quinta-feira, setembro 29, 2011

A quem se interessar, estou escrevendo sobre os meses passados para documentar esse fim de processo. Vejam lá embaixo entre o fim de Julho e começo de Agosto porque eu vou ir colocando relatos sobre o turbulento mês de Julho por lá.

E em breve, vídeos da montagem da exposição final!

quinta-feira, setembro 22, 2011

Amargas lições finais

As notas saíram hoje.
A maioria das pessoas dizia não se importar, mas no momento em que recebia o envelope, hesitava ao abrir, sentindo o coração disparar. Era afinal o resultado de um ano inteiro.
As minhas reações foram diferentes. Eu também dizia não me importar. E continuei não me importando, enquanto recebia e abria o envelope. Lá estava o veredito: "PASS".

Eu passei. Que bom.

Mas essa frieza toda foi mudando quando continuei lendo os documentos. Havia três qualificações possíveis: "PASS", "MERIT" e "DISTINCTION", sendo a última a mais alta. Eu havia passado simplesmente. Meu coração ficou pequeno.
A verdade é que todo mundo passa. Até aquela aluna que deu as caras na faculdade um punhado de vezes e fez um trabalho pífio na exposição final passou. Mas eu achava que tinha feito tudo certo dessa vez, que tinha gerado influência com minha participação no catálogo da turma, tinha demonstrado crescimento pessoal no tanto que a minha mentalidade e até aparência mudaram ao longo do ano, tinha mostrado serviço fazendo peças que chamaram atenção na exposição final e tinha desenvolvido uma pesquisa acadêmica sólida com referências atuais.
Mais do que isso, eu achei que tivesse feito toda a política necessária. Nem tive tempo de comentar aqui, mas na semana antes da exposição final abrir, estive entre os quatro finalistas do prêmio GAM, um conceituado prêmio dado os alunos que demonstraram maior desenvolvimento durante o ano. Tenho consciência de que essa indicação veio devido ao bom relacionamento que cultivei com Brian Chalkley, nosso líder do curso, que escoltou os juízes do prêmio pela faculdade e com certeza teve grande influência na escolha do ganhador (que no final das contas, não fui eu...).
Eu achava que depois de tudo isso, eu merecia ao menos o "MERIT"...

Na carreira de artes, passar com um "PASS" ou mesmo o "DISTINCTION" não quer dizer muita coisa para efeitos de carreira. Não é algo que faça muita diferença no currículo e há até uma lei em Londres que proíbe empregadores de investigar notas, podendo apenas saber se o potencial empregado passou ou não no curso que ele diz ter feito. Mas já faz tempo que a minha questão aqui deixou de ser uma questão de carreira. Esse "PASS" é uma coisa pessoal pra mim. Fez com que eu me sentisse rebaixado pessoalmente. Insuficiente.

Como sempre, eu não pude evitar as comparações. Soube de três alunos que ganharam "DISTINCTION". Todos britânicos. Todos fazendo um tipo de arte sem ideologia prática, um fazer pelo fazer. Eu até gostei de um deles, pelo humor. Mas a questão é que deu pra entender o padrão. E deu pra entender como eu estava fora dele.
Soube ainda da colega da República Tcheca que ganhou o GAM. E de rumores de que esses prêmios eram frequentemente dados a alunos do leste europeu por algum motivo. Rumor corroborado pela colega polonesa que tinha ganhado o prêmio de escultura da CASS Arts no ano passado.

No fim das contas, quais foram as lições finais aqui? Eu aprendi o tipo de arte que é levada a sério, e que é bem diferente do tipo de coisa que eu faço. No entanto, se eu adaptasse minha arte pra ser adequada a isso, eu seria considerado falso, vendido, prostituído. Eu aprendi que toda a política de que eu sou capaz me leva longe, mas não até o fim. Para ir até o fim e ganhar prêmios, oportunidades de carreira e etc, eu precisaria ter o tipo de arte levada a sério, aquela que eu não tenho. Aprendi ainda que muita coisa depende de variáveis sobre as quais eu não tenho o menor controle ou escolha (como ser do leste europeu, por exemplo).

Eu termino o ano em Chelsea sem ganhar nenhum prêmio, sem ser aceito em nenhuma exposição com curadoria, sem ter vendido nada e com um "PASS". Sinto que paguei por um diploma e nada mais.
Não foi um ano inútil. Eu descobri muito sobre mim e a masculinidade que eu herdei da cultura brasileira, fiz trabalhos dos quais eu gostei muito e que muita gente veio elogiar. Mas eu sempre sobro com essa sensação de que eu sou ótimo para entreter meus amigos e familiares (não me entendam mal, eles são tudo pra mim), mas insuficiente para qualquer instituição de arte. E só isso não faz carreira.

Tenho pensado no futuro, na volta para o meu país, com igual pessimismo. Eu também não sou ninguém lá, não estou fazendo a arte que tá na moda por lá e sei menos ainda de como fazer a política necessária para a carreira naquele contexto. Há uma parte de mim que quer simplesmente não ter que se importar mais com isso, aposentar a arte como carreira e resolver o resto da vida com a carreira de idiomas que tem me respeitado e recompensado mais. Outra parte quer dar um tempo nas artes e tentar a literatura por um ano. E uma terceira parte quer experimentar fazer esse outro tipo de arte que é levada a sério, embora EU não consiga levá-la a sério...

quarta-feira, setembro 21, 2011

London Odds and Ends

Eu sei, eu prometi novidades por aqui, mas até agora nada... Uma mistura de necessidade física de horas de sono, oportunidades de tirar o atraso da minha conta bancária com traduções e textos sobre assuntos delicados que eu ainda preciso redigir direito me fizeram atrasar o que já está insuportavelmente atrasado. Mas eu tô chegando... Calma!

Enquanto isso, mais alguns odds and ends sobre Londres e os ingleses.

• Um colega do País de Gales, que já esteve na minha terra, comentou outro dia que eu me vestia como um verdadeiro brasileiro. Como assim? "Tênis preto com meia branca", ele respondeu. Super normal, certo? Mas foi aí que percebi que os ingleses usavam meias de uma miríade de cores, mas o branco era realmente meio raro. Se ele não tivesse comentado, não teria percebido...

• Esse mesmo colega comentou sobre a comida brasileira, iguarías como a coxinha e o brigadeiro (er... peraí, tem algo errado...). Mas acima de tudo, ele comentou maravilhado sobre as churrascarias. Eu tinha falado por aqui da coisa meio estranha para os Europeus de comer algo tão pesado como arroz e feijão todos os dias. Mas não tinha me dado conta da coisa esquisita que deve ser pra eles a churrascaria. Um monte de garçom desfilando com uns nacos de carne enormes por aí e oferecendo pra todas as mesas! Eles estão acostumados a se concentrarem em um tipo de carne por refeição, a prestar atenção no preparo, no tempero, na apresentação. Esse lance de comer um pouco de cada tipo confunde eles demais...

• E o outro assunto que fez muita gente levantar as sobrancelhas por aqui: eles até agora não entendem como é que o governo pode OBRIGAR todo mundo a votar. "Isso acaba com o propósito da democracia", eu ouvi de um deles. De fato, vira uma obrigação quase ditatorial. Eu nunca cheguei a perguntar como a coisa rola na Ásia, mas entre América do Norte e Europa, todo mundo continua achando isso um absurdo.

sexta-feira, setembro 09, 2011

Endgame - the Final Show

Our final show closed to the public yesterday. It was a success for the critics, but a marketing failure. I didn`t mind. I have become clearly aware that my work here turned into more of a personal journey than the career strategy it started out as.

Setting up the final show, I believe, was the final and most revealing experience. I chose two pieces for it: the Male Varnish video and an instalation for the college’s parade ground that would be a gigantic version of one of my phallics done back in November.

I chose Male Varnish mostly because of eveyone’s opinions. Most people considered it the best video I had, the best performance. I agreed. It was brave, but also sent a somewhat clear message. It had been executed apropriately, with good equipment and editing. I wanted to project the video onto my wall space, but couldn’t find a projector and settled for a screen. This posed a problem, because I was quite afraid of having that screen stolen throughout the show. So I decided to build an extension of the wall with the screen built in. I also wanted to write some of the things about my teenage traumas that I had been exploring in text on the wall.
It was a wonderful, organic experience. It changed as I progressed. I became very interested in the manliness of the carpentry required for the task, in the haphazard results of someone who had never done that before (and wasn’t sure how to be a carpenter or a man). I was also interested in the fact that the timbers I was using for structure had belonged to a student who exhibited last year in the same space I was exhibiting now. As a result, the boring text-ladden wall I first had in mind was cut in places to reveal the structure behind it and the text was scrapped, giving way to a shinny, high gloss surface that mimicked the gloss of nail varnish, establishing another connection to the video displayed on the built-in screen. I even added tiny buttons on the wall that went right through to push the buttons on the screen.

The other piece, which I adequately named Big Phallic, was a ten meter high fabric banner that would hang from one of the towers in one of the buildings. Straight away, it put me through very feminine issues of selecting fabric, learning how to use a sewing machine to prepare it, sewing parts by hand and just keeping all that fabric neat and clean. But other parts were very masculine. The two days spent elbow-deep in acetone to transfer the image of a gigantic fountain pen onto the fabric, the phallic nature of the challenge of doing something so big and the complex rope system that would keep the piece in place were all things that I contemplated as very nice conflations with the feminine side.
It wasn’t all easy. once tied to the building, the fabric piece acted as a sail, billowing up with the wind and harnessing tremendous pulling power. It was so strong, that on a particular day, it lifted two metal railings tied to its base to keep it down. They flew some two meters into the air and almost smashed nearby windows before being contained by college staff. I reviewed my roping system and things wend smoothly after that. It was actually quite fun to see a system like that working.

There was a third piece that was only visible in the opening night. I was wearing it. It was a skirt designed in collaboration with costume designer Anastasios Kleisias. It mimicked the same fabrics as my shirt, vest and velvet jacket I was wearing on top. Despite it being a skirt, we had managed a certain might to it. I felt powerful parading around the college in it. Closer to that stereotype of the vampire.

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Nossa exposição final fechou para o público ontem. Foi um sucesso de crítica, mas um fracasso de mercado. Não me importei. Tornei-me muito ciente de que meu trabalho por aqui virou mais uma jornada pessoal do que a estratégia de carreira que era no começo.

Montar a exposição final, acredito, foi a última e mais reveladora experiência. Eu escolhi duas obras para isso: o vídeo Male Varnish e uma instalação para o pátio da faculdade que seria uma versão gigantesca de um dos meus phallics feitos em Novembro.

Eu escolhi o Male Varnish principalmente por causa das opiniões da turma. A maioria considerou-o o melhor vídeo que eu tenho, a melhor performance. Concordo. Ela é corajosa, mas também tem uma mensagem clara. Ela foi executada direito, com bom equipamento e edição de vídeo. Eu quis projetar o vídeo na parede do meu espaço, mas não consegui encontrar um projetor e me contentei com uma tela. Isto gerou um problema, porque eu tinha receio de que ela fosse roubada no meio da exposição. Então eu decidi montar uma extensão da parede com a tela embutida. Eu também queria escrever algumas das coisas sobre traumas adolescentes que eu tinha explorado em texto na parede.
Foi uma experiência maravilhosa e bem orgânica. Ela mudou à medida que avançou. Fiquei muito interessado no caráter masculino da carpintaria necessária para a obra, nos resultados toscos de alguém que nunca havia feito isso antes (e não tinha muita certeza de como ser um carpinteiro ou um homem adulto). Também me interessei pelo fato dis sarrafos que eu estava usando para a estrutura terem pertencido a um estudante que expôs no ano passado no mesmo espaço em que eu estava expondo neste ano. Como resultado, a parede maçante e cheia de texto que eu tinha em mente no começo teve alguns pedaços cortados para revelar a estrutura atrás dela e desisti do texto, que deu lugar a uma superfície brilhante que imitava o brilho do esmalte de unha, estabelecendo outra conexão com o vídeo mostrado na tela embutida. Eu até consegui fazer uns pequenos botões na parede que atravessavam até o outro lado para controlar os botões da tela.

A outra obra, que eu adequadamente chamei de Big Phallic, era um banner em tecido de dez metros de altura que ficaria pendurado de uma das torres em um dos prédios. Logo no começo, ele me fez passar por práticas bem femininas de selecionar tecido, aprender a usar a máquina de costura para prepará-lo, costurar partes à mão e manter tudo aquilo organizado e limpo. Mas outras partes eram bem masculinas. Os dois dias passados em acetona até os cotovelos para transferir a imagem da gigantesca caneta tinteiro para o tecido, a natureza fálica do desafio de fazer algo tão grande e o complexo sistema de cordas que prenderia a obra no lugar eram todas coisas que eu contemplei como belos encontros com o lado feminino.
Nem tudo foi fácil. Uma vez amarrado ao prédio, o tecido agia como uma vela, inflando com o vento e acumulando um tremendo poder de tração. Era tão forte, que um dia levantou as duas barreiras de metal amarradas à sua baase para mante-lo esticado no lugar. Elas subiram dois metros no ar e quase quebraram as portas de vidro ao lado, antes de serem contidas pelos funcionários da faculdade. Eu revi o meu sistema de cordas e as coisas correram bem depois disso. Foi até divertido ver todo aquele sistema funcionando.

Havia uma terceira obra que só foi vista na noite da abertura. Eu a estava usando. Era uma saia criada em colaboração com o designer de figurino Anastasios Kleisias. Ela imitava os mesmos tecidos da minha camisa, colete e palitó de veludo que eu estava usando. Apesar de ser uma saia, conseguimos dar-lhe um certo poder. Eu me sentia imponente trajando aquilo pela faculdade. Mais próximo do estereótipo do vampiro.