Lembrem-se que dá pra colocar legendas: é só apertar no "CC"
Bits and pieces of my life that everyone ignores when I speak, but someone reads when I write.
domingo, janeiro 30, 2011
New Year's Eve Fireworks
Ainda não acredito que eu demorei quase um mês pra fazer isso... Toda a animação de vocês pelo fim de ano já deve ter passado. Ainda assim...
Lembrem-se que dá pra colocar legendas: é só apertar no "CC"
Lembrem-se que dá pra colocar legendas: é só apertar no "CC"
quarta-feira, janeiro 26, 2011
Dawn Chalkley
A estação de Mornington Crescent fica um pouco ao sul de Camden Town. Uma área da cidade notória pela vida noturna, pessoas vestidas de modo alternativo e intimidante. Por alí, perto do Koko Club onde fora a primeira festa do curso, estava acontecendo o evento The Dandyism of Contempt ["O Dandyismo do Desprezo"]. Interessei-me pelo evento inicialmente porque comentava sobre a cultura Dandy à qual pertenceram Lorde Byron e Oscar Wilde, entre outros. Mas também, como o resto da minha turma, eu estava comparecendo ao evento por causa de Brian Chalkley, o coordenador do mestrado.
Já era de conhecimento geral que Brian era um adepto do drag. Sua personagem, Dawn Chalkley (não confundir com Mellor) era famosa na faculdade. Mas por mais bizarro que pudesse soar, todo mundo a respeitava. De fato, o próprio Brian referia-se a ela como se fosse uma entidade separada dele.
Lá estava ele: longa peruca loira e maquiagem. Apresentava o evento sem qualquer inflexão na voz, já que em sua idade a tendência era que homens e mulheres tivessem vozes relativamente parecidas. Como toda drag, o objetivo de Dawn era cutucar, pegar as pessoas de surpresa. Se possível, fazê-las pensar.
E não demorou até que ela me percebesse na multidão e viesse pra cima de mim. Chegando bem perto, com o microfone entre nós, anunciou à multidão que tínhamos alí naquela noite um cavalheiro que viera trajado como verdadeiro dandy. Eu estava de palitó e camisa, no que eu chamava de "moda inglesa". Sorri. Era a primeira vez que estavam chamando minha atenção para isso. Até então eu tinha apenas uma vaga noção do quanto eu me destacava pelo meu modo de vestir, mesmo aqui em Londres, onde a moda agora tendia mais para o estilo hipster.
Dawn não parou por aí, e passou a usar informação privilegiada que, supostamente, apenas Brian deveria conhecer:
-"Diga-me cavalheiro, você parece estar exilado aqui em Londres, vindo de uma terra distante".
-"Sim, exilado por um ano apenas".
-"Um ano? E de onde você vem? Parece que de algum lugar na América".
-"Na verdade, do Brasil"
-"Ah, e você me parece do tipo de pessoa que tem um ou dois criados em casa"
-"De fato, uma empregada"
A revelação corria rápido pela multidão, e o que na minha terra era comum a mais da metade da população, por aqui era uma coisa exótica: uma empregada! Fazia-me parecer incrivelmente privilegiado, ainda que não fosse o caso no meu país.
Dawn já havia avistado a proxima vítima: um de meus colegas, ativista ferrenho dos protestos e anarquista convicto. Ela anunciava a todos que encontrara um ativista! E que ele provavelmente tinha algo a dizer, a protestar! Vamos, proteste! Mas ao contrário de mim, que ao menos consegui articular respostas curtas, ele não logrou fazer mais do que sorrir constrangido. Dawn Calkley era essa força estranha. Embaralhava os pensamentos de suas vítimas para que isso lhes elucidasse.
No progress review com Brian, chegamos a falar do ocorrido. Ele se desculpou pela intrusão, mas eu disse que não era necessário: eu adorava esse tipo de interação! No entanto, eu lamentei que, sendo pego desprevenido, eu instintivamente acionara minha defesa: esse meu modo curioso de agir frente ao inesperado, fingindo não estar surpreso (jeito dandy de lidar com as coisas?). Keep calm and carry on. Não demonstrar reação, para não cair no erro de demonstrar fraqueza.
Brian apontou que, assim como eu automaticamente erguera essa barreira quando confrontado com Dawn, meu trabalho até então era uma barreira similar, evitando que meu lado mais frágil fosse atacado por forças externas, mas também impossibilitando-me de mostrar algo mais pessoal que permitisse às pessoas se relacionarem com minha arte a longo prazo (e não como uma ficada na balada da Vila Olímpia [1]).
Já era de conhecimento geral que Brian era um adepto do drag. Sua personagem, Dawn Chalkley (não confundir com Mellor) era famosa na faculdade. Mas por mais bizarro que pudesse soar, todo mundo a respeitava. De fato, o próprio Brian referia-se a ela como se fosse uma entidade separada dele.
Lá estava ele: longa peruca loira e maquiagem. Apresentava o evento sem qualquer inflexão na voz, já que em sua idade a tendência era que homens e mulheres tivessem vozes relativamente parecidas. Como toda drag, o objetivo de Dawn era cutucar, pegar as pessoas de surpresa. Se possível, fazê-las pensar.
E não demorou até que ela me percebesse na multidão e viesse pra cima de mim. Chegando bem perto, com o microfone entre nós, anunciou à multidão que tínhamos alí naquela noite um cavalheiro que viera trajado como verdadeiro dandy. Eu estava de palitó e camisa, no que eu chamava de "moda inglesa". Sorri. Era a primeira vez que estavam chamando minha atenção para isso. Até então eu tinha apenas uma vaga noção do quanto eu me destacava pelo meu modo de vestir, mesmo aqui em Londres, onde a moda agora tendia mais para o estilo hipster.
Dawn não parou por aí, e passou a usar informação privilegiada que, supostamente, apenas Brian deveria conhecer:
-"Diga-me cavalheiro, você parece estar exilado aqui em Londres, vindo de uma terra distante".
-"Sim, exilado por um ano apenas".
-"Um ano? E de onde você vem? Parece que de algum lugar na América".
-"Na verdade, do Brasil"
-"Ah, e você me parece do tipo de pessoa que tem um ou dois criados em casa"
-"De fato, uma empregada"
A revelação corria rápido pela multidão, e o que na minha terra era comum a mais da metade da população, por aqui era uma coisa exótica: uma empregada! Fazia-me parecer incrivelmente privilegiado, ainda que não fosse o caso no meu país.
Dawn já havia avistado a proxima vítima: um de meus colegas, ativista ferrenho dos protestos e anarquista convicto. Ela anunciava a todos que encontrara um ativista! E que ele provavelmente tinha algo a dizer, a protestar! Vamos, proteste! Mas ao contrário de mim, que ao menos consegui articular respostas curtas, ele não logrou fazer mais do que sorrir constrangido. Dawn Calkley era essa força estranha. Embaralhava os pensamentos de suas vítimas para que isso lhes elucidasse.
No progress review com Brian, chegamos a falar do ocorrido. Ele se desculpou pela intrusão, mas eu disse que não era necessário: eu adorava esse tipo de interação! No entanto, eu lamentei que, sendo pego desprevenido, eu instintivamente acionara minha defesa: esse meu modo curioso de agir frente ao inesperado, fingindo não estar surpreso (jeito dandy de lidar com as coisas?). Keep calm and carry on. Não demonstrar reação, para não cair no erro de demonstrar fraqueza.
Brian apontou que, assim como eu automaticamente erguera essa barreira quando confrontado com Dawn, meu trabalho até então era uma barreira similar, evitando que meu lado mais frágil fosse atacado por forças externas, mas também impossibilitando-me de mostrar algo mais pessoal que permitisse às pessoas se relacionarem com minha arte a longo prazo (e não como uma ficada na balada da Vila Olímpia [1]).
Tutorial Informal com BBK e progress review
[Texto original em inglês como parte da minha avaliação. Daí a necessidade de explicar tudo nos mínimos detalhes.]
Peguei o BBK na estação de Vauxhall às 9 da manhã de um sábado. Ele ficaria hospedado no meu quarto em Londres até a tarde de segunda, quando voltaria à nossa terra. BBK fora o baixista de nossa banda, a Butcher's Daughter, em 2007. Uma experiência maravilhosa que infelizmente durou apenas um ano, mas rendeu ótimas memórias, centenas de fotos, um CD demo e alguns pequenos rancores.
Em uma dessa noites, conversamos sobre o trabalho que eu vinha postando online, enquanto caminhávamos para um pub em algum lugar de Covent Garden. Não consigo me lembrar exatamente da conversa agora, apenas que havia essa sensação de ambos de que tudo aquile era insatisfatório. Lembro no entanto dele mencionar que não via nada de mim naquilo. À primeira vista, tal sensivilidade pode não parecer natural para um auditor que passa o dia lidando com fatos, mas me acostumara e até passara a gostar de sua abordagem sem rodeios ao que ele sentia sobre arte.
Ele então mencionou que meu rascunhos recentes da Butcher's Daughter tinham mais da minha personalidade do que qualquer outra daquelas coisas.
A Butcher's Daughter era uma personagem inicialmente criada como parte da publicidade da nossa banda. Uma moleca ruiva vestindo um vestido azul, avental de alougue, botas sem cadarço e um machado de carne. Ele havia visto uma aquarela dela na minha mesa. Algo que eu fizera enquanto conversava com o pessoal do apê, meio sem pensar.
Ela tivera uma predecessora.
Em 2005, o fato de várias presenças virtuais fazerem referência à Alice, personagem de Lewis Carroll, fizera-me interessado em criar minha própria versão dela. Na época, eu trabalhava em um emprego monótono que me permitia fazer um desenho dela por semana, colorido com aquarela e postado online. Quando vim para a Europa pela primeira vez em 2006, ela viajou em seu próprio mundo, ambos procurávamos nossas origens em terras distantes. Ela sempre teve um jeito de se relacionar com a minha própria vida de maneira poética, embora meio óbvia. E ela foi um tremendo sucesso entre amigos. Mas depois que voltei em meados de 2006, parei aos poucos. Como se, uma vez que ela tivesse encontrado suas origens, sua história tivesse acabado. Na realidade, parei por um número de razões: a falta de tempo, a monotonia da vida depois da viagem, o erro de usar mídias cada vez mais complexas. Mas acima de tudo, o desconforto de saber que ela era a personagem de outra pessoa, da qual eu inconsequentemente me apropriara. Não importava a opinião dos outros, eu simplesmente sentia que ela não era inteiramente minha. A idéia para a Butcher's Daughter veio no rastro disso, mass por causa das outras complicações da época, não foi desenvolvida. Então ficou dormente, esperando pelo momento certo para saltar sobre minha com aquele machado de carne.
O momento chegou no ano passado, quando eu finalmente vim para a Europa de novo. Parecia correto ter outra personagem fazendo uma viagem, assim como eu tivera na anterior. Então experimentei com alguns estilos e a trouxe de volta à vida. Ainda que a considerasse um projeto menor, mais como um hobby do que "arte de séria".
O comentário do BBK sozinho apenas serviu para lembrar-me dela. Mas a verdadeira mudança de rumo aconteceu na segunda, durante o progress review com Brian Chalkley. Tudo correu bem, como a maioria das conversas com Brian. Muito embora estivesse claro para nós dois, assim como com o BBK, que ninguém estava satisfeito com o que eu estava fazendo. Explicando para ele o que meus tutores tinham dito, mencionei alguém dizendo que essas pinturas e transferências pareciam serem uma defesa. Como se eu não estivesse me expondo, mas apenas me escondendo atrás de densa teoria e óbvia arte pop. Poderia dizer que quase não me percebi producando na minha mochila pelo outro desenho da Butcher's Daughter que eu fizera no caderno. Mas no momento seguinte, eu o estava mostrando para ele. A aquarela em um dos cartões postais do Tate Modern que eu fizera quando descobri que uma pintura que eu adorava da Dorothea Tanning não estava mais na mostra atual. O rosto de Brian, que antes parecera cético em relação a tudo que eu estava fazendo, iluminou-se. "Este é talvez o melhor trabalho que você tem", ele disse.
Pareceu um eco. A voz dele ali, as palavras do BBK no dia anterior, as opiniões de minha mãe alguns meses atrás, o feedback dos meus amigos e tantas outras pistas não tão sutis. Todos diziam a mesma coisa.
Porque eu estivera evitando isso? Por que eu mantivera estes personagens como atração secundária quando todo mundo parecia se relacionar com elas melhor do que com minhas outras coisas? Ah, sim. As outras coisas "faziam sentido". Como eu escrevi antes, tu tinha problemas em ser mais um daqueles artistas confusoss que não entendiam claramente o que estavam fazendo. Ser assim seria não estar no controle do seu próprio trabalho. Sentido era controle para mim. Mais importante, sentido significava que eu podia formatar isso tudo para caber nas formalidades requisitadas pela instituição acadêmica. Meu trabalho com questões masculinas cabia facilmente na burocracia da universidade e de seus formulários de avaliação. Cabia em questões de pesquisa, experimentação, competência técnica e outras palavras enormes. Era fácil e confortável. A Butcher's Daughter era outra história. Ela me colocava no âmbito do daguejar, das pausas longas e das incoerências.
Brian me aconselhou a vazer mais da Butcher's Daughter. Isso seria fácil. Difícil era superar meu desconforto com o inefável a respeito dela. Ainda assim, eu sentia que poderia haver algo no fato de que eu era um homem adulto desenhando uma garotinha assumindo a profissão de seu pai que poderia facilmente ser ligado aos mesmo assunto de sexualidade que eu estivera ponderando.
Mas mesmo agora eu estou hesitando em definir exatamente que aspecto específico é esse. Temo racionalizar demais isso e torná-lo algo fazio. Como o resto das coisas que tenho feito por aqui. É melhor deixá-la correr solta um pouco.
Peguei o BBK na estação de Vauxhall às 9 da manhã de um sábado. Ele ficaria hospedado no meu quarto em Londres até a tarde de segunda, quando voltaria à nossa terra. BBK fora o baixista de nossa banda, a Butcher's Daughter, em 2007. Uma experiência maravilhosa que infelizmente durou apenas um ano, mas rendeu ótimas memórias, centenas de fotos, um CD demo e alguns pequenos rancores.
Em uma dessa noites, conversamos sobre o trabalho que eu vinha postando online, enquanto caminhávamos para um pub em algum lugar de Covent Garden. Não consigo me lembrar exatamente da conversa agora, apenas que havia essa sensação de ambos de que tudo aquile era insatisfatório. Lembro no entanto dele mencionar que não via nada de mim naquilo. À primeira vista, tal sensivilidade pode não parecer natural para um auditor que passa o dia lidando com fatos, mas me acostumara e até passara a gostar de sua abordagem sem rodeios ao que ele sentia sobre arte.
Ele então mencionou que meu rascunhos recentes da Butcher's Daughter tinham mais da minha personalidade do que qualquer outra daquelas coisas.
A Butcher's Daughter era uma personagem inicialmente criada como parte da publicidade da nossa banda. Uma moleca ruiva vestindo um vestido azul, avental de alougue, botas sem cadarço e um machado de carne. Ele havia visto uma aquarela dela na minha mesa. Algo que eu fizera enquanto conversava com o pessoal do apê, meio sem pensar.
Ela tivera uma predecessora.
Em 2005, o fato de várias presenças virtuais fazerem referência à Alice, personagem de Lewis Carroll, fizera-me interessado em criar minha própria versão dela. Na época, eu trabalhava em um emprego monótono que me permitia fazer um desenho dela por semana, colorido com aquarela e postado online. Quando vim para a Europa pela primeira vez em 2006, ela viajou em seu próprio mundo, ambos procurávamos nossas origens em terras distantes. Ela sempre teve um jeito de se relacionar com a minha própria vida de maneira poética, embora meio óbvia. E ela foi um tremendo sucesso entre amigos. Mas depois que voltei em meados de 2006, parei aos poucos. Como se, uma vez que ela tivesse encontrado suas origens, sua história tivesse acabado. Na realidade, parei por um número de razões: a falta de tempo, a monotonia da vida depois da viagem, o erro de usar mídias cada vez mais complexas. Mas acima de tudo, o desconforto de saber que ela era a personagem de outra pessoa, da qual eu inconsequentemente me apropriara. Não importava a opinião dos outros, eu simplesmente sentia que ela não era inteiramente minha. A idéia para a Butcher's Daughter veio no rastro disso, mass por causa das outras complicações da época, não foi desenvolvida. Então ficou dormente, esperando pelo momento certo para saltar sobre minha com aquele machado de carne.
O momento chegou no ano passado, quando eu finalmente vim para a Europa de novo. Parecia correto ter outra personagem fazendo uma viagem, assim como eu tivera na anterior. Então experimentei com alguns estilos e a trouxe de volta à vida. Ainda que a considerasse um projeto menor, mais como um hobby do que "arte de séria".
O comentário do BBK sozinho apenas serviu para lembrar-me dela. Mas a verdadeira mudança de rumo aconteceu na segunda, durante o progress review com Brian Chalkley. Tudo correu bem, como a maioria das conversas com Brian. Muito embora estivesse claro para nós dois, assim como com o BBK, que ninguém estava satisfeito com o que eu estava fazendo. Explicando para ele o que meus tutores tinham dito, mencionei alguém dizendo que essas pinturas e transferências pareciam serem uma defesa. Como se eu não estivesse me expondo, mas apenas me escondendo atrás de densa teoria e óbvia arte pop. Poderia dizer que quase não me percebi producando na minha mochila pelo outro desenho da Butcher's Daughter que eu fizera no caderno. Mas no momento seguinte, eu o estava mostrando para ele. A aquarela em um dos cartões postais do Tate Modern que eu fizera quando descobri que uma pintura que eu adorava da Dorothea Tanning não estava mais na mostra atual. O rosto de Brian, que antes parecera cético em relação a tudo que eu estava fazendo, iluminou-se. "Este é talvez o melhor trabalho que você tem", ele disse.
Pareceu um eco. A voz dele ali, as palavras do BBK no dia anterior, as opiniões de minha mãe alguns meses atrás, o feedback dos meus amigos e tantas outras pistas não tão sutis. Todos diziam a mesma coisa.
Porque eu estivera evitando isso? Por que eu mantivera estes personagens como atração secundária quando todo mundo parecia se relacionar com elas melhor do que com minhas outras coisas? Ah, sim. As outras coisas "faziam sentido". Como eu escrevi antes, tu tinha problemas em ser mais um daqueles artistas confusoss que não entendiam claramente o que estavam fazendo. Ser assim seria não estar no controle do seu próprio trabalho. Sentido era controle para mim. Mais importante, sentido significava que eu podia formatar isso tudo para caber nas formalidades requisitadas pela instituição acadêmica. Meu trabalho com questões masculinas cabia facilmente na burocracia da universidade e de seus formulários de avaliação. Cabia em questões de pesquisa, experimentação, competência técnica e outras palavras enormes. Era fácil e confortável. A Butcher's Daughter era outra história. Ela me colocava no âmbito do daguejar, das pausas longas e das incoerências.
Brian me aconselhou a vazer mais da Butcher's Daughter. Isso seria fácil. Difícil era superar meu desconforto com o inefável a respeito dela. Ainda assim, eu sentia que poderia haver algo no fato de que eu era um homem adulto desenhando uma garotinha assumindo a profissão de seu pai que poderia facilmente ser ligado aos mesmo assunto de sexualidade que eu estivera ponderando.
Mas mesmo agora eu estou hesitando em definir exatamente que aspecto específico é esse. Temo racionalizar demais isso e torná-lo algo fazio. Como o resto das coisas que tenho feito por aqui. É melhor deixá-la correr solta um pouco.
terça-feira, janeiro 18, 2011
Tutorial 3
Pode parecer pedante, mas em alguns aspectos, encontrar-me com Dexter Dalwood foi como olhar em um espelho. Não foi por eu acreditar que eu algum dia possa estar entre os quatro finalistas do Turner Prize, mas por outros detalhes mais triviais.
Uma breve pesquisa na internet revelou que ele foi o baixista de uma banda punk dos anos 70 chamada The Cortinas. A minha banda, nos anos 2000, tendia mais para o grunge e eu era o vocalista. Esse espelho começa a parecer um pouco distorcido...
Dexter usa óculos de aro grosso preto e moldura quadrada (até aí, todo mundo usa hoje em dia...). Nunca teve barba ou bigode e seu rosto tem aquele quê de alguém que sempre foi magro e sempre será. Mas não aquela qualidade de rapaz franzino. Veio com a gola da camisa aparecendo por debaixo do suéter, típico estilo inglês, calça jeans e sapato de couro. Eu, aliás, vestia o mesmo. Exceto pela barba...
Ele também havia lido Robert Bly. E ele também achava que inicialmente era um bom livro, mas os resultados finais de Bly eram um pouco bizarros e incoerentes demais. O que de imediato foi um alívio enorme para nossa conversa. Era ótimo poder falar com alguém que de fato tinha alguma visão de onde eu estava querendo chegar. A resistência era menor.
Havia uma calma a respeito dele que era muito confortável. Bem diferente da personalidade violenta e angustiante de Dawn Mellor. E me fez pensar que as pessoas encarregadas de definir os tutores estavam fazendo algo muito bem estruturado, de me colcar diante de uma antagonista feroz no começo para me domesticar e depois me colocar com um cara mais calmo que tivesse mais a ver comigo.
No entanto, outros aspectos do Sr. Dalwood pareceram bem distantes de mim (óbvio, ele era um finalista de um dos prêmios mais controversos e prestigiados da Inglaterra e eu não era ninguém).
Vendo seu impressionante currículo como pintor, tive alguns insights a respeito da abordagem dele em relação á carreira. Não só por ele estar no Turner Prize, que já vinha sendo amplamente criticado por seu elitismo e desprendimento da realidade da vida na Inglaterra; mas havia exposto também na Saatchi, uma galeria criada por um publicitário e que recebia tantas críticas relativas á sua validade quanto currículos de novos artistas. Muito do que eu vi na carreira dele deixava claro que ele não se perdia em discussões morais sobre o que estava fazendo. Queria ser vendável, queria estar na moda, queria popularidade. Isso não desmerecia sua arte, era apenas o jeito como ele lidava com os aspectos periféricos da carreira de artista.
Sua orientação seguiu mais ou menos a mesma linha. Ele apontou coisas muito relevantes em relação ao trabalho, entre elas uma espécie de obviedade a respeito das minhas pinturas e transferências que fazia com que o relacionamento com elas fosse fugaz, imediato e facilmente esquecível. Era como uma ficada esporádica em uma balada da Vila Olímpia: gostoso na hora, mas nada que você lembre depois. Era uma daquelas verdades que precisavam ser ouvidas e, vindo através da calma do Sr. Dalwood, parecia ainda mais forte e verdadeira. Não era uma defesa natural de personalidade, como Mellor havia me atacado antes de me conhecer. Talvez por isso eu prestasse ainda mais atenção, mesmo que não me despertasse o mesmo ímpeto revolucionário da minha tutora anterior. Essa qualidade estava ainda presente na última pintura que eu tinha feito, logo que cheguei aqui, baseada na mito do Rapto das Sabinas. Eu estava ainda contando uma história em vez de mostrar algo que de fato estivesse acontecendo alí, na pintura. E nisso eu tinha que concordar.
Discuti com ele sobre a performance que eu vinha preparando. Mesmo essa tinha seus problemas e parecia que, mais do que encontrar um novo valor em ser homem, eu parecia estar pedindo desculpas pelos crimes de homens passados. Nesse aspecto, eu acho que ele tinha total razão. Eu estava tentando achar um equilíbrio perigoso entre por um lado afirmar o masculino e ser ridiculamente machista, violento, ofensivo às feministas e mulheres em geral; e por outro lado ser excessivamente frouxo, fazer concessões demais, ser manipulável demais. E estava pendendo para esse último lado.
-"Ainda assim, acho que você deveria fazê-la. Porque no fazer, acabamos descobrindo coisas"- foi o veredito final a respeito da performance. Eu entendia o que ele queria dizer. Era o mesmo conselho que Brian Chalkley me dera no nosso "tutorial informal". Mas eu entendia duas coisas vindas desse conselho:
1) Eles queriam que eu fizesse. Produzisse. Isso podia ser visto pelo lado positivo, onde produzer significava fazer o conceito evoluir de uma forma que apenas filosofar a respeito não faria. Por outro lado, podia ser visto como o estúpido rolar da linha de montagem para criar produtos para um mercado, sem mais pensar a respeito. Produtos falhos, questionáveis, fracos. Eu achava que ambas essas compreensões estavam acontecendo ao mesmo tempo
2) Eles queriam que eu não me demorasse em entender aquilo. Nas palavras do próprio Dalwood, não era o meu trabalho entender ou questionar aquilo. Ele dava a entender que outros fariam isso por mim. Essa idéia do fazer artístico sem pensar estava sendo vendida para mim há muito tempo e ela entrava em conflito direto com a atitude filosófica que me fora ensinada no colégio e na qual eu acreditava. Ela também me parecia como mais uma daquelas tentativas de formar artistas confusos que tinham uma compreensão apenas mínima do que estavam fazendo e que eram facilmente manipuláveis por galeristas e colecionadores.
Ou seja, não pense, apenas faça. Assim, quando você não for mais conveniente, a gente pode inventar uma grande teoria sobre o seu trabalho e te por pra fora do jogo.
Resumindo...
No geral, Dexter Dalwood me pareceu como uma leitura da Veja: você sabe que há opiniões divergentes das suas e muita doutrinação com alguma informação relevante no meio. Então leia, filtre com cuidado e tenha uma opinião crítica a respeito.
Pessoalmente, acho que vou seguir o conselho de fazer sem queimar neurônios por um tempo. Talvez eu realmente descubra coisas e ache um jeito de fazer meus trabalhos evoluirem de ficadas esporádicas na Vila Olímpia, para relacionamentos duradouros.
Uma breve pesquisa na internet revelou que ele foi o baixista de uma banda punk dos anos 70 chamada The Cortinas. A minha banda, nos anos 2000, tendia mais para o grunge e eu era o vocalista. Esse espelho começa a parecer um pouco distorcido...
Dexter usa óculos de aro grosso preto e moldura quadrada (até aí, todo mundo usa hoje em dia...). Nunca teve barba ou bigode e seu rosto tem aquele quê de alguém que sempre foi magro e sempre será. Mas não aquela qualidade de rapaz franzino. Veio com a gola da camisa aparecendo por debaixo do suéter, típico estilo inglês, calça jeans e sapato de couro. Eu, aliás, vestia o mesmo. Exceto pela barba...
Ele também havia lido Robert Bly. E ele também achava que inicialmente era um bom livro, mas os resultados finais de Bly eram um pouco bizarros e incoerentes demais. O que de imediato foi um alívio enorme para nossa conversa. Era ótimo poder falar com alguém que de fato tinha alguma visão de onde eu estava querendo chegar. A resistência era menor.
Havia uma calma a respeito dele que era muito confortável. Bem diferente da personalidade violenta e angustiante de Dawn Mellor. E me fez pensar que as pessoas encarregadas de definir os tutores estavam fazendo algo muito bem estruturado, de me colcar diante de uma antagonista feroz no começo para me domesticar e depois me colocar com um cara mais calmo que tivesse mais a ver comigo.
No entanto, outros aspectos do Sr. Dalwood pareceram bem distantes de mim (óbvio, ele era um finalista de um dos prêmios mais controversos e prestigiados da Inglaterra e eu não era ninguém).
Vendo seu impressionante currículo como pintor, tive alguns insights a respeito da abordagem dele em relação á carreira. Não só por ele estar no Turner Prize, que já vinha sendo amplamente criticado por seu elitismo e desprendimento da realidade da vida na Inglaterra; mas havia exposto também na Saatchi, uma galeria criada por um publicitário e que recebia tantas críticas relativas á sua validade quanto currículos de novos artistas. Muito do que eu vi na carreira dele deixava claro que ele não se perdia em discussões morais sobre o que estava fazendo. Queria ser vendável, queria estar na moda, queria popularidade. Isso não desmerecia sua arte, era apenas o jeito como ele lidava com os aspectos periféricos da carreira de artista.
Sua orientação seguiu mais ou menos a mesma linha. Ele apontou coisas muito relevantes em relação ao trabalho, entre elas uma espécie de obviedade a respeito das minhas pinturas e transferências que fazia com que o relacionamento com elas fosse fugaz, imediato e facilmente esquecível. Era como uma ficada esporádica em uma balada da Vila Olímpia: gostoso na hora, mas nada que você lembre depois. Era uma daquelas verdades que precisavam ser ouvidas e, vindo através da calma do Sr. Dalwood, parecia ainda mais forte e verdadeira. Não era uma defesa natural de personalidade, como Mellor havia me atacado antes de me conhecer. Talvez por isso eu prestasse ainda mais atenção, mesmo que não me despertasse o mesmo ímpeto revolucionário da minha tutora anterior. Essa qualidade estava ainda presente na última pintura que eu tinha feito, logo que cheguei aqui, baseada na mito do Rapto das Sabinas. Eu estava ainda contando uma história em vez de mostrar algo que de fato estivesse acontecendo alí, na pintura. E nisso eu tinha que concordar.
Discuti com ele sobre a performance que eu vinha preparando. Mesmo essa tinha seus problemas e parecia que, mais do que encontrar um novo valor em ser homem, eu parecia estar pedindo desculpas pelos crimes de homens passados. Nesse aspecto, eu acho que ele tinha total razão. Eu estava tentando achar um equilíbrio perigoso entre por um lado afirmar o masculino e ser ridiculamente machista, violento, ofensivo às feministas e mulheres em geral; e por outro lado ser excessivamente frouxo, fazer concessões demais, ser manipulável demais. E estava pendendo para esse último lado.
-"Ainda assim, acho que você deveria fazê-la. Porque no fazer, acabamos descobrindo coisas"- foi o veredito final a respeito da performance. Eu entendia o que ele queria dizer. Era o mesmo conselho que Brian Chalkley me dera no nosso "tutorial informal". Mas eu entendia duas coisas vindas desse conselho:
1) Eles queriam que eu fizesse. Produzisse. Isso podia ser visto pelo lado positivo, onde produzer significava fazer o conceito evoluir de uma forma que apenas filosofar a respeito não faria. Por outro lado, podia ser visto como o estúpido rolar da linha de montagem para criar produtos para um mercado, sem mais pensar a respeito. Produtos falhos, questionáveis, fracos. Eu achava que ambas essas compreensões estavam acontecendo ao mesmo tempo
2) Eles queriam que eu não me demorasse em entender aquilo. Nas palavras do próprio Dalwood, não era o meu trabalho entender ou questionar aquilo. Ele dava a entender que outros fariam isso por mim. Essa idéia do fazer artístico sem pensar estava sendo vendida para mim há muito tempo e ela entrava em conflito direto com a atitude filosófica que me fora ensinada no colégio e na qual eu acreditava. Ela também me parecia como mais uma daquelas tentativas de formar artistas confusos que tinham uma compreensão apenas mínima do que estavam fazendo e que eram facilmente manipuláveis por galeristas e colecionadores.
Ou seja, não pense, apenas faça. Assim, quando você não for mais conveniente, a gente pode inventar uma grande teoria sobre o seu trabalho e te por pra fora do jogo.
Resumindo...
No geral, Dexter Dalwood me pareceu como uma leitura da Veja: você sabe que há opiniões divergentes das suas e muita doutrinação com alguma informação relevante no meio. Então leia, filtre com cuidado e tenha uma opinião crítica a respeito.
Pessoalmente, acho que vou seguir o conselho de fazer sem queimar neurônios por um tempo. Talvez eu realmente descubra coisas e ache um jeito de fazer meus trabalhos evoluirem de ficadas esporádicas na Vila Olímpia, para relacionamentos duradouros.
sábado, janeiro 15, 2011
Apesar de destruir infraestrutura e piorar a vida de muita gente no dia, achei essa idéia muito bonita. No verão de 1996, ativistas do movimento Reclaim the Streets (RTS), que tinham como objetivo fazer com que as ruas fossem para as pessoas e a vida em sociedade em vez dos carros e o individualismo, invadiram e lotaram o elevado M41 em Londres para um dia inteiro de rave. Perto dos carros de som, mulheres em pernas de pau com saias estruturadas por arame acompanhavam a passeata bem acima da altura das pessoas [1]. O som da música alta encobria outro som que podia ser ouvido por quem chegasse mais perto dessas mulheres. Debaixo das saias, ativistas com britadeiras furavam buracos no asfalto para plantar mudas de árvores [2]. Quando essa mulheres enormes andavam vagarosamente, elas deixava um rastro de vegetação no cinza do pavimento.
Poesia pura.
Poesia pura.
W.A.G.E.
Em uma nota aparentemente contraditória, mas ainda assim relacionada à moral, encontrei o site do W.A.G.E. (Working Artists and the Greater Economy), uma ONG que defende que o trabalho cultural seja pago. Fiquei sabendo deles através do Marcos Moraes, coordenador do curso de artes plásticas da FAAP.
É normal que artistas (principalmente jovens) trabalhem de graça, seja nas suas primeiras exposições, seja no território do design, seja na música ou outras áreas. O discurso é sempre o mesmo:
-"Olha, pagar a gente não paga. Mas pensa bem, isso vai ser uma oportunidade incrível pra você ter visibilidade no mercado! Muita gente adoraria uma oportunidade como esta!".
Quem trabalha com cultura já ouviu isso milhões de vezes. Daí eles tratam seu trabalho como decoração de ambiente e esperam que você ache tudo isso lindo porque você está expondo em um lugar que tem nome e isso deve bastar.
O W.A.G.E. procura mudar isso, para que artistas sejam pagos pelo trabalho. Visitem o site:
http://www.wageforwork.com/
É normal que artistas (principalmente jovens) trabalhem de graça, seja nas suas primeiras exposições, seja no território do design, seja na música ou outras áreas. O discurso é sempre o mesmo:
-"Olha, pagar a gente não paga. Mas pensa bem, isso vai ser uma oportunidade incrível pra você ter visibilidade no mercado! Muita gente adoraria uma oportunidade como esta!".
Quem trabalha com cultura já ouviu isso milhões de vezes. Daí eles tratam seu trabalho como decoração de ambiente e esperam que você ache tudo isso lindo porque você está expondo em um lugar que tem nome e isso deve bastar.
O W.A.G.E. procura mudar isso, para que artistas sejam pagos pelo trabalho. Visitem o site:
http://www.wageforwork.com/
quinta-feira, janeiro 13, 2011
The credit game
Conversado com um de meus colegas para tentar redigir uma proposta legal para o Interim Show que pudesse potencialmente agradar a gregos e troianos, fomo interrompidos por uma visita do professor Cussans. Ele conversou com meu colega sobre assuntos relacionados à militância de âmbos no movimento ArtsAgainstCuts, e que levou meu colega a me sugerir a idéia para o Interim Show.
Em meio às conversas de ambos e relatos dos teach-ins que eles tinham frequentado, perguntamos ao professor porque ele não estava tomando crédito por determinadas ações que ele tinha organizado ou sendo citado nos jornais a respeito. John Cussans posicionou-se firmemente a favor do anonimato. Disse que boas ações deviam ser um bem social, não uma oportunidade para ganho pessoal. Segundo ele, quando um jornalista o contactou por telefone durante um dos teach-ins no Tate Britain, ele percebeu que o rapaz estava atrás do que ele chamava de "credit game", onde o jornalista ganhava crédito por ter dado a notícia primeiro, enquanto possibilitava crédito para o professor ao indicá-lo como um dos organizadores do evento. Todo mundo saía ganhando, mas a coisa continuava sendo bem individualista. O professor estava cansado desse jogo. Cansara do que ele chamava de "CVism", a insistente necessidade por engordar o currículo em vez de fazer o que é certo. Mas principalmente, estava cansado do esforço de engordar a conta bancária enquanto podia estar ajudando a comunidade de uma forma mais ampla.
Eu ouvia em silêncio. A proposta de excluir-se desse sistema tinha certas incoerências inegáveis e certos aspectos fascinantes. Em primeiro lugar, o que fazia ele como marxista e defensor do anonimato sendo o professor mais relevante do mestrado em um curso consideravelmente caro? Levantei a questão do equilíbrio. Porque dificilmente alguém conseguia ser totalmente de esquerda ou totalmente de direita (Lula que o diga...). Mas acabava sendo mais uma questão do quão moral eram as suas decisões. Ganhar o dinheiro necessário sem prejudicar ninguém, sendo verdadeiro consigo mesmo.
A atitude de evitar ser identificado em relação a determinada coisa dava uma falsa impressão de segredo. E quando havia segredo demais, a paranóia começava: quem é responsável por isso? Porque ele não quer se mostrar? Ele tem algo a esconder? Ele está colaborando com "o inimigo"? E a idéia defendida pelo professor era que sistemas que mantinham sigilo de informação eram passíveis de serem atacados, de forma muito similar ao que Julian Assange e o WikiLeaks vinha fazendo com a guerra no Iraque. Mas o professor não queria manter segredo. Apenas não queria levar crédito pelos eventos ou ser citado.
As idéias do professor me trouxeram à velha questão: como dá pra se posicionar contra as "ideologias opressivas e antediluvianas do capital" e ainda assim conseguir pagar as contas, comprar comida, ter algum conforto na vida? Como chegar nesse equilíbrio moral que eu mencionei?
No caso do professor, a resposta era simples: como professor acadêmico, ele estava ensinando, fazendo algo bom e produtivo (às vezes até de graça, como nos teach-ins), sem deixar de pagar as contas. Se fosse pra ser ainda mais moralmente correto, ele deveria fazer isso em uma escola pública, por um salário menor. Mas cada um estabelece seu limite moral.
Quanto a mim, eu andava pensando no assunto. Juntando isso à discussão do tutorial de grupo, comecei a questionar se de fato eu PRECISAVA ser vendável e procurar ter algum ganho financeiro com a minha arte. Afinal, eu estava pagando as contas muito bem durante estes últimos dois anos sem precisar bajular galerias ou entrar para o credit game. E mais: estava fazendo isso de forma construtiva para a sociedade, em vez de alimentar o lado mais sinistro do capitalismo através da propaganda. E estava adorando a sensação!
Nisso, eu comecei a pensar sobre meu irmão. Ele, que apesar de estar anos à frente no que se refere a essa mentalidade do equilíbrio moral, às vezes passava aos nossos pais a idéia de que não estava tirando o sustento financeiro suficiente para ele próprio. Se vivessemos em uma sociedade onde pudessemos depender uns dos outros para as necessidades básicas de comida, moradia e etc., talvez ele estaria corretíssimo. Mas no nosso país, infelizmente o tal equilíbrio moral ainda tinha que pender um pouco mais para a direita.
Em meio às conversas de ambos e relatos dos teach-ins que eles tinham frequentado, perguntamos ao professor porque ele não estava tomando crédito por determinadas ações que ele tinha organizado ou sendo citado nos jornais a respeito. John Cussans posicionou-se firmemente a favor do anonimato. Disse que boas ações deviam ser um bem social, não uma oportunidade para ganho pessoal. Segundo ele, quando um jornalista o contactou por telefone durante um dos teach-ins no Tate Britain, ele percebeu que o rapaz estava atrás do que ele chamava de "credit game", onde o jornalista ganhava crédito por ter dado a notícia primeiro, enquanto possibilitava crédito para o professor ao indicá-lo como um dos organizadores do evento. Todo mundo saía ganhando, mas a coisa continuava sendo bem individualista. O professor estava cansado desse jogo. Cansara do que ele chamava de "CVism", a insistente necessidade por engordar o currículo em vez de fazer o que é certo. Mas principalmente, estava cansado do esforço de engordar a conta bancária enquanto podia estar ajudando a comunidade de uma forma mais ampla.
Eu ouvia em silêncio. A proposta de excluir-se desse sistema tinha certas incoerências inegáveis e certos aspectos fascinantes. Em primeiro lugar, o que fazia ele como marxista e defensor do anonimato sendo o professor mais relevante do mestrado em um curso consideravelmente caro? Levantei a questão do equilíbrio. Porque dificilmente alguém conseguia ser totalmente de esquerda ou totalmente de direita (Lula que o diga...). Mas acabava sendo mais uma questão do quão moral eram as suas decisões. Ganhar o dinheiro necessário sem prejudicar ninguém, sendo verdadeiro consigo mesmo.
A atitude de evitar ser identificado em relação a determinada coisa dava uma falsa impressão de segredo. E quando havia segredo demais, a paranóia começava: quem é responsável por isso? Porque ele não quer se mostrar? Ele tem algo a esconder? Ele está colaborando com "o inimigo"? E a idéia defendida pelo professor era que sistemas que mantinham sigilo de informação eram passíveis de serem atacados, de forma muito similar ao que Julian Assange e o WikiLeaks vinha fazendo com a guerra no Iraque. Mas o professor não queria manter segredo. Apenas não queria levar crédito pelos eventos ou ser citado.
As idéias do professor me trouxeram à velha questão: como dá pra se posicionar contra as "ideologias opressivas e antediluvianas do capital" e ainda assim conseguir pagar as contas, comprar comida, ter algum conforto na vida? Como chegar nesse equilíbrio moral que eu mencionei?
No caso do professor, a resposta era simples: como professor acadêmico, ele estava ensinando, fazendo algo bom e produtivo (às vezes até de graça, como nos teach-ins), sem deixar de pagar as contas. Se fosse pra ser ainda mais moralmente correto, ele deveria fazer isso em uma escola pública, por um salário menor. Mas cada um estabelece seu limite moral.
Quanto a mim, eu andava pensando no assunto. Juntando isso à discussão do tutorial de grupo, comecei a questionar se de fato eu PRECISAVA ser vendável e procurar ter algum ganho financeiro com a minha arte. Afinal, eu estava pagando as contas muito bem durante estes últimos dois anos sem precisar bajular galerias ou entrar para o credit game. E mais: estava fazendo isso de forma construtiva para a sociedade, em vez de alimentar o lado mais sinistro do capitalismo através da propaganda. E estava adorando a sensação!
Nisso, eu comecei a pensar sobre meu irmão. Ele, que apesar de estar anos à frente no que se refere a essa mentalidade do equilíbrio moral, às vezes passava aos nossos pais a idéia de que não estava tirando o sustento financeiro suficiente para ele próprio. Se vivessemos em uma sociedade onde pudessemos depender uns dos outros para as necessidades básicas de comida, moradia e etc., talvez ele estaria corretíssimo. Mas no nosso país, infelizmente o tal equilíbrio moral ainda tinha que pender um pouco mais para a direita.
Tutorial em grupo com John Cussans
Outra conversa que vale ser documentada aqui aconteceu no tutorial de grupo na terça.
Só pra explicar a estrutura da discussão, grupos de dez alunos mais ou menos foram colocados em uma sala. Cada um trazia um trabalho e colocava na parede. Teríamos um minuto para falar apenas se o trabalho era algo finalizado ou ainda em processo e como deveria ser apresentado. Trouxe uma das minhas transferências que eu apelidei de "fálicos". Uma gigantesca navalha transferida para um pedaço de dois metros por meio de papel.
A recepção inicial foi boa, muita gente curiosa a respeito da técnica e seu resultado estético. Mesmo pessoas que não estavam acompanhando o que eu estava fazendo conseguiram entender várias das idéias que eu queria comunicar. Houve até uma discussão que não estava propositalmente colocada nesse trabalho mas que eu andava pensando, sobre estabelecer a diferença entre o que era fálico ("phallic", um símbolo de poder verdadeiro - não necessariamente masculino) e o que era peniano ("penile", algo como um falso poder, um machismo, um abuso estúpido). Eu andava pensado em fazer alguma coisa com esse tema, mas achei muito interessante ele ter surgido aqui.
A discussão terminou no entanto com um ponto um pouco agridoce. O professor Cussans e um aluno levantaram a questão de que esse trabalho parecia bem comercial. Como algo para ser vendido em uma galeria e comprado por um colecionador rico que o colocaria no escritório. Entendo que a crítica aqui era que isso fosse deliberado e que eu estivesse "tentando demais" ser aceito por galerias e deixando de lado um pouco do mais artístico. Mas a verdade é que eu gosto de trabalhos assim. Se eu consigo chegar num resultado bem-feito, polido, lindo, porque me contentaria com menos? Nunca me adaptei à tendência de hoje de considerar obras bem acabadas como ridículas e valorizar o feito "nas coxas". Eu gosto de coisas assim. Pronto.
Havia ainda outro ponto envolvido nisso. O professor Cussans era de clara tendência marxista. E como tal, abominava qualquer tentativa de "ser vendável". Quando comentou sobre essa característica do meu trabalho, ele disse: "Lose it, buddy. Lose it fast!" ["Perca (essa característica), meu amigo. Perca-a rápido"].Mas e se eu quisesse entrar para galerias? E se eu quisesse vender? Mas e se eu simplesmente gostasse desse resultado? Não seria suficiente?
[Editado 14/01/2011, às 01:03am]
Só pra explicar a estrutura da discussão, grupos de dez alunos mais ou menos foram colocados em uma sala. Cada um trazia um trabalho e colocava na parede. Teríamos um minuto para falar apenas se o trabalho era algo finalizado ou ainda em processo e como deveria ser apresentado. Trouxe uma das minhas transferências que eu apelidei de "fálicos". Uma gigantesca navalha transferida para um pedaço de dois metros por meio de papel.
A recepção inicial foi boa, muita gente curiosa a respeito da técnica e seu resultado estético. Mesmo pessoas que não estavam acompanhando o que eu estava fazendo conseguiram entender várias das idéias que eu queria comunicar. Houve até uma discussão que não estava propositalmente colocada nesse trabalho mas que eu andava pensando, sobre estabelecer a diferença entre o que era fálico ("phallic", um símbolo de poder verdadeiro - não necessariamente masculino) e o que era peniano ("penile", algo como um falso poder, um machismo, um abuso estúpido). Eu andava pensado em fazer alguma coisa com esse tema, mas achei muito interessante ele ter surgido aqui.
A discussão terminou no entanto com um ponto um pouco agridoce. O professor Cussans e um aluno levantaram a questão de que esse trabalho parecia bem comercial. Como algo para ser vendido em uma galeria e comprado por um colecionador rico que o colocaria no escritório. Entendo que a crítica aqui era que isso fosse deliberado e que eu estivesse "tentando demais" ser aceito por galerias e deixando de lado um pouco do mais artístico. Mas a verdade é que eu gosto de trabalhos assim. Se eu consigo chegar num resultado bem-feito, polido, lindo, porque me contentaria com menos? Nunca me adaptei à tendência de hoje de considerar obras bem acabadas como ridículas e valorizar o feito "nas coxas". Eu gosto de coisas assim. Pronto.
Havia ainda outro ponto envolvido nisso. O professor Cussans era de clara tendência marxista. E como tal, abominava qualquer tentativa de "ser vendável". Quando comentou sobre essa característica do meu trabalho, ele disse: "Lose it, buddy. Lose it fast!" ["Perca (essa característica), meu amigo. Perca-a rápido"].
[Editado 14/01/2011, às 01:03am]
Tutorial informal com Brian Chalkley
Eu sei que a leitura deste blog tem se tornado um pouco árida. Me pergunto se alguém ainda continua totalmente a par do que eu tenho escrito.
Várias conversas interessantes foram acontecendo ultimamente em relação ao meu trabalho. Inicialmente, conversei com Brian Chalkley, o mui acessível coordenador do curso e possível tutor. Queria trocar meu próximo tutor (o pintor Dexter Dalwood, que estava entre os finalistas do Turner Prize deste ano) pelo próprio Brian, simplesmente pelo fato de eu estar considerando fazer outras coisas além da pintura. Brian sugeriu que, em vez disso, eu o chame para conversar sobre meu trabalho de vez em quando. Quase como um tutorial informal. Assim o fiz, e tivemos nossa primeira conversa na cantina, sobre minhas idéias de video-performance.
Quanto à idéia relacionada ao ovo e etc, tudo que ele teve a dizer foi "Just do the bloody thing" {"Simplesmente faça a maldita coisa"]. Eu estava preocupado demais em formular o conceito daquilo e não estava botando a mão na massa. Sendo assim, desencanei do conceito e estou no processo de fazer. Veremos depois as implicações do assunto.
No entanto, ele se mostrou muito interessado com outro assunto performático. Por algum motivo mencionei uma tentativa de video anterior que fiz antes o intervalo natalino. Consistia em uma imagem de mim pregando um enorme botão de madeira na parede do estúdio. Meu problema é que o resultado ficou MUITO monótono. E embora eu tenha sido criticado recentemente pela estetização das minhas coisas (tendência a me preocupar demais em fazer coisas "bonitinhas", que vendem), eu simplesmente não consigo deixar isso assim, tão entediante. Estou considerando fazer uma segunda tentativa, mais bem-humorada. O motivo de ter começado a falar disso com ele era porque eu estava tentando explicar sobre o deleite experimentado ao fazer dessas pequenas tarefas domésticas que, no meu país, geralmente são atribuídas às mulheres (seja mãe, esposa ou empregada). Ele achou muito mais válido do que a idéia do ovo. Era algo levado da vida real para o trabalho e feito de forma muito coerente. A escolha de materiais (o botão gigante, a parede em vez do tecido, o arame de cobre em vez da linha) passava uma sensação de estereótipo masculino e fazia uma contraposição legal com o ato delicado de pregar botões.
Finalmente, ele me desafiou a fazer mais disso, mais dessa documentação do cotidiano e da vida doméstica de alguém que cresceu em um país onde as tarefas domésticas ainda são coisa de mulher. Mais dessa masculinização dessa domesticidade. Demorei um dia pensando nisso, mas já ando com umas idéias sobre a limpeza do quarto e banheiro. Ainda não vou botar essas coisas por aqui, mas vale dizer que tenho me inspirado um pouco por este vídeo que eu sempre amei. Ando bem animado com a idéia.
Várias conversas interessantes foram acontecendo ultimamente em relação ao meu trabalho. Inicialmente, conversei com Brian Chalkley, o mui acessível coordenador do curso e possível tutor. Queria trocar meu próximo tutor (o pintor Dexter Dalwood, que estava entre os finalistas do Turner Prize deste ano) pelo próprio Brian, simplesmente pelo fato de eu estar considerando fazer outras coisas além da pintura. Brian sugeriu que, em vez disso, eu o chame para conversar sobre meu trabalho de vez em quando. Quase como um tutorial informal. Assim o fiz, e tivemos nossa primeira conversa na cantina, sobre minhas idéias de video-performance.
Quanto à idéia relacionada ao ovo e etc, tudo que ele teve a dizer foi "Just do the bloody thing" {"Simplesmente faça a maldita coisa"]. Eu estava preocupado demais em formular o conceito daquilo e não estava botando a mão na massa. Sendo assim, desencanei do conceito e estou no processo de fazer. Veremos depois as implicações do assunto.
No entanto, ele se mostrou muito interessado com outro assunto performático. Por algum motivo mencionei uma tentativa de video anterior que fiz antes o intervalo natalino. Consistia em uma imagem de mim pregando um enorme botão de madeira na parede do estúdio. Meu problema é que o resultado ficou MUITO monótono. E embora eu tenha sido criticado recentemente pela estetização das minhas coisas (tendência a me preocupar demais em fazer coisas "bonitinhas", que vendem), eu simplesmente não consigo deixar isso assim, tão entediante. Estou considerando fazer uma segunda tentativa, mais bem-humorada. O motivo de ter começado a falar disso com ele era porque eu estava tentando explicar sobre o deleite experimentado ao fazer dessas pequenas tarefas domésticas que, no meu país, geralmente são atribuídas às mulheres (seja mãe, esposa ou empregada). Ele achou muito mais válido do que a idéia do ovo. Era algo levado da vida real para o trabalho e feito de forma muito coerente. A escolha de materiais (o botão gigante, a parede em vez do tecido, o arame de cobre em vez da linha) passava uma sensação de estereótipo masculino e fazia uma contraposição legal com o ato delicado de pregar botões.
Finalmente, ele me desafiou a fazer mais disso, mais dessa documentação do cotidiano e da vida doméstica de alguém que cresceu em um país onde as tarefas domésticas ainda são coisa de mulher. Mais dessa masculinização dessa domesticidade. Demorei um dia pensando nisso, mas já ando com umas idéias sobre a limpeza do quarto e banheiro. Ainda não vou botar essas coisas por aqui, mas vale dizer que tenho me inspirado um pouco por este vídeo que eu sempre amei. Ando bem animado com a idéia.
sexta-feira, janeiro 07, 2011
Ressonância
Casualmente encontrei um de meus colegas nos corredores da faculdade ontem. Na nossa longa conversa que lhe roubou duas horas de leitura, pedi que me contasse sobre seu casamento, sobre seu filho recém-nascido e a experiência de ser pai. Eu tinha em mente uma performance baseada em algo que eu tinha escrito aqui. Ele me desenhou um esquema interessante onde, enquanto a mãe estava grávida, ele sentia que aquela criança crescendo era o centro do mundo, em volta do qual estava a mãe. Ela estava ocupada, gastando seu tempo, energias e mente na criação biológica daquele filho. No esquema, o pai era a camada exterior, englobando a mãe, que englobava o filho. Ele cuidava de todo o resto, protegendo a mãe e a criança e buscando tudo que eles precisassem.
Também conversamos longamente sobre relacionamentos. Porque ele, artista plástico, era casado com uma jornalista da BBC, de carreira, que ganhava mais do que ele. E embora isso nem chegasse a ser uma questão entre eles, ele sentia os olhares de fora...
No dia seguinte, estava indo ao estúdio do meu colega, oferecer-lhe os brigadeiros de pistache (receita deixada por aqui pela minha Lexy!) como agradecimento pela conversa. No caminho, topei com outra colega do curso, que contou-me que namorava um pintor de sucesso, desses com contrato em galeria. Ele ganhava mais do que ela vendendo seus quadros, mas ninguém sustentava o outro e ambos eram auto-suficientes. Contei-lhe de minha própria situação. Suponho que essa auto-suficiência tenha se tornado o padrão atual nos relacionamentos. Mas posso estar generalizando de novo...
Mostrando-lhe o os brigadeiros que eu tinha feito, ela ficou impressionada. Tanto pelo fato de eu ter feito docinhos, como pelo fato de estar fazendo esse gesto de agradecimento. Era incomum (para um homem?). "You're a nice catch (você é um bom partido - um rapaz prendado)", ela me disse em tom jocoso.
Outro dia, também nos corredores da faculdade, encontrei com uma das representantes de classe. Trocando histórias sobre nossos pais, ela me contou que o dela havia se aposentado por motivos de saúde. Recebendo a aposentadoria, ele ficava em casa. Mas isso não significava que cuidasse dos afazeres domésticos. Achei interessante. Meu pai, depois de deixar o ramo no qual trabalhou durante décadas, passou a trabalhar em casa como consultor enquanto montava seu próprio negócio com a criação de tilápias. Percebi-o poucas vezes lidando com alguns poucos afazeres domésticos (compras do mês e coisas do gênero). Mas para boa parte das coisas, havia a empregada (substantivo feminino): coisa rara aqui na Europa e que já vem me dando idéias...
Junto com a conversa que tive com outro colega logo depois da minha apresentação inicial, todas essas histórias me dão a impressão de que, ainda que eu tenha apresentado mal minhas idéias no começo, os europeus têm suas próprias experiências que ressoam com o que eu estou querendo comunicar. E me vejo agora muito mais interessado em procurar formas de atingir essa ressonância, essas experiências em comum, do que em apontar o dedo e criticar como eu estava fazendo no começo.
Também conversamos longamente sobre relacionamentos. Porque ele, artista plástico, era casado com uma jornalista da BBC, de carreira, que ganhava mais do que ele. E embora isso nem chegasse a ser uma questão entre eles, ele sentia os olhares de fora...
No dia seguinte, estava indo ao estúdio do meu colega, oferecer-lhe os brigadeiros de pistache (receita deixada por aqui pela minha Lexy!) como agradecimento pela conversa. No caminho, topei com outra colega do curso, que contou-me que namorava um pintor de sucesso, desses com contrato em galeria. Ele ganhava mais do que ela vendendo seus quadros, mas ninguém sustentava o outro e ambos eram auto-suficientes. Contei-lhe de minha própria situação. Suponho que essa auto-suficiência tenha se tornado o padrão atual nos relacionamentos. Mas posso estar generalizando de novo...
Mostrando-lhe o os brigadeiros que eu tinha feito, ela ficou impressionada. Tanto pelo fato de eu ter feito docinhos, como pelo fato de estar fazendo esse gesto de agradecimento. Era incomum (para um homem?). "You're a nice catch (você é um bom partido - um rapaz prendado)", ela me disse em tom jocoso.
Outro dia, também nos corredores da faculdade, encontrei com uma das representantes de classe. Trocando histórias sobre nossos pais, ela me contou que o dela havia se aposentado por motivos de saúde. Recebendo a aposentadoria, ele ficava em casa. Mas isso não significava que cuidasse dos afazeres domésticos. Achei interessante. Meu pai, depois de deixar o ramo no qual trabalhou durante décadas, passou a trabalhar em casa como consultor enquanto montava seu próprio negócio com a criação de tilápias. Percebi-o poucas vezes lidando com alguns poucos afazeres domésticos (compras do mês e coisas do gênero). Mas para boa parte das coisas, havia a empregada (substantivo feminino): coisa rara aqui na Europa e que já vem me dando idéias...
Junto com a conversa que tive com outro colega logo depois da minha apresentação inicial, todas essas histórias me dão a impressão de que, ainda que eu tenha apresentado mal minhas idéias no começo, os europeus têm suas próprias experiências que ressoam com o que eu estou querendo comunicar. E me vejo agora muito mais interessado em procurar formas de atingir essa ressonância, essas experiências em comum, do que em apontar o dedo e criticar como eu estava fazendo no começo.
segunda-feira, janeiro 03, 2011
Novos e necessários limites
Foi bom tomar uma semana de descanso, pra não continuar pensando no projeto. Eu até tinha trazido alguns livros da biblioteca da faculdade, mas confesso que mal toquei nos coitados. Passei a semana arrumando a casa e a mente, digerindo esse começo do curso.
Mas agora que a próxima etapa do curso começou, voltei à biblioteca para ler tudo o que eu devia ter lido nas férias. Andei pesquisando muito sobre o Feminismo. Sobre a década de 70, Judy Chicago e Miriam Shapiro na California e o começo da arte feminista do que se chamou primeira onda do Feminismo. E embora elas tenham sido criticadas depois por seu essencialismo (crença de que a realidade delas valia para todas as mulheres), elas foram muito válidas como início.
Saio dessa leitura toda com uma nova visão do que eu deveria fazer como arte Masculista e uma compreensão do quão perigosa e destruidora estava sendo a abordagem que eu estava tomando antes. Tão perigosa de fato, que temo ter estragado uma amizade recente por causa de uma das pinturas que eu estava começando a desenvolver. Essa abordagem tinha algo de pernicioso, ela apontava o dedo para as feministas e, de um modo mais leve, para as mulheres em geral e dizia: "vocês são a causa disso tudo, a causa dos homens terem perdido o jeito". Era muito fácil cair nesse jogo acusatório, era uma reação normal de alguém que se sente acuado e inferiorizado. Mas na verdade não era isso que eu queria com o meu projeto, nem o que Chicago e Shapiro tinham em mente quando começaram a montar grupos de artistas mulheres. A "Feminista de alta octanagem" que automaticamente supõe que todo homem é um porco machista é um produto da chamada terceira onda do Feminismo iniciada nos anos 80. Mas até o movimento chegar nesse ponto mais ativo e menos passivo (embora nem sempre bem informado ou bem intencionado), teve que passar pelas outras "ondas", que serviram para fortalecer a base do movimento.
Eu considero que estava indo pelo lado errado do assunto, porque até então boa parte do que eu tinha feito para abordar o tema do Masculismo na arte tinha essa intensão acusatória. Fosse contra o Feminismo levado às últimas consequências ou contra os mentores masculinos ausentes, mas sempre procurava um bode expiatório. Eu já estava querendo partir para a ofensiva, sem ter uma base. Era preciso retornar à questão daquelas primeiras feministas e voltá-la ao homem. O que é um homem hoje? Existem limites para o termo? Mais do que isso, é possível ser um homem hoje sem ser nem o canalha perverso, nem o nerd que não vive a vida? Há uma terceira alternativa?
Ou seja: onde está lado positivo do homem heterossexual?
Mas agora que a próxima etapa do curso começou, voltei à biblioteca para ler tudo o que eu devia ter lido nas férias. Andei pesquisando muito sobre o Feminismo. Sobre a década de 70, Judy Chicago e Miriam Shapiro na California e o começo da arte feminista do que se chamou primeira onda do Feminismo. E embora elas tenham sido criticadas depois por seu essencialismo (crença de que a realidade delas valia para todas as mulheres), elas foram muito válidas como início.
Saio dessa leitura toda com uma nova visão do que eu deveria fazer como arte Masculista e uma compreensão do quão perigosa e destruidora estava sendo a abordagem que eu estava tomando antes. Tão perigosa de fato, que temo ter estragado uma amizade recente por causa de uma das pinturas que eu estava começando a desenvolver. Essa abordagem tinha algo de pernicioso, ela apontava o dedo para as feministas e, de um modo mais leve, para as mulheres em geral e dizia: "vocês são a causa disso tudo, a causa dos homens terem perdido o jeito". Era muito fácil cair nesse jogo acusatório, era uma reação normal de alguém que se sente acuado e inferiorizado. Mas na verdade não era isso que eu queria com o meu projeto, nem o que Chicago e Shapiro tinham em mente quando começaram a montar grupos de artistas mulheres. A "Feminista de alta octanagem" que automaticamente supõe que todo homem é um porco machista é um produto da chamada terceira onda do Feminismo iniciada nos anos 80. Mas até o movimento chegar nesse ponto mais ativo e menos passivo (embora nem sempre bem informado ou bem intencionado), teve que passar pelas outras "ondas", que serviram para fortalecer a base do movimento.
Eu considero que estava indo pelo lado errado do assunto, porque até então boa parte do que eu tinha feito para abordar o tema do Masculismo na arte tinha essa intensão acusatória. Fosse contra o Feminismo levado às últimas consequências ou contra os mentores masculinos ausentes, mas sempre procurava um bode expiatório. Eu já estava querendo partir para a ofensiva, sem ter uma base. Era preciso retornar à questão daquelas primeiras feministas e voltá-la ao homem. O que é um homem hoje? Existem limites para o termo? Mais do que isso, é possível ser um homem hoje sem ser nem o canalha perverso, nem o nerd que não vive a vida? Há uma terceira alternativa?
Ou seja: onde está lado positivo do homem heterossexual?
Odds and Ends
• O sistema de transporte de Londres tem um cartão chamado Oyster, que funciona mais ou menos como o Bilhete Único. Como tudo que é inglês atualmente, ele tem símbolos facilmente reconhecíveis, e onde quer que você encontro o círculo amarelo com a marca do Oyster, você sabe que pode usar o cartão. Metrô, ônibus, trem e até para algumas compras. O mais legal é que dá pra comprar uma passagem semanal para determinadas zonas (eu compro as zonas 1 e 2) e, por um pouco a mais do que você pagaria se tomasse duas conduções todos os dias, você pode tomar quantos ônibus e metrô você quiser. No fim das contas, sai muito mais barato do que botar crédito quando você precisa. Além disso, explica o motivo da preguiça dos londrinos, que tomam condução para evitar andar a mísera distância entre duas estações de metrô. Anda, gordinho!
• Um dos meus colegas do mestrado me contou sobre o fog londrino no dia em que vi o fenômeno pela primeira vez. Disse ele que antigamente aquilo matava pessoas. Acontece que o fog é feito de condensação de água. Cada partícula daquelas flutuava por aí acumulando mais e mais poluição dos carros até ser inalada pelas pessoas, que a cada respirada, absorviam mais e mais monóxido de carbono, em quantidades maiores do que o normal. Era como estar com o motor ligado dentro da garagem de casa. Mas graças a esforços de propaganda para fazer as pessoas começarem a andar de bicicleta; e ao Congestion Charge, uma taxa paga por quem ousa andar de carro na zona 1 nos horários de pico, Londres hoje respira melhor, mesmo em dias de fog.
• Minha Lexy que apontou isso pela primeira vez quando estava aqui. Eu não tinha percebido, mas mesmo em lugares grandes como a estação de Victoria, há pouquíssimas latas de lixo. Eu as vejo apenas em algumas ruas mais movimentadas. Ainda assim, tudo é sempre relativamente limpo. Ainda não entendi. Preciso algum dia prestar atenção nas pessoas comendo lanches nesses lugares e ver o que raios elas fazem com o papel e plástico que sobram.
• Um dos meus colegas do mestrado me contou sobre o fog londrino no dia em que vi o fenômeno pela primeira vez. Disse ele que antigamente aquilo matava pessoas. Acontece que o fog é feito de condensação de água. Cada partícula daquelas flutuava por aí acumulando mais e mais poluição dos carros até ser inalada pelas pessoas, que a cada respirada, absorviam mais e mais monóxido de carbono, em quantidades maiores do que o normal. Era como estar com o motor ligado dentro da garagem de casa. Mas graças a esforços de propaganda para fazer as pessoas começarem a andar de bicicleta; e ao Congestion Charge, uma taxa paga por quem ousa andar de carro na zona 1 nos horários de pico, Londres hoje respira melhor, mesmo em dias de fog.
• Minha Lexy que apontou isso pela primeira vez quando estava aqui. Eu não tinha percebido, mas mesmo em lugares grandes como a estação de Victoria, há pouquíssimas latas de lixo. Eu as vejo apenas em algumas ruas mais movimentadas. Ainda assim, tudo é sempre relativamente limpo. Ainda não entendi. Preciso algum dia prestar atenção nas pessoas comendo lanches nesses lugares e ver o que raios elas fazem com o papel e plástico que sobram.
Subscrever:
Mensagens (Atom)