Recentemente estive envolvido com a produção de um encarte de CD para um projeto do meu irmão. A experiência, embora uma nulidade financeira, foi muito gratificante em outros vários aspectos.
Primeiro, porque fazia muito tempo que eu não fazia freelas em casa. Lembro do fiasco que foi o anterior, uma comunicação visual para uma loja de roupas. Uma bagunça, noites sem dormir, tensão com o chefe da agência da época e um design muito ruim que não agradou o cliente. Mas assim como tudo na vida, vamos evoluindo, “passando de nível”, como em um jogo. Este encarte já rolou de uma forma muito mais tranqüila, e em poucos dias eu já tinha tudo pronto. Deu pra perceber como a rotina de tentativa e erro na agência já me deu bons resultados fora dela, tanto no prever os possíveis erros na gráfica, quanto nas sacadas de design que facilmente agradam o cliente. Tudo parece mais simples, como andar de bicicleta: no começo parece ilógico como alguém consegue se equilibrar em duas rodas, mas depois você faz sem perceber.
Claro, rolaram os stresses. A entrega em cima da hora nunca muda, as informações do cliente chegam depois que o prazo estoura e é você quem tem que correr, a gráfica não te passa nenhuma especificação e depois reclama que você mandou errado, etc...
Mas pelo menos eu já não me descabelo tanto quanto antes. Apenas um batimento cardíaco mais acelerado e um tamborilar de dedos sobre a mesa enquanto o lento computador grava os arquivos.
Outro aspecto gratificante foram as pessoas com as quais trabalhei. O produtor musical Daniel Barra é uma simpatia em pessoa. Jeito despojado, bem brasileiro. Desses que sabe que as coisas serão feitas às pressas e nas coxas, mas não se preocupa com isso. No fim, tudo dá certo e ele ainda consegue material de qualidade.
Outro parceiro interessante foi o grafiteiro Rafael Calazans, conhecido como Highraff, que fez a capa do encarte. Muito solícito, me passou as imagens vetorizadas, facilitando muito o meu trabalho. Ainda quero aproveitar o contato para fazer algumas perguntas. Estou pensando em escrever sobre os acontecimentos do ano passado com opiniões de grafiteiros, galeristas, guias da Bienal e etc. Uma pseudo-reportagem. Será que ele toparia?
Bits and pieces of my life that everyone ignores when I speak, but someone reads when I write.
domingo, dezembro 28, 2008
40ª Anual de Artes Plásticas da FAAP
A correria do fim de ano não me deixou escrever sobre a abertura da Anual de Artes Plásticas da FAAP, que aconteceu no mês passado.
Se eu dissesse que todas as edições da Anual têm um quê de repetitivas, eu é que estaria sendo repetitivo. Este ano, a sensação de deja vu ficou por conta do Paisagem inventadade um Guga Szabzon: uma tela onde a linha desenhada era substituída pela linha costurada. Deve ser a terceira ou quarta edição da Anual que conta com o mesmo trabalho. Na 34ª edição do evento, onde apresentei o retrato de Taís e a Virgem e o Menino, a colega Mariana Whately já tinha apresentado o mesmo trabalho, costurado durante a época em que ela estava hospitalizada devido a um acidente de trânsito. Claro, o fato leva a pensar em como mais de uma pessoa pode ter a mesma idéia, discussões sobre o inconsciente coletivo e toda aquela ladainha. Mas o que eu realmente me pergunto é o que o coordenador do curso de artes plásticas, Marcos Moraes, acha disso e porque é que ele permite que os diversos curadores que já organizaram a Anual continuem escolhendo esse mesmo trabalho, essa mesma idéia, ano após ano.
Falando em repetição, mas desta vez em outro contexto, eu quase não percebi o Esquadria de Tiago Tebet. Porque, como o nome diz, era apenas uma esquadria de alumínio pendurada no alto da parede. Mas depois que percebi tratar-se de um óleo sobre tela, a coisa começou a tomar outro sentido. Tebet conhece, ou ao menos deveria conhecer, o H de Julian Opie que atualmente encontra-se na Tate Modern em Londres [1][2][3]. Além da semelhança física entre ambos os trabalhos, eles têm aquele truque conceitual de fazer o visitante passar pela obra sem perceber que de fato é uma obra, e quando este finalmente percebe o trabalho, passa a perguntar-se sobre a própria natureza da obra de arte. Talvez um ponto positivo possa ser dado ao trabalho de Tebet porque, enquanto Opie de fato reproduzia uma esquadria em alumínio, como o objeto real, este aluno conseguiu um efeito similar com uma pintura. Um simulacro que, colocado convenientemente fora do alcance do público e em condições de iluminação meio precárias, não tem muita dificuldade de se passar por real.
Antes de prosseguir aos meus preferidos desta Anual, cito outros que me chamaram a atenção. Aline Yoshida apresentou um trabalho delicado que em muito me lembrou o tipo de poesia da Rivane Neuenschwander. Eram uma dezena de folhas de papel sulfite simples, nas quais estavam impressas em alto relevo frases quase imperceptíveis, mas de uma força tocante: "I need some meaning I can memorize", "é como não viver nunca", "feliz mas querendo morrer", "never-ending-nothing", "chorei em vários tons e velocidades diferentes", "waiting for something to say", entre outras. Frases de alguém que, como eu há algum tempo, estava vivendo um eterno nada, um marasmo de apatia, enquanto esperava algo novo acontecer. Um novo significado para a vida, uma nova causa, uma novidade qualquer. Um qualquer coisa. Enquanto isso, ela se desesperava com a própria pequenice, falta de grandeza espiritual. Falta até de conteúdo. Quis muito falar com Yoshida. Saber se suas frases eram suas ou de outros autores interessantes. Saber se eu tinha compreendido. Saber se ela era de fato como eu.
Em outro lugar, o menos conceitual e mais prático trabalho de Prieto Júnior era uma tela enorme coberta de betume e tinta acrílica. Me interessei muito pela tela porque era um escuro sujo, meio grunge. O tipo de fundo que iria muito bem com as minhas pinturas negras de metáforas deformadas. Melhor do que os meus fundos daquele preto chapado e infinito. O betume misturado à tinta acrílica dava uns efeitos irregulares, incontroláveis. Uma textura interessante e colorida, mesmo que o resultado geral continuasse sendo preto, sujo, feio. Um contraste bacana que me deu muito em que pensar para as próximas pinturas. Acho que vou passar a ter fundos mais instigantes.
Minhas duas obras favoritas não foram pinturas. Eis aí outra repetição: pinturas raramente são minhas obras favoritas nas Anuais. Aquela faculdade ainda há de produzir pintores que realmente me cativem algum dia.
Flávia Junqueira é uma conhecida minha. Amiga da Lu e uma daquelas pessoas com as quais eu gostaria muito de conviver mais, por parecerem ter um pouco daquela poesia tão densa que dá pra coletar e guardar, sabe? Flávia apresentou uma série de três fotos (colossalmente ampliadas e emolduradas...) entitulada Na companhia das coisas. Nelas, ela quase desaparece em meio a um mar de coisas. São centenas de peças de roupa (foto), ou brinquedos e outras bugigangas antigas de seu quarto, ou os livros e bibelôs de um escritório. As fotos são meticulosamente produzidas (e ela, maquiada, também), com uma boa iluminação e um arranjo dos elementos que dá a entender que ela teve um assistente muito paciente.
Mas meu trabalho favorito da exposição foi a performance que tive a sorte de ver. Alguns minutos após a abertura, comecei a ouvir o distinto som de rodas de skate batendo contra o piso de madeira do salão. Guilherme Duque Peters tinha colocado uma mesa das salas de aula da faculdade no espaço de exposição, cheia de livros de história da arte. Sem pressa ou ansiedade, ele empilhava um livro por vez no chão, ao lado da mesa. A cada livro, ele tomava distância, colocava seu skate no chão e partia pra cima, saltando por cima dos livros para então colocar mais um na pilha. Caravaggio, Rembrandt, Schiele, Klimt, a escolha dos livros não parecia seguir qualquer critério. Apenas a história da arte hoje considerada "acadêmica". Ele só parou quando foi derrubado por Toulouse-Lautrec, colocando a pilha de volta sobre a mesa e encerrando a performance, chamada Over the top em referência à manobra de skate, mas também ao ato de transpôr o obstáculo.
Claro que escolher uma performance como trabalho favorito foge um pouco do meu perfil de viciado em técnica. Mas vale para mostrar como estou interessado na invasão qua a cultura de rua em geral tem promovido sobre a cultura acadêmica. Grafite, picho, skate. Houve uma época em que eu desdenharia tudo isso sem motivo algum, apenas por ser não-acadêmico. Da mesma forma que qualquer acadêmico desdenhava cultura de rua. Como se fosse menos importante, menos real, menos "sério". Mas hoje acho que eles têm questionado muito mais a natureza do que é considerado arte do que qualquer obra técnica. A performance de Duque Peters é o tipo de protesto relativamente bem-humorado que se vê nos próprios livros de história da arte que ele estava tentando superar. Um ato afirmativo, altivo, claro. "Eu existo! Não me ignore!" diz o seu salto sobre os séculos de arte institucionalizada, "Eu quero prevalecer!". Talvez não seja tão violento e nem venda tantos jornais quanto os outros ataques da cultura de rua, mas tem muito mais classe.
Se eu dissesse que todas as edições da Anual têm um quê de repetitivas, eu é que estaria sendo repetitivo. Este ano, a sensação de deja vu ficou por conta do Paisagem inventadade um Guga Szabzon: uma tela onde a linha desenhada era substituída pela linha costurada. Deve ser a terceira ou quarta edição da Anual que conta com o mesmo trabalho. Na 34ª edição do evento, onde apresentei o retrato de Taís e a Virgem e o Menino, a colega Mariana Whately já tinha apresentado o mesmo trabalho, costurado durante a época em que ela estava hospitalizada devido a um acidente de trânsito. Claro, o fato leva a pensar em como mais de uma pessoa pode ter a mesma idéia, discussões sobre o inconsciente coletivo e toda aquela ladainha. Mas o que eu realmente me pergunto é o que o coordenador do curso de artes plásticas, Marcos Moraes, acha disso e porque é que ele permite que os diversos curadores que já organizaram a Anual continuem escolhendo esse mesmo trabalho, essa mesma idéia, ano após ano.
Falando em repetição, mas desta vez em outro contexto, eu quase não percebi o Esquadria de Tiago Tebet. Porque, como o nome diz, era apenas uma esquadria de alumínio pendurada no alto da parede. Mas depois que percebi tratar-se de um óleo sobre tela, a coisa começou a tomar outro sentido. Tebet conhece, ou ao menos deveria conhecer, o H de Julian Opie que atualmente encontra-se na Tate Modern em Londres [1][2][3]. Além da semelhança física entre ambos os trabalhos, eles têm aquele truque conceitual de fazer o visitante passar pela obra sem perceber que de fato é uma obra, e quando este finalmente percebe o trabalho, passa a perguntar-se sobre a própria natureza da obra de arte. Talvez um ponto positivo possa ser dado ao trabalho de Tebet porque, enquanto Opie de fato reproduzia uma esquadria em alumínio, como o objeto real, este aluno conseguiu um efeito similar com uma pintura. Um simulacro que, colocado convenientemente fora do alcance do público e em condições de iluminação meio precárias, não tem muita dificuldade de se passar por real. Antes de prosseguir aos meus preferidos desta Anual, cito outros que me chamaram a atenção. Aline Yoshida apresentou um trabalho delicado que em muito me lembrou o tipo de poesia da Rivane Neuenschwander. Eram uma dezena de folhas de papel sulfite simples, nas quais estavam impressas em alto relevo frases quase imperceptíveis, mas de uma força tocante: "I need some meaning I can memorize", "é como não viver nunca", "feliz mas querendo morrer", "never-ending-nothing", "chorei em vários tons e velocidades diferentes", "waiting for something to say", entre outras. Frases de alguém que, como eu há algum tempo, estava vivendo um eterno nada, um marasmo de apatia, enquanto esperava algo novo acontecer. Um novo significado para a vida, uma nova causa, uma novidade qualquer. Um qualquer coisa. Enquanto isso, ela se desesperava com a própria pequenice, falta de grandeza espiritual. Falta até de conteúdo. Quis muito falar com Yoshida. Saber se suas frases eram suas ou de outros autores interessantes. Saber se eu tinha compreendido. Saber se ela era de fato como eu.
Em outro lugar, o menos conceitual e mais prático trabalho de Prieto Júnior era uma tela enorme coberta de betume e tinta acrílica. Me interessei muito pela tela porque era um escuro sujo, meio grunge. O tipo de fundo que iria muito bem com as minhas pinturas negras de metáforas deformadas. Melhor do que os meus fundos daquele preto chapado e infinito. O betume misturado à tinta acrílica dava uns efeitos irregulares, incontroláveis. Uma textura interessante e colorida, mesmo que o resultado geral continuasse sendo preto, sujo, feio. Um contraste bacana que me deu muito em que pensar para as próximas pinturas. Acho que vou passar a ter fundos mais instigantes.
Minhas duas obras favoritas não foram pinturas. Eis aí outra repetição: pinturas raramente são minhas obras favoritas nas Anuais. Aquela faculdade ainda há de produzir pintores que realmente me cativem algum dia.
Flávia Junqueira é uma conhecida minha. Amiga da Lu e uma daquelas pessoas com as quais eu gostaria muito de conviver mais, por parecerem ter um pouco daquela poesia tão densa que dá pra coletar e guardar, sabe? Flávia apresentou uma série de três fotos (colossalmente ampliadas e emolduradas...) entitulada Na companhia das coisas. Nelas, ela quase desaparece em meio a um mar de coisas. São centenas de peças de roupa (foto), ou brinquedos e outras bugigangas antigas de seu quarto, ou os livros e bibelôs de um escritório. As fotos são meticulosamente produzidas (e ela, maquiada, também), com uma boa iluminação e um arranjo dos elementos que dá a entender que ela teve um assistente muito paciente. Mas meu trabalho favorito da exposição foi a performance que tive a sorte de ver. Alguns minutos após a abertura, comecei a ouvir o distinto som de rodas de skate batendo contra o piso de madeira do salão. Guilherme Duque Peters tinha colocado uma mesa das salas de aula da faculdade no espaço de exposição, cheia de livros de história da arte. Sem pressa ou ansiedade, ele empilhava um livro por vez no chão, ao lado da mesa. A cada livro, ele tomava distância, colocava seu skate no chão e partia pra cima, saltando por cima dos livros para então colocar mais um na pilha. Caravaggio, Rembrandt, Schiele, Klimt, a escolha dos livros não parecia seguir qualquer critério. Apenas a história da arte hoje considerada "acadêmica". Ele só parou quando foi derrubado por Toulouse-Lautrec, colocando a pilha de volta sobre a mesa e encerrando a performance, chamada Over the top em referência à manobra de skate, mas também ao ato de transpôr o obstáculo.
Claro que escolher uma performance como trabalho favorito foge um pouco do meu perfil de viciado em técnica. Mas vale para mostrar como estou interessado na invasão qua a cultura de rua em geral tem promovido sobre a cultura acadêmica. Grafite, picho, skate. Houve uma época em que eu desdenharia tudo isso sem motivo algum, apenas por ser não-acadêmico. Da mesma forma que qualquer acadêmico desdenhava cultura de rua. Como se fosse menos importante, menos real, menos "sério". Mas hoje acho que eles têm questionado muito mais a natureza do que é considerado arte do que qualquer obra técnica. A performance de Duque Peters é o tipo de protesto relativamente bem-humorado que se vê nos próprios livros de história da arte que ele estava tentando superar. Um ato afirmativo, altivo, claro. "Eu existo! Não me ignore!" diz o seu salto sobre os séculos de arte institucionalizada, "Eu quero prevalecer!". Talvez não seja tão violento e nem venda tantos jornais quanto os outros ataques da cultura de rua, mas tem muito mais classe.
sexta-feira, dezembro 26, 2008
segunda-feira, dezembro 08, 2008
Andei pensando sobre essa clareza dos últimos meses.
Principalmente na idéia de que muito teria sido diferente na minha vida se tivessem me falado de certas coisas logo que eu saí da faculdade. Claro, esses conselhos da vida sempre estiveram aí, debaixo do meu nariz. Mas tem coisas que se não falam, nós não vemos. E se vemos, ignoramos.
Saí da faculdade de artes plásticas com o medo da pobreza instilado em mim pelas instituições nas quais cresci e pelas minhas próprias conclusões errôneas. O medo me levou à publicidade e a quatro anos de nada. E só agora eu aceito que estou no caminho totalmente errado.
Que sejam ditas então algumas verdades básicas às novas gerações de artistas plásticos ainda em formação.
Em primeiro lugar, estejam preparados psicologicamente para passarem sim os primeiros anos após a faculdade em um voto de pobreza. Não achem que a dependência do dinheiro de papai acaba após a formatura, porque ela ainda continua algum tempo além da faculdade. Esta não é uma profissão institucionalizada onde faz-se estágio ainda na graduação e processos seletivos para entrar em empresas concorridas. É uma profissão de empregos temporários e de caça à próxima fonte de renda. Mas saibam e entendam que esse primeiro período de pobreza é fundamental. Aprende-se na marra a garimpar o sustento com atividades menores, que não interfiram negativamente na produção artística que, durante a faculdade, ganhou momento, inércia. Mais importante para o artista do que arranjar emprego fixo, é manter esse momento, continuar produzindo na mesma intensidade que se produzia na faculdade. Quem diminui o ritmo para procurar emprego de carteira assinada está decretando seu suicídio como artista profissional e relegando a arte à condição de hobby.
E eis aqui a segunda lição: manter esse momento é fundamental para comunicar o seu comprometimento. Nisso a arte assemelha-se a um verdadeiro business: os possíveis investidores em arte (galeristas, curadores, colecionadores, produtores culturais, etc) não vão investir seu tempo e dinheiro em gente não-comprometida. Ainda que você tenha um trabalho fantástico e revolucionário, se você não mostra comprometimento e perseverância, que garantia eles têm de que você não vai deixá-los na mão porque foi promovido no outro emprego e precisa trabalhar mais horas? Ou que você vai continuar estudando arte e evoluíndo em vez de estudar a mais nova versão dos programas de computador necessários para o seu outro emprego? Ou seja, trocando em miúdos, esse comprometimento é uma questão de foco. É você poder ser (ou pelo menos parecer) uma pessoa que sabe dizer não ao que não importa e persistir no que importa, seja lá o que isso for. Esses investidores querem que seu foco seja na arte e que, dado a chance de escolher entre um emprego assalariado e uma oportunidade de arte, você não seja tentado pelo dinheiro.
Cabe aqui um pequeno parágrafo de alívio.
A vida do artista plástico não vai ser para sempre esse eterno voto de pobreza e viver com os pais até os 30. Se você sobreviveu esse primeiro período de pobreza e aprendeu a desenvolver um trabalho de arte coeso e convincente, o próximo passo é a pós-graduação. A oportunidade de voltar à academia como uma espécie de oficial de patente mais alta. Ter acesso a algumas regalias, bolsas de pesquisa, contatos mais interessantes. E depois disso, a possibilidade de ensinar em faculdades, onde finalmente o sustento passa a ser algo mais garantido, sem comprometer a produção artística. Até porque você precisará estar atuando no mercado apra ser considerado um professor relevante.
Quanto a mim, como eu disse, fui pelo caminho completamente errado. Intimidado pela perspectiva da pobreza, desbravei a selva das pequenas agências de publicidade, achando que o dinheiro estaria por aí e que, com um pouco de sorte, alguém relevante descobriria as pinturas que eu fazia nas poucas horas vagas. O resultado foi óbvio: passei três anos cansado demais pra ter saco para terminar uma pintura (desperdiçando totalmente o momento pós-faculdade) e quem viu meus trabalhos e gostou, não investiu porque eu claramente não estava comprometido. O golpe de misericórdia veio da comparação com meus ex-colegas: com seus trabalhos temporários como guias de exposição e professores de desenho e pintura, estavam ganhando tanto ou mais do que eu na publicidade. Com a diferença de que suas pesquisas artísticas estavam evoluindo e a minha não. Estavam até viajando tanto quanto eu, indo para a Europa, porém para fazerem residências artísticas e continuar a pesquisa.
Well, fuck this... I’m outta here!
Já devia há muito tempo ter tomado essa decisão. Em seis meses, reabri o ateliê, retomei contatos, reiniciei processos. No início, apenas levando adiante idéias e pinturas antigas que eu tinha anotado e esquecido. Eu não tinha momento ou inspiração para idéias novas. Mas gradualmente, fui voltando a ter aqueles flashes, aqueles insights, aquela coisa pseudo-mística que se atribui ao artista. Era como se, de fato, eu nunca deixara de ter.
E nesse lento caminhar, essa sensação de clareza foi se assentando. Uma sensação do que importava e do que era dispensável. Sabe, antes disso o foco era algo emocionalmente caro. Custava-me dizer não aos projetos paralelos, aos eventos legais e aos favores a amigos para me focar no relevante. Custava-me sentir a frustração deles, mas eu ignorava a minha.
Estou botando a casa em ordem nesse aspecto. Saíndo de projetos estéreis que não levam a nada, me desculpando por favores com os quais não posso me comprometer, deixando diversões para depois das responsabilidades. Pensando um pouco mais no meu futuro e menos no presente dos outros. Egoísmo? Julgue como quiser. Não sinto mais pudor em dizer não.
E agora?
Enquanto estou colhendo os frutos destes últimos seis meses em uma exposição que abre nesta quarta na Escola São Paulo, vou planejando e colocando em movimento as coisas para o ano que vem. Há uma sensação gostosa de possibilidade no ar. Daquela que se tem diante de um vasto horizonte aberto, a possibilidade de ir para qualquer lado na velocidade que eu quiser. Medo? Claro que eu tenho. De ir mais rápido do que eu posso aguentar. De correr, correr e não achar nada nem nunca alcançar o horizonte. Não tem soluções fáceis: é incerto, mas é empolgante e desesperador. E pela primeira vez na vida eu realmente quero enfrentar.
É engraçado, mas a imagem que me vem à cabeça sobre estes anos passados na publicidade era bem o oposto. Era como viver nesta metrópole: prédios por todos os lados. Só é possível enxergar até a próxima esquina, alguns metros adiante, e mesmo que está do seu lado tem que falar alto para ser ouvido. Vez por outra se vê um horizonte entre os prédios, mas dura segundos e chegar lá é complicado. Era bem assim: eu só tinha olhos e consciência para as atividades da semana atual e não via futuro além disso. Oportunidades perfeitas do meu lado tinham que falar alto para serem ouvidas. Era uma rotina fácil. E era segura, chata e ainda mais desesperadora.
Principalmente na idéia de que muito teria sido diferente na minha vida se tivessem me falado de certas coisas logo que eu saí da faculdade. Claro, esses conselhos da vida sempre estiveram aí, debaixo do meu nariz. Mas tem coisas que se não falam, nós não vemos. E se vemos, ignoramos.
Saí da faculdade de artes plásticas com o medo da pobreza instilado em mim pelas instituições nas quais cresci e pelas minhas próprias conclusões errôneas. O medo me levou à publicidade e a quatro anos de nada. E só agora eu aceito que estou no caminho totalmente errado.
Que sejam ditas então algumas verdades básicas às novas gerações de artistas plásticos ainda em formação.
Em primeiro lugar, estejam preparados psicologicamente para passarem sim os primeiros anos após a faculdade em um voto de pobreza. Não achem que a dependência do dinheiro de papai acaba após a formatura, porque ela ainda continua algum tempo além da faculdade. Esta não é uma profissão institucionalizada onde faz-se estágio ainda na graduação e processos seletivos para entrar em empresas concorridas. É uma profissão de empregos temporários e de caça à próxima fonte de renda. Mas saibam e entendam que esse primeiro período de pobreza é fundamental. Aprende-se na marra a garimpar o sustento com atividades menores, que não interfiram negativamente na produção artística que, durante a faculdade, ganhou momento, inércia. Mais importante para o artista do que arranjar emprego fixo, é manter esse momento, continuar produzindo na mesma intensidade que se produzia na faculdade. Quem diminui o ritmo para procurar emprego de carteira assinada está decretando seu suicídio como artista profissional e relegando a arte à condição de hobby.
E eis aqui a segunda lição: manter esse momento é fundamental para comunicar o seu comprometimento. Nisso a arte assemelha-se a um verdadeiro business: os possíveis investidores em arte (galeristas, curadores, colecionadores, produtores culturais, etc) não vão investir seu tempo e dinheiro em gente não-comprometida. Ainda que você tenha um trabalho fantástico e revolucionário, se você não mostra comprometimento e perseverância, que garantia eles têm de que você não vai deixá-los na mão porque foi promovido no outro emprego e precisa trabalhar mais horas? Ou que você vai continuar estudando arte e evoluíndo em vez de estudar a mais nova versão dos programas de computador necessários para o seu outro emprego? Ou seja, trocando em miúdos, esse comprometimento é uma questão de foco. É você poder ser (ou pelo menos parecer) uma pessoa que sabe dizer não ao que não importa e persistir no que importa, seja lá o que isso for. Esses investidores querem que seu foco seja na arte e que, dado a chance de escolher entre um emprego assalariado e uma oportunidade de arte, você não seja tentado pelo dinheiro.
Cabe aqui um pequeno parágrafo de alívio.
A vida do artista plástico não vai ser para sempre esse eterno voto de pobreza e viver com os pais até os 30. Se você sobreviveu esse primeiro período de pobreza e aprendeu a desenvolver um trabalho de arte coeso e convincente, o próximo passo é a pós-graduação. A oportunidade de voltar à academia como uma espécie de oficial de patente mais alta. Ter acesso a algumas regalias, bolsas de pesquisa, contatos mais interessantes. E depois disso, a possibilidade de ensinar em faculdades, onde finalmente o sustento passa a ser algo mais garantido, sem comprometer a produção artística. Até porque você precisará estar atuando no mercado apra ser considerado um professor relevante.
Quanto a mim, como eu disse, fui pelo caminho completamente errado. Intimidado pela perspectiva da pobreza, desbravei a selva das pequenas agências de publicidade, achando que o dinheiro estaria por aí e que, com um pouco de sorte, alguém relevante descobriria as pinturas que eu fazia nas poucas horas vagas. O resultado foi óbvio: passei três anos cansado demais pra ter saco para terminar uma pintura (desperdiçando totalmente o momento pós-faculdade) e quem viu meus trabalhos e gostou, não investiu porque eu claramente não estava comprometido. O golpe de misericórdia veio da comparação com meus ex-colegas: com seus trabalhos temporários como guias de exposição e professores de desenho e pintura, estavam ganhando tanto ou mais do que eu na publicidade. Com a diferença de que suas pesquisas artísticas estavam evoluindo e a minha não. Estavam até viajando tanto quanto eu, indo para a Europa, porém para fazerem residências artísticas e continuar a pesquisa.
Well, fuck this... I’m outta here!
Já devia há muito tempo ter tomado essa decisão. Em seis meses, reabri o ateliê, retomei contatos, reiniciei processos. No início, apenas levando adiante idéias e pinturas antigas que eu tinha anotado e esquecido. Eu não tinha momento ou inspiração para idéias novas. Mas gradualmente, fui voltando a ter aqueles flashes, aqueles insights, aquela coisa pseudo-mística que se atribui ao artista. Era como se, de fato, eu nunca deixara de ter.
E nesse lento caminhar, essa sensação de clareza foi se assentando. Uma sensação do que importava e do que era dispensável. Sabe, antes disso o foco era algo emocionalmente caro. Custava-me dizer não aos projetos paralelos, aos eventos legais e aos favores a amigos para me focar no relevante. Custava-me sentir a frustração deles, mas eu ignorava a minha.
Estou botando a casa em ordem nesse aspecto. Saíndo de projetos estéreis que não levam a nada, me desculpando por favores com os quais não posso me comprometer, deixando diversões para depois das responsabilidades. Pensando um pouco mais no meu futuro e menos no presente dos outros. Egoísmo? Julgue como quiser. Não sinto mais pudor em dizer não.
E agora?
Enquanto estou colhendo os frutos destes últimos seis meses em uma exposição que abre nesta quarta na Escola São Paulo, vou planejando e colocando em movimento as coisas para o ano que vem. Há uma sensação gostosa de possibilidade no ar. Daquela que se tem diante de um vasto horizonte aberto, a possibilidade de ir para qualquer lado na velocidade que eu quiser. Medo? Claro que eu tenho. De ir mais rápido do que eu posso aguentar. De correr, correr e não achar nada nem nunca alcançar o horizonte. Não tem soluções fáceis: é incerto, mas é empolgante e desesperador. E pela primeira vez na vida eu realmente quero enfrentar.
É engraçado, mas a imagem que me vem à cabeça sobre estes anos passados na publicidade era bem o oposto. Era como viver nesta metrópole: prédios por todos os lados. Só é possível enxergar até a próxima esquina, alguns metros adiante, e mesmo que está do seu lado tem que falar alto para ser ouvido. Vez por outra se vê um horizonte entre os prédios, mas dura segundos e chegar lá é complicado. Era bem assim: eu só tinha olhos e consciência para as atividades da semana atual e não via futuro além disso. Oportunidades perfeitas do meu lado tinham que falar alto para serem ouvidas. Era uma rotina fácil. E era segura, chata e ainda mais desesperadora.
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