Socorram-me: estou virando idealista panfletário...
Quando vi o novo comercial do Axe recentemente, percebi o quanto este e todos os outros da linha principal deles denegriam a imagem masculina. Quer dizer, trata-se da premissa publicitária básica: use nosso produto e seja sobrenaturalmente vitorioso. Essa vitória, nesse caso, traduz-se em um número absurdo de mulheres se objetificando aos pés do consumidor homem.
Que o Axe não faça muito sucesso no consciente feminino, isso já é claro: um produto que promove a objetificação de mulheres que entram em transe diante de um homem perfumado com fragrâncias baratas deveria no mínimo chamar a atenção raivosa de algumas feministas.
Mas eu chamo a atenção para como o produto retrata os homens. Seres tão fracos e insignificantes, que precisam de um produto químico para lobotomizar mulheres. Mas principalmente seres que, mais do que procurar seu próprio aperfeiçoamento, só procuram uma coisa: sexo, sexo, sexo. Com o maior número de mulheres e com o menor nível de comprometimento possível, como se eles dessem conta de tudo isso. Porque afinal, homem só pensa nisso, néam? Pessoalmente, eu gosto de sexo descompromissado, mas daí pra promover isso como a razão da existência, já é meio humilhante e vazio demais.
Bits and pieces of my life that everyone ignores when I speak, but someone reads when I write.
segunda-feira, março 30, 2009
sexta-feira, março 27, 2009
The Path
E depois que a Electronic Arts lançou o jogo Alice em 2000, baseado obviamente na famosa personagem, agora chegou a vez da Chapeuzinho Vermelho invadir o mundo dos games. O game The Path compartilha o visual macabro do Alice, e aquela deliciosa sensação de perverter uma parte da infância quando chega a adolescência. Ele parte da premissa da história antiga da Chapeuzinho e modifica algumas coisas para agregar detalhes interessantes. A diferença da história que conhecemos? Chapeuzinho é dividida em seis personagens, mulheres em diferentes idades, da garotinha de nove anos da história original a uma mulher de vinte ciente da sua sexualidade. Cada uma destas irmãs tem um nome que remete ao vermelho (Robin - passaro com manchas vermelhas na penugem, Ginger - gíria para ruiva, Rose - a rosa, Ruby - a jóia rubi, Scarlet - inglês para carmin, Carmen - relativo à cor carmin). As irmãs conseguem chegar à casa da avó mais rápido se cruzarem pela floresta em vez de continuar no caminho. E a floresta está cheia coisas que despertam a curiosidade de jovens garotas. Mas nela encontra-se o lobo. O lobo é de fato um lobisomem, ou mais precisamente um homem selvagem. E homens selvagens fazem coisas ruins a jovens garotas.
Um jogo sobre o feminino, sobre crescer e sobre sexualidade. Todo feito com o visual e a música que lembra Johnny Hollow. Delícia!
Explorem o site porque vale a pena e vejam também este outro site com páginas específicas das personagens e outras coisinhas escondidas.
Um jogo sobre o feminino, sobre crescer e sobre sexualidade. Todo feito com o visual e a música que lembra Johnny Hollow. Delícia!
Explorem o site porque vale a pena e vejam também este outro site com páginas específicas das personagens e outras coisinhas escondidas.
Ótima dica da Nana, que estou colocando em um post para ficar mais evidente. Trata-se de um texto do Contardo Calligaris que une de forma inesperada os meus comentários sobre o Masculismo e outro assunto favorito meu: os atiradores adolescentes nas escolas americanas (e européias, de acordo com ele). O texto foi originalmente publicado na Folha, mas dá pra ler ele aqui.
quinta-feira, março 26, 2009
Jolly good!
Dizer que é aqui que tudo começou seria besteira.
Há pouco mais de um ano, já desiludido e insatisfeito com a minha vida na época (que não mudou muito até hoje...), fiquei sabendo de uma feira de intercâmbio perto da agência. Apareci por lá e não vi nada tão interessante. Essas feiras normalmente são voltadas para pessoas em áreas mais corporativas, estudantes de administração, coisas assim. Peguei alguns folhetos de faculdade com cursos de arte e me dirigi à saída, pronto para esquecer de tudo. Na porta, uma barraquinha distribuía folhetos do consulado britânico.
Acelerando a história: seis meses depois eu estava assistindo palestras sobre a Academy of the Arts em Londres, uma faculdade de arte que formou, entre outro, Anish Kapoor e Lucian Freud, dois dos meus ídolos. A gama de cursos possíveis era imensa: de cursos de idiomas, passando por intercâmbios de graduação, cursos de extensão e até mestrados. Graduações, eu já tenho duas. Restava-me a pós.
O raciocínio era relativamente simples: se a publicidade não me deu satisfação profissional nem dinheiro, eu ia voltar ao âmbito das artes. Se eu ia ganhar pouco nos dois, eu preferia ser um artista a um assistente de arte medíocre. Pelo menos a satisfação pessoal eu garantiria. Mas a única forma de fazer isso e se dar relativamente bem seria voltar a ter as chances e o momento que eu desperdicei na faculdade. A pós-graduação apareceu então como uma oportunidade de voltar ao ambiente acadêmico e fazer novos e melhores contatos, mas desta vez com a cabeça mais madura para aproveitá-los. O fim do raciocínio era simples: por que fazer isso neste país que eu desdenho, quando eu tenho o inglês, o passaporte e agora a chance de fazê-lo na Londres que eu amei?
A questão era: será que o meu trabalho tinha densidade para um mestrado? Foi um pouco por causa disso que eu comecei a realmente desenvolver e estudar as questões do Masculismo. O trabalho precisava de algum estofo teórico. Do contrário seria como a maioria dos trabalhos que estão à venda nas galerias de hoje: possívelmente belos, mas completamente vazios. Nada que entre para a história da arte, nada que mude alguma coisa.
E tome seis meses de correr atrás de documentos, estudar o Masculismo, elaborar um projeto, montar portfólio. Até tirei férias da agência: precisava de dedicação total.
Como tudo na vida de paulista, às duas da manhã de hoje eu estava terminando a montagem de portfólio. Tudo sempre deixado para o último momento por causa de outras coisas mais urgentes. A idéia era varar a noite se fossse preciso. Mas pelo menos um pouco de disciplina eu tenho, e consegui terminar ainda com algumas horas de sono tranquilo.
13:45 de hoje. O entrevistador chega atrasado (e ele é que é britânico...). E ao final de meia hora estranhamente calma para mim, trocando citações de artistas interessantes e da situação masculina atual, ele me dá um "high-five" como elogio, dizendo que foi uma das entrevistas mais interessantes que ele fez até agora. E isso que ele já esteve em duas outras cidades.
É uma sensação maravilhosa: você sente que daqui em diante pode fazer tudo, que o sucesso é garantido e você é invencível. Sabe quando você realmente percebe que aquele é o seu meio, o assunto que você domina? Não é convencional ou uma saída fácil como ser empresário, mas é meu e eu fui feito para isso. Certamente mais do que para a publicidade.
Até o dia 15, deverei ter uma versão digital do meu portfolio para mandar para Londres com o entrevistador. Mas por hoje chega. Estou terminando esta corrida de mais de seis meses e hoje só quero gozar deste momento de triunfo...
========================
If I were to write here that this is where it all began, I'd be lying.
A little over a year ago, already unsatisfied with the way my life had turned out (and it hasn't actually changed since...), I got word of an exchange program fair happening close to the agency. My visit brought nothing of interest. These fairs are usually devoted to business students and such. I took a few flyers of art courses and headed for the exit, ready to forget it all. At the door, a stand gave out flyers for the British Council.
Fast-forward: six months later I was watching lectures on the Academy of the Arts London, which counted amidst it's graduates personal idols of mine like Anish Kapoor and Lucian Freud. The range of courses was huge: from language courses to exchange programs in graduation, extension courses and even master's degrees. I have two graduate degrees already, so a post-grad course would be the thing for me.
The logic was fairly simple: if advertising never gave me professional satisfaction nor money, I was going back to the arts. If I was going to be paid very little on both, I would rather be an artist than a half-assed art assistant. At least I'd get some personal satisfaction. But the only way to make a new career in arts would be if I went back to the chances and momentum I had in college. The master's degree seemed like the best oportunity to go back to the academy and make new and better contacts, only this time with the maturity to acknowledge and use them. The closing statement in that logic was obvious: why do all that in this god forsaken country when I had the English, the passport and now the chance to do it in my beloved London?
The question was: was my work dense enough for a master's? That was one of the reasons why I started to actually develop and study the matters of Masculism. My work needed some theory to back it up. Otherwise it would be like most of the works for sale in the galleries today: possibly beautiful, but completely empty. Nothing that would make it into the history books, nothing that would change anything.
Then came six months of chasing documents, estudying Masculism, drafting a project, building a portfolio. I even went on vacations at the agency: I needed my full attention on this.
Like everything in the life of the denizens of this city, this project was running late. And at 2a.m. this morning I was still giving my portfolio it's final touches. Everything here is always postponed due to other urgencies. I would stay up all night if I had to. Luckily, my discipline allowed me to finish on time and get a few hours of untroubled sleep.
13:45 today. The interviewer arrives late (and he's the British here...). And at the end of half-an-hour of strangely calm chatter, jousting quotations of interesting artists and the general male situation today, he high-fives me as a compliment, saying it was one of the most interesting interviews he had so far. And he had already been to two other cities.
It's a wonderful feeling: you feel you can do anything from then on, success is guaranteed and you are invincible. Have you ever felt that this was your medium, the subject you know like the palm of your hand? It isn't a conventional and easy answer to a life, like being a businessman on a big company, but it's mine and I was made for this. At least certainly more than I was made for advertising.
I need to have a digitl version of my portfolio done by April 15th to send to London with the interviewer. But enough excitement for today. This is the end of a long six months and today I just want to bask in the glow of this moment.
Há pouco mais de um ano, já desiludido e insatisfeito com a minha vida na época (que não mudou muito até hoje...), fiquei sabendo de uma feira de intercâmbio perto da agência. Apareci por lá e não vi nada tão interessante. Essas feiras normalmente são voltadas para pessoas em áreas mais corporativas, estudantes de administração, coisas assim. Peguei alguns folhetos de faculdade com cursos de arte e me dirigi à saída, pronto para esquecer de tudo. Na porta, uma barraquinha distribuía folhetos do consulado britânico.
Acelerando a história: seis meses depois eu estava assistindo palestras sobre a Academy of the Arts em Londres, uma faculdade de arte que formou, entre outro, Anish Kapoor e Lucian Freud, dois dos meus ídolos. A gama de cursos possíveis era imensa: de cursos de idiomas, passando por intercâmbios de graduação, cursos de extensão e até mestrados. Graduações, eu já tenho duas. Restava-me a pós.
O raciocínio era relativamente simples: se a publicidade não me deu satisfação profissional nem dinheiro, eu ia voltar ao âmbito das artes. Se eu ia ganhar pouco nos dois, eu preferia ser um artista a um assistente de arte medíocre. Pelo menos a satisfação pessoal eu garantiria. Mas a única forma de fazer isso e se dar relativamente bem seria voltar a ter as chances e o momento que eu desperdicei na faculdade. A pós-graduação apareceu então como uma oportunidade de voltar ao ambiente acadêmico e fazer novos e melhores contatos, mas desta vez com a cabeça mais madura para aproveitá-los. O fim do raciocínio era simples: por que fazer isso neste país que eu desdenho, quando eu tenho o inglês, o passaporte e agora a chance de fazê-lo na Londres que eu amei?
A questão era: será que o meu trabalho tinha densidade para um mestrado? Foi um pouco por causa disso que eu comecei a realmente desenvolver e estudar as questões do Masculismo. O trabalho precisava de algum estofo teórico. Do contrário seria como a maioria dos trabalhos que estão à venda nas galerias de hoje: possívelmente belos, mas completamente vazios. Nada que entre para a história da arte, nada que mude alguma coisa.
E tome seis meses de correr atrás de documentos, estudar o Masculismo, elaborar um projeto, montar portfólio. Até tirei férias da agência: precisava de dedicação total.
Como tudo na vida de paulista, às duas da manhã de hoje eu estava terminando a montagem de portfólio. Tudo sempre deixado para o último momento por causa de outras coisas mais urgentes. A idéia era varar a noite se fossse preciso. Mas pelo menos um pouco de disciplina eu tenho, e consegui terminar ainda com algumas horas de sono tranquilo.
13:45 de hoje. O entrevistador chega atrasado (e ele é que é britânico...). E ao final de meia hora estranhamente calma para mim, trocando citações de artistas interessantes e da situação masculina atual, ele me dá um "high-five" como elogio, dizendo que foi uma das entrevistas mais interessantes que ele fez até agora. E isso que ele já esteve em duas outras cidades.
É uma sensação maravilhosa: você sente que daqui em diante pode fazer tudo, que o sucesso é garantido e você é invencível. Sabe quando você realmente percebe que aquele é o seu meio, o assunto que você domina? Não é convencional ou uma saída fácil como ser empresário, mas é meu e eu fui feito para isso. Certamente mais do que para a publicidade.
Até o dia 15, deverei ter uma versão digital do meu portfolio para mandar para Londres com o entrevistador. Mas por hoje chega. Estou terminando esta corrida de mais de seis meses e hoje só quero gozar deste momento de triunfo...
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If I were to write here that this is where it all began, I'd be lying.
A little over a year ago, already unsatisfied with the way my life had turned out (and it hasn't actually changed since...), I got word of an exchange program fair happening close to the agency. My visit brought nothing of interest. These fairs are usually devoted to business students and such. I took a few flyers of art courses and headed for the exit, ready to forget it all. At the door, a stand gave out flyers for the British Council.
Fast-forward: six months later I was watching lectures on the Academy of the Arts London, which counted amidst it's graduates personal idols of mine like Anish Kapoor and Lucian Freud. The range of courses was huge: from language courses to exchange programs in graduation, extension courses and even master's degrees. I have two graduate degrees already, so a post-grad course would be the thing for me.
The logic was fairly simple: if advertising never gave me professional satisfaction nor money, I was going back to the arts. If I was going to be paid very little on both, I would rather be an artist than a half-assed art assistant. At least I'd get some personal satisfaction. But the only way to make a new career in arts would be if I went back to the chances and momentum I had in college. The master's degree seemed like the best oportunity to go back to the academy and make new and better contacts, only this time with the maturity to acknowledge and use them. The closing statement in that logic was obvious: why do all that in this god forsaken country when I had the English, the passport and now the chance to do it in my beloved London?
The question was: was my work dense enough for a master's? That was one of the reasons why I started to actually develop and study the matters of Masculism. My work needed some theory to back it up. Otherwise it would be like most of the works for sale in the galleries today: possibly beautiful, but completely empty. Nothing that would make it into the history books, nothing that would change anything.
Then came six months of chasing documents, estudying Masculism, drafting a project, building a portfolio. I even went on vacations at the agency: I needed my full attention on this.
Like everything in the life of the denizens of this city, this project was running late. And at 2a.m. this morning I was still giving my portfolio it's final touches. Everything here is always postponed due to other urgencies. I would stay up all night if I had to. Luckily, my discipline allowed me to finish on time and get a few hours of untroubled sleep.
13:45 today. The interviewer arrives late (and he's the British here...). And at the end of half-an-hour of strangely calm chatter, jousting quotations of interesting artists and the general male situation today, he high-fives me as a compliment, saying it was one of the most interesting interviews he had so far. And he had already been to two other cities.
It's a wonderful feeling: you feel you can do anything from then on, success is guaranteed and you are invincible. Have you ever felt that this was your medium, the subject you know like the palm of your hand? It isn't a conventional and easy answer to a life, like being a businessman on a big company, but it's mine and I was made for this. At least certainly more than I was made for advertising.
I need to have a digitl version of my portfolio done by April 15th to send to London with the interviewer. But enough excitement for today. This is the end of a long six months and today I just want to bask in the glow of this moment.
quarta-feira, março 18, 2009
Aulas!
Divulguem, divulguem!
E aproveitem, porque não sei quando que eu vou ter outra oportunidade de dar uma dessas!

Prestem atenção: os R$200 são para DOIS MESES de aulas. Tá mais barato do que parece!
E aproveitem, porque não sei quando que eu vou ter outra oportunidade de dar uma dessas!
Prestem atenção: os R$200 são para DOIS MESES de aulas. Tá mais barato do que parece!
terça-feira, março 17, 2009
Privacidade
Nota curta.
Vi nessa semana uma conhecida revista que publicou uma matéria sobre o Twitter, mencionando todas as velhas questões sobre privacidade e exposição na web, e como esta geração atual é uma vítima ao ter sua vida pessoal escancarada na rede.
Caros editores, ninguém está apontando uma arma na cabeça de ninguém e mandando escrever intimidades nas redes sociais. Os fatos estão lá porque os donos desses perfis os colocaram lá. Ninguém é exatamente vítima. Se não quer a invasão de privacidade, faça um perfil bem enxuto, desses que não dizem nada e nem têm foto. Se não quer que o outro saiba do seu pretê, ou que o chefe saiba o quão depravado você é nas horas vagas, não escreva a respeito! Quem tá na chuva é pra se molhar!
Cansei desse papinho...
Vi nessa semana uma conhecida revista que publicou uma matéria sobre o Twitter, mencionando todas as velhas questões sobre privacidade e exposição na web, e como esta geração atual é uma vítima ao ter sua vida pessoal escancarada na rede.
Caros editores, ninguém está apontando uma arma na cabeça de ninguém e mandando escrever intimidades nas redes sociais. Os fatos estão lá porque os donos desses perfis os colocaram lá. Ninguém é exatamente vítima. Se não quer a invasão de privacidade, faça um perfil bem enxuto, desses que não dizem nada e nem têm foto. Se não quer que o outro saiba do seu pretê, ou que o chefe saiba o quão depravado você é nas horas vagas, não escreva a respeito! Quem tá na chuva é pra se molhar!
Cansei desse papinho...
Atualizando
Meu blog sempre anda algumas semanas atrás dos acontecimentos, porque suponho que seja mais importante viver do que nerdear por aqui. Então, hora de atualizar os fatos!
Alguns de vocês já conhecem a história toda: logo depois que voltei da Argentina, passei na casa da Lexy pra resolvermos a contabilidade da viagem. Na saída, roubaram meu carro. Assim, do nada. Ele simplesmente não estava mais lá quando voltei. Estava parado na frente do prédio, sob vigilância das câmeras, trancado e com trava de câmbio e rastreador. E sumiu. Suspeitei de trabalho de profissional, que sabia tirar trava e desativar rastreador. Dei o carro como perdido.
Pra encurtar a história, ele foi encontrado quatro dias depois, há alguns quarteirões de onde tinha sido levado. Fora a fechadura da porta arrombada e o suposto rastreador sumido, estava do jeito que eu o deixara. Até a trava de câmbio ainda estava no lugar. O meliante dirigiu o carro por alguns quarteirões em marcha reversa, e abandonou-o quando percebeu que ficaria muito ridículo e suspeito andar de ré por aí até o desmanche.
Ou seja, voltei a ter carro. Tenho certas limitações até conseguir consertar a fechadura, mas pelo menos ele está aqui. E no entanto, essa história toda serviu para fazer pensar. Passei a tomar ainda mais o ônibus. Descobri que o Google Maps sugere linhas de ônibus com assustadora precisão. Comecei a andar por São Paulo cobrindo longas distâncias como eu fazia na Europa e recentemente na Argentina. Eu gosto de andar. E passei a encorajar outros a fazerem o mesmo. A dependerem menos do próprio carro ou da carona, a andar mais.
E nessas andanças vi daqueles personagens que só se vê nas cidades grandes. A velha indigente da Augusta que passa o dia subindo e descendo a rua, gritando em um gromelô incompreensível que soa como briga de gato. A oriental sem pernas que continua sentada em frente ao mesmo local da Paulista balançando o potinho com moedas desde que eu fazia a faculdade de artes. A nigeriana com um pedaço de pano amarrado em volta da cabeça, entre o nariz e a boca, parecendo um bigode de tecido. E não são só os mendigos. Tem as modeletes esguias andando na Oscar Freire, ex-colegas de faculdade que eu encontro no ônibus e até um quarteto de cordas completo tocando em frente à estação de metrô da Consolação.
A cidade tem suas peculiaridades. E a gente perde muito de dentro do carro.
Alguns de vocês já conhecem a história toda: logo depois que voltei da Argentina, passei na casa da Lexy pra resolvermos a contabilidade da viagem. Na saída, roubaram meu carro. Assim, do nada. Ele simplesmente não estava mais lá quando voltei. Estava parado na frente do prédio, sob vigilância das câmeras, trancado e com trava de câmbio e rastreador. E sumiu. Suspeitei de trabalho de profissional, que sabia tirar trava e desativar rastreador. Dei o carro como perdido.
Pra encurtar a história, ele foi encontrado quatro dias depois, há alguns quarteirões de onde tinha sido levado. Fora a fechadura da porta arrombada e o suposto rastreador sumido, estava do jeito que eu o deixara. Até a trava de câmbio ainda estava no lugar. O meliante dirigiu o carro por alguns quarteirões em marcha reversa, e abandonou-o quando percebeu que ficaria muito ridículo e suspeito andar de ré por aí até o desmanche.
Ou seja, voltei a ter carro. Tenho certas limitações até conseguir consertar a fechadura, mas pelo menos ele está aqui. E no entanto, essa história toda serviu para fazer pensar. Passei a tomar ainda mais o ônibus. Descobri que o Google Maps sugere linhas de ônibus com assustadora precisão. Comecei a andar por São Paulo cobrindo longas distâncias como eu fazia na Europa e recentemente na Argentina. Eu gosto de andar. E passei a encorajar outros a fazerem o mesmo. A dependerem menos do próprio carro ou da carona, a andar mais.
E nessas andanças vi daqueles personagens que só se vê nas cidades grandes. A velha indigente da Augusta que passa o dia subindo e descendo a rua, gritando em um gromelô incompreensível que soa como briga de gato. A oriental sem pernas que continua sentada em frente ao mesmo local da Paulista balançando o potinho com moedas desde que eu fazia a faculdade de artes. A nigeriana com um pedaço de pano amarrado em volta da cabeça, entre o nariz e a boca, parecendo um bigode de tecido. E não são só os mendigos. Tem as modeletes esguias andando na Oscar Freire, ex-colegas de faculdade que eu encontro no ônibus e até um quarteto de cordas completo tocando em frente à estação de metrô da Consolação.
A cidade tem suas peculiaridades. E a gente perde muito de dentro do carro.
quinta-feira, março 05, 2009
Matthew Barney na Escola São Paulo
O americano Matthew Barney divide com o inglês Damien Hirst o título de artista mais influente de sua geração. Mas é difícil compreender seu trabalho tomando apenas uma das obras. Dora me apresentou os trabalhos de Barney em 2002, por meio de seu ciclo de vídeos Cremaster. O termo que dá nome ao ciclo refere-se a um músculo que provoca a descida das gônadas para fora do corpo do embrião masculino em vez de subir no feminino, sendo o acontecimento que define o sexo do feto em formação. O ciclo é composto de cinco vídeos que são uma colagem de imagens muitas vezes bizarras e perturbadoras e que fazem contínua alusão à diferenciação entre os sexos.
O Cremaster ficou conhecido como o trabalho mais famoso de Barney. Pessoalmente, aprendi muito com ele. Sobre mitologia pessoal, criação de sentido através da insistência, simbologia e outras coisas. Mas não vou esmiuçar tudo por aqui, porque a exposição da Escola São Paulo evitou o ciclo. Há livros a respeito e uma ou outra referência, mas no geral, os trabalhos colocados lá falam de outra série de Barney que eu acho filosoficamente mais importante: o Drawing Restraint.
Barney era um atleta na faculdade. Jogava futebol americano e fazia luta greco-romana. Quando resolveu ingressar no curso de arte da faculdade de Yale, trouxe um pouco do conceito de superação de limites físicos do esporte para seu trabalho. Passou a fazer performances onde ele criava impedimentos, tensões e obstáculos para o simples ato de desenhar. Desenhava pendurado no teto, ou tensionado por um elástico que o puxava para longe do desenho, ou saltando de uma cama elástica. Daí os vários sentidos do título da série: "drawing" pode ser compreendido como substantivo (desenho) ou verbo (desenhando) ou ainda outro verbo (atraindo, delimitando, produzindo); enquanto "restraint" também pode ser substrantivo (restrição, obstáculo, limite) e verbo (restrito, amarrado, impedido). "Desenho restringido", "desenhando limite", "delimitando restrições".
É difícil escrever sobre ele sem entediá-los com detalhes muito abstratos ou deixar de fora detalhes importantes. Mas quem sabe uma visita à exposição esclareça bastante coisa. Se alguém topar, eu me ofereço de guia!
MOSTRA MATTHEW BARNEY
De 3 a 13 de março, seg a sex das 10h às 22h, sab de 10 às 19h com sessões às 12h, 16h, 18h e 20h
Escola São Paulo: Rua Augusta, 2239 - Metrô Consolação - São Paulo - SP - Brasil - CEP 01413-000
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