quinta-feira, março 27, 2008

Diferenças sutis

Curiosamente, recebi esta no trabalho...

No presídio
Você passa a maior parte do tempo numa cela 5x6m.
No trabalho
Você passa a maior parte do tempo numa sala 3x4m.

No presídio
Você recebe três refeições por dia de graça.
No trabalho
Você só tem uma, no horário de almoço, e tem que pagar por ela.

No presídio
Você é liberado por bom comportamento.
No trabalho
Você ganha mais trabalho com bom comportamento.

No presídio
Um guarda abre e fecha todas as portas para você.
No trabalho
Você mesmo deve abrir as portas, se não for barrado pela segurança por ter esquecido o crachá.

No presídio
Você assiste TV e joga baralho, bola, dama...
No trabalho
Você é demitido se assistir TV e jogar qualquer coisa.

No presídio
Você pode receber a visita de amigos e parentes.
No trabalho
Você não tem nem tempo de lembrar deles.

No presídio
Todas as despesas são pagas pelos contribuintes, sem seu esforço.
No trabalho
Você tem que pagar todas as suas despesas e ainda paga impostos e taxas deduzidas de seu salário, que servem para cobrir despesas dos presos..

No presídio
Algumas vezes aparecem carcereiros sádicos...
No trabalho
Aqui no trabalho, carcereiros usam nomes específicos: Gerente,Diretor, Chefe...

No presídio
Você tem todo o tempo para ler piadinhas.
No trabalho
Ah, se te pegarem...

TEMPO DE PENA
No presídio, eles saem em 15 anos (máximo).
No trabalho você tem que cumprir 35
anos, e não adianta ter bom comportamento.

terça-feira, março 25, 2008

Ateliê do Paulo Pasta

Sempre falei que minha turma da faculdade de artes foi prejudicada no quesito de aulas de pintura. Aliás, foi essa alfinetada em particular que diminuiu a minha nota durante a banca de graduação do meu trabalho final. Desde que saí da faculdade, passei a procurar de vez em quando esses professores de pintura que não chegaram a me dar aulas, mas que eu gostaria de conhecer. Um deles era o Paulo Pasta. Visitei seu ateliê perto do Elevado Costa e Silve junto com um grupo interessante do MAM que tenho acompanhado graças à ajuda da mãe de Taís, que tem me mantido a par dos eventos do grupo.

O professor nos guiou por toda sua trajetória. Do início meio paisagista dos anos 80 até a abstração atual. O começo tinha referência clara em De Chirico. Mas depois, à medida que os planos iam ficando com cores cada vez mais homogêneas, pensei em Hockney. Ele disse que nunca tinha cogitado Hockney como referência e que não se identificava com o pop. Ainda assim, eu não conseguia deixar de ver uma ressonância. Eu enxergva as telas gigantescas do professor espalhadas pelo ateliê e via vastas extensões de tinta homogênea, lisa. E então chegava mais perto das telas e percebia as pinceladas, a rapidez afoita. Tinha sido assim quando vi a Bigger Splash A Bigger Splash, by David Hockney do Hockney: de repente perceber que aquilo que eu via nos livros como perfeitamente liso era na verdade bem irregular e que talvez essa preocupação de alisar as cores até a perfeição fosse obssessão só da minha pintura mesmo.
De qualquer forma, nada disso parecia ser a preocupação do Paulo Pasta. Ele tinha uma procura por pintar o espaço. Espaço mesmo, ausência de coisas, a distância vazia entre elementos de formas aleatórias e desimportantes. Sua vontade era tanta, que em determinada pintura ele havia carregado o espaço vazio em volta de uma forma de pião com tanta tinta que inverteu minha percepção de figura e fundo: o pião no espaçio vazio tornara-se um buraco na matéria densa.
E as cores... Ele valorizava as cores como alguém que gostava de Rothko. Extensos planos de uma única cor. E as cores dele combinavam com ele. Porque ele era calmo, tranquilo, seguro e sem conflitos. E suas cores tendiam para não se diferenciarem muito no mesmo quadro, apenas variações mínimas do mesmo tom. Ele mesmo comentava que gostava dos dias cinzentos, das coisas que não são nem aqui e nem lá, da homogeneidade. Do silêncio (que o vizinho mecânico de automóveis não permitia...).

Pessoalmente, eu fui logo perguntar sobre aspectos técnicos. Ele conseguia uma textura aveludada deliciosa nas cores. Uma ausência quase total de relexos. Depois fui descobrir que ele pintava com uma mistura de tinta a óleo e um preparado de cera de abelha e terebentina que tornava a tinta mais opaca. Fiquei com vontade de experimentar.
Ele pintava sobre papel e tela com igual veemência, mas admitia que o papel intimidava menos e permitia mais liberdade.

Terminamos por fim comentando sobre liberdade. Saturado de pinturas geométricas, ele tentara por um tempo cair em formas mais orgânicas, para tentar ter menos controle, precisar de menos controle. E disse que a obsessão por controle era de fato a obssessão com o medo de falhar e, por último, o medo da morte. Pensei muito a respeito depois. Porque sempre criticaram muito a minha obssessão por controle. Mas cheguei à conclusão que esse processo gradual de perder a obssessão, permitir o descontrole, é algo para o qual se deve amadurecer, algo que deve ser empreendido por vontade própria e não por obrigação. E eu ainda não senti essa necesidade.

segunda-feira, março 17, 2008

Alguém me explique o que está acontecendo.
Semanas antes do meu aniversário do ano passado, me involvo em outro acidente de carro. Pouco mais de um mês depois, durante minhas férias na praia, sou assaltado e levam minha câmera. Hoje à noite, na véspera de levar meu carro à concessionária para trocar por outro, entortam minha porta e levam o aparelho de som e meu celular (descuido imbecil, eu sei...). A fechadura do console estava quebrada e tive dificuldade para dar a partida, mas eventualmente consegui fazê-lo funcionar.
Eu estava para escrever sobre meu carro por aqui, por estar prestes a trocá-lo depois de oito anos relativamente tranquilos (descontados os três acidentes...). Nunca tinham roubado ou furtado meu carro. No dia anterior, eu tinha feito manha com a Lexy porque não queria estacionar em frente a uma guia rebaixada de um estabelecimento fechado perto da casa dela. Tinha medo que a minha infinita zica para assuntos automotivos me valesse a última multa do meu carro logo no último fim de semana dele. Agora aquilo me parece tolice. Deveria sim ter colocado o carro em algum estacionamento enquanto estava no ensaio da banda hoje à noite. Ou mesmo ter deixado a paranóia invadir e pedido que algum dos rapazes me desse carona.
Que bela despedida do carro...

Prometi a Lexy de passar em uma igreja ou qualquer coisa pra tentar tirar a zica. Porque já estou ficando com medo de sair de casa.

sexta-feira, março 14, 2008

Bushido

Uma companheira de agência comentou hoje sobre o modo como eu repito minha rotina diária de forma quase idêntica todos os dias. Alguns horários variam, mas a sequência das ações é a mesma. Chegou até a cantarolar a música do Chico Buarque.
Eu estava, naquele momento, começando o longo processo de fazer o chá gelado que tomo quando trago almoço de casa. De fato, esses detalhes da rotina têm adquirido uma consistência que para alguns seria angustiante: chegar na agência e deixar a comida na geladeira, preparar o chá e deixá-lo esfriar na mesa, colocá-lo na geladeira uma hora antes do almoço, almoçar, fazer uma pausa à tarde para esticar as pernas e fazer a toalete, recolher as marmitas, aprontar a comida para o dia seguinte quando chego em casa. Tudo feito em uma sequência de movimentos quase igual todos os dias.

Expliquei à minha colega de trabalho uma parte da filosofia japonesa do bushido. O samurai japonês treina determinadas coisas repetindo o movimento à exaustão. Ele executa cada ciclo com pequenas mudanças em relação ao ciclo anterior. Coisas às vezes imperceptíveis, mas que tornam o resultado final um pouco mais eficiente (menor gasto, maior resultado ou precisão). Dizem que os japoneses aplicam essa filosofia a todos os âmbitos da vida. Não sou japonês, mas gostei da idéia. Hoje ela está no modo como eu faço a cama pela manhã, tomo o ônibus para o trabalho, vasculho a internet por novidades. E no modo como faço o meu chá.

sábado, março 08, 2008

Feliz dia das mulheres!

Lembro que, há alguns anos, postei o Manifesto Masculinista como um ataque aos resultados "kitschenizados" do feminismo. Esses dias, recebi um Power Point que estou transcrevendo abaixo. Muita gente vai se revoltar, mas não vai poder deixar de concordar que faz algum sentido... Feliz dia das mulheres!

São 6h00.O despertador canta de galo e eu não tenho forças nem para atirá-lo contra a parede. Estou tão cansada, não queria ter que trabalhar hoje. Quero ficar em casa, cozinhando, ouvindo música, cantarolando, até.

Se tivesse cachorro, passeando pelas redondezas. Aquário? Olhando os peixinhos nadarem. Espaço? Fazendo alongamento. Leite condensado? Brigadeiro... Tudo menos sair da cama, engatar uma primeira e colocar o cérebro pra funcionar.

Gostaria de saber quem foi a mentecapta, a matriz das feministas que teve a infeliz idéia de reivindicar direitos à mulher e por quê ela fez isso conosco que nascemos depois dela.

Estava tudo tão bom no tempo das nossas avós, elas passavam o dia a bordar, trocar receitas com as amigas, ensinando-se mutuamente segredos de molhos temperos, de remédios caseiros, lendo bons livros das bibliotecas, dos maridos, decorando a casa, podando árvores, plantando flores, colhendo legumes das hortas, educando as crianças, freqüentando saraus, a vida era um grande curso de artesanato, medicina alternativa e culinária.

Aí vem uma “fulaninha” qualquer, que não gostava de sutiã nem tão pouco de espartilho, e contamina as várias outras rebeldes inconseqüentes com idéias mirabolantes sobre "vamos conquistar o nosso espaço". Que espaço, minha filha???!!!!! Você já tinha a casa inteira, o bairro todo, o mundo aos seus pés.

Detinha o domínio completo sobre os homens, eles dependiam de você para comer, vestir, e se exibir para os amigos, que raio de direitos requerer? Agora eles estão aí, todos confusos, não sabem mais que papéis desempenhar na sociedade, fugindo de nós como o diabo foge da cruz. Essa brincadeira de vocês acabou é nos enchendo de deveres, isso sim. E nos lançando no calabouço da solteirice aguda.

Antigamente, os casamentos duravam para sempre, tripla jornada era coisa do Bernard do vôlei - e olhe lá, porque naquela época não existia Bernard do vôlei. Por quê, me digam por quê, um sexo que tinha tudo do bom e do melhor, que só precisava ser frágil, foi se meter a competir com o macharedo? Olha o tamanho do bíceps deles, e olha o tamanho do nosso.

Tava na cara que isso não ia dar certo!!! Não agüento mais ser obrigada ao ritual diário de fazer escova, maquiar, passar hidratantes, escolher que roupa vestir, e que sapatos, acessórios usar. Que perfume combina com meu humor, nem de ter que sair correndo. Ficar engarrafada, correr risco de ser assaltada, de morrer atropelada, passar o dia reta na frente do computador, resolvendo problemas.

Somos fiscalizadas e cobradas por nós mesmas a estar sempre em forma, sem estrias, depiladas, sorridentes, cheirosas, unhas feitas, sem falar no currículo impecável, recheado de mestrados, doutorados, pós-doutorados e especializações (ufffffffffffffffffff!!!!!!!)...

Viramos super mulheres, continuamos a ganhar menos do que eles, lavar, passar,cozinhar e cuidar dos filhos da mesma forma. E ainda temos que dividir as despesas da casa.

Não era muito melhor ter ficado fazendo tricô na cadeira do balanço?

Chega, eu quero alguém que pague as minhas contas, abra a porta para eu passar, puxe a cadeira para eu sentar, me mande flores com cartões cheios de poesia, faça serenatas na minha janela (ai, meu Deus, já são 6:30h, tenho que levantar!), e tem mais, que chegue do trabalho, sente no meu sofá, e diga "meu bem, me traz uma dose de café, por favor?".

Descobri que nasci para servir. Vocês pensam que eu to ironizando????? To falando sério!!!!!!!! Estou abdicando do meu posto de mulher moderna.... Alguém se habilita?


(Autora Desconhecida)

terça-feira, março 04, 2008

Mídia: exposições

Nâo lembro se cheguei a escrever esta idéia por aqui.
Só depois de algumas exposições na Casa da Xiclet é que eu me dei conta do que ela estava fazendo e de como isso tinha um sabor de vanguarda. As exposições iniciais, em uma época na qual ela ainda não era muito conhecida e não precisava de mecanismos para peneirar grandes quantidades de artistas querendo expor, não tinham tema fixo. Ela simplesmente abria a casa, cobrando uma quantia baratíssima pela participação, e deixava que os mais diversos gêneros e estilos se misturassem a esmo. Daí passou para uma outra fase onde cada exposição recebia um título engraçadinho que fazia xacota de algum acontecimento célebre do mundinho da arte paulista, como a Bienal e seus curadores, por exemplo. Mas o simples ato de nomear cada exposição com sátiras da atualidade e o modo como ela se apresentava (uma "agitadora cultural") e apresentava os então amigos que vinham expor, gradualmente roubava a cena. O importante, a experiência que todos estavam lá para sentir, não eram mais as obras sendo expostas, mas a própria exposição em si. Ela conseguia, por meio do jeito debochado de ser, arrebanhar uma corte de artistas que igualmente adoravam uma boa sátira atual. Mas ninguém estava lá para ver as obras em si e sim para participar dessa grande obra de arte que era a exposição organizada pela Xiclet. Ela esculpia seu próprio espaço de exposição, pintava-o com as cores alheias e zelava pelos seus salões de arte como eu zelaria por uma tela em andamento. Os críticos e jornalistas sabiam disso: raríssimas vezes comentavam sobre as obras expostas, mas sempre tinham muito o que falar sobre o evento em si. A Xiclet não era uma galerista: era uma artista e sua obra maior era sua galeria e suas exposições.

O mais interessante é que essa atitude dela não era completamente nova. Os grandes museus já estavam fazendo megaexposições, com cenografia assinada por gente proeminente (e cujo nome despertava mais interesse nas socialites e intelectuais de boteco do que as obras nas paredes), muitos anos antes da Xiclet. A diferença, suponho, é que ela o fazia com um baixíssimo custo. Chamava artistas ainda em formação, que pagariam pela participação em vez de cobrar cachê, e que na maioria das vezes demonstravam uma técnica e maturidade tão iniciantes, que não roubariam a atenção da grande obra que era a exposição em si.

Claro que hoje muito mudou. A quantidade de inscritos nos salões da Xiclet aumentou de tal forma que ela, seguindo as regras básicas de oferta e demanda, aumentou os preços de inscrição para selecionar artistas pelo bolso. Duvido que ela tenha percebido, mas a estratégia tem um efeito muito benéfico: os artistas mais maduros podem bancar seus salões, enquanto a turminha da faculdade não tem grana e fica de fora. A qualidade das exposições tem aumentado. Sua popularidade não. Os jornais especializados já comentam mais sobre os artistas em si e não tanto sobre a galeria. E acredito que tenha sido justamente por isso que ela perdeu aquele caráter reacionário e vanguardista que tinha para mim. Parece estar lentamente tornando-se parte do sistema de galerias. Mesmo mantendo a cara antiga, das paredes descascando e o portão sem campainha.