isto em troca. Com o que estava acontecendo aqui e agora, e com a minha relação com isso como mestrando estrangeiro. Isto era real, estava de fato acontecendo de uma forma muito concreta. Eu sentia que o resto dos assuntos de arte que eu tratara no passado eram mais diletantismo do que verdadeiras questões relevantes. Mesmo sabendo que o aumento de preços não me afetaria em nada, já que eu já havia pago o meu curso e voltaria para o meu país depois dele.
Voltando para casa, vi os helicópteros parados no ar sobre Westminster. Eles haviam encurralado os estudantes e estavam soltando-os um a um, tirando fotos de cada um deles para os registros policiais. Havia toda uma guerra de informação acontecendo de ambos os lados: os policiais registrando pessoas nos protestos e tentando descobrir os líderes e agitadores que transformavam passeatas pacíficas em explosões de violência, agredindo policiais somente para provocá-los e incitar o revide; enquanto os protestantes fotografavam policiais mais agressivos e agentes à paisana para montar o banco de dados do Fitwatch, o site de apoio aos protestos, com conselhos jurídicos e todo tipo de desobediência civil.
Tempos deveras estimulantes em Londres.
Recebi um e-mail de alguém comentando uma ação de protesto que seria realizada no parlamento britânico hoje ao meio-dia. A idéia era fazer uma corrente humana ao redor da instituição enquanto os ministros votavam sobre as medidas que definiriam se os preços de educação superior na Inglaterra seriam triplicados no ano seguinte.
Neste ponto, eu já estava com mixed feelings sobre todo o assunto. Claro, ver essa mudança de preços tão brusca para as gerações futuras (já que eu felizmente já tinha pago pelo meu curso), o alargamento do abismo de classes decorrente e a derrocada da fé na democracia na inglesa (depois que os políticos do partido Liberal-Democrata prometeram votar contra a medida para se elegerem e estavam mudando de idéia depois de eleitos) eram coisas que me inspiravam a marchar em protesto também. Por outro lado, conversas com Claire, uma vizinha estranhamente sensata, me fizeram ver que cortes nos gastos públicos eram necessários e, embora parecesse lógico cobrar mais dos ricos, não fazia sentido taxar empresários que não tinham nada a ver com artes para que moleques pudessem ir à faculdade de arte aprenderem a ser contra o capitalismo. Enfim, a coisa toda tinha muita polêmica involvida e nenhum dos outros partidos estava propondo nenhuma outra solução para o problema financeiro enfrentado pela Grã Bretanha.
Meio-dia, do lado do parlamento. Pensando na idéia da corrente humana, pareceu-me cômico compreender que o que de fato estaríamos fazendo seria uma espécie de kettling do parlamento, um kettling invertido. Me dei conta do poder da sátira como uma forma de expressão que não pode ser contrariada. Mas isso é assunto para outro post, porque tem a ver com o meu trabalho mais adiante...
A corrente não aconteceu. O altíssimo contingente de policiais por lá intimidou as pessoas. Não tinha gente suficiente para dar a volta no parlamento. Mas se os policiais quizessem fazer, eles bem que poderiam...
De volta a Chelsea, tentei continuar o dia e fazer algo de produtivo hoje. Não teríamos mais as aulas do professor Cussans até Janeiro. Em compensação, fiquei sabendo de algo que poderia compensar isso: os chamados teach-ins. Trocando em miúdos, professores revoltados com os cortes de recurso estavam organizando aulas abertas em museus. A coisa, combinada por internet, acontecia de forma bem sorrateira: as pessoas iam chegando, uma a uma, sem parecer que se conheciam; repentinamente determinada obra do museu começava a ficar bem popular e muita gente se aglomerava em torno dela; em dado momento, todo mundo sentava e o professor lá ne frente começava a ministrar uma aula inteira sobre a obra e como ela estava ligada ao contexto atual. Tinha a ver com a reapropriação do espaço público para fins públicos, como se fazia na Grécia antiga. E como os curadores da Bienal de dois anos atrás alegaram tentar fazer com o tal espaço vazio (mas mudaram de atitude quando o público de fato se apropriou do espaço...).
as faixas proclamando a faculdade como mais uma das ocupadas.
Resolvi ir para o teach-in de hoje, na National Galery. Não foi difícil achar a sala apertada de alunos de todas as faculdades ocupadas e outros curiosos. Entre eles, artistas velhos. A discussão foi em frente a um quadro de Manet, a Execução de Maximiliano (entre, dá pra navegar pelo guadro que nem no Google Maps). A primeira palestrante apresentou o quadro, que parecia retratar o fuzilamento do nobre austríaco Maximiliano de Habsburgo, apontado imperador no México na época em que as revoltas camponesas tentavam instaurar a república democrática.
Peraí... Maximiliano de Habsburgo!? Agora sim estou na Europa que eu conheço: cheia de coincidências poéticas.
O quadro havia sido escolhido na verdade mais por causa do esquadrão de fuzilamento que aparecia em quatro quintos de quadro: eram todos mexicanos fuzilando o imperador, vestindo os uniformes de soldados frances, que haviam colocado Maximiliano no poder. Essa incoerência partidária tinha um paralelo com a incoerência partidária dos parlamentaristas votando naquele momento.
Ao final da palestra, o professor organizador do evento sugeriu que permanecessemos alí. A galeria anunciava pelos alto-falantes que fecharia dentro de meia hora. Ele propôs que deveríamos permanecer e escrever em conjunto um manifesto. Depois de ter discutido à exaustão sobre a futilidade de manifestos em uma época onde tudo era permitido, ainda assim descobri-me achando aquilo uma idéia fantástica. O problema daquele péssimo manifesto proposto em Chelsea era que havíamos sido colocados em grupos de pessoas que não conhecíamos, para tentar chegar a um acordo sobre algo indefinido. Isto era diferente, estávamos todos alí por um motivo, algo no qual todos nós concordávamos: o protesto contra a medida sendo votada naquele instante.
No meio disso tudo, a notícia chegou por celular: a medida tinha sido aprovada por 21 votos (323 contra 302). Silêncio pesado. Sabíamos que daqui pra frente, a violência dos protestos ia escalar. A diminuta margem que garantira a aprovação tinha muito significado. Queria dizer que se as 43 abstenções das quais soubemos depois fossem votos efetivos, a história teria sido outra. Queria dizer que o próprio parlamento não concordava em número expressivo com a medida. Mas acima de tudo, queria dizer que, por muito pouco, estes protestos não fizeram efeito. Isso para mim era novo. Eu tinha visto como em meu país os protestos não levavam a nada e eram ignorados com um aceno de mão enfadado pelos governantes. Mas aqui, aparentemente, fazia sentido ser politizado.
A discussão prosseguiu por mais três horas. Os coitados dos funcionários da galeria olhavam para todo mundo com mau humor patente. Alguém anunciou que a polícia estáva lá fora. Outro ligou para algum serviço de aconselhamento jurídico: juridicamente, estávamos "invadindo". Aquilo viraria "invasão grave" (possibilitando a polícia de nos prender) se os donos da galeria exigissem formalmente que saíssemos. Até então ninguém havia aparecido. Continuamos a discussão. Aquilo sim fazia sentido como manifesto: era a expressão de um grupo que não estava contente com o jeito das coisas e não voltaria à apatia de antes até divisar uma solução para aquilo. Falávamos no "Manifesto da Colônia Nômade", em ocupar lugares, em fazer arte que voltasse a ter algo a ver com a vida, com o cotidiano, com a realidade. Arte que ajudasse a comunidade, que não tivesse a venda como objetivo, que não dependesse do dinheiro do governo. Eu não concordava com tudo. Mas fazia parte daquilo.
Nas discussões, percebi um detalhe cômico, porém útil. Pessoas discursavam e, em pontos enfáticos, várias pessoas faziam aquele gesto de "jazz hands" quando concordavam com o que estava sendo proposto, chacoalhando as mãos no ar. Levantavam os dois indicadores quando tinham algo a dizer que era diretamete relacionado ao que estava sendo dito. Fazíam um "T" com as mãos quanto tinham perguntas de caráter técnico ("como fazer isso"). Ou um "P" quando tínham uma proposta. O resultado era uma mímica coletiva cômica, porém muito útil. Mantinha o clima civilizado e evitada a gritaria de pessoas tentando falar mais alto do que as outras. Não entendi ao certo quem havia desenvolvido isso, mas os protestantes mais "hardcore" todos pareciam conhecer os gestos. Coisa de quem já estava nisso há um bom tempo.
No fim, terminamos lendo os pontos do Manifesto of the Nomadic Hive ("Colônia" foi tirado do nome pela alusão a colonialismos). Devo recebê-los por e-mail para colocar por aqui em algum momento.
Como eu falei, eu não concordava com tudo. No entanto, tinha ímpetos de largar todo o assunto do meu projeto de mestrado e lidar com isto em troca. Com o que estava acontecendo aqui e agora, e com a minha relação com isso como mestrando estrangeiro. Isto era real, estava de fato acontecendo de uma forma muito concreta. Eu sentia que o resto dos assuntos de arte que eu tratara no passado eram mais diletantismo do que verdadeiras questões relevantes. Mesmo sabendo que o aumento de preços não me afetaria em nada, já que eu já havia pago o meu curso e voltaria para o meu país depois dele.
Voltando para casa, vi os helicópteros parados no ar sobre Westminster. Eles haviam encurralado os estudantes e estavam soltando-os um a um, tirando fotos de cada um deles para os registros policiais. Havia toda uma guerra de informação acontecendo de ambos os lados: os policiais registrando pessoas nos protestos e tentando descobrir os líderes e agitadores que transformavam passeatas pacíficas em explosões de violência, agredindo policiais somente para provocá-los e incitar o revide; enquanto os protestantes fotografavam policiais mais agressivos e agentes à paisana para montar o banco de dados do Fitwatch, o site de apoio aos protestos, com conselhos jurídicos e todo tipo de desobediência civil.
Tempos deveras estimulantes em Londres.
quarta-feira, dezembro 08, 2010
Tutorial 2
O alarme de incêndio da faculdade tocou às dez horas da terça-feira. Era mais um teste dos alarmes e o barulho cessou depois de dez segundos. Para mim, o alarme marcava o final do meu tempo. Eram dez horas e meu segundo tutorial com Dawn Mellor estava para começar.
Assim que o alarme parou, pisei na cantina da faculdade, onde deveria encontrá-la. Eu parecia calmo e arrumado, mas era só fachada: eu estivera produzindo em um ritmo alucinante de praticamente um trabalho por dia desde que Lexy partiu (motivo pelo qual demorei a voltar a escrever por aqui...) e passara a noite anterior terminado detalhes até as quatro da manhã, tendo dormido três horas mal-dormidas à espera de um vídeo que só terminou de ser processado pelo computador quando já era hora de acordar.
Ela chegou alguns minutos atrasada, demorou outros para pegar um café. Nada de pontualidade britânica. Mas ela estava descansada e bem. Apesar de ainda estar vestida da cabeça os pés de preto, trazia um sobretudo de um tom salmon meio indefinido que lhe suavizava o caráter.
Vamos ver, o que eu tinha feito até aquele momento?
O primeiro tutorial me deixara com raiva de Dawn. Uma raiva banal, puramente emotiva, sem propósito. Raiva de quem tem sua vaidade atacada por verdades que não quer ouvir. Então comecei o processo de trabalho de uma forma mais "terapêutica", esvaziando minha raiva por ela em um retrato banal que não lhe mostrei (mas que dá pra ser visto de relance no vídeo que acabei de postar sobre a partida da Lexy). Com o coração mais leve, fui lidar com a parte mais didática do que ela tinha me dito. A grande questão era: como aquilo tudo se relacionava a mim? Nas duas semanas que passei com Lexy sem produzir, meu pensamento vagou por essa questão. Discuti-a com ela e procurei minhas primeiras memórias desse sentimento de inferioridade como homem. Parti da carga simbólica do meu relacionamento com minhas primas e outras mulheres da família, até chegar ao que eu percebia como uma questão sexista inversa da carreira de publicidade, onde as áreas que ganham mais trabalham quase exclusivamente com mulheres. Não ficava mais pessoal e "não-generalista" do que isso. E resolvi que eu tinha que fazer algo que ligasse o Masculismo, meu passado em publicidade, e minha condição de estrangeiro em Londres. Parti então para fazer obras apropriando-me de peças de publicidade londrina, que eu sempre gostei. Seria um trabalho ao mesmo tempo pessoal, público e pós-moderno. Puxa!
Mas eu sabia que eu não seria avaliado apenas pelo lado teórico no qual Dawn tinha comentado. Soube que um dos quesitos de avaliação era chamado "risco", a coragem de arriscar formatos diferentes e sair da zona de conforto. Fiz isso aventurando-me a montar um banner de internet, daqueles que eu fazia na última agência onde trabalhei.
Por último, eu experimentara alguns problemas ao tentar fazer a técnica de transferência por aqui, porque as telas e produtos químicos eram diferentes. E como o papel estava disponível em tamanhos e em qualidades que eu nunca havia visto antes, fiz duas peças de 150cms de pura transferência, apenas por diversão. Na verdade, eu pensara em fazer imagens enormes de objetos fálicos pelos quais os homens definem seu status: as canetas, os relógios, as gravatas. Na minha experiência como professor de inglês em empresas, eu tinha visto os homens vestidos todos iguais, terno e gravata, tendo apenas esses elementos para se destacarem. As transferências gigantescas tinham alguma coisa de elegantemente pornográfica em seu tamanho e alusão ao poder.
Bom, estes parágrafos caóticos serviram apenas para dizer que eu tinha sido um bom aluno. Levei em consideração o que ela me dissera no tutorial anterior, mudei todo meu raciocínio em decorrência das questões inegáveis que ela apontou. Portanto eu trabalhei, e isso conta por uns dois terços de todo o resultado do nosso encontro. O que veio a seguir foram picuinhas vingativas de escorpiano.
Assim como ela, em algum nível inconsciente, sabia exatamente o que estava fazendo ao vir falar comigo vestida daquele jeito na primeira vez, eu encarei este segundo encontro com a mesma consciência de mim mesmo. Eu sabia que aos olhos dela, eu era um aluno desconhecido e desinteressante. Precisava mudar isso. Minha carta na manga foi começar nossa conversa comentando sobre a exposição dela que havia acabado naquele fim de semana. Eu tinha ido fazer minha lição de casa: tinha ido ver como ela trabalhava e se ela praticava o que pregava. A exposição no Estúdio Voltaire era uma coleção de pequenos retratos de celebridades hollywoodianas, todas pintadas à perfeição e depois violentamente rabiscadas com dizeres sarcásticos. E para ser fiel ao que pregava, Dawn deixava a última cartada para o press release da exposição: recusando-se a ser ela mesma uma celebridade, escrevera uma extensa biografia totalmente falsa, onde ela dizia que sua mãe se suicidara enquanto ela era criança e como ela tivera um relacionamento conturbado de dez anos com Whoopi Goldberg. Estava na verdade tirando sarro dos artistas que se valem de tragédias pessoais para ganhar notoriedade. Pessoalmente, eu achei isso uma manobra defensiva: não era possível avaliar o quanto o trabalho tinha a ver com as questões pessoais dela, simplesmente porque ninguém tinha acesso às questões pessoais dela. Ainda assim, concordo que ela estava lidando com um fato tangível da vida contemporânea, que era o status de celebridade que todos almejam e invejam. Em algum lugar, ela comentava sobre como depois de certo ponto, todo mundo fica cansado de ler sobre a guerra no Iraque ou os protestos estudantis e quer apenas saber quem ganhou o Big Brother ou a mais recente besteira da Britney Spears...
Nossa conversa começou pela exposição dela, pela biografia fake e por artistas de tragédia. E consegui com isso fazer com que o clima da conversa fosse bem menos tenso do que da primeira vez. Meus colegas que passavam por nós estranhavam como estávamos rindo juntos depois de eu ter passado a semana inteira demonizando a mulher... Era uma tática óbvia, tamanha era a puxação de saco, quase uma coisa cínica. Como eu disse, picuinha vingativa de escorpiano.
Quando chegamos ao meu espaço do ateliê, tudo estava meticulosamente organizado. Nada da pintura pretensiosa da primeira vez (e nem do discurso pretensioso que a acompanhava). Coisas pontuais, apresentadas de forma limpa e profissional.
Claro, escondi o retrato raivoso...
Dawn Mellor gostou um pouco mais dessas coisas. Minha impressão geral é que, na primeira vez, ela não conhecia nada, e pessoas como ela (e como Dora) têm uma tendência a atacar primeiro o que não conhecem antes de serem atacadas. Desta vez, ela conhecia, ela tinha entendido a evolução, e foi muito mais cordial.
Juntando as apropriações de peças publicitárias e o banner, chegamos à conclusão de que dava pra fazer toda uma campanha, com peças impressas e de internet. Eu certamente tinha a capacidade técnica pra isso. Ela comentou sobre como a minha sátira à publicidade britânica não era violenta, era quase banal. Mas que isso podia virar uma qualidade, já que a publicidade tinha aquele quê de querer apresentar algo incrível e novo, e eu a estava atancando ao torná-la banal. Pessoalmente, eu sentia que isso ainda precisava ser mais trabalhado. Eu me sentia no meio do caminho entre a violência e o banal, e precisava escolher algum deles.
Quanto às transferências que eu apelidei de "fálicos", ela achou a elegância da coisa interessante. A escolha pelo papel certo, a imagem definida, o acráter pornográfico associado àquilo. Deveria haver algo de cômico para quebrar a pretensão daquilo tudo: resolvi fazer isso com os títulos. Mas vou revelar essas coisas por aqui assim que conseguir trabalhar mais nelas. Dawn considerou que eram peças separadas das outras. Talvez viessem a se relacionar com o resto mais tarde, mas por enquanto eram um sideshow, uma vertente paralela do processo maior.
Miraculosamente, conseguimos esvaziar a conversa antes que o tempo se esgotasse. Ela me passou algumas referência feministas que pedi, e levantou-se para ir ao próximo aluno. Engraçado: ela parecia tão menor agora. Uma pessoa normal. Frágil até. Não que eu a tivesse destituído de seu poder, longe disso. Mas talvez eu tivesse crescido um pouco mais com tudo isso para não ser mais tão violentamente intimidado por mulheres como esta.
E nesse sentido, a escolha de Dawn Mellor para minha primeira tutora talvez tivesse sido perfeita.
[Imagens por aqui e no blog pofissional a partir da semana que vem, quando o departamento de fotografia me permitir...]
Assim que o alarme parou, pisei na cantina da faculdade, onde deveria encontrá-la. Eu parecia calmo e arrumado, mas era só fachada: eu estivera produzindo em um ritmo alucinante de praticamente um trabalho por dia desde que Lexy partiu (motivo pelo qual demorei a voltar a escrever por aqui...) e passara a noite anterior terminado detalhes até as quatro da manhã, tendo dormido três horas mal-dormidas à espera de um vídeo que só terminou de ser processado pelo computador quando já era hora de acordar.
Ela chegou alguns minutos atrasada, demorou outros para pegar um café. Nada de pontualidade britânica. Mas ela estava descansada e bem. Apesar de ainda estar vestida da cabeça os pés de preto, trazia um sobretudo de um tom salmon meio indefinido que lhe suavizava o caráter.
Vamos ver, o que eu tinha feito até aquele momento?
O primeiro tutorial me deixara com raiva de Dawn. Uma raiva banal, puramente emotiva, sem propósito. Raiva de quem tem sua vaidade atacada por verdades que não quer ouvir. Então comecei o processo de trabalho de uma forma mais "terapêutica", esvaziando minha raiva por ela em um retrato banal que não lhe mostrei (mas que dá pra ser visto de relance no vídeo que acabei de postar sobre a partida da Lexy). Com o coração mais leve, fui lidar com a parte mais didática do que ela tinha me dito. A grande questão era: como aquilo tudo se relacionava a mim? Nas duas semanas que passei com Lexy sem produzir, meu pensamento vagou por essa questão. Discuti-a com ela e procurei minhas primeiras memórias desse sentimento de inferioridade como homem. Parti da carga simbólica do meu relacionamento com minhas primas e outras mulheres da família, até chegar ao que eu percebia como uma questão sexista inversa da carreira de publicidade, onde as áreas que ganham mais trabalham quase exclusivamente com mulheres. Não ficava mais pessoal e "não-generalista" do que isso. E resolvi que eu tinha que fazer algo que ligasse o Masculismo, meu passado em publicidade, e minha condição de estrangeiro em Londres. Parti então para fazer obras apropriando-me de peças de publicidade londrina, que eu sempre gostei. Seria um trabalho ao mesmo tempo pessoal, público e pós-moderno. Puxa!
Mas eu sabia que eu não seria avaliado apenas pelo lado teórico no qual Dawn tinha comentado. Soube que um dos quesitos de avaliação era chamado "risco", a coragem de arriscar formatos diferentes e sair da zona de conforto. Fiz isso aventurando-me a montar um banner de internet, daqueles que eu fazia na última agência onde trabalhei.
Por último, eu experimentara alguns problemas ao tentar fazer a técnica de transferência por aqui, porque as telas e produtos químicos eram diferentes. E como o papel estava disponível em tamanhos e em qualidades que eu nunca havia visto antes, fiz duas peças de 150cms de pura transferência, apenas por diversão. Na verdade, eu pensara em fazer imagens enormes de objetos fálicos pelos quais os homens definem seu status: as canetas, os relógios, as gravatas. Na minha experiência como professor de inglês em empresas, eu tinha visto os homens vestidos todos iguais, terno e gravata, tendo apenas esses elementos para se destacarem. As transferências gigantescas tinham alguma coisa de elegantemente pornográfica em seu tamanho e alusão ao poder.
Bom, estes parágrafos caóticos serviram apenas para dizer que eu tinha sido um bom aluno. Levei em consideração o que ela me dissera no tutorial anterior, mudei todo meu raciocínio em decorrência das questões inegáveis que ela apontou. Portanto eu trabalhei, e isso conta por uns dois terços de todo o resultado do nosso encontro. O que veio a seguir foram picuinhas vingativas de escorpiano.
Assim como ela, em algum nível inconsciente, sabia exatamente o que estava fazendo ao vir falar comigo vestida daquele jeito na primeira vez, eu encarei este segundo encontro com a mesma consciência de mim mesmo. Eu sabia que aos olhos dela, eu era um aluno desconhecido e desinteressante. Precisava mudar isso. Minha carta na manga foi começar nossa conversa comentando sobre a exposição dela que havia acabado naquele fim de semana. Eu tinha ido fazer minha lição de casa: tinha ido ver como ela trabalhava e se ela praticava o que pregava. A exposição no Estúdio Voltaire era uma coleção de pequenos retratos de celebridades hollywoodianas, todas pintadas à perfeição e depois violentamente rabiscadas com dizeres sarcásticos. E para ser fiel ao que pregava, Dawn deixava a última cartada para o press release da exposição: recusando-se a ser ela mesma uma celebridade, escrevera uma extensa biografia totalmente falsa, onde ela dizia que sua mãe se suicidara enquanto ela era criança e como ela tivera um relacionamento conturbado de dez anos com Whoopi Goldberg. Estava na verdade tirando sarro dos artistas que se valem de tragédias pessoais para ganhar notoriedade. Pessoalmente, eu achei isso uma manobra defensiva: não era possível avaliar o quanto o trabalho tinha a ver com as questões pessoais dela, simplesmente porque ninguém tinha acesso às questões pessoais dela. Ainda assim, concordo que ela estava lidando com um fato tangível da vida contemporânea, que era o status de celebridade que todos almejam e invejam. Em algum lugar, ela comentava sobre como depois de certo ponto, todo mundo fica cansado de ler sobre a guerra no Iraque ou os protestos estudantis e quer apenas saber quem ganhou o Big Brother ou a mais recente besteira da Britney Spears...
Nossa conversa começou pela exposição dela, pela biografia fake e por artistas de tragédia. E consegui com isso fazer com que o clima da conversa fosse bem menos tenso do que da primeira vez. Meus colegas que passavam por nós estranhavam como estávamos rindo juntos depois de eu ter passado a semana inteira demonizando a mulher... Era uma tática óbvia, tamanha era a puxação de saco, quase uma coisa cínica. Como eu disse, picuinha vingativa de escorpiano.
Quando chegamos ao meu espaço do ateliê, tudo estava meticulosamente organizado. Nada da pintura pretensiosa da primeira vez (e nem do discurso pretensioso que a acompanhava). Coisas pontuais, apresentadas de forma limpa e profissional.
Claro, escondi o retrato raivoso...
Dawn Mellor gostou um pouco mais dessas coisas. Minha impressão geral é que, na primeira vez, ela não conhecia nada, e pessoas como ela (e como Dora) têm uma tendência a atacar primeiro o que não conhecem antes de serem atacadas. Desta vez, ela conhecia, ela tinha entendido a evolução, e foi muito mais cordial.
Juntando as apropriações de peças publicitárias e o banner, chegamos à conclusão de que dava pra fazer toda uma campanha, com peças impressas e de internet. Eu certamente tinha a capacidade técnica pra isso. Ela comentou sobre como a minha sátira à publicidade britânica não era violenta, era quase banal. Mas que isso podia virar uma qualidade, já que a publicidade tinha aquele quê de querer apresentar algo incrível e novo, e eu a estava atancando ao torná-la banal. Pessoalmente, eu sentia que isso ainda precisava ser mais trabalhado. Eu me sentia no meio do caminho entre a violência e o banal, e precisava escolher algum deles.
Quanto às transferências que eu apelidei de "fálicos", ela achou a elegância da coisa interessante. A escolha pelo papel certo, a imagem definida, o acráter pornográfico associado àquilo. Deveria haver algo de cômico para quebrar a pretensão daquilo tudo: resolvi fazer isso com os títulos. Mas vou revelar essas coisas por aqui assim que conseguir trabalhar mais nelas. Dawn considerou que eram peças separadas das outras. Talvez viessem a se relacionar com o resto mais tarde, mas por enquanto eram um sideshow, uma vertente paralela do processo maior.
Miraculosamente, conseguimos esvaziar a conversa antes que o tempo se esgotasse. Ela me passou algumas referência feministas que pedi, e levantou-se para ir ao próximo aluno. Engraçado: ela parecia tão menor agora. Uma pessoa normal. Frágil até. Não que eu a tivesse destituído de seu poder, longe disso. Mas talvez eu tivesse crescido um pouco mais com tudo isso para não ser mais tão violentamente intimidado por mulheres como esta.
E nesse sentido, a escolha de Dawn Mellor para minha primeira tutora talvez tivesse sido perfeita.
[Imagens por aqui e no blog pofissional a partir da semana que vem, quando o departamento de fotografia me permitir...]
terça-feira, dezembro 07, 2010
Odds and Ends
• Não há formigas em Londres! Ainda acho que é uma coisa de inverno, mas também não lembro de ter visto da outra vez. Talvez por isso mesmo os meus colegas de apê deixam a pilha de louça suja e restos de comida largados na cozinha. Eles ainda não sofreram consequências advindas disso.
• Ao contrário do que eu acreditava, é possível ter uma temperatura abaixo de 0º sem ter neve. Acontece quando o clima está mais seco e tem sido o caso aqui em Londres no começo de Dezembro. Isso torna Londre no inverno ainda mais deprimente: é um frio que não tem graça alguma...
• Embaçamento instantâneo de óculos! É um fenômeno que acontece devido à mudança brusca de temperatura entre o exterior gélido e seco das ruas e o interior quente, abafado e úmido dos pubs! Os óculos embaçam quase que instantaneamente.
• Já comentei isso por aqui, mas a água na Europa é muito rica em cálcio e sódio, que permanecem nas coisas depois que a água evaporou. Minha torneira da pia está ficando branca... Enquanto Lexy esteve por aqui, adquiri o hábito (que pretendo manter) de comprar garrafões de água. Antes eu estava bebendo da torneira: imagina o que tudo isso de cálcio deve fazer aos meus rins...
• Ao contrário do que eu acreditava, é possível ter uma temperatura abaixo de 0º sem ter neve. Acontece quando o clima está mais seco e tem sido o caso aqui em Londres no começo de Dezembro. Isso torna Londre no inverno ainda mais deprimente: é um frio que não tem graça alguma...
• Embaçamento instantâneo de óculos! É um fenômeno que acontece devido à mudança brusca de temperatura entre o exterior gélido e seco das ruas e o interior quente, abafado e úmido dos pubs! Os óculos embaçam quase que instantaneamente.
• Já comentei isso por aqui, mas a água na Europa é muito rica em cálcio e sódio, que permanecem nas coisas depois que a água evaporou. Minha torneira da pia está ficando branca... Enquanto Lexy esteve por aqui, adquiri o hábito (que pretendo manter) de comprar garrafões de água. Antes eu estava bebendo da torneira: imagina o que tudo isso de cálcio deve fazer aos meus rins...
quinta-feira, dezembro 02, 2010
General Theory Forum - Globalization & Postmodernity
Fiquei muito interessado em uma idéia que li em um dos textos que foram discutidos nas aulas do professor Cussans. O autor Johan Galtung, no texto de UlfWuggenig fala do que ele chama de Bridgehead thesis. O nome é difícil de ser traduzido ("Cabeça-de-ponte"? "Ponta-de-ponte"?), porém mais facilmente compreendido se eu explicar do que se trata.
Wuggenig postula primeiramente que a globalização, apesar de alegar um processo sob o qual o mundo inteiro torna-se uno e homogêneo, na verdade é uma vertente moderna dos processos de colonização euro-americana. É uma globalização "transatlântica", onde o mundo talvez de fato vire homogêneo, mas sob o verniz da cultura dos Estados Unidos e (consequentemente) Europa. Outras culturas são vistas como "exóticas" à medida que o mundo vai se "europizando".
A tese de "bridgehead" do Galtung diz que esse processo acontece à medida que as elites dos países de periferia (as "colônias") são recompensadas pela elite do centro (da "metrópole" ou do "império") por desenvolverem gostos e necessidade similares aos deles. Ele funcionam como a "ponta da ponte" que vai trazer a cultura da Europa para essa periferia. Galtung menciona que um dos processos pelos quais isso acontece se dá quando essa elite da periferia estuda em universidades do centro, e importa artefatos culturais, conhecimento e teorias para a periferia.
Deu pra entender a tese? Mais importante: deu pra entender porque eu me identifiquei?
A pergunta que não quer calar é: qual é a alternativa que eu tenho a propagar esse tipo de imperialismo? Venho de uma família que vem fazendo exatamente isso há gerações. Meu avô paterno estudou em colégios "do império", minha avó materna nasceu "no império" e cresceu lá até a adolescência. Eu mesmo já estou tão intrinsecamente amarrado à estética de arte "do império" que encontro dificuldades em gostar de qualquer coisa que seja mais "local" (ou seja, genuinamente "nacional" do meu país).
Principalmente sendo que o que a mídia de massa vende como sendo "local" para mim é a estética do cine-favela, da classe baixa que vive do "jeitinho". Parece um comentário classista, mas eu sou de classe média-alta: tentar identificar-me com essa estética do miserável seria ainda mais incoerente do que essa minha tentativa de parecer europeu. Eu estou em um inbetween, no qual eu não sou nem estereotipicamente brasileiro, nem genuinamente europeu.
Eu sinto que isso ainda dá pano pra manga... Talvez quando eu voltar ao Brasil tenha aí uma possibilidade de ir atrás das minhas outras origens. Já vim até Trieste, na Itália, para ver a casa da minha avó. Talvez eu deva passar um tempo correndo atrás da família do meu avô materno em Belém do Pará ou da família aristocrata alagoana do meu pai.
Wuggenig postula primeiramente que a globalização, apesar de alegar um processo sob o qual o mundo inteiro torna-se uno e homogêneo, na verdade é uma vertente moderna dos processos de colonização euro-americana. É uma globalização "transatlântica", onde o mundo talvez de fato vire homogêneo, mas sob o verniz da cultura dos Estados Unidos e (consequentemente) Europa. Outras culturas são vistas como "exóticas" à medida que o mundo vai se "europizando".
A tese de "bridgehead" do Galtung diz que esse processo acontece à medida que as elites dos países de periferia (as "colônias") são recompensadas pela elite do centro (da "metrópole" ou do "império") por desenvolverem gostos e necessidade similares aos deles. Ele funcionam como a "ponta da ponte" que vai trazer a cultura da Europa para essa periferia. Galtung menciona que um dos processos pelos quais isso acontece se dá quando essa elite da periferia estuda em universidades do centro, e importa artefatos culturais, conhecimento e teorias para a periferia.
Deu pra entender a tese? Mais importante: deu pra entender porque eu me identifiquei?
A pergunta que não quer calar é: qual é a alternativa que eu tenho a propagar esse tipo de imperialismo? Venho de uma família que vem fazendo exatamente isso há gerações. Meu avô paterno estudou em colégios "do império", minha avó materna nasceu "no império" e cresceu lá até a adolescência. Eu mesmo já estou tão intrinsecamente amarrado à estética de arte "do império" que encontro dificuldades em gostar de qualquer coisa que seja mais "local" (ou seja, genuinamente "nacional" do meu país).
Principalmente sendo que o que a mídia de massa vende como sendo "local" para mim é a estética do cine-favela, da classe baixa que vive do "jeitinho". Parece um comentário classista, mas eu sou de classe média-alta: tentar identificar-me com essa estética do miserável seria ainda mais incoerente do que essa minha tentativa de parecer europeu. Eu estou em um inbetween, no qual eu não sou nem estereotipicamente brasileiro, nem genuinamente europeu.
Eu sinto que isso ainda dá pano pra manga... Talvez quando eu voltar ao Brasil tenha aí uma possibilidade de ir atrás das minhas outras origens. Já vim até Trieste, na Itália, para ver a casa da minha avó. Talvez eu deva passar um tempo correndo atrás da família do meu avô materno em Belém do Pará ou da família aristocrata alagoana do meu pai.
sábado, novembro 27, 2010
quinta-feira, novembro 25, 2010
A mudança no sublime
Lembro que comecei a escrever sobre o sublime aqui no blog depois de ter visto o Pianista do Polanski. Eu tinha estudado na faculdade de arte a idéia do sublime como algo que inspira o medo e uma sensação de que somos pequenos demais para lidar com a causa daquele sentimento. O filme exemplificava exatamente isso. Eu me via na pele daquele ser minúsculo e insignificante, tentando se esconder de uma máquina de guerra maior e infinitamente mais poderosa do que ele como indivíduo. O que eu não levei em conta é que o filme de Polanski na verdade estava me mostrando um outro aspecto do sublime: o modo como ele mudou depois do século XX.
Tivemos uma palestra sobre isso hoje, dada pelo professor Cussans.
Na concepção de sublime do século XIX, esse sentimento de terror e impotência era inspirado pelas forças da natureza e, de certa forma, pelo ira divina. Faço um parêntesis aqui para notar que, apesar de não ser responsável pela mudança, o escritor H.P. Lovecraft já tinha sugerido uma mudança no paradigma ao escrever histórias de horrores inefáveis e totalmente sublimes, mas que originavam de outras dimensões. Algo entre o diabólico e o extra-terrestre.
No século XX, o conceito de sublime mudou. Inicialmente pelos horrores da Primeira Guerra, de máquinas cada vez mais eficientes para dizimar números cada vez maiores de pessoas (o gás mostarda, por exemplo). O horror só fez aumentar durante a Segunda Guerra, conforme visto no filme do Polanski, primeiramente porque a eficiente máquina de guerra era lubrificada pela ideologia anti-semita e pela propaganda, fazendo dos judeus vítimas impotentes e dos próprios alemães marionetes inconscientes. Outro filme interessante nesse aspecto foi o Conspiracy de 2001, com o ótimo Keneth Branagh, que mostrava como o genocídio podia ser tratado como questão de engenharia por alemães doutrinados pelo fascismo a desconsiderar os judeus como pessoas. O horror culminou com as desnecessárias bombas de Hiroshima e Nagasaki, em uma exibição de violência gratuita de proporções jamais vistas na história e que inspirou mais terror do que qualquer ato natural. Mas a questão importante era justamente que nada daquilo era um ato natural. O terror inspirado pelo sublime deixara de pertencer ao universo do natural ou sagrado e passara para as mãos do homem.
Será que o homem contemporâneo acreditava ter domado a natureza? Que a destituira de sua possibilidade de ser sublime? Andei pensando nisso. O professor mencionou os desastres naturais acontecidos recentemente no Haiti, já que ele passara algum tempo lá antes da catástrofe acontecer. Mas mesmo nessas situações, eu percebia que a destruição que acontecera não era compreendida como uma catástrofe natural, mas sim como uma catástrofe social: o horror daquilo tudo era que o país fora pobre demais para se defender e ajudar sua população desabrigada. Havia mais ódio dirigido ao sistema capitalista global que fizera do Haiti um país pobre, do que a algum deus ou á natureza que fizera o desastre em si acontecer.
Estamos na era do sublime como constructo humano.
Assim como antigamente as catástrofes naturais faziam o que fizeram no Haiti atualmente, privando pessoas de moradia e subsistência, o sublime conemporâneo também tinha efeitos tardios que continuavam acontecendo muito tempo depois do desastre sublime inicial. Assim como vítimas de enchentes em São Paulo ainda temem a garoa, americanos após o 11 de Setembro ainda temem qualquer subversivo, rotulando-o "terrorista".
Dia desses, vi um grafite por aí com os dizeres: "se estão do nosso lado, são freedom fighters (guerreiros da liberdade); se estão do outro lado, são terroristas".
Tivemos uma palestra sobre isso hoje, dada pelo professor Cussans.
Na concepção de sublime do século XIX, esse sentimento de terror e impotência era inspirado pelas forças da natureza e, de certa forma, pelo ira divina. Faço um parêntesis aqui para notar que, apesar de não ser responsável pela mudança, o escritor H.P. Lovecraft já tinha sugerido uma mudança no paradigma ao escrever histórias de horrores inefáveis e totalmente sublimes, mas que originavam de outras dimensões. Algo entre o diabólico e o extra-terrestre.
No século XX, o conceito de sublime mudou. Inicialmente pelos horrores da Primeira Guerra, de máquinas cada vez mais eficientes para dizimar números cada vez maiores de pessoas (o gás mostarda, por exemplo). O horror só fez aumentar durante a Segunda Guerra, conforme visto no filme do Polanski, primeiramente porque a eficiente máquina de guerra era lubrificada pela ideologia anti-semita e pela propaganda, fazendo dos judeus vítimas impotentes e dos próprios alemães marionetes inconscientes. Outro filme interessante nesse aspecto foi o Conspiracy de 2001, com o ótimo Keneth Branagh, que mostrava como o genocídio podia ser tratado como questão de engenharia por alemães doutrinados pelo fascismo a desconsiderar os judeus como pessoas. O horror culminou com as desnecessárias bombas de Hiroshima e Nagasaki, em uma exibição de violência gratuita de proporções jamais vistas na história e que inspirou mais terror do que qualquer ato natural. Mas a questão importante era justamente que nada daquilo era um ato natural. O terror inspirado pelo sublime deixara de pertencer ao universo do natural ou sagrado e passara para as mãos do homem.
Será que o homem contemporâneo acreditava ter domado a natureza? Que a destituira de sua possibilidade de ser sublime? Andei pensando nisso. O professor mencionou os desastres naturais acontecidos recentemente no Haiti, já que ele passara algum tempo lá antes da catástrofe acontecer. Mas mesmo nessas situações, eu percebia que a destruição que acontecera não era compreendida como uma catástrofe natural, mas sim como uma catástrofe social: o horror daquilo tudo era que o país fora pobre demais para se defender e ajudar sua população desabrigada. Havia mais ódio dirigido ao sistema capitalista global que fizera do Haiti um país pobre, do que a algum deus ou á natureza que fizera o desastre em si acontecer.
Estamos na era do sublime como constructo humano.
Assim como antigamente as catástrofes naturais faziam o que fizeram no Haiti atualmente, privando pessoas de moradia e subsistência, o sublime conemporâneo também tinha efeitos tardios que continuavam acontecendo muito tempo depois do desastre sublime inicial. Assim como vítimas de enchentes em São Paulo ainda temem a garoa, americanos após o 11 de Setembro ainda temem qualquer subversivo, rotulando-o "terrorista".
Dia desses, vi um grafite por aí com os dizeres: "se estão do nosso lado, são freedom fighters (guerreiros da liberdade); se estão do outro lado, são terroristas".
quinta-feira, novembro 18, 2010
Redundâncias históricas
Nota parcialmente relacionada ao post anterior...
Nas palestras do professor Cussans, de tendência proletária, ele apontou uma preocupante repetição histórica.
Em 1981, sob o governo rígido de Margaret Thatcher e seus impostos e cortes orçamentários que mergulharam a Inglaterra em profunda recessão e desemprego (fonte), Londres havia sido tomada por uma onda de protestos por parte da juventude punk e anarquista, vinda da classe operária. No auge da violência, o príncipe Charles anunciou seu casamento com Lady Di. Do dia para a noite, os jornais só falavam disso e a violência, incluíndo seus motivos, passou a ser um sussurro em páginas secundárias.
No presente, sob o governo (timidamente) rígido de David Cameron e seus impostos e cortes orçamentários que provavelmente mergulharão a Inglaterra em outra profunda recessão e desemprego, Londres começa a ser tomada por uma onda de protestos por parte da velha-guarda e nova geração punk e anarquista, incluindo não só a classe operária como também a acadêmica. Quando a violência começa a engrenar, o príncipe William anuncia seu casamento com Kate Middleton. Já vejo os jornais comentando os lucros que serão gerados pelo casamento, o passado da noiva e outras trivialidades grandiloquentes que vendem jornal mais do que a situação política do país...
Nas palestras do professor Cussans, de tendência proletária, ele apontou uma preocupante repetição histórica.
Em 1981, sob o governo rígido de Margaret Thatcher e seus impostos e cortes orçamentários que mergulharam a Inglaterra em profunda recessão e desemprego (fonte), Londres havia sido tomada por uma onda de protestos por parte da juventude punk e anarquista, vinda da classe operária. No auge da violência, o príncipe Charles anunciou seu casamento com Lady Di. Do dia para a noite, os jornais só falavam disso e a violência, incluíndo seus motivos, passou a ser um sussurro em páginas secundárias.
No presente, sob o governo (timidamente) rígido de David Cameron e seus impostos e cortes orçamentários que provavelmente mergulharão a Inglaterra em outra profunda recessão e desemprego, Londres começa a ser tomada por uma onda de protestos por parte da velha-guarda e nova geração punk e anarquista, incluindo não só a classe operária como também a acadêmica. Quando a violência começa a engrenar, o príncipe William anuncia seu casamento com Kate Middleton. Já vejo os jornais comentando os lucros que serão gerados pelo casamento, o passado da noiva e outras trivialidades grandiloquentes que vendem jornal mais do que a situação política do país...
quarta-feira, novembro 17, 2010
No ifs, no buts...
Já faz uma semana que aconteceu.
A faculdade tinha até dado o aval a seus alunos para faltarem nas aulas do dia sem maiores consequências. Todos nos dirigimos a Trafalgar para fazer parte do protesto contra os cortes de orçamento propostos pelo chamdo Browne Review e que fazem parte de um esquema de cortes ainda maior propostos pelo primeiro ministro David Cameron. Se aprovado, o Browne Review faria os preços de cursos universitários terem um acréscimo de £1000 em todos os cursos (e muito mais do que isso para estudantes estrangeiros), afetando principalmente cursos de comunicação e artes, por não serem considerados "cursos sérios". As consequências desse acréscimo aumentariam ainda mais o elitismo na Inglaterra, já que cada vez menos pessoas de classes inferiores teriam acesso à educação superior. Os partidos a favor da questão alegavam que as universidades geravam um custo que deveria ser pago de alguma forma e não seria barato se o país quisesse ter excelência em educação. Enquanto isso, ativistas contra-argumentavam que as empresas britânicas geravam £8 bilhões e podiam arcar com um pouco menos de isenções fiscais para custear o futuro da nação.
Em Trafalgar, o impacto negativo dessas medidas já podia ser visto pela quantidade de alunos chegando de todos os cantos do país para protestar. Cerca de 50.000 estudantes estavam lá, desde as faculdades locais como a minha, até gente de faculdades do norte da Inglaterra, chegando em ônibus fretado. Todos carregavam placas com dizeres que misturavam humor e ódio. Juntando-se em Trafalgar, marchariam por Whitehall até o parlamento (ao lado do Big Ben), para demonstrar a quantidade de alunos que eram contra os cortes.
Ao som de lemas como o "No ifs, no buts, no education cuts" ou "when they say 'cut back', we say 'fight back'", começamos a marcha. Acredito que todos tivessem uma boa idéia do que aquilo significava, mas ainda assim, era possível ver tipos bem específicos na multidão. A grande maioria eram adolescentes que, mais do que defenderem a causa, não queriam perder a festa ou o momento histórico. Queriam dizer "eu estive lá". Tá bom, eu era um desses... Havia outros, os 'protestantes profissionais', punks e anarquistas que já estiveram em outras situações destas e não perdiam a chance de "subverter o sistema", qualquer que ele fosse. E havia ainda a velha-guarda dos protestantes. Gente que hoje vestia terno e gravata e tinha emprego bem-pago, mas que ao ver uma cena destas, lembrava de seus dias de roupas surradas e rebeldia. Uma destas, uma típica velhinha inglesa, aproximou-se de mim e meus colegas e disse que gostaria muito de ver esta multidão invadindo o parlamento. Se o fizéssemos, ela pedia que esganássemos um político por ela...
A marcha transcorreu tranquilamente, na medida do possível. Claro, com rompantes de vandalismo que os serviços públicos de Londres já esperavam, mas sem violência. Muito bem-humorada até o parlamento, a marcha durou umas duas horas ou mais.
Mas então, quando eu já havia dado o protesto por encerrado e estava deixando o local com Emily e os amigos que eu encontrara na passeata, meu olho pegou um movimento estranho: os anarquistas e punks faziam um ataque surpresa inesperado à sede do partido Liberal Democrata, liderado por Nick Clegg, que havia prometido votar contra qualquer mudança nos subsídios para faculdades e estava lentamente mudando de idéia após seus ministros serem eleitos. Por essa traição, eram candidatos óbvios para o ódio dos alunos, ainda que porta-vozes da polícia tivessem dito que não esperavam que o protesto se tornasse violento. Mas diante do forte esquema de segurança na entrada do prédio, os protestantes desistiram, voltando sua atenção para outra vítima menos protegida: a Millbank Tower, sede do partido Conservador que apoiava a medida.
O prédio dava vontade de vandalisar: vidro de cima a baixo, uma recepção bem desprotegida e uma praça logo em frente. Um grupo de 200 estudantes conseguiu quebrar as janelas da entrada a chutes e invadir a recepção antes que a polícia especial pudesse chegar no local. Em questão de 15 minutos, a festa estava armada: mais de mil alunos se paertavam na pracinha em frente, em volta de duas fogueiras feitas com placas de protesto. A polícia entrava em formação na porta do edifício, mas era tudo só pró-forma: eles estavam em um número infinitamente menor e sem preparo algum para o ataque inesperado, não podendo fazer nada contra a onda de estudantes que achavam maneiras cada vez mais criativas de entrar no prédio de multiplos acessos.
Não demorou muito até vermos os primeiros alunos aparecendo no topo do prédio. Apesar de tentadora, me abstive da brincadeira por imaginar o que aconteceria comigo, um estudante estrangeiro, se eu tivesse problemas com a polícia. E eu sabia que haveria problemas. Soube ao ver os primeiros estudantes e policiais sangrando. E tive certeza ao ver um dos estudantes jogar um extintor de incêndio do alto do prédio nos policiais lá embaixo (e sendo vaiado pela multidão, que clamava "stop throwing shit!"). Temi ao ver os casacos amarelo-fosforescentes dos policiais londrinos formando um cordão de isolamento ao redor da praça, na estratégia que eles chamam de kettling (e falhando miseravelmente por causa da quantidade de gente que eles tentavam conter). Mas no geral, tudo era excitante e divertido o suficiente para que eu não quisesse ir embora. Mais tarde, os jornais britânicos chamariam isso de um dos maiores protestos estudantis da década. E eu estava lá.
Ainda é cedo para saber se o que foi chamado previamente de Demolition 10-11-10 conseguirá fazer com que os cortes na educação sejam abolidos ou não. Ouvi dizer que há outro protesto sendo organizado no dia 24, e que os protestos continuarão em ondas sucessivas até o fim do ano, quando saberemos se a medida será aceita ou recusada.
Pra mim no entanto, uma coisa ficou bem clara: não havia hora melhor para ter aceitado pagar por este mestrado...
Imagens do protesto podem ser vistas no site do Guardian e no meu perfil do Facebook.
A faculdade tinha até dado o aval a seus alunos para faltarem nas aulas do dia sem maiores consequências. Todos nos dirigimos a Trafalgar para fazer parte do protesto contra os cortes de orçamento propostos pelo chamdo Browne Review e que fazem parte de um esquema de cortes ainda maior propostos pelo primeiro ministro David Cameron. Se aprovado, o Browne Review faria os preços de cursos universitários terem um acréscimo de £1000 em todos os cursos (e muito mais do que isso para estudantes estrangeiros), afetando principalmente cursos de comunicação e artes, por não serem considerados "cursos sérios". As consequências desse acréscimo aumentariam ainda mais o elitismo na Inglaterra, já que cada vez menos pessoas de classes inferiores teriam acesso à educação superior. Os partidos a favor da questão alegavam que as universidades geravam um custo que deveria ser pago de alguma forma e não seria barato se o país quisesse ter excelência em educação. Enquanto isso, ativistas contra-argumentavam que as empresas britânicas geravam £8 bilhões e podiam arcar com um pouco menos de isenções fiscais para custear o futuro da nação.
Em Trafalgar, o impacto negativo dessas medidas já podia ser visto pela quantidade de alunos chegando de todos os cantos do país para protestar. Cerca de 50.000 estudantes estavam lá, desde as faculdades locais como a minha, até gente de faculdades do norte da Inglaterra, chegando em ônibus fretado. Todos carregavam placas com dizeres que misturavam humor e ódio. Juntando-se em Trafalgar, marchariam por Whitehall até o parlamento (ao lado do Big Ben), para demonstrar a quantidade de alunos que eram contra os cortes.
Ao som de lemas como o "No ifs, no buts, no education cuts" ou "when they say 'cut back', we say 'fight back'", começamos a marcha. Acredito que todos tivessem uma boa idéia do que aquilo significava, mas ainda assim, era possível ver tipos bem específicos na multidão. A grande maioria eram adolescentes que, mais do que defenderem a causa, não queriam perder a festa ou o momento histórico. Queriam dizer "eu estive lá". Tá bom, eu era um desses... Havia outros, os 'protestantes profissionais', punks e anarquistas que já estiveram em outras situações destas e não perdiam a chance de "subverter o sistema", qualquer que ele fosse. E havia ainda a velha-guarda dos protestantes. Gente que hoje vestia terno e gravata e tinha emprego bem-pago, mas que ao ver uma cena destas, lembrava de seus dias de roupas surradas e rebeldia. Uma destas, uma típica velhinha inglesa, aproximou-se de mim e meus colegas e disse que gostaria muito de ver esta multidão invadindo o parlamento. Se o fizéssemos, ela pedia que esganássemos um político por ela...
A marcha transcorreu tranquilamente, na medida do possível. Claro, com rompantes de vandalismo que os serviços públicos de Londres já esperavam, mas sem violência. Muito bem-humorada até o parlamento, a marcha durou umas duas horas ou mais.
Mas então, quando eu já havia dado o protesto por encerrado e estava deixando o local com Emily e os amigos que eu encontrara na passeata, meu olho pegou um movimento estranho: os anarquistas e punks faziam um ataque surpresa inesperado à sede do partido Liberal Democrata, liderado por Nick Clegg, que havia prometido votar contra qualquer mudança nos subsídios para faculdades e estava lentamente mudando de idéia após seus ministros serem eleitos. Por essa traição, eram candidatos óbvios para o ódio dos alunos, ainda que porta-vozes da polícia tivessem dito que não esperavam que o protesto se tornasse violento. Mas diante do forte esquema de segurança na entrada do prédio, os protestantes desistiram, voltando sua atenção para outra vítima menos protegida: a Millbank Tower, sede do partido Conservador que apoiava a medida.
O prédio dava vontade de vandalisar: vidro de cima a baixo, uma recepção bem desprotegida e uma praça logo em frente. Um grupo de 200 estudantes conseguiu quebrar as janelas da entrada a chutes e invadir a recepção antes que a polícia especial pudesse chegar no local. Em questão de 15 minutos, a festa estava armada: mais de mil alunos se paertavam na pracinha em frente, em volta de duas fogueiras feitas com placas de protesto. A polícia entrava em formação na porta do edifício, mas era tudo só pró-forma: eles estavam em um número infinitamente menor e sem preparo algum para o ataque inesperado, não podendo fazer nada contra a onda de estudantes que achavam maneiras cada vez mais criativas de entrar no prédio de multiplos acessos.
Não demorou muito até vermos os primeiros alunos aparecendo no topo do prédio. Apesar de tentadora, me abstive da brincadeira por imaginar o que aconteceria comigo, um estudante estrangeiro, se eu tivesse problemas com a polícia. E eu sabia que haveria problemas. Soube ao ver os primeiros estudantes e policiais sangrando. E tive certeza ao ver um dos estudantes jogar um extintor de incêndio do alto do prédio nos policiais lá embaixo (e sendo vaiado pela multidão, que clamava "stop throwing shit!"). Temi ao ver os casacos amarelo-fosforescentes dos policiais londrinos formando um cordão de isolamento ao redor da praça, na estratégia que eles chamam de kettling (e falhando miseravelmente por causa da quantidade de gente que eles tentavam conter). Mas no geral, tudo era excitante e divertido o suficiente para que eu não quisesse ir embora. Mais tarde, os jornais britânicos chamariam isso de um dos maiores protestos estudantis da década. E eu estava lá.
Ainda é cedo para saber se o que foi chamado previamente de Demolition 10-11-10 conseguirá fazer com que os cortes na educação sejam abolidos ou não. Ouvi dizer que há outro protesto sendo organizado no dia 24, e que os protestos continuarão em ondas sucessivas até o fim do ano, quando saberemos se a medida será aceita ou recusada.
Pra mim no entanto, uma coisa ficou bem clara: não havia hora melhor para ter aceitado pagar por este mestrado...
Imagens do protesto podem ser vistas no site do Guardian e no meu perfil do Facebook.
terça-feira, novembro 16, 2010
Tutorial 1
Dawn Mellor, minha orientadora, sabia exatamente quem ela era e como ser. Ainda não sei o quanto daquilo era consciente, mas uma parte dela realmente sabia. Ela apareceu coberta de preto, dos pés à cabeça. Não aquele preto estiloso, mas roupas pretas disformes, muita lã e algodão. Ela era um vulto preto: sua forma pouco importava. No entanto, o contraste da pele branca do rosto (a único visível naquelas vestes) criava um ponto de foco no meio do qual havia uma boca pintada com batom vermelho-Ferrari. Uma parte dela sabia: no decorrer daqueles fatais 45 minutos, eu não prestaria atenção em outra coisa que não aquela boca e sua crítica ferina.
Dawn Mellor ouviu pacientemente enquanto eu passei os primeiros vinte minutos explicando o que eu tinha feito até então e para onde eu estava me dirigindo. Mas depois disso, desatou a falar rapida e complicadamente para compensar o tempo. E no começo doeu. Doeu como Dora doera, com uma sinceridade que só poderia vir de uma mulher em posição superior, e confirmando o medo que eu tinha de que ela fosse a versão britânica de minha orientadora brasileira. Ela negou-se a discutir os aspectos ideológicos do trabalho, alegando que, pela posição dela ser diferente da minha, entrar nesse embate seria improdutivo para ambos (de fato...). No mais, descreveu minha pintura como algo que ela já vira antes, nada visceralmente novo (de fato...). Mas depois que eu consegui rapidamente calejar a dor sob disfarçada indiferença, voltei minha atenção ao que ela realmente estava tentando me dizer. E o que ela dizia era que eu estava sendo muito generalista (de fato...). Eu estava vagamente ciente disso, de que eu estava tentando abarcar todas as questões do masculismo, e estava me perdendo no processo. E que definir a arte masculista em seu sentido mais amplo seria totalmente inútil se eu mesmo como artista não me definisse. A questão que ela me pôs era muito simples: qual era a minha posição a respeito de tudo isso? Com o que eu concordava ou discordava? Basicamente, quem era eu? Eu tinha algumas pinturas [1][2] que para ela pareciam ao mesmo tempo muito honestas e abertas, muito pessoais, mas que no fim não assumiam qual era a minha posição em relação às questões que estavam no meu discurso. Como se o discurso fosse uma coisa, as pinturas fossem outras, e no fim nenhum dos dois era exatamente eu. Ainda não sei ao certo se entendi isso tudo ou se tudo isso era mais daquela conversa para manter jovens artistas confusos e sob controle (eu escrevi sobre isso por aqui?).
Vale documentar alguns resultados que eu já estava tendo nesse aspecto. Depois de ler um dos livros da Susan Faludi, eu já não mais respeitava Robert Bly. Seu João de Ferro tinha sido o ponto de partida na minha jornada, mas o ponto no qual ele estava agora já era esotético e psicodélico demais para ser levado a sério. O que significa que eu começava a ter discordâncias com aqueles que eu considerava minha base teórica (e que Dawn Mellor mencionou como unneducated e não-acadêmicos, mas assim também eram as primeiras feministas...). E eu já tinha a noção de que a minha compreensão dos assuntos era colorida pela perspectiva sulamericana, enquanto europeus teriam outros pontos de vista a respeito.
Mas eu também sabia que eu ainda tinha uma longa caminhada para entender a minha posição. Eu tinha agora um mês para resolvê-la. Um mês até o próximo tutorial com ela. E eu estava com ódio diesel suficiente para me matar de estudar e produzir algo que de fato respondesse a sua pergunta.
Dawn Mellor ouviu pacientemente enquanto eu passei os primeiros vinte minutos explicando o que eu tinha feito até então e para onde eu estava me dirigindo. Mas depois disso, desatou a falar rapida e complicadamente para compensar o tempo. E no começo doeu. Doeu como Dora doera, com uma sinceridade que só poderia vir de uma mulher em posição superior, e confirmando o medo que eu tinha de que ela fosse a versão britânica de minha orientadora brasileira. Ela negou-se a discutir os aspectos ideológicos do trabalho, alegando que, pela posição dela ser diferente da minha, entrar nesse embate seria improdutivo para ambos (de fato...). No mais, descreveu minha pintura como algo que ela já vira antes, nada visceralmente novo (de fato...). Mas depois que eu consegui rapidamente calejar a dor sob disfarçada indiferença, voltei minha atenção ao que ela realmente estava tentando me dizer. E o que ela dizia era que eu estava sendo muito generalista (de fato...). Eu estava vagamente ciente disso, de que eu estava tentando abarcar todas as questões do masculismo, e estava me perdendo no processo. E que definir a arte masculista em seu sentido mais amplo seria totalmente inútil se eu mesmo como artista não me definisse. A questão que ela me pôs era muito simples: qual era a minha posição a respeito de tudo isso? Com o que eu concordava ou discordava? Basicamente, quem era eu? Eu tinha algumas pinturas [1][2] que para ela pareciam ao mesmo tempo muito honestas e abertas, muito pessoais, mas que no fim não assumiam qual era a minha posição em relação às questões que estavam no meu discurso. Como se o discurso fosse uma coisa, as pinturas fossem outras, e no fim nenhum dos dois era exatamente eu. Ainda não sei ao certo se entendi isso tudo ou se tudo isso era mais daquela conversa para manter jovens artistas confusos e sob controle (eu escrevi sobre isso por aqui?).
Vale documentar alguns resultados que eu já estava tendo nesse aspecto. Depois de ler um dos livros da Susan Faludi, eu já não mais respeitava Robert Bly. Seu João de Ferro tinha sido o ponto de partida na minha jornada, mas o ponto no qual ele estava agora já era esotético e psicodélico demais para ser levado a sério. O que significa que eu começava a ter discordâncias com aqueles que eu considerava minha base teórica (e que Dawn Mellor mencionou como unneducated e não-acadêmicos, mas assim também eram as primeiras feministas...). E eu já tinha a noção de que a minha compreensão dos assuntos era colorida pela perspectiva sulamericana, enquanto europeus teriam outros pontos de vista a respeito.
Mas eu também sabia que eu ainda tinha uma longa caminhada para entender a minha posição. Eu tinha agora um mês para resolvê-la. Um mês até o próximo tutorial com ela. E eu estava com ódio diesel suficiente para me matar de estudar e produzir algo que de fato respondesse a sua pergunta.
segunda-feira, novembro 15, 2010
Aniversário
Os ingleses me surpreenderam com um aniversário memorável.
Eu estava perfeitamente convencido de que seria um aniversário solitário depois que a minha posição controversa no mestrado teria me tornado um pária artístico. Ainda assim, mandei uma tímida mensagem no Facebook convidando meus colegas para o Grosvenor.
Tratava-se de um pub perto da faculdade, onde passávamos o fim do dia tentando não falar mais de arte (e falhando miseravelmente na tentativa...). Uma das meninas trabalhava por lá, o que melhorava bastante nosso relacionamento com Paul, o gerente. Mas no geral, o pub era simplesmente uma delícia.
Obviamente, convidei meus colegas de apartamento também. Estávamos nos entendendo maravilhosamente bem, embora cada um tivesse gostos variados e eu me sentisse meio idoso perto das baladas psicotrópicas deles. Mas imaginei que, se o aniversário fosse realmente ignorado pelos colegas do mestrado, eles com certeza fariam tudo mais suportável.
E obviamente não seria justo deixar de mencionar minha Lexy, que viera até aqui só para passar o aniversário (e suas merecidas férias) comigo. Trouxera na bagagem um monte de pequenas idéias suas e presentes da família, que me ajudaram a não me sentir esquecido por aqui.
As coisas começaram a parecer mais otimistas na noite da véspera. Um cartãozinho singelo escorregou por debaixo da minha porta. Era Emily desejando-me o meu primeiro feliz aniversário do dia. Passei o dia com minha menina e assistindo a uma palestra na faculdade, onde não senti muita confirmação dos meus colegas a respeito daquela noite no Grosvenor.
Quando chegou a hora de ir para o pub, a turma do apartamento estava naquela bagunça: vários faltando, outros longe de estarem prontos. Começaram a sugerir que eu fosse na frente e que eles me encontrariam por lá (na verdade, mal sabiam onde era "lá"...). Ouvindo a conversa, eu começava a me acostumar com a idéia de que passaria este aniversário bebendo no canto, só eu e a Lexy.
E então meu celular tocou: era Kristian, o norueguês que se tornara representante da turma, perguntando-me onde eu estava, já que havia umas dez pessoas no bar.
No fim das contas, a noite deu muito certo. Uns bons amigos do curso estavam lá, divertindo-se com os chapéus de festa que Lexy trouxera; metade da turma do apartamento apareceu com flores de presente e a noite teve aquele gosto de perfeição. O gerente do pub, vendo toda essa turma na mesa, deu-nos champagne de graça e não me deixou pagar o sanduíche que pedi com a Lexy. Mostrou-se um dos ingleses mais acolhedores que conheci.
Mas uma das surpresas mais tocantes da Europa foram as ausências. Quando voltei do pub, Lu'ay deixara uma garrafa de vinho à minha porta com um bilhete de feliz aniversário desculpando-se pela ausência. No Facebook, alguns colegas do mestrado deixaram notas dando alguma satisfação (coisa que dificilmente aconteceria de parte dos meus conterraneos). Finalmente Emily, apesar do cartão de aniversário, correu à porta ao ouvir-me entrar no dia seguinte, cheia de pedidos de desculpa por não poder estar lá. Mostrava-me um respeito que dificilmente um adulto teria de um adolescente na minha cultura.
Era consideração. Apenas issso e nada mais. E valia muito.
Eu estava perfeitamente convencido de que seria um aniversário solitário depois que a minha posição controversa no mestrado teria me tornado um pária artístico. Ainda assim, mandei uma tímida mensagem no Facebook convidando meus colegas para o Grosvenor.
Tratava-se de um pub perto da faculdade, onde passávamos o fim do dia tentando não falar mais de arte (e falhando miseravelmente na tentativa...). Uma das meninas trabalhava por lá, o que melhorava bastante nosso relacionamento com Paul, o gerente. Mas no geral, o pub era simplesmente uma delícia.
Obviamente, convidei meus colegas de apartamento também. Estávamos nos entendendo maravilhosamente bem, embora cada um tivesse gostos variados e eu me sentisse meio idoso perto das baladas psicotrópicas deles. Mas imaginei que, se o aniversário fosse realmente ignorado pelos colegas do mestrado, eles com certeza fariam tudo mais suportável.
E obviamente não seria justo deixar de mencionar minha Lexy, que viera até aqui só para passar o aniversário (e suas merecidas férias) comigo. Trouxera na bagagem um monte de pequenas idéias suas e presentes da família, que me ajudaram a não me sentir esquecido por aqui.
As coisas começaram a parecer mais otimistas na noite da véspera. Um cartãozinho singelo escorregou por debaixo da minha porta. Era Emily desejando-me o meu primeiro feliz aniversário do dia. Passei o dia com minha menina e assistindo a uma palestra na faculdade, onde não senti muita confirmação dos meus colegas a respeito daquela noite no Grosvenor.
Quando chegou a hora de ir para o pub, a turma do apartamento estava naquela bagunça: vários faltando, outros longe de estarem prontos. Começaram a sugerir que eu fosse na frente e que eles me encontrariam por lá (na verdade, mal sabiam onde era "lá"...). Ouvindo a conversa, eu começava a me acostumar com a idéia de que passaria este aniversário bebendo no canto, só eu e a Lexy.
E então meu celular tocou: era Kristian, o norueguês que se tornara representante da turma, perguntando-me onde eu estava, já que havia umas dez pessoas no bar.
No fim das contas, a noite deu muito certo. Uns bons amigos do curso estavam lá, divertindo-se com os chapéus de festa que Lexy trouxera; metade da turma do apartamento apareceu com flores de presente e a noite teve aquele gosto de perfeição. O gerente do pub, vendo toda essa turma na mesa, deu-nos champagne de graça e não me deixou pagar o sanduíche que pedi com a Lexy. Mostrou-se um dos ingleses mais acolhedores que conheci.
Mas uma das surpresas mais tocantes da Europa foram as ausências. Quando voltei do pub, Lu'ay deixara uma garrafa de vinho à minha porta com um bilhete de feliz aniversário desculpando-se pela ausência. No Facebook, alguns colegas do mestrado deixaram notas dando alguma satisfação (coisa que dificilmente aconteceria de parte dos meus conterraneos). Finalmente Emily, apesar do cartão de aniversário, correu à porta ao ouvir-me entrar no dia seguinte, cheia de pedidos de desculpa por não poder estar lá. Mostrava-me um respeito que dificilmente um adulto teria de um adolescente na minha cultura.
Era consideração. Apenas issso e nada mais. E valia muito.
quinta-feira, novembro 11, 2010
Vampiros, e outras lendas por Zoe, a romena
Zoe não está na turma do mestrado. Ela estudou com alguns dos meus colegas nos cursos passados, mas decidiu adiar o mestrado por um ano e trabalhar. No entanto, vez por outra a vemos no pub de Grosvernor, o favorito da turma.
Quando soube que Zoe era romena, logo me aproximei para perguntar-lhe sobre Drácula. Afinal, o principe que deu origem à lenda era romeno. Zoe sorriu como quem pensa "ai, de novo isso...". No entanto, a conversa fluiu bem quando ela percebeu que eu conhecia mais do que o básico que todo mundo conhece sobre o assunto.
Mesmo com meu interesse sobre o assunto, há certas coisas que eu jamais teria descoberto lendo sobre ele por aí, e que apenas um nativo poderia me dizer. Façamos como Jack: vamos por partes...
Em primeiro lugar, quem se interessa pelo assunto sabe que "Drácula" não era o nome verdadeiro do príncipe Vad Tepes. O termo na verdade quer dizer "filho do dragão". Seu pai, que nesse caso receberia o apelido "Dracul", pertencia a uma ordem húngara de cavaleiros conhecida como a Ordem do Dragão. A primeira coisa realmente interessante que Zoe me contou foi que a idéia de dragão simplesmente não existia para os romenos. Mas a palavra húngara que deu origem a "Dracul" parecia-se mais com a palavra romena para "demônio". Portanto, "filho do dragão" tornou-se, na Romênia da época, o "filho do demônio". Isso, misturado com a já comum religião cristã da época, deu origem à lenda do príncipe demoníaco.
Quando planejei esta viagem para a Europa, logo pensei em pegar uns dias e visitar o castelo do príncipe. O problema começou quando não consegui encontrar a Transilvânia no Google Maps. Zoe me contou que a Transilvânia era uma região inteira que compreendia um terço da Romênia. "E a Wallachia?" perguntei, lembrando de fatos que li sobre onde Drácula realmente viveu. A Wallachia era outra região, que de fato não tinha nada a ver com a Transilvânia. A família tinha propriedades em ambas as partes, aparentemente. A mais famosa é o castelo de bran, entre as duas regiões, e conhecido como o verdadeiro "Castelo de Drácula".
A Romênia na época era uma das poucas vias de acesso do povos do oriente para a Europa. Como tal, recebia a invasão de vários povos bárbaros querendo conquistar terras na Europa, principalmente os turcos, inimigos mortais da família Tepes. Era portanto uma terra violenta, onde muita brutalidade era necessearia para evitar que a nação inteira fosse pisoteada pela horda invasora. Por isso, apesar da brutalidade com a qual o príncipe despachava seus inimigos (que lhe rende o nome de Vlad, o Impalador), ele foi considerado um ótimo governante, por conseguir manter o país durante seu reinado. Muito tempo depois, quando surgiu o interesse em promover essa imagem do soberano violento paraenaltecer a resistência do povo romeno, quiseram achar uma imagem de Vlad para por um rosto ao nome. Acontece que, segundo Zoe, Vlad nunca se deixou ser retratado. A imagem que conhecemos dele é na verdade o rosto de um de seus cortesãos.
Depois dos turcos, houve um movimento contrário na Europa, onde os povos europeus passaram pela Romênia em busca de uma rota para o comércio com o oriente. Essa passagem deixou múltiplas influências no país, que conta com uma cultural bem misturada.
Zoe contou que, apesar da lenda dos vampiros e do Drácula ser em grande parte uma criação externa que foi atribuída à Romênia, o país tinha sim lendas sobre lobisomens. Nada a ver com a lua cheia. Em vez disso, os lobisomens romenos eram pessoas muito frustradas com suas vidas, deprimidas pelo fracasso, que eram atacadas por lobos e assumiam a forma do lobisomem como uma válvula de escape onde pudessem liberar sua frustração de uma forma menos passiva. Achei interessante porque muitos dos filmes que tratam dessa criatura hoje têm como personagem principal algum garoto com frustrações masculistas de inferioridade que consegue superar isso "rendendo-se ao animal interior" e sendo mais violento e decisivo.
Mencionei que quero ir pra lá em algum ponto ao longo do ano. Zoe diz que talvez possa me indicar lugares para ficar.
Quando soube que Zoe era romena, logo me aproximei para perguntar-lhe sobre Drácula. Afinal, o principe que deu origem à lenda era romeno. Zoe sorriu como quem pensa "ai, de novo isso...". No entanto, a conversa fluiu bem quando ela percebeu que eu conhecia mais do que o básico que todo mundo conhece sobre o assunto.
Mesmo com meu interesse sobre o assunto, há certas coisas que eu jamais teria descoberto lendo sobre ele por aí, e que apenas um nativo poderia me dizer. Façamos como Jack: vamos por partes...
Em primeiro lugar, quem se interessa pelo assunto sabe que "Drácula" não era o nome verdadeiro do príncipe Vad Tepes. O termo na verdade quer dizer "filho do dragão". Seu pai, que nesse caso receberia o apelido "Dracul", pertencia a uma ordem húngara de cavaleiros conhecida como a Ordem do Dragão. A primeira coisa realmente interessante que Zoe me contou foi que a idéia de dragão simplesmente não existia para os romenos. Mas a palavra húngara que deu origem a "Dracul" parecia-se mais com a palavra romena para "demônio". Portanto, "filho do dragão" tornou-se, na Romênia da época, o "filho do demônio". Isso, misturado com a já comum religião cristã da época, deu origem à lenda do príncipe demoníaco.
Quando planejei esta viagem para a Europa, logo pensei em pegar uns dias e visitar o castelo do príncipe. O problema começou quando não consegui encontrar a Transilvânia no Google Maps. Zoe me contou que a Transilvânia era uma região inteira que compreendia um terço da Romênia. "E a Wallachia?" perguntei, lembrando de fatos que li sobre onde Drácula realmente viveu. A Wallachia era outra região, que de fato não tinha nada a ver com a Transilvânia. A família tinha propriedades em ambas as partes, aparentemente. A mais famosa é o castelo de bran, entre as duas regiões, e conhecido como o verdadeiro "Castelo de Drácula".
A Romênia na época era uma das poucas vias de acesso do povos do oriente para a Europa. Como tal, recebia a invasão de vários povos bárbaros querendo conquistar terras na Europa, principalmente os turcos, inimigos mortais da família Tepes. Era portanto uma terra violenta, onde muita brutalidade era necessearia para evitar que a nação inteira fosse pisoteada pela horda invasora. Por isso, apesar da brutalidade com a qual o príncipe despachava seus inimigos (que lhe rende o nome de Vlad, o Impalador), ele foi considerado um ótimo governante, por conseguir manter o país durante seu reinado. Muito tempo depois, quando surgiu o interesse em promover essa imagem do soberano violento paraenaltecer a resistência do povo romeno, quiseram achar uma imagem de Vlad para por um rosto ao nome. Acontece que, segundo Zoe, Vlad nunca se deixou ser retratado. A imagem que conhecemos dele é na verdade o rosto de um de seus cortesãos.
Depois dos turcos, houve um movimento contrário na Europa, onde os povos europeus passaram pela Romênia em busca de uma rota para o comércio com o oriente. Essa passagem deixou múltiplas influências no país, que conta com uma cultural bem misturada.
Zoe contou que, apesar da lenda dos vampiros e do Drácula ser em grande parte uma criação externa que foi atribuída à Romênia, o país tinha sim lendas sobre lobisomens. Nada a ver com a lua cheia. Em vez disso, os lobisomens romenos eram pessoas muito frustradas com suas vidas, deprimidas pelo fracasso, que eram atacadas por lobos e assumiam a forma do lobisomem como uma válvula de escape onde pudessem liberar sua frustração de uma forma menos passiva. Achei interessante porque muitos dos filmes que tratam dessa criatura hoje têm como personagem principal algum garoto com frustrações masculistas de inferioridade que consegue superar isso "rendendo-se ao animal interior" e sendo mais violento e decisivo.
Mencionei que quero ir pra lá em algum ponto ao longo do ano. Zoe diz que talvez possa me indicar lugares para ficar.
terça-feira, novembro 09, 2010
O Manifesto
Frustrado hoje com o resultado do mais recente trabalho em grupo.
[blogterapia mode]
O primeiro projeto "de verdade" passado pelos professores do mestrado foi um projeto em grupo. Assim como haviam feito na minha graduação, os professores apenas deram um conceito: "manifesto". O resto deveria partir de nós.
As primeiras discussões foram muito interessantes. Vimos alguns manifestos na biblioteca e nos dividimos em grupos de dez pessoas. Em um curso que recebe pessoas do mundo inteiro, meu grupo era formado por coreanos, irlandeses, alemães, franceses, chineses... e o brasileiro. Éramos artistas plásticos, designers, estudantes de curadoria e teoria de arte. Logo percebemos que chegar a um consenso sobre qualquer coisa entre pessoas de origens e idiomas tão diversos ia ser um problema. À medida que começamos a conversar a respeito, percebi todos tentando serem cordiais com os colegas, tentando chegar a um consenso e opinião comum, fazendo concessões, convencendo sem insistir. E claro, foram duas horas totalmente improdutivas. Ou talvez não totalmente: pessoalmente, eu percebi que todos nós tínhamos medo. De sermos mais exigentes, de termos uma opinião que os outros não gostassem, de sermos... bem, de sermos fascistas. Em algum lugar dos longos exercícios de escrita coletiva que fizemos, escrevi que esta geração tinha medo de tomar uma decisão por ser uma geraão nascida de pessoas que viveram as Grandes Guerras, a Guerra Fria, o Vietnã, Iraque, Kosovo, etc. Filhos de gente que percebeu em primeira mão como ter opinião levava à dissidência, à tomada de partidos e ao conflito. E como tais, tínhamos sido educados (não por nossos pais, mas de certa forma pela sociedade em geral) a não termos opinião, para podermos ser mais abertos às diferenças. Chamei isso de ser all-inclusive, non-conclusive. Essa idéia não valia apenas para a questão das etnias e culturas, mas também para a questão do pós-moderno. Se haviamos chegado a uma era onde tudo era possível na arte, onde se parodiavam paródias em uma espiral infinita e nada era certo ou errado em escala coletiva, então não era mais possível fazer um manifesto. Porque, a rigor, um manifesto defendia determinada idéia ou prática. Dizia sim a certas coisas e não a outras. E dizer não virou uma coisa fascista e não-inclusiva. Uma heresia!
Ainda assim, tínhamos que fazer um manifesto. Talvez exatamente por termos chegado à conclusão de que um manifesto era algo assim tão particular e unilateral, tivemos a idéia de sabotá-lo. Fazer um manifesto coletivo, que tentasse incluir tudo e todos e ainda ser um manifesto (seria isso possível?). Começamos com os exercícios de escrita que mencionei. Dando uma frase para que outra pessoa continuasse com outra e assim por diante. E assim chegamos á idéia de ações coletivas. Alguém mencionou manifestos como atos de protesto e pensamos em uma ação de protesto que pudéssemos fazer juntos. E em seguida veio a sugestão do silêncio coletivo. Achei interessante. E logo a idéia evoluiu para um experimento: nos encontraríamos no dia seguinte, para passar a manhã em silêncio fazendo uma obra juntos.
O experimento começou bem. Consegui sair do apartamento sem falar com ninguém e não falar com ingleses na rua é tão fácil quanto andar por São Paulo e não interagir com ninguém. O isolamento das megalópoles.
Cheguei em Chelsea e encontrei meu grupo na cantina. Todos sentados em volta da mesa, em absoluto mutismo. Acenávamos uns aos outros, apontávamos, gesticulávamos. Alguém passava uma folha de papel para colocarmos informações pessoais triviais (nome, nacionalidade, cor favorita, signo, etc...). Pareceu-me uma forma gostosa de dizer muito sem falar nada.
Quando todos chegaram, entramos no espaço separado para o projeto e espalhamos o material que trouxemos no chão. Ninguém tinha muita noção de como começar. Timidamente, começamos a espalhar jornal no chão e juntar umas coisa nas outras, fazer pequenos experimentos. Mas tudo começava a ter aquele aspecto de "estética de decomposição": resto, lixo, entulho. E não de um jeito bonito. À medida que a frustração e tolice daquilo foi virando uma noção geral, começaram as performances. Alguém com um livro sobre voz (ótima idéia) vocalizava vogais desconexas, experimentando com a própria voz. Outra pessoa andava pelo espaço com uma sacola na cabeça, experimentando o espaço sem ver nada. Uma terceira tentava guiá-la na direção certa sem falar, estalando os dedos e batucando em obstáculos. Demorou muito até que eu, teimoso que sou, parasse de tentar "fazer algo" e experimentasse a perda de controle. Mas então comecei a caminhar pela "instalação" que havíamos feito e a interagir com a cega que andava pelo espaço.
Talvez se tivéssemos realmente levado aquilo adiante durante a manhã inteira, eu teria encontrado um jeito de criar sentido para tudo aquilo. Talvez teria aprendido a "ser" com aquilo tudo. Mas então os outros colegas de outros grupos chegaram. Inibidos, "caíndo em si" e percebendo a tolice daquilo tudo, demos o experimento por terminado.
Na minha banca de graduação, Agnaldo Farias mencionou que havia me compreendido como uma pessoa mais interessada nos resultados finais. De fato, os processos sempre me pareceram interessantes, mas muito pessoais para serem uma obra de arte apresentada a um público que não viveu a experiência.
O que tínhamos de produto final aqui? Mais ou menos uma hora de vídeos e fotos de pessoas com sacolas na cabeça, vocalizando coisas incompreensíveis e fazendo uma bagunça desconexa no chão de um espaço em branco. Tínhamos um manicômio. Esse era o resultado do nosso grande experimento de criação coletiva, all-inclusive, non-conclusive.
Chamem-me de antiquado, fascista, herege. Mas eu nunca tive gosto para este nível de caos. Enquanto os alemães, franceses e irlandeses olhavam uns para os outros e murmuravam como tinha sido legal e interessante, eu olhava para os designers sem entender nada e os asiáticos que ainda não havia passado por essa ocidentalização pós-moderna que adorava o incompreenível. Eu me identificava mais com estes últimos. Eu não sentia que havia nada concreto lá. Tínhamos passado por uma experiência que provava algumas das nossas idéias, mas o resultado final era tão... insosso. Talvez após algum trabalho de artefinalização dos designers, pudéssemos produzir algo palatável daquilo tudo. Eu achava difícil.
O que, de certa forma, fez do experimento um sucesso. De fato, ele tinha incluído todo mundo na prática daquilo, tentando ser o mais igualitário e acolhedor possível, e não tinha dado em nada. Era exatamente o termo que eu tinha pensado.
Além da certeza da impossibilidade de manifestos reais hoje (algo que eu nunca tinha pensado e achei muito interessante), o projeto contribuiu para o meu crescente desconforto e minha noção de que meu jeito de encarar arte (planejar antes de fazer, não fazer e depois decifrar) era obsoleto por aqui. Talvez muito "publicitário" em um meio onde tudo era acompanhado de palavras como "conceitual", "pós-moderno", "experimental". Arte agora não tinha mais muito a ver com estética. E eu não me adaptava ao jeito atual. Sequer conseguia achar o resultado deste projeto "legal e interessante", salvo por uma ou outra sensação fugaz durante a execução.
[/blogterapia mode]
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O primeiro projeto "de verdade" passado pelos professores do mestrado foi um projeto em grupo. Assim como haviam feito na minha graduação, os professores apenas deram um conceito: "manifesto". O resto deveria partir de nós.
As primeiras discussões foram muito interessantes. Vimos alguns manifestos na biblioteca e nos dividimos em grupos de dez pessoas. Em um curso que recebe pessoas do mundo inteiro, meu grupo era formado por coreanos, irlandeses, alemães, franceses, chineses... e o brasileiro. Éramos artistas plásticos, designers, estudantes de curadoria e teoria de arte. Logo percebemos que chegar a um consenso sobre qualquer coisa entre pessoas de origens e idiomas tão diversos ia ser um problema. À medida que começamos a conversar a respeito, percebi todos tentando serem cordiais com os colegas, tentando chegar a um consenso e opinião comum, fazendo concessões, convencendo sem insistir. E claro, foram duas horas totalmente improdutivas. Ou talvez não totalmente: pessoalmente, eu percebi que todos nós tínhamos medo. De sermos mais exigentes, de termos uma opinião que os outros não gostassem, de sermos... bem, de sermos fascistas. Em algum lugar dos longos exercícios de escrita coletiva que fizemos, escrevi que esta geração tinha medo de tomar uma decisão por ser uma geraão nascida de pessoas que viveram as Grandes Guerras, a Guerra Fria, o Vietnã, Iraque, Kosovo, etc. Filhos de gente que percebeu em primeira mão como ter opinião levava à dissidência, à tomada de partidos e ao conflito. E como tais, tínhamos sido educados (não por nossos pais, mas de certa forma pela sociedade em geral) a não termos opinião, para podermos ser mais abertos às diferenças. Chamei isso de ser all-inclusive, non-conclusive. Essa idéia não valia apenas para a questão das etnias e culturas, mas também para a questão do pós-moderno. Se haviamos chegado a uma era onde tudo era possível na arte, onde se parodiavam paródias em uma espiral infinita e nada era certo ou errado em escala coletiva, então não era mais possível fazer um manifesto. Porque, a rigor, um manifesto defendia determinada idéia ou prática. Dizia sim a certas coisas e não a outras. E dizer não virou uma coisa fascista e não-inclusiva. Uma heresia!
Ainda assim, tínhamos que fazer um manifesto. Talvez exatamente por termos chegado à conclusão de que um manifesto era algo assim tão particular e unilateral, tivemos a idéia de sabotá-lo. Fazer um manifesto coletivo, que tentasse incluir tudo e todos e ainda ser um manifesto (seria isso possível?). Começamos com os exercícios de escrita que mencionei. Dando uma frase para que outra pessoa continuasse com outra e assim por diante. E assim chegamos á idéia de ações coletivas. Alguém mencionou manifestos como atos de protesto e pensamos em uma ação de protesto que pudéssemos fazer juntos. E em seguida veio a sugestão do silêncio coletivo. Achei interessante. E logo a idéia evoluiu para um experimento: nos encontraríamos no dia seguinte, para passar a manhã em silêncio fazendo uma obra juntos.
O experimento começou bem. Consegui sair do apartamento sem falar com ninguém e não falar com ingleses na rua é tão fácil quanto andar por São Paulo e não interagir com ninguém. O isolamento das megalópoles.
Cheguei em Chelsea e encontrei meu grupo na cantina. Todos sentados em volta da mesa, em absoluto mutismo. Acenávamos uns aos outros, apontávamos, gesticulávamos. Alguém passava uma folha de papel para colocarmos informações pessoais triviais (nome, nacionalidade, cor favorita, signo, etc...). Pareceu-me uma forma gostosa de dizer muito sem falar nada.
Quando todos chegaram, entramos no espaço separado para o projeto e espalhamos o material que trouxemos no chão. Ninguém tinha muita noção de como começar. Timidamente, começamos a espalhar jornal no chão e juntar umas coisa nas outras, fazer pequenos experimentos. Mas tudo começava a ter aquele aspecto de "estética de decomposição": resto, lixo, entulho. E não de um jeito bonito. À medida que a frustração e tolice daquilo foi virando uma noção geral, começaram as performances. Alguém com um livro sobre voz (ótima idéia) vocalizava vogais desconexas, experimentando com a própria voz. Outra pessoa andava pelo espaço com uma sacola na cabeça, experimentando o espaço sem ver nada. Uma terceira tentava guiá-la na direção certa sem falar, estalando os dedos e batucando em obstáculos. Demorou muito até que eu, teimoso que sou, parasse de tentar "fazer algo" e experimentasse a perda de controle. Mas então comecei a caminhar pela "instalação" que havíamos feito e a interagir com a cega que andava pelo espaço.
Talvez se tivéssemos realmente levado aquilo adiante durante a manhã inteira, eu teria encontrado um jeito de criar sentido para tudo aquilo. Talvez teria aprendido a "ser" com aquilo tudo. Mas então os outros colegas de outros grupos chegaram. Inibidos, "caíndo em si" e percebendo a tolice daquilo tudo, demos o experimento por terminado.
Na minha banca de graduação, Agnaldo Farias mencionou que havia me compreendido como uma pessoa mais interessada nos resultados finais. De fato, os processos sempre me pareceram interessantes, mas muito pessoais para serem uma obra de arte apresentada a um público que não viveu a experiência.
O que tínhamos de produto final aqui? Mais ou menos uma hora de vídeos e fotos de pessoas com sacolas na cabeça, vocalizando coisas incompreensíveis e fazendo uma bagunça desconexa no chão de um espaço em branco. Tínhamos um manicômio. Esse era o resultado do nosso grande experimento de criação coletiva, all-inclusive, non-conclusive.
Chamem-me de antiquado, fascista, herege. Mas eu nunca tive gosto para este nível de caos. Enquanto os alemães, franceses e irlandeses olhavam uns para os outros e murmuravam como tinha sido legal e interessante, eu olhava para os designers sem entender nada e os asiáticos que ainda não havia passado por essa ocidentalização pós-moderna que adorava o incompreenível. Eu me identificava mais com estes últimos. Eu não sentia que havia nada concreto lá. Tínhamos passado por uma experiência que provava algumas das nossas idéias, mas o resultado final era tão... insosso. Talvez após algum trabalho de artefinalização dos designers, pudéssemos produzir algo palatável daquilo tudo. Eu achava difícil.
O que, de certa forma, fez do experimento um sucesso. De fato, ele tinha incluído todo mundo na prática daquilo, tentando ser o mais igualitário e acolhedor possível, e não tinha dado em nada. Era exatamente o termo que eu tinha pensado.
Além da certeza da impossibilidade de manifestos reais hoje (algo que eu nunca tinha pensado e achei muito interessante), o projeto contribuiu para o meu crescente desconforto e minha noção de que meu jeito de encarar arte (planejar antes de fazer, não fazer e depois decifrar) era obsoleto por aqui. Talvez muito "publicitário" em um meio onde tudo era acompanhado de palavras como "conceitual", "pós-moderno", "experimental". Arte agora não tinha mais muito a ver com estética. E eu não me adaptava ao jeito atual. Sequer conseguia achar o resultado deste projeto "legal e interessante", salvo por uma ou outra sensação fugaz durante a execução.
[/blogterapia mode]
domingo, novembro 07, 2010
Fim de Out(ono)ubro
Outubro terminou majestoso. Em sua última semana, as árvores por aqui se vestiram de diversos tons de laranja e vermelho, contrapondo com as evergreens (pinheiros e outras árvores que jamais perdem o verde). Embora seja um processo de vários dias, tive a impressão de que tudo aconteceu muito rápido para ser documentado por um estrangeiro desavisado. As coisas agora estão em um momento tristonho, onde as árvores estão quase peladas mas ainda têm algumas folhas corajosas. Um momento transitório entre outono e inverno, que ainda não tem aquela gala introspectiva da neve, mas já não é mais um carnaval de cores.
Estou na Europa há um mês.
Mais experiente desta vez, demorei menos pra me habituar às coisas por aqui. À rotina, aos preços, ao estranhamente eficiente transporte público inglês. Vim com computador, curso, planos...
E no entanto, voltar à Europa teve seu paralelo com voltar a um antigo relacionamento. Você não lembra porque terminou aquilo da primeira vez, apenas lembra do porque tinha se apaixonado. Mas é só passar o primeiro mês, que você lembra de tudo. Eu tinha deixado a Europa da primeira vez por não suportar a solidão introspectiva. Há um limite disso que eu consigo suportar, mas de certa forma eu também preciso de compania. O inverno vem chegando e meus colegas ingleses todos voltam para suas cidades para passar os feriados com a família. O apartamento está mais vazio, os dias também. Sem festas de universitários, sem balada no fim de semana. Sinto-me só. Desinteressante, inútil e só. Mas faz parte do aprendizado desta experiência o aprender a ser mais sociável, a me enturmar, a curtir mais e melhor a preciosidade dos momentos que me forem dados com meus amigos daqui.
Assim como na segunda chance do relacionamento, é inevitável fazer as comparações e apontar as semelhanças com a primeira vez. Só que, como toda segunda vez, são "semelhanças diferentes". Pra começar, eu vim para cá novamente depois de ter me desiludido com a minha carreira publicitária e saído de um emprego. Mas em vez da demissão, saí voluntariamente, para nunca mais voltar. Outras semelhanças são mais uma questão de composição: recentemente comecei a cruzar o Burgess Park nos fins de semana para ir ao mercado, como eu fazia com Gunnersbury Park. Até os corvos estão lá também. Mas falta o cemitério na outra ponta.
Ontem, mais uma semelhança diferente: limpando o quarto, achei atrás da minha cama várias fotos, um livro e um celular (!) de uma moradora anterior (lembra da senhora Sparrow? [1][2]). Só que desta vez, estas pistas que me foram dadas são muito tênues para eu stalkear esta antiga moradora. Só sei tratar-se de uma estudante japonesa, já que o livro está nesse idioma, e que ela tinha uma amiga ocidental chamada Karen em uma das fotos. Se ao menos eu pudesse carregar a bateria do celular para fazê-lo funcionar...
A semelhança mais recente vai acontecer no meu aniversário: minha Lexy vem passar duas semanas por aqui. Assim como outra ruiva veio me encontrar na primeira viagem. As situações são bem diferentes, e enquanto eu estava em um clima de rechauffe com Tink (não consigo me livrar dos nomes antigos neste blog...), estou muito bem com Lexy.
Estou na Europa há um mês.
Mais experiente desta vez, demorei menos pra me habituar às coisas por aqui. À rotina, aos preços, ao estranhamente eficiente transporte público inglês. Vim com computador, curso, planos...
E no entanto, voltar à Europa teve seu paralelo com voltar a um antigo relacionamento. Você não lembra porque terminou aquilo da primeira vez, apenas lembra do porque tinha se apaixonado. Mas é só passar o primeiro mês, que você lembra de tudo. Eu tinha deixado a Europa da primeira vez por não suportar a solidão introspectiva. Há um limite disso que eu consigo suportar, mas de certa forma eu também preciso de compania. O inverno vem chegando e meus colegas ingleses todos voltam para suas cidades para passar os feriados com a família. O apartamento está mais vazio, os dias também. Sem festas de universitários, sem balada no fim de semana. Sinto-me só. Desinteressante, inútil e só. Mas faz parte do aprendizado desta experiência o aprender a ser mais sociável, a me enturmar, a curtir mais e melhor a preciosidade dos momentos que me forem dados com meus amigos daqui.
Assim como na segunda chance do relacionamento, é inevitável fazer as comparações e apontar as semelhanças com a primeira vez. Só que, como toda segunda vez, são "semelhanças diferentes". Pra começar, eu vim para cá novamente depois de ter me desiludido com a minha carreira publicitária e saído de um emprego. Mas em vez da demissão, saí voluntariamente, para nunca mais voltar. Outras semelhanças são mais uma questão de composição: recentemente comecei a cruzar o Burgess Park nos fins de semana para ir ao mercado, como eu fazia com Gunnersbury Park. Até os corvos estão lá também. Mas falta o cemitério na outra ponta.
Ontem, mais uma semelhança diferente: limpando o quarto, achei atrás da minha cama várias fotos, um livro e um celular (!) de uma moradora anterior (lembra da senhora Sparrow? [1][2]). Só que desta vez, estas pistas que me foram dadas são muito tênues para eu stalkear esta antiga moradora. Só sei tratar-se de uma estudante japonesa, já que o livro está nesse idioma, e que ela tinha uma amiga ocidental chamada Karen em uma das fotos. Se ao menos eu pudesse carregar a bateria do celular para fazê-lo funcionar...
A semelhança mais recente vai acontecer no meu aniversário: minha Lexy vem passar duas semanas por aqui. Assim como outra ruiva veio me encontrar na primeira viagem. As situações são bem diferentes, e enquanto eu estava em um clima de rechauffe com Tink (não consigo me livrar dos nomes antigos neste blog...), estou muito bem com Lexy.
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