Como parte da minha tentativa de manter os hábitos e deleites londrinos por aqui, estive ontem no Cabaret Paulista: uma noite de apresentações burlescas que fazem parte do Projeto Luxúria. O Luxúria é idealizado por Heitor Werneck, ex-estilista e atual empresário de entretenimento alternativo em São Paulo. Por aqui, ele é único, alternativo, esquisito. Por lá, ele seria mais um naquele submundo freak.
Andei lendo que ele de fato baseou o Luxúria no famoso Torture Garden de Londres, o projeto a cujas festas eu fui em Brixton. As festas do TG eram divididas em diversos ambientes, com apresentações burlescas em um lado, a discoteca em outro, e muitos divertimentos estranhos espalhados em diversas salas. A impressão que eu tive era de que o Cabaret Paulista era uma versão light do TG, apenas com as apresentações burlescas. Tanto é que o rígido "dresscode" imposto à clientela nem foi seguido à risca, e a maioria do pessoal apareceu de camisetinha polo e calça jeans. Mas justamente por ser uma versão light, achei que seria o adequado para começar, e como uma primeira experiência para levar minha Lexy.
O veredito? Ainda darei uma chance às festas completas do Luxúria, mas o Cabaret me deixou um tanto desapontado. O apresentador, uma drag queen rotunda, fez o que pode para animar a noite, mas sofreu um pouco com a falta de organização e a demora dos performers em se aprontarem. A maioria dos números parecia altamente improvisada, mas não de uma maneira boa, como eu tinha visto improvisarem por lá. É difícil explicar o que incomodou, mas não foram só coisas como o artista de shibari (técnica de amarração e imobilização com cordas) não conseguir desatar sua vítima no fim do número ou o cara da dupla de pole dancing escorregar e cair na cabeça da moça. Números corretamente ensaiados e apresentados como os da performer Mouse e do Equador, the Wizard ainda estão distantes de aparecerem por aqui (prova disso é que eu sequer lembro do nome de nenhum dos performers de ontem...). Mas isso não me incomodaria tanto mesmo se a galera de Londres errasse.
O que faltou foi um pouco mais de seriedade e de gente que acreditasse em si mesma. A questão do "dresscode" já mostrava que ninguém, nem mesmo a clientela, estava levando a coisa muito a sério (tá certo, isto é uma diversão, mas pra que a coisa funcione, precisa de um mínimo de cooperação da galera) e que todo mundo tinha um certo medo de ser julgado, de estar gordo, feio, ridículo. Muitos dos performers pareciam estar tentando imitar algum ídolo em vez de confiarem no próprio corpo e conhecerem seus movimentos. Quiçá a coisa ficasse menos feia (embora também menos pro meu gosto) se alguém aparecesse lá para mostrar uma performance burlesca que misturasse samba, mulatas, forró e outras brasilidades. Pelo menos os performers teriam mais jeito e mais veracidade.
Veracidade. Talvez seja essa a palavra. Em Londres, mesmo em um ambiente tão fantasioso quanto as boates de fetish, havia uma sensação de veracidade. Eles eram de fato aquilo. Por aqui, no meio da noite, quando o performer de tecido agitou os panos para tentar dar um desnecessário efeito dramático, me peguei pensando: "parecemos macacos imitando o homem branco europeu".
Os melhores da noite ficaram por conta de uma garota que, apesar de imitar a antiga "dança dos leques" e não fazer nada de tão original, sabia muito bem vestir e usar o corpo rechonchudo; e o cantor que entoava Elis Regina e Cazuza com uma bela voz (novamente nada de novo), mas sabia mover o corpo esguio e abusar dos trejeitos afeminados.
Ainda estou curioso a respeito da festa do Projeto Luxúria. Curioso pra saber se o pessoal de fato vai vestido como se deve, se os organizadores de fato barram quem não entra na brincadeira, se rolam tantas loucuras quanto as que rolavam em Londres, se há menos macacos e mais pessoas. Mas não vou com muitas esperanças. Como andei escrevendo por aqui, a experiência que eu tenho do meu próprio povo é bem diferente da imagem libidinosa que temos no exterior. E a experiência no Cabaret Paulista só fez confirmar essa percepção.
No entanto, não posso deixar de terminar o post com uma nota favorável para o organizador Heitor Werneck. Como de costume com essas pessoas, o visual intimidante e altamente expressivo esconde uma pessoa amabilíssima, muito solícita, aparentemente muito culta em relação a esse mundo, e que apenas trabalha arduamente para vê-lo florescer aqui, com a mesmaa força que tem por lá. Tomara que consiga.
Bits and pieces of my life that everyone ignores when I speak, but someone reads when I write.
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terça-feira, dezembro 20, 2011
quarta-feira, agosto 03, 2011
Existere
O cartaz era daquelas coisas que você só vê em faculdade de artes: "Procura-se 90 participantes nus para performance". Logo pensei no Spencer Tunick, uma experiência da qual eu sempre quis participar e nunca consegui. Ele até foi à minha cidade, mas essa foi outra daquelas tantas coisas que eu perdi quando estava jogando minha vida fora nas agências de publicidade.
O premiado trio de artistas JocJonJosh, composto pelo inglês Joc Marchington, o suiço Jonathan Brantschen e Joschi Herczeg da Eslováquia, era conhecido por instalações e performances que usavam o corpo humano (nem sempre nu) em composições que variam do simples até aquelas em que não se entende onde um corpo acaba e o outro começa.
Para este projeto, chamado Existere, a idéia era criar um empilhado de cerca de 60 a 70 corpos no espaço Testbed 1 em Battersea. Seria uma estrutura que lembrava uma casa cilíndrica, e que os artistas tinham pensado em produzir como resposta aos desastres no Japão, Austrália e Nova Zelândia, lembrando que não foram só casas que foram destruídas, mas vidas também.
A idéia era simples. A execução, nem tanto...
Eramos diversos voluntários de vários lugares da Inglaterra, e a coordenação para que todos viessem aos ensaios ficou a cargo de Jevgenija Ravcova, conhecida como Eugenie, que manteve todo mundo comunicado por e-mails. Os ensaios duraram um mês e foram coordenados pelo trio de artistas e a coreografa Hedva Eltanani. E havia muita coreografia nisso tudo. Desde o aquecimento rigoroso, a entrada dos voluntários, por entre a pequena platéia (diversas sessões foram organizadas para que a platéia sempre fosse em número menor do que os participantes), a montagem e a desmontagem da estrutura, em perfeito mutismo. Havia toda uma lógica desenvolvida durante meses de como cada corpo sustentaria o peso dos outros. E um profissionalismo excelente no trato com pessoas que estariam expondo sua nudez.
Havia gente de todos os jeitos. Senhores cinquentões enormes da classe trabalhadora inglesa, estudantes de arte de países diversos como eu, nudistas, modelos de arte (uma que eu já desenhara na faculdade), profissionais de dança, adeptos de ioga, negros, brancos, asiáticos, homens, mulheres, jovens, velhos, casais, pais e filhos (filhos adultos...). Em comum, todos eles tinham ótima aceitação de seus corpos (embora quase ninguém tivesse aquele corpo perfeito) e um desprezo pelas noções comuns de pudor. Aceitavam que se pudesse estar nu fora de um contexto sexual, embora alguns nunca o tivessem experimentado.
Uma coisa que percebi no entanto era que quase nenhum deles era muito peludo. Como se o biotipo europeu suprimisse isso (ou talvez eles lidassem com isso de alguma forma). Eu estava no auge da minha experimentação disso (um mês depois que Neba raspara minha cabeça e barba e ainda mantendo a calvície diariamente...) e por sorte havia removido boa parte dos meus pelos, podendo me passar por um deles sem problemas.
A cômica dignidade com a qual todo mundo se despiu no primeiro dia foi talvez o único momento de desconforto. Quando nos juntamos no primeiro ensaio para formar pela primeira vez a estrutura, já sabíamos o suficiente da coreografia para que a nudez não incomodasse, tendo ensaiado partes dela com roupas. Havia uma sensação de que as coisas estavam indo ao contrário: de que nos víamos pelados para depois nos conhecermos melhor. Mas isso funcionava muito bem, evitando aquele efeito da acquainted nudity, o pudor de ver uma pessoa conhecida nua.
Depois da última apresentação no dia 23 de Julho, fomos todos ao pub local. Tendo completado o projeto, a coisa toda perdia sua seriedade e nos permitíamos rir dos pequenos detalhes. Rimos imaginando os mortos e feridos do que teria acontecido se, naquele momento solene em que a estrutura está montada e ficamos inertes e calados por dois minutos, alguém peidasse... E fizemos chacota do único rapaz encabulado que não conseguiu evitar uma ereção no desmontar da estrutura.
Foi uma experiência maravilhosa. De aceitação do corpo, de compreensão do pudor, de arquitetura (!?).
O premiado trio de artistas JocJonJosh, composto pelo inglês Joc Marchington, o suiço Jonathan Brantschen e Joschi Herczeg da Eslováquia, era conhecido por instalações e performances que usavam o corpo humano (nem sempre nu) em composições que variam do simples até aquelas em que não se entende onde um corpo acaba e o outro começa.
Para este projeto, chamado Existere, a idéia era criar um empilhado de cerca de 60 a 70 corpos no espaço Testbed 1 em Battersea. Seria uma estrutura que lembrava uma casa cilíndrica, e que os artistas tinham pensado em produzir como resposta aos desastres no Japão, Austrália e Nova Zelândia, lembrando que não foram só casas que foram destruídas, mas vidas também.
A idéia era simples. A execução, nem tanto...
Eramos diversos voluntários de vários lugares da Inglaterra, e a coordenação para que todos viessem aos ensaios ficou a cargo de Jevgenija Ravcova, conhecida como Eugenie, que manteve todo mundo comunicado por e-mails. Os ensaios duraram um mês e foram coordenados pelo trio de artistas e a coreografa Hedva Eltanani. E havia muita coreografia nisso tudo. Desde o aquecimento rigoroso, a entrada dos voluntários, por entre a pequena platéia (diversas sessões foram organizadas para que a platéia sempre fosse em número menor do que os participantes), a montagem e a desmontagem da estrutura, em perfeito mutismo. Havia toda uma lógica desenvolvida durante meses de como cada corpo sustentaria o peso dos outros. E um profissionalismo excelente no trato com pessoas que estariam expondo sua nudez.
Havia gente de todos os jeitos. Senhores cinquentões enormes da classe trabalhadora inglesa, estudantes de arte de países diversos como eu, nudistas, modelos de arte (uma que eu já desenhara na faculdade), profissionais de dança, adeptos de ioga, negros, brancos, asiáticos, homens, mulheres, jovens, velhos, casais, pais e filhos (filhos adultos...). Em comum, todos eles tinham ótima aceitação de seus corpos (embora quase ninguém tivesse aquele corpo perfeito) e um desprezo pelas noções comuns de pudor. Aceitavam que se pudesse estar nu fora de um contexto sexual, embora alguns nunca o tivessem experimentado.
Uma coisa que percebi no entanto era que quase nenhum deles era muito peludo. Como se o biotipo europeu suprimisse isso (ou talvez eles lidassem com isso de alguma forma). Eu estava no auge da minha experimentação disso (um mês depois que Neba raspara minha cabeça e barba e ainda mantendo a calvície diariamente...) e por sorte havia removido boa parte dos meus pelos, podendo me passar por um deles sem problemas.
A cômica dignidade com a qual todo mundo se despiu no primeiro dia foi talvez o único momento de desconforto. Quando nos juntamos no primeiro ensaio para formar pela primeira vez a estrutura, já sabíamos o suficiente da coreografia para que a nudez não incomodasse, tendo ensaiado partes dela com roupas. Havia uma sensação de que as coisas estavam indo ao contrário: de que nos víamos pelados para depois nos conhecermos melhor. Mas isso funcionava muito bem, evitando aquele efeito da acquainted nudity, o pudor de ver uma pessoa conhecida nua.
Depois da última apresentação no dia 23 de Julho, fomos todos ao pub local. Tendo completado o projeto, a coisa toda perdia sua seriedade e nos permitíamos rir dos pequenos detalhes. Rimos imaginando os mortos e feridos do que teria acontecido se, naquele momento solene em que a estrutura está montada e ficamos inertes e calados por dois minutos, alguém peidasse... E fizemos chacota do único rapaz encabulado que não conseguiu evitar uma ereção no desmontar da estrutura.
Foi uma experiência maravilhosa. De aceitação do corpo, de compreensão do pudor, de arquitetura (!?).
sábado, julho 30, 2011
Dissertação de dia, balada de noite
O professor Cussans insistia que a minha dissertação não tinha uma pergunta acadêmica adequada. O que eu sempre detestei da academia era a problematização até das coisas mais simples. Eu já tinha apresentado três possíveis questões acadêmicas a serem desenvolvidas na minha dissertação e todas tinham problemas. "O que é o homem contemporâneo?" A pergunta já saia por terra na primeira referência pesquisada, que me revelou que, na era pós-moderna, qualquer conceito (como "homem", por exemplo) é fluido e maleável, incapaz de ser definido e dependente de uma miríade de conceitos que o rodeiam. "A prática de artistas masculinos adotarem alter egos femininos ainda se mantém relevante após as mudanças propostas pelo Feminismo?" Legal, mas eu teria que especificar o que é relevância e para quem a prática ainda é relevante. "Existe uma suposta ligação entre hábitos (práticas) e orientação sexual?" Bom, eu ainda teria que especificar quem faz a suposição e quais hábitos são esses em questão.
No começo de Julho, eu finalmente cheguei a uma questão aceitável. Eu ia pesquisar as áreas de Vauxhall e Soho, notoriamente conhecidas como redutos LGBT onde as delimitações entre os sexos (genders) eram mais imprecisas, atrás de exemplos de preconceito sistêmico (não partido da opinião de indivíduos) contra o sexo masculino.
A pesquisa juntou detalhes que eu percebera de canto de olho durante o ano inteiro e outras coisas que eu pensara logo no começo. Acabei pesquisando o exército por aqui. O serviço militar inglês é opcional (ao contrátio da nossa dita democracia livre americana) e aberto a ambos os sexos. No entanto, determinadas unidades, como as de infantaria, são apenas masculinas. Em uma curta sessão de bate-papo online com representantes do exército, perguntei a respeito dessas unidades. Um deles respondeu:
Embora o exército reconheça a capacidade de muitas mulheres em apresentar os requisitos necessários, o exército questiona o impacto de ter equipes mistas e como isso afetaria a sua coesão em combates de curta distância.
A resposta bem elaborada mostrava que o assunto já tinha sido discutido. E pra dizer a verdade, eu via o sentido em não criar unidades com ambos os sexos. No entanto, por que não criar unidades masculinas e femininas separadas? Por que só homens? Esse raciocínio perigava ser duplamente sexista: considerando mulheres inadequadas para esse tipo de combate por limitações físicas, ou considerando homens mais descartáveis e adequados para unidades com muitas baixas.
Outro assunto que eu pesquisei foram as escolas primárias inglêsas. Depois da entrevista com um colega do curso que fora professor primário, passei a me interessar pelo medo britânico do professor pedófilo. Apesar de ter encontrado casos noticiados de mulheres (grupos delas até) envolvidas em casos de abuso infantil, o maior medo ainda era em relação aos homens. As escolas das áreas pesquisadas mantinham um corpo docente com uma média de 10% a 15% de professores homens. Obviamente, nenhuma escola quis comentar a respeito.
Quando a noite caía nesses bairros, eu aproveitava para ir às baladas locais. Além do Escape, que eu já frequentava pelo karaokê e para tentar arranjar entrevistas com as drags e crossdressers, eu passei algumas noites na Royal Vauxhall Tavern, que apresentava artistas da chamada queer culture (a palavra "queer" normalmente tem conotações de homossexualismo, mas aqui é usada para qualquer prática sexual que desvie da dita "normalidade"). E aqui eu preciso admitir abertamente: descobri um novo e fascinante mundo.
Estamos entrando em águas perigosamente pessoais e controversas... Segurem-se.
Demorei muito a escrever sobre isso porque percebi ao longo dessa minha experiência o quanto muito disso aqui era diferente da experiência que eu tinha do meu país. E o quanto a fama do Brasil de país sexualizado onde tudo era permitido por causa do Carnaval esbarrava em uma realidade católica conservadora que voltava a reprimir tudo na Quarta-feira de cinzas. Que via todo queer como "viado" (no sentido mais pejorativo da palavra) e que pintava o Brasil como um país retrógrado em comparação com os "frios e tediosos" ingleses. Demorei a escrever, porque ainda não conseguia prever as reações de gente que lê estas páginas (que desde alguns relacionamentos passados passaram a ser escritas com mais zelo pelos sentimentos dos outros...). Mas também porque eu não conseguia definir onde eu me colocava nisso, e isso causava certa confusão que me impedia de escrever. O meu processo todo no
mestrado me fizera rever traumas de infância que tinham colocado em questão a minha orientação sexual e experiências adolescentes que confirmaram minha heterossexualidade em meio a tantas outras questões emocionais complicadas. Mas eu continuava discordando da masculinidade brasileira que eu experimentei. Achava-a entediante, mentirosa e muito, muito conservadora. Além disso, percebi que eu fora ensinado a ter vergonha da minha criatividade sexual, a considerar todos os desvios do padrão católico conservador como "perversão", algo a ser reprimido ou contado em voz baixa e embaraçada.
Mas então havia Londres. Onde o coordenador do curso de mestrado de uma faculdade de renome apresentava-se como drag sem medo de ser feliz. Onde projetos como o Torture Garden organizavam festas de fetiche comentadas em artigos nos jornais gratúitos do metrô como qualquer balada normal. Onde as práticas de BDSM ("Bondage, Domination, Sadism, Masochism") eram vistas como opções de uma vida sexual sadia e criativa, tão naturais quanto preferir ruivas a morenas. Onde apresentadoras burlescas tinha um certo status decadente de celebridades.
Aqui, longe de tudo e de todos que me conheciam antes, eu passei a me permitir mais. Passei a ir nas apresentações burlescas em Vauxhall, nas festas fetichistas em Brixton, nos bares drags de Soho. Quer saber? Estar nesses lugares fez saltar aos olhos o quanto as baladas na minha cidade eram uma mentira. As discotecas comuns eram palco de um jogo de aparência na cultura brasileira, onde eu tinha a impressão de que todo mundo dizia estar lá pra "dançar, beber e se divertir", mas estava lá de fato para pegar alguém. Eram lugares de um erotismo velado, onde as roupas mantinham a decência mas as atitudes não. Aqui nesses lugares de Londres ao menos a coisa era menos hipócrita. As pessoas estavam lá pelo erotismo sim, e não escondiam isso.
Embora uma parte de mim ainda tivesse medo desses lugares, pela educação católica que eu recebi , o tanto que eu me sentia à vontade neles me fazia querer ir mais e mais a fundo. O medo era baseado em todas aquelas premissas estúpidas que alimentam a homofobia no meu país: o medo de que me meter com essa gente me tornaria homossexual, o medo de alguém me pegar à força e me forçar a algo que eu não queria, um medo de contaminação. O sentir-me à vontade era baseado em um mar de novidades que eu experimentava em cada lugar: o "não é não" na porta da balada em Brixton que era respeitado como um mandamento religioso, o quão bem eu me sentia nas roupas incomuns que eu podia usar em Vauxhall e o quanto eu parecia atrair a atenção dos rapazes em Soho sem fazer qualquer esforço. Esse último detalhe era curiosíssimo, porque eu sempre invejara a capacidade feminina de simplesmente estar na balada e atraír interessados enquanto que nós homens tínhamos que correr atrás. E embora eu não me interessasse por rapazes, esse interesse deles por mim fazia um bem incomparável à auto-estima, descontadas as reações homofóbicas.
No começo de Julho, eu finalmente cheguei a uma questão aceitável. Eu ia pesquisar as áreas de Vauxhall e Soho, notoriamente conhecidas como redutos LGBT onde as delimitações entre os sexos (genders) eram mais imprecisas, atrás de exemplos de preconceito sistêmico (não partido da opinião de indivíduos) contra o sexo masculino.
A pesquisa juntou detalhes que eu percebera de canto de olho durante o ano inteiro e outras coisas que eu pensara logo no começo. Acabei pesquisando o exército por aqui. O serviço militar inglês é opcional (ao contrátio da nossa dita democracia livre americana) e aberto a ambos os sexos. No entanto, determinadas unidades, como as de infantaria, são apenas masculinas. Em uma curta sessão de bate-papo online com representantes do exército, perguntei a respeito dessas unidades. Um deles respondeu:
Embora o exército reconheça a capacidade de muitas mulheres em apresentar os requisitos necessários, o exército questiona o impacto de ter equipes mistas e como isso afetaria a sua coesão em combates de curta distância.
A resposta bem elaborada mostrava que o assunto já tinha sido discutido. E pra dizer a verdade, eu via o sentido em não criar unidades com ambos os sexos. No entanto, por que não criar unidades masculinas e femininas separadas? Por que só homens? Esse raciocínio perigava ser duplamente sexista: considerando mulheres inadequadas para esse tipo de combate por limitações físicas, ou considerando homens mais descartáveis e adequados para unidades com muitas baixas.
Outro assunto que eu pesquisei foram as escolas primárias inglêsas. Depois da entrevista com um colega do curso que fora professor primário, passei a me interessar pelo medo britânico do professor pedófilo. Apesar de ter encontrado casos noticiados de mulheres (grupos delas até) envolvidas em casos de abuso infantil, o maior medo ainda era em relação aos homens. As escolas das áreas pesquisadas mantinham um corpo docente com uma média de 10% a 15% de professores homens. Obviamente, nenhuma escola quis comentar a respeito.
Quando a noite caía nesses bairros, eu aproveitava para ir às baladas locais. Além do Escape, que eu já frequentava pelo karaokê e para tentar arranjar entrevistas com as drags e crossdressers, eu passei algumas noites na Royal Vauxhall Tavern, que apresentava artistas da chamada queer culture (a palavra "queer" normalmente tem conotações de homossexualismo, mas aqui é usada para qualquer prática sexual que desvie da dita "normalidade"). E aqui eu preciso admitir abertamente: descobri um novo e fascinante mundo.
Estamos entrando em águas perigosamente pessoais e controversas... Segurem-se.
Demorei muito a escrever sobre isso porque percebi ao longo dessa minha experiência o quanto muito disso aqui era diferente da experiência que eu tinha do meu país. E o quanto a fama do Brasil de país sexualizado onde tudo era permitido por causa do Carnaval esbarrava em uma realidade católica conservadora que voltava a reprimir tudo na Quarta-feira de cinzas. Que via todo queer como "viado" (no sentido mais pejorativo da palavra) e que pintava o Brasil como um país retrógrado em comparação com os "frios e tediosos" ingleses. Demorei a escrever, porque ainda não conseguia prever as reações de gente que lê estas páginas (que desde alguns relacionamentos passados passaram a ser escritas com mais zelo pelos sentimentos dos outros...). Mas também porque eu não conseguia definir onde eu me colocava nisso, e isso causava certa confusão que me impedia de escrever. O meu processo todo no
mestrado me fizera rever traumas de infância que tinham colocado em questão a minha orientação sexual e experiências adolescentes que confirmaram minha heterossexualidade em meio a tantas outras questões emocionais complicadas. Mas eu continuava discordando da masculinidade brasileira que eu experimentei. Achava-a entediante, mentirosa e muito, muito conservadora. Além disso, percebi que eu fora ensinado a ter vergonha da minha criatividade sexual, a considerar todos os desvios do padrão católico conservador como "perversão", algo a ser reprimido ou contado em voz baixa e embaraçada.
Mas então havia Londres. Onde o coordenador do curso de mestrado de uma faculdade de renome apresentava-se como drag sem medo de ser feliz. Onde projetos como o Torture Garden organizavam festas de fetiche comentadas em artigos nos jornais gratúitos do metrô como qualquer balada normal. Onde as práticas de BDSM ("Bondage, Domination, Sadism, Masochism") eram vistas como opções de uma vida sexual sadia e criativa, tão naturais quanto preferir ruivas a morenas. Onde apresentadoras burlescas tinha um certo status decadente de celebridades.
Aqui, longe de tudo e de todos que me conheciam antes, eu passei a me permitir mais. Passei a ir nas apresentações burlescas em Vauxhall, nas festas fetichistas em Brixton, nos bares drags de Soho. Quer saber? Estar nesses lugares fez saltar aos olhos o quanto as baladas na minha cidade eram uma mentira. As discotecas comuns eram palco de um jogo de aparência na cultura brasileira, onde eu tinha a impressão de que todo mundo dizia estar lá pra "dançar, beber e se divertir", mas estava lá de fato para pegar alguém. Eram lugares de um erotismo velado, onde as roupas mantinham a decência mas as atitudes não. Aqui nesses lugares de Londres ao menos a coisa era menos hipócrita. As pessoas estavam lá pelo erotismo sim, e não escondiam isso.
Embora uma parte de mim ainda tivesse medo desses lugares, pela educação católica que eu recebi , o tanto que eu me sentia à vontade neles me fazia querer ir mais e mais a fundo. O medo era baseado em todas aquelas premissas estúpidas que alimentam a homofobia no meu país: o medo de que me meter com essa gente me tornaria homossexual, o medo de alguém me pegar à força e me forçar a algo que eu não queria, um medo de contaminação. O sentir-me à vontade era baseado em um mar de novidades que eu experimentava em cada lugar: o "não é não" na porta da balada em Brixton que era respeitado como um mandamento religioso, o quão bem eu me sentia nas roupas incomuns que eu podia usar em Vauxhall e o quanto eu parecia atrair a atenção dos rapazes em Soho sem fazer qualquer esforço. Esse último detalhe era curiosíssimo, porque eu sempre invejara a capacidade feminina de simplesmente estar na balada e atraír interessados enquanto que nós homens tínhamos que correr atrás. E embora eu não me interessasse por rapazes, esse interesse deles por mim fazia um bem incomparável à auto-estima, descontadas as reações homofóbicas.
sábado, janeiro 15, 2011
Apesar de destruir infraestrutura e piorar a vida de muita gente no dia, achei essa idéia muito bonita. No verão de 1996, ativistas do movimento Reclaim the Streets (RTS), que tinham como objetivo fazer com que as ruas fossem para as pessoas e a vida em sociedade em vez dos carros e o individualismo, invadiram e lotaram o elevado M41 em Londres para um dia inteiro de rave. Perto dos carros de som, mulheres em pernas de pau com saias estruturadas por arame acompanhavam a passeata bem acima da altura das pessoas [1]. O som da música alta encobria outro som que podia ser ouvido por quem chegasse mais perto dessas mulheres. Debaixo das saias, ativistas com britadeiras furavam buracos no asfalto para plantar mudas de árvores [2]. Quando essa mulheres enormes andavam vagarosamente, elas deixava um rastro de vegetação no cinza do pavimento.
Poesia pura.
Poesia pura.
quinta-feira, janeiro 13, 2011
The credit game
Conversado com um de meus colegas para tentar redigir uma proposta legal para o Interim Show que pudesse potencialmente agradar a gregos e troianos, fomo interrompidos por uma visita do professor Cussans. Ele conversou com meu colega sobre assuntos relacionados à militância de âmbos no movimento ArtsAgainstCuts, e que levou meu colega a me sugerir a idéia para o Interim Show.
Em meio às conversas de ambos e relatos dos teach-ins que eles tinham frequentado, perguntamos ao professor porque ele não estava tomando crédito por determinadas ações que ele tinha organizado ou sendo citado nos jornais a respeito. John Cussans posicionou-se firmemente a favor do anonimato. Disse que boas ações deviam ser um bem social, não uma oportunidade para ganho pessoal. Segundo ele, quando um jornalista o contactou por telefone durante um dos teach-ins no Tate Britain, ele percebeu que o rapaz estava atrás do que ele chamava de "credit game", onde o jornalista ganhava crédito por ter dado a notícia primeiro, enquanto possibilitava crédito para o professor ao indicá-lo como um dos organizadores do evento. Todo mundo saía ganhando, mas a coisa continuava sendo bem individualista. O professor estava cansado desse jogo. Cansara do que ele chamava de "CVism", a insistente necessidade por engordar o currículo em vez de fazer o que é certo. Mas principalmente, estava cansado do esforço de engordar a conta bancária enquanto podia estar ajudando a comunidade de uma forma mais ampla.
Eu ouvia em silêncio. A proposta de excluir-se desse sistema tinha certas incoerências inegáveis e certos aspectos fascinantes. Em primeiro lugar, o que fazia ele como marxista e defensor do anonimato sendo o professor mais relevante do mestrado em um curso consideravelmente caro? Levantei a questão do equilíbrio. Porque dificilmente alguém conseguia ser totalmente de esquerda ou totalmente de direita (Lula que o diga...). Mas acabava sendo mais uma questão do quão moral eram as suas decisões. Ganhar o dinheiro necessário sem prejudicar ninguém, sendo verdadeiro consigo mesmo.
A atitude de evitar ser identificado em relação a determinada coisa dava uma falsa impressão de segredo. E quando havia segredo demais, a paranóia começava: quem é responsável por isso? Porque ele não quer se mostrar? Ele tem algo a esconder? Ele está colaborando com "o inimigo"? E a idéia defendida pelo professor era que sistemas que mantinham sigilo de informação eram passíveis de serem atacados, de forma muito similar ao que Julian Assange e o WikiLeaks vinha fazendo com a guerra no Iraque. Mas o professor não queria manter segredo. Apenas não queria levar crédito pelos eventos ou ser citado.
As idéias do professor me trouxeram à velha questão: como dá pra se posicionar contra as "ideologias opressivas e antediluvianas do capital" e ainda assim conseguir pagar as contas, comprar comida, ter algum conforto na vida? Como chegar nesse equilíbrio moral que eu mencionei?
No caso do professor, a resposta era simples: como professor acadêmico, ele estava ensinando, fazendo algo bom e produtivo (às vezes até de graça, como nos teach-ins), sem deixar de pagar as contas. Se fosse pra ser ainda mais moralmente correto, ele deveria fazer isso em uma escola pública, por um salário menor. Mas cada um estabelece seu limite moral.
Quanto a mim, eu andava pensando no assunto. Juntando isso à discussão do tutorial de grupo, comecei a questionar se de fato eu PRECISAVA ser vendável e procurar ter algum ganho financeiro com a minha arte. Afinal, eu estava pagando as contas muito bem durante estes últimos dois anos sem precisar bajular galerias ou entrar para o credit game. E mais: estava fazendo isso de forma construtiva para a sociedade, em vez de alimentar o lado mais sinistro do capitalismo através da propaganda. E estava adorando a sensação!
Nisso, eu comecei a pensar sobre meu irmão. Ele, que apesar de estar anos à frente no que se refere a essa mentalidade do equilíbrio moral, às vezes passava aos nossos pais a idéia de que não estava tirando o sustento financeiro suficiente para ele próprio. Se vivessemos em uma sociedade onde pudessemos depender uns dos outros para as necessidades básicas de comida, moradia e etc., talvez ele estaria corretíssimo. Mas no nosso país, infelizmente o tal equilíbrio moral ainda tinha que pender um pouco mais para a direita.
Em meio às conversas de ambos e relatos dos teach-ins que eles tinham frequentado, perguntamos ao professor porque ele não estava tomando crédito por determinadas ações que ele tinha organizado ou sendo citado nos jornais a respeito. John Cussans posicionou-se firmemente a favor do anonimato. Disse que boas ações deviam ser um bem social, não uma oportunidade para ganho pessoal. Segundo ele, quando um jornalista o contactou por telefone durante um dos teach-ins no Tate Britain, ele percebeu que o rapaz estava atrás do que ele chamava de "credit game", onde o jornalista ganhava crédito por ter dado a notícia primeiro, enquanto possibilitava crédito para o professor ao indicá-lo como um dos organizadores do evento. Todo mundo saía ganhando, mas a coisa continuava sendo bem individualista. O professor estava cansado desse jogo. Cansara do que ele chamava de "CVism", a insistente necessidade por engordar o currículo em vez de fazer o que é certo. Mas principalmente, estava cansado do esforço de engordar a conta bancária enquanto podia estar ajudando a comunidade de uma forma mais ampla.
Eu ouvia em silêncio. A proposta de excluir-se desse sistema tinha certas incoerências inegáveis e certos aspectos fascinantes. Em primeiro lugar, o que fazia ele como marxista e defensor do anonimato sendo o professor mais relevante do mestrado em um curso consideravelmente caro? Levantei a questão do equilíbrio. Porque dificilmente alguém conseguia ser totalmente de esquerda ou totalmente de direita (Lula que o diga...). Mas acabava sendo mais uma questão do quão moral eram as suas decisões. Ganhar o dinheiro necessário sem prejudicar ninguém, sendo verdadeiro consigo mesmo.
A atitude de evitar ser identificado em relação a determinada coisa dava uma falsa impressão de segredo. E quando havia segredo demais, a paranóia começava: quem é responsável por isso? Porque ele não quer se mostrar? Ele tem algo a esconder? Ele está colaborando com "o inimigo"? E a idéia defendida pelo professor era que sistemas que mantinham sigilo de informação eram passíveis de serem atacados, de forma muito similar ao que Julian Assange e o WikiLeaks vinha fazendo com a guerra no Iraque. Mas o professor não queria manter segredo. Apenas não queria levar crédito pelos eventos ou ser citado.
As idéias do professor me trouxeram à velha questão: como dá pra se posicionar contra as "ideologias opressivas e antediluvianas do capital" e ainda assim conseguir pagar as contas, comprar comida, ter algum conforto na vida? Como chegar nesse equilíbrio moral que eu mencionei?
No caso do professor, a resposta era simples: como professor acadêmico, ele estava ensinando, fazendo algo bom e produtivo (às vezes até de graça, como nos teach-ins), sem deixar de pagar as contas. Se fosse pra ser ainda mais moralmente correto, ele deveria fazer isso em uma escola pública, por um salário menor. Mas cada um estabelece seu limite moral.
Quanto a mim, eu andava pensando no assunto. Juntando isso à discussão do tutorial de grupo, comecei a questionar se de fato eu PRECISAVA ser vendável e procurar ter algum ganho financeiro com a minha arte. Afinal, eu estava pagando as contas muito bem durante estes últimos dois anos sem precisar bajular galerias ou entrar para o credit game. E mais: estava fazendo isso de forma construtiva para a sociedade, em vez de alimentar o lado mais sinistro do capitalismo através da propaganda. E estava adorando a sensação!
Nisso, eu comecei a pensar sobre meu irmão. Ele, que apesar de estar anos à frente no que se refere a essa mentalidade do equilíbrio moral, às vezes passava aos nossos pais a idéia de que não estava tirando o sustento financeiro suficiente para ele próprio. Se vivessemos em uma sociedade onde pudessemos depender uns dos outros para as necessidades básicas de comida, moradia e etc., talvez ele estaria corretíssimo. Mas no nosso país, infelizmente o tal equilíbrio moral ainda tinha que pender um pouco mais para a direita.
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