segunda-feira, março 24, 2014

Equipe do Mural - Semana 1

Vou tentar resumir a história até o momento, aproveitando que estamos ainda no começo. 

Desde que cheguei para dar aulas no Colégio, uma das coisas que me chamou a atenção foi que a professora de Artes que dava aulas antes de mim tinha conseguido um verdadeiro milagre: havia agora trabalhos de arte dos alunos espalhados por algumas paredes do Colégio. O milagre se dava pelo fato de que o arquiteto responsável pela identidade visual do Colégio era radicalmente contra qualquer desses tipos de "interferências", zelando sempre por paredes ou imaculadamente cinzas de concreto, ou com tijolo aparente, que de fato haviam se tornado a marca registrada da instituição. No meu primeiro ano, eu convivi com um enorme mural no pátio, que era uma mistura de referências da história da arte, da Mona Lisa, ao Abaporu. Só que durante as reformas das férias deste ano, devido à colocação de novos aparelhos de ar condicionado, o mural foi danificado, e alguém ordenou que fosse pintado por cima. Fiquei feliz com a reação dos coordenadores, que acharam aquilo um absurdo e prontamente montaram planos para refazer o mural. Eu me candidatei a chefiar a empreitada, que passaria a dar um objetivo para o meu curso de pintura que saíra do Memorial da America Latina no ano passado por causa de uma enchente e um incêndio (sem relação com a minha presença por lá, diga-se de passagem...) e agora estava sendo ministrado no Colégio mesmo. 

Ao contrário do que eu tinha feito no ano passado, anunciei o curso para pessoas que já tivessem alguma experiência de pintura, para montar uma equipe que não precisasse começar do zero em suas noções de cores, materiais e etc. 

A nossa primeira reunião trouxe uma colcha de retalhos de jovens artistas. Muita gente que desenhava, uns poucos que pintavam. Retratos, paisagens, esqueletos, modelos de moda... Eu sentia que dava pra trabalhar com estes poucos. Mas apesar de perceber que eles tinham conhecimento técnico, tinha medo de que eles não conseguissem se soltar, falar de assuntos mais pessoais, aqueles verdadeiramente interessantes, que fariam o Colégio perceber o mural, levá-lo a sério. Eu não queria que o mural acabasse sendo uma pinturinha comportada para papai e mamãe verem. 

Afinal, o que eu queria com o mural? Eram vários impulsos que me moviam... 
É claro que eu queria que o mural tivesse referências da história da arte. Não dá pra ignorar o passado, as origens, os grandes mestres. Mas fazer só isso seria um desperdício de espaço, esforço e esperteza. 
Um outro professor do Colégio tinha recentemente feito uma turma de fotografia extra-curricular, onde ele conseguira explorar com os alunos as opiniões que eles tinham de adolescência. Eles tinham expressado toda a dor, as ansiedades e as dúvidas dessa idade. Eu queria que o mural fosse mais assim. Que ele não exaltasse o Colégio por obrigação, mas também reconhecesse que tinha muita coisa aqui que fazia a adolescência valer a pena. 
Também queria que ele servisse como um chamado para atacar uma mentalidade vigente no Colégio desde a época em que eu era aluno, e que considerava arte uma futilidade. E quem era interessado por arte um diletante estúpido, ou pior, um CDF. Eu queria que o mural desse status a quem faz arte mesmo. A quem sente, a quem presta atenção nas coisas, a quem põe a mão na massa e entende de estética, design. 

E nesse último quesito, fiquei muito feliz quando algumas outras pessoas apareceram no segundo encontro. Eram alunos do segundo ano, algumas que tinham participado do curso de pintura do ano passado. Muita gente com ares de grafiteiros, de gente descolada, ou daquele jeito que na minha época era chamado de gótico, passou a ser emo e hoje era chamado às vezes de hipster. Eles eram desprezado em alguns círculos por serem diferentões, mas eram a turminha popular de outros círculos. Eu gostava bastante dessa gente porque eles experimentavam a vida. Roupas diferentes, novos jeitos de se comportar, de se querer, e principalmente de fazer. Eles não tinham medo. Se ficasse ruim, jogavam fora e começavam de novo. 

Eu ainda não vou dar nome aos bois (e vacas, sem intenção pejorativa...). Ainda é cedo, e eu suponho que muitos desse grupo ainda vão desistir e outros ainda vão entrar. Mas basta dizer que eu acho que temos uma mistura MUITO saudável de todo tipo de gente que o Colégio tem. Tipo um Breakfast Club do Colégio. São pessoas estranhas, e é isso que eu gosto em todos eles. 

No nosso primeiro encontro de trabalho mesmo, eu mostrei a eles como fazer transferência com thinner e fizemos novas edições de dois dos meus Phallics de Londres. Depois propus a eles para criarmos algum espaço para podermos falar anonimamente sobre tudo. Uma das meninas propôs uma conta de e-mail. Todo mundo tem a senha e pode mandar mensagens aos integrantes do grupo por esse e-mail. Ninguém sabe quem mandou. Acho que vai ser bom para desinibir essa turma. Se pudermos quebrar a barreira da timidez e do medo da reação dos outros, acho que esse grupo vai ter ótimas perspectivas.   

Miopia seletiva

Eu percebi o problema pela primeira vez durante o meu segundo ano de aulas no Colégio, em uma aula sobre proporção humana. Além de ter todo o esquema de proporções do corpo (as 7 cabeças e tal) projetado na frente da sala, tinha feito outros rabiscos e desenhado outro corpo ao lado da projeção. No que, até então, era uma imagem corriqueira das minhas aulas, eu estava passando por entre as mesas, respondendo a chamados de alunos que queriam saber apenas uma coisa: "Psor, tá certo?" Eu ia respondendo com toda sinceridade, sim, não, quase lá, tá errado aqui e ali. Mas em uma turma particularmente barulhenta, me vi sobrecarregado de alunos pedindo minha atenção por essa pergunta tão simples. E aí me bateu: por que é que eles perguntam, se a resposta está diretamente na frente deles? Passei a responder de uma forma até um pouco mais grossa, dizendo "largue o lápis, olhe para a lousa".
"Mas psor, me diz você se está certo!"
"Largue o lápis, olhe para a lousa".
Os alunos demoravam algumas repetições até fazer o que eu estava pedindo. Depois eu perguntava: "está parecido com o seu caderno ali no pescoço da figura?"
"Mas psor...."
"Está parecido com o seu caderno?" eu insistia.
"Não mas..."
"Então não está certo, né?"
O aluno reagia não como se fosse contrariado, mas como se levantar a cabeça e olhar para o que estava sendo colocado diante deles fosse uma tarefa árdua, pensar na informações fosse exaustivo. Ter o rápido sim ou não do professor era muito mais confortável.

Essa aparente miopia dos alunos, que incapacitava por vezes até os que se sentavam à frente de enxergar as respostas dispostas diante dos olhos deles, ganhou ares de seletividade mais adiante, no final daquele ano. Na última aula de um 9º ano, que jamais teria aula comigo de novo, eu me dei por vencido diante de uma classe totalmente descontrolada, que não respondia a pedidos de silêncio nem ao silêncio do professor, mas continuava me rodeando em volta da minha mesa, pedindo orientação sobre o que estudar para a prova. O problema ali era que todos os que me rodeavam estavam essencialmente perguntando a mesma coisa, mas todos queriam uma resposta tête-a-tête, única, para aquele indivíduo.
Vencido, eu abri um Word projetado na lousa e passei a escrever as orientações para a prova. A quem me perguntava, eu respondia lacônico: "na lousa..." e voltava a escrever. A balbúrdia não cessou, mas os alunos passaram a ler, todos juntos, às mensagens que eu projetava, voltando depois à mesa para fazer mais perguntas.
Mas o que mais me chamou a atenção foi quando, entre os alunos lá na frente, eu vi alguns deles tirando seus iPhones para fotografar a tela. Mudei de fonte de letra, e passei a escrever:

[perceberam como ninguém dá a mínima para o que eu falar, mas se eu escrever, todo mundo lê e ainda fotografa? Entendamos assim: contato direto não funciona, vocês precisam ler depois uma foto do que eu ia dizer agora. São três graus de separação: fala - escrita - foto. Quanto mais separado eu estiver de vocês, mas atenção eu terei?]

A ideia parecia familiar. Me lembrava daquela outra cena comum das aulas, quando algum dos alunos perguntava: "Psor, isso tá no site do Colégio?". E a partir do momento em que eu respondia afirmativamente, aquele aluno ia perder qualquer atenção na aula e passar a jogar em seu iPad, crente de que poderia ter o mesmo efeito assistindo à aula ou pegando os arquivos do site. Ninguém mais escrevia nada. Quando muito, fotografavam uma tela projetada lá na frente. A foto, claro, jamais seria vista por eles.

Hoje aconteceu a cena mais recente dessas. Ultrajado porque ninguém lhe disse que os sketchbooks valeriam nota, um aluno do 8º ano me confrontou, dizendo que essa informação não estava no site do Colégio. Aproveitava ainda para confrontar as datas erradas que eu tinha colocado no site sobre a entrega de um exercício fotográfico. Incrédulo, eu só pude questionar se a minha presença lá na frente ainda valia alguma coisa. Eu tinha avisado sobre o valor dos sketchbooks na primeira aula do ano, e anotado no canto da lousa, como de praxe para qualquer lição de casa, a data da entrega do exercício. Mas de nada importava, o site do Colégio ditava as regras. Era ao site que eles respondiam. O site era tudo. Eu, ali na frente, era uma distração barulhenta, incompreensível como os professores do Charlie Brown. Comentei com a classe, que eu conseguira miraculosamente acalmar, que do jeito que as coisas estavam, o Colégio poderia disponibilizar aulas no site, e ninguém precisava estar lá. Alunos pesquisariam em casa, professores só viriam ao Colégio para administrar provas.

E por mais que, no fundo da cabeça de qualquer um, essa possibilidade parecesse tentadora, havia uma falha desumana nesse tipo de raciocínio, e ela tinha absolutamente tudo a ver com a minha matéria. Eu viera a compreender ao final do meu segundo ano de aulas, que o que eu deveria estar ensinando a estes alunos não era a história do surgimento da fotografia, ou que misturando cores primárias nós chegamos às secundárias. Não era a sucessão de movimentos de arte ou o jeito "certo" de fazer um roteiro de filme. Eles precisavam aprender uma coisa ainda mais básica. Uma coisa que eles estavam perdendo com o avanço tecnológico. Uma coisa que eles talvez só fossem perceber muito depois de se formarem da faculdade, quando a vida perdesse o sentido e parecesse fria demais. Eles precisavam aprender a ver.

Eles precisam aprender a ver em vez de apenas enxergar. A ouvir em vez de apenas escutar. Sentir em vez de só tocar (continuo achando o touchscreen a maior ironia desta época...). No âmbito da Lexy, ela diria ainda em saborear em vez de apenas experimentar. Era uma questão de percepção. Estes alunos estavam com a percepção tão embotada, tão atrofiada, tão esquecida, que haviam desenvolvido esse tipo de miopia seletiva, de visão meramente funcional, que só servia para navegar o ambiente sem bater nas mesas. Porque nem para ler servia direito. Para isso, tinha algum professor que lia por eles. As respostas estavam diante deles, assim como aquele desenho de proporção estivera, e eles não conseguiam VER!!

E naquele momento de compreender isso, eu tive raiva. Deles, dos pais deles, dos iPads e iPhones deles, de toda essa situação. De mim, por toda a impotência diante do valor cada vez mais questionável que eu tinha como professor. E a questão não era que eu achasse que seria substituído pela internet e aparelhos de mão. A questão é que estas coisas jamais ensinariam a estes alunos sobre percepção. Elas eram necessárias hoje, faziam parte da realidade deles. Mas valiam à pena se o preço a pagar era o esvaziamento dos sentidos?

Com toda a raiva, eu ao menos havia entendido a importância que os professores tinham, e que parecia cada vez mais indiscutível, na era da informática.

sábado, março 22, 2014

Trashed


Jeremy Irons é um daqueles atores que, assim como James Earl Jones ou Morgan Freeman, são detentores de vozes que valem a pena serem ouvidas. Pode declamar sonetos de amor e mensagens de genocídio com a mesma beleza.

Em Trashed, documentário exibido neste último sábado em uma sessão organizada pelo Colégio, Irons faz uma pesquisa sobre o modo como nós temos "resolvido" o problema do lixo no mundo. Ele parte das consequências dos aterros sanitários nos países pobres, onde eles não são fiscalizados; e nos ricos, onde mesmo os fiscalizados quebram as leis diante da aparente falta de alternativas. Passa então a ver opções como os incineradores e avalia as consequências da dispersão de seus resultados no ambiente ao redor. E termina o panorama pessimista investigando os giros oceanicos, áreas onde as correntes marítimas ficam dando voltas e concentram o lixo jogado pelo mundo todo.

A voz de Jeremy Irons e seu sotaque britânico reforçam a sensação de desespero nos fatos e imagens do documentário. Imagens muitas vezes impossivelmente fortes, inegavelmente chocantes. Mas em nenhum momento gratuitas. Porque a verdade é que, enquanto não formos chocados até o trauma por documentários como este ou como o Uma Verdade Inconveniente de Al Gore, não tomaremos ações significativas para mudar o que vem acontecendo. Eu assisti ao filme e não conseguia tirar da minha cabeça a longa lista de fatos cotidianos, infrações recorrentes que eu cometia, sabendo por alto das consequências que elas sugeriam. Eu continuava tomando água de copos descartáveis, mesmo tendo canecas à disposição no Colégio. Continuava aceitando meus produtos de feira embalados em sacos plásticos. E ainda não tinha feito a lição de casa básica de perguntar e averiguar se o lixo reciclável do meu prédio estava de fato sendo reciclado em vez de ser jogado junto com o resto.

Porém, mais do que tudo, não tirava da minha cabeça uma outra culpa mais inerente e difícil de mudar: a minha culpa como artista. Porque eu estava levando uma vida em prol da criação de experiências estéticas e de ensinar estas experiências aos alunos, mas isso consumia uma quantidade absurda de materiais: papel, tintas feitas de substâncias não-biodegradáveis, telas, solventes, plásticos de todo tipo. E para que? No fim de tudo, qual era o ganho que justificava tudo isso? O documentário me trouxe de volta questões da época de faculdade de Artes: seria possível reciclar esse material? Reciclar uma tela? A tinta seca e inutilizável que restava no final das sessões de pintura? Os tubos de plástico e alumínio das tintas? Pincéis velhos? Seria possível usar tudo isso para fazer mais material de arte?

Por hora, não tenho respostas a isso. Apenas uma vontade enorme de nunca mais comprar outra tela e passar a pintar em papel ou algo reciclado de jornais. Usar as tintas feitas de modo orgânico que eu ensino nas aulas. E varrer a minha casa atrás de todo plástico que possa ser substituído por papel (forros de lixo, sacolas de supermercado, embalagens para guardar alimentos prontos... ).

Trashed mostra exemplos de que reduzir drasticamente esse resultado nocivo é possível. A cidade de São Francisco, conta Irons, tem um programa que reduziu em 75% o lixo gerado na cidade, criando centenas de empregos no processo e economizando milhares de dólares para a cidade. E o passeio pela cidade é guiado por uma mulher, cuja família de três pessoas (e um coelho) conseguiram produzir, no ano passado inteiro, apenas uma sacola plástica cheia de lixo. São exemplos de que, com pesquisa e combatendo a preguiça e os hábitos de uma sociedade de consumo desenfreado e descarte irresponsável, dá sim para termos ambientes bem mais saudáveis e um futuro para nossos filhos.

Vai lá ser traumatizado um pouquinho. Você está precisando e nem sabe disso.