Em inglês, usa-se a expressão stream of consciousness geralmente para falar do fluir das idéias, do modo como uma leva à outra, às vezes se fundindo em um raciocínio rápido e que não necessariamente segue uma lógica coerente. "Stream", aliás, é palavra usada para designar um riacho.
Pois bem, eis um exemplo típico do meu stream of consciousness atual:
Acho que eu consigo me planejar para ir comprar talheres e copos lá na 25 de Março na terça de manhã. Bom, primeiro tenho que passar no apartamento para pegar o carro: acho que deixá-lo no eletricista e pegar no fim do dia. Vejamos: um ônibus até o metro, e do metrô para a 25. Será que eu tenho crédito no Bilhete Único? Preciso estar de volta antes das 15:00 para avaliar as últimas apresentações dos meus alunos da 9a série. Ai, para tudo! Vou precisar chegar no colégio uma hora mais cedo porque esqueci de publicar na internet o gabarito do exercício que passei! Tem Wi-fi por aqui? A outra professora deve ter me mandado as respostas que ela montou. Eu sei que não vou conseguir publicar isso de casa porque hoje tenho que terminar a tradução. Peraí... Hoje tem tradução? Eu vejo isso depois. Melhor deixar uma nota no celular, ou eu vou esquecer. Aliás, já esqueci de ligar para o pessoal daquele cheque que voltou! Hoje era o último dia. Será que meu nome foi para o Serasa? A última vez que eu falei com eles foi ontem, nos intervalos das aulas de licenciatura. E por falar nisso, eu ainda não comecei aquela pesquisa sobre os diferentes tipos de escola para a aula de didática. E quando que eu vou marcar a reunião com o diretor do colégio pra falar da filosofia de ensino para essa pesquisa? A secretária dele falou pra ver um horário depois do almoço. Almoço! Eu ainda não marquei o almoço com a Bia que me escreveu. Ou o happy hour com o Laerte, que me ligou. Nem a visita à Nana pra pegar as caixas para a minha mudança. Sem falar da passada na casa do meu irmão, pra pegar o meu microfone para as aulas. Bom, no fim de semana não dá, porque tem encontro com a equipe de educação artística e com aquele filósofo/artista. Aliás, que pinturas legais as dele! E o meu ateliê continua cheio de caixas que não são minhas e com a poeira e o abandono de um ano inteiro... Aproveito quando for lá pra passar um tempo com a vovó. Poxa, estou devendo uma visita à outra vovó também! Tô morrendo de vontade de passar um tempo com elas, limpar o ateliê e voltar a pintar aquele papel giantesco que eu trouxe de Londres. Falando em afazeres artísticos, preciso terminar o desenho que eu ia mostrar para as 6as séries... E Londres! Ainda não comprei a passagem para Julho, para a cerimônia de graduação do mestrado! Pelo menos a inscrição já tá feita. Que horas são agora? Acho que ainda dá tempo de... o que é que eu ia fazer agora?
Há alguns dias, ocorreu-me o pensamento perturbador de que eu tinha deixado a publicidade porque ela estava comendo a minha vida e me deixando em um estado morto no qual eu não tinha tempo ou energia para as coisas que realmente me importavam; e que a nova rotina entre colégio, traduções, sair da casa dos pais, licenciatura e empreitadas artísticas estaria me matando do mesmo jeito. Resolvi essa angústia pensando que a publicidade me matava em prol de algo completamente irrelevante para a minha vida (e a dos outros...). A minha atual rotina pelo menos tem um sabor utilitário, relevante, pertinente. Um sabor mais acentuado de satisfação pessoal. E afinal, a única outra alternativa para esse "morrer" é eximir-me de toda e qualquer responsabilidade e não cultivar ambição alguma na vida.
Mas isso seria pior do que esse lento morrer (verbo - um pocesso). Isso seria estar morto (adjetivo - algo acabado).
Bits and pieces of my life that everyone ignores when I speak, but someone reads when I write.
terça-feira, março 27, 2012
quinta-feira, março 15, 2012
Referência
Aparentemente, com menos de dois meses de colégio, eu acabo de ser eleito a referência de uma das minhas turmas da sétima série (entre professores, funcionários, administradores e etc...) em um trabalho onde eles elegeram os adultos nos quais eles se espelham.
That is all....
That is all....
terça-feira, março 13, 2012
Educating on the Edge
O tempo passa rápido e ando com a cabeça tão ocupada por questões do meu trabalho no colégio, que não tenho calma para deitar algumas poucas linhas aqui sobre tudo o que tem acontecido por lá. Não me aborreço com isso. O fato é que, pela primeira vez desde que comecei a trabalhar (em qualquer das áreas que tentei...), estou realmente me importando com o que eu faço. Me importando em fazer o melhor trabalho possível, em encontrar soluções criativas. Vou para casa pensando no trabalho do colégio quase todos os dias. E curiosamente, me sentindo muito estimulado por isso. O estímulo não é só para ser um bom professor, mas também para fazer os próprios exercícios que eu proponho aos meus alunos. Estou desenhando meus sapatos, construíndo máquinas de fotografia rudimentares, gravando vídeos sobre a cidade, e até arriscando escrever uma marchinha de carnaval. E adorando tudo! Ainda que viva constantemente sem tempo para nada.
Devido a toda essa atividade febril, resolvi escrever sobre esse mês que se passou por aqui, em um post ao estilo dos antigos odds and ends que eu escrevia em Londres. Vamos lá:
• Há algumas semanas, mandei pela primeira vez os meus primeiros 4 alunos para a coordenação. Um misto de sentimentos: pavor deles passarem a me odiar como odiavam a professore anterior, deleite pela sensação de vingança e poder, sentimento de dever cumprido ao reestabelecer os limites e o respeito que eles estavam perdendo por mim. A coordenadora foi enfática ao me aconselhar: tem aluno que testa o professor mesmo, que inconscientemente pede para que lhe imponham limites. Na nossa conversa com os alunos, não abusei da raiva. Mostrei como o comportamento deles tinha complicado muito a avaliação para a classe inteira; salientei como eles eram brilhantes quando separados (e de fato finalizavam raciocínios bem complexos), mas que potencializavam os efeitos destrutivos um do outro quando sentavam juntos; e expliquei como eu também estivera na mesma situação, em que discutir quem estava afim de quem era muito mais interessante do que qualquer aula.
Eles já eram conhecidos da coordenação. Já sabiam os procedimentos. Eles mesmos se comprometeram a sentar separados durante as aulas, trato que eles têm cumprido. Tenho dúvidas do quanto disso são respostas prontas para evitar maiores aborrecimentos com a coordenação. Mas desde então, as aulas têm corrido bem.
Me chamou a atenção quando a coordenadora avisou para um deles que, conforme avisos anteriores, os pais dele seriam chamados desta vez. Ele se agitou na cadeira, se esforçou para conter o choro. O rapaz não fizera nada além de conversar demais e de forma inapropriada durante a aula, mas temia a reprimenda dos pais como se tivesse assaltado ou matado alguém. Passei o resto do dia pensando muito sobre essa autoridade axiomática dos pais. E sobre o meu próprio pai, que nunca me bateu ou gritou comigo, mas de quem eu sempre tive medo quando cometi meus pequenos delitos.
• Em um assunto relacionado, na licenciatura, conversamos sobre a importância do "não". Do impor limites. E de como a atual geração de pais morre de medo de ter que dizer "não" aos filhos. São pais que foram educados por pais que diziam "não porque não", sem dar razões. Acham isso absurdo e querem dialogar com os filhos. Querem ser melhores amigos dos filhos adolescentes, que estão na idade onde o que menos querem é ser os melhores amigos dos pais ("ai, pai, que mico!"). E esse querer tem consequências nefastas. Percebo isso nos quatro rapazes dos quais falei. Em outros que gritam obcenidades e impropérios no meio da explicação do professor, interrompendo da forma mais rude possível. Nos que sobem na mesa. Nos que negociam regalias absurdas com o professor. O professor não tem essa autoridade axiomática, porque os pais não a ensinaram aos filhos. Ensinaram a dialogar, a negociar. Claro, isso vai fazer muito bem a eles quando adultos, mas enquanto crianças, causa apenas situações onde eu gasto fatias cada vez maiores da aula em negociação, enquanto professores passados teriam dito "não", marcado um ponto negativo e dado o assunto por encerrado.
Claro, eu também preciso aprender a dizer não. Ainda tenho medo. Mas ando fazendo progressos. E percebendo os efeitos positivos.
De qualquer jeito, eu sei que esses pensamentos são meio conservadores e o assunto ainda dá muito pano pra manga...
• Como conciliar a necessidade de impor limites e avaliar os alunos dentro de um critério justo para todos? Há pensadores atuais sobre educação que provam que cada pessoa tem uma inteligência diferente. Portanto, avaliar a todos pelo mesmo critério, pela mesma prova, seria uma atitude errada. No entanto, customizar uma avaliação específica para cada estudante, levando em conta as inteligências específicas de mais de quase 500 alunos diferentes (e esses são apenas os que tem aula comigo, ainda tem os da outra professora...) seria impraticável. O colégio, conhecido como um colégio tradicional que procura ser mais progressivo, atualmente enfrenta o desafio de caminhar a tênue linha entre impor limites para formar caráter, e respeitar as diferentes inteligências de cada aluno. A questão é melhor expressa na pergunta:"onde se encaixam os alunos que não se encaixam?". E minha família e amigos estão cheios de exemplos de indivíduos que nunca tiraram as notas mais altas, mas seguiram adiante para terem carreiras brilhantes por outros meios.
A resposta, acredito eu, está em ver o colégio como o provedor de um serviço. Outros colégios proverão variações do mesmo serviço, como sabores diferentes do mesmo tipo de alimento. Cada um tem o seu sabor preferido e é irreal supor que todo mundo vai gostar do mesmo sabor. Acredito que o colégio não tem realmente a obrigação de se adaptar a todos os alunos. Mas os pais têm a obrigação de investigar qual filosofia de ensino (qual sabor - tradicional, Waldorf, Construtivista, Montessoriano, etc...) é o mais adequado para o seu filho. O raciocínio é inverso.
• Pra pensar mais sobre essas e outras questões, sugir os vídeos do Ken Robinson no TED Talks e no RSAnimate, respectivamente abaixo:
Devido a toda essa atividade febril, resolvi escrever sobre esse mês que se passou por aqui, em um post ao estilo dos antigos odds and ends que eu escrevia em Londres. Vamos lá:
• Há algumas semanas, mandei pela primeira vez os meus primeiros 4 alunos para a coordenação. Um misto de sentimentos: pavor deles passarem a me odiar como odiavam a professore anterior, deleite pela sensação de vingança e poder, sentimento de dever cumprido ao reestabelecer os limites e o respeito que eles estavam perdendo por mim. A coordenadora foi enfática ao me aconselhar: tem aluno que testa o professor mesmo, que inconscientemente pede para que lhe imponham limites. Na nossa conversa com os alunos, não abusei da raiva. Mostrei como o comportamento deles tinha complicado muito a avaliação para a classe inteira; salientei como eles eram brilhantes quando separados (e de fato finalizavam raciocínios bem complexos), mas que potencializavam os efeitos destrutivos um do outro quando sentavam juntos; e expliquei como eu também estivera na mesma situação, em que discutir quem estava afim de quem era muito mais interessante do que qualquer aula.
Eles já eram conhecidos da coordenação. Já sabiam os procedimentos. Eles mesmos se comprometeram a sentar separados durante as aulas, trato que eles têm cumprido. Tenho dúvidas do quanto disso são respostas prontas para evitar maiores aborrecimentos com a coordenação. Mas desde então, as aulas têm corrido bem.
Me chamou a atenção quando a coordenadora avisou para um deles que, conforme avisos anteriores, os pais dele seriam chamados desta vez. Ele se agitou na cadeira, se esforçou para conter o choro. O rapaz não fizera nada além de conversar demais e de forma inapropriada durante a aula, mas temia a reprimenda dos pais como se tivesse assaltado ou matado alguém. Passei o resto do dia pensando muito sobre essa autoridade axiomática dos pais. E sobre o meu próprio pai, que nunca me bateu ou gritou comigo, mas de quem eu sempre tive medo quando cometi meus pequenos delitos.
• Em um assunto relacionado, na licenciatura, conversamos sobre a importância do "não". Do impor limites. E de como a atual geração de pais morre de medo de ter que dizer "não" aos filhos. São pais que foram educados por pais que diziam "não porque não", sem dar razões. Acham isso absurdo e querem dialogar com os filhos. Querem ser melhores amigos dos filhos adolescentes, que estão na idade onde o que menos querem é ser os melhores amigos dos pais ("ai, pai, que mico!"). E esse querer tem consequências nefastas. Percebo isso nos quatro rapazes dos quais falei. Em outros que gritam obcenidades e impropérios no meio da explicação do professor, interrompendo da forma mais rude possível. Nos que sobem na mesa. Nos que negociam regalias absurdas com o professor. O professor não tem essa autoridade axiomática, porque os pais não a ensinaram aos filhos. Ensinaram a dialogar, a negociar. Claro, isso vai fazer muito bem a eles quando adultos, mas enquanto crianças, causa apenas situações onde eu gasto fatias cada vez maiores da aula em negociação, enquanto professores passados teriam dito "não", marcado um ponto negativo e dado o assunto por encerrado.
Claro, eu também preciso aprender a dizer não. Ainda tenho medo. Mas ando fazendo progressos. E percebendo os efeitos positivos.
De qualquer jeito, eu sei que esses pensamentos são meio conservadores e o assunto ainda dá muito pano pra manga...
• Como conciliar a necessidade de impor limites e avaliar os alunos dentro de um critério justo para todos? Há pensadores atuais sobre educação que provam que cada pessoa tem uma inteligência diferente. Portanto, avaliar a todos pelo mesmo critério, pela mesma prova, seria uma atitude errada. No entanto, customizar uma avaliação específica para cada estudante, levando em conta as inteligências específicas de mais de quase 500 alunos diferentes (e esses são apenas os que tem aula comigo, ainda tem os da outra professora...) seria impraticável. O colégio, conhecido como um colégio tradicional que procura ser mais progressivo, atualmente enfrenta o desafio de caminhar a tênue linha entre impor limites para formar caráter, e respeitar as diferentes inteligências de cada aluno. A questão é melhor expressa na pergunta:"onde se encaixam os alunos que não se encaixam?". E minha família e amigos estão cheios de exemplos de indivíduos que nunca tiraram as notas mais altas, mas seguiram adiante para terem carreiras brilhantes por outros meios. A resposta, acredito eu, está em ver o colégio como o provedor de um serviço. Outros colégios proverão variações do mesmo serviço, como sabores diferentes do mesmo tipo de alimento. Cada um tem o seu sabor preferido e é irreal supor que todo mundo vai gostar do mesmo sabor. Acredito que o colégio não tem realmente a obrigação de se adaptar a todos os alunos. Mas os pais têm a obrigação de investigar qual filosofia de ensino (qual sabor - tradicional, Waldorf, Construtivista, Montessoriano, etc...) é o mais adequado para o seu filho. O raciocínio é inverso.
• Pra pensar mais sobre essas e outras questões, sugir os vídeos do Ken Robinson no TED Talks e no RSAnimate, respectivamente abaixo:
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