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sábado, março 22, 2014

Trashed


Jeremy Irons é um daqueles atores que, assim como James Earl Jones ou Morgan Freeman, são detentores de vozes que valem a pena serem ouvidas. Pode declamar sonetos de amor e mensagens de genocídio com a mesma beleza.

Em Trashed, documentário exibido neste último sábado em uma sessão organizada pelo Colégio, Irons faz uma pesquisa sobre o modo como nós temos "resolvido" o problema do lixo no mundo. Ele parte das consequências dos aterros sanitários nos países pobres, onde eles não são fiscalizados; e nos ricos, onde mesmo os fiscalizados quebram as leis diante da aparente falta de alternativas. Passa então a ver opções como os incineradores e avalia as consequências da dispersão de seus resultados no ambiente ao redor. E termina o panorama pessimista investigando os giros oceanicos, áreas onde as correntes marítimas ficam dando voltas e concentram o lixo jogado pelo mundo todo.

A voz de Jeremy Irons e seu sotaque britânico reforçam a sensação de desespero nos fatos e imagens do documentário. Imagens muitas vezes impossivelmente fortes, inegavelmente chocantes. Mas em nenhum momento gratuitas. Porque a verdade é que, enquanto não formos chocados até o trauma por documentários como este ou como o Uma Verdade Inconveniente de Al Gore, não tomaremos ações significativas para mudar o que vem acontecendo. Eu assisti ao filme e não conseguia tirar da minha cabeça a longa lista de fatos cotidianos, infrações recorrentes que eu cometia, sabendo por alto das consequências que elas sugeriam. Eu continuava tomando água de copos descartáveis, mesmo tendo canecas à disposição no Colégio. Continuava aceitando meus produtos de feira embalados em sacos plásticos. E ainda não tinha feito a lição de casa básica de perguntar e averiguar se o lixo reciclável do meu prédio estava de fato sendo reciclado em vez de ser jogado junto com o resto.

Porém, mais do que tudo, não tirava da minha cabeça uma outra culpa mais inerente e difícil de mudar: a minha culpa como artista. Porque eu estava levando uma vida em prol da criação de experiências estéticas e de ensinar estas experiências aos alunos, mas isso consumia uma quantidade absurda de materiais: papel, tintas feitas de substâncias não-biodegradáveis, telas, solventes, plásticos de todo tipo. E para que? No fim de tudo, qual era o ganho que justificava tudo isso? O documentário me trouxe de volta questões da época de faculdade de Artes: seria possível reciclar esse material? Reciclar uma tela? A tinta seca e inutilizável que restava no final das sessões de pintura? Os tubos de plástico e alumínio das tintas? Pincéis velhos? Seria possível usar tudo isso para fazer mais material de arte?

Por hora, não tenho respostas a isso. Apenas uma vontade enorme de nunca mais comprar outra tela e passar a pintar em papel ou algo reciclado de jornais. Usar as tintas feitas de modo orgânico que eu ensino nas aulas. E varrer a minha casa atrás de todo plástico que possa ser substituído por papel (forros de lixo, sacolas de supermercado, embalagens para guardar alimentos prontos... ).

Trashed mostra exemplos de que reduzir drasticamente esse resultado nocivo é possível. A cidade de São Francisco, conta Irons, tem um programa que reduziu em 75% o lixo gerado na cidade, criando centenas de empregos no processo e economizando milhares de dólares para a cidade. E o passeio pela cidade é guiado por uma mulher, cuja família de três pessoas (e um coelho) conseguiram produzir, no ano passado inteiro, apenas uma sacola plástica cheia de lixo. São exemplos de que, com pesquisa e combatendo a preguiça e os hábitos de uma sociedade de consumo desenfreado e descarte irresponsável, dá sim para termos ambientes bem mais saudáveis e um futuro para nossos filhos.

Vai lá ser traumatizado um pouquinho. Você está precisando e nem sabe disso.

terça-feira, março 27, 2012

Caught in the undertow

Em inglês, usa-se a expressão stream of consciousness geralmente para falar do fluir das idéias, do modo como uma leva à outra, às vezes se fundindo em um raciocínio rápido e que não necessariamente segue uma lógica coerente. "Stream", aliás, é palavra usada para designar um riacho.

Pois bem, eis um exemplo típico do meu stream of consciousness atual:

Acho que eu consigo me planejar para ir comprar talheres e copos lá na 25 de Março na terça de manhã. Bom, primeiro tenho que passar no apartamento para pegar o carro: acho que deixá-lo no eletricista e pegar no fim do dia. Vejamos: um ônibus até o metro, e do metrô para a 25. Será que eu tenho crédito no Bilhete Único? Preciso estar de volta antes das 15:00 para avaliar as últimas apresentações dos meus alunos da 9a série. Ai, para tudo! Vou precisar chegar no colégio uma hora mais cedo porque esqueci de publicar na internet o gabarito do exercício que passei! Tem Wi-fi por aqui? A outra professora deve ter me mandado as respostas que ela montou. Eu sei que não vou conseguir publicar isso de casa porque hoje tenho que terminar a tradução. Peraí... Hoje tem tradução? Eu vejo isso depois. Melhor deixar uma nota no celular, ou eu vou esquecer. Aliás, já esqueci de ligar para o pessoal daquele cheque que voltou! Hoje era o último dia. Será que meu nome foi para o Serasa? A última vez que eu falei com eles foi ontem, nos intervalos das aulas de licenciatura. E por falar nisso, eu ainda não comecei aquela pesquisa sobre os diferentes tipos de escola para a aula de didática. E quando que eu vou marcar a reunião com o diretor do colégio pra falar da filosofia de ensino para essa pesquisa? A secretária dele falou pra ver um horário depois do almoço. Almoço! Eu ainda não marquei o almoço com a Bia que me escreveu. Ou o happy hour com o Laerte, que me ligou. Nem a visita à Nana pra pegar as caixas para a minha mudança. Sem falar da passada na casa do meu irmão, pra pegar o meu microfone para as aulas. Bom, no fim de semana não dá, porque tem encontro com a equipe de educação artística e com aquele filósofo/artista. Aliás, que pinturas legais as dele! E o meu ateliê continua cheio de caixas que não são minhas e com a poeira e o abandono de um ano inteiro... Aproveito quando for lá pra passar um tempo com a vovó. Poxa, estou devendo uma visita à outra vovó também! Tô morrendo de vontade de passar um tempo com elas, limpar o ateliê e voltar a pintar aquele papel giantesco que eu trouxe de Londres. Falando em afazeres artísticos, preciso terminar o desenho que eu ia mostrar para as 6as séries... E Londres! Ainda não comprei a passagem para Julho, para a cerimônia de graduação do mestrado! Pelo menos a inscrição já tá feita. Que horas são agora? Acho que ainda dá tempo de... o que é que eu ia fazer agora?

Há alguns dias, ocorreu-me o pensamento perturbador de que eu tinha deixado a publicidade porque ela estava comendo a minha vida e me deixando em um estado morto no qual eu não tinha tempo ou energia para as coisas que realmente me importavam; e que a nova rotina entre colégio, traduções, sair da casa dos pais, licenciatura e empreitadas artísticas estaria me matando do mesmo jeito. Resolvi essa angústia pensando que a publicidade me matava em prol de algo completamente irrelevante para a minha vida (e a dos outros...). A minha atual rotina pelo menos tem um sabor utilitário, relevante, pertinente. Um sabor mais acentuado de satisfação pessoal. E afinal, a única outra alternativa para esse "morrer" é eximir-me de toda e qualquer responsabilidade e não cultivar ambição alguma na vida.

Mas isso seria pior do que esse lento morrer (verbo - um pocesso). Isso seria estar morto (adjetivo - algo acabado).

terça-feira, novembro 09, 2010

O Manifesto

Frustrado hoje com o resultado do mais recente trabalho em grupo.

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O primeiro projeto "de verdade" passado pelos professores do mestrado foi um projeto em grupo. Assim como haviam feito na minha graduação, os professores apenas deram um conceito: "manifesto". O resto deveria partir de nós.
As primeiras discussões foram muito interessantes. Vimos alguns manifestos na biblioteca e nos dividimos em grupos de dez pessoas. Em um curso que recebe pessoas do mundo inteiro, meu grupo era formado por coreanos, irlandeses, alemães, franceses, chineses... e o brasileiro. Éramos artistas plásticos, designers, estudantes de curadoria e teoria de arte. Logo percebemos que chegar a um consenso sobre qualquer coisa entre pessoas de origens e idiomas tão diversos ia ser um problema. À medida que começamos a conversar a respeito, percebi todos tentando serem cordiais com os colegas, tentando chegar a um consenso e opinião comum, fazendo concessões, convencendo sem insistir. E claro, foram duas horas totalmente improdutivas. Ou talvez não totalmente: pessoalmente, eu percebi que todos nós tínhamos medo. De sermos mais exigentes, de termos uma opinião que os outros não gostassem, de sermos... bem, de sermos fascistas. Em algum lugar dos longos exercícios de escrita coletiva que fizemos, escrevi que esta geração tinha medo de tomar uma decisão por ser uma geraão nascida de pessoas que viveram as Grandes Guerras, a Guerra Fria, o Vietnã, Iraque, Kosovo, etc. Filhos de gente que percebeu em primeira mão como ter opinião levava à dissidência, à tomada de partidos e ao conflito. E como tais, tínhamos sido educados (não por nossos pais, mas de certa forma pela sociedade em geral) a não termos opinião, para podermos ser mais abertos às diferenças. Chamei isso de ser all-inclusive, non-conclusive. Essa idéia não valia apenas para a questão das etnias e culturas, mas também para a questão do pós-moderno. Se haviamos chegado a uma era onde tudo era possível na arte, onde se parodiavam paródias em uma espiral infinita e nada era certo ou errado em escala coletiva, então não era mais possível fazer um manifesto. Porque, a rigor, um manifesto defendia determinada idéia ou prática. Dizia sim a certas coisas e não a outras. E dizer não virou uma coisa fascista e não-inclusiva. Uma heresia!

Ainda assim, tínhamos que fazer um manifesto. Talvez exatamente por termos chegado à conclusão de que um manifesto era algo assim tão particular e unilateral, tivemos a idéia de sabotá-lo. Fazer um manifesto coletivo, que tentasse incluir tudo e todos e ainda ser um manifesto (seria isso possível?). Começamos com os exercícios de escrita que mencionei. Dando uma frase para que outra pessoa continuasse com outra e assim por diante. E assim chegamos á idéia de ações coletivas. Alguém mencionou manifestos como atos de protesto e pensamos em uma ação de protesto que pudéssemos fazer juntos. E em seguida veio a sugestão do silêncio coletivo. Achei interessante. E logo a idéia evoluiu para um experimento: nos encontraríamos no dia seguinte, para passar a manhã em silêncio fazendo uma obra juntos.

O experimento começou bem. Consegui sair do apartamento sem falar com ninguém e não falar com ingleses na rua é tão fácil quanto andar por São Paulo e não interagir com ninguém. O isolamento das megalópoles.
Cheguei em Chelsea e encontrei meu grupo na cantina. Todos sentados em volta da mesa, em absoluto mutismo. Acenávamos uns aos outros, apontávamos, gesticulávamos. Alguém passava uma folha de papel para colocarmos informações pessoais triviais (nome, nacionalidade, cor favorita, signo, etc...). Pareceu-me uma forma gostosa de dizer muito sem falar nada.
Quando todos chegaram, entramos no espaço separado para o projeto e espalhamos o material que trouxemos no chão. Ninguém tinha muita noção de como começar. Timidamente, começamos a espalhar jornal no chão e juntar umas coisa nas outras, fazer pequenos experimentos. Mas tudo começava a ter aquele aspecto de "estética de decomposição": resto, lixo, entulho. E não de um jeito bonito. À medida que a frustração e tolice daquilo foi virando uma noção geral, começaram as performances. Alguém com um livro sobre voz (ótima idéia) vocalizava vogais desconexas, experimentando com a própria voz. Outra pessoa andava pelo espaço com uma sacola na cabeça, experimentando o espaço sem ver nada. Uma terceira tentava guiá-la na direção certa sem falar, estalando os dedos e batucando em obstáculos. Demorou muito até que eu, teimoso que sou, parasse de tentar "fazer algo" e experimentasse a perda de controle. Mas então comecei a caminhar pela "instalação" que havíamos feito e a interagir com a cega que andava pelo espaço.

Talvez se tivéssemos realmente levado aquilo adiante durante a manhã inteira, eu teria encontrado um jeito de criar sentido para tudo aquilo. Talvez teria aprendido a "ser" com aquilo tudo. Mas então os outros colegas de outros grupos chegaram. Inibidos, "caíndo em si" e percebendo a tolice daquilo tudo, demos o experimento por terminado.

Na minha banca de graduação, Agnaldo Farias mencionou que havia me compreendido como uma pessoa mais interessada nos resultados finais. De fato, os processos sempre me pareceram interessantes, mas muito pessoais para serem uma obra de arte apresentada a um público que não viveu a experiência.
O que tínhamos de produto final aqui? Mais ou menos uma hora de vídeos e fotos de pessoas com sacolas na cabeça, vocalizando coisas incompreensíveis e fazendo uma bagunça desconexa no chão de um espaço em branco. Tínhamos um manicômio. Esse era o resultado do nosso grande experimento de criação coletiva, all-inclusive, non-conclusive.
Chamem-me de antiquado, fascista, herege. Mas eu nunca tive gosto para este nível de caos. Enquanto os alemães, franceses e irlandeses olhavam uns para os outros e murmuravam como tinha sido legal e interessante, eu olhava para os designers sem entender nada e os asiáticos que ainda não havia passado por essa ocidentalização pós-moderna que adorava o incompreenível. Eu me identificava mais com estes últimos. Eu não sentia que havia nada concreto lá. Tínhamos passado por uma experiência que provava algumas das nossas idéias, mas o resultado final era tão... insosso. Talvez após algum trabalho de artefinalização dos designers, pudéssemos produzir algo palatável daquilo tudo. Eu achava difícil.
O que, de certa forma, fez do experimento um sucesso. De fato, ele tinha incluído todo mundo na prática daquilo, tentando ser o mais igualitário e acolhedor possível, e não tinha dado em nada. Era exatamente o termo que eu tinha pensado.

Além da certeza da impossibilidade de manifestos reais hoje (algo que eu nunca tinha pensado e achei muito interessante), o projeto contribuiu para o meu crescente desconforto e minha noção de que meu jeito de encarar arte (planejar antes de fazer, não fazer e depois decifrar) era obsoleto por aqui. Talvez muito "publicitário" em um meio onde tudo era acompanhado de palavras como "conceitual", "pós-moderno", "experimental". Arte agora não tinha mais muito a ver com estética. E eu não me adaptava ao jeito atual. Sequer conseguia achar o resultado deste projeto "legal e interessante", salvo por uma ou outra sensação fugaz durante a execução.

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segunda-feira, outubro 11, 2010

Primeiro dia

E então chegou o dia do curso começar.
Na hora marcada, cheguei à sala principal da faculdade e entrei pelas portas duplas de madeira trabalhada. Do outro lado, uma centena de alunos de diversos cursos de mestrado estavam sentado aguardando as apresentações do dia. À frente de todos eles, um dos professores titulaes fazia a primeira, ressaltando como, em tempos de doom and gloom (desgraças e pessimismo), era cada vez mais necessário voltar a dar a devida importância ao fazer:
-"It is important that we make 'making things' matter again."
Havia nessa cena o gosto, sem dúvida britânico, das cenas no refeitório de Hogwarts. A impressão de madeira antiga, carpetes e tradição. Misturados aos tons vibrantes e vanguardistas de uma escola de arte.

Depois de uma hora de detalhes burocráticos e recados importantes, setenta daqueles alunos permaneceram na sala como mestrandos de artes enquanto os outros, de outros cursos, saíram com seus tutores. Guiados por nosso tutor, Brian Chalkley, fizemos o primeiro tour pelas dependências da faculdade. Eu fizera questão de encontrar com o Sr. Chalkley no pátio da faculdade, como "estratégia de marketing pessoal" para deixar claro que o conhecia mesmo antes de ser apresentado, e que fizera minha lição de casa quanto a pesquisar a faculdade. Ele era um senhor de seus sessenta anos, franzino e grisalho, mas vestindo camiseta e jeans como um garoto. Fiz questão de criar boa impressão com ele não só por ser o diretor do curso de artes, mas também por ter uma pesquisa baseada em questões de gênero, como a minha (correm pela internet até vídeos de apresentações dele como um alter-ego feminino, como a Rrose Selavy de Duchamp). Algo há de sair dessa coincidência.

O Sr. Chalkley terminou nossa visita guiada em um espaço de exposição, onde nos leu um trecho do escritor Harold Pinter que enfatizava a importância de produzir. De não se ater tanto ao puro significado das coisas e à pesquisa, mas de fazer. Muito. E sempre. O escritor falava de como muito do trabalho às vezes se faz a despeito do criador, que funciona muitas vezes como mero catalisador de algo que tem vida própria. Algo que nem o criador compreende totalmente, mas que precisa encontrar uma saída para o mundo real. E depois ser interpretado pelas pessoas lá fora. Inspirou-me uma nostalgia de coisas que eu escrevera nos meus primeiros cadernos de artista. O mesmo assunto.
Pausa momentânea para um daqueles medos gostosos. Eu estava na Europa. Onde o estudante médio de arte tem muito mais acesso a cultura, e consequentemente muito mais referências. As discussões noturnas com Ross na cozinha do apartamento já prenunciavam isso. Um rapaz no primeiro ano de faculdade conversava no mesmo nível que eu, um mestrando sulamericano. Só lhe faltava mesmo a prática. Será que eu conseguiria me defender no meio destes outros 70 mestrandos?

Meus dois metros de parede onde vou mudar a história! XDÀ tarde, tivemos nossa primeira "tarefa": dividir o enorme espaço no segundo andar entre todos nós, para que cada um tivesse seu canto no ateliê. Minha primeira ilusão megalomaníaca já morreu aí, pois embora eu me considerasse organizado e desejoso de liderar esse tipo de organização, outros mais sociáveis, preparados e maduros tomaram a liderança. Nosso grupo passou a ser guiado por Kristian, um norueguês falante e muito simpático. Todos nós conversamos, planejamos e raciocinamos. Mas acabamos decidindo simplesmente dividir na marra mesmo. Cada um procurou um espaço adequado, negociou, se estabeleceu. E à medida que o processo foi acontecendo, passei a conhecer vários de meus colegas, que depois me convidaram para o pub local.
Depois de Kristian, a segunda pessoa mais pro-ativa era Jeeti, de decendência hidu, falante e expressiva, que me explicou que muitos deles fizeram o grau anterior da faculdade juntos e já se conheciam.
Conheci Isabel, a handy-woman portuguesa que construia coisas do nada; John, o americano construtor de guitarras; Iacopo, um italiano vestido como aquele outro italiano bigodudo dos videogames; Nataliia, a ucraniana com quem negociei meus dois metros de parede; e um sem-numero de orientais com nomes que ainda passarei um mês decorando. De fato, Chelsea é conhecida pelo número de estudantes orientais. Sinto-me como se estivesse no meu antigo colégio...

Como tudo, ainda é cedo para dizer quais desses personagems vão ficar. Mas de maneira geral, o clima entre todos é muito bom. Mal posso esperar para começar sujar a mão de tinta!

sexta-feira, setembro 03, 2010

Pensamentos da véspera

Minha exposição abre amanhã.

Há uma sensação boa no ar em relação a tudo isso. Como se pela primeira vez eu estivesse fazendo as coisas direito, de modo profissional. Com press-release e imagens de divulgação, convites a pessoas influentes e lobby em outras exposições para que as pessoas apareçam. É um lado que nenhum artista gosta de admitir que existe, porque todos gostam de fazer de conta que ser artista plástico é só fazer arte. Mas tem um pouco de política e marketing na coisa toda. Acabo de receber uma ligação de um contato na Veja. E recebi outro e-mail que divulga assuntos relacionados a teatro e cinema citando a exposição. Uma nota também foi colocada no site do espaço onde vou expôr.

O dia hoje foi passado organizando a montagem. Detalhes, detalhes. No meio disso tudo, comecei a perceber coisas gostosas de comentar que acabei esquecendo de escrever por aqui. Outros detalhes. Esqueci de contar como o fundo do quadro da Raposa e as Uvas, onde aparecem meu avô e minha avó, foi feito com vinho de verdade, em uma daquelas cenas bizarras que só artista protagoniza. Esqueci de mencionar que, no verso do Entre Quatro Paredes (com a Cacilda e meus avôs), lê-se a palavra "Estocolmo", porque a tela foi reaproveitada de outra que não chegou a ir pra frente, e que eu comecei na época em que a filha do Sílvio Santos tinha voltado do sequestro proclamando seu amor pelos sequestradores (e que me lembrou um certo artista que eu vi na Casa da Xiclet). E também esqueci de comentar que em uma ou outra tela, pode-se ver bem fraco o meu emblema do leão, que tinha sido gravado em stencil no verso de algumas das telas como uma espécie de assinatura, até que percebi que a tinta atravessava a tela e interferia no quadro da Mary Stuart, com a Cleyde Yáconis. Óbiamente parei com essa brincadeira. Finalmente, não mencionei por aqui que o fundo do Chá e Simpatia foi decidido três dias antes da abertura da exposição, e executado com sobras de material de transferência do Entre Quatro Paredes.
A rigor, nada disso importa a quem vai ver a exposição. Mas eu sou louco por pequenos detalhes. Eles fazem parte da vivência desse ano que se passou na compania destes atores e personagens. E tem muitos deles escondidos nos cantos das telas de amanhã.

quinta-feira, julho 08, 2010

Árvore da felicidade

Escrevo apenas pra deixar uma nota para me lembrar disso no futuro.

Nos dias mais quentes e abafados, normalmente quando estou saíndo do ateliê no final da tarde, a entrada da casa da minha avó fica perfumada com um aroma muito característico e que eu aprecio imensamente. Essa frente da casa é abarrotada de vasos de flores dos mais variados tipos. Invejo a capacidade de minha avó de ter um jardim aparentemente sem muito esforço.
O perfume em questão não é exatamente de uma flor. Está lá mesmo quando tudo está verde e sem nenhuma flor. Gastei muito tempo seguindo meu parco sentido do olfato até descobrir de onde vinha aquilo. Afinal, não dá pra perguntar para minha avó, porque cheiro não é algo possível de ser descrito a menos que você saiba de onde vem ("cheiro de grama cortada", "cheiro de maçã verde", etc.)
Enfim, meses de seguir o meu nariz me levaram até a planta em questão, em um vaso médio logo ao lado da porta. O vaso tinha duas plantas crescendo juntas nele. Vovó diz que ambas são consideradas árvores da felicidade. Mas só a "fêmea" exala o perfume que eu tanto gosto nos fins de tarde. Na Wikipedia, ela aparece com o nome científico de Polyscias fruticosa [1][2], enquanto a planta "macho", que não me interessa muito, aparece como Polyscias guilfoylei.

Quero que minha casa também tenha esse perfume...

quinta-feira, abril 15, 2010

Chá e Simpatia

Minha avó apareceu recentemente em um programa do Ronnie Von para falar do TBC e dos livros que ela escreveu sobre os atores e o teatro em si. Achei uma graça o programa, e a homenagem do apresentador a ela e ao trabalho da Imprensa Oficial, que publica esses e muitos outros livros biográficos sobre o teatro brasileiro.
Em um ponto da entrevista, ele perguntou a ela qual fora a peça mais especial que ela tinha feito. Ela pensou por alguns segundos e respondeu: "Chá e Simpatia". Lembro de ter ouvido falar da importância da peça na época, que questionava o preconceito contra a homossexualidade masculina em uma sociedade muito conservadora. E repentinamente me deu vontade de fazer mais um quadro para a série do TBC sobre essa peça. Seria uma homenagem direta à minha avó, que até então só apareceu no quadro do Entre Quatro Paredes e mesmo nele, apenas como uma de três atores homenageados no quadro (os outros sendo meu avô Sérgio e Cacilda Becker). O interesse pelo quadro aumentou quando ela comentou no programa que meu avô dirigiu a peça. Descobri com alguma pesquisa que a peça fora montada três vezes e ele de fato tinha dirigido duas delas, a terceira sendo dirigida por minha avó, baseada na direção dele.
Mas foi quando comecei a ler o roteiro da peça (olha que chique: o original, que minha avó usara para decorar as falas de sua personagem), que percebi as outras semelhanças deliciosas entre realidade e ficção.
Na realidade, eu ocupo um quarto nos fundos da casa de minha avó, subindo um lance de escadas, onde faço meu ateliê. Eu: um jovem aspirante a pintor envolto em questionamentos sobre masculinidade, frutos dos anos de abuso na escola por parte de valentões que viam na minha escolha pelas artes um claro indício de homossexualidade. Ela: uma histórica atriz de teatro que transita entre as reminiscências de sua época vanguardista e os modos e pose europeus que ela exerce no dia a dia, frutos de sua infância na Itália.
Na ficção, Tom ocupa um quarto no segundo andar da casa de Laura, subindo um lance de escadas. Ele: um jovem aspirante a músico envolto em questionamentos sobre sexualidade, frutos dos recentes abusos no colégio por parte de valentões que vêem em sua escolha por atividades mais amenas e sensíveis um claro indício de homossexualidade. Ela: uma ex-atriz de teatro que transita entre as reminiscências de sua época nos palcos e os modos e pose de dona de casa americana que ela exerce no dia a dia, frutos de seu casamento com o professor do colégio interno.

quinta-feira, março 11, 2010

Da ausência do pai/mestre

No fim da aula de hoje, meu aluno, um empresário com um filho pré-adolescente, me chamou de lado para mostrar o que estava fazendo para o aniversário do filho na semana que vem. Em um caderno estilo moleskine, ele estava fazendo colagens que contavam da viagem que ele havia programado de surpresa para levar a família toda para Londres por uma semana. Passariam por Oxford e Liverpool, já que o filho é fã dos Beatles. O caderno abria com a famosa frase "All you need is love".

Fiquei emocionado com o gesto do pai. Não que o meu pai não fizesse coisas muito especiais. O próprio fato de eu falar inglês suficiente para lecionar e ter um interesse por arte vem do tanto que viajamos quando eu era criança. Acho mesmo que viagens, conhecimento do mundo, são o melhor presente que um pai pode dar a um filho, porque seus efeitos perduram depois que muitos dos brinquedos já tiverem sido esquecidos ou quebrados. Não poupei elogios ao aluno e ao quanto ele estava sendo um ótimo pai, mesmo trabalhando bastante.

Estou vendo que o próximo caminho a seguir nas pinturas vai ser este. Agora que a série do TBC está chegando ao fim, preciso me distanciar disso e voltar ao tema do masculismo. E a próxima parada, depois do quadro sobre os sentimentos de inferioridade masculina, vai ser tratar do assunto da ausência do pai/mestre. É um assunto que, por algum motivo, tem estado pairando no ar ultimamente. Talvez porque estive procurando artistas que pudessem ser meus mentores. Conversei com o Dudi Maia Rosa, um artista amigo da família e provavelmente passarei a frequentar o ateliê dele. Mas isso é assunto para outro post.

Na tentativa de entender como abordar esse tema por um lado mais sensível e menos racionalizado, acabei obcecando pela história de Alfie Patten. Achava que tinha algo aí na imagem de uma criança gerando outra criança. Como se o homem adulto não existisse. Imagino que a figura dele ainda vá aparecer na pintura, mas não queria focar tão diretamente nele.
Outra imagem tem se formado na minha cabeça. Ainda falta detalhe, mas o começo está aí. Lembrei de uma propaganda que vi há muito tempo contra o abuso sexual de menores. Não lembro se foi na faculdade ou se foi uma campanha mesmo. A imagem era uma pá de verdade, daquelas ferramentas de jardinagem, estraçalhando um baldinho de criança, daqueles que elas levam à praia pra brincar na areia. O título dizia algo sobre como certas coisas não combinam. Gostei muito da simbologia e achei uma coisa forte, porém de um bom gosto muito interessante. Aí fiquei com essa imagem na cabeça. Um garoto usando alguma ferramenta em versão de brinquedo, ao lado da mesma ferramenta em versão "de adulto" não sendo usada por ninguém. Acho que o lance de ferramentas é uma coisa bem masculina (novamente, o boys with toys). Mas ainda não decidi o que será essa ferramenta. Porque não acho que a pá seja a coisa mais adequada.

Sugestões?

domingo, fevereiro 28, 2010

O vestido de Cacilda

São 3 da manhã e, pela primeira vez em muito tempo, estou tendo dificuldades para dormir. Por isso estou fazendo o que a minha geração faz: desabafando no blog. A razão da minha insônia de hoje, claro, foi um comentário a respeito de uma pintura. Hesito em escrever isso porque eu sei o quanto minha mãe enche-se de remorso quando eu me incomodo com os comentários dela, mas sim, foi um comentário dela sobre uma foto da pintura de Cacilda. Não tenha remorso, mã... A verdade é que, de tempos em tempos, eu preciso de gente disposta a me dizer as dolorosas verdades, porque tem coisas e sentimentos a respeito do meu trabalho que eu escondo de mim mesmo e preciso de uns chacoalhões para desenterrar e ser obrigado a lidar com eles.
Eu tinha falado em fugir da foto e cheguei a dar um passo tímido em direção a algo mais gestual na hora de fazer o vestido de Cacilda na pintura. Mas continua sendo um vestido, e continua sendo uma interpretação da foto. Passos tímidos não bastam. Eu mesmo estava insatisfeito e frustrado com aquilo, querendo mais. Porém estava me convencendo (me sabotando) a deixar passar e seguir em frente, a me contentar com um trabalho de menor qualidade. Até que minha mãe questionou angustiada antes de sair para o teatro: "algum dia você vai ter que colocar mais do que você está sentindo na pintura e menos da foto." Aí que eu não pude negar que, de fato, eu estava pendurado na ilustração da foto de novo. De outra maneira, mas estava. O quadro tinha pouco ou quase nada de gestual e muita pintura ruim...
Agora estou aqui, revirando na cama e remoendo a ansiedade de chegar no ateliê e violentar aquela pintura com o máximo de tinta branca que eu tiver no estoque. E não é só isso: questiono a relevância da Entre Quatro Paredes que também não me satisfez. Aliás, por um detalhe que também veio de um comentário de minha mãe e que eu acho que ela tem total e completa razão (como de costume).

Vamos, ansiedade, deixa-me dormir! Afinal, não vou poder fazer nada a respeito disso agora. Morro de vontade de ter o ateliê em casa. Ou em algum lugar onde eu possa ir quando me baterem estas angústias construtivas e às três da manhã perpetrar atos selvagens de violência pigmentária...

quarta-feira, fevereiro 24, 2010

Cacilda e Cleyde

Os últimos quadros da série do TBC (por enquanto) já estão em produção.
O da Cacilda fazendo a Dama das Camélias entrou em sua looooonga fase final. O vestido branco dela foi feito com grossas camadas de tinta que têm um certo movimento mais tosco de pinceladas. Não dá pra fazer uma coisa fotográficamente perfeita e nem era essa a minha intenção. A idéia era experimentar um pouco mais a pintura gestual, coisa que eu raramente faço porque nunca estou satisfeito com os resultados. Faz parte daquela coisa de abandonar um pouco a foto e "colocar um pouco mais de mim na pintura". Acho uma coisa curiosa e nova, agora que cansei de copiar fotos. Ficou interessante, mas eu imaginava ainda mais tinta, ainda mais peso. Se eu fizer isso, vai demorar meses pra secar. E eu não tenho todo esse tempo.
Esse vestido da Cacilda está virando uma coisa com vida própria. Escolhe sua própria forma e já anda se espalhando pelo ateliê. Borrões de tinta branca são encontrados nos lugares mais improváveis, e às vezes descubro minhas mãos manchadas sem nem mesmo ter chegado perto do quadro. Pelo menos o vestido continua intacto, sem dedadas acidentais (então de onde vem tanta tinta?)...

Longe (mas nem tanto...) do cavalete, na mesa do ateliê, o novo quadro da Cleyde Yaconis fazendo a rainha Elizabeth em Mary Stuart foi começado hoje. Vai ficar uma coisa bem estilo arte "hi hi", pois a imagem será uma enorme cabeça de Elizabeth pensando em uma guilhotina. Tá, eu sei, ela não morreu guilhotinada e nem guilhotinou a Mary Stuart, que morreu decapitada à moda antiga, com um machado. Mas tem um humor com um quê de memento mori no fato de uma cabeça real estar pensando em guilhotinas. Há outro detalhes sobre a tal guilhotina, mas se eu postar por aqui, ele perde a graça...

De resto, resolvi encarar o ateliê com certo ar empresarial e diversificar a produção. Estou com outras coisas menores em andamento e recentemente tenho desenhado um pouco e feito experiências em papel. Não suponho que vá dar em nada digno de exposição, mas ajuda muito a pensar. Além disso, serve de meio para executar aquelas idéias menores, que dariam obras legais mas que eu não tenho saco ou tempo pra executar em telas grandes, caras e logisticamente complicadas, porque eu perderia o interesse em questão de dias. Sem falar que são coisas fora da minha técnica habitual e esse tipo de coisa confunde quem está tentando me levar a sério e sacar o "meu estilo". Comentários, experimentos técnicos, piadinhas sem graça, questões políticas.
Outro projeto menor são quadrinhos pequenos que eu estou desenvolvendo pra dar de presente. Foi uma idéia que me ocorreu outro dia, mas tenho tanto pra falar sobre ela, que é melhor deixar para outro post, outro dia, assim que o primeiro deles sair.

quarta-feira, janeiro 13, 2010

Sobre a Dama das Camélias

Diferente do que fiz com Ralé, onde me vali apenas do relato de minha avó sobre a trama e do material impresso ao qual tive acesso; e diferente do que estou fazendo com Entre 4 Paredes, onde fui atrás da minha experiência pessoal com a peça e do que eu lembrava do texto; estou pesquisando um pouco mais antes de me lançar à pintura da Cacilda. Por enquanto, infelizmente, tudo que tenho são pedaços crus de informação dos mais variados tipos.
Li o texto da peça na versão cinquentona e amarelada que minha avó tinha guardada (apesar dela não participar da peça) e procurei com algum afinco para encontrar alguma imagem que não estivesse entre as exaustivamente usadas para a divulgação da peça. O resto veio da internet.
A peça foi escrita por Alexandre Dumas Filho. Parece que Marguerite Gautier, a.k.a. Dama das Camélias, foi inspirada em grande escala na vida da cortesã Marie Duplessis, cujo nome real era Rose Alphonsine Plessi (já temos aí camélias, rosas e margaridas...). Assim como a personagem, ela morreu de tuberculose aos 23 anos de idade. Duplessi foi dama de companhia do próprio Dumas, além de vários homens poderosíssimos. Essa homenagem póstuma do autor rendeu referências históricas como a ópera La Traviata de Verdi (onde a protagonista também tem nome de flor: Violeta) e, mais recentemente, o Moulin Rouge.
Duplessi morreu em 1847. Embora muitos dos seus pertences tenham sido leiloados para pagar dívidas, diz-se que teve um funeral pródigo atendido por centenas de pessoas.

Esse último fato e o texto da peça me deixaram pensando por algum tempo. As cortesãs eram de fato algo vagamente comparável às gueixas japonesas, por serem versadas na arte de agradar aos homens de poder. Eram também uma companhia intelectual, além de estética e sexual. A própria Duplessi sabia ler e escrever em uma época onde eram raras as mulheres letradas, para que pudesse se manter informada dos assuntos do mundo. As cortesãs eram pagas para acompanharem os homens "tanto em ambientes privados como nos sociais". Deviam ser alegres, inteligentes, educadas e cultas, além de belas. Ou seja, ainda que a própria peça de Dumas mostre que as cortesãs não eram muito bem vistas na sociedade francesa, pessoalmente acho que elas tinham virtudes que íam além da dona-de-casa comum ou da prostituta. Ter a companhia de uma boa cortesã deveria ser um deleite caro, porém inigualável pelo qual compreendo que muitos homens pagariam pequenas fortunas.
Quando trabalhei no pub em Londres, entrei em contato com essa filosofia de vida onde servir a outra pessoa não era em nenhum modo algo humilhante e servir bem, sem queixas do cliente, uma espécie de arte. No entanto, a única palavra destinada a essas mulher que serve aos homens parece ser "puta". Principalmente hoje, no pós-Feminismo.

No caso de Duplessi, de luxo.

segunda-feira, dezembro 28, 2009

Truques fáceis

Acho que em todo tipo de arte há truques fáceis.
São aquelas manobras conceitualmente banais, mas que surtem efeito rápido, chamam a atenção do público e causam maravilhamento em quem observa. Elas são experiências agradáveis, ainda que desimportantes. A harmonia de duas vozes com uma oitava de diferença é um exemplo na música: não é nenhuma novidade técnica, mas é muito prazeirosa para quem ouve.
Comecei a prestar atenção em truques fáceis quando estudamos na faculdade o escultor pop suéco Claes Oldenburg. Ele fez uma carreira do maior dos truques fáceis: escala. Qualquer coisa, não importa o quão banal, torna-se digna de contemplação e maravilhamento se feita em uma escala grande o suficiente. Oldenburg fazia tudo gigantesco. Grampos de roupa, comida, utensílios domésticos... tudo de mais mundano. Conceitualmente, é uma banalidade. Mas causa um impacto... er... enorme. Não é à toa que muitos pintores recorrem a tamanhos pouco práticos de tela: você pode até deixar ela em branco que já é um deleite de se ver.
Na pintura, outro truque fácil é volume. Luz de um lado, sombra de outro e seu desenho já ganha um ar de profissionalismo. Lembro de uma época na infância onde descobri volume no desenho. Desenhei o mesmo vaso incontáveis vezes, com a luz de um lado e a sombra do outro. Demorou um pouco pra experimentar o truque em outras formas.
Houve uma época em que eu teria associado truques fáceis à baixa qualidade ou falta de talento do artista. Como se apenas o difícil e complexo fosse relevante. Hoje acho que depende do contexto. Truques fáceis estão aí para serem usados. O que se faz com eles é o que define o bom artista, na minha opinião.


Estou quase terminando de pintar minha avó no quadro do Entre Quatro Paredes. Achei que fosse demorar mais. A pintura foi produzida em um crescendo de dificuldade, começando com a imagem mais fácil de Cacilda com seu rosto sem volume, passando pelo meu avô com as sombras duras no rosto e o casaco cheio de penumbras sinuosas, até deixar minha avó por último por causa do cabelo. Este lhe cai em longas madeixas detalhadas da cabeça que pende para trás, agarrada pelas mãos de violência leve do meu avô. Achei que fosse demorar uns três dias pra fazer todos os volumes daquele cabelo. Levei apenas um. Com o dobro de horas de trabalho normais, mas apenas um. Resta arrumar o rosto.
Cabelos são outro truque fácil. Um macete de pincelada fácil de aprender e que todo mundo acha lindo. O caso da minha avó foi bem mais elaborado, mas é em tese a mesma coisa. E talvez seja o efeito de ter passado cinco horas pintando aquilo, mas acho que está roubando a cena do resto.

Falta fazer o fundo, com várias das surpresas escondidas que estavam no quadro da Maria Della Costa e o detalhe dos sofás, sobre o qual acredito ter encontrado uma solução gostosa. Aguardem fotos em alguns dias.

sexta-feira, dezembro 25, 2009

Vovô

Terminei esta semana de pintar meu avô no quadro do Entre Quatro Paredes. Acho que, pelas festas de Dezembro, não terminarei este dentro do mês como queria. Mas tudo bem.
Em um dos jantares natalinos, uma das tias da Lexy se enganou e me chamou de Sérgio. Sei que o engano não tinha nada a ver, mas imaginei por um momento que ela talvez estivesse vendo semelhanças entre eu e meu avô e falando o nome dele como ato falho.
Já fui mais parecido com meu avô. Hoje, a barba e os óculos, os traços da família de meu pai e outras pequenas peculiaridades me distinguem da figura dele. Mas na infância, a semelhanca era tamanha que muita gente apontava. Tanto para os aspectos físicos como de personalidade. Cheguei a acreditar, na inocência da infância onde tudo é possível, que talvez eu pudesse ser uma reencarnação dele.
No quadro, os detalhes semelhantes estavão lá. O formato do rosto, o cabelo liso que eu tinha quando criança e uma animosidade nos olhos e sobrancelhas. Até mesmo a violência sem força. E algo na boca, que apesar de não ser exatamente igual à minha, me lembrava qualquer coisa. Trabalhar com essa imagem teve o gosto de trabalhar com a minha própria imagem. Ou a estranheza de estar na presença de um outro idêntico a mim.
Não é nada que me incomode. Pelo contrário. Me incomodaria talvez em pintar homens por causa do erotismo de traçar e obcecar com o rosto de uma pessoa, mas quando se trata de uma imagem assim, é como acariciar a si mesmo. Um deleite nascísico.

quinta-feira, dezembro 17, 2009

Sobre sofás

Há duas semanas comecei a levar a sério a pintura do Entre Quatro Paredes com meus avos e Cacilda. De início não tinha muita idéia do que fazer com este. Então desenterrei da minha biblioteca o texto da peça, que consegui de minha avó na época em que a estava ensaiando com Lee na faculdade. Os insights vieram naturalmente, quase uma idéia nova por dia. Agora tenho a impressão de que talvez fique melhor e mais completo do que o quadro de Maria Della Costa.
O começo do quadro foi meio confuso. Enquanto desenhava a foto escolhida na tela, pensei muito nos trios da peça: três atores, três sofás de cores distintas, três paredes no cenário (a quarta sendo a platéia). Quase por instinto, comecei a pintar cada ator de uma cor diferente. Lembrava de uma técnica que uma professora tinha me ensinado, de pintar a imagem toda de uma cor e depois pintar por cima. O óleo é meio transparente, e daria uma tênue impressão da cor de baixo. Vovó apareceu e me contou que cada personagem tivera uma cor específica em sua montagem de 1950. Cores diferentes das que eu estava usando. Lá fui eu começar de novo...
Na semana passada, comecei a pintar Cacilda. E enquanto o fazia, as idéias finais do que fazer no quadro apareceram. O fundo da tela, a questão dos sofás na peça, as cores.
Em algum momento, li o texto de novo e achei a parte onde os personagens falam dos sofás. Estelle, a personagem de minha avó, faz manha porque está colocada em um sofá com uma cor que não combina com a sua. É um diálogo gostoso, porque de imediato deixa claras as atitudes de todos eles, o detalhe dos sofás e o nome de cada um, quando eles se apresentam.
Fiquei com uma vontade de colocar isso no site do quadro.

Ah, verdade... Acho que não contei por aqui. Estou pensando em fazer um pequeno hotsite para cada quadro. Uma experiência hipertextual como se faz hoje com bons filmes: você tem a experiência do filme e, se quiser obcecar um pouco mais com o assunto, explora o site, encontra mais informação e aumenta sua experiência sobre o que estava no filme. Já estou terminando o da Maria Della Costa.

Voltando ao assunto, fiquei com vontade não de colocar o texto, visto que ninguém teria paciência para ler, mas de fazer uma gravação. Três pessoas declamando o texto em determinada parte do site. Eu, obvia e narcisicamente, seria Garcin. E nada me tira até agora da cabeça que eu deveria pedir a Lee que fizesse Inês. Mas isso seria factível? Há tantas questões a considerar... Não nos falamos há talvez um ano ou mais. E será que ela aceitaria? Ou julgaria isso tudo como uma tolice e ignoraria o convite? De qualquer forma, seria a voz perfeita. Com as mesmas qualidades que a de Cacilda.

terça-feira, novembro 17, 2009

Maria Della Costa

Terminei na semana passada a parte de pintura do primeiro quadro que estou fazendo sobre as atrizes do TBC. Acho que finalmente consigo fazer um quadro em um mês. Foi uma coisaa complicada, porque fui experimentar uma técnica de transferência de imagens impressas para a tela que o Rauschemberg usava. Muito frustrante quando essas coisas não dão certo. Mas eu sou teimoso e acabei gastando uma semana nisso até que desse certo.

Apesar de ter motivos pessoais para começar a série com uma cena do Entre Quatro Paredes (encenado por minha avó, meu avô e Cacilda Becker), por ter ensaiado a peça com a Lee há muitos anos, cedi ao apelo visual da belíssima Maria Della Costa. Na peça Ralé, de Maxim Gorki, dirigida por Flamínio Bollini Cerri, ela encarna a bela e perigosa esposa de um dono de cortiço, que trama a morte do marido e agride a própria irmã ao perceber que seu amante passa a interessar-se por esta. Trajando um longo vestido, ela aparece em uma das fotos em uma pose que lembra as musas do cine noir.

Há algumas semanas, soube por minha avó que Maria Della Costa estaria dando autógrafos no lançamento de sua biografia. Aproveitei a chance para conhecê-la de perto. Simpaticíssima, não se negou a tirar uma foto comigo depois de saber de quem eu era neto.

Eu e Maria Della Costa na Livraria Cultura, durante o lançamento de sua biografia.

terça-feira, setembro 29, 2009

Finalmente terminei o pequeno livro sobre pós-modernismo da Eleanor Hartney. Demorei porque passei muito tempo em um capítulo sobre o feminismo no pós-modernismo, querendo esmiuçar todos os detalhes.

Como já expliquei por aqui, as primeiras feministas na arte criavam obras que apresentavam os aspectos da mulher como natureza, corpo e emoção, tentando transformar esses assuntos de críticas e formas de dominação em qualidades boas a serem louvadas. As feministas subsequentes argumentaram que ao fazer isso, elas estavam afirmando as noções de feminino determinadas pela sociedade patriarcal. Então essa nova geração de feministas, do pós-moderno, centraram sua pesquisa mais na iconoclastia, em destruir a forma como a noção do feminino é socialmente construída. Destruir a representação (um dos objetivos-chave do pós-modernismo).
O mesmo tipo de raciocínio é aplicado ao multiculturalismo, onde culturas estrangeiras diferentes da cultural do homem branco ocidental eram relacionadas ao espiritual e ao instintivo, sendo tão ilógicas para a sociedade ocidental quanto o universo feminino. O multiculturalismo pós-moderno procurava também desconstruir essas noções, e em vez de procurar uma volta e validação das tradições raciais, procurava questionar o porquê da superioridade do homem branco ocidental e da inferioridade das outras raças e crenças.

Ao ler tudo isso, imaginei que o mesmo tipo de erro pode e deve ser cometido pelo Masculismo. Acho importante, porque faz parte do processo. Que a primeira fase da pesquisa seja mesmo de reafirmar os valores anteriores do masculino, para depois partir disso e buscar algo mais pós-moderno, novo e autêntico. Por isso talvez seja preciso revisitar o homem de 1950 ou mesmo o anterior, medieval, bárbaro. Para entender o que era valioso nele e que foi perdido, e o que de fato não serve mais. Voltar inicialmente so estereótipo do homem caçador, conquistador, paterno e monárquico.
Depois disso, vamos lidar com a iconoclastia, com a questão das armadilhas sociais e noções socialmente construídas do que deve ser um homem.

Minha produção de ateliê, imagino, está indo por outros caminhos. Já planejo para este próximo mês algo que seria mais próximo dessa segunda fase. Mas de qualquer jeito, é bom ter isso em mente para organizar a produção quando eu finalmente tiver coisas suficientes para expor.

sexta-feira, setembro 11, 2009

O quadro da casa na colina prossegue.

Ocorre-me que ainda não lhe dei um título. Me ensinaram na faculdade que dar aqueles titulos redundantes é feio (uma natureza morta com uma maçã e um vaso entitulada "natureza morta com maçã e vaso"...). Afinal, os títulos deveriam agregar um dado extra à pintura, não simplesmente ser mais do mesmo.
Desenterrei alguns livros antigos de pintura que "herd(roub)ei" das minhas tias do nordeste onde lembrava ter visto dicas sobre pintura de árvores. Achei algumas coisas bem relevantes e desbravei as florestas traumatizantes do quadro. Os resultados me agradam muito. Hoje terminei o gramado. Só falta fazer uma reforma na casa (quem dera reformas fossem tão rápidas quanto uma pintura...) e pronto, o quadro estará pronto para a parte mais legal: pessoas!
Vou retomar minha pesquisa de onde eu parei, na idéia da mulher enorme sendo desejada pelo garotinho [1]. Por enquanto, é a representação mais adequada que tenho da situação masculina hoje.

Lendo sobre o Feminismo naquele livro sobre pós-moderno da Eleanor Hartney, li uma parte que comentava sobre a Primeira Onda do Feminismo na arte, onde as artistas focavam nos aspectos femininos da gravidez e menstruação, na mulher como deusa. Não poupavam imagens de nudez feminina para representar isso. As feministas da geração seguinte criticaram essa postura, porque ainda apresentava a mulher de acordo com parâmetros da sociedade patriarcal: mulher como corpo, mulher como objeto de desejo. As artistas dessa segunda geração procuravam uma arte que não sensualizasse a mulher.
Daí comecei a pensar que, se eu colocasse a gigantesca mulher dessa pintura nua, estaria sendo meio retrógrado. Porém a idéia de vesti-la encontrava duas resistências: primeiro o meu gosto pela nudez em pintura (mesmo que isto seja de fato uma atitude machista retrógrada...), e depois a questão de com que roupa vestir a mulher.

Ainda não resolvi o assunto. Espero estar decidido até terminar de reformar a casa. Voltando do ateliê, ocorreu-me que também estaria ilustrando o rapaz nu. De certa forma, isso nega a configuração machista da mulher aparecer sempre nua e o homem sempre vestido. Mas talvez isso seja apenas eu tentando achar uma justificativa pra ter gente pelada na pintura e me livrar do incômodo de ilustrar roupas...

segunda-feira, setembro 07, 2009

Sensibilidade e disciplina

Levei uma semana para fazer as últimas organizações e limpeza do ateliê e voltar a produzir. Na sexta, quando cheguei à casa de minha avó, ela estava revendo fotos à procura de alguma coisa mais atual de mim e do meu irmão, já que as últimas fotos que tinha eram de épocas em que nenhum de nós ainda tinha decidido cultivar barba. A última foto que tinha de mim devia ser de 2002 ou 2003. Eu estou dentro do ateliê e ele ainda é muito precário. Meio ateliê, meio quarto de depósito, minhas pinturas dividem espaço com tapetes velhos, luminárias e outras coisas espalhadas no chão de madeira. Há muito pó e muita sujeira em tudo. No cavalete, o retrato da Nana está sendo copiado para ser dado a ela como presente de aniversário. Hoje, o quarto já é quase totalmente um ateliê, abrigando apenas um ou outro ítem de memorabília de minha avó. O chão de madeira foi trocado por um de azulejo mais fácil de limpar e branco para melhorar as condições de iluminação. As telas foram cuidadosamente colocadas em um teleiro depois que perdi uma ou outra por descuidos de estocagem e tudo é muito limpo (na medida do possível). Teria orgulho hoje de receber outros artistas no meu ateliê. Acima de tudo, virou um lugar de disciplina. Tudo tem seu lugar e nada deixa seu posto a menos que seja usado. Depois é guardado prontamente. A disciplina só não é completa, porque ainda não consegui estabelecer uma rotina de horário, dar a importância devida ao ato de bater ponto lá em determinada hora e produzir até o fim do dia. Gastei um pouco do tempo desta semana indo atrás de material e últimas coisas que faltavam no ateliê. Mas convenhamos, só tive uma semana disso... Ainda leva algum tempo.
Na fila de produção, resolvi começar desatravancando trabalhos antigos nos quais eu empaquei. O quadro que fazia parte do tríptico para a sala de casa, que parou depois que Bia criticou o modo como eu estava pintando a floresta, vai virar a primeira obra desta nova fase, dentro das premissas da pesquisa masculista. O retrato de Lexy vai receber a chapa de acrílico final com uma brincadeira a mais. E já estou quase terminando a caixa de chá pintada com a Alice que devo de presente à Lexy. Metas de Setembro.

Uma obra por mês. No mínimo. Sempre masculista.

Em conversas recentes com parentes e amigos, surgiu de novo o assunto da sensibilidade. Como sempre pareceu muito estranho para muita gente que eu tivesse essa obssessão espartana por ordem e disciplina e ao mesmo tempo a sensibilidade de um artista plástico. Meu pai, especificamente, não entendia como podía fazer parte da minha estratégia me isolar em outro país por um ano para "sentar a bunda na cadeira e produzir". Não entendia como arte podía ser essa atividade com hora marcada, quase mecânica.
Outro das séries de estereótipos ligados à carreira de artes plásticas é isso de que você vai viver uma vida totalmente dionisíaca e não-cartesiana, onde sua produção vai depender de uma inspiração de momento, imprevisível e soberana, sem a qual você não pode começar a produzir. Minha observação do pessoal do 2000e8 sugere exatamente o contrário. Eles produzem disciplinada e constantemente. A inspiração não define a obra específica ou o começo da produção, mas sim a série inteira de obras. Eles produzem sobre a mesma idéia, dia após dia, até esse lendário momento de inspiração fugaz trazer a próxima grande idéia. E daí começam uma série nova. Pode ser amanhã, pode ser no ano que vem. Mas enquanto essa idéia não vem, eles continuam produzindo sobre a mesma idéia. Só assim garantem um volume de trabalho suficiente para serem artistas comercializáveis.

A sensibilidade não é nada além de outro tipo de lógica.
Uma lógica de escolhas baseada na intuição, que por sua vez é baseada na experiência. Já fiz determinadas coisas tantas vezes, já juntei determinadas cores tantas vezes, que passo a ter uma memória inconsciente do que dá certo ou não. Alguns acham que isso é sensibilidade inata com as cores, com sabores, com palavras; mas é experiência.

Há menos magia na sensibilidade artística do que se pensa ou se admite.