sábado, dezembro 30, 2006

Seria possível desejar um ano melhor do que 2006? Acho que seria até pretensão demais.

2006 foi o ano da exposição na Paulista, mais séria e organizada do que as exposições na Xiclet. Foi o ano de viajar para a Itália, viajar sozinho para fora do país pela primeira vez. E ver neve pela primeira vez. Ainda consigo lembrar vagamente da sensação maravilhosa de irrealidade ao ver a neve derretendo no vidro do ônibus que me levava do aeroporto para a estação de trem. Ou a sensação irreal de estar dentro de um jogo de video game quando cheguei em Perugia.
2006 foi aprender italiano decentemente. Foi Linnea, mas também foi Hillis, David, Soo, Karen, Theo, Anne, Harley, Mary, Christos, Rochelle, Emil, Rebecca, Faride, Ramón... (meu saudoso bar Morlacchi) A lista é imensa. Mais tarde, viriam as italianas com as quais morei dois meses deliciosos: Fabiana, Sara e Mary, com os dois cachorros que eu amei mais ainda, e com os quais eu mantinha aquela comunicação fantástica. E não posso me esquecer dos amigos de minha avó. Os Seppilli, que me ajudaram muito na chegada a Perugia; e todos os outros que me acolheram nas mais diversas cidades do norte italiano: os Ascarelli em Roma, a senhora Modolo e seu sobrinho Michelle em Firenze, O fabuloso senhor Zeller na triste e cinzenta Milano, o dr. Volli e a senhora Tonon na minha Trieste.
2006 também foi o ano de muitas viagens solitárias, daquelas que eu aproveito com um outro gosto, podendo fazer minhas decisões loucas. Veneza, meu sonho de criança. Assis e os presentes para minhas avós. A inesperada Norcia e o almoço na neve da montanha. E finalmente a enigmática Arezzo, uma charada paradoxal ainda incompreendida.
Conheci tanta gente e fiz tanto acontecer por estar embebido daquela liberdade do viajante. De poder fazer o que eu queria, ser quem eu queria. De não ter passado. Ser alguém independente do artista, do estudante disto ou daquilo, do emprego. Será possível recriar esse espirito aqui em São Paulo?

No meio da viagem, a decisão drástica: Londres.
Londres foi "sublime". Volto a mencionar aqui o significado real dessa palavra, que todo mundo confunde com "sutil". Londres não foi nada sutil. Foi sublime no sentido de ser tão maior do que eu, que era impossível abarcá-la. Maior e mais poderosa, avassaladora, aterrorizante. Sobrevivi aquele gigantesco impacto inicial graças a Faride e sua discpliscência cigana. Sem falar em Anna e a turma de Beenie Court, que se tornaria minha turma londrina, de baladas loucas e pique-niques no jardim.
Com um pouco de paciência e muito stress, consegui compreender a cidade e arranjar um lugar pra morar (graças às dicas de Theo). A casa da Sra. Sparrow foi uma delícia em Acton, logo ao lado do Greensbury Park e do cemitério de Ealing, com suas histórias de gente esquecida. Essa odisséia teve seu preço: Taís percorreu meio mundo pra me encontrar lá, e quando chegou eu estava um caco e não lhe dei atenção. As consequências seriam fatais.
Mais fácil do que encontrar moradia foi achar um emprego: a Ealing Park Tavern me aceitou por eu ser brasileiro, como o gerente Charles. Até hoje não me sai da cabeça que ele tinha sua predileção vampírica por mim. E assim aprendi a usar da sedução pra conquistar as coisas, como o fazem as mulheres. Mas não foi o único que aprendi. Os macetes de garçom que depois encantariam minha família em casa foram ensinados pela fantástica Nim e o resto da turma do pub me ensinou a filosfia de vida servil: um estilo de vida que eu já pensara antes, mas que as amarras da minha educação não me permitiam experimentar. Um gosto por servir bem, por prover a felicidade de alguém. Gostar de ser um servo eficiente e não um rei inepto.
Tirando Liverpool, visitada com a Taís, não viajei enquanto estive em Londres. Não tive tempo com o emprego no pub. Mas também, não é preciso viajar quando se tem o mundo dentro de Londres. Eu morava no bairro polonês, ia para baladas no bairro americano, conhecia gente no bairro irlandês e ainda visitei o italiano, o brasileiro, o romeno, o francês e obviamente o russo.

Como desejar um ano melhor do que aquela uma semana no Limbo com Genka, minha russa? Pedir que durasse mais seria uma heresia. Querer mais do que aquilo, um disparate de uma mente febril.

Mas foi preciso voltar e a volta não foi fácil. Deixar uma paixão recente desse jeito, voltar para o país detestado, deixar de lado os hábitos apreciados por lá... Voltar a São Paulo foi como voltar a dormir. Ou nem isso, já que o dormir produz sonhos deliciosos. Foi mais como voltar a estar sob o efeito de algum sedativo poderoso. Ter miríades de planos e vontades e não conseguir consumar nada por causa da rotina daqui, da ineficiência minha e do povo local, da mentalidade não-cooperativa dos americanos; mas principalmente por causa de um mar de outras coisas já obsoletas, mas que precisam ser terminadas. A faculdade, conseguir um emprego, colocar a vida em ordem...

O emprego, no entanto, foi uma grata surpresa. Encontrei a agência na qual eu deveria ter começado a trabalhar, antes da agência anterior. Um lugar que me recebeu de braços abertos e onde eu pude me sentir como parte da família mesmo. Mais do que isso, pela primeira vez sentia-me como um empregado útil, do qual a empresa dependia.

O ano terminou com uma festa de reveillon organizada na com a Nana e o Namorado. Nas viradas anteriores, sempre encarei o acontecimento com uma dose de passividade meio profética: um reveillon bom era presságio de um ano terrível e um reveillon péssimo anunciava um ano fantástico. Mas apesar dos prognósticos enfadonhos para este ano que acaba de começar (com monografias de faculdade, sem traço algum de perspectiva amorosa, aturando a morosidade brasileira...), eu não encarei esta virada da mesma forma passiva. Nós fizemos a festa e, de forma similar, depende apenas de mim ter um ano mais intenso do que 2006.

2007
Novo. Ano Novo.

quarta-feira, dezembro 27, 2006

Reveillon 2006-2007

A festa dos que não foram


Começou com uma idéia pequena, simples, de gente com reveillons que miaram e acabou ficando por aqui em São Paulo. Daí a coisa cresceu e já conta com decoração, três ambientes (incluíndo fumódromo de narguile), ceia e flyer de balada (cortesia deste publicitário...).
Dá uma sensação gostosa de tomar as rédeas da própria balada, de ser o responsável por ela ser o melhor reveillon dos últimos anos, ou um fracasso total.

Enfim, quem estiver de bobeira no domingo, que tal me ligar e passar lá?

December loot

• DVD de vídeos do Placebo: só não tem Song to say good-bye. Mas conheci coisas novas deles!
• Cabo para ligar o meu celular no computador
• Pinduricalhos da Galeria do Rock
• Um baralho de "Jogo do Toque", ganho no amigo secreto sexual promovido pelo coven, das mãos de nada mais, nada menos que o atual namorado da Taís: tá aí um desfecho que eu não tinha pensado para essa situação.

• Por último, o DVD do Lost in Translation: quando o vi pela primeira vez, me identifiquei com dois personagens vivendo seu "verão". Mas pedi o filme neste natal, porque me identifiquei com o modo como eles se sentiam. Pela primeira vez na vida, tenho algo remotamente parecido à verdadeira insônia. Na verdade, é mais uma vontade de não dormir do que a falta de sono. A vontade de achar, nas horas silenciosas da madrugada, alguma espécie de direção para a vida agora que voltei da viagem. Racionalmente, minha vida está cheia de direções. Mas então porque continuo a sentir esse vácuo, esse lag? Suspeito estar sofrendo de ressaca da enebriante Europa.

Vendo Charlotte caminhar como uma gata de calcinha por entre as lentes e máquinas de seu jovem marido fotógrafo, uma direção me vem à cabeça: me pergunto se Miss Johanssen está na cidade. É mais possível que ela esteja na cidade natal, com os pais. Mas não custa devanear...

segunda-feira, dezembro 25, 2006

Season's Greetings

Sorry for the delay, but I just had this idea yesterday and hurried amidst family dinners to take the picture (of Paulista Avenue, the heart of São Paulo, with the São Paulo Art Museum on the left) and draw us.
Have a lovely New Year's Eve!

Desculpem o atraso, mas tive a idéia ontem e corri entre jantares de família pra tirar a foto (da Paulista com o MASP à esquerda) e desenhar-nos.
Tenham um bom reveillon!


X-Mas Alice 2006

terça-feira, dezembro 19, 2006

Happy Hour

No boteco da esquina, apenas com o chefe, a esposa e Luciana (a cantora do atendimento).
Impressionante o que se pode descobrir das pessoas na mesa de bar. Meu chefe foi pintor, dos 12 aos 16. Me aceitou na empresa em parte pela semelhança de rumos na vida. Suspeito que tenha estudado na FAAP, onde conheceu, entre outros, a Leda Catunda. Já esteve na Itália, mas é de família portuguesa. Nunca suspeitei que ele fosse artista plástico. Em meio ao chopp, me diz o quanto gosta de mim, e pergunta se a galera do estúdio acha que ele exagera quando dá bronca. I've faced worse...
A esposa dele é a versão quarentona e loira da Taís. Mesmo (des)penteado, mesmo estilo de se vestir. Aliás, idêntico. Igualmente sagitariana, temperamental e artista-plástica-enrustida. Ela sim é italiana, pais de Bari e Padova (respectivamente ao sul e ao norte, tremenda mistura). Entre os canapés de carpaccio, diz que logo foi com a minha cara e conversamos sobre signos porque a filha dela também é escorpiana. Depois me convida para visitar o sítio deles, para projetinhos artísticos gostosos.
Daí ela trava conversa com Luciana lembrando de músicas italianas que esta sabe cantar e a conversa envereda para música. E como Luciana cantou em programas de auditório, e como música sempre foi uma paixão do meu chefe apesar dele não tocar nada, e como ainda temos que marcar aquele karaokê.

E não sei como Loo e Cíntia se encaixariam em tudo isso, mas de repente sinto que de alguma forma tudo aqui se completa. Como estar em um país estrangeiro e de repente descobrir-me em uma agência de publicidade cheia de brasileiros.

Isso pode mudar daqui há alguns meses, mas enquanto durar, quero poder dizer de boca cheia: eu estou adorando o meu trabalho.
Comecei a fotografar a galera do coven. Quero fazer uma série de retratos deles, brincando principalmente com a metáfora dos vampiros.
A idéia já estava sendo maturada há mais de um ano. Começou quando eu ainda namorava a Taís. Na época, ela estava fazendo um esforço pra me fazer abandonar as fotos como referência para pintura, passando a pintar de cabeça o que eu lembrava das pessoas. Como resultado... não houve resultado. Eu travei e não consegui pintar nada. Segunda vez que a influência da namorada me trava.
Mas nem tudo foi negativo. Chegamos juntos a boas idéias no que diz respeito à técnica para estes retratos. Seríam feitos em chapas de acrílico, como o retrato da Bia. Uma única chapa, com a imagem pintada na frente e o verso chapado de uma única cor, um tom de vermelho bem sanguíneo. Na imagem, o vampiro retratado teria seu contorno riscado, descascando a tinta e expondo o vermelho, como o faziam algumas das pinturas da Dora, dando um aspecto de machucado, de arranhão, de tirar sangue mesmo.
Recentemente ainda pensei em fazer dois furos na placa depois da pintura ser forrada com contact, de alguma forma invasiva: martelar um prego, por exemplo. O contact evitaria que a placa se estraçalhasse, mantendo as rachaduras, a invasão.

segunda-feira, dezembro 11, 2006

Devotion, twisted devotion...

Há três meses tive alguém que me inspirava a pesquisar frases em um idioma que eu não conhecia e que não tinha a mais remota semelhança com qualquer um dos idiomas que conheço. EU prestava atenção a todos os mais ínfimos detalhes do que ela dizia para surpreende-la com minha dedicação.

Hoje alguém me envia por e-mail rascunhos de rosetas de igreja que encontra pelo caminho depois de ouvir-me falar da minha religião pessoal e de como esses vitrais tornaram-se uma paixão minha. Ela distingue com diligência as rosetas divididas em múltiplos de 3, mas rechaça os múltiplos de 8 porque sabe que eu os considero incorretos.

quinta-feira, dezembro 07, 2006

Criptografia back-hand top-spin.

Junte aos oito quadros mais dez retratos e os que eu vou começar neste fim de semana: vamos precisar de mais parede... O assunto dos gatos gravita entre minha vontade e meu bom senso. Quanto à lava-roupa: você é o produtor, investigue os custos.

O resto, não é assunto meu. Mas eu vou dar pitacos e não encha o meu saco que eu faço o que quiser.
Você diz que não joga o jogo, mas está jogando. Inconscientemente? Acho que nós dois precisamos de gente nova, novos truques, menos parâmetros (tá bom, esse último vale só pra mim...).
A vontade do corte passa quando você tiver uma faca na mão e ver que a cena é deveras ridícula.
Apenas uma constatação.

Em um dos meus cadernos de arte antigos, escrevi que não tinha interesse algum por texturas. Não que não desse valor a artistas que experimentavam com texturas na pintura, mas eu mesmo simplesmente não tinha interesse. Como resultado, eu esticava a tinta sobre a tela de forma que a película de cor fosse tão fina e aderente à tela, que permitia ver a trama da tela. Como se fosse impresso por uma impressora.

Daí tive o curso de 3D e aprendi a usar "bump-mapping", texturizar objetos, desassociar cor de textura pra depois juntar os dois. Hoje uso o mesmo raciocínio dos programas de 3D pra fazer texturas em ilustrações no Illustrator. Os resultados têm sido fantásticos.

Gostoso descobrir novas possibilidades de habilidades antigas.

segunda-feira, dezembro 04, 2006

Bienal da Casa da Xiclet - Como viver longe

No domingo à noite, fui à abertura da exposição na Casa da Xiclet.
Em uma das paredes, coloquei quatro das minhas Alices da viagem, refeitas em chapas de acrílico. Fiquei muito feliz com o resultado delas. Abusei de efeitos legais, como o sal na tinta quando pintei as pedras da entrada do Burgo, ou o pedaço de acetato que deixou uma tênue diferença na chapa de acrílico para ilustrar a cúpula de vidro ao redor das Musas no centro do Burgo. As pinturas, contando desta vez uma história com ordem cronológica, encantaram os visitantes, que passaram algum tempo lendo as frases, discutindo a história e comentando favoravelmente, sem saber que o rapaz ao lado era o autor.
Gisela não compareceu, deixando um espaço vago ao lado das minhas Alices. Já previ esse comportamento dela, depois de alguns anos de convivência, e aproveitei para trazer e instalar na vernissage o Lettin' the Cables Sleep, colocado no meu álbum do Orkut. Eu tinha ficado no dilema entre o que expôr nessa exposição, porque o tema "Como viver longe" calhava com as Alices da viagem, mas o teto baixo da galeria da Xiclet me dava vontade de fazer a montagem correta do Lettin'the Cables Sleep.
E foi um prazer imenso montar aquela tela. Os visitantes entravam na sala e imediatamente olhavam para o lado, dando de cara com o garotinho na base da tela. Imediatamente percebiam-no olhando para cima e percorriam com o olhar os prédios da cidade apontando para cima, até encontrarem a garota deitada no teto. Muitos não continham um "ah" de surpresa. Alguém chegou a comentar que era uma obra profundamente masculina. Outra escolheu o "fálico" para definir a pintura: adjetivo meio eufemista usado bastante no meio de arte para falar de pintos...

Fiquei muito satisfeito com a instalação das pinturas. E saí da Xiclet com aquela satisfação de se julgar entre as melhores obras da exposição. Mas isso quem deve julgar são os outros...

The uncharted land

Fim de semana delicioso.
Manhãs passadas no clube, saltando da plataforma. Há muito tempo não fazia isso. Suponho que faça parte da decisão a ser tomada sobre vender ou não o título do clube.
A questão surgiu quando comecei a contabilizar as despesas para o ano que vem. Pouco antes de voltar da viagem, comecei a conversar com o Lala`s sobre dividirmos um apê. Gradualmente, a conversa foi passando de mera sugestão para coisas mais concretas. Até que, recentemente, ele saiu do apartamento onde estava e mudou-se para outro menor, mais "dentro da civilização".
Now it`s my move.
Dependo apenas de ser efetivado no trabalho para começar a ganhar um salário decente e me mudar. A decisão foi informada aos pais, que a receberam bem, porque afinal já tá na hora. Mas dentre as considerações sobre esta nova vida estão algumas despesas pelas quais eu não vou poder pagar sozinho por um bom tempo. Entre elas, o clube. Poderia ignorar o assunto e deixar que meus pais continuassem pagando por mim, mas há uma pontinha de orgulho que quer que eu me pague integralmente a partir do momento que eu sair de casa. Os finais de semana seguintes serão um embate entre meu orgulho e o prazer que tenho de frequentar aquele lugar.

Visitei o apartamento pela primeira vez na sexta. Era exatamente como eu imaginava meu primeiro lugar fora da casa dos pais. Apartamento pequeno, minúsculo. Mas fácil de organizar e decorar. E realmente acho que mais do que isso seria um desperdício. No meu estilo de vida atual, mal paro em casa e não tenho tempo para cuidar de um lugar grande. No mais, a claustrofilia agradece.
No domingo, voltei ao apartamento para ajudar o Lala`s a pintar uma das paredes. O gesto pareceu-me quase ritual, como se por meio dele simbolizássemos a apropriação daquele espaço. Pintamos uma das paredes da sala de um bege que combina com os móveis e com o estilo indie do Lala`s. Já imagino a convivência interessante entre os dois estilos: o indie dele, de tons amarronzados, memórias da banda que teve na adolescência e fotos das várias viagens; contra o meu pseudo-gótico de tons escuros e ângulos afiados, o masoquismo sentimental dos relacionamentos passados e as pinturas invadindo as paredes. O estilo dele é amplo, mais forte. O meu é afiado, mais ligeiro. Ele teria um gato pardo ou alaranjado, chamado Milan [Kundera]. Eu adotaria uma gata preta ou listrada, chamada Genka.

quarta-feira, novembro 29, 2006

Descobri que a garota do atendimento (também chamda Luciana, o que causa algumas confusões por lá...) canta divinamente bem. Apareceu ontem com um CD de músicas que gravou em estúdio. Aparentemente, ela trabalhou com bandas desde os 14 anos, e sabe-se lá como acabou como atendimento de agência. Eu já ouvira que ela tinha um gosto por karaokê como o meu, mas daí pra cantar bem é outro assunto.
Durante as horas de trabalho, Cíntia coloca o fone no ouvido e não contém a cantoria. Outra que leva algum jeito e gosta disso. O repertório é interessante, passando pelo Tourniquete do Evanescence, coisa que nunca imaginei sendo cantada por uma garota aparentemente pacata e boazinha como ela.

Estou prevendo happy hours no karaokê...

segunda-feira, novembro 27, 2006

Na quinta passada, vernissage da exposição da Dora na Luisa Strina. Dora abriu a exposição com um vídeo: ao lado do título da exposição, "AcordaLice", uma tela mostrava uma garota vestida de coelhinha pin-up (orelhas, corpete de couro, rabo de coelho, meia arrastão com cinta-liga, the whole nine yards...), dormindo lânguida sobre uma cama de alguma pele de animal branco. Mais adiante, em outro vídeo, Dora promovia uma colagem insana de referêcias, juntando as diversas personagens femininas infantis como Alice, Dorothy e a chapeuzinho vermelho, ao som cacofônico de uma banda de punk rock e o declamar do quase incompreensível Finnegan's Wake do James Joyce. A última sala da exposição repentinamente transportava o expectador para um momento Twin Peaks, sendo inteiramente rodeada por dentro de uma pesada cortina vermelha. Para completar a referência ao filme do David Lynch, só faltava o anão falando ao contrário. Mas então uma voz soava dos alto-falantes no teto: um finlandês tentava ler o Ulisses do Joyce em português, resultando em uma coisa incompreensível que bem poderia ser a fala ao contrário do anão. Fantástico.

No meio da exposição, encontrei Naiah Mendonça. Contemporânea do curso de artes, ela tinha passado um tempo no ateliê das meninas logo depois que eu saí. Pena: conversas com ela teriam sido interessantes. Mas nunca é tarde demais. Naiah fazia principalmente vídeos e fotos. Na época da última Anual de que eu tentei participar, ela apresentou uma série de fotos entitulada Ofélia [1][2][3], onde ela aparecia dentro de uma banheira. Eu tinha feito a série Apatia [1][2][3] na época, e a ressonância era óbvia. Mas as fotos de Naiah tinham um componente cromático mais interessante: ela tinha cabelos tingidos de bordô na época, e jogara um corante verde na água da banheira, criando um contraste bem forte. No mais, a pele branquíssima dela e a maquiagem que empalidecia seus lábios dando aquele aspecto mórbido contrastava com as longas unhas pintadas de preto no pé que escapava pela borda da banheira.
Durante os semestres nos quais tivemos as aulas de vídeo, vi um outro trabalho de Naiah que muito me interessou. Chamava-se Olympia (e eu, que confundo até Heitor Penteado com Hélio Pellegrino por causa das iniciais, sempre tenho dificuldade de discerni-lo de Ofélia...). Era uma imagem simples: a tela tomada por uma garota deitada em um sofá com a cabeça no colo do namorado. Os dois assistiam imóveis a uma televisão, iluminados pela luz azul da tela em uma sala escura. Aos poucos, um líquido denso, viscoso e escuro começava a vazar (no inglês, o verbo perfeito seria "to ooze") por diversos cantos. Do ventre da garota, por seu pescoço, na testa. O sangue escorre pelo sofá, cai no chão. E durante tudo isso, o casal assiste TV, imóvel, ignorando a tragédia. Não se falam, não se olham. Em um site, li que um curador analisou o vídeo dizendo tratar-se da "incomunicabilidade e um cotidiano de emergências ignoradas". Pessoalmente, me trouxe uma sensação de estar morrendo por dentro e ainda assim manter a pose, fingir que nada acontece, fingir a integridade e a sanidade. Já escrevi por aqui em algum lugar que de vez em quando eu podia sentir minha sanidade vazando, sumindo aos poucos.
Queria fazer algo assim também.

Mais da Naiah no blog dela.

quinta-feira, novembro 23, 2006

O bracelete de Alice

Um insight durante o trabalho.
Uma vez me perguntaram porque que a minha Alice tem o bracelete de couro no pulso esquerdo. Quando desenhei a personagem pela primeira vez, quis colocar a peça porque parecia um ítem totalmente alheio ao visual dela, uma coisa mais hard core em uma menininha inocente de vestidinho rosa. Mas depois o negócio começou a pesar, virando uma característica intrínseca dela, como o corte de cabelo.
Ainda assim, quando me perguntavam o que significava, eu não sabia responder. Porque este é um daqueles trabalhos que vai sendo feito inconscientemente. Eu faço um pouco, e o trabalho se faz um pouco sozinho. Os significados vão aparecendo gradualmente, não estão lá desde o começo.

De uns tempos pra cá, comecei a pensar que Alice escondia debaixo daquele bracelete um machucado. Uma ferida aberta que ela usava o bracelete pra manter fechada e escondida. O conceito óbvio seria o de um corte no pulso, uma Alice meio suicida.

Hoje me veio em mente que talvez tivesse a ver com as crises de ansiedade. Com o ato de me esforçar pra segurar a crise dentro de mim, abafar. Como mantê-la amarrada, amordaçada por tiras de couro. Ainda preciso aperfeiçoar a idéia.

Não sei a quem vai interessar isto.

quarta-feira, novembro 22, 2006

Out with the old, in with the new

Sei que o Orkut virou algo totalmente demodê e não tem mais graça atualizar perfil...
Mas vim enterrar aqui o texto do meu perfil anterior, que eu gostava e que me rendeu comentários de alguns desconhecidos, pra dar lugar a algumas novidades naquele lugar, que já estava enchendo de pó de tão velho...

E não, não acho que o novo esteja melhor do que este. But time will tell.

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Eu ando quase sempre sozinho. Escrevo sem olhar para o teclado ou para a tela. Adoro e cultivo meus comportamentos bizarros. Me interesso por perversões sexuais. Sou um claustrófilo (gosto de lugares fechados). Achei que era esquizótipo. Sou facilmente hipnotizado por sons e movimento repetitivos. Sou um existencialista. Sou um pouco nihilista. Não sou tão intelectual assim: parte disso é só pose mesmo. Mas detesto ter vergonha de ser culto. Adoro gente libertina. Tento ser hedonista. Estou aprendendo a não ser tão metódico. Estou aprendendo a olhar nos olhos das pessoas. Gosto de falar de detalhes íntimos. Tenho pudor para perguntá-los. Gosto do meu corpo, embora me ache pequeno e isso crie complexos. Andaria nu se possível. Dou apelidos para pessoas que vejo passar frequentemente. Faço comparações bizarras de pessoas com artistas de cinema. Já tive toda uma turma de personagens imaginários. Queria ensinar alguém a desenhar/pintar. Já ensinei certa alguém a andar de bicicleta. Me apaixono por fotografias de pessoas. Compreendi o que era amar alguém quando já era tarde demais (aliás, lição aprendida...). Odeio meu cabelo. Odeio futebol. Não dou importância para comida. Compenso isso com bebidas (não-alcoólicos, nesse caso). Dizem que escrevo melhor do que desenho. Dizem que tenho movimentos animalescos. Dizem que tenho gostos incomuns, porém sensatos.

Do meu trabalho de graduação:
"Filosoficamente, é impossível conhecer alguém por inteiro.
Mesmo que a pessoas se explique, você não é ela para saber a impressão que ela tem de si mesma.
Analogamente, ela não é você para saber a impressão que você tem dela.
Falta sempre o outro ponto de vista."

[por mim mesmo]

Highlights da monografia (parte 1)

Sim, isso mesmo.
Ao contrário da maioria das pessoas que, durante a época de escrever a monografia de conclusão de curso, somem do mundo virtual por não terem tempo pra ele, eu resolvi juntar as duas coisas. Ou melhor, estabelecer uma relação simbiótica entre as duas coisas.
A monografia servirá de assunto interessantes para spice up as linhas do meu blog, enquanto o eventual feedback de leitores discordantes servirá pra fortalecer meus argumentos ou mudar o rumo pra corrigir falhar.

Vou postar por aqui só o filé da monografia, sem os floreios e burocracias necessários pra apresentação acadêmica. O que significa que eu não vou correr atrás de links para bibliografia de referência. Às vezes, se estiver com saco, ainda coloco links para os artistas mencionados. Se não o fizer, por favor façam vocês o esforço e pesquisem. O Google não morde.

Sem mais delongas...

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O dicionário Aurélio define conceito como uma “representação dum objeto pelo pensamento, por meio de suas características gerais”. Assim, definir o conceito de arte requer a procura de características comuns a toda obra de arte. Obvio, não? Porém, como encontrar características comuns a produções tão diferentes quanto esculturas, pinturas, vídeos, performances, literatura, música ou teatro?

A resposta a esta pergunta veio dos cadernos de anotações que preenchi ao longo do curso [de artes plásticas]. Cadernos cheios de idéias anotadas para as quais eu não tinha então tempo para me dedicar, e estava documentando para épocas mais calmas (e que até hoje não chegaram...). Todas aquelas anotações eram idéias soltas. Elas só chegariam a ser obras de arte quando eu as colocasse em prática. Afinal, o próprio termo “obra de arte” pressupõe a materialização de algo. Não há obra que seja pura idéia. Mesmo obras intrinsecamente conceituais como o Carvalho de Michael Craig-Martin [1] [2] precisam de uma manifestação. Mesmo coisas tão efêmeras quanto uma performance de poucos minutos são algo que acontece no mundo real, que toma um espaço, que é recebido pelos sentidos.

Indo direto ao assunto, o mesmo dicionário dá uma série de definições para o termo arte:

1. Capacidade que tem o homem de pôr em prática uma idéia, valendo-se da faculdade de dominar a matéria [...].”

Suscinto e direto para um conceito inicial, mas não difere a arte de outras atividades criadoras, como a engenharia, as diversas ciências ou, digamos, a culinária. Mais adiante, o dicionário define:

3. Atividade que supõe a criação de sensações ou de estados de espírito, em geral de caráter estético, mas carregados de vivência íntima e profunda, podendo suscitar em outrem o desejo de prolongar ou renovar. [...].”

Com essa definição, já é possível excluir várias das atividades criadoras mencionadas, por terem objetivos diversos da fruição estética. A engenharia procura a forma mais direta, eficaz e eficiente de resolver necessidades do mundo físico, mas não se preocupa com o aspecto estético do produto final se este não lhe confere mais capacidade de alcançar seu objetivo. As ciências, via de regra, procuram comprovar hipóteses com utilidade prática, que muitas vezes também consideram o aspecto estético como irrelevante.
No entanto, restam outras atividades. A já mencionada culinária pode ter um objetivo: alimentar. Porém nunca perde de vista o aspecto estético (“estética”, do grego aisthesis, significando “percepção” e portanto relativo não só ao visual, mas aos outros sentidos). A arquitetura é outra modalidade de criação que leva em conta a estética. Há também a moda como atividade criadora, que não só leva em conta a estética, como em muitos casos define seus parâmetros.
Embora se fale da “arte da culinária” ou se considere arquitetos notáveis como Gaudí um artista e ainda que a moda tenha eventos cujo visual e estrutura ressoem a exposições de arte; estas atividades, assim como outras que veremos adiante, não podem ser consideradas arte. Não a arte no sentido mais específico e direto da palavra. A “arte da culinária” continua sendo, em seu sentido mais específico, culinária, tendo a alimentação como foco principal. E não importa quanta cor e formas lascivas Gaudí instile em suas criações, elas continuam sendo, a rigor, arquitetura, requerendo como produto final a construção de moradia útil e eficaz. A moda, essencialmente, não pode abandonar o assunto de vestimenta.
Porém existe uma categoria de produção que não se enquadra em nenhuma outra definição, sendo generalizada sob o nome de arte. Não a “arte de” alguma coisa, mas apenas e essencialmente arte, sem outra definição. Os exemplares desta produção variam livremente em forma e tema, mas continuam sendo reunidos sob esta definição única e conjunta de “obras de arte”. Para efeito de comunicação nesta monografia, tal categoria será escrita com a primeira maiúscula: Arte. O que a diferencia das outras supostas artes é justamente o fato de não ter um objetivo específico e prático...

A SEGUIR, CENAS DOS PRÓXIMOS CAPÍTULOS:
• Filósofos que sustentam a efemeridade da arte (assim que eu conseguir achar o desgraçado do meu professor de filosofia da faculdade de arte...).
• A finalização da definição de arte baseada nos meus três ítens: técnica (ou "materialização de uma idéia valendo-se do domínio da matéria", como colocado pelo Aurélio...), estilo e conceito subjetivo (o lance da efemeridade, falta de objetivo prático, vai entrar aqui).

terça-feira, novembro 21, 2006

Cíntia

Temos uma nova integrante na agência. Cíntia. Garota de aprência simples, mas de um jeito interessante, ativo, temperado.
Tentando fixar o nome na cabeça, acabei pensando em Synthia, como se derivado da grafia inglesa para algo sintético. Mas o apelido não teria nada a ver com ela, que pelo jeito simples e humor honesto, não tem nada de artificial ou sintético.

To be continued...

segunda-feira, novembro 20, 2006

AcordaLice

Acordei há alguns dias com o som do despertador do meu celular. Rolei o corpo na cama e pude vê-lo no chão, sobre a minha mochila. E então percebi o rápido rastejar de formigas no meu braço, enquanto a minha circulação sanguínea voltava a preencher o braço direito quase morto sobre o qual eu tinha dormido. Mas eu sou meio brontofóbico quando pego de surpresa e logo fiz a primeira coisa que me veio à cabeça para deter aquele som: estiquei o braço para pegar o celular. Aquele mesmo, o direito. Um pedaço de carne sem vida e estúpido se jogou pela beira da cama, ficando pendurado a meio caminho do aparelho. Ainda mexi o ombro algumas vezes, tentando lançá-lo em direção ao celular. Daria na mesma estar sacudindo um salame. Poupem-me: eram as sete da manhã e eu não estava raciocinando... Demorou até eu ter a brilhante idéia de usar o outro braço.
Mais hilário ainda é quando apenas uma das pernas adormece. Eu rolo pra fora da cama e piso no chão com o pé que ainda está vivo. Eu sei que a outra perna está adormecida, mas como eu disse, não estou raciocinando. Daí dou aquele primeiro e fatídico passo que me leva non-stop ao chão. Belo jeito de começar o dia.

Mas o mais bizarro aconteceu no sábado. Sendo acordado pelo despertador apenas para descobrir que eu não precisava ir trabalhar, despenquei na cama e voltei a dormir. Muitos já me disseram que, em determinadas ocasiões, eu durmo de olhos abertos (don't ask, até hoje ninguém me mostrou provas concretas disso...). Pois bem, sonhei que estava aprovando uma peça publicitária, um catálogo. Na capa, um desenho bizarro. Quando acordei, ainda me lembrava do desenho. Mas foi só quando me virei na cama, olhando para o teto, que reconheci: o ventilador do meu quarto.
Eu dormi de olhos abertos, olhando para o ventilador, e minha cabeçca achou um jeito de incluir o detalhe no sonho. Bizarro.

Aproveitando o ensejo, AcordaLice é o nome da exposição que a minha ex-orientadora Dora Longo Bahia abre nesta quinta na Galeria Luisa Strina (Rua Oscar Freire 502), baseada obviamente, na Alice. Gostaria de acreditar que ela viu a minha exposição das Alices em Janeiro, ou soube delas de algum outro modo, mas já estou um pouco além dessas pretensões...
Ainda assim, coincidência interessante.

27ª BIENAL DE SÃO PAULO COMO VER JUNTO (segundo andar)

27ª BIENAL DE SÃO PAULO COMO   VER   JUNTO (segundo andar)


A invasão continua!
Quem topa?

sábado, novembro 18, 2006

Vídeos do Bowie

Me surgiu a brilhante idéia de usar o Youtube pra procurar os vídeos do Bowie que eu tanto gosto.
Vídeos como o maravilhoso Strangers when we meet, que foi o primeiro vídeo que eu vi dele, a primeira música que ouvi, e que gerou todo meu gosto por ele. Ou o Survive, que me deu aquela sensação de literalmente "perder o chão" frente a um relacionamento que termina (prestem atenção na letra). E ainda o Thursday's Child, onde ele aparece com a esposa super-model (não me perguntem qual delas...). Sem falar no animal I'm affraid of Americans, com a participação do vocalista do Nine Inch Nails, Trent Reznor; e o remix dos Pet Shop Boys de Hallo Spaceboy.

Vídeos cheios de uma coisa muito estranha e sobrenatural.

E por falar em participações, o Bowie participou de um show do Placebo, de onde saiu um vídeo do Without you I'm nothing da banda, que eu recomendo mais pela edição do vídeo e pelo dueto fabuloso do que pelo vídeo em si. Mas se formos falar de vídeos do Placebo, a dica é Song to say goodbye e o já mencionado This picture.

sexta-feira, novembro 17, 2006

Defesa

Conversando com a Loo sobre pintura.
Me dei conta de um comportamento recorrente durante o ato de pintar. Me aproximo da tela no cavalete e aplico umas dez pinceladas rápidas, no mesmo local, esticando a tinta ao máximo: o que importa é economia de tinta e uma impressão tão fina que se possa ver a trama da tela através dela, estilo meu que eu gosto. O gesto é quase agressivo, pela pressão que faço na tela, e meio psicótico, pela repetição. Uma violência criadora.
Mas daí eu dou três passos pra trás, tintas e pincéis entre os dedos como mãos ensanguentadas. Inclino a cabeça para o lado como se estivesse analisando a obra, avaliando os traços, mas na verdade não é isso. Eu dou esses passos pra trás como um gesto de defesa. É a estratégia de luta mais básica e eficaz: atacar e fugir, saíndo do alcance do oponente antes que ele possa revidar.
Na verdade, reavaliando, eu estou me defendendo de mim mesmo. Porque o gesto da pintura seria uma violência, não fosse a minha obssessão pelas minúcias, os detalhes, pela perfeição técnica impossível de ser alcançada. E eu dou aqueles passos pra trás não para sair do alcance da tela, mas para tirá-la do meu. Assim eu não posso fazer besteiras impulsivas. Assim eu mantenho meu precioso controle.
E descobri pelo blog da MaWa que a Alice que inspirou aquela do Lewis Carrol morreu em 15 de Novembro.

Também ouvi dizer que o ano em que eu nasci foi o ano em que a existência da AIDS veio a público.

Faz um bem para a auto-estima...

quinta-feira, novembro 16, 2006

Pra compensar

Considerando alguns aspectos burocráticos, acho que foi um dos melhores aniversários que tive faz muito tempo.

Começou com o tradicional almoço de família que eu não troco por nada. Lasanha de funghi, vinho, vovó no outro lado da mesa fazendo comentários com seu humor maroto e meu pai despejando todo seu sarcasmo sobre o governo do PT. Meu irmão combatendo os excessos de direitismo do meu pai e mamãe servindo de voto de Minerva. Eu? Só mastigava e ouvia...

Chegando a tarde, fui para a piscina da casa da Ju, namorada do Piero. Ela fazia aniversário no dia antes do meu e meu irmão seguia logo após, no 16. Aproveitamos a descendência japonesa da anfitriã pra comer muito sushi, nadar bastante e surrupiar músicas do computador do Piero para o meu tocador de MP3. No final da festa, já estavam até jogando a irmãzinha da Ju na piscina, de roupa e tudo. A mãe foi carregada filho logo em seguida, de calça jeans.

E até então eu não tinha dado muita bola para o fato de que fazia sol. Murphy aparentemente escolhera tirar sarro de mim, dando-me um raríssimo aniversário sem chuva, justo quando eu não tinha combinado nada, em vez de estragar a balada da Ju. Mas foi só me despedir, que as primeiras gotas caíram na piscina, anunciando o temporal que viria em minutos. Murphy tem uma ironia muito fina...

A chuva, no entanto, não fez tanto estrago na minha balada deste ano. Convencido por um punhado de gente, acabei organizando de última hora o mesmo karaokê do ano passado. Tendo chamado não mais que umas doze pessoas, não me frustrei demais quando chegaram nove. Aliás, fiquei surpreso por tanta gente ter aparecido em algo feio tão às pressas.
Cantei Codinome Beija-flor para Lee.
Strani Amori foi o pedido da Nana, que queria me ouvir cantar em italiano.
Eu, Ri e Napaula pulamos bastante ao som do Take me out.
E eu pude até terminar a noite com Jeremy, presente pra mim mesmo.
Só faltou Pra terminar ou Nada por mim, mas a pessoa para quem eu as cantaria não apareceu...
Tampouco apareceu a pessoa que me convenceu a organizar o karaokê, para quem eu teria cantado This picture, se eles tivessem a música...

A festa e o dia terminaram percorrendo as ruas até o Fran's Café mais próximo, onde uma xícara de chocolate e a compania do Lala's tiveram um gosto e uma iluminação meio Edward Hopper. E falamos de viagens, de amores que nunca foram e viraram boas amizades, de planos para o futuro e felinos com nomes carinhosos em russo. Eu achei que foi o fim perfeito para um aniversário que deu certo.

Mas então eu fui para casa e dormi, e meu aniversário realmente terminou bem quando sonhei com os lábios macios de Genka.

terça-feira, novembro 14, 2006

Dialeto

[Na agência, 14:00hrs.]

Loo - Bom, acho que eu vou embebedar essa foto (referência: embed é uma função do Illustrator, programa que normalmente produz arquivos de imagem vetorial com links para imagens externas em JPG. A função grava a imagem externa dentro do arquivo, tornando-o independente do arquivo externo, porém maior. Não entendeu nada, né?).
Leão - Pra que?
Loo - Porque assim eu não preciso zicar um monte de JPGs quando for mandar para a gráfica (referência: zip é um sistema de compactação de arquivos. Ao mandar um arquivo de Illustrator para a gráfica, é preciso mandar junto todos os JPGs linkados.)
Leão - Ué, abre o Fotojovem e grava por cima. Ele diminui o tamanho do arquivo (referência: Photoshop, programa para trabalho com imagens em JPG. Com um poder de compactação maior, ele pode às vezes diminuir tamanhos de imagens em alta resolução.)
Loo - Não precisa. O arquivo com as imagens embebedadas não fica tão grande assim.
Leão - Hmm. Beleza. Não esquece de converter os Panetones pra CMYK (referência: Pantone é um sistema de cores, como CMYK e RGB, que às vezes dá problema nas gráficas...).

Loo - Cê conseguiu sacanear aquela textura? (referência: scanear é o conhecido processo de passar imagens para o computador.)
Leão - sacaneeei, mas depois, quando eu abri no Pataxó, não ficou como eu queria... (referência: novamente, o Photoshop.)

[Me faz lembrar dos dialetos italianos...]

quinta-feira, novembro 09, 2006

Não combinei nada para o meu aniversário. Apesar de serem 25 anos e eu ter essa coisa por números exatos e significativos desse tipo, não combinei nada. Cansei de ter essa expectativa de que meus amigos apareceriam em peso na balada, coisa utópica que nunca aconteceu e sempre me frustrou. Chega uma hora em que insistência vira burrice mesmo...

No entanto, uma amiga que faz aniversário um dia antes resolveu fazer uma "Pool Party" na casa dela, bem no meu dia. Ótimo: como a festa não é minha mesmo, a frustração vai ser menor.

Daí hoje eu estava saindo da agência para almoçar e lembrei da maldição do meu aniversário. A desculpa que uma razoável parcela dos amigos usa pra não comparecer aos meus aniversários é de que a chuva os impediu. Porque é quase um axioma: aniversário do Leão = dia de chuva.

Resta saber qual das punchlines vai agradar mais ao Murphy: chover na pool party ou me dar um de raríssimos aniversários ensolarados justo quando eu não combino nada...


[Ai, como esse blog tá ficando deprê...]

quarta-feira, novembro 08, 2006

Fora esse lapso, a vida vai bem e eu estou tentando não pensar nesse assunto.
A reclamação está ficando velha, batida, monótona, eu sei...
Mas cada vez que cometo o acidente consciente de procurar saber daquele casal, isto ou aquilo me dói. Mas são dores importantes, que eu estou aprendendo a conhecer e esmiuçar, em vez de fazer como todo mundo e simplesmente dizer que dói. Eu preciso disso. Dizem que a lótus mais bela nasce na lama mais fétida.
Desta vez, foi por ele, não por ela. Como escrevi antes, eu queria encontrar um rapaz vil, desprezível, menos do que eu. E encontrei um cara legal, muito mais digno dela. Desta vez, encontrei um rapaz que escreve linhas maravilhosas, que ainda não sei julgar se melhores ou piores do que as minhas sobre ela, porque são diferentes e eu já estou viciado demais nos meus modismos literários pra compreender seus valores. Ele escreve sobre as cores como eu escrevi quando nos apaixonamos no colégio. O azul e o fogo. Ele usa palavras que eu não pensei em usar, como eu usei palavras que outros jamais usariam.
Mas principalmente, ele escreve apaixonado. Um jeito que eu não saberia ser com ela hoje em dia. Perdido em algum lugar, em alguma cama alheia, entre longas pernas estrangeiras. E na verdade, o que percebo e compreendo é que me faz mais falta o amor que eu tive por ela do que ela mesma. Me faz mais falta poder chamar de minha uma musa antes inatingível do que aquela garota. Mas como me faz falta! E como eu queria poder ter de novo isso! Escrever sobre aquela pessoa que é o mundo e mais um pouco. Escrever tendo símbolos tão fortes como o fogo dos cabelos ou o idioma e cultura estrangeiros. Dizer dela, que ela é o fogo com o qual são acesas todas as velas e que queimou Roma na paixão de Nero. Ou mencionar frases perfeitas sussurradas em uma língua desconhecida e macia.

Eu queria ser como ele de novo.

[E poupem-me os consolos de que "um dia serei novamente, quando menos esperar", porque eles também estão ficando velhos, batidos e monótonos...]

terça-feira, novembro 07, 2006

27ª BIENAL DE SÃO PAULO COMO VER JUNTO

Topam?

27ª BIENAL DE SÃO PAULO COMO   VER   JUNTO

Alice 25

For milaya moya...

Going home, Alice and the Turtle got lost in the Limbo of Perfect Summer, where a faun named Dorogaya charmed the Turtle with gentle foreign lyrics

"Going home, Alice and the Turtle got lost in the Limbo of Perfect Summer, where a faun named Dorogaya charmed the Turtle with gentle foreign lyrics"
"Voltando, Alice e a Tartaruga perderam-se no Limbo do Verão Perfeito, onde um fauno chamado Dorogaya encantou a Tartaruga com suaves cantos estrangeiros"


P.S.: A certain someone would hate the fact that I used real photos to draw this one. It's a good thing she doesn't read these pages anymore.

domingo, novembro 05, 2006

Foi só eu falar que lá vou eu fazer o contrário...

Resolvi passar este feriado em casa, imerso em tintas. Rodeado por chapas de acrílico onde estava pintando as aventuras de Alice na procura pela Cidade de Origem, reformando a "Letting the Cables Sleep" e limpando o díptico "Nada por mim", todas possibilidades para a exposição de Dezembro na Casa da Xiclet.

Me senti bem estando de volta à pintura.
Não, a verdade é um pouco mais complexa. Eu me senti bem por ter um foco de novo. Por resolver que, durante estes quatro dias, eu não ia mais pensar nos afazeres do trabalho, em criar coragem para a monografia, em resolver esta ou aquela pendência. Eu ia pintar. E apenas pintar. Dane-se o resto, dane-se a vida social, dane-se a tarde ensolarada: não iria me sentir culpado. Eu ia sair dos quatro dias com algo produzido e finalizado. Me senti muito bem por ter um foco de novo. Porque o problema da falta de foco é tentar abarcar tudo que todos dizem que eu deveria estar aproveitando, e no fim não aproveitar nada. Não concluir nada. Pretendo levar a vida assim de agora em diante, cada coisa com seu tempo, mas cada coisa com minha atenção completa e indivisível.
Mas também senti outras coisas. Senti o quão despreparado eu estava para pintar. Depois de anos sem me dedicar diretamente a essas coisas, sem fazer nada mais complexo do que as Alices, percebi que agora eu tinha medo. Eu levava boa parte de umas três horas pra finalmente sentar e efetivamente começar uma pintura. Parte era preguiça, mas eu percebi que acima de tudo, era medo. Hesitação, pudor. O medo que hoje eu não tenho de mexer com imagens no computador. Poderia ter feito duas ou três Alices no Photohop, no mesmo tempo que levei pra pintar uma em chapas de acrílico.
Não é um medo paralisante, inviabilizante. É um medo perfeitamente transponível, mas que requer sua dose diária de custo emocional™ (expressão trade mark da Nana) altíssima. Preciso me disciplinar para isso novamente.

Estou terminando o feriado tendo realizado menos do que esperava. Mas ainda assim, é uma sensação muito boa de voltar a fazer o que se gosta, o que me dá orgulho. Uma sensação quase viciante.

Daqui a pouco tem mais Alice no blog. Esta próxima, feita com carinho em homenagem.

sábado, novembro 04, 2006

quinta-feira, novembro 02, 2006

Uma ponta do Laço de Alice

Trabalho em uma agencinha pequena. Fica em uma casa tão comum, que se não soubesse de antemão que havia uma agência lá, passaria reto. É uma casinha gostosa, decorada naquele estilo clean de agência de publicidade. Trabalho em uma sala dos fundos, tão pequena que só cabemos eu, a Loo, as máquinas e uma mesa de luz. Uma janela dá para um pátio interno meio claustrófilo, mas muito aconchegante.

De tão pequena que é a casa, ouve-se muita coisa acontecer e eu experimento pela primeira vez na vida uma sensação de awareness em relação ao emprego que não tive nos outros. No meio da retocagem de uma foto, ouço pedaços de uma conversa do Mr. President com um cliente, dizendo que a galera do estúdio (eu) conseguiu resolver aquele logotipo complicado, ou que eles aprovaram justo aquele layout que eu não gostei. Quando a notícia chega até mim, eu finjo que não sabia, mas já comentei com a Loo e ela sorri de canto da boca. Não se trata daquela coisa mal-educada que, em inglês, chamam de eavesdropping: é que não tem como não ouvir em um lugar tão pequeno e decorado com superfícies que não absorvem som.
Porém o mais cômico é ver que meus ouvidos já foram treinados pra isolar no burburinho o som das teclas de telefone. Porque mesmo sendo pequena, a agência tem um ramal para cada um (apesar de que, se eles levantarem o tom de voz, eu já escuto...). E assim que ouço a garota do atendimento digitar três números, minha mão já está sobre o aparelho, esperando o toque. Parece vidência.

Ontem descobri que a garota do atendimento fala italiano. Pouco, visto que aprendeu sozinha e não tem com quem praticar. Mas nos divertimos com isso. Garota com um jeito misturado entre o sério e o divertido, ela vive cantarolando por aí. Tem uma voz boa e já disse ter trabalhado com música antes. Soube, assim como quem não quer nada, que ela também tem seu vício por karaokê. Mas antes que vocês pensem demais nas semelhanças, ela tem seu rapaz e não faz muito meu tipo.

Vou pra casa de ônibus, lendo um livro que já está quase no fim, sobre um daqueles garotos que causou um massacre na escola. Os cobradores no ônibus são sempre os mesmos, na ida e na volta. Já estou ficando íntimo.
No caminho para casa, frequentemente me pego com aquela sensação de ter ficado para trás. Tantos amigos meus que já têm empregos (empregos, não estágios...) fixos nessa área e ganham relativamente bem. Fosse eu, já teria até saído da casa dos pais. Eles avançaram para a próxima fase da vida e eu ainda estou aqui. Meu instinto competitivo de Bandeirantes não me deixa ignorar esse fato. Me acalmo sabendo que estou aqui porque no ano passado tive um emprego desses. Ou seja, estou invertendo, fazendo agora o que eu devia ter feito lá. Mais importante: estou aprendendo. Muito mais do que aprendi no outro emprego, porque pulei a parte de estagiar, e isso é fantástico.
Essa inversão tem seu paralelo cômico com o modo como eu estou ouvindo Placebo, Goldfrapp e Lacuna Coil; estou usando delineador preto quando saio para as baladas e vestindo minhas roupas esquisitas. São coisas que eu devia ter feito aos dezoito, quando estava mais preocupado em parecer adulto, escutando Mahler, Satie e MPB e vestindo roupas comportadas que não me caiam bem, tentando pular essa fase adolescente.

segunda-feira, outubro 30, 2006

Podando a vida

Resolvi dar um tempo. Em quase tudo.

Quando saí de viagem, houve por um tempo um efeito muito liberante de não ter obrigações. Eu não digo obrigações como faculdade e essas coisas importantes, mas aquele mar de pequenas coisinhas que sufocam a vida. Aquele freela que talvez resulte num emprego legal (e eu sei que não vai dar em nada...), aquela exposição que talvez resulte em contatos com galeristas (e eu sei que não tenho foco suficiente na carreira de arte pra cultivar um contato desses...), aqueles trezentos favorzinhos de ilustração pra amigos, parentes e etc, o layout novo do blog que eu queria ter pronto no meu aniversário, essass coisas. São pequenices, besteirinhas, detalhes que acabam afogando a vida numa eternidade de coisas inacabadas - e inacabáveis. É tanta coisa, que eu acabo perdendo de vista o que realmente importa, o que realmente me leva a algum lugar. Perco de vista a tranquilidade e a saúde mental que eu tinha durante a viagem, quando não me obrigava a fazer estas coisinhas. Perco de vista minha monografia da faculdade, que é a única coisa que falta para terminar o curso e que até hoje não comecei decentemente. Perco de vista o foco no trabalho. Perco de vista o sonho de voltar e morar em Londres.

Pois agora chega.

No domingo, liguei para as recentes possibilidades de trabalho freelancer e disse que não estava aceitando por enquanto. Terminei o a pintura na parede do quarto da minha mãe, que lhe devia desde seu aniversário em Setembro. Ainda estou debatendo se desisto também da exposição na Casa da Xiclet em Dezembro. Porque ainda não terminei as coisas que quero colocar lá. Estou amputando estas possibilidades com a certeza e o abandono de quem se deu conta de sua esterilidade. Estou podando os ramos da vida, nesse ato de cortar um galho para que outros possam nascer.

Ficam algumas coisas das quais não consigo me livrar. Este blog e o fotolog. As Alices, que ainda não atualizei o suficiente para sincronizar a história dela com a minha. A monografia, que de hoje em diante passa a ser o mais importante.
No Orkut, o primeiro scrap da minha lista é da Marcela Tiboni, minha colega do curso de artes. Ela diz para todos que entrarem lá me darem uma bronca porque eu resolvi deixar de ser artista. Não estou deixando de ser artista: estou apenas reconheccendo que alguns esforços deixam de ser esforços e passam a serem chamados de estupidez. E chega de nonsense na minha vida: vamos levar adiante o que importa.

sexta-feira, outubro 27, 2006

Correção de rota

Eu sei que estou aos 45 minutos da prorrogação, mas não custa nada.
Murphy atacou no nosso Encontro de Blogueiros e o Lala's deu de cara com o Goró falido, de portas fechadas. Eis então que estamos mudando a farra desta noite para o

Piratininga Bar
Rua Wizard 149, Vila Madalena

Espero que vocês leitores de última hora e (doce ilusão...) stalkers meus possam perdoar esta falha de organização e leiam isto a tempo. Se não, prometo que a quarta-feira rola de forma mais organizada...

quinta-feira, outubro 26, 2006

Encontro de Blogueiros

Aos meus amigos, leitores ou eventuais stalkers:

O Lala`s está organizando mais um Encontro de Blogueiros. Na verdade, não passa de uma ida ao boteco, com a diferença de que o assunto normalmente gira em torno de blogs e temos a posssibilidade de conhecer pessoalmente algumas micro-celebridades literárias que lemos há algum tempo, ou no caso dos escritores, alguns daqueles belos seres que tanto os inspiram. Anyway, qualquer interessado no assunto, mesmo sem possuir um blog, pode aparecer. The more, the merrier.

De acordo com o e-mail do Lala's, o plano é o seguinte:

Bar na 6a feira (27/10): a partir das 20h até o último cliente
Bar na 4a feira (1/11) a partir das 22h até o último cliente (lembrando que dia seguinte tem feriado)

O local será um só:
Bar: Goró
Endereço: Rua dos Pinheiros, 877 - Pinheiros
Telefone: (11) 3088-9009
Site: http://www.goro.com.br

Quem topa?

segunda-feira, outubro 23, 2006

Devaneios antes de dormir

• ... mas suponho que, acima de tudo, eu queira hoje alguém que não tenha medo de se expôr e de me expôr. Loira, ruiva ou morena, alta ou baixa, nada disso me importa (muito). Faria concessões se encontrasse aquele raro espécime humano que soubesse me cativar não só pela bela forma, pelo modo de estar eternamente posando, mas também pelo olhar, aquele raro conhecimento do melhor ângulo de câmera, da composição bem-humorada, de que esconder às vezes é mais válido do que mostrar. Ou seja, uma rara amálgama de artista e musa.

• As bocas que tenho beijado nas poucas e curtas aventuras lascivas desde que voltei têm uma aspereza que me desanima. Não me incomoda, apenas desanima. Boca de garota deveria ter aquela maciez da Genka. Será que é raro encontrar bocas assim aqui no Brasil? Ou seria uma raridade mundial?
Não lembro mais das texturas de outras bocas que beijei antes dela.

• Uma vez me senti realmente nu com alguém. Não essa nudez de tirar a roupa. Essa só resulta no tédio de uma das duas situações: ou corar diante do outro, ou ter a outra possível reação masculina. Foi a nudez pessoal deestar na presença de alguém que sabia de tudo. Tem uma parte da minha identidade, uma pele vulnerável e feia, que fica escondida debaixo de camadas sufocantes. Com ela, eu podia estar nu e sentir aquela plenitude naturista. Eu podia ser, efetivamente, eu mesmo. Quando é que isso vai acontecer de novo?

domingo, outubro 22, 2006

Alice 24

This is an Edgewalker Line train to Waiting Place

"This is an Edgewalker Line train to Waiting Place"
"Este é um trem da Linha Edgewalker para o Waiting Place"


P.S.: Não entendeu? [1][2]

terça-feira, outubro 17, 2006

Amidalite

Chegando em casa do feriado: "Mãe, estou com amidalite". Sim, eu tinha certeza. Depois de mais ou menos uns trinta casos da infecção quando eu era criança, aprendi a reconhecer. Eu não tinha isso desde os 13 anos. Naquela época, a somatização dessa doença era a forma do meu corpo protestar contra as minhas vontades. O caso mais clássico era a viagem para o nordeste, que minha família fazia todos fim de ano para ver os parentes: eu adorava o nordeste e não via a hora de chegar, mas meu corpo não queria arcar com os desconfortos da viagem e de ser tirado de seu nicho. E tome infecção. Meus pais, embora ambos médicos, resistiam à idéia de operar minhas amídalas. Sabiam que, sendo de cunho psicossomático, a doença se manifestaria de outro modo depois de extirparem meus órgãos. Mamãe me tascava logo um Benzetacil na bunda. Eita injeção dolorida: suponho que fosse seu modo de se assegurar que eu não estava fingindo uma doença pra escapar de responsabilidade. Eu preferia encarar a prova de matemática a um Benzetacil... Meu pai às vezes se compadecia e me dava antibiótico por via oral: sete dias de pílulas e uma recuperação lenta, mas indolor.

Daí veio a volta ao Brasil e a adolescência. Não sei o que aconteceu. Talvez o corpo tivesse cansado de lidar com os desconfortos da doença (e as dores nas nádegas do Benzetacil de mamãe...). Talvez percebesse que havia nessa idade tantas ocorrências de discordância entre corpo e mente, que ele precisava de um protesto mais pontual e rápido do que a amidalite. Só sei que, do dia pra noite, a infecção deixou de fazer parte da minha vida, sendo substituída pela crise de ansiedade: o mal-estar, os sentimentos de inadequação, as viradas repentinas de situações tranquilas para infernos de nervos. Era um protesto muito mais eficaz e pontual.

Ainda é cedo para dizer se a minha atual capacidade de controlar a ansiedade está trazendo de volta a amidalite. Passou pela minha cabeça, mas estou ignorando essa lógica hipocondríaca. Uma andorinha não faz verão...

Highlights do feriado

• Os postes de iluminação solitários na subida da serra a altas horas da madrugada, como bolhas de claridade no meio da densa massa de escuridão.
• E quem disse que algum dos passageiros do carro sabia chegar em Ilha Bela?
• O primeiro vestígio de uma crise de ansiedade depois de oito meses de calmaria. Mas neste caso os motivos eram claros e controlar a situação foi fácil.

• Na noite de sexta-feira 13, a brilhante idéia de ir a uma praia deserta contar histórias de terror. Me senti Mary Shelley, contando uma que roubou a cena, deixando um frio na espinha e uma tensa possibilidade no ar. Preciso de mais amigos com essas idéias que aguçam a minha criatividade...
• Na mesma noite, eu mergulhei no mar da mesma densidade negra que a estrada da serra, pra pescar de lá uma sereia bêbada que estava deixando todo mundo meio preocupado. Preciso de menos gente com essa total falta de bom senso...
• Discussões com gente teimosa. Serviu pra descarregar um pouco de raiva e ser cruel, coisa que eu sempre adoro fazer quando a intenção é justificada. Mas se alguém disser que eu gostei, eu nego. Porque realmente, detesto gente com essa atitude de "quero do meu jeito e foda-se o mundo".

• Sauna. `Nuff said.
• Por lá, conheci Mel, de Jundiaí. Conversa curta, mas que conseguiu adoçar a tarde agridoce.

• A cara e escatomimética culinária local, que gerou um jantar de risadas incontroláveis.
• Festa à fantasia onde o único disponível era maquiagem. Criativo, embora meio bizarro.

• Muita dança, o tempo inteiro. Delícia!
• A cena uma vez rara e que agora torna-se quase banal, de tão constante: eu assumindo a cozinha. Ainda não tenho auto-estima nesse departamento pra acreditar que os elogios são verdadeiros e não apenas educados. Mas vez por outra, alguém me pede uma receita, e isso pra mim serve de uma quase-prova.
•A turma: um rapaz que escapou da morte, pra encontrar o sentido e muito humor na vida; a namorada que dançava pouco, mas na hora do funk...; o insone cheio de manias, que existia da forma como eu me sentia; e a garota teimosa, que oscilava entre o meu interesse e o meu desprezo.

• Na volta, não aguentei e explodi de raiva com a fumante que não se continha e que precisava que tudo fosse do jeito dela (onde foi que eu já vi teimosia semelhante?). O que me incomoda dos fumantes não é o cheiro do cigarro ou a bagunça das cinzas, mas a desnecessária escravidão química pela droga.

terça-feira, outubro 10, 2006

Alice 22 & 23

Religare

Religare



Inside the Victory Lighthouse, in the City of Origin, Alice found the Amulet

"Inside the Victory Lighthouse, in the City of Origin, Alice found the Amulet"
"Dentro do Farol da Vitória, na Cidade de Origem, Alice encontrou o Amuleto"



P.S.:Preciso dar uma apressada nisso aqui. Ontem me dei conta de que já fazem cincomeses que saí da Itália e Alice ainda está na Cidade de Origem... Preciso apressar as coisas. Pelo menos os meses em Londres serão simples de representar.

sexta-feira, outubro 06, 2006

Loo

Foi uma semana ótima, passada ao lado de Luciana, minha colega de trabalho. Nos entendemos bem como equipe, cada um ajudando o outro nos pontos fracos (ela pede ajuda para lidar com o Macintosh, eu peço ajuda com questões de layout e minha lentidão...). Surgem, ao longo do dia, comentários cômicos dos mais diversos. O tema recorrente por enquanto parece ser a rádio que a faxineira deixa ligada, e que desenterra músicas brasileiras breguíssimas dos anos 80, além do eventual Lionel Richie. Temos um tipo similar de sarcasmo, sensação que me traz de volta a memória de Lee e dos seis meses que tivemos. Mas este caso atual é muito diferente: não existe qualquer traço mínimo de tensão sexual entre nós. Ela tem os mesmo gestos, o mesmo jeito de falar e o mesmo sarcasmo de Lee, mas falta algo. Faltam muitas coisas importantes. Falta completamente a magia. Por outro lado, tenho gostado muito desse relacionamento assexuado. Quiçá, na fase atual de tentar me concentrar no trabalho e afogar minha libido em apatia até o surgimento de pretês relevantes, seja exatamente disso que eu estou precisando.

Hoje, no fim do dia e de minha primeira semana em compania dela, tive um daqueles insights cômicos. Pensando por um momento nesses inúmeros detalhes semelhantes na composição de ambas as personagens, rabisquei no canto de um papelzinho no qual estava fazendo rascunhos:

Lee
Luciana
Lu

Loo

Apesar de que a palavra, em certas versões de inglês, é também um sinônimo de banheiro...

Duas novidades do meu perfil de Orkut

• Separei uma das fotos do meu album para sempre colocar a Alice mais recente.
• Por enquanto, uma outra foto será sempre dedicada ao espaço da parede do meu quarto, cujos quadros pendurados mudam de tempos em tempos. Nessa semana, o primeiro de uma série que nunca teve nome e que permanece um pequeno mistério até pra mim. Mais adiante, pretendo colocar ainda outras duas fotos de detalhes das coisas expostas no espaço. Percebam ainda, na foto dessa semana, a linha cronológica com os movimentos e principais artistas do século XX que eu estou fazendo no espaço acima das obras expostas.

Forever Alien

I used to listen to Bush`s Alien and get a flash of image in my head. It was an image of me lying in a bed in my family`s house in Guarujá. I had this girl sleeping by my side. The reason I used to get this image in my head as Gavin Rosdale whispered his lyrics was too subjective to understand. It had to do with some ressonance between the feeling in that music and the image of that house`s ceiling. It was the feeling I`d get if I was lying in that bed, with that random girl who`s face I could never see, staring at the ceiling of the room as the music played vividly in my head.

Nowadays, as Alien starts gently on my MP3 player, I get this residual memory of a feeling. I`m also lying in bed, staring at the ceiling with a girl sleeping at my side. But the bed is in that tiny room in Mrs. Sparrow`s house in Acton Town, London. The ceiling has no resemblance to the one in Guarujá, but I get the same feeling of ressonance from the composition of the scene. I can feel Genka`s limp weight over my body as she sleeps deeply and I feel rather than hear the cars in Gunnersbury avenue. The echo of Gavin`s voice in the music feels to me as if it were travelling of the roof of the cars,going over the horizon; or flying over the typical british rooftops.

I now have little or no time for these poetic memories. I`ve started working in a small agency, smaller than the previous one. The good thing is they`re putting more responsabilities in my hands, allowing me to make more mistakes and learn a lot more. It feels good. But I`ve established a few rules and boundaries for myself. Contrary to what I did in the other company, as soon as I step through the doors, I leave all my personal life and thoughts, even these fond little mementos, outside. I fight the urge to surf the web, I hide the fact that I even have a blog from anyone inside the company. I must appear as if I had no personal life. Total loyalty to my job.
I can`t say I learned much in the previous company. I indulged in all my little personal vices and payed no attention yp the company`s affairs. I feel like I`m
lagging behind in comparison to all my other university collegues. Time to catch up.

There will be plenty of time for poetry later.

terça-feira, outubro 03, 2006

Um pouco de política.

O Maluf foi o deputado mais votado de São Paulo. Isso o salva, até o fim de seu mandato, da punição da justiça por todos os crimes contra o patrimônio público que ele cometeu. Eu, na minha ingenuidade, ainda não entendi por que qualquer um ainda votaria nele, quanto menos como ele pode conseguir o maior número de votos.
O terceiro lugar vai para o Clodovil, que por si só já é uma piada. Mas com o nosso sistema político, um fato desse já não é novidade. Foi-se o tempo em que até macaco de zoológico era candidato e ainda recebia votos. Suponho que metade dos votos foram da galera que já perdeu a esperança na política e tá tirando sarro mesmo. A outra metade foi das donas de casa e empregadas paulistas que assistiam às suas frivolidades na TV.
Falar dos deputados envolvidos no mensalão e derivados seria batido demais.
Em algum lugar da lista, encontrei o Eneas. Eu podia falar dele como um desses candidatos-piada. Mas o Clodovil já é o suficiente pra ilustrar o assunto.

Por último, nosso presidente pseudo-esquerdista quase levou a eleição no primeiro turno, recebendo votos de uma avassaladora maioria do povo mais humilde, que acreditou, como eu confesso que acreditava no começo, nas estatísticas e números da economia, enxergando um suposto crescimento e melhora da situação do país. Há chances de que ele ganhe no segundo turno pelo mesmo motivo.

Depois do Bush (o presidente, não o meu chefe...) sendo reeleito nos Estados Unidos, essas eleições brasileiras estão me convencendo pouco a pouco que a democracia, na era da comunicação de massa, perde completamente a eficiência, favorecendo o candidato que conseguir fixar sua imagem na cabeça dos eleitores mais desinformados. Por bem, ou por mal.

E as comparações não param...

Hoje me dei conta.

A garota do atendimento é o claro estereótipo. Ela é loira, muito boazinha mas ambiciosa, meio mandona. Anda de salto-alto, que no chão de madeira da agência, permite que eu a perceba chegando. Vem de Recife, porque todas elas tem algum sotaque. Ela lembra muito a loira com sotaque que atendia na outra agência anterior.

Meu chefe também lembra alguém. Ele tem os trejeitos, a voz e o tipo físico do principal diretor de arte da agência anterior. Até a mesma pele. Falta só o cavanhaque, mas em matéria de rosto, a coisa é outra. No meu primeiro dia, conversando com a outra iniciante, chegamos à conclusão: ele parece o Bush. São os olhos e alguma coisa na boca. Estou trabalhando para o Mr. President...

Falando de pele, achei que a outra iniciante me lembrava alguém também. Mas no primeiro dia, não entendi quem era ou por que. Foi no segundo dia que compreendi: a qualidade da pele, o jeito do corpo, até mesmo muita coisa do jeito de falar, embora sem a mesma imponência... ela lembra a Lee. O rosto não tem nada a ver e lhe falta um pouco da força da personagem. É como Lee sendo interpretada por uma atriz ruim.

domingo, outubro 01, 2006

Dream

Recentemente, sonhei com um mundo em cores mais escuras, contrastes mais fortes. Na verdade, meus sonhos já são assim há algum tempo, com essa direção de arte meio dark, pseudo-gótica do jeito que eu gosto.
Mas não vem ao caso. No sonho, eu saia de casa para ir com amigos para um parque aquático. Quando entrei no lugar, passando pela catraca e sendo obrigado a pagar os preços exorbitantes desses lugares, meu celular tocou: era Bia. Na verdade, não me lembro da cena anterior, de estar em casa. Mas sei que ela aconteceu e que essa não era daquelas memórias de sonho que simplesmente estão lá, sem acontecer. No entanto, lembro que ela estivera em casa. Viera me visitar e eu tinha saído assim, esquecendo-a em casa. A situação tinha gosto das besteiras que eu fazia quando namorávamos. Mas a cereja do bolo foi quando ela exigiu que eu saísse do lugar (pagando o preço exorbitante, aliás...) pra ir busá-la porque ela se recusava a tomar o ônibus pra vir até lá. Depois de acordar, eu me lembraria de uma ou outra situação onde a composição dos fatos era similar.
Tomado pela ansiedade e raiva da situação, eu fiz o que era mais sensato no sonho: eu acordei. Puxei o cobertor para me cobrir melhor e voltei a submergir no inconsciente por mais duas horas.

Nesse tempo, sonhei que estava em um lugar que eu chamava de casa, e que estruturalmente era uma das casas nas quais morei aos sete anos de idade. Nenhuma razão aparente para ser especificamente aquela. E eu estava no quarto com duas pessoas. Uma garota morena, que agora não consigo definir em que pessoa real era baseada, e uma outra, amálgama de Genka e Taís. Enquanto uma conversa sem som rolava entre os três, eu e a morena nos aproximávamos da amálgama, com claras atitudes de predadores sexuais, tomando-a a quatro braços e nos forçando sobre ela, que não parecia se incomodar. Ao contrário, instigava, puxava a ambos.
Repentinamente, viro para a porta: meus pais estão em casa. Nos recompomos e eles chamam as duas para uma daquelas conversas sérias que se têm com os pais nessa fase de descobertas sexuais. Enquanto eles fazem seus ataques para proteger a santidade do lar, dizendo às meninas que não querem esse tipo de comportamento dentro de casa, que querem que respeitemos a casa deles, eu fico calado, andando pelo quarto. Os olhares delas para mim exigem que eu as defenda, encare meus pais e exija respeito pela nossa vida sexual. Fico calado: na minha opinião, eles é que têm razão e nós é que estamos errados. Ainda assim, sinto o orgulho ferido de não entrar no combate. Sou menos homem por não poder proteger minha(s) mulher(es). Era também uma sensação recorrente e uma situação que eu tive que enfrentar (exceto pelo detalhe da poligamia...) aos dezoito anos, com a Bia e meus pais.

Não lembro como acordei. Mas lembro que ainda tinha memória do outro sonho, do parque aquático. E instantaneamente, sem sequer fazer um esforço consciente, percebi que tinha sonhado a noite inetira com a Bia, direta ou indiretamente.
O caso é que eu não estava tendo uma recaída ou ataques nostálgicos daqueles aspectos cáusticos dela. Na verdade, eventos recentes, que a censura não me permite relatar, trouxeram à mente o quanto uma pessoa com a qual tenho me relacionado ultimamente se parece com a Bia. Não com os aspectos encenados no sonho, mas com tantos outros, tantas pequenas coisas que causaram tanta briga e tanto problema entre nós.

Sorrio agora, conseguindo prever o quanto agumas pessoas protestarão quanto a este post: pela minha mania de estereotipar as pessoas em personagens, pela minha mania de falar destes detalhes íntimos (que na verdade não tem nada de perigo ou verdadeira intimidade).

Enfim... Percebi que vou ter que me afastar desta amiga. Porque nem ela faz bem pra mim, e nem eu a ela.

sábado, setembro 30, 2006

E a imprensa brasileiro continua, por alguma razão, reduzindo a nada o meu querido Hard Candy [1] [2] [3].
Primeiro, num daqueles deslizes clássicos do cinema brasileiro, traduziram o título significativo para o péssimo e nada chamativo "Menina Má.com". Fala sério... Nem dá vontade de ir ver o filme. Soa como um daqueles filmes B, mal feito e com uma história rizível... O estrago do titulo continuou no cartaz, que no original aparecia naquelas letras limpas, sóbrias e quase Bauhauss, colocando esse título ridículo em cima de teclas de computador. Faz parecer como se metade do filme transcorresse em salas de bate-papo virtual.

Hoje ainda peguei no jornal a sinopse:
Adolescente de aparência inocente deseja por em prática todas as maldades que aprendeu na internet.


Transformaram a justiceira Hayley na vilã da história e o fotógrafo Jeff em uma vítima completamente inocente. Acabaram com a graça do filme.

quinta-feira, setembro 28, 2006

Entre relatos desenterrados do meu blog, de garotas estrangeiras na minha cama ou costas branco-mármore-Carrara, entre tardes de ensinar a andar de bicicleta e cabelos de cobre no banco do meu carro, percebi que o que mais me faz falta não é o sexo e outras visceralidades machistas, mas a intimidade. As primeiras são resolvidas de um jeito ou de outro. Mas a intimidade, aquele nível de conhecer alguém que supera o pudor e campos A.T., essa leva tempo e trabalho.
Namoradas de amigos meus me dizem que duvidam que não tenha ninguém interessada em mim. Meu amigos dizem que não me preocupe, antes que eu perceba, já estarei com alguém de novo. Talvez. Mas foi-se o tempo em que o mais cobiçado era aquela sensação de novidade, beijar uma boca nova.

Hoje o que mais quero são aquelas pequenas histórias íntimas, os simbolos a dois. Aqueles momentos que você não percebe quando acontecem, mas fica revivendo depois. E isso ainda demora. Bastante.

terça-feira, setembro 26, 2006

Divido meus dias entre a procura por emprego, que dura até as seis e meia da noite, e uma segunda parte do dia. Uma parte que devia existir desde sempre, mas que a preguiça sufocou.
Depois das seis e meia, quando todas as empresas relevantes fecham ou param de receber telefonemas de mendigos como eu, eu visto o macacão de pintura e tomo os pincéis. Hoje são Alices em chapas de acrílico. Ontem foram movimentos artísticos escritos na minha parede. Enquanto cuidava de minha mãe, desenhava o mar com caravelas na sua parede. E nas raras noites de insônia angustiada pelo desemprego, sentei na frente do computador pra escrever. Dá pra acreditar que em dois dias estou terminando outra parte de Margot (ainda não está terminado, mas quase...)? Há mais de um ano que espero uma inspiração que não vem.

Na verdade, a inspiração nunca virá. Eu preciso mesmo é vencer a preguiça e começar, que o resto aparece no meio do caminho. Porque assim como eu escrevi, se eu cedesse à minha vontade, passaria o dia dormindo. Na vasta maioria destes dias, não tenho vontade de começar a fazer estas coisas. Não tenho mesmo. Tomado por uma certeza estúpida e estéril de que nada disso é relevante, satisfatório ou sequer bom. Eu sou nada.
Mas me forço a ser algo. Me forço a tomar os pincéis ou o teclado. E tem dias nos quais esse esforço é sangrento, tenso, épico. Patético. Me forço a ser algo porque é o único meio de sair desta letargia e fazer algo acontecer. E então, depois do ponto de ativação (onde foi que eu escrevi sobre isso mesmo?), essa primeira resistência some. E se ao menos não encontro real prazer nessa ação, pelo menos encontro a anestesia da inércia. Não penso, não me angustio: apenas faço. No fim do dia, as coisas ainda estão inacabadas. Mas pelo menos deito a cabeça no travesseiro e sinto que o mundo está girando novamente. As coisas estão acontecendo e crescendo. São coisas irrelevantes, insatisfatórias e ruins. Mas são coisas.

Durmo e sonho com uma época onde meu nome era sinônimo de um artista.

A moda tá pegando...

Kevin foi para Lima.
Resolveu seguir o meu exemplo. A história dele nas terras incas você encontra no Incablogue del Kebin.

quinta-feira, setembro 21, 2006

Na sexta passada, Piero me levou para casa. Eu estava levemente ébrio depois de alguns cálices de vinho (porque agora, além de apreciar azeitonas e doces com passas, eu tomo vinho...). Uma hora depois, meu celular me acorda do sono. Era Kellen, que bebera comigo. Tinha tido uma daquelas amnésias alcoólicas e "acordou" no meio de São Caetano, completamente perdida e perto da favela. Pulei da cama sóbrio, me vesti às pressas e estava no carro em menos de dez minutos, percorrendo a Bandeirantes que eu não percorria há mais de cinco anos, desde Bia. Naquela notie, saí do carro preparado pra tudo, pra ser roubado, pra violência, pra negociações excusas. O que importava era tirar Kellen das proximidades da favela sã e salva, com todos seus pertences.
Por sorte, o pessoal que achou ela era de fora da favela. Levaram-na para um lugar seguro e me guiaram até ela por telefone. Voltei pra casa sem créditos no celular e com o carro andando apenas no cheiro da gasolina. Mas tinha uma sensação de missão cumprida.

Passo os dias cuidando de minha mãe. Ela passou por uma operação leve e precisa de alguma ajuda em casa. Não cozinha, não pode carregar peso ou pegar coisas muito altas. Faço até as coisas mais chatas para ela, me surpreendendo com a minha benevolência. Houve no passado uma situação similar onde eu perdi a paciência.

Ontem à noite, um amigo me liga precisando de um ombro. Por causa da mãe, não pude ir vê-lo. Mas saímos para almoçar no dia seguinte.

Descubro um prazer desconhecido em ajudar, de resolver um problema de alguém. O prazer de ter uma responsabilidade, não importa o quão pequena. De tentar bancar o herói.

Conversa de auto-ajuda, eu sei... Mas faz bem.

quarta-feira, setembro 20, 2006

janeesil has added you to his/her contact list

I had wallowed in depression for two days.
Today I thought I'd try changing that. Because even though I'd been through rough bouts of depression before, it was always in my power to change that. All it takes is willpower. So I had set the following day to myself, to feel good, to cheer up.

And then, as soon as I logged onto MSN, that message showed up. "janeesil" was the handle on a little over ten e-mails that still populated my inbox, resisting time and the "delete" button.

Needless to say, the second part of the e-mail address ended in ".ru"

Priviat, dorogaya...

terça-feira, setembro 19, 2006

Alzheimer

Já faz mais de um mês que deixei a Europa.
No dia 13, aniversário de minha mãe, mandei um último e-mail a Genka. Ela não me respondeu os outros dois e duvido que responda a este também. Uma vez, um rapaz ligou para o celular dela. Ela estava na minha casa, atendeu o celular e conversou com ele por menos de dois minutos, antes de desligar sem cerimônia e com todo o desprezo do mundo. Disse que era um rapaz com quem ela tinha saído uma vez e que tornara-se depois apenas uma pessoa inoportuna ligando sempre na hora errada. Percebi então que ela tinha uma certa facilidade fria para se desligar das pessoas e suponho que seja o que ela fez comigo também. Volto a escrever em português, porque sei que não há mais ninguém que leia isto em inglês.

Eu não esqueci. Pelo contrário, lembro todo dia, num esforço contínuo para manter viva a memória. De toda a viagem para a Europa, mas especialmente dela. Ainda assim, a memória vai se dissipando, como uma forma de Doença de Alzheimer. É assim? Eu não consigo mais lembrar do movimento do corpo dela, porque tudo que tenho são fotos. Tenho apenas a vaga impressão da boca que ela fazia logo depois que a minha se separava. Ainda lembro do sotaque, mas não consigo lembrar com precisão do tom da voz. Esqueci como era a textura da pele ou a suavidade dos lábios. Lembro de como era gostoso o peso do corpo dela quando eu acordava e ela ainda estava dormindo, o corpo completamente amolecido e inerte como uma boneca, pulsando apenas com a respiração; mas esqueci exatamente quanto ela pesava. Por último, as manhãs de acordar junto com ela, com o sol filtrando através das cortinas do meu cubículo, estão começando a ficar imprecisas, esfumaçadas. Eu não vejo na memória os contornos do corpo dela ou mesmo a cor horrível do papel de parede da Sra. Sparrow. Tudo vai sendo transofrmado em conceito puro, abstrato, inodoro e etéreo. E eu vou esquecendo. É assim o Alzheimer?
[Eu sei... vou receber quinhentos protestos de todos vocês que tiveram parentes com Alzheimer, dizendo que não é pra brincar com coisa séria e que eu não sei do que estou falando. Poupem-me: é a metáfora perfeita pro desespero de estar perdendo estas memórias.]

Meu estado atual é deplorável. Eu passo boa parte de todos os dias da semana em casa, coisa rara para alguém como eu. Detesto ficar em casa. Saio quando o fim de semana vem chegando, pra rever os amigos, que têm sido um conforto. E quando estou com eles, passo uma imagem de pseudo-europeu, requintado, mudado, amadurecido e interessante. Mas acordo no dia seguinte e ainda estou desempregado, sozinho e viciado na russa. Continuo me importando com as pontas do laço de Alice.
Vontade, esse é o problema. Se fosse obedecer minha vontade, eu dormiria o dia inteiro. Ou me renderia a passar o dia na internet, papeando no MSN. Não fosse o zelo pela minha conta bancária, torraria fortunas na lan house. Não tenho vontade pra fazer mais nada.

Calma, leitores. Vai passar. It can't rain all the time. Eu só preciso arranjar um emprego decente pra botar as coisas em movimento (financeiro). Depois disso, preciso dolorosamente deixar que esse Alzheimer elimine meu vício por ela, pra poder seguir em frente.

segunda-feira, setembro 18, 2006

Estereótipo 2

[Estereótipo 1]

O Europeu é assim. Fala quatro ou cinco línguas, a maioria da mesma origem. Ainda está na faculdade aos 25, porque está fazendo mestrado em uma corrente filosófica do século 13. Enquanto não sair da faculdade, não arranjará um emprego, porque ninguém contrata gente sem diploma. Esforça-se pra seguir as leis e se adaptar às regras locais, como as tradições ensinam, pra evitar que o mundo vire um uma bagunça. Conversa sobre arte e diz essa obssessão ianque por ganhar dinheiro um desperdício de vida. Apesar do respeito às outras culturas que o cercam, acha que nasceu no melhor país do mundo e que tudo dá certo na Europa. Os outros continentes é que estão cheios de "costumes bárbaros". Acha os americanos meio excêntricos.

Por vezes, um ou outro acaba se suicidando por causa do tédio que tomou conta da sua vida.


O Americano é assim. Fala sua língua e, de vez em nunca, um portunhol ou espanglês. Porque ficar alterando pro inglês no meio da frase é esnobismo de capitalista imperialista. Ainda está na faculdade aos 25, porque está lidando com um estágio e um sub-emprego e não tem tempo pra escrever a monografia. Enquanto não for efetivado, não sairá da faculdade, porque ninguém dá estágio pra gente com diploma. Esforça-se pra dar um jeitinho e reforçar sua originalidade e individualidade, como os filmes americanos ensinam, pra evitar ser mais um fantoche do sistema. Conversa sobre estabilidade financeira e diz que essa coisa européia de viver como artista é um diletantismo. Apesar do respeito (ínfimo...) que tem pela própria cultura, acha que nasceu num país de merda e que nada dá certo na América. Os outros continentes é que estão cheios de "tecnologia de ponta" que faz tudo. Acha os europeus meio esquisitos.

Por vezes, um ou outro acaba se suicidando por causa do caos que tomou conta da sua vida.

domingo, setembro 17, 2006

Alice 19 (errata)

Once inside the Burg, Alice and the Turtle rested at the House of the Burping Windows

"Once inside the Burg, Alice and the Turtle rested at the House of the Burping Windows"

Uma vez que estavam dentro do Burgo, Alice e a Tartaruga descansaram na Casa das Janelas que Arrotam"



P.S.: I messed up the order... This was a forgotten drawing based on one I did for the girls in Italy just before I left for London. It was supposed to go before the last two I posted. The order of the buttons for the Alice drawings on the section to the side is correct.

quinta-feira, setembro 14, 2006

By the way, that frog rain...

On the few last scenes of Crash, it starts to snow in L.A.

To us, South Americans, it's just another US flick with snow. But I guess it never does snow in L.A., so the effect of it should feel somewhat as if we were watching a movie where it snowed in Rio.
Discussing similar movies, I eventually drifted into the subject of Magnolia and the ominious frog rain sequence. Everybody sees that and imediately starts asking what does it mean. I'd tell anyone who asks that to watch Crash, but I guess few of them would pay attention to the composition of the script. The frog rain in Magnolia is like a good abstract painting: it's not about what it means or the reason for it. It's about it's effect, what it does. Screw the meaning.

On both movies, it rains (be it frogs or snow...). The rain dominates all the scenes in the movie and characters stop to wonder how weird that is (just as, in a way, the audience does...). So, for a moment, different characters who were total strangers to each other, linked only perhaps by a chain of events, experience the same thing, at the same time, and ask the same question. In Magnolia, it goes a step further, with the frog rain altering that chain of events in important ways. Nonetheless, it's a link between the characters. Nothing more than that. Forget the reference to biblical plagues, forget tornadoes over swamp areas, it's not about why it started but about what it did.

You might also remember that, at a certain point in Magnolia, all the characters start singing the same song.

Crash

Crash: no limite


Amidst the movies I lost while I was in Europe, Crash was the one I was most curious about. When I got back, mother told me of how good it was and briefly discussed the story. It reminded me of Grand Canyon. So we rented both of them to watch and discuss the difference. Crash seems to be a hyped-up version of Grand Canyon. What this movie did in the the 90s, Crash is doing in the year 2000. So it needs to be bigger, better, faster and stronger. And it is.

I'm not going to discuss the whole movie here. Just point out a few things.
First of all, it's inspiring in a way to see a movie deal with racism as it is, no politically correct BS, just people speaking and thinking the way they really do, no matter how ugly or stupid. Another thumbs up goes for the fact that not everything in the movie is either right or wrong (nor are the characters plainly good or bad...), hence there are no right decisions. Because life isn't always about right and wrong. Sometimes all the choices are just imoral anyway and you're in deep shit no matter what you do.

I finished watching Crash and, for a moment, among all the other really deep issues in the movie, I got back to thinking about what one of the characters says in the begining of the movie, about how people in L.A. miss the sense of touch. In a culture as physical as the Brasilian culture, it's often taken for granted: we're hugging and touching each other all day long. For me, however, it's slightly different. Because after so long, I could finally learn to look people in the eye without that uncomfortable feeling of invasion. But I never got around to dealing with touch. I still expect people to touch me first in most of the ocasions in order to retribute. Perhaps that's what I should tackle next.

terça-feira, setembro 12, 2006

Lasting sensation

It's been a month since I left Europe.

Every now and then, I'm afflicted with memories of those months, like small benign ghosts that just wont go away. A few days ago, I saw snow in another movie and the memory of the first time I saw it for real sprung to mind. Not just the memory of the scene itself, but some residual feeling of wonder. I could still feel, although rather dimly now, the mesmerizing effect it had on me, making me forget for a moment my duty of reaching Perugia that night. There's no way to describe that feeling in words. It was there and I can still feel some of it, hoping it'll never go away.
Sometimes, for a brief moment, I remember other random feelings of those days. The smell and the emotion of the days I spent with the Seppilli, the pain every time I'd breathe the chill outside and how giddy I'd get when dealing with the challenge of getting used to the cold. I still get a very dim memory of the smells and general feeling of being there. So different from home, so interesting.
I now hear Bush and I feel the air of Acton Town around me. Memories of London are more scarce. I remember the pub, the Acton Town house, the tube system. Funny: it lasted only a week, but most of my memories of London draw me inevitable to Genka. The Perfect Summer.