Não tenho mais escrito por aqui, e acho que o blog está morrendo mesmo. Mas neste ato de morrer, tornou-se também o lugar onde eu venho deixar minhas catarses, meus pontos finais, as soluções dos traumas e conflitos que marcaram meus vinte anos.
Coisas como o pensamento de hoje de tarde.
Por algum motivo, me peguei pensando sobre meus trabalhos dos últimos anos da faculdade de artes. E nessa corrente de pensamento, na série final de retratos que foi meu trabalho de graduação. E sempre que lembro dele, lembro da relação complexa que eu tinha com minha orientadora, Dora Longo Bahia. Como ela parecia escarnecer o fato de que eu estava defendendo como trabalho de graduação uma simples série de retratos. Mais do que isso, escarnecia o fato de eu, um homem, estar pintando retratos suspirosos de mulheres pelas quais eu tinha alguma fixação. Já naquela época, e sem ter estudado os assuntos que levariam ao meu mestrado, eu já conseguia entender que o escárnio dela representava mais do que aquilo que estava na superfície da situação. Era uma mulher forte, independente e contemporânea (leia-se após o estabelecimento dos ideais feministas como parte do status quo), zombando de uma atitude minha que era tingida de um machismo antigo, já bem capenga e moribundo, que nem percebia o quão patriarcal estava sendo. A atitude do pintor homem objetificando mulheres como musas de suas pinturas. Eternizando uma beleza que era apenas beleza, sem conteúdo. Hoje revejo minha série de retratos e tenho pruridos ideológicos em relação ao que eu fiz naquela época.
Mas o pensamento que me ocorreu esta tarde era mais específico do que isso.
Na época da minha banca de graduação, Dora lançou uma pergunta que me assombrou até o dia da banca. Eu morria de medo que meus avaliadores a fizessem porque, segundo Dora, minha resposta não era satisfatória:
"Se a série de retratos (em pintura) é produzida a partir da cópia fiel e realista dos retratos fotográficos destas mulheres, qual é o sentido de se fazer pintura? Por que não simplesmente apresentar as fotos?"
Hoje, tendo compreendido um quê sobre a verdade na arte, compreendi melhor a pergunta. As fotos tinham uma qualidade em si muito mais próxima destas mulheres. Eram o primeiro ato apaixonado de captar a beleza delas. A pintura era um fac-simile de um fac-simile. Perdia força. E tendo compreendido um quê também sobre meu próprio ato de obsessão sobre estas mulheres, compreendi também melhor a resposta. Uma resposta que, por outro lado, validaria esta cópia da cópia como um ato técnico que também tinha seu valor. Quase 11 anos depois da banca de graduação, eu acho que cheguei no que eu deveria ter respondido para minha orientadora.
Dora, o que eu faço é captar, me apropriar da beleza destas mulheres. Desconsideremos (como eu desconsiderava na época) todo o assunto da teoria de gênero (Feminismo, Masculismo, Patriarcado, Big Macho Painters...) que está implícito neste ato. Falemos apenas do ato em si. É um ato obsessivo, de moleque apaixonado que não sabe falar com garotas. De alguém que está procurando, ciente disso, um jeito de sublimar tesão não correspondido. Como ato de fruição estética, eu admito que há mais valor na minha experiência enquanto estou pintando os retratos, do que na experiência de quem vê o retrato pintado e não passa pelo processo. É arte para mim mesmo. Masturbação mesmo.
Neste ato, o mero fotografar da menina é um ato paralelo a uma ficada descompromissada de uma noite. É o usufruto momentâneo e raso da beleza desta garota pelo visor de uma máquina, congelando a imagem com o apertar de um botão, sem prestar atenção em muitos detalhes. Do ponto de vista do meu relacionamento com esta imagem (não com a menina, tenha isto em mente), é um relacionamento superficial, fugaz. Eu terei uma compreensão geral dela, das cores, da gestalt. Ela, a menina (e a imagem também, suponho...), merece mais do que isso.
Pintar o retrato da foto é um ato de obsessão e respeito maior. É paralelo a um namoro, romance de compromisso. É o usufruto demorado, estudado e cuidadoso de cada curva, cada tom acertado de cor naquela luz e naquela pose específica. Um errar e corrigir frequente, como o que fazemos em relacionamentos sérios ao tentar nos adequar ao parceiro. Na minha visão, é um respeito muito maior. Chame-o de objetificação muito maior, de obsessão doentia, chame-o de inocência ou ingenuidade. Não me importo: eu estava pintando para meu próprio deleite, como disse.
Você também pinta a partir de fotografias, né? Mas o que eu vi foram pinturas sem esta paixão estetico-erótica minha. Técnica apuradíssima na cópia realista das imagens, mas sem tesão. Se eu fosse novamente traçar paralelos, diria que é mais como uma transa em uma festa de fetiche. E eu conheço festas de fetiche... O deleite de fazer muito mais do que uma ficada descompromissada (muito mais do que uma fotografia), porém ainda menos do que um namoro firme. Não tenho nada contra. Aliás, até acho instigante. Mas, embora menos obsessivo, também me parece menos respeitoso.
Then again, você não me parecia alguém de namoros firmes.
[Claro que eu não poderia ter dito estas coisas em uma banca de graduação. Elas ficam apenas aqui, como a catarse que eu precisava em relação à Dora e àquela banca. E claro que, tendo estudado teoria de gênero, toda aquela série ganhou nuanças muito mais complexas e desagradáveis para mim, como mencionei.]