segunda-feira, maio 30, 2011

Retorno à Ordem

Já faz algum tempo que meus posts por aqui têm rareado. Desde depois que voltei da Romênia. Aliás, editando os vídeos da viagem, a memória já começa a ganhar aquele tom de incerteza, como seu eu tivesse sonhado que estive por lá. Não acredito. Foi uma imersão na minha fantasia de infância, e o gosto foi muito bom. Mas estou digredindo....

Não tenho escrito muito, porque as semanas desde logo antes da viagem começaram a me dar aqueles sinais de que eu estava mergulhando em outra daquelas épocas de caos visceral que me acontecem de tempos em tempos. Eu cedo aos impulsos mais viscerais e vou cometer loucuras, ou pensar sobre os assuntos que eu censuro nas épocas de ordem. E andei pensando muito mesmo. Sobre os traumas de adolescência e o porquê de eu estar tão obcecado com questões de gênero. Andei cometendo as pequenas loucuras relativas a isso tudo, raspando não só o cabelo e a barba para conversar com um eu mais antigo e mais feminino. Andei me disciplinando a não roer as unhas como sempre faço para vê-las crescer e ponderar a utilidade e a beleza/estranheza de unhas longas em homens. E como sempre, nesse meu reinventar-me que geralmente me faz meio peculiar, fui ficando um pouco mais isolado, um pouco mais anti-social. Ensimesmado. Como um psicopata que sabe que deve esconder o crime que cometeu, mas ainda deleita-se nele. Andei me deleitando com uma androginia malformada, vampírica como o conde do Murnau, confortável e sedutora. Mas que ao mesmo tempo tinha meus colegas perguntando detalhes ou passando reto sem me reconhecer.

Mas quando o caos vem, ele toma conta de tudo. Há alguns dias, acordei e me dei conta da situação. Meu banheiro tinha mais pelos no chão do que eu. O quadro de cortiça onde eu andava organizando idéias do mestrado era uma coleção de começos sem desenvolvimento. O blog tinha vários posts atrasados enquanto eu tentava editar o vídeo de Neba raspando-me a cabeça, para manter a surpresa. Eu já não estava conseguindo coordenar as tarefas domésticas como antes. As unhas causavam mais erros no digitar das traduções (embora fossem fantásticas para descascar laranjas...).
Mas acho que nada disso me incomodava assim tremendamente. O que andava me roendo era o modo como minha produção de arte para o mestrado tinha se tornado tão experimental, mas tão experimental, que dissolvera-se em nada. Tornara-se um viver, uma mudança nos modos de vida. Mas além de mim mesmo, eu não tinha mais nada para mostrar. Nada para inscrever nas exposições, para mostrar aos tutores. O caos, como sempre, trouxera gosto à vida, mas um gosto que era saboreado no presente, sem memórias para virarem passado, e sem planos para o futuro.

Comecei a perceber uma vontade de organizar as minhas coisas, de traçar planos factíveis, metas. Vontade de voltar a pintar para ter um produto apresentável. Vontade de aproveitar o aprendizado dessa época de me reinventar para consolidar algumas coisas e abandonar outros experimentos que não tinham levado a nada. Engraçado, eu nunca tinha documentado meus retornos à ordem. Sempre escrevi por aqui das épocas em que eu cansava da vida regrada e descia essa espiral do caos. Mas nunca tinha marcado os momentos em que eu caía em mim e percebia que o caos não estava mais rendendo. Esses momentos de nada.

domingo, maio 29, 2011

Agradecimento

Nota rápida enquanto tento lidar com as trezentas urgências que estão acontecendo ultimamente.

Entre elas, o catálogo da exposição final da turma. Quando não fui eleito para ser o representante de classe da turma de mestrado, resolvi ainda me envolver com os assuntos gerenciais da turma. Meio como forma de compensar a minha apatia nos anos da graduação. Acabei coordenando a produção do catálogo, já que eu tinha experiência (não muita...) no mercado editorial e de design.
Ultimamente dei o aviso para começar a coletar informações da turma, para que todos me mandassem seus dados iniciais. Tenho recebido muitos e-mails com os dados que vêm com mensagens da turma, agradecendo-me imensamente por estar fazendo isso. Fico feliz, muito feliz, e me sinto importante. Me sinto um pouco menos "estrangeiro ignorante". Mais do que isso, é um aprendizado: preciso aprender a ser mais agradecido com as pessoas que ajudam como eu estou fazendo agora. Um simples "obrigado, o que você está fazendo significa muito para mim" já faz toda a diferença.

terça-feira, maio 24, 2011

Mercado vs Academia

Ontem assisti a uma palestra interessante por aqui.
Uma pesquisadora PhD falou um pouco sobre a carreira de artes, de um modo bem direito e sem rodeios ou romantismos. Deu dicas de como se aproximas dos galeristas e colecionadores, do que inspira segurança nesses possíveis investidores e como começar a carreira depois da formatura (a palestra, aliás, era dirigida aos alunos de graduação, mas alguns de nós mestrandos soubemos e achamos interessante).

Achei muito boa a iniciativa. Eu sinto falta desse tipo de palestra na carreira de artes. E aliás, quando saí da publicidade para tentar levar a sério as artes, pensei em dar esses conselhos por aqui, se eu os descobrisse. Até cheguei a falar de algumas coisas. A palestra de ontem teve vários desses insights, mas eu queria falar de um dos mais relevantes.

Essa pesquisadora mencionou que colecionadores e galeristas gostam de uma certa estabilidade na produção. Até aí, a idéia de que quantidade faz mais carreira do que qualidade não é nada novo. Já comentei sobre ela, e acho relevante principalmente em uma época onde as artes admitem o pastiche, a coisa feita nas coxas e a "apropriação" como estratégias criativas. Mas ela comentou sobre outra estabilidade, a da escolha de mídia. Disse que investidores gostam quando o artista tem uma série coesa de pinturas, por exemplo. Ou que tenha feito fotos desde que saiu da faculdade. Dá uma certa insegurança neles quando o artista faz algumas pinturas, um punhado de performances, uns quantos vídeos e se interessa por instalações [Oi? Falando comigo?]. Faz sentido: investir num artista desses é comprar gato por lebre. Se você, galerista, sabe que seus colecionadores de estimação adoram pintura mas não sabem o que fazer com uma performance, você tem que investir especificamente em pintores. Não nos ditos "artistas multi-mídia".
Daí tem o outro lado, o da academia. Uma instituição de ensino das artes não vai te dar esse fato assim, de mão beijada, porque ela corre o risco de você abandonar qualquer reflexão pessoal e experimentação, que gerariam bom conteúdo acadêmico, para correr atrás dos "ítens da lista" das galerias. Correm o risco de seus alunos acabarem montando uma linha de produção de obras todas iguais (que na verdade, depois de alguma pesquisa e desenvolvimento, é exatamente o que as galerias querem). Não, a academia vai te dizer outra coisa: "experimente, tente o que você nunca fez antes". Foi exatamente o que eu ouvi em Chelsea. E é um bom conselho. Foi um bom conselho. Mas cá entre nós, não desenvolve carreira (exceto, claro, a acadêmica). Lembra-me um pouco o jeito que o Dudi Maia Rosa tinha de evitar o assunto do mercado sempre que eu lhe perguntava sobre a carreira: dizia que isso não é importante, eu que não devia pensar nisso, devia pensar na pintura. Concordo até certo ponto, mas além desse ponto, acho tudo meio romantismos artísticos totalmente não-pragmáticos.

Diante dos fatos, estou em uma encruzilhada. Um caminho é desenvolver uma produção constante do que eu sei fazer (pinturas, muitas, com uma identidade comum entre elas, como a série do TBC), para tentar seduzir galerias e colecionadores. O outro é continuar a experimentação e o desenvolvimento de dissertações sobre um tema, independente da produção artística. Ambos tem seus poréns. Eu até posso desenvovler uma série extensa de pinturas, mas não sei fazer a política necessária para as galerias. Eu também posso continuar pesquisando as questões masculistas e escrevendo a respeito (aliás, a área onde eu tenho me saído melhor por aqui), mas para isso ainda preciso descobrir qual é a minha pergunta, o que eu estou querendo saber com a pesquisa. E eu sinto que eu na verdade não estou "querendo saber" nada, apenas procurando um jeito de me sentir bem sendo homem e lidar com os traumas do passado.

O ideal, suponho, seria descobrir um meio termo saudável. Me ego pensando, daquele jeito frio que eu faço às vezes, em planejar o ano que vem para passar seis meses dando ênfase napesquisa e seis meses dando ênfase na produção. Claro que com instâncias de um no outro. Tudo para mim é equilíbrio. E não é à toa que o símbolo de Yin-Yang tem um ponto de cada cor dentro da outra.
Mas sei que, como consequência, andei pensando em voltar à pintura para ter material pra trazer de volta quando o curso acabar. Ontem, no fim do dia, limpei minha parede do estúdio e preguei alguns tantos papéis.

Desenhei furiosamente até fecharem a faculdade.

segunda-feira, maio 23, 2011

Loosing it

Parece engraçado que eu tenha começado a me deprimir por aqui justo agora que a primavera chegou. Tinham me acautelado sobre os males do inverno londrino no humor de indivíduos solitários, mas confesso que passei o inverno muito bem, rodeado de livros, arte e as minhas pequenas manias. Mas agora que tudo está explodindo em flores e os belos ingleses estão todos cochilando nos amplos gramados dos parques, eu estou começando a sentir o puxar da tristeza e do vazio. As razões são várias, embora eu já tenha aprendido a não tentar explicar sentimentos com razão.

Vamos por âmbitos.
No âmbito profissional, enquanto vejo alguns colegas entrarem em algumas exposições, eu continuo sendo negado. Não consegui até agora nada além de exposições sem curadoria. Eu começo a me convencer da minha mediocridade na carreira das artes, pois embora eu consiga maravilhar ou ao menos entreter amigos e parentes, eu ainda estou fora da esfera profissional. Não importa quantos diplomas de quais universidades eu tenha. Falta-me o tato social, a política, e falta-me até mesmo um quê a mais na minha arte. Devo admitir no entanto que esse golpe de realidade tem seus benefícios: liberado desses delírios de grandeza, eu fico mais à vontade para procurar o retorno financeiro puro e simples. Penso em voltar ao Brasil, porque ao menos lá eu já aprendi, nos dois anos que se passaram desde que abandonei a publicidade, a ganhar dinheiro de verdade, o suficiente para ir além do sustento e me permitir alguns luxos. E a perspectiva de usar o mestrado para tornar-me professor na escola onde estudei me parece, embora não tão excitante, ao menos segura e satisfatória. Estou cansando da minha própria soberba, de acreditar em mim mesmo mas não ver ninguém mais no mercado acreditando.
No âmbito pessoal, além da óbvia falta da minha Lexy, sinto a falta de amigos. Caminho pelos gramados dos parques forrados de ingleses fazendo pic nic no sol e tento absorver um pouco desse sentimento gregário, dessa felicidade primaveril. Mas tudo parece auto-enganação quando eu mesmo estou só. Eu poderia chamar meus colegas de mestrado. Ou um ou outro conhecido de fora da faculdade. Eu sempre aconselhei meus amigos no Brasil a procurarem companhia em vez de esperarem ser procurados. Falta-me fazer isso. Mas mesmo quando estou com essas pessoas aqui, como nas idas ao parque que fizemos nas últimas semanas do mestrado antes desse recesso, sinto-me inadequado, desconfortável. Um estrangeiro sem modos, ignorante e inculto. Sinto que não sei o que se passa ao meu redor durante boa parte do tempo. Será que eu sentia isso também no meu país, com os meus amigos? Acho que um pouco. E se é o caso, vejo-me fadado a uma existência complicada, entre o precisar de companhia para aproveitar melhor a vida, e precisar da solidão quando passo a me sentir inadequado assim. Neste exato momento, eu queria que me convidassem para sair.
Adicionando a esta nota, meus companheiros de apê já aprenderam que existe um abismo entre nós, formado pela diferença de idade, maturidade e cultura. Eu sou o tio estrangeiro com mania de organização e limpeza, que não se droga e pouco bebe. Uma daquelas figuras nerds e anti-sociais, nada interessantes. Eles não têm por que me chamar pra sair. Mais importante, eu não tenho porque aceitar...
No âmbito doméstico, eu vejo a prisão que montei ao meu redor, de rotina e assepsia. Era muito divertido e gratificante no começo da minha estadia aqui ter um quarto totalmente sob meu controle, uma rotina semanal muito eficiente, e uma situação de afazeres simplificada pelo fato de eu estar meio que "começando do zero" aqui em Londres. Mas o tempo passou, aquelas pequenas trivialidades inúteis (papéis, cupons de lojas de arte, notas de jornal sobre lugares a visitar, anotações de livros a procurar) foram empilhando no canto de afazeres da mesa e a faculdade me apresentou uma miríade de coisas que eu gostaria de fazer. Organizar tudo isso de forma coerente tem me estressado e sinto estar perdendo o controle das coisas. Por outro lado, sinto que às vezes estou levando esse controle mais a sério do que a necessidade de viver a vida. Me contendo para manter o controle. Sinto ainda que uma parte de mim está resistindo ao impulso de simplesmente deixar tudo explodir e perder o controle, que seria o conselho natural que eu receberia de metade de vocês leitores, porque eu estou rodeado de pessoas no apê que não têm controle algum. E eu desprezo imensamente as consequências dessa atitude com as quais eu tenho que lidar todos os dias: a comida estragada, a cozinha entulhada de panelas e pratos, os utensilhos faltando, as reclamações do proprietário do apê.

Estejam atentos: a qualquer momento, isso tudo vai explodir em alguma atitude extrema. Mas não se preocupem, eu sei me manter seguro e saudável. Vai ser apenas um pouco mais... estranho.

quarta-feira, maio 18, 2011

Let's do the Time Warp again!

O que primeiro me chamou a atenção para o Rocky Horror Picture Show foi Tim Curry vestido como o Doutor Frank-N-Furter (uma brincadeira entre Frankenstein e o nome das salsichas alemãs). Calçando plataformas brilhantes, meia arrastão e cinta-liga, um corpete não muito justo e luvas. Usando sombra e delineador carregadíssimos e uma boca infernalmente vermelha e brilhante. Cabelos cacheados em profusão. Chamou-me a atenção, porque eu estava mais acostumado com este Tim Curry, mais recheado, barbudo e... bem... velho. Esse fascínio inicial não passou daí, e fiquei mais interessado em saber que ele tabém interpretara o vilão do filme Legend e o palhaço Pennywise em It.

Mas depois de algum tempo, voltei a encontrar o filme pela internet e fiquei fascinado com outras coisas. Inicialmente pelas personagens femininas, como a pequena e graciosa (embora muito provocante) Columbia e a empregada Magenta, surtada, cheia de caras, bocas e muita malícia. Uma procura na vasta coleção das bibliotecas da faculdade me trouxe uma fita VHS, que passei boas horas assistindo (para fins de pesquisa, claro... XD)junto com documentários do filme que virou um fenômeno cult.

Até agora, mais de uma semana depois, não consegui tirar algumas das músicas da cabeça, que ficam passando em loop contíno do momento em que acordo até a hora de deitar. Sinal do impacto que causou em mim.
E acho que boa parte do impacto se deve novamente ao personagem de Tim Curry. Frank-N-Furter é um travesti, coisa que ele anuncia abertamente em um dos melhores números musicais do filme (meu outro favorito, por apresentar as duas moças, é o ótimo Time Warp). Durante a história toda, o personagem parece incitar os protagonistas a cederem aos seus impulsos, coisa que eles evitam em nome das morais e bons costumes (sério que ninguém mais pensou na trama do Drácula!?). Ele seduz tanto o mocinho quanto a mocinha, sem pudores ou distinção. Muito me interessou o caráter libertário e libertador do personagem. Afinal, ele já está aparecendo de cinta-liga e corpete. Sexualidade realmente não é um assunto que o incomoda e ele claramente não vê seus aspectos femininos como coisas a serem escondidas ou abafadas. E no entanto, ele continua sendo repleto de caractereisticas masculinas, sexualmente ativo, dominador, relativamente violento e um dos mais poderosos personagens da trama. Não sei se mencionei por aqui, mas eu tinha lido livros sobre psicologia que postulavam que a identidade masculina era criada em um processo de negação do feminino (ou seja, o masculino é o não-feminino, então o feminino se mantém como a referência absoluta, inteira, concreta, e o masculino deriva dela - ainda preciso postar minha dissertação em algum lugar). Daí a maioria dos homens negarem e suprimirem seus lados femininos. Com o Doutor F, a coisa era diferente.

Infelizmente, a única coisa que encontro na internet relacionada ao filme são montagens de foto e reinterpretações em teatro (e até em um episódio de Glee). Mas nada se compara ao filme original. Aluguem, mesmo que vocês detestem. Vale a pena só pela referência cult.
[Depois vejam o documentário dos Dzi Croquettes, que eu ainda não vi...]

Avaliação com as duas Dawns

Novamente, avaliações.
Então novamente, volto a escrever aqui para tentar desafogar minha mente lotada.

Eu temi esta avaliação. Tinham anunciado que, depois da avaliação teórica com o professor Cussans, cada um de nós receberia a visita do professor Brian Chalkley e do primeiro tutor, para avaliar como a parte prática tinha evoluído desde o começo. Isso significava rever Dawn Mellor.
Eu tinha sensações confusas a respeito desse reencontro. Porque embora ela fosse responsável pela maior violência sofrida até agora em relação ao meu trabalho, ela era também meu maior desafio. E se eu conseguisse sua aprovação, voltaria a acreditar no trabalho.

Já me convenci de que não tenho como me organizar para esses encontros. Meu discurso era caótico, indo e voltando na cronologia, procurando vídeos no computador, cartões postais na minha mesa, etc. Eu tinha até preparado uma porção de brigadeiros para durante a sessão (querendo tirar deles aquela sensação de espanto ao ver um homem oferecendo doces caseiros feitos por ele), que completamente esqueci de oferecer.
Falei do processo que tinha sido tudo até aqui. De ter botado a pintura de lado em favor de algo menos historicamente machista, de ter descoberto as performances, de ter descoberto através delas o contato direto com o público e a arte como realidade. Contei as tramas paralelas: a publicação semanal dos cartões postais da Butcher's Daughter até ela fugir em Março, simbolizando a fusão de personas masculina e feminina, o consequente interesse por bandas de rock que faziam essa fusão sem perder a heterossexualidade, a viagem para a Romênia e a releitura de Drácula como uma história sobre sexualidade.

Como de costume, Dawn Mellor escutou durante metade do tempo, imóvel e sem reação, repentinamente interrompendo-me para interjeitar. Disse-me que eu estava falando dos aspectos pessoas com muito mais confiança e sabendo claramente da minha trajetória. No entanto ela ainda não conseguia entender aonde eu estava indo com isso. O problema todo era que eu estava sendo muito confuso ao explicar o meu trabalho, e ela era ainda mais confusa ao articular as suas dúvidas. Eu não conseguia entender onde estava o problema. O que ela não estava entendendo? Era uma conversa de surdo e mudo.
No entanto, ela mencionou uma ou outra coisa que fez muito sentido (como sempre).
Ela referiu-se àquele momento da avaliação como sendo em si uma performance. De fato, eu surpreendera-os com a cabeça raspada, um outro jeito de me vestir e me movimentar que era um pouco mais distante do dandy que incomodara Dawn (ambas as Dawns...). E eu estava fazendo isso tudo em parte porque eu sabia as pessoas com as quais eu estava lidando. Embora isso insinuasse que eu estava sendo relativamente falso, na verdade me fez pensar: será que eu não passara a performar constantemente? Será que eu não estava vestindo um (ou mais) personagem(ens) desde que chegara em Londres?
Mais relevante: será que eu não estivera performando há mais tempo do que isso?
Ainda mais relevante: o que seria então o "agir como eu mesmo"? O que eu estava escondendo (de mim mesmo)?
Pra dizer a verdade, eu achava que, embora a minha vida adquirisse um certo aspecto performático nos meses recentes, no cuidado maior ao vestir-me e apresentar-me ao mundo fora do quarto, eu também estava sentindo mais liberdade para deixar de lado trejeitos e modos com os quais eu não concordava e assumir de vez outros. Aquele modo de cruzar as pernas contra o qual alguns homens se policiam violentamente, por exemplo.
Talvez eu estivesse deixando de lado a persona que tentava ser "normal" (a minha concepção de normal, pelo menos) e abraçando com mais fervor um verdadeiro eu, que por acaso era mais performático e menos contido como eu me condicionara a ser.
Talvez eu simplesmente estivesse num limbo, sem saber de fato como ou o que ser.

Outro detalhe relevante que Dawn Mellor mencionou foi o conceito de "vítima" e "vitimizador". Achei um modo gostoso de falar de algo que de fato era a motivalçao principal do meu trabalho. Por causa de traumas de infância e adolescência, eu me sentia vitimizado (ou me vitimizava, há uma diferença), e transformava algumas personagens femininas da minha vida em principais vitimizadoras. E desde então, a vida toda fora uma tentativa de me fortalecer para algum dia deixar de me sentir vítima. Essa dinâmica, eu percebia agora, estava presente em tudo. Obviamente nos quadros de mulheres enormes sendo cobiçadas por garotos impúberes. No momento inicial do mestrado, de tentar justificar e honrar o sexo masculino. Na criação de alter egos femininos extremamente violentos e fisicamente invulneráveis como a Butcher's Daughter ou Alice. Na busca pela femininização como forma de anular uma masculinidade vulnerável.
O quanto disso era paranóia? Ainda pensarei muito nisso...
Nessa nota, vale mencionar que entendi porque John Cussans mencionara o artista Mark Hogencamp na outra avaliação. Hogencamp tinha sido um soldado, treinado para combate. No entanto, foi surpreendido e atacado um dia, voltando para casa. Os marginais o espancaram e ele passou algum tempo hospitalizado, tendo perdido a memória de sua vida anterior como consequência dos danos cerebrais sofridos. Como forma de "terapia", ele criou Marwencol, uma miniatura de cidade fictícia da Segunda Guerra Mundial, populando-a com bonecos que representavam a ele, seus amigos e até os marginais que o atacaram. A manipulação dos bonecos para produzir suas fotografias supostamente ajudou o artista a recuperar os movimentos, enquanto que as batalhas imaginadas na cidade o ajudaram a superar o trauma mental. Entendo agora que o professor Cussans estava me mostrando outra história de superação da vitimização.

Em determinado ponto, depois de eu ter mencionado que estava interessado nas diferenças entre a América e Londres, Dawn Mellor me perguntou qual era a relevância de fazer um trabalho assim em um lugar que era mais aberto a esse tipo de comportamento andrógino. Respondi que Londres era meu campo de teste. O caráter mais permissivo da cultura daqui, onde ninguém falava nada independente do que você usasse nas ruas, me permitia testar onde estavam os meus próprios limites. Depois eu avaliaria o que levar para a cultura do meu país, e que coragem eu teria para enfrentar parentes, amigos e sociedade com essas escolhas ("enfrentar", novamente a vítima...).

Do outro lado, Brian apenas balizava a discussão, tentando extrair sentido da confusão de Dawn e guiando a minha apresentação caótica. Mas encerrou o nosso horário colocando que talvez eu ainda estivesse em um momento no processo onde eu não conseguia ver o "big picture". Uma euforia de produção que eu conhecia bem, onde o mais recente é sempre considerado o melhor trabalho, mas talvez não o seja. Deixou-me imaginando que talvez mais adiante, quando eu tiver passado esta época mais destrutiva e visceral, eu possa olhar para trás e julgar, entre alter egos postais, transferências fálicas, performances debochadas, nudez noturna e calvície andrógina, para entender o que de tudo isso pode ser considerado um "bom trabalho" que vale a pena ser continuado.

segunda-feira, maio 16, 2011

Who's gonna shave me?

Lembro de um dia o Dudi Maia Rosa ter perguntado sobre o "design" da minha barba. Eu contei a história de como eu tinha decidido deixar crescer depois de ter visitado Trieste, na Itália, como símbolo da superação que tinha sido aquela viagem. Um símbolo pessoal do ingresso vida adulta. A decisão derivava da experiência de ter visto meu pai e seu bigode que durou quase vinte anos da minha vida, até que ele resolveu raspá-lo quando fez 50, talvez para sentir-se um pouco mais jovem. Eu tinha planos de fazer o mesmo, e simbolicamente “seguir os passos de meu pai”. Além do fator simbólico, havia todo um raciocínio escondido no desenho: as pontas que se projetavam das costeletas imitavam pontas que o meu cabelo fazia nos lados da testa, e que me lembravam uma coisa selvagem, presas de um animal (um leão?). Mas o acabamento cuidadoso suavizaria o caráter selgavem, deixando um equilíbrio entre o visceral e o controlado. Contei ainda que, desde que eu tinha cultivado a barba, as pessoas passaram a lembrar de mim, do meu rosto, que antes era comum demais e facilmente esquecido. Eu passei a ser alguém. Dudi achava tudo aquilo fascinante. Como eu podia dar tanto significado àquilo e como eu tinha me dedicado a elaborar a minha imagem.

Havia no entanto um problema. A barba e bigode eram uma coisa inegavelmente masculina. E para o momento em que minha pesquisa de mestrado estava entrando, de busca de um equilíbrio entre o masculino e feminino, era uma incoerência complicada de justificar, e que tinha até sido apontada por alguns dos meus tutores (Steven Wilson mencionara algo no nosso primeiro tutorial). Então aproveitei para coordenar diversos projetos que eu queria fazer há tempos e que envolveriam a tirada da barba (e de boa parte dos outros pelos do corpo…).

Uma das idéias veio, como meus tutores pediram, da minha convivência como estrangeiro em Londres. Há alguns meses conheci Neba. Uma iraquiana muçulmana que tinha um jeito curioso de se vestir. Pois embora ela estivesse sempre com a cabeça coberta (na maioria das vezes por dois a três lenços), o resto das suas roupas eram truculentas, meio militares, coturnos e jaquetas de couro, calças militares cor de areia e tecidos camuflados. Ela parecia uma daquelas interpretações MUITO absurdas de culturas estrangeiras que às vezes despontam como heróis dos quadrinhos americanos. Nela, vi a mistura interessante do masculino e feminino. Comparando-a a uma outra garota gótica que vi na faculdade, com a cabeça totalmente raspada e vários piercings, comecei a pensar: Neba precisaria cobrir a cabeça se raspasse o cabelo? Porque o motivo de cobrir a cabeça na religião muçulmana é o significado que se dá ao cabelo feminino. Se ela raspasse a cabeça, como várias feministas faziam para interromper o prazer que o olhar masculino supostamente deriva do cabelo feminino, ela estaria abrindo mão de parte de sua identidade feminine, mas estaria livre dos lenços. E então pensei que, se eu raspasse a barba, estaria igualmente abrindo mão de parte da minha identidade masculina, possivelmente chegando mais próximo de um equilíbrio andrógino.

Seria também a chance de testar outra coisa.
Desde que eu chegara aqui, eu tinha feito fotos diárias de determinados lugares para documentar a passagem das quarto estações que eu nunca tinha visto no meu país. Passei a ficar muito interessado por essas fotos de passagem de tempo (uma idéia que já me ocorrera em relação a mulheres grávidas), e comecei a ter vontade de fazer uma séria com o crescimento dos pelos, barba e cabelo.

Por último, tendo voltado da Romênia, eu decidi que um dos meus trabalhos de conclusão do mestrado amarraria todas essas experiências, e seria uma pintura enorme (depois de me aventurar nas performances, eu voltava para a pintura). Um auto-retrato meu como um vampiro. O intuito era me retratar como o aficionado por vampiros pelo qual muitos me conheciam, e ao mesmo tempo discursar sobre o caráter andrógino deles, além de deixar um registro da minha técnica de pintura a essa idade.

Se havia um momento certo para fazer isso, era agora. Lembro de ter escrito a idéia das fotos de tempo em um dos meus cadernos, deixando uma nota de que eu deveria fazer isso em uma época em que eu não estivesse namorando e nem empregado, para não ter implicações sociais muito bruscas. Hoje acho que não teria problema algum com a Lexy ou meus empregadores atuais, mas essa distância da viagem e o momento mais experimental do mestrado ajudaram a me dar aquela sensação de agora ou nunca. Confiança.

Na sexta passada, gravei o video com Neba.
[VIDEO AINDA EM EDIÇÃO. EM BREVE POR AQUI.]
Pretendo fazer outros videos como este, descontraídos porém fortes. De preferência, eles tomarão o lugar dos meus cartões postais semanais da Butcher’s Daughter, que continua desaparecida desde que fugiu dos cartões em Março.

quarta-feira, maio 11, 2011

Avaliação com John Cussans

Depois de ter falado com o professor Cussans sobre a minha monografia do mestrado, fui à biblioteca para escrever o que eu captei do encontro antes que tudo isso evaporasse da minha mente. Antes, deixei uma nota no Facebook: "Que delicioso jogo de prazer e dor está se tornando este mestrado!"
De fato, os tutores, colegas e a faculdade inteira consegue me manter naquele estado maniaco-depressivo, em que eu não acredito em nada do que eu estou fazendo e estou prestes a desistir de tudo em um dia, e no dia seguinte sou convencido de que o que eu estou fazendo está indo muito bem salvo por pequenas alterações. Ou então recebo dicas de uma pessoa para evitar falar de determinado assunto, só para ouvir de outra pessoa que tal assunto é a parte mais significativa de todo o trabalho.

O professor mencionou que faltava no texto a motivação que me levara a entrar em toda a questão masculina. E eu lhe contei que, por causa do limite de 2000 palavras imposto nesta primeira versão, eu tinha cortado uma bela introdução que tinha ares do tipo de coisa que meus pais considerariam pessoal demais para expor (e que eu não me importaria em escrever - afinal, arte é uma questão extremamente pessoal). Naturalmente, quando lhe contei o que tinha escrito, ele disse que eu precisava incluir aquilo no texto, porque era a mais relevante motivação que eu tinha para a pesquisa.
Suponho que eu ainda precise escrever sobre essa questão por aqui. Sinto que lidar com ela tem sido como lidar com fantasmas de um passado antigo (tão antigo quanto a Colômbia), de valentões da escola e assédio. Mas talvez essa ainda seja uma das poucas questões que eu de fato ainda considero pessoal demais para contar em um blog na internet (uma raridade...).

Em seguida entramos em território mais árido. Advertências contra generalizações (que estão se tornando fortuitamente mais raras), referências que eu não pesquisei antes de fazer afirmações categóricas, uma única frase perigosamente ambígua. E um comentário sobre a apresentação simples.
Na verdade, este último refletia a confusão que as instruções dos tutores causaram em toda a turma. Estávamos convictos de que se tratava de um rascunho, tendo ouvido de Brian que não precisávamos nos desesperar com essa avaliação preliminar, então ninguém caprichou na apresentação. A minha era minimalista, apenas o texto, as imagens todas agrupadas em duas páginas separadas no fim, para economizar na impressão colorida. Tudo "encadernado" por uma folha de papel mais grosso A3 dobrada ao meio, com meu logo do leão transferido com acetona na frente. Até mesmo a escolha de cortar a introdução e a conclusão para encaixar apenas o conteúdo dentro das fatídicas 2000 palavras tinha o descaso de um rascunho.
No entanto, estávamos sendo avaliados como se aquilo fosse pra valer. Meu colega americano Jon Morgan foi condendo a reescrever o seu trabalho em uma semana, por não estar dentro dos padrões acadêmicos. Vários outros alunos estavam recebendo críticas violentamente negativas também.
Quando ouvi sobre o que acontecera com Jon e os outros, fiquei com medo do que ouviria do professor. Mais medo talvez do que eu tinha da minha avaliação da semana seguinte com Dawn Mellor de novo. Assim que fiquei muito surpreso quando o professor Cussans me recebeu em um tom muito positivo, me mostrou referências bem relevantes como os trabalhos de Mark Hogencamp e John Jordan, e mostrou mais compreensão em relação à fase atual do meu trabalho do que muita gente me oferecera na Europa até agora.
Havia no entanto uma questão complicada a resolver. De acordo com a nossa conversa, eu estava indo muito bem na pesquisa acadêmica e no meu modo de apresentar a teoria. Mas faltava o centro da questão, a parte mais importante: qual era a minha pergunta, o que eu estava tentando descobrir? A simples questão inicial da minha monografia, "O que é um homem adulto hoje?", não era suficiente para padrões acadêmicos.
Inconscientemente eu sabia qual era a questão. Havia uma vontade que me guiava, de me ver livre das suposições feitas a respeito dos homens. Eu queria encontrar um modo de ser onde eu não sentisse que ser um homem era uma fraqueza atacável. Mas como formular isso em uma pergunta acadêmica? Mais importante, como desenvolver uma metodologia para pesquisar isso?

sexta-feira, maio 06, 2011

Vampire Top 5

Encerrando o meu período de Romênia, achei interessante sugerir os meus cinco filmes favoritos do gênero, que tenho assistido no Youtube e outros meios durante essa aventura toda.

O meu quinto lugar vai para The Hunger de Tony Scott. Na verdade, fui atraído ao filme porque David Bowie interpreta John Blaylock, um vampiro que, ao perceber os primeiros sinais de envelhecimento, se dá conta da traição centenária de sua amante interpretada por Catherine Deneuve, que o transformou em vampiro prometendo que ele viveria para sempre. Gosto do filme mais pelo caráter estético, pelos vampiros contidos, sem caninos afiados, que se valem de medalhões com lâminas escondidas para tirar o sangue das vítimas. A trama dá a entender que a vampira interpretada por Deneuve vive desde o antigo Egito, algo sobre o qual falarei mais adiante. Está presente no filme também uma Susan Sarandon muito jovem, como uma possível candidata a substituta do personagem de Bowie. A consequente relação lésbica entre as duas personagens dota o filme de uma discussão recorrente que muito me interessa, dos vampiros como criaturas que amam além das convenções de gênero.

O quarto lugar fica para o The Addiction do cultuado diretor de terror Abel Ferrara. Em preto e branco, o filme conta a história de uma estudante de filosofia (Lily Taylor) que dá o azar de esbarrar em uma vampira (a bela Anabella Sciorra). O filme apresenta os vampiros não como personagens sexuais (e estereotipicamente promíscuos), mas como viciados por sangue como alguém se viciaria por drogas. De fato, o filme me foi apresentado por Mary na Itália, uma estudante de filosofia que de fato passara anos viciada em heroína. O filme faz bom trabalho de ilustrar a decadência da personagem, o gradual espalhar do vício em seu ciclo de conhecidos, síndromes de abstinência, overdoses e a superação do vício. Tudo regado a alta filosofia. Destaque para uma ótima cena interpretada por Christopher Walken como um vampiro mais antigo, que discorre sobre controlar e apreciar o vício, em vez de deixar que ele o controle. Algo como de fato só tomar drogas socialmente, por diversão, e não porque o corpo precisa.

O terceiro lugar é ocupado pelo Interview with the Vampire de Neil Jordan. O filme é bom, mas a série de livros é ótima. No filme, sinto que a estética dada aos vampiros é o que deveria ser: eles são belos e aparentemente perfeitos, mas sem aquele exagero gótico. A história consegue manter uma boa tensão no ar, e quando a violência finalmente explode, ela vem na medida certa tanto de impacto quanto de efeitos especiais. Mas o maior destaque que eu tenho que dar a esse filme é no fato de que a autora Anne Rice dá o próximo passo na interpretação do vampiro como criatura sexual: a idéia de que eles se relacionam indiscriminadamente com homens e mulheres já estava presente em muitas obras, inclusive em Dracula e Carmilla, as obras seminais do gênero. Mas os vampiros de Rice, além de não fazerem distinção de gênero, borram a distinção de idade (no relacionamento entre Louis e a garota Claudia) e parentesco (entre Lestat e sua mãe Gabrielle, nos livros). Rice consegue assim atualizar a polêmica que sempre rondou essas criaturas.
Os livros também traçam a origem dos vampiros ao Egito, como em The Hunger, reconhecendo naquela uma cultura obcecada com o além-vida e a vida eterna. Eu no início torci o nariz para isso, estando doutrinado a ver o vampiro como uma figura européia, mas hoje reconheço a ligação e o potencial para uma história fabulosa, em uma terra onde o sol é quente e fatal.

Fico na dúvida quanto ao segundo e primeiro lugares da lista.
Um dos candidatos é o suéco Låt den rätte komma in [Deixe ela entrar] de Tomas Alfredson (ainda não disponível na internet). Ele leva em conta vários dos temas que eu mencionei acima (o vampiro como criatura além dos gêneros, além das idades e além das necessidades humanas), mas o faz com incomparável poesia, tanto na beleza das imagens e cenários, quanto na crueza dos detalhes mais macabros. Evita vários dos clichês góticos já obsoletos e cria uma história que ao mesmo tempo me desespera e me seduz. Parte do meu interesse no filme vem de uma sensação de que talvez eu ainda não tenha entendido tudo a respeito dele, o que me seduz a ler o livro original, ver o filme de novo, talvez até passar na Suécia um dia.

O outro candidato, obviamente, é o Bram Stoker's Dracula do Francis Ford Coppola. Neste caso, pelo motivo oposto: por tudo que eu pude compreender a respeito dele.
O filme se apresenta commo uma adaptação do livro, e boa parte dele de fato faz isso. Porém, por ser um filme de Holywood, faz-se necessária a história de amor obrigatória. Então eles inventaram um romance extra-conjugal entre Mina Harker e o Conde que não está no livro original, onde o vampiro é tratado como intrinsecamente mau, vampirizando a mocinha enquanto ela dorme, por noites seguidas, sem que ela perceba. Tudo enquanto seu marido dorme ao seu lado. O que não deixa de ser, de certa forma, uma relação extra-conjugal mais simbólica. Antes disso, Lucy Westerna, passando pela transformação, recebe transfusões sanguíneas (fluídos corporais) de quatro homens saudáveis que tentam salva-la da morte. Outras alusões eróticas escandalosas para a era Vitoriana acontecem no decorrer do livro, mas este parece mais uma procissão de juras de amizade e amor entre os personagens humanos que se juntam para combater o Conde. Ele, por sua vez, aparece em um quinto do livro, tornando-se um personagem que atua nos bastidores, e cuja presença é comentada, mas raramente concretizada.
Mas voltemos ao filme. Coppola faz uma boa mistura de referências a coisas que aconteciam na época, com decoração remetente ao Art Nouveau, cenas (que novamente não aparecem no livro) homenageando os irmãos Lumiere e os primórdios do cinema e um bom gosto incrível para fazer efeitos especiais toscos virarem parte dessa homenagem ao remeterem aos antigos filmes de vampiro (Murnau adoraria a sombra com vida própria...).

Bom, nem eu estou mais aguentando tanta obsessão com vampiros. Mas imagino que isso tudo, especialmente as questões de gênero relacionadas ao assunto, continuem a ser comentadas por aqui nos trabalhos que farei nas próximas semanas.

Vocês que me aguentem...