Novamente, avaliações.
Então novamente, volto a escrever aqui para tentar desafogar minha mente lotada.
Eu temi esta avaliação. Tinham anunciado que, depois da avaliação teórica com o professor
Cussans, cada um de nós receberia a visita do professor
Brian Chalkley e do primeiro tutor, para avaliar como a parte prática tinha evoluído desde o começo. Isso significava rever
Dawn Mellor.
Eu tinha sensações confusas a respeito desse reencontro. Porque embora ela fosse responsável pela maior violência sofrida até agora em relação ao meu trabalho, ela era também meu maior desafio. E se eu conseguisse sua aprovação, voltaria a acreditar no trabalho.
Já me convenci de que não tenho como me organizar para esses encontros. Meu discurso era caótico, indo e voltando na cronologia, procurando vídeos no computador, cartões postais na minha mesa, etc. Eu tinha até preparado uma porção de brigadeiros para durante a sessão (querendo tirar deles aquela sensação de espanto ao ver um homem oferecendo doces caseiros feitos por ele), que completamente esqueci de oferecer.
Falei do processo que tinha sido tudo até aqui. De ter botado a pintura de lado em favor de algo menos historicamente machista, de ter descoberto as performances, de ter descoberto através delas o contato direto com o público e a arte como realidade. Contei as tramas paralelas: a publicação semanal dos cartões postais da
Butcher's Daughter até ela fugir em Março, simbolizando a fusão de personas masculina e feminina, o consequente interesse por bandas de rock que faziam essa fusão sem perder a heterossexualidade, a viagem para a Romênia e a releitura de
Drácula como uma história sobre sexualidade.
Como de costume,
Dawn Mellor escutou durante metade do tempo, imóvel e sem reação, repentinamente interrompendo-me para interjeitar. Disse-me que eu estava falando dos aspectos pessoas com muito mais confiança e sabendo claramente da minha trajetória. No entanto ela ainda não conseguia entender aonde eu estava indo com isso. O problema todo era que eu estava sendo muito confuso ao explicar o meu trabalho, e ela era ainda mais confusa ao articular as suas dúvidas. Eu não conseguia entender onde estava o problema. O que ela não estava entendendo? Era uma conversa de surdo e mudo.
No entanto, ela mencionou uma ou outra coisa que fez muito sentido (como sempre).
Ela referiu-se àquele momento da avaliação como sendo em si uma performance. De fato, eu surpreendera-os com a cabeça raspada, um outro jeito de me vestir e me movimentar que era um pouco mais distante do
dandy que incomodara
Dawn (ambas as
Dawns...). E eu estava fazendo isso tudo em parte porque eu sabia as pessoas com as quais eu estava lidando. Embora isso insinuasse que eu estava sendo relativamente falso, na verdade me fez pensar: será que eu não passara a
performar constantemente? Será que eu não estava vestindo um (ou mais) personagem(ens) desde que chegara em Londres?
Mais relevante: será que eu não estivera
performando há mais tempo do que isso?
Ainda mais relevante: o que seria então o "agir como eu mesmo"? O que eu estava escondendo (de mim mesmo)?
Pra dizer a verdade, eu achava que, embora a minha vida adquirisse um certo aspecto performático nos meses recentes, no cuidado maior ao vestir-me e apresentar-me ao mundo fora do quarto, eu também estava sentindo mais liberdade para deixar de lado trejeitos e modos com os quais eu não concordava e assumir de vez outros. Aquele modo de cruzar as pernas contra o qual alguns homens se policiam violentamente, por exemplo.
Talvez eu estivesse deixando de lado a persona que tentava ser "normal" (a minha concepção de normal, pelo menos) e abraçando com mais fervor um verdadeiro eu, que por acaso era mais performático e menos contido como eu me condicionara a ser.
Talvez eu simplesmente estivesse num limbo, sem saber de fato como ou o que ser.
Outro detalhe relevante que
Dawn Mellor mencionou foi o conceito de "vítima" e "vitimizador". Achei um modo gostoso de falar de algo que de fato era a motivalçao principal do meu trabalho. Por causa de traumas de infância e adolescência, eu me sentia vitimizado (ou me vitimizava, há uma diferença), e transformava algumas personagens femininas da minha vida em principais vitimizadoras. E desde então, a vida toda fora uma tentativa de me fortalecer para algum dia deixar de me sentir vítima. Essa dinâmica, eu percebia agora, estava presente em tudo. Obviamente nos quadros de mulheres enormes sendo cobiçadas por garotos impúberes. No momento inicial do mestrado, de tentar justificar e honrar o sexo masculino. Na criação de alter egos femininos extremamente violentos e fisicamente invulneráveis como a
Butcher's Daughter ou Alice. Na busca pela femininização como forma de anular uma masculinidade vulnerável.
O quanto disso era paranóia? Ainda pensarei muito nisso...
Nessa nota, vale mencionar que entendi porque
John Cussans mencionara o artista
Mark Hogencamp na outra avaliação.
Hogencamp tinha sido um soldado, treinado para combate. No entanto, foi surpreendido e atacado um dia, voltando para casa. Os marginais o espancaram e ele passou algum tempo hospitalizado, tendo perdido a memória de sua vida anterior como consequência dos danos cerebrais sofridos. Como forma de "terapia", ele criou
Marwencol, uma miniatura de cidade fictícia da Segunda Guerra Mundial, populando-a com bonecos que representavam a ele, seus amigos e até os marginais que o atacaram. A manipulação dos bonecos para produzir suas fotografias supostamente ajudou o artista a recuperar os movimentos, enquanto que as batalhas imaginadas na cidade o ajudaram a superar o trauma mental. Entendo agora que o professor
Cussans estava me mostrando outra história de superação da vitimização.
Em determinado ponto, depois de eu ter mencionado que estava interessado nas diferenças entre a América e Londres,
Dawn Mellor me perguntou qual era a relevância de fazer um trabalho assim em um lugar que era mais aberto a esse tipo de comportamento andrógino. Respondi que Londres era meu campo de teste. O caráter mais permissivo da cultura daqui, onde ninguém falava nada independente do que você usasse nas ruas, me permitia testar onde estavam os meus próprios limites. Depois eu avaliaria o que levar para a cultura do meu país, e que coragem eu teria para enfrentar parentes, amigos e sociedade com essas escolhas ("enfrentar", novamente a vítima...).
Do outro lado,
Brian apenas balizava a discussão, tentando extrair sentido da confusão de
Dawn e guiando a minha apresentação caótica. Mas encerrou o nosso horário colocando que talvez eu ainda estivesse em um momento no processo onde eu não conseguia ver o "big picture". Uma euforia de produção que eu conhecia bem, onde o mais recente é sempre considerado o melhor trabalho, mas talvez não o seja. Deixou-me imaginando que talvez mais adiante, quando eu tiver passado esta época mais destrutiva e visceral, eu possa olhar para trás e julgar, entre alter egos postais, transferências fálicas, performances debochadas, nudez noturna e calvície andrógina, para entender o que de tudo isso pode ser considerado um "bom trabalho" que vale a pena ser continuado.