Bits and pieces of my life that everyone ignores when I speak, but someone reads when I write.
sábado, novembro 27, 2010
quinta-feira, novembro 25, 2010
A mudança no sublime
Lembro que comecei a escrever sobre o sublime aqui no blog depois de ter visto o Pianista do Polanski. Eu tinha estudado na faculdade de arte a idéia do sublime como algo que inspira o medo e uma sensação de que somos pequenos demais para lidar com a causa daquele sentimento. O filme exemplificava exatamente isso. Eu me via na pele daquele ser minúsculo e insignificante, tentando se esconder de uma máquina de guerra maior e infinitamente mais poderosa do que ele como indivíduo. O que eu não levei em conta é que o filme de Polanski na verdade estava me mostrando um outro aspecto do sublime: o modo como ele mudou depois do século XX.
Tivemos uma palestra sobre isso hoje, dada pelo professor Cussans.
Na concepção de sublime do século XIX, esse sentimento de terror e impotência era inspirado pelas forças da natureza e, de certa forma, pelo ira divina. Faço um parêntesis aqui para notar que, apesar de não ser responsável pela mudança, o escritor H.P. Lovecraft já tinha sugerido uma mudança no paradigma ao escrever histórias de horrores inefáveis e totalmente sublimes, mas que originavam de outras dimensões. Algo entre o diabólico e o extra-terrestre.
No século XX, o conceito de sublime mudou. Inicialmente pelos horrores da Primeira Guerra, de máquinas cada vez mais eficientes para dizimar números cada vez maiores de pessoas (o gás mostarda, por exemplo). O horror só fez aumentar durante a Segunda Guerra, conforme visto no filme do Polanski, primeiramente porque a eficiente máquina de guerra era lubrificada pela ideologia anti-semita e pela propaganda, fazendo dos judeus vítimas impotentes e dos próprios alemães marionetes inconscientes. Outro filme interessante nesse aspecto foi o Conspiracy de 2001, com o ótimo Keneth Branagh, que mostrava como o genocídio podia ser tratado como questão de engenharia por alemães doutrinados pelo fascismo a desconsiderar os judeus como pessoas. O horror culminou com as desnecessárias bombas de Hiroshima e Nagasaki, em uma exibição de violência gratuita de proporções jamais vistas na história e que inspirou mais terror do que qualquer ato natural. Mas a questão importante era justamente que nada daquilo era um ato natural. O terror inspirado pelo sublime deixara de pertencer ao universo do natural ou sagrado e passara para as mãos do homem.
Será que o homem contemporâneo acreditava ter domado a natureza? Que a destituira de sua possibilidade de ser sublime? Andei pensando nisso. O professor mencionou os desastres naturais acontecidos recentemente no Haiti, já que ele passara algum tempo lá antes da catástrofe acontecer. Mas mesmo nessas situações, eu percebia que a destruição que acontecera não era compreendida como uma catástrofe natural, mas sim como uma catástrofe social: o horror daquilo tudo era que o país fora pobre demais para se defender e ajudar sua população desabrigada. Havia mais ódio dirigido ao sistema capitalista global que fizera do Haiti um país pobre, do que a algum deus ou á natureza que fizera o desastre em si acontecer.
Estamos na era do sublime como constructo humano.
Assim como antigamente as catástrofes naturais faziam o que fizeram no Haiti atualmente, privando pessoas de moradia e subsistência, o sublime conemporâneo também tinha efeitos tardios que continuavam acontecendo muito tempo depois do desastre sublime inicial. Assim como vítimas de enchentes em São Paulo ainda temem a garoa, americanos após o 11 de Setembro ainda temem qualquer subversivo, rotulando-o "terrorista".
Dia desses, vi um grafite por aí com os dizeres: "se estão do nosso lado, são freedom fighters (guerreiros da liberdade); se estão do outro lado, são terroristas".
Tivemos uma palestra sobre isso hoje, dada pelo professor Cussans.
Na concepção de sublime do século XIX, esse sentimento de terror e impotência era inspirado pelas forças da natureza e, de certa forma, pelo ira divina. Faço um parêntesis aqui para notar que, apesar de não ser responsável pela mudança, o escritor H.P. Lovecraft já tinha sugerido uma mudança no paradigma ao escrever histórias de horrores inefáveis e totalmente sublimes, mas que originavam de outras dimensões. Algo entre o diabólico e o extra-terrestre.
No século XX, o conceito de sublime mudou. Inicialmente pelos horrores da Primeira Guerra, de máquinas cada vez mais eficientes para dizimar números cada vez maiores de pessoas (o gás mostarda, por exemplo). O horror só fez aumentar durante a Segunda Guerra, conforme visto no filme do Polanski, primeiramente porque a eficiente máquina de guerra era lubrificada pela ideologia anti-semita e pela propaganda, fazendo dos judeus vítimas impotentes e dos próprios alemães marionetes inconscientes. Outro filme interessante nesse aspecto foi o Conspiracy de 2001, com o ótimo Keneth Branagh, que mostrava como o genocídio podia ser tratado como questão de engenharia por alemães doutrinados pelo fascismo a desconsiderar os judeus como pessoas. O horror culminou com as desnecessárias bombas de Hiroshima e Nagasaki, em uma exibição de violência gratuita de proporções jamais vistas na história e que inspirou mais terror do que qualquer ato natural. Mas a questão importante era justamente que nada daquilo era um ato natural. O terror inspirado pelo sublime deixara de pertencer ao universo do natural ou sagrado e passara para as mãos do homem.
Será que o homem contemporâneo acreditava ter domado a natureza? Que a destituira de sua possibilidade de ser sublime? Andei pensando nisso. O professor mencionou os desastres naturais acontecidos recentemente no Haiti, já que ele passara algum tempo lá antes da catástrofe acontecer. Mas mesmo nessas situações, eu percebia que a destruição que acontecera não era compreendida como uma catástrofe natural, mas sim como uma catástrofe social: o horror daquilo tudo era que o país fora pobre demais para se defender e ajudar sua população desabrigada. Havia mais ódio dirigido ao sistema capitalista global que fizera do Haiti um país pobre, do que a algum deus ou á natureza que fizera o desastre em si acontecer.
Estamos na era do sublime como constructo humano.
Assim como antigamente as catástrofes naturais faziam o que fizeram no Haiti atualmente, privando pessoas de moradia e subsistência, o sublime conemporâneo também tinha efeitos tardios que continuavam acontecendo muito tempo depois do desastre sublime inicial. Assim como vítimas de enchentes em São Paulo ainda temem a garoa, americanos após o 11 de Setembro ainda temem qualquer subversivo, rotulando-o "terrorista".
Dia desses, vi um grafite por aí com os dizeres: "se estão do nosso lado, são freedom fighters (guerreiros da liberdade); se estão do outro lado, são terroristas".
quinta-feira, novembro 18, 2010
Redundâncias históricas
Nota parcialmente relacionada ao post anterior...
Nas palestras do professor Cussans, de tendência proletária, ele apontou uma preocupante repetição histórica.
Em 1981, sob o governo rígido de Margaret Thatcher e seus impostos e cortes orçamentários que mergulharam a Inglaterra em profunda recessão e desemprego (fonte), Londres havia sido tomada por uma onda de protestos por parte da juventude punk e anarquista, vinda da classe operária. No auge da violência, o príncipe Charles anunciou seu casamento com Lady Di. Do dia para a noite, os jornais só falavam disso e a violência, incluíndo seus motivos, passou a ser um sussurro em páginas secundárias.
No presente, sob o governo (timidamente) rígido de David Cameron e seus impostos e cortes orçamentários que provavelmente mergulharão a Inglaterra em outra profunda recessão e desemprego, Londres começa a ser tomada por uma onda de protestos por parte da velha-guarda e nova geração punk e anarquista, incluindo não só a classe operária como também a acadêmica. Quando a violência começa a engrenar, o príncipe William anuncia seu casamento com Kate Middleton. Já vejo os jornais comentando os lucros que serão gerados pelo casamento, o passado da noiva e outras trivialidades grandiloquentes que vendem jornal mais do que a situação política do país...
Nas palestras do professor Cussans, de tendência proletária, ele apontou uma preocupante repetição histórica.
Em 1981, sob o governo rígido de Margaret Thatcher e seus impostos e cortes orçamentários que mergulharam a Inglaterra em profunda recessão e desemprego (fonte), Londres havia sido tomada por uma onda de protestos por parte da juventude punk e anarquista, vinda da classe operária. No auge da violência, o príncipe Charles anunciou seu casamento com Lady Di. Do dia para a noite, os jornais só falavam disso e a violência, incluíndo seus motivos, passou a ser um sussurro em páginas secundárias.
No presente, sob o governo (timidamente) rígido de David Cameron e seus impostos e cortes orçamentários que provavelmente mergulharão a Inglaterra em outra profunda recessão e desemprego, Londres começa a ser tomada por uma onda de protestos por parte da velha-guarda e nova geração punk e anarquista, incluindo não só a classe operária como também a acadêmica. Quando a violência começa a engrenar, o príncipe William anuncia seu casamento com Kate Middleton. Já vejo os jornais comentando os lucros que serão gerados pelo casamento, o passado da noiva e outras trivialidades grandiloquentes que vendem jornal mais do que a situação política do país...
quarta-feira, novembro 17, 2010
No ifs, no buts...
Já faz uma semana que aconteceu.
A faculdade tinha até dado o aval a seus alunos para faltarem nas aulas do dia sem maiores consequências. Todos nos dirigimos a Trafalgar para fazer parte do protesto contra os cortes de orçamento propostos pelo chamdo Browne Review e que fazem parte de um esquema de cortes ainda maior propostos pelo primeiro ministro David Cameron. Se aprovado, o Browne Review faria os preços de cursos universitários terem um acréscimo de £1000 em todos os cursos (e muito mais do que isso para estudantes estrangeiros), afetando principalmente cursos de comunicação e artes, por não serem considerados "cursos sérios". As consequências desse acréscimo aumentariam ainda mais o elitismo na Inglaterra, já que cada vez menos pessoas de classes inferiores teriam acesso à educação superior. Os partidos a favor da questão alegavam que as universidades geravam um custo que deveria ser pago de alguma forma e não seria barato se o país quisesse ter excelência em educação. Enquanto isso, ativistas contra-argumentavam que as empresas britânicas geravam £8 bilhões e podiam arcar com um pouco menos de isenções fiscais para custear o futuro da nação.
Em Trafalgar, o impacto negativo dessas medidas já podia ser visto pela quantidade de alunos chegando de todos os cantos do país para protestar. Cerca de 50.000 estudantes estavam lá, desde as faculdades locais como a minha, até gente de faculdades do norte da Inglaterra, chegando em ônibus fretado. Todos carregavam placas com dizeres que misturavam humor e ódio. Juntando-se em Trafalgar, marchariam por Whitehall até o parlamento (ao lado do Big Ben), para demonstrar a quantidade de alunos que eram contra os cortes.
Ao som de lemas como o "No ifs, no buts, no education cuts" ou "when they say 'cut back', we say 'fight back'", começamos a marcha. Acredito que todos tivessem uma boa idéia do que aquilo significava, mas ainda assim, era possível ver tipos bem específicos na multidão. A grande maioria eram adolescentes que, mais do que defenderem a causa, não queriam perder a festa ou o momento histórico. Queriam dizer "eu estive lá". Tá bom, eu era um desses... Havia outros, os 'protestantes profissionais', punks e anarquistas que já estiveram em outras situações destas e não perdiam a chance de "subverter o sistema", qualquer que ele fosse. E havia ainda a velha-guarda dos protestantes. Gente que hoje vestia terno e gravata e tinha emprego bem-pago, mas que ao ver uma cena destas, lembrava de seus dias de roupas surradas e rebeldia. Uma destas, uma típica velhinha inglesa, aproximou-se de mim e meus colegas e disse que gostaria muito de ver esta multidão invadindo o parlamento. Se o fizéssemos, ela pedia que esganássemos um político por ela...
A marcha transcorreu tranquilamente, na medida do possível. Claro, com rompantes de vandalismo que os serviços públicos de Londres já esperavam, mas sem violência. Muito bem-humorada até o parlamento, a marcha durou umas duas horas ou mais.
Mas então, quando eu já havia dado o protesto por encerrado e estava deixando o local com Emily e os amigos que eu encontrara na passeata, meu olho pegou um movimento estranho: os anarquistas e punks faziam um ataque surpresa inesperado à sede do partido Liberal Democrata, liderado por Nick Clegg, que havia prometido votar contra qualquer mudança nos subsídios para faculdades e estava lentamente mudando de idéia após seus ministros serem eleitos. Por essa traição, eram candidatos óbvios para o ódio dos alunos, ainda que porta-vozes da polícia tivessem dito que não esperavam que o protesto se tornasse violento. Mas diante do forte esquema de segurança na entrada do prédio, os protestantes desistiram, voltando sua atenção para outra vítima menos protegida: a Millbank Tower, sede do partido Conservador que apoiava a medida.
O prédio dava vontade de vandalisar: vidro de cima a baixo, uma recepção bem desprotegida e uma praça logo em frente. Um grupo de 200 estudantes conseguiu quebrar as janelas da entrada a chutes e invadir a recepção antes que a polícia especial pudesse chegar no local. Em questão de 15 minutos, a festa estava armada: mais de mil alunos se paertavam na pracinha em frente, em volta de duas fogueiras feitas com placas de protesto. A polícia entrava em formação na porta do edifício, mas era tudo só pró-forma: eles estavam em um número infinitamente menor e sem preparo algum para o ataque inesperado, não podendo fazer nada contra a onda de estudantes que achavam maneiras cada vez mais criativas de entrar no prédio de multiplos acessos.
Não demorou muito até vermos os primeiros alunos aparecendo no topo do prédio. Apesar de tentadora, me abstive da brincadeira por imaginar o que aconteceria comigo, um estudante estrangeiro, se eu tivesse problemas com a polícia. E eu sabia que haveria problemas. Soube ao ver os primeiros estudantes e policiais sangrando. E tive certeza ao ver um dos estudantes jogar um extintor de incêndio do alto do prédio nos policiais lá embaixo (e sendo vaiado pela multidão, que clamava "stop throwing shit!"). Temi ao ver os casacos amarelo-fosforescentes dos policiais londrinos formando um cordão de isolamento ao redor da praça, na estratégia que eles chamam de kettling (e falhando miseravelmente por causa da quantidade de gente que eles tentavam conter). Mas no geral, tudo era excitante e divertido o suficiente para que eu não quisesse ir embora. Mais tarde, os jornais britânicos chamariam isso de um dos maiores protestos estudantis da década. E eu estava lá.
Ainda é cedo para saber se o que foi chamado previamente de Demolition 10-11-10 conseguirá fazer com que os cortes na educação sejam abolidos ou não. Ouvi dizer que há outro protesto sendo organizado no dia 24, e que os protestos continuarão em ondas sucessivas até o fim do ano, quando saberemos se a medida será aceita ou recusada.
Pra mim no entanto, uma coisa ficou bem clara: não havia hora melhor para ter aceitado pagar por este mestrado...
Imagens do protesto podem ser vistas no site do Guardian e no meu perfil do Facebook.
A faculdade tinha até dado o aval a seus alunos para faltarem nas aulas do dia sem maiores consequências. Todos nos dirigimos a Trafalgar para fazer parte do protesto contra os cortes de orçamento propostos pelo chamdo Browne Review e que fazem parte de um esquema de cortes ainda maior propostos pelo primeiro ministro David Cameron. Se aprovado, o Browne Review faria os preços de cursos universitários terem um acréscimo de £1000 em todos os cursos (e muito mais do que isso para estudantes estrangeiros), afetando principalmente cursos de comunicação e artes, por não serem considerados "cursos sérios". As consequências desse acréscimo aumentariam ainda mais o elitismo na Inglaterra, já que cada vez menos pessoas de classes inferiores teriam acesso à educação superior. Os partidos a favor da questão alegavam que as universidades geravam um custo que deveria ser pago de alguma forma e não seria barato se o país quisesse ter excelência em educação. Enquanto isso, ativistas contra-argumentavam que as empresas britânicas geravam £8 bilhões e podiam arcar com um pouco menos de isenções fiscais para custear o futuro da nação.
Em Trafalgar, o impacto negativo dessas medidas já podia ser visto pela quantidade de alunos chegando de todos os cantos do país para protestar. Cerca de 50.000 estudantes estavam lá, desde as faculdades locais como a minha, até gente de faculdades do norte da Inglaterra, chegando em ônibus fretado. Todos carregavam placas com dizeres que misturavam humor e ódio. Juntando-se em Trafalgar, marchariam por Whitehall até o parlamento (ao lado do Big Ben), para demonstrar a quantidade de alunos que eram contra os cortes.
Ao som de lemas como o "No ifs, no buts, no education cuts" ou "when they say 'cut back', we say 'fight back'", começamos a marcha. Acredito que todos tivessem uma boa idéia do que aquilo significava, mas ainda assim, era possível ver tipos bem específicos na multidão. A grande maioria eram adolescentes que, mais do que defenderem a causa, não queriam perder a festa ou o momento histórico. Queriam dizer "eu estive lá". Tá bom, eu era um desses... Havia outros, os 'protestantes profissionais', punks e anarquistas que já estiveram em outras situações destas e não perdiam a chance de "subverter o sistema", qualquer que ele fosse. E havia ainda a velha-guarda dos protestantes. Gente que hoje vestia terno e gravata e tinha emprego bem-pago, mas que ao ver uma cena destas, lembrava de seus dias de roupas surradas e rebeldia. Uma destas, uma típica velhinha inglesa, aproximou-se de mim e meus colegas e disse que gostaria muito de ver esta multidão invadindo o parlamento. Se o fizéssemos, ela pedia que esganássemos um político por ela...
A marcha transcorreu tranquilamente, na medida do possível. Claro, com rompantes de vandalismo que os serviços públicos de Londres já esperavam, mas sem violência. Muito bem-humorada até o parlamento, a marcha durou umas duas horas ou mais.
Mas então, quando eu já havia dado o protesto por encerrado e estava deixando o local com Emily e os amigos que eu encontrara na passeata, meu olho pegou um movimento estranho: os anarquistas e punks faziam um ataque surpresa inesperado à sede do partido Liberal Democrata, liderado por Nick Clegg, que havia prometido votar contra qualquer mudança nos subsídios para faculdades e estava lentamente mudando de idéia após seus ministros serem eleitos. Por essa traição, eram candidatos óbvios para o ódio dos alunos, ainda que porta-vozes da polícia tivessem dito que não esperavam que o protesto se tornasse violento. Mas diante do forte esquema de segurança na entrada do prédio, os protestantes desistiram, voltando sua atenção para outra vítima menos protegida: a Millbank Tower, sede do partido Conservador que apoiava a medida.
O prédio dava vontade de vandalisar: vidro de cima a baixo, uma recepção bem desprotegida e uma praça logo em frente. Um grupo de 200 estudantes conseguiu quebrar as janelas da entrada a chutes e invadir a recepção antes que a polícia especial pudesse chegar no local. Em questão de 15 minutos, a festa estava armada: mais de mil alunos se paertavam na pracinha em frente, em volta de duas fogueiras feitas com placas de protesto. A polícia entrava em formação na porta do edifício, mas era tudo só pró-forma: eles estavam em um número infinitamente menor e sem preparo algum para o ataque inesperado, não podendo fazer nada contra a onda de estudantes que achavam maneiras cada vez mais criativas de entrar no prédio de multiplos acessos.
Não demorou muito até vermos os primeiros alunos aparecendo no topo do prédio. Apesar de tentadora, me abstive da brincadeira por imaginar o que aconteceria comigo, um estudante estrangeiro, se eu tivesse problemas com a polícia. E eu sabia que haveria problemas. Soube ao ver os primeiros estudantes e policiais sangrando. E tive certeza ao ver um dos estudantes jogar um extintor de incêndio do alto do prédio nos policiais lá embaixo (e sendo vaiado pela multidão, que clamava "stop throwing shit!"). Temi ao ver os casacos amarelo-fosforescentes dos policiais londrinos formando um cordão de isolamento ao redor da praça, na estratégia que eles chamam de kettling (e falhando miseravelmente por causa da quantidade de gente que eles tentavam conter). Mas no geral, tudo era excitante e divertido o suficiente para que eu não quisesse ir embora. Mais tarde, os jornais britânicos chamariam isso de um dos maiores protestos estudantis da década. E eu estava lá.
Ainda é cedo para saber se o que foi chamado previamente de Demolition 10-11-10 conseguirá fazer com que os cortes na educação sejam abolidos ou não. Ouvi dizer que há outro protesto sendo organizado no dia 24, e que os protestos continuarão em ondas sucessivas até o fim do ano, quando saberemos se a medida será aceita ou recusada.
Pra mim no entanto, uma coisa ficou bem clara: não havia hora melhor para ter aceitado pagar por este mestrado...
Imagens do protesto podem ser vistas no site do Guardian e no meu perfil do Facebook.
terça-feira, novembro 16, 2010
Tutorial 1
Dawn Mellor, minha orientadora, sabia exatamente quem ela era e como ser. Ainda não sei o quanto daquilo era consciente, mas uma parte dela realmente sabia. Ela apareceu coberta de preto, dos pés à cabeça. Não aquele preto estiloso, mas roupas pretas disformes, muita lã e algodão. Ela era um vulto preto: sua forma pouco importava. No entanto, o contraste da pele branca do rosto (a único visível naquelas vestes) criava um ponto de foco no meio do qual havia uma boca pintada com batom vermelho-Ferrari. Uma parte dela sabia: no decorrer daqueles fatais 45 minutos, eu não prestaria atenção em outra coisa que não aquela boca e sua crítica ferina.
Dawn Mellor ouviu pacientemente enquanto eu passei os primeiros vinte minutos explicando o que eu tinha feito até então e para onde eu estava me dirigindo. Mas depois disso, desatou a falar rapida e complicadamente para compensar o tempo. E no começo doeu. Doeu como Dora doera, com uma sinceridade que só poderia vir de uma mulher em posição superior, e confirmando o medo que eu tinha de que ela fosse a versão britânica de minha orientadora brasileira. Ela negou-se a discutir os aspectos ideológicos do trabalho, alegando que, pela posição dela ser diferente da minha, entrar nesse embate seria improdutivo para ambos (de fato...). No mais, descreveu minha pintura como algo que ela já vira antes, nada visceralmente novo (de fato...). Mas depois que eu consegui rapidamente calejar a dor sob disfarçada indiferença, voltei minha atenção ao que ela realmente estava tentando me dizer. E o que ela dizia era que eu estava sendo muito generalista (de fato...). Eu estava vagamente ciente disso, de que eu estava tentando abarcar todas as questões do masculismo, e estava me perdendo no processo. E que definir a arte masculista em seu sentido mais amplo seria totalmente inútil se eu mesmo como artista não me definisse. A questão que ela me pôs era muito simples: qual era a minha posição a respeito de tudo isso? Com o que eu concordava ou discordava? Basicamente, quem era eu? Eu tinha algumas pinturas [1][2] que para ela pareciam ao mesmo tempo muito honestas e abertas, muito pessoais, mas que no fim não assumiam qual era a minha posição em relação às questões que estavam no meu discurso. Como se o discurso fosse uma coisa, as pinturas fossem outras, e no fim nenhum dos dois era exatamente eu. Ainda não sei ao certo se entendi isso tudo ou se tudo isso era mais daquela conversa para manter jovens artistas confusos e sob controle (eu escrevi sobre isso por aqui?).
Vale documentar alguns resultados que eu já estava tendo nesse aspecto. Depois de ler um dos livros da Susan Faludi, eu já não mais respeitava Robert Bly. Seu João de Ferro tinha sido o ponto de partida na minha jornada, mas o ponto no qual ele estava agora já era esotético e psicodélico demais para ser levado a sério. O que significa que eu começava a ter discordâncias com aqueles que eu considerava minha base teórica (e que Dawn Mellor mencionou como unneducated e não-acadêmicos, mas assim também eram as primeiras feministas...). E eu já tinha a noção de que a minha compreensão dos assuntos era colorida pela perspectiva sulamericana, enquanto europeus teriam outros pontos de vista a respeito.
Mas eu também sabia que eu ainda tinha uma longa caminhada para entender a minha posição. Eu tinha agora um mês para resolvê-la. Um mês até o próximo tutorial com ela. E eu estava com ódio diesel suficiente para me matar de estudar e produzir algo que de fato respondesse a sua pergunta.
Dawn Mellor ouviu pacientemente enquanto eu passei os primeiros vinte minutos explicando o que eu tinha feito até então e para onde eu estava me dirigindo. Mas depois disso, desatou a falar rapida e complicadamente para compensar o tempo. E no começo doeu. Doeu como Dora doera, com uma sinceridade que só poderia vir de uma mulher em posição superior, e confirmando o medo que eu tinha de que ela fosse a versão britânica de minha orientadora brasileira. Ela negou-se a discutir os aspectos ideológicos do trabalho, alegando que, pela posição dela ser diferente da minha, entrar nesse embate seria improdutivo para ambos (de fato...). No mais, descreveu minha pintura como algo que ela já vira antes, nada visceralmente novo (de fato...). Mas depois que eu consegui rapidamente calejar a dor sob disfarçada indiferença, voltei minha atenção ao que ela realmente estava tentando me dizer. E o que ela dizia era que eu estava sendo muito generalista (de fato...). Eu estava vagamente ciente disso, de que eu estava tentando abarcar todas as questões do masculismo, e estava me perdendo no processo. E que definir a arte masculista em seu sentido mais amplo seria totalmente inútil se eu mesmo como artista não me definisse. A questão que ela me pôs era muito simples: qual era a minha posição a respeito de tudo isso? Com o que eu concordava ou discordava? Basicamente, quem era eu? Eu tinha algumas pinturas [1][2] que para ela pareciam ao mesmo tempo muito honestas e abertas, muito pessoais, mas que no fim não assumiam qual era a minha posição em relação às questões que estavam no meu discurso. Como se o discurso fosse uma coisa, as pinturas fossem outras, e no fim nenhum dos dois era exatamente eu. Ainda não sei ao certo se entendi isso tudo ou se tudo isso era mais daquela conversa para manter jovens artistas confusos e sob controle (eu escrevi sobre isso por aqui?).
Vale documentar alguns resultados que eu já estava tendo nesse aspecto. Depois de ler um dos livros da Susan Faludi, eu já não mais respeitava Robert Bly. Seu João de Ferro tinha sido o ponto de partida na minha jornada, mas o ponto no qual ele estava agora já era esotético e psicodélico demais para ser levado a sério. O que significa que eu começava a ter discordâncias com aqueles que eu considerava minha base teórica (e que Dawn Mellor mencionou como unneducated e não-acadêmicos, mas assim também eram as primeiras feministas...). E eu já tinha a noção de que a minha compreensão dos assuntos era colorida pela perspectiva sulamericana, enquanto europeus teriam outros pontos de vista a respeito.
Mas eu também sabia que eu ainda tinha uma longa caminhada para entender a minha posição. Eu tinha agora um mês para resolvê-la. Um mês até o próximo tutorial com ela. E eu estava com ódio diesel suficiente para me matar de estudar e produzir algo que de fato respondesse a sua pergunta.
segunda-feira, novembro 15, 2010
Aniversário
Os ingleses me surpreenderam com um aniversário memorável.
Eu estava perfeitamente convencido de que seria um aniversário solitário depois que a minha posição controversa no mestrado teria me tornado um pária artístico. Ainda assim, mandei uma tímida mensagem no Facebook convidando meus colegas para o Grosvenor.
Tratava-se de um pub perto da faculdade, onde passávamos o fim do dia tentando não falar mais de arte (e falhando miseravelmente na tentativa...). Uma das meninas trabalhava por lá, o que melhorava bastante nosso relacionamento com Paul, o gerente. Mas no geral, o pub era simplesmente uma delícia.
Obviamente, convidei meus colegas de apartamento também. Estávamos nos entendendo maravilhosamente bem, embora cada um tivesse gostos variados e eu me sentisse meio idoso perto das baladas psicotrópicas deles. Mas imaginei que, se o aniversário fosse realmente ignorado pelos colegas do mestrado, eles com certeza fariam tudo mais suportável.
E obviamente não seria justo deixar de mencionar minha Lexy, que viera até aqui só para passar o aniversário (e suas merecidas férias) comigo. Trouxera na bagagem um monte de pequenas idéias suas e presentes da família, que me ajudaram a não me sentir esquecido por aqui.
As coisas começaram a parecer mais otimistas na noite da véspera. Um cartãozinho singelo escorregou por debaixo da minha porta. Era Emily desejando-me o meu primeiro feliz aniversário do dia. Passei o dia com minha menina e assistindo a uma palestra na faculdade, onde não senti muita confirmação dos meus colegas a respeito daquela noite no Grosvenor.
Quando chegou a hora de ir para o pub, a turma do apartamento estava naquela bagunça: vários faltando, outros longe de estarem prontos. Começaram a sugerir que eu fosse na frente e que eles me encontrariam por lá (na verdade, mal sabiam onde era "lá"...). Ouvindo a conversa, eu começava a me acostumar com a idéia de que passaria este aniversário bebendo no canto, só eu e a Lexy.
E então meu celular tocou: era Kristian, o norueguês que se tornara representante da turma, perguntando-me onde eu estava, já que havia umas dez pessoas no bar.
No fim das contas, a noite deu muito certo. Uns bons amigos do curso estavam lá, divertindo-se com os chapéus de festa que Lexy trouxera; metade da turma do apartamento apareceu com flores de presente e a noite teve aquele gosto de perfeição. O gerente do pub, vendo toda essa turma na mesa, deu-nos champagne de graça e não me deixou pagar o sanduíche que pedi com a Lexy. Mostrou-se um dos ingleses mais acolhedores que conheci.
Mas uma das surpresas mais tocantes da Europa foram as ausências. Quando voltei do pub, Lu'ay deixara uma garrafa de vinho à minha porta com um bilhete de feliz aniversário desculpando-se pela ausência. No Facebook, alguns colegas do mestrado deixaram notas dando alguma satisfação (coisa que dificilmente aconteceria de parte dos meus conterraneos). Finalmente Emily, apesar do cartão de aniversário, correu à porta ao ouvir-me entrar no dia seguinte, cheia de pedidos de desculpa por não poder estar lá. Mostrava-me um respeito que dificilmente um adulto teria de um adolescente na minha cultura.
Era consideração. Apenas issso e nada mais. E valia muito.
Eu estava perfeitamente convencido de que seria um aniversário solitário depois que a minha posição controversa no mestrado teria me tornado um pária artístico. Ainda assim, mandei uma tímida mensagem no Facebook convidando meus colegas para o Grosvenor.
Tratava-se de um pub perto da faculdade, onde passávamos o fim do dia tentando não falar mais de arte (e falhando miseravelmente na tentativa...). Uma das meninas trabalhava por lá, o que melhorava bastante nosso relacionamento com Paul, o gerente. Mas no geral, o pub era simplesmente uma delícia.
Obviamente, convidei meus colegas de apartamento também. Estávamos nos entendendo maravilhosamente bem, embora cada um tivesse gostos variados e eu me sentisse meio idoso perto das baladas psicotrópicas deles. Mas imaginei que, se o aniversário fosse realmente ignorado pelos colegas do mestrado, eles com certeza fariam tudo mais suportável.
E obviamente não seria justo deixar de mencionar minha Lexy, que viera até aqui só para passar o aniversário (e suas merecidas férias) comigo. Trouxera na bagagem um monte de pequenas idéias suas e presentes da família, que me ajudaram a não me sentir esquecido por aqui.
As coisas começaram a parecer mais otimistas na noite da véspera. Um cartãozinho singelo escorregou por debaixo da minha porta. Era Emily desejando-me o meu primeiro feliz aniversário do dia. Passei o dia com minha menina e assistindo a uma palestra na faculdade, onde não senti muita confirmação dos meus colegas a respeito daquela noite no Grosvenor.
Quando chegou a hora de ir para o pub, a turma do apartamento estava naquela bagunça: vários faltando, outros longe de estarem prontos. Começaram a sugerir que eu fosse na frente e que eles me encontrariam por lá (na verdade, mal sabiam onde era "lá"...). Ouvindo a conversa, eu começava a me acostumar com a idéia de que passaria este aniversário bebendo no canto, só eu e a Lexy.
E então meu celular tocou: era Kristian, o norueguês que se tornara representante da turma, perguntando-me onde eu estava, já que havia umas dez pessoas no bar.
No fim das contas, a noite deu muito certo. Uns bons amigos do curso estavam lá, divertindo-se com os chapéus de festa que Lexy trouxera; metade da turma do apartamento apareceu com flores de presente e a noite teve aquele gosto de perfeição. O gerente do pub, vendo toda essa turma na mesa, deu-nos champagne de graça e não me deixou pagar o sanduíche que pedi com a Lexy. Mostrou-se um dos ingleses mais acolhedores que conheci.
Mas uma das surpresas mais tocantes da Europa foram as ausências. Quando voltei do pub, Lu'ay deixara uma garrafa de vinho à minha porta com um bilhete de feliz aniversário desculpando-se pela ausência. No Facebook, alguns colegas do mestrado deixaram notas dando alguma satisfação (coisa que dificilmente aconteceria de parte dos meus conterraneos). Finalmente Emily, apesar do cartão de aniversário, correu à porta ao ouvir-me entrar no dia seguinte, cheia de pedidos de desculpa por não poder estar lá. Mostrava-me um respeito que dificilmente um adulto teria de um adolescente na minha cultura.
Era consideração. Apenas issso e nada mais. E valia muito.
quinta-feira, novembro 11, 2010
Vampiros, e outras lendas por Zoe, a romena
Zoe não está na turma do mestrado. Ela estudou com alguns dos meus colegas nos cursos passados, mas decidiu adiar o mestrado por um ano e trabalhar. No entanto, vez por outra a vemos no pub de Grosvernor, o favorito da turma.
Quando soube que Zoe era romena, logo me aproximei para perguntar-lhe sobre Drácula. Afinal, o principe que deu origem à lenda era romeno. Zoe sorriu como quem pensa "ai, de novo isso...". No entanto, a conversa fluiu bem quando ela percebeu que eu conhecia mais do que o básico que todo mundo conhece sobre o assunto.
Mesmo com meu interesse sobre o assunto, há certas coisas que eu jamais teria descoberto lendo sobre ele por aí, e que apenas um nativo poderia me dizer. Façamos como Jack: vamos por partes...
Em primeiro lugar, quem se interessa pelo assunto sabe que "Drácula" não era o nome verdadeiro do príncipe Vad Tepes. O termo na verdade quer dizer "filho do dragão". Seu pai, que nesse caso receberia o apelido "Dracul", pertencia a uma ordem húngara de cavaleiros conhecida como a Ordem do Dragão. A primeira coisa realmente interessante que Zoe me contou foi que a idéia de dragão simplesmente não existia para os romenos. Mas a palavra húngara que deu origem a "Dracul" parecia-se mais com a palavra romena para "demônio". Portanto, "filho do dragão" tornou-se, na Romênia da época, o "filho do demônio". Isso, misturado com a já comum religião cristã da época, deu origem à lenda do príncipe demoníaco.
Quando planejei esta viagem para a Europa, logo pensei em pegar uns dias e visitar o castelo do príncipe. O problema começou quando não consegui encontrar a Transilvânia no Google Maps. Zoe me contou que a Transilvânia era uma região inteira que compreendia um terço da Romênia. "E a Wallachia?" perguntei, lembrando de fatos que li sobre onde Drácula realmente viveu. A Wallachia era outra região, que de fato não tinha nada a ver com a Transilvânia. A família tinha propriedades em ambas as partes, aparentemente. A mais famosa é o castelo de bran, entre as duas regiões, e conhecido como o verdadeiro "Castelo de Drácula".
A Romênia na época era uma das poucas vias de acesso do povos do oriente para a Europa. Como tal, recebia a invasão de vários povos bárbaros querendo conquistar terras na Europa, principalmente os turcos, inimigos mortais da família Tepes. Era portanto uma terra violenta, onde muita brutalidade era necessearia para evitar que a nação inteira fosse pisoteada pela horda invasora. Por isso, apesar da brutalidade com a qual o príncipe despachava seus inimigos (que lhe rende o nome de Vlad, o Impalador), ele foi considerado um ótimo governante, por conseguir manter o país durante seu reinado. Muito tempo depois, quando surgiu o interesse em promover essa imagem do soberano violento paraenaltecer a resistência do povo romeno, quiseram achar uma imagem de Vlad para por um rosto ao nome. Acontece que, segundo Zoe, Vlad nunca se deixou ser retratado. A imagem que conhecemos dele é na verdade o rosto de um de seus cortesãos.
Depois dos turcos, houve um movimento contrário na Europa, onde os povos europeus passaram pela Romênia em busca de uma rota para o comércio com o oriente. Essa passagem deixou múltiplas influências no país, que conta com uma cultural bem misturada.
Zoe contou que, apesar da lenda dos vampiros e do Drácula ser em grande parte uma criação externa que foi atribuída à Romênia, o país tinha sim lendas sobre lobisomens. Nada a ver com a lua cheia. Em vez disso, os lobisomens romenos eram pessoas muito frustradas com suas vidas, deprimidas pelo fracasso, que eram atacadas por lobos e assumiam a forma do lobisomem como uma válvula de escape onde pudessem liberar sua frustração de uma forma menos passiva. Achei interessante porque muitos dos filmes que tratam dessa criatura hoje têm como personagem principal algum garoto com frustrações masculistas de inferioridade que consegue superar isso "rendendo-se ao animal interior" e sendo mais violento e decisivo.
Mencionei que quero ir pra lá em algum ponto ao longo do ano. Zoe diz que talvez possa me indicar lugares para ficar.
Quando soube que Zoe era romena, logo me aproximei para perguntar-lhe sobre Drácula. Afinal, o principe que deu origem à lenda era romeno. Zoe sorriu como quem pensa "ai, de novo isso...". No entanto, a conversa fluiu bem quando ela percebeu que eu conhecia mais do que o básico que todo mundo conhece sobre o assunto.
Mesmo com meu interesse sobre o assunto, há certas coisas que eu jamais teria descoberto lendo sobre ele por aí, e que apenas um nativo poderia me dizer. Façamos como Jack: vamos por partes...
Em primeiro lugar, quem se interessa pelo assunto sabe que "Drácula" não era o nome verdadeiro do príncipe Vad Tepes. O termo na verdade quer dizer "filho do dragão". Seu pai, que nesse caso receberia o apelido "Dracul", pertencia a uma ordem húngara de cavaleiros conhecida como a Ordem do Dragão. A primeira coisa realmente interessante que Zoe me contou foi que a idéia de dragão simplesmente não existia para os romenos. Mas a palavra húngara que deu origem a "Dracul" parecia-se mais com a palavra romena para "demônio". Portanto, "filho do dragão" tornou-se, na Romênia da época, o "filho do demônio". Isso, misturado com a já comum religião cristã da época, deu origem à lenda do príncipe demoníaco.
Quando planejei esta viagem para a Europa, logo pensei em pegar uns dias e visitar o castelo do príncipe. O problema começou quando não consegui encontrar a Transilvânia no Google Maps. Zoe me contou que a Transilvânia era uma região inteira que compreendia um terço da Romênia. "E a Wallachia?" perguntei, lembrando de fatos que li sobre onde Drácula realmente viveu. A Wallachia era outra região, que de fato não tinha nada a ver com a Transilvânia. A família tinha propriedades em ambas as partes, aparentemente. A mais famosa é o castelo de bran, entre as duas regiões, e conhecido como o verdadeiro "Castelo de Drácula".
A Romênia na época era uma das poucas vias de acesso do povos do oriente para a Europa. Como tal, recebia a invasão de vários povos bárbaros querendo conquistar terras na Europa, principalmente os turcos, inimigos mortais da família Tepes. Era portanto uma terra violenta, onde muita brutalidade era necessearia para evitar que a nação inteira fosse pisoteada pela horda invasora. Por isso, apesar da brutalidade com a qual o príncipe despachava seus inimigos (que lhe rende o nome de Vlad, o Impalador), ele foi considerado um ótimo governante, por conseguir manter o país durante seu reinado. Muito tempo depois, quando surgiu o interesse em promover essa imagem do soberano violento paraenaltecer a resistência do povo romeno, quiseram achar uma imagem de Vlad para por um rosto ao nome. Acontece que, segundo Zoe, Vlad nunca se deixou ser retratado. A imagem que conhecemos dele é na verdade o rosto de um de seus cortesãos.
Depois dos turcos, houve um movimento contrário na Europa, onde os povos europeus passaram pela Romênia em busca de uma rota para o comércio com o oriente. Essa passagem deixou múltiplas influências no país, que conta com uma cultural bem misturada.
Zoe contou que, apesar da lenda dos vampiros e do Drácula ser em grande parte uma criação externa que foi atribuída à Romênia, o país tinha sim lendas sobre lobisomens. Nada a ver com a lua cheia. Em vez disso, os lobisomens romenos eram pessoas muito frustradas com suas vidas, deprimidas pelo fracasso, que eram atacadas por lobos e assumiam a forma do lobisomem como uma válvula de escape onde pudessem liberar sua frustração de uma forma menos passiva. Achei interessante porque muitos dos filmes que tratam dessa criatura hoje têm como personagem principal algum garoto com frustrações masculistas de inferioridade que consegue superar isso "rendendo-se ao animal interior" e sendo mais violento e decisivo.
Mencionei que quero ir pra lá em algum ponto ao longo do ano. Zoe diz que talvez possa me indicar lugares para ficar.
terça-feira, novembro 09, 2010
O Manifesto
Frustrado hoje com o resultado do mais recente trabalho em grupo.
[blogterapia mode]
O primeiro projeto "de verdade" passado pelos professores do mestrado foi um projeto em grupo. Assim como haviam feito na minha graduação, os professores apenas deram um conceito: "manifesto". O resto deveria partir de nós.
As primeiras discussões foram muito interessantes. Vimos alguns manifestos na biblioteca e nos dividimos em grupos de dez pessoas. Em um curso que recebe pessoas do mundo inteiro, meu grupo era formado por coreanos, irlandeses, alemães, franceses, chineses... e o brasileiro. Éramos artistas plásticos, designers, estudantes de curadoria e teoria de arte. Logo percebemos que chegar a um consenso sobre qualquer coisa entre pessoas de origens e idiomas tão diversos ia ser um problema. À medida que começamos a conversar a respeito, percebi todos tentando serem cordiais com os colegas, tentando chegar a um consenso e opinião comum, fazendo concessões, convencendo sem insistir. E claro, foram duas horas totalmente improdutivas. Ou talvez não totalmente: pessoalmente, eu percebi que todos nós tínhamos medo. De sermos mais exigentes, de termos uma opinião que os outros não gostassem, de sermos... bem, de sermos fascistas. Em algum lugar dos longos exercícios de escrita coletiva que fizemos, escrevi que esta geração tinha medo de tomar uma decisão por ser uma geraão nascida de pessoas que viveram as Grandes Guerras, a Guerra Fria, o Vietnã, Iraque, Kosovo, etc. Filhos de gente que percebeu em primeira mão como ter opinião levava à dissidência, à tomada de partidos e ao conflito. E como tais, tínhamos sido educados (não por nossos pais, mas de certa forma pela sociedade em geral) a não termos opinião, para podermos ser mais abertos às diferenças. Chamei isso de ser all-inclusive, non-conclusive. Essa idéia não valia apenas para a questão das etnias e culturas, mas também para a questão do pós-moderno. Se haviamos chegado a uma era onde tudo era possível na arte, onde se parodiavam paródias em uma espiral infinita e nada era certo ou errado em escala coletiva, então não era mais possível fazer um manifesto. Porque, a rigor, um manifesto defendia determinada idéia ou prática. Dizia sim a certas coisas e não a outras. E dizer não virou uma coisa fascista e não-inclusiva. Uma heresia!
Ainda assim, tínhamos que fazer um manifesto. Talvez exatamente por termos chegado à conclusão de que um manifesto era algo assim tão particular e unilateral, tivemos a idéia de sabotá-lo. Fazer um manifesto coletivo, que tentasse incluir tudo e todos e ainda ser um manifesto (seria isso possível?). Começamos com os exercícios de escrita que mencionei. Dando uma frase para que outra pessoa continuasse com outra e assim por diante. E assim chegamos á idéia de ações coletivas. Alguém mencionou manifestos como atos de protesto e pensamos em uma ação de protesto que pudéssemos fazer juntos. E em seguida veio a sugestão do silêncio coletivo. Achei interessante. E logo a idéia evoluiu para um experimento: nos encontraríamos no dia seguinte, para passar a manhã em silêncio fazendo uma obra juntos.
O experimento começou bem. Consegui sair do apartamento sem falar com ninguém e não falar com ingleses na rua é tão fácil quanto andar por São Paulo e não interagir com ninguém. O isolamento das megalópoles.
Cheguei em Chelsea e encontrei meu grupo na cantina. Todos sentados em volta da mesa, em absoluto mutismo. Acenávamos uns aos outros, apontávamos, gesticulávamos. Alguém passava uma folha de papel para colocarmos informações pessoais triviais (nome, nacionalidade, cor favorita, signo, etc...). Pareceu-me uma forma gostosa de dizer muito sem falar nada.
Quando todos chegaram, entramos no espaço separado para o projeto e espalhamos o material que trouxemos no chão. Ninguém tinha muita noção de como começar. Timidamente, começamos a espalhar jornal no chão e juntar umas coisa nas outras, fazer pequenos experimentos. Mas tudo começava a ter aquele aspecto de "estética de decomposição": resto, lixo, entulho. E não de um jeito bonito. À medida que a frustração e tolice daquilo foi virando uma noção geral, começaram as performances. Alguém com um livro sobre voz (ótima idéia) vocalizava vogais desconexas, experimentando com a própria voz. Outra pessoa andava pelo espaço com uma sacola na cabeça, experimentando o espaço sem ver nada. Uma terceira tentava guiá-la na direção certa sem falar, estalando os dedos e batucando em obstáculos. Demorou muito até que eu, teimoso que sou, parasse de tentar "fazer algo" e experimentasse a perda de controle. Mas então comecei a caminhar pela "instalação" que havíamos feito e a interagir com a cega que andava pelo espaço.
Talvez se tivéssemos realmente levado aquilo adiante durante a manhã inteira, eu teria encontrado um jeito de criar sentido para tudo aquilo. Talvez teria aprendido a "ser" com aquilo tudo. Mas então os outros colegas de outros grupos chegaram. Inibidos, "caíndo em si" e percebendo a tolice daquilo tudo, demos o experimento por terminado.
Na minha banca de graduação, Agnaldo Farias mencionou que havia me compreendido como uma pessoa mais interessada nos resultados finais. De fato, os processos sempre me pareceram interessantes, mas muito pessoais para serem uma obra de arte apresentada a um público que não viveu a experiência.
O que tínhamos de produto final aqui? Mais ou menos uma hora de vídeos e fotos de pessoas com sacolas na cabeça, vocalizando coisas incompreensíveis e fazendo uma bagunça desconexa no chão de um espaço em branco. Tínhamos um manicômio. Esse era o resultado do nosso grande experimento de criação coletiva, all-inclusive, non-conclusive.
Chamem-me de antiquado, fascista, herege. Mas eu nunca tive gosto para este nível de caos. Enquanto os alemães, franceses e irlandeses olhavam uns para os outros e murmuravam como tinha sido legal e interessante, eu olhava para os designers sem entender nada e os asiáticos que ainda não havia passado por essa ocidentalização pós-moderna que adorava o incompreenível. Eu me identificava mais com estes últimos. Eu não sentia que havia nada concreto lá. Tínhamos passado por uma experiência que provava algumas das nossas idéias, mas o resultado final era tão... insosso. Talvez após algum trabalho de artefinalização dos designers, pudéssemos produzir algo palatável daquilo tudo. Eu achava difícil.
O que, de certa forma, fez do experimento um sucesso. De fato, ele tinha incluído todo mundo na prática daquilo, tentando ser o mais igualitário e acolhedor possível, e não tinha dado em nada. Era exatamente o termo que eu tinha pensado.
Além da certeza da impossibilidade de manifestos reais hoje (algo que eu nunca tinha pensado e achei muito interessante), o projeto contribuiu para o meu crescente desconforto e minha noção de que meu jeito de encarar arte (planejar antes de fazer, não fazer e depois decifrar) era obsoleto por aqui. Talvez muito "publicitário" em um meio onde tudo era acompanhado de palavras como "conceitual", "pós-moderno", "experimental". Arte agora não tinha mais muito a ver com estética. E eu não me adaptava ao jeito atual. Sequer conseguia achar o resultado deste projeto "legal e interessante", salvo por uma ou outra sensação fugaz durante a execução.
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O primeiro projeto "de verdade" passado pelos professores do mestrado foi um projeto em grupo. Assim como haviam feito na minha graduação, os professores apenas deram um conceito: "manifesto". O resto deveria partir de nós.
As primeiras discussões foram muito interessantes. Vimos alguns manifestos na biblioteca e nos dividimos em grupos de dez pessoas. Em um curso que recebe pessoas do mundo inteiro, meu grupo era formado por coreanos, irlandeses, alemães, franceses, chineses... e o brasileiro. Éramos artistas plásticos, designers, estudantes de curadoria e teoria de arte. Logo percebemos que chegar a um consenso sobre qualquer coisa entre pessoas de origens e idiomas tão diversos ia ser um problema. À medida que começamos a conversar a respeito, percebi todos tentando serem cordiais com os colegas, tentando chegar a um consenso e opinião comum, fazendo concessões, convencendo sem insistir. E claro, foram duas horas totalmente improdutivas. Ou talvez não totalmente: pessoalmente, eu percebi que todos nós tínhamos medo. De sermos mais exigentes, de termos uma opinião que os outros não gostassem, de sermos... bem, de sermos fascistas. Em algum lugar dos longos exercícios de escrita coletiva que fizemos, escrevi que esta geração tinha medo de tomar uma decisão por ser uma geraão nascida de pessoas que viveram as Grandes Guerras, a Guerra Fria, o Vietnã, Iraque, Kosovo, etc. Filhos de gente que percebeu em primeira mão como ter opinião levava à dissidência, à tomada de partidos e ao conflito. E como tais, tínhamos sido educados (não por nossos pais, mas de certa forma pela sociedade em geral) a não termos opinião, para podermos ser mais abertos às diferenças. Chamei isso de ser all-inclusive, non-conclusive. Essa idéia não valia apenas para a questão das etnias e culturas, mas também para a questão do pós-moderno. Se haviamos chegado a uma era onde tudo era possível na arte, onde se parodiavam paródias em uma espiral infinita e nada era certo ou errado em escala coletiva, então não era mais possível fazer um manifesto. Porque, a rigor, um manifesto defendia determinada idéia ou prática. Dizia sim a certas coisas e não a outras. E dizer não virou uma coisa fascista e não-inclusiva. Uma heresia!
Ainda assim, tínhamos que fazer um manifesto. Talvez exatamente por termos chegado à conclusão de que um manifesto era algo assim tão particular e unilateral, tivemos a idéia de sabotá-lo. Fazer um manifesto coletivo, que tentasse incluir tudo e todos e ainda ser um manifesto (seria isso possível?). Começamos com os exercícios de escrita que mencionei. Dando uma frase para que outra pessoa continuasse com outra e assim por diante. E assim chegamos á idéia de ações coletivas. Alguém mencionou manifestos como atos de protesto e pensamos em uma ação de protesto que pudéssemos fazer juntos. E em seguida veio a sugestão do silêncio coletivo. Achei interessante. E logo a idéia evoluiu para um experimento: nos encontraríamos no dia seguinte, para passar a manhã em silêncio fazendo uma obra juntos.
O experimento começou bem. Consegui sair do apartamento sem falar com ninguém e não falar com ingleses na rua é tão fácil quanto andar por São Paulo e não interagir com ninguém. O isolamento das megalópoles.
Cheguei em Chelsea e encontrei meu grupo na cantina. Todos sentados em volta da mesa, em absoluto mutismo. Acenávamos uns aos outros, apontávamos, gesticulávamos. Alguém passava uma folha de papel para colocarmos informações pessoais triviais (nome, nacionalidade, cor favorita, signo, etc...). Pareceu-me uma forma gostosa de dizer muito sem falar nada.
Quando todos chegaram, entramos no espaço separado para o projeto e espalhamos o material que trouxemos no chão. Ninguém tinha muita noção de como começar. Timidamente, começamos a espalhar jornal no chão e juntar umas coisa nas outras, fazer pequenos experimentos. Mas tudo começava a ter aquele aspecto de "estética de decomposição": resto, lixo, entulho. E não de um jeito bonito. À medida que a frustração e tolice daquilo foi virando uma noção geral, começaram as performances. Alguém com um livro sobre voz (ótima idéia) vocalizava vogais desconexas, experimentando com a própria voz. Outra pessoa andava pelo espaço com uma sacola na cabeça, experimentando o espaço sem ver nada. Uma terceira tentava guiá-la na direção certa sem falar, estalando os dedos e batucando em obstáculos. Demorou muito até que eu, teimoso que sou, parasse de tentar "fazer algo" e experimentasse a perda de controle. Mas então comecei a caminhar pela "instalação" que havíamos feito e a interagir com a cega que andava pelo espaço.
Talvez se tivéssemos realmente levado aquilo adiante durante a manhã inteira, eu teria encontrado um jeito de criar sentido para tudo aquilo. Talvez teria aprendido a "ser" com aquilo tudo. Mas então os outros colegas de outros grupos chegaram. Inibidos, "caíndo em si" e percebendo a tolice daquilo tudo, demos o experimento por terminado.
Na minha banca de graduação, Agnaldo Farias mencionou que havia me compreendido como uma pessoa mais interessada nos resultados finais. De fato, os processos sempre me pareceram interessantes, mas muito pessoais para serem uma obra de arte apresentada a um público que não viveu a experiência.
O que tínhamos de produto final aqui? Mais ou menos uma hora de vídeos e fotos de pessoas com sacolas na cabeça, vocalizando coisas incompreensíveis e fazendo uma bagunça desconexa no chão de um espaço em branco. Tínhamos um manicômio. Esse era o resultado do nosso grande experimento de criação coletiva, all-inclusive, non-conclusive.
Chamem-me de antiquado, fascista, herege. Mas eu nunca tive gosto para este nível de caos. Enquanto os alemães, franceses e irlandeses olhavam uns para os outros e murmuravam como tinha sido legal e interessante, eu olhava para os designers sem entender nada e os asiáticos que ainda não havia passado por essa ocidentalização pós-moderna que adorava o incompreenível. Eu me identificava mais com estes últimos. Eu não sentia que havia nada concreto lá. Tínhamos passado por uma experiência que provava algumas das nossas idéias, mas o resultado final era tão... insosso. Talvez após algum trabalho de artefinalização dos designers, pudéssemos produzir algo palatável daquilo tudo. Eu achava difícil.
O que, de certa forma, fez do experimento um sucesso. De fato, ele tinha incluído todo mundo na prática daquilo, tentando ser o mais igualitário e acolhedor possível, e não tinha dado em nada. Era exatamente o termo que eu tinha pensado.
Além da certeza da impossibilidade de manifestos reais hoje (algo que eu nunca tinha pensado e achei muito interessante), o projeto contribuiu para o meu crescente desconforto e minha noção de que meu jeito de encarar arte (planejar antes de fazer, não fazer e depois decifrar) era obsoleto por aqui. Talvez muito "publicitário" em um meio onde tudo era acompanhado de palavras como "conceitual", "pós-moderno", "experimental". Arte agora não tinha mais muito a ver com estética. E eu não me adaptava ao jeito atual. Sequer conseguia achar o resultado deste projeto "legal e interessante", salvo por uma ou outra sensação fugaz durante a execução.
[/blogterapia mode]
domingo, novembro 07, 2010
Fim de Out(ono)ubro
Outubro terminou majestoso. Em sua última semana, as árvores por aqui se vestiram de diversos tons de laranja e vermelho, contrapondo com as evergreens (pinheiros e outras árvores que jamais perdem o verde). Embora seja um processo de vários dias, tive a impressão de que tudo aconteceu muito rápido para ser documentado por um estrangeiro desavisado. As coisas agora estão em um momento tristonho, onde as árvores estão quase peladas mas ainda têm algumas folhas corajosas. Um momento transitório entre outono e inverno, que ainda não tem aquela gala introspectiva da neve, mas já não é mais um carnaval de cores.
Estou na Europa há um mês.
Mais experiente desta vez, demorei menos pra me habituar às coisas por aqui. À rotina, aos preços, ao estranhamente eficiente transporte público inglês. Vim com computador, curso, planos...
E no entanto, voltar à Europa teve seu paralelo com voltar a um antigo relacionamento. Você não lembra porque terminou aquilo da primeira vez, apenas lembra do porque tinha se apaixonado. Mas é só passar o primeiro mês, que você lembra de tudo. Eu tinha deixado a Europa da primeira vez por não suportar a solidão introspectiva. Há um limite disso que eu consigo suportar, mas de certa forma eu também preciso de compania. O inverno vem chegando e meus colegas ingleses todos voltam para suas cidades para passar os feriados com a família. O apartamento está mais vazio, os dias também. Sem festas de universitários, sem balada no fim de semana. Sinto-me só. Desinteressante, inútil e só. Mas faz parte do aprendizado desta experiência o aprender a ser mais sociável, a me enturmar, a curtir mais e melhor a preciosidade dos momentos que me forem dados com meus amigos daqui.
Assim como na segunda chance do relacionamento, é inevitável fazer as comparações e apontar as semelhanças com a primeira vez. Só que, como toda segunda vez, são "semelhanças diferentes". Pra começar, eu vim para cá novamente depois de ter me desiludido com a minha carreira publicitária e saído de um emprego. Mas em vez da demissão, saí voluntariamente, para nunca mais voltar. Outras semelhanças são mais uma questão de composição: recentemente comecei a cruzar o Burgess Park nos fins de semana para ir ao mercado, como eu fazia com Gunnersbury Park. Até os corvos estão lá também. Mas falta o cemitério na outra ponta.
Ontem, mais uma semelhança diferente: limpando o quarto, achei atrás da minha cama várias fotos, um livro e um celular (!) de uma moradora anterior (lembra da senhora Sparrow? [1][2]). Só que desta vez, estas pistas que me foram dadas são muito tênues para eu stalkear esta antiga moradora. Só sei tratar-se de uma estudante japonesa, já que o livro está nesse idioma, e que ela tinha uma amiga ocidental chamada Karen em uma das fotos. Se ao menos eu pudesse carregar a bateria do celular para fazê-lo funcionar...
A semelhança mais recente vai acontecer no meu aniversário: minha Lexy vem passar duas semanas por aqui. Assim como outra ruiva veio me encontrar na primeira viagem. As situações são bem diferentes, e enquanto eu estava em um clima de rechauffe com Tink (não consigo me livrar dos nomes antigos neste blog...), estou muito bem com Lexy.
Estou na Europa há um mês.
Mais experiente desta vez, demorei menos pra me habituar às coisas por aqui. À rotina, aos preços, ao estranhamente eficiente transporte público inglês. Vim com computador, curso, planos...
E no entanto, voltar à Europa teve seu paralelo com voltar a um antigo relacionamento. Você não lembra porque terminou aquilo da primeira vez, apenas lembra do porque tinha se apaixonado. Mas é só passar o primeiro mês, que você lembra de tudo. Eu tinha deixado a Europa da primeira vez por não suportar a solidão introspectiva. Há um limite disso que eu consigo suportar, mas de certa forma eu também preciso de compania. O inverno vem chegando e meus colegas ingleses todos voltam para suas cidades para passar os feriados com a família. O apartamento está mais vazio, os dias também. Sem festas de universitários, sem balada no fim de semana. Sinto-me só. Desinteressante, inútil e só. Mas faz parte do aprendizado desta experiência o aprender a ser mais sociável, a me enturmar, a curtir mais e melhor a preciosidade dos momentos que me forem dados com meus amigos daqui.
Assim como na segunda chance do relacionamento, é inevitável fazer as comparações e apontar as semelhanças com a primeira vez. Só que, como toda segunda vez, são "semelhanças diferentes". Pra começar, eu vim para cá novamente depois de ter me desiludido com a minha carreira publicitária e saído de um emprego. Mas em vez da demissão, saí voluntariamente, para nunca mais voltar. Outras semelhanças são mais uma questão de composição: recentemente comecei a cruzar o Burgess Park nos fins de semana para ir ao mercado, como eu fazia com Gunnersbury Park. Até os corvos estão lá também. Mas falta o cemitério na outra ponta.
Ontem, mais uma semelhança diferente: limpando o quarto, achei atrás da minha cama várias fotos, um livro e um celular (!) de uma moradora anterior (lembra da senhora Sparrow? [1][2]). Só que desta vez, estas pistas que me foram dadas são muito tênues para eu stalkear esta antiga moradora. Só sei tratar-se de uma estudante japonesa, já que o livro está nesse idioma, e que ela tinha uma amiga ocidental chamada Karen em uma das fotos. Se ao menos eu pudesse carregar a bateria do celular para fazê-lo funcionar...
A semelhança mais recente vai acontecer no meu aniversário: minha Lexy vem passar duas semanas por aqui. Assim como outra ruiva veio me encontrar na primeira viagem. As situações são bem diferentes, e enquanto eu estava em um clima de rechauffe com Tink (não consigo me livrar dos nomes antigos neste blog...), estou muito bem com Lexy.
sábado, novembro 06, 2010
Edith Derdyk
Estava trabalhando na minha primeira pintura por aqui (que colocarei no blog profissa na semana que vem). Sabia que haveria uma palestra naquela tarde. Alguma artista de algum lugar falando por horas sobre o seu trabalho. Não estava nem um pouco interessado. Até que uma das coreanas da turma passou por mim, mencionando que a artista era brasileira. Curioso, fui até a porta do anfiteatro para ver quem era: Edith Derdyk estava meio escondida no canto, intimidada pela necessidade de falar em inglês para uma platéia de alunos. Guardei minhas coisas no ateliê e fui aproveitar a coincidência.
Edith trabalha com desenho, no sentido mais modernista da palavra: desenho como linha, traço. Ora em esboços no papel, rabiscando pra lá e pra cá até ter coberto tudo com grafite, ora reproduzindo esse efeito em instalações [1][2][3]. Depois de um tempo, passou a trabalhar bastante com livros e amontoados de papel, ficando entre discussões sobre o formato do livro e a disposição e impressão de palavras nas páginas. No geral, um trabalho bem interessante, e um processo muito característico dos artistas brasileiros renomados.
A palestra correu bem, apesar da dificuldade da artista em se expressar em inglês. Mas ela tinha uma assistente brasileira para ajudá-la com os termos difíceis e as perguntas do público. Pena: eu teria me candidatado. Mas de qualquer jeito, me interessei em entrar em contato com ela. Conversamos, passei-lhe meu cartão com meus detalhes. Quem sabe... Sua assistente tinha um namorado ou marido (não me lembro ao certo) trabalhando na embaixada brasileira por aqui, com quem acabei connversando bastante também, na esperança de talvez conseguir trabalhos como freelancer na embaixada ou no consulado. Agora é correr atrás para que não me esqueçam...
Edith trabalha com desenho, no sentido mais modernista da palavra: desenho como linha, traço. Ora em esboços no papel, rabiscando pra lá e pra cá até ter coberto tudo com grafite, ora reproduzindo esse efeito em instalações [1][2][3]. Depois de um tempo, passou a trabalhar bastante com livros e amontoados de papel, ficando entre discussões sobre o formato do livro e a disposição e impressão de palavras nas páginas. No geral, um trabalho bem interessante, e um processo muito característico dos artistas brasileiros renomados.
A palestra correu bem, apesar da dificuldade da artista em se expressar em inglês. Mas ela tinha uma assistente brasileira para ajudá-la com os termos difíceis e as perguntas do público. Pena: eu teria me candidatado. Mas de qualquer jeito, me interessei em entrar em contato com ela. Conversamos, passei-lhe meu cartão com meus detalhes. Quem sabe... Sua assistente tinha um namorado ou marido (não me lembro ao certo) trabalhando na embaixada brasileira por aqui, com quem acabei connversando bastante também, na esperança de talvez conseguir trabalhos como freelancer na embaixada ou no consulado. Agora é correr atrás para que não me esqueçam...
sexta-feira, novembro 05, 2010
Diwali / Bonfire Night
[Post retroativo - escrito bem depois...]
Remember, remember
The fifth of november
The gunpowder treason and plot
I know of no reason
Why gunpowder treason
Should ever be forgot
Quando eu vim para a Europa há quatro anos, assisti ao V de Vingança. Fiquei surpreso ao saber que eles de fato comemoram ainda hoje o 5 de Novembro, quando foi descoberto um plano para explodir a Câmara dos Lordes do parlamento inglês. O filme menciona a figura de Guy Fawkes, embora o grupo fosse composto por muitos outros. Graças a uma carta anônima, o rei mandou investigar o parlamento na noite anterior ao 5 de Novembro, encontrando Fawkes, que mantinha a guarda de 36 barris de pólvora. Ele ganhou ares de Tiradentes por aqui. No fim, a maioria dos conspiradores foi executada de maneira brutal.
Em comemoração, os ingleses soltam fogos de artifício ao cair da noite no 5 de Novembro. Há fotos no meu perfil do Facebook relativas a dois eventos de fogos que eu fui ver: o primeiro em Blackheath, e o segundo no Victoria Park. Este último era também uma recordação de 70 anos das Blitz, bombardeios sistemáticos pelos alemães que arrasaram Londres durante a segunda guerra.
Foi um evento maravilhoso.
Logo antes dos fogos, os alarmes anti-aéreos soaram como na época e holofotes varreram os céus como se procurassem os aviões. O som suave de uma cantiga de roda seguiu as sirenes, e num misto de pânico e carinho anunciou que Londres queimava:
London's burning, London's burning.
Fetch the engines, fetch the engines.
Fire fire, Fire Fire!
Pour on water, pour on water.
London's burning, London's burning.
E então os fogos começaram!
Ando meio atrapalhado cm as coisas aqui para poder editar o vídeo dessa abertura, que consegui gravar do meio da multidão. Mas ainda vou colocar por aqui.
Simultaneamente, devido à grande comunidade indiana em Londres, a cidade também comemora o Diwali, o Festival das Luzes. Shivangi estava particularmente animada a respeito disso no dia, e cheguei no apartamento para encontrar nossa cozinha inteira decorada com pequenas velas e corantes em pó. Ela vestia um belo vestido típico da Índia e tinha posto a mesa com comidas e doces vegetarianos inacreditáveis! Depois de comermos um pouco, ela saiu com amigos para ir ao templo hindu perto de Ealing, um dos maiores da Inglaterra, para festejar. Quase fui junto, mas minha curiosidade pela Bonfire Night (como é chamada aqui a noite de 5 de Novembro) falou mais alto e fui ver os fogos. Fiquei com algumas fotos da decoração da nossa cozinha no Facebook.
Remember, remember
The fifth of november
The gunpowder treason and plot
I know of no reason
Why gunpowder treason
Should ever be forgot
Quando eu vim para a Europa há quatro anos, assisti ao V de Vingança. Fiquei surpreso ao saber que eles de fato comemoram ainda hoje o 5 de Novembro, quando foi descoberto um plano para explodir a Câmara dos Lordes do parlamento inglês. O filme menciona a figura de Guy Fawkes, embora o grupo fosse composto por muitos outros. Graças a uma carta anônima, o rei mandou investigar o parlamento na noite anterior ao 5 de Novembro, encontrando Fawkes, que mantinha a guarda de 36 barris de pólvora. Ele ganhou ares de Tiradentes por aqui. No fim, a maioria dos conspiradores foi executada de maneira brutal.
Em comemoração, os ingleses soltam fogos de artifício ao cair da noite no 5 de Novembro. Há fotos no meu perfil do Facebook relativas a dois eventos de fogos que eu fui ver: o primeiro em Blackheath, e o segundo no Victoria Park. Este último era também uma recordação de 70 anos das Blitz, bombardeios sistemáticos pelos alemães que arrasaram Londres durante a segunda guerra.
Foi um evento maravilhoso.
Logo antes dos fogos, os alarmes anti-aéreos soaram como na época e holofotes varreram os céus como se procurassem os aviões. O som suave de uma cantiga de roda seguiu as sirenes, e num misto de pânico e carinho anunciou que Londres queimava:
London's burning, London's burning.
Fetch the engines, fetch the engines.
Fire fire, Fire Fire!
Pour on water, pour on water.
London's burning, London's burning.
E então os fogos começaram!
Ando meio atrapalhado cm as coisas aqui para poder editar o vídeo dessa abertura, que consegui gravar do meio da multidão. Mas ainda vou colocar por aqui.
Simultaneamente, devido à grande comunidade indiana em Londres, a cidade também comemora o Diwali, o Festival das Luzes. Shivangi estava particularmente animada a respeito disso no dia, e cheguei no apartamento para encontrar nossa cozinha inteira decorada com pequenas velas e corantes em pó. Ela vestia um belo vestido típico da Índia e tinha posto a mesa com comidas e doces vegetarianos inacreditáveis! Depois de comermos um pouco, ela saiu com amigos para ir ao templo hindu perto de Ealing, um dos maiores da Inglaterra, para festejar. Quase fui junto, mas minha curiosidade pela Bonfire Night (como é chamada aqui a noite de 5 de Novembro) falou mais alto e fui ver os fogos. Fiquei com algumas fotos da decoração da nossa cozinha no Facebook.
terça-feira, novembro 02, 2010
Danto e o Contemporâneo
Recentemente passei na Tate Modern (finalmente!) e comprei o After the End of Art do Arthur Danto. O livro tinha sido mencionado pelo pessoal que participou da minha banca de graduação da faculdade de publicidade, meu trabalho sobre o significado de arte. E depois voltou a ser mencionado por muitas outras pessoas. Aparentemente é uma obra necessária para todo mundo que quiser entender arte hoje. Comprei-o e comecei a ler. Mas me parece um daqueles livros que dá pra sacar nas primeiras dez páginas e o resto é a repetição de mesma coisa por diversos pontos de vista. E o que Danto tanto fala em seu livro é que a arte hoje chegou em um ponto além da história. Um ponto onde tudo é possível, e portanto não há mais como avançar, porque não há mais como perpetuar o esquema que vigorava antes, onde o movimento novo contradizia o velho. Como tudo é possível, nada é vigente ou velho. Vale tudo.
De certa forma, eu já tinha lido sobre isso no Postmodernism da Eleanor Heartney. Mais precisamente, eu tinha lido como o pós-moderno se apropriava despudoradamente de qualquer referência, de qualquer época, sem critério algum, para tirar sarro do modernismo. Mas Danto dá o passo seguinte, estabelecendo que a arte contemporânea, após o pós-moderno, usa dessa promiscuidade conceitual sem o propósito de satirizar nada. Apenas porque pode. Nesse sentido, a arte "contemporânea" se diferenciava da arte "pós-moderna" por uma aparente falta de propósito, uma separação da sequência histórica da evolução da arte.
Naquela palestra onde o professor mostrou o vídeo dos hipsters, falou-se muito sobre o contemporâneo e a arte. E justamente sobre como a arte contemporânea tinha o que ele chamou de "desprendimento da responsabilidade histórica dos século XX". Trocando em miúdos, aquela sensação que eu cheguei a comentar por aqui [1][2] de que ninguém da minha geração de artistas estava mais interessado em entrar para a história da arte, fazer algo historicamente relevante que se encaixasse na cronologia das coisas. Coisas com "consciência histórica", como o professor Cussans comentou na palestra.
Ainda preciso terminar de ler o livro do Danto. Mas vai ser difícil. Já encontrei um monte de coisas do Warren Farrell nas bibliotecas da faculdade e ainda preciso ler e escrever sobre a Susan Faludi que o professor Cussans também mencionou.
Ai! com a velocidade que as coisas andam acontecendo por aqui, não vou ter tempo pra digerir e escrever no blog! SOCORRO! Tô adorando! XD
De certa forma, eu já tinha lido sobre isso no Postmodernism da Eleanor Heartney. Mais precisamente, eu tinha lido como o pós-moderno se apropriava despudoradamente de qualquer referência, de qualquer época, sem critério algum, para tirar sarro do modernismo. Mas Danto dá o passo seguinte, estabelecendo que a arte contemporânea, após o pós-moderno, usa dessa promiscuidade conceitual sem o propósito de satirizar nada. Apenas porque pode. Nesse sentido, a arte "contemporânea" se diferenciava da arte "pós-moderna" por uma aparente falta de propósito, uma separação da sequência histórica da evolução da arte.
Naquela palestra onde o professor mostrou o vídeo dos hipsters, falou-se muito sobre o contemporâneo e a arte. E justamente sobre como a arte contemporânea tinha o que ele chamou de "desprendimento da responsabilidade histórica dos século XX". Trocando em miúdos, aquela sensação que eu cheguei a comentar por aqui [1][2] de que ninguém da minha geração de artistas estava mais interessado em entrar para a história da arte, fazer algo historicamente relevante que se encaixasse na cronologia das coisas. Coisas com "consciência histórica", como o professor Cussans comentou na palestra.
Ainda preciso terminar de ler o livro do Danto. Mas vai ser difícil. Já encontrei um monte de coisas do Warren Farrell nas bibliotecas da faculdade e ainda preciso ler e escrever sobre a Susan Faludi que o professor Cussans também mencionou.
Ai! com a velocidade que as coisas andam acontecendo por aqui, não vou ter tempo pra digerir e escrever no blog! SOCORRO! Tô adorando! XD
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