quarta-feira, fevereiro 15, 2012

Nova Nod

Desci do ônibus. Caminhando em direção ao semáforo, ouvi o ruído alto, seco, breve e grave. Segundos depois, um sedã preto furou o farol vermelho acelerando. Deixava para trás uma trilha de destruição da qual faziam parte outros dois veículos. Há meio quarteirão de lá, uma base comunitária da polícia. Debati por alguns segundos se deveria aconselhar os motoristas dos carros que restaram sobre os policiais. Estavam em uma posição onde não podiam ver a base. Idéia melhor: vou falar com os policiais.
Enquanto comentava o que havia visto, um rapaz chega na base comunitária com o celular no ouvido, quase perdendo o fôlego. "Fomos alvejados", diz ele. E em seguida cita para os guardas um modelo de carro e placa. Dois dos policiais montam nas motos e saem em perseguição ao sedã preto. Há um pouco de confusão entre os policiais e o rapaz, que nervoso, não faz muito sentido. Um dos policiais começa a perder a paciência. E eu começo a entender. O sedã era a vítima. Um terceiro homem aparece em cena, um dos motoristas que ficou no rastro de destruição do sedã. Diz que uma moto deu meia volta e subiu a rua. Os policiais de moto estão indo pelo lado errado e a moto do agressor, sobre a qual tem-se apenas descrições vagas e nenhuma placa, já está longe. Depois de perceber que as vítimas têm muito mais informação do que eu, vou me subtraíndo da cena até desaparecer. O pouco de ajuda que eu podia prestar, já foi prestado. Mas assim como no assalto que sofri em Dezembro, volto a pensar nos "e se".
Todos nós somos muito pouco equipados para reagir eficientemente nessas situações. Eu estava na melhor posição possível para ver a placa do sedã. E nem me passou pela cabeça. Nossa reação natural é olhar para o estouro, para o epicentro do ocorrido, e não para o único indivíduo fugindo do local.
Mas ainda que eu tivesse reagido dessa forma mais "correta", eu teria incorrido em outro erro de estratégia: o de não raciocinar sobre quem é o agressor. No nosso país, na nossa cidade tumultuada, caótica e congestionada, um agressor teria pouquíssimos motivos para escolher um sedã para um crime depois do qual ele tem que fugir durante o horário de pico. Arriscando incorrer no perigo e na injustiça do estereótipo, acho que um agressor teria mais motivos para escolher uma moto. Ágil, rápida e igual a tantas outras. E a vítima, um carro grande, resistente, apto a furar a força o trânsito na sua tentativa de fuga. As madames entopem a Oscar Freire de SUVs que elas não conseguem estacionar.
Fico curioso para saber de gente que tenha presenciado situações em que o agressor fugiu em uma Mercedes, um Hummer, uma BMW. Na nossa cidade.

LilithNão posso deixar de pensar em uma associação pejorativa. Horas antes, eu estivera conversando com uma das professoras de educação artística. Ficamos muito entusiasmados quando começamos os dois a falar de uma exposição de Anselm Kiefer acontecida no final dos anos 90 no MAM. Eu, um adolescente que nem tinha sido equipado para reagir eficientemente neste outro tipo de situação e pelo menos ver o nome do artista. Ela, uma jovem guia de exposições que estava trabalhando em uma exposição que marcou sua vida.
Fui atormentado pelas pinturas que vi durante anos. Porque as imagens ficaram na minha cabeça, e eu nunca lembrei do nome do artista até essa conversa de hoje. As pinturas tiveram tanto impacto porque Kiefer usava referências ao mito sumério (e posteriormente hebraico) de Lilith, e eu estava no amadurecer da minha fase gótica. Veria, poucos anos mais tarde, o nome ressurgir nos jogos de RPG de vampiros, nos episódios de Evangelion, em pesquisas na internet. Os quadros também eram bem sujos, viscerais, bem "estética de decomposição". Algo que eu associaria depois aos anos 90 em si, ao grunge, uma das minhas paixões estéticas visuais e musicais (a MTV nunca mais teve vinhetas legais depois daquela época...).
Na série de quadros chamada de Lilith, que Kiefer fez inspirado em sua visita a São Paulo no fim dos anos 80, ele usa vestidos sujos e engessados na pintura para personificar a entidade mitológica. Os críticos dizem que Lilith aparece nas pinturas como se trouxesse o caos violento à cidade e "às obras de Niemeyer", que aparentemente devem simbolizar uma espécie de harmonia para ele e para os críticos europeus.

Na mitologia hebraica, depois que o relacionamento entre Adão e Lilith se desfaz, ela é banida para as "terras selvagens" (em alguns textos, a mesma Nod para o qual Caim foi banido), onde os filhos que ela tem com os demônios locais são chamados de "Lilim" e nascem e morrem às centenas todos os dias, completamente ignorados.
Perdoem-me se não me ufano com o atual momento econômico do país, as perspectivas dele ser uma potência do novo milênio e tudo que tem aparecido na mídia. A verdade é que uma parte de mim que eu gostaria que não existisse continua se sentindo de acordo com as pinturas de Kiefer.

Talvez estejamos mesmo em uma espécie de Nova Nod.
Talvez sejamos todos Lilim.

quinta-feira, fevereiro 09, 2012

Impressões novas do antigo colégio

E eis que começaram as aulas do Band.
Tem tanta coisa pra escrever sobre isso, que acho que vou adotar aquele esquema de parágrafos não necessariamente relacionados.

Primeiramente, eu passei uns dois anos lecionando inglês para empresários muito mais velhos (com idades para serem pais dos alunos de agora). Era um estilo de vida gostoso, onde eu trabalhava às sete da manhã, antes do expediente; ao meio dia, durante o horário de almoço deles; ou às sete da tarde, no fim do seu dia de trabalho. E entre isso tudo, eu tinha o dia livre para ir ao ateliê pintar, botar em andamento os meus planos para fazer o mestrado, complementar os ganhos com as traduções, que eu podia fazer confortavelmente em casa. Apesar de agora eu ter horários de trabalho mais sisudos, eu sinto um pouco daquela velha tranquilidade em dedicar pelo menos alguns poucos dias da semana a um emprego fixo, de carteira assinada, em uma empresa consistente. Quem me conhece, sabe que eu sempre gostei das antigas hierarquias, ainda que eu tenha me dado muito bem vivendo como um freelancer nesses anos recentes.

Foi muito gostoso também rever os professores. Um gostoso estranho, mas muito gostoso. É comovente ver os inspetores que cuidam da criançada nos corredores me chamando de "professor Leão". Há um anacronismo nisso, porque na minha cabeça eu ainda sou aluno de muitos dos meus atuais "colegas de trabalho", que lecionam no Band há vinte, às vezes trinta anos (na reunião de professores, cheguei a perguntar se havia algum outro perdido como eu por ali que lecionasse há... três anos?). Mais do que isso, eu ainda não me sinto assim tão adulto. Sinto-me mais próximo da turma do colegial do que do status de professor, e esse é um daqueles momentos com o qual sonhamos na infância de de repente se perceber adulto. Não sei se faz sentido para vocês leitores: mentalmente, eu me sinto bem na minha atual posição, embora me sinta fisicamente ainda como um dos alunos.
Mas é ensinando essa turma que eu vou descobrindo sozinho o que esses doze anos desde que saí do meio daquelas paredes de tijolos vermelhos significaram em termos de crescimento pessoal e intelectual. Do adolescente inseguro de si, achando que arte era muito simbolismo e um pouco de técnica; para um adulto que entende sua própria imagem e sabe que arte é mais a respeito de um jeito de pensar. Imaginem, naquelas épocas no fim dos anos 90, eu sequer sabia das tecnologias atuais de imagem, de pixels, RGB, CMYK e resolução; e agora tenho que mencionar isso aos alunos que conhecem Photoshop. Eu não sabia que fotografia era a respeito de luz e não a respeito de câmeras; e agora tenho que mostrar a eles que eles acham que sabem isso, mas na verdade não sabem. Eu tinha um ódio mortal por lápis de cor, e agora tenho que convencê-los de que experimentar até com giz de cera pode ser uma coisa bacana. E que o tal do simbolismo que eles acham que o Band os está ensinando nas aulas de literatura, levará na verdade uma jornada de muitos anos para aprender a perceber e dominar. Trocando em miúdos, eu percebi, comparando com essas mentes jovens e impetuosas, que eu fui angariando um considerável poder e maturidade como artista que eu nem tinha percebido. E é muito gostoso de perceber! Só que mais gostoso ainda, é finalmente ter a chance de explicar do jeito que não me explicaram. E que eu acho que teria feito com que eu entendesse tudo muito mais rápido. Será?

As caras não mudaram. A grande maioria dos antigos professores estão lá. E os alunos têm aquela cara de alunos do Band. Não, não é porque uma boa porcentagem seja de origem oriental... É cara de aluno do Band, não tem outro jeito de dizer. Sejamos claros, o Band não é o Brasil. Os alunos estão sendo preparados para lidar com o mundo. Para lidar com uma sofisticação de inspiração européia na tecnologia, no modo de pensar, na moral. Uma sofisticação que não é a realidade cotidiana do resto do país. E isso tem pontos positivos e negativos. É no entanto temeroso nivelar por baixo, e preparar esses alunos para serem ativistas em prol dessa sofisticação tem sim dado bons resultados em projetos de sustentabilidade, ação social e interação com escolas no exterior. Eu ainda estou pensando muito nisso, mas me parece como uma tentativa louvável de exercer um papel de bridgehead positivo (lembra? [1][2]). Claro, isso deve ser feito com todo o cuidado possível para evitar os efeitos negativos, mas não vou entrar nessa discussão.

Mencionei que as caras eram as mesmas. Notei no entanto algumas ausências. Da minha septagenária professora de português que se aposentou, por exemplo, e a quem devo o fato de saber o uso correto de crases, pronomes oblíquos e outros detalhes que escapam o secretariês. De alguns inspetores que eu gostava muito também. Mas principalmente de Cinília, por quem eu largara a publicidade definitivamente. Quanto de mim estava empenhado em ser um bom professor só pra me desculpar por não ter conseguido chegar lá naquele dia? Quanto de mim queria ser um professor junto com ela?

Para terminar este longo post sobre o meu novo emprego, precisei falar sobre o caso da antiga estagiária de educação artística. Almoçando com uma das coordenadoras do curso, ela me contou porque a garota havia saído, sendo que ela trabalhava bem. Eu a conhecia, tendo-a visto em uma das primeiras edições do Dr. Sketchy's Anti-art School na cidade. Como eu, ela apreciava o iniciante burlesco paulista antes mesmo de eu ir para Londres e passar a admitir abertamente que também era a minha praia. No entanto, depois de algum tempo, a história começou a se espalhar entre os alunos. A decisão de sair foi dela. Fique pensando nisso por algum tempo. Por um lado, eu respeitava o quão abertamente ela vivia esse lado e o quanto ela desafiava a moral retrógrada de um país que tem o carnaval, mas prende qualquer um que ouse exibir demais do corpo fora do sambódromo. Por outro, eu reconhecia que há certas maturidades sexuais que não cabem em um ambiente com jovens que estão começando a descobrir sua própria sexualidade incipiente. Não é uma questão de revelar ou não, mas sim de como abordar esses assuntos. Mas principalmente, acho que é uma questão de vida pública e privada, e saber não misturar esses âmbitos. Será que eu consigo?
Outra coisa que ficou na minha cabeça: ela pediu para sair, não foram os professores ou nem mesmo os pais de alunos que exigiram sua demissão. Mas imagino que a interpretação dos alunos que tiveram contato com ela tenha sido a de que um colégio ultra-conservador não soube lidar com uma pessoa alternativa. Se foi assim, foi uma repercussão negativa de conservadorismo para um colégio que na verdade está se esforçando para ser progressivo, e que aparentemente a teria orientado e auxiliado a lidar com os alunos se ela tivesse persistido.
Por último, a questão levantou a pergunta: o que está sendo abordado em termos de educação sexual e práticas alternativas no colégio? A pesquisar...