Começou na sexta passada a exposição do Vik Muniz no MASP.
Vik Muniz começou a ser notícia quando eu estava começando o curso de arte da faculdade. Eu tinha passado da fase imatura de gostar de Dalí e Caravaggio pra procurar referências que não fossem tão óbvias e ele foi um dos meus primeiros ídolos daquela época, antes que eu tomasse conhecimento da existência do Gerhard Richter. Meu interesse por Muniz baseava-se na esperança: em uma época onde eu via tanta arte abstrata, conceitual e que menosprezava as técnicas antigas e a ilustração que eu tanto adorava, ele estava fazendo muito sucesso e enriquecendo rápida e assustadoramente fazendo um tipo de arte que me parecia nadar contra a corrente. Ele ilustrava enquanto todos os professores da faculdade estavam tentando fazer-nos desistir da ilustração pura e simples.
De forma resumida, Muniz não faz nada muito diferente do que nós ou qualquer entusiasta de desenho faz para exercitar sua habilidade. Ele arranja fotos, muitas vezes bem famosas, e apenas as reproduz, sem alterar nada. O que faz seus exercícios valerem muito no mercado é o material que ele usa.
A primeira obra de Vik Muniz que me chamou a atenção foi sua recriação da Medusa do Caravaggio usando macarrão e molho de tomate. Como eu disse, eu estava saindo da fase de idolatrar o Caravaggio. Foi da mesma época a ilustração da foto do Freud feita com calda de chocolate, que lhe rendeu o convite para fazer a capa do CD dos Tribalistas. No caso do retrato de Freud, ainda acho que há uma ligação mais forte entre a imagem e a matéria, com todo aquele negócio de grandes quantidades de chocolate terem o mesmo efeito bioquímico do sexo, tema muito explorado pelo psicanalista austríaco.
Os trabalhos subseqüentes exploraram melhor esse tipo de ligação e procuraram se distanciar das imagens kitsch. Muniz já fez retratos de crianças que trabalhavam em plantações de cana com açúcar e retratos de catadores de lixo com (dããã...) lixo, só pra citar alguns exemplos.
Outros trabalhos foram menos felizes. Ele desenhou nuvens no céu com a ajuda de aviões de publicidade (desses que escrevem com fumaça) e ossos na terra com a ajuda de tratores. Explorava mais a relação entre um signo e o objeto que ele significa (daí a brincadeira de desenhos de nuvens feitos com nuvens). Embora estes trabalhos tivessem mais a ver com as discussões atuais do pós-modernismo, Muniz já havia caído no gosto popular e enriquecido com seus retratos mais simples de serem compreendidos pelo público leigo e rapidamente voltou a fazer coisas naquele âmbito.
Recentemente andei lendo o Postmodernism de Eleanor Heartney que comprei durante o carnaval passado na Argentina. O começo do livro faz uma ligação entre o pós-moderno e uma vertente da semiótica chamada pós-estruturalismo. Se antes considerava-se que a linguagem se referia a uma verdade incontestável que estava "lá fora", no mundo real; essa idéia mudou com o estruturalismo, onde a linguagem era um conjunto de significantes (palavras) que tinham seus significados (conceitos) variados e mutáveis, mas que ainda de certa forma faziam referência a um mundo real. O pós-estruturalismo dispensa o real e fica apenas com a multiplicidade de sentidos possíveis da relação entre as palavras. Ele abre caminho para sentidos completamente surreais, para frases com entre-linhas que dizem o oposto.
Heartney usa este conceito da negação da realidade para falar de uma arte que pertence a uma época onde a compreensão do mundo se dá através de imagens mediadas (TV, mídia impressa, internet) e não pelo contato direto. E que muitas vezes, a ausência desse mundo real não é sequer sentida.
O livro também fala do pós-moderno como uma negação ou reação a alguns aspectos do modernismo (entre eles, a necessidade da abstração), ou mesmo um retorno a um estado anterior a ele.
Por meio desses conceitos dá pra entender como os retratos do Vik Muniz são atuais: brincam com a relação de significantes na escolha do material (Freud - chocolate); negam a abstração a favor de uma técnica bem mais antiga e, pelo menos nos primeiros retratos, usam imagens mediadas como referência em vez do contato direto.
[EDIT]
Não tinha me dado conta na primeira vez que vi, mas tem um comercial da Nextel com o Vik Muniz passando há algum tempo. Bacana. [/EDIT]
A exposição no MASP fica aberta de terça a domingo, das 11h às 18h (quintas até as 20h) e vai até o dia 12 de Julho. O preço é de R$15,00 (terça é de graça!!). Mais informações pelo telefone (011) 3251-5644.
Bits and pieces of my life that everyone ignores when I speak, but someone reads when I write.
segunda-feira, abril 27, 2009
quinta-feira, abril 23, 2009
Papo de Artista
Há algum tempo que estou tentando transformar este blog em alguma coisa especializada em arte. Não é coisa fácil para quem já não tem mais tanto tempo de escrever (ainda por cima com o servidor da agência bloqueando o acesso ao Blogspot). Esses dias encontrei uma inspiração (ou motivo de inveja, sei lá...). É o Papo de Artista, um blog que comenta e dá dicas sobre as principais exposições que estão acontecendo e outras coisas interessantes sobre o mundinho das artes plásticas. Será que se eu me dedicar mais eu chego em um nível parecido? Será que isso espantaria os meus poucos leitores sobreviventes? Veremos...
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