Na faculdade, o efeito dominó começou quando
Brian, nosso líder do curso, teve um acidente de bicicleta logo após a minha avaliação com ele e
Dawn Mellor. Quebrou um braço e teve algum problema na bacia. Demorou duas semanas para voltar à faculdade, de muleta e sob o efeito de analgésicos. Durante esse tempo, o curso caminhou como uma daquelas galinhas que continuam correndo depois de terem a cabeça cortada. As avaliações dos outros alunos foram mal feitas por professores substitutos chamados de última hora, as notas tiveram que esperar até que
Brian voltasse e a visita de um avaliador externo, parte importantíssima dessas avaliações, nunca aconteceu.
Esse período de caos evidenciou uma das maiores falhas da faculdade, que todos nós já tínhamos observado: o curso inteiro estava nas costas de
Brian, um senhor de uma certa idade que voltava para casa de bicicleta no meio de Londres todos os dias.
O incidente teve um impacto enorme na moral da turma. Os que já tinham suas práticas estabelecidas, continuaram produzindo. Mas a maioria (eu incluso), tendo sido colocada nesse estado de experimentação
hard core que o mestrado promove, perdeu completamente o rumo até nosso líder de curso voltar.
Da minha parte, eu acabei me concentrando em algumas coisas paralelas à arte, mas principalmente na procura por patrocínio para o catálogo final da turma. Uma tarefa cuja chefia a essa altura eu estava dividindo com
Sonke, um artista plástico alemão. Devo a ele muitas das sacadas que sequer teriam me ocorrido ou que eu não teria coragem de levar a cabo. Ele peitou muita gente dentro da faculdade para conseguir alguma ajuda, organizou partes da minha gestão que estavam meio caóticas por pura inépcia minha e levantou a moral do resto do grupo do catálogo. Com a ajuda das garotas da turma de design, chefiadas pela brasileira
Joana, o catálogo começava a parecer novamente como uma coisa possível. Ambiciosa pra caramba, mas possível. Autoridades da faculdade diriam nas reuniões, que a qualidade do catálogo era muito superior a muita coisa que eles tiveram nos anos anteriores. E isso, devo a
Joana, que venceu a competição de design que montamos, e mostrou por A + B que o preço exorbitante desse design podia ser diminuido e negociado com os fornecedores até custar quase o mesmo que o horrendo catálogo do ano passado. Designer profissional é outra coisa...
No entanto, Julho foi um mês de frustrações nessa área. Todos os nossos possíveis patrocinadores negaram ajuda. E mesmo a faculdade, para surpresa do grupo, não estava disposta a pagar um centavo para um projeto que ela nos incitou a fazer e que claramente serviria para promovê-la.
Essa posição da faculdade complicou ainda mais as coisas quando chegou aos ouvidos da turma geral de artes plásticas. Quando comunicamos que os alunos teriam que contribuir com algum dinheiro para o catálogo, os mais idealistas (artista plástico idealista é quase um pleonasmo...) se negaram a pagar por algo que a faculdade devia prover. Muito bem, concordo plenamente. Mas esse dinheiro teria que vir de algum lugar, e se eles não pagassem, não haveria catálogo. O pior de tudo é que, com a turma do design trabalhando no catálogo em si e
Sonke correndo atrás de possibilidades dentro da faculdade, a responsabilidade pelo patrocínio externo ficou inteira na minha mão. E eu nunca soube mendigar...
Voltando ao assunto inicial do acidente de
Brian, no meio do mês, os alunos altamente descontentes (e os mais idealistas) se juntaram para protestar. A tensão estava tão palpável, que
Brian sacou que algo estava acontecendo, só não sabia o que era. Nos reunimos no
Banqueting Hall, um salão nobre que, apesar de muito menor, tinha a solenidade do salão principal de Hogwarts (HAHAHAHAHA). Com nosso manual do curso, procuramos especificamente tudo o que tinha sido prometido pela faculdade quando nos inscrevemos e que não foi entregue. A visita do avaliador externo foi só o começo. A idéia era exigir um encontro com o reitor da faculdade e exigir uma compensação pelas falhas. Falou-se muito em exigir financiamento para o catálogo.
Entre a reunião no
Banqueting Hall e o encontro com o reitor, o leilão de cartões postais aconteceu. O evento acontecia todos os anos, para levantar dinheiro para o catálogo e a exposição final. Com cartões (na verdade, vale qualquer coisa que tenha o tamanho de um postal) feitos pelos alunos e doados por ex-alunos famosos, o evento geralmente levantava uma boa grana e era uma noite divertida de frivolidade. Pessoalmente, meu
cartão tinha sido talvez a única obra que eu tinha feito até aquele ponto de Julho. Uma mistura de carpintaria (masculina) e costura (feminina), o cartão tinha um enorme artigo “THE” no meio, que em inglês não especifica sexo, diferente do que acontece nas línguas latinas. Sob o título de “Articulated Conflation” (algo como “Fusão Articulada”) , a peça foi vendida para uma coreana por vinte libras.
Mas infelizmente, e para aumentar as frustrações do mês, o leilão arrecadou metade do que tínhamos previsto, aumentando a pressão na turma do catálogo para arranjar dinheiro. Nesse ponto, eu voltei para casa depois do leilão com a certeza de que o catálogo já era. Eu tinha gasto uma boa porção do meu tempo e concentração em um projeto faraônico que, apesar de lindo, não ia sair do PDF. Já estava pensando na redação do e-mail para a turma me desculpando e explicando que estávamos cancelando o projeto.
E foi aí que uma daquelas reviravoltas emocionantes aconteceu.
Na sexta passada, o bando descontente com o curso se reuniu com o reitor para reclamar sobre os eventos recentes. Ele, muito diplomático e político nato, aceitou o que era inevitável (que o examinador externo nunca veio, que
Brian e
John Cussans estavam trabalhando em suas áreas com um contingente muito maior do que podiam lidar e sem ajuda alguma e que o acidente de
Brian foi remediado da pior maneira possível) e montou um pequeno show de desculpa, dizendo que não sabia do que estava acontecendo (né, companheiro
Lula?). Como compensação, iria reabrir a faculdade aos sábados, uma regalia que havia acabado depois que os alunos de graduação se formaram (pra vocês verem como tudo aqui gira em torno da graduação, mas isso fica para o próximo post). Além disso, iria falar com o diretor da universidade da qual Chelsea fazia parte para ver se podia nos dar algum financiamento para o catálogo!
O dinheiro veio em menos de uma semana. Uma fração do que precisávamos, mas já era o suficiente para diminuir a quantidade que os alunos teriam que pagar, tornando-a tão modesta, que mesmo os idealistas aceitaram pagar. Neste ponto, não era mais uma questão apenas do dinheiro. Nós tínhamos feito um catálogo muito melhor do que os anteriores, para uma das mais numerosas turmas da história da faculdade (o que complicava o processo e aumentava o preço), e conseguiramos reduzir o preço para que os alunos pagassem metade do que os do ano passado tinham pagado. Claro, idealmente, a faculdade devia pagar por isso e os alunos deveriam ter o catálogo de graça. Mas depois de todo esse esforço e dedicação da equipe do catálogo, e com um resultado tão incrível, mesmo os idealistas achavam que seria um desperdício negar isso por causa de ideologia. E claro, termos colocado uma simulação do catálogo em exposição na biblioteca também seduziu alguns dos indecisos.
Enquanto escrevo isso, os últimos alunos estão pagando suas partes. Cada e-mail que recebo avisando sobre pagamentos vem com notas de agradecimento dos alunos pelo esforço da equipe. Acho que jamais senti esse carinho e respeito, esse agradecimento por um trabalho bem feito. É mais do que um "você fez um bom trabalho", é um "você se importou com o coletivo". E é uma delícia.
Em assuntos relacionados, a visibilidade que ganhei como gerenciador do grupo do catálogo me rendeu algumas regalias na faculdade. Pude atrasar datas de entrega de projetos e ter a atenção dos tutores por mais tempo ou fora dos horários oficiais. Afinal, eu tinha gasto tanto tempo com um projeto em prol da faculdade, que eles respeitavam a dedicação de fazer isso e ainda levar a cabo um mestrado. Eu já ficava maravilhado com o fato de todo mundo saber quem era o
Pedro e dos tutores me tratarem como mais do que um mero aluno, uma notoriedade que eu nunca experimentara.
Seria ótimo se isso também revertesse em perspectivas de carreira...