sábado, dezembro 30, 2006

Seria possível desejar um ano melhor do que 2006? Acho que seria até pretensão demais.

2006 foi o ano da exposição na Paulista, mais séria e organizada do que as exposições na Xiclet. Foi o ano de viajar para a Itália, viajar sozinho para fora do país pela primeira vez. E ver neve pela primeira vez. Ainda consigo lembrar vagamente da sensação maravilhosa de irrealidade ao ver a neve derretendo no vidro do ônibus que me levava do aeroporto para a estação de trem. Ou a sensação irreal de estar dentro de um jogo de video game quando cheguei em Perugia.
2006 foi aprender italiano decentemente. Foi Linnea, mas também foi Hillis, David, Soo, Karen, Theo, Anne, Harley, Mary, Christos, Rochelle, Emil, Rebecca, Faride, Ramón... (meu saudoso bar Morlacchi) A lista é imensa. Mais tarde, viriam as italianas com as quais morei dois meses deliciosos: Fabiana, Sara e Mary, com os dois cachorros que eu amei mais ainda, e com os quais eu mantinha aquela comunicação fantástica. E não posso me esquecer dos amigos de minha avó. Os Seppilli, que me ajudaram muito na chegada a Perugia; e todos os outros que me acolheram nas mais diversas cidades do norte italiano: os Ascarelli em Roma, a senhora Modolo e seu sobrinho Michelle em Firenze, O fabuloso senhor Zeller na triste e cinzenta Milano, o dr. Volli e a senhora Tonon na minha Trieste.
2006 também foi o ano de muitas viagens solitárias, daquelas que eu aproveito com um outro gosto, podendo fazer minhas decisões loucas. Veneza, meu sonho de criança. Assis e os presentes para minhas avós. A inesperada Norcia e o almoço na neve da montanha. E finalmente a enigmática Arezzo, uma charada paradoxal ainda incompreendida.
Conheci tanta gente e fiz tanto acontecer por estar embebido daquela liberdade do viajante. De poder fazer o que eu queria, ser quem eu queria. De não ter passado. Ser alguém independente do artista, do estudante disto ou daquilo, do emprego. Será possível recriar esse espirito aqui em São Paulo?

No meio da viagem, a decisão drástica: Londres.
Londres foi "sublime". Volto a mencionar aqui o significado real dessa palavra, que todo mundo confunde com "sutil". Londres não foi nada sutil. Foi sublime no sentido de ser tão maior do que eu, que era impossível abarcá-la. Maior e mais poderosa, avassaladora, aterrorizante. Sobrevivi aquele gigantesco impacto inicial graças a Faride e sua discpliscência cigana. Sem falar em Anna e a turma de Beenie Court, que se tornaria minha turma londrina, de baladas loucas e pique-niques no jardim.
Com um pouco de paciência e muito stress, consegui compreender a cidade e arranjar um lugar pra morar (graças às dicas de Theo). A casa da Sra. Sparrow foi uma delícia em Acton, logo ao lado do Greensbury Park e do cemitério de Ealing, com suas histórias de gente esquecida. Essa odisséia teve seu preço: Taís percorreu meio mundo pra me encontrar lá, e quando chegou eu estava um caco e não lhe dei atenção. As consequências seriam fatais.
Mais fácil do que encontrar moradia foi achar um emprego: a Ealing Park Tavern me aceitou por eu ser brasileiro, como o gerente Charles. Até hoje não me sai da cabeça que ele tinha sua predileção vampírica por mim. E assim aprendi a usar da sedução pra conquistar as coisas, como o fazem as mulheres. Mas não foi o único que aprendi. Os macetes de garçom que depois encantariam minha família em casa foram ensinados pela fantástica Nim e o resto da turma do pub me ensinou a filosfia de vida servil: um estilo de vida que eu já pensara antes, mas que as amarras da minha educação não me permitiam experimentar. Um gosto por servir bem, por prover a felicidade de alguém. Gostar de ser um servo eficiente e não um rei inepto.
Tirando Liverpool, visitada com a Taís, não viajei enquanto estive em Londres. Não tive tempo com o emprego no pub. Mas também, não é preciso viajar quando se tem o mundo dentro de Londres. Eu morava no bairro polonês, ia para baladas no bairro americano, conhecia gente no bairro irlandês e ainda visitei o italiano, o brasileiro, o romeno, o francês e obviamente o russo.

Como desejar um ano melhor do que aquela uma semana no Limbo com Genka, minha russa? Pedir que durasse mais seria uma heresia. Querer mais do que aquilo, um disparate de uma mente febril.

Mas foi preciso voltar e a volta não foi fácil. Deixar uma paixão recente desse jeito, voltar para o país detestado, deixar de lado os hábitos apreciados por lá... Voltar a São Paulo foi como voltar a dormir. Ou nem isso, já que o dormir produz sonhos deliciosos. Foi mais como voltar a estar sob o efeito de algum sedativo poderoso. Ter miríades de planos e vontades e não conseguir consumar nada por causa da rotina daqui, da ineficiência minha e do povo local, da mentalidade não-cooperativa dos americanos; mas principalmente por causa de um mar de outras coisas já obsoletas, mas que precisam ser terminadas. A faculdade, conseguir um emprego, colocar a vida em ordem...

O emprego, no entanto, foi uma grata surpresa. Encontrei a agência na qual eu deveria ter começado a trabalhar, antes da agência anterior. Um lugar que me recebeu de braços abertos e onde eu pude me sentir como parte da família mesmo. Mais do que isso, pela primeira vez sentia-me como um empregado útil, do qual a empresa dependia.

O ano terminou com uma festa de reveillon organizada na com a Nana e o Namorado. Nas viradas anteriores, sempre encarei o acontecimento com uma dose de passividade meio profética: um reveillon bom era presságio de um ano terrível e um reveillon péssimo anunciava um ano fantástico. Mas apesar dos prognósticos enfadonhos para este ano que acaba de começar (com monografias de faculdade, sem traço algum de perspectiva amorosa, aturando a morosidade brasileira...), eu não encarei esta virada da mesma forma passiva. Nós fizemos a festa e, de forma similar, depende apenas de mim ter um ano mais intenso do que 2006.

2007
Novo. Ano Novo.

quarta-feira, dezembro 27, 2006

Reveillon 2006-2007

A festa dos que não foram


Começou com uma idéia pequena, simples, de gente com reveillons que miaram e acabou ficando por aqui em São Paulo. Daí a coisa cresceu e já conta com decoração, três ambientes (incluíndo fumódromo de narguile), ceia e flyer de balada (cortesia deste publicitário...).
Dá uma sensação gostosa de tomar as rédeas da própria balada, de ser o responsável por ela ser o melhor reveillon dos últimos anos, ou um fracasso total.

Enfim, quem estiver de bobeira no domingo, que tal me ligar e passar lá?

December loot

• DVD de vídeos do Placebo: só não tem Song to say good-bye. Mas conheci coisas novas deles!
• Cabo para ligar o meu celular no computador
• Pinduricalhos da Galeria do Rock
• Um baralho de "Jogo do Toque", ganho no amigo secreto sexual promovido pelo coven, das mãos de nada mais, nada menos que o atual namorado da Taís: tá aí um desfecho que eu não tinha pensado para essa situação.

• Por último, o DVD do Lost in Translation: quando o vi pela primeira vez, me identifiquei com dois personagens vivendo seu "verão". Mas pedi o filme neste natal, porque me identifiquei com o modo como eles se sentiam. Pela primeira vez na vida, tenho algo remotamente parecido à verdadeira insônia. Na verdade, é mais uma vontade de não dormir do que a falta de sono. A vontade de achar, nas horas silenciosas da madrugada, alguma espécie de direção para a vida agora que voltei da viagem. Racionalmente, minha vida está cheia de direções. Mas então porque continuo a sentir esse vácuo, esse lag? Suspeito estar sofrendo de ressaca da enebriante Europa.

Vendo Charlotte caminhar como uma gata de calcinha por entre as lentes e máquinas de seu jovem marido fotógrafo, uma direção me vem à cabeça: me pergunto se Miss Johanssen está na cidade. É mais possível que ela esteja na cidade natal, com os pais. Mas não custa devanear...

segunda-feira, dezembro 25, 2006

Season's Greetings

Sorry for the delay, but I just had this idea yesterday and hurried amidst family dinners to take the picture (of Paulista Avenue, the heart of São Paulo, with the São Paulo Art Museum on the left) and draw us.
Have a lovely New Year's Eve!

Desculpem o atraso, mas tive a idéia ontem e corri entre jantares de família pra tirar a foto (da Paulista com o MASP à esquerda) e desenhar-nos.
Tenham um bom reveillon!


X-Mas Alice 2006

terça-feira, dezembro 19, 2006

Happy Hour

No boteco da esquina, apenas com o chefe, a esposa e Luciana (a cantora do atendimento).
Impressionante o que se pode descobrir das pessoas na mesa de bar. Meu chefe foi pintor, dos 12 aos 16. Me aceitou na empresa em parte pela semelhança de rumos na vida. Suspeito que tenha estudado na FAAP, onde conheceu, entre outros, a Leda Catunda. Já esteve na Itália, mas é de família portuguesa. Nunca suspeitei que ele fosse artista plástico. Em meio ao chopp, me diz o quanto gosta de mim, e pergunta se a galera do estúdio acha que ele exagera quando dá bronca. I've faced worse...
A esposa dele é a versão quarentona e loira da Taís. Mesmo (des)penteado, mesmo estilo de se vestir. Aliás, idêntico. Igualmente sagitariana, temperamental e artista-plástica-enrustida. Ela sim é italiana, pais de Bari e Padova (respectivamente ao sul e ao norte, tremenda mistura). Entre os canapés de carpaccio, diz que logo foi com a minha cara e conversamos sobre signos porque a filha dela também é escorpiana. Depois me convida para visitar o sítio deles, para projetinhos artísticos gostosos.
Daí ela trava conversa com Luciana lembrando de músicas italianas que esta sabe cantar e a conversa envereda para música. E como Luciana cantou em programas de auditório, e como música sempre foi uma paixão do meu chefe apesar dele não tocar nada, e como ainda temos que marcar aquele karaokê.

E não sei como Loo e Cíntia se encaixariam em tudo isso, mas de repente sinto que de alguma forma tudo aqui se completa. Como estar em um país estrangeiro e de repente descobrir-me em uma agência de publicidade cheia de brasileiros.

Isso pode mudar daqui há alguns meses, mas enquanto durar, quero poder dizer de boca cheia: eu estou adorando o meu trabalho.
Comecei a fotografar a galera do coven. Quero fazer uma série de retratos deles, brincando principalmente com a metáfora dos vampiros.
A idéia já estava sendo maturada há mais de um ano. Começou quando eu ainda namorava a Taís. Na época, ela estava fazendo um esforço pra me fazer abandonar as fotos como referência para pintura, passando a pintar de cabeça o que eu lembrava das pessoas. Como resultado... não houve resultado. Eu travei e não consegui pintar nada. Segunda vez que a influência da namorada me trava.
Mas nem tudo foi negativo. Chegamos juntos a boas idéias no que diz respeito à técnica para estes retratos. Seríam feitos em chapas de acrílico, como o retrato da Bia. Uma única chapa, com a imagem pintada na frente e o verso chapado de uma única cor, um tom de vermelho bem sanguíneo. Na imagem, o vampiro retratado teria seu contorno riscado, descascando a tinta e expondo o vermelho, como o faziam algumas das pinturas da Dora, dando um aspecto de machucado, de arranhão, de tirar sangue mesmo.
Recentemente ainda pensei em fazer dois furos na placa depois da pintura ser forrada com contact, de alguma forma invasiva: martelar um prego, por exemplo. O contact evitaria que a placa se estraçalhasse, mantendo as rachaduras, a invasão.

segunda-feira, dezembro 11, 2006

Devotion, twisted devotion...

Há três meses tive alguém que me inspirava a pesquisar frases em um idioma que eu não conhecia e que não tinha a mais remota semelhança com qualquer um dos idiomas que conheço. EU prestava atenção a todos os mais ínfimos detalhes do que ela dizia para surpreende-la com minha dedicação.

Hoje alguém me envia por e-mail rascunhos de rosetas de igreja que encontra pelo caminho depois de ouvir-me falar da minha religião pessoal e de como esses vitrais tornaram-se uma paixão minha. Ela distingue com diligência as rosetas divididas em múltiplos de 3, mas rechaça os múltiplos de 8 porque sabe que eu os considero incorretos.

quinta-feira, dezembro 07, 2006

Criptografia back-hand top-spin.

Junte aos oito quadros mais dez retratos e os que eu vou começar neste fim de semana: vamos precisar de mais parede... O assunto dos gatos gravita entre minha vontade e meu bom senso. Quanto à lava-roupa: você é o produtor, investigue os custos.

O resto, não é assunto meu. Mas eu vou dar pitacos e não encha o meu saco que eu faço o que quiser.
Você diz que não joga o jogo, mas está jogando. Inconscientemente? Acho que nós dois precisamos de gente nova, novos truques, menos parâmetros (tá bom, esse último vale só pra mim...).
A vontade do corte passa quando você tiver uma faca na mão e ver que a cena é deveras ridícula.
Apenas uma constatação.

Em um dos meus cadernos de arte antigos, escrevi que não tinha interesse algum por texturas. Não que não desse valor a artistas que experimentavam com texturas na pintura, mas eu mesmo simplesmente não tinha interesse. Como resultado, eu esticava a tinta sobre a tela de forma que a película de cor fosse tão fina e aderente à tela, que permitia ver a trama da tela. Como se fosse impresso por uma impressora.

Daí tive o curso de 3D e aprendi a usar "bump-mapping", texturizar objetos, desassociar cor de textura pra depois juntar os dois. Hoje uso o mesmo raciocínio dos programas de 3D pra fazer texturas em ilustrações no Illustrator. Os resultados têm sido fantásticos.

Gostoso descobrir novas possibilidades de habilidades antigas.

segunda-feira, dezembro 04, 2006

Bienal da Casa da Xiclet - Como viver longe

No domingo à noite, fui à abertura da exposição na Casa da Xiclet.
Em uma das paredes, coloquei quatro das minhas Alices da viagem, refeitas em chapas de acrílico. Fiquei muito feliz com o resultado delas. Abusei de efeitos legais, como o sal na tinta quando pintei as pedras da entrada do Burgo, ou o pedaço de acetato que deixou uma tênue diferença na chapa de acrílico para ilustrar a cúpula de vidro ao redor das Musas no centro do Burgo. As pinturas, contando desta vez uma história com ordem cronológica, encantaram os visitantes, que passaram algum tempo lendo as frases, discutindo a história e comentando favoravelmente, sem saber que o rapaz ao lado era o autor.
Gisela não compareceu, deixando um espaço vago ao lado das minhas Alices. Já previ esse comportamento dela, depois de alguns anos de convivência, e aproveitei para trazer e instalar na vernissage o Lettin' the Cables Sleep, colocado no meu álbum do Orkut. Eu tinha ficado no dilema entre o que expôr nessa exposição, porque o tema "Como viver longe" calhava com as Alices da viagem, mas o teto baixo da galeria da Xiclet me dava vontade de fazer a montagem correta do Lettin'the Cables Sleep.
E foi um prazer imenso montar aquela tela. Os visitantes entravam na sala e imediatamente olhavam para o lado, dando de cara com o garotinho na base da tela. Imediatamente percebiam-no olhando para cima e percorriam com o olhar os prédios da cidade apontando para cima, até encontrarem a garota deitada no teto. Muitos não continham um "ah" de surpresa. Alguém chegou a comentar que era uma obra profundamente masculina. Outra escolheu o "fálico" para definir a pintura: adjetivo meio eufemista usado bastante no meio de arte para falar de pintos...

Fiquei muito satisfeito com a instalação das pinturas. E saí da Xiclet com aquela satisfação de se julgar entre as melhores obras da exposição. Mas isso quem deve julgar são os outros...

The uncharted land

Fim de semana delicioso.
Manhãs passadas no clube, saltando da plataforma. Há muito tempo não fazia isso. Suponho que faça parte da decisão a ser tomada sobre vender ou não o título do clube.
A questão surgiu quando comecei a contabilizar as despesas para o ano que vem. Pouco antes de voltar da viagem, comecei a conversar com o Lala`s sobre dividirmos um apê. Gradualmente, a conversa foi passando de mera sugestão para coisas mais concretas. Até que, recentemente, ele saiu do apartamento onde estava e mudou-se para outro menor, mais "dentro da civilização".
Now it`s my move.
Dependo apenas de ser efetivado no trabalho para começar a ganhar um salário decente e me mudar. A decisão foi informada aos pais, que a receberam bem, porque afinal já tá na hora. Mas dentre as considerações sobre esta nova vida estão algumas despesas pelas quais eu não vou poder pagar sozinho por um bom tempo. Entre elas, o clube. Poderia ignorar o assunto e deixar que meus pais continuassem pagando por mim, mas há uma pontinha de orgulho que quer que eu me pague integralmente a partir do momento que eu sair de casa. Os finais de semana seguintes serão um embate entre meu orgulho e o prazer que tenho de frequentar aquele lugar.

Visitei o apartamento pela primeira vez na sexta. Era exatamente como eu imaginava meu primeiro lugar fora da casa dos pais. Apartamento pequeno, minúsculo. Mas fácil de organizar e decorar. E realmente acho que mais do que isso seria um desperdício. No meu estilo de vida atual, mal paro em casa e não tenho tempo para cuidar de um lugar grande. No mais, a claustrofilia agradece.
No domingo, voltei ao apartamento para ajudar o Lala`s a pintar uma das paredes. O gesto pareceu-me quase ritual, como se por meio dele simbolizássemos a apropriação daquele espaço. Pintamos uma das paredes da sala de um bege que combina com os móveis e com o estilo indie do Lala`s. Já imagino a convivência interessante entre os dois estilos: o indie dele, de tons amarronzados, memórias da banda que teve na adolescência e fotos das várias viagens; contra o meu pseudo-gótico de tons escuros e ângulos afiados, o masoquismo sentimental dos relacionamentos passados e as pinturas invadindo as paredes. O estilo dele é amplo, mais forte. O meu é afiado, mais ligeiro. Ele teria um gato pardo ou alaranjado, chamado Milan [Kundera]. Eu adotaria uma gata preta ou listrada, chamada Genka.