quinta-feira, setembro 11, 2014

Para Sabrina, sobre ansiedade


Primeiro, adorei que você me escreveu pra perguntar sobre ansiedade em resposta ao texto sobre depressão. Faz muito bem para nós saber que o nosso conhecimento e experiência de vida podem realmente ajudar alguém para além "daquilo que cai no vestibular". 
Eu demorei um pouco pra responder (o que, para uma pessoa ansiosa pode ser terrível, eu sei), porque sempre que eu começava, eu me pegava contando toda a minha história de vida e de como e porque eu tive ansiedade, em vez de entrar logo no assunto como eu fiz com o texto da depressão. É mais difícil pra mim falar sobre isso, porque minha perspectiva é muito de dentro do problema. Com a depressão foi mais fácil, porque eu era um espectador assistido ao drama, sem participar dele. Mas vamos tentar... 

"Solitaire" (2004)
óleo sobre madeira
A respeito da vontade
de não sentir nada
Eu não sou especialista nesses transtornos. Sou apenas alguém com alguma sensibilidade que observa essas coisas. Mas eu frequentemente penso na ansiedade como o oposto completo da depressão. Onde a depressão é uma falta de sentido e de sentimento na vida, a ansiedade é um excesso muito violento de sentimentos e significados imaginados, quase paranóicos em relação a tudo. Você sente demais, você conjectura demais, você atribui significados demais a coisas que talvez não tenham significado nenhum. Tudo parece ter consequências pesadas demais que PRECISAM ser consideradas (ênfase no "parece")! Faz sentido? Nas épocas de crise, tudo que eu queria era poder não sentir nada... 

Bom, eu vejo que não vou conseguir falar do assunto sem falar da minha experiência. Então, pra resumir e tirar logo do caminho a minha história, eu tive uma adolescência de me mudar bastante, viajar muito, começar de novo algumas tantas vezes. Esse movimento todo gerou na minha cabeça uma auto-avaliação constante: será que eu estou agindo certo? A pergunta, na verdade, era "será que eu estou sendo normal"? Ela me afetava bastante, porque moramos fora do Brasil, e como estrangeiro você se pergunta isso bastante. Achei importante falar desse questionamento e auto-avaliação, porque nele está uma das bases da ansiedade (pelo menos do modo como eu a encarei): a ideia de que os outros esperam algo de nós. Esperam que tenhamos determinadas atitudes, que nos encaixemos em determinados estilos, que tenhamos determinados objetivos de vida. Nós não sabemos ao certo o que acontece com quem não corresponde a essas expectativas todas, sabemos apenas que queremos corresponder. Queremos que os outros gostem de nós. Isso é muito importante, mas eu volto a isso daqui a pouco... 

"Sickness" (2004)
Óleo sobre tela
A respeito do enjôo
Me chamou muito a atenção duas coisas que você escreveu: primeiro que você acha que os outros devem te achar muito estranha. E depois, que você tem pavor da ideia de vomitar em público. Essas duas coisas foram muito parte da minha história também. A ansiedade se manifesta em cada pessoa de formas muito diferentes. Pra mim, ela começou com crises de amidalite antes de cada viagem que a família fazia ou provas na escola. Depois, na adolescência, ela mudou para algo mais pontual e instantâneo, um enjôo forte que acontecia em toda balada, toda situação social onde eu achava que estava sendo julgado (ênfase no "achava", porque ninguém estava prestando a mínima atenção em mim...). Ele atacava de repente, as coisas literalmente perdiam a cor, a graça, eu sentia o sangue fugir do meu rosto (devia estar ficando pálido), perdia as forças e começava a me concentrar apenas nesse enjôo. Só existia o enjôo. 
Eu tinha muito medo de mostrar aos outros que eu estava passando mal. Medo como o seu, de me acharem estranho, incapaz de fazer algo tão banal quanto se divertir em uma balada. E isso, claro, alimentava o ciclo (ansiedade dá enjôo, que me dá medo, que gera mais ansiedade, que dá mais enjôo, que gera mais medo...).Então, durante MUITO tempo, eu escondi isso. Eu passei mal sozinho. Tinha ainda mais medo de vomitar em público também. E cheguei a fazê-lo apenas uma vez por causa de ansiedade, em um hotel onde passávamos férias. Bem no saguão do hotel, enquanto eu procurava desesperadamente por um banheiro. O mais importante desse episódio foi que ele não foi o fim do mundo. Ele não significou NADA. Ninguém sequer lembrava disso no dia seguinte.

As coisas pioraram muito antes de melhorarem. O vestibular me levou ao pior período de ansiedade. Porque eu achava que todo mundo esperava que eu passasse direto. Porque eu achava que esperavam que eu fizesse USP. Porque eu achava que esperavam que eu tivesse uma "carreira de verdade" além das artes plásticas. Eu achava que esperavam muito de mim. De novo, ênfase em todos esses "achava". Minha ansiedade alcançou picos insuportáveis. Eu comecei a pensar que eu teria que lidar com ela a vida toda. Eu comecei a imaginar outros 50, 60 anos de enjôos e sentimentos de inadequação. Eu comecei a cogitar dar um fim nisso mais cedo... 

E foi aí que eu procurei ajuda. 

Eu comecei terapia já em um ponto em que a cadeia de raciocínio era tão automática, que o primeiro sinal de enjôo já disparava pensamentos de morte. A terapia me ajudou primeiramente dando um nome a isso que eu sentia (até então, eu apelidava isso de "a síndrome", porque não sabia que era ansiedade...). Depois, me ajudou a entender qual era o peso disso que eu achava que os outros esperavam de mim. Por último, me ajudou a entender que ninguém esperava nada de mim. A única pessoa que esperava algo de mim era eu mesmo. E eu conseguia negociar comigo mesmo. 
Eu considero que me curei de fato quando viajei pela primeira vez, sozinho, para a Europa. Poderia ter sido Ásia, África, ou até aqui do lado, em Sergipe ou Espírito Santo. O que importou foi que eu viajei sozinho. E me hospedei em um lugar onde eu era sim estrangeiro, em meio a muitos outros estrangeiros. Todo mundo agia diferente e não tinha um "normal". Mais do que isso, ninguém tinha ouvido falar de Bandeirantes, de USP, de FAAP (eu acabei fazendo DUAS faculdades por causa disso tudo...). Eu não era nem classe média-alta. Eu era nada. E como nada, eu podia ser tudo. E em um lugar onde todos eram estrangeiros, eu podia agir como eu quisesse e querer o que eu quisesse. 

Eu nunca me senti tão leve... 

Depois dessa viagem, eu compreendi algumas coisas. Primeiro, o poder de entender que ninguém esperava nada de mim. Nem os meus pais esperavam algo de mim de fato: eles queriam apenas que eu fosse feliz e auto-suficiente (se isso ia ser alcançado como artista plástico, arquiteto, vendedor de sapatos ou camelô da 25 de Março, não importava...). Eu que tinha que gostar de mim mesmo e do que eu fazia, não os outros. Comecei a estudar coisas de meu interesse e a mudar meu visual para algo que eu gostasse. Parei de ir nas baladas que os meus amigos iam e procurei outras onde eu pudesse fazer coisas que eu gostava (karaokê, baladas de gótico, etc...). Danem-se os outros. 
Depois, entendi que ser estranho e único me tornava muito mais interessante do que todo mundo que queria ser "normal". E isso tem uma ressonância muito peculiar na adolescência: você quer fazer parte do Bando e ser normal, mas ao mesmo tempo quer ser único e melhor do que os outros. Essa tensão é o que gera a ansiedade. Eu escolhi ser diferentão mesmo. E me orgulhar disso. A barba esquisita é parte desse processo, aliás... 
Por último, eu entendi que revelar isso aos meus amigos de confiança e pedir ajuda nas horas mais tensas aliviava MUITO o peso disso tudo. Tive namoradas que sentaram comigo no canto das baladas até o enjôo passar, amigos que conversavam comigo sobre outras coisas para me distrair da auto-avaliação, pais que me contaram suas próprias histórias de ansiedade. Mas sendo que você já me procurou pra pedir ajuda, acho que não preciso enfatizar essa parte! Você fez muito bem em fazer isso! 

Então, pra fechar esse texto enorme: ninguém espera nada de você. Seja você mesma, diferente, única, estranha e maravilhosa. Converse consigo mesma para entender do que você gosta, use as suas roupas com vontade e com orgulho, considere no Ensino Médio as carreiras que te fascinam e não apenas as que dão dinheiro (o dinheiro vem para quem é apaixonado pelo que faz - vide eu que estou ganhando a vida com arte). 

As coisas não têm todo esse peso, importância e significado que você acha que elas têm. Seja leve.