Na Colômbia e um pouco aqui no Brasil, eu peguei um estilo de escola que insistia um tanto em uma disciplina quase militar, que punia quem desobedecia ou se insubordinava sem clemência ou negociação. Jã não existia a palmatória ou qualquer outro tipo de castigo físico. Estes tinham sido abolidos pelos nossos professores, que haviam sofrido bastante com esses tipos de punição e, lembrando da dor, não se sentiam à vontade para aplica-los a nós, seus alunos.
A geração de professores e pais que cuidou da minha havia abolido o castigo físico, mas ainda exercia uma autoridade punitiva e absoluta, que não admitia ser questionada. A autoridade que, ao ser perguntada sobre os por quês, respondia: "porque eu sou seu professor/pai e eu estou mandando". Não negociava e raramente se explicava.
Minha geração ainda achava tudo aquilo muito injusto, relacionando esse tipo de autoridade inquestionável e absoluta aos regimes totalitários que estes mesmos adultos diziam serem deshumanos e cruéis. Minha geração experimentou ser uma autoridade mais clemente e conciliadora, democrática, aberta ao diálogo e à negociação, querendo explicar ao invés de impor.
Nosso experimento gerou filhos e alunos sem limites, pois se limites podem ser negociados, eles podem ser superados. Esta nova geração venceu seus adultos pela insistência e habilidade de negociação superior, conseguindo o que queriam apesar das regras e ameaças.
Alguém me pergunta que tipo de professores esta geração será, se eles não conhecem disciplina e limite. E eu imagino que serão professores extremamente autoritários. Afinal, se eles são acostumados desde pequenos a sempre terem o que querem e a reagirem agressivamente sem serem punidos por isso, eles reagirão autoritários e despóticos a todo aluno que não responder de acordo com a vontade deles. E vamos retroceder para autoridades totalitárias novamente.
A pergunta que permanece é: quando e como voltaremos daí para os castigos corporais?
Bits and pieces of my life that everyone ignores when I speak, but someone reads when I write.
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domingo, abril 26, 2015
quinta-feira, setembro 11, 2014
Para Sabrina, sobre ansiedade
Primeiro, adorei que você me escreveu pra perguntar sobre ansiedade em resposta ao texto sobre depressão. Faz muito bem para nós saber que o nosso conhecimento e experiência de vida podem realmente ajudar alguém para além "daquilo que cai no vestibular".
Eu demorei um pouco pra responder (o que, para uma pessoa ansiosa pode ser terrível, eu sei), porque sempre que eu começava, eu me pegava contando toda a minha história de vida e de como e porque eu tive ansiedade, em vez de entrar logo no assunto como eu fiz com o texto da depressão. É mais difícil pra mim falar sobre isso, porque minha perspectiva é muito de dentro do problema. Com a depressão foi mais fácil, porque eu era um espectador assistido ao drama, sem participar dele. Mas vamos tentar...
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| "Solitaire" (2004) óleo sobre madeira A respeito da vontade de não sentir nada |
Bom, eu vejo que não vou conseguir falar do assunto sem falar da minha experiência. Então, pra resumir e tirar logo do caminho a minha história, eu tive uma adolescência de me mudar bastante, viajar muito, começar de novo algumas tantas vezes. Esse movimento todo gerou na minha cabeça uma auto-avaliação constante: será que eu estou agindo certo? A pergunta, na verdade, era "será que eu estou sendo normal"? Ela me afetava bastante, porque moramos fora do Brasil, e como estrangeiro você se pergunta isso bastante. Achei importante falar desse questionamento e auto-avaliação, porque nele está uma das bases da ansiedade (pelo menos do modo como eu a encarei): a ideia de que os outros esperam algo de nós. Esperam que tenhamos determinadas atitudes, que nos encaixemos em determinados estilos, que tenhamos determinados objetivos de vida. Nós não sabemos ao certo o que acontece com quem não corresponde a essas expectativas todas, sabemos apenas que queremos corresponder. Queremos que os outros gostem de nós. Isso é muito importante, mas eu volto a isso daqui a pouco...
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| "Sickness" (2004) Óleo sobre tela A respeito do enjôo |
Eu tinha muito medo de mostrar aos outros que eu estava passando mal. Medo como o seu, de me acharem estranho, incapaz de fazer algo tão banal quanto se divertir em uma balada. E isso, claro, alimentava o ciclo (ansiedade dá enjôo, que me dá medo, que gera mais ansiedade, que dá mais enjôo, que gera mais medo...).Então, durante MUITO tempo, eu escondi isso. Eu passei mal sozinho. Tinha ainda mais medo de vomitar em público também. E cheguei a fazê-lo apenas uma vez por causa de ansiedade, em um hotel onde passávamos férias. Bem no saguão do hotel, enquanto eu procurava desesperadamente por um banheiro. O mais importante desse episódio foi que ele não foi o fim do mundo. Ele não significou NADA. Ninguém sequer lembrava disso no dia seguinte.
As coisas pioraram muito antes de melhorarem. O vestibular me levou ao pior período de ansiedade. Porque eu achava que todo mundo esperava que eu passasse direto. Porque eu achava que esperavam que eu fizesse USP. Porque eu achava que esperavam que eu tivesse uma "carreira de verdade" além das artes plásticas. Eu achava que esperavam muito de mim. De novo, ênfase em todos esses "achava". Minha ansiedade alcançou picos insuportáveis. Eu comecei a pensar que eu teria que lidar com ela a vida toda. Eu comecei a imaginar outros 50, 60 anos de enjôos e sentimentos de inadequação. Eu comecei a cogitar dar um fim nisso mais cedo...
E foi aí que eu procurei ajuda.
Eu comecei terapia já em um ponto em que a cadeia de raciocínio era tão automática, que o primeiro sinal de enjôo já disparava pensamentos de morte. A terapia me ajudou primeiramente dando um nome a isso que eu sentia (até então, eu apelidava isso de "a síndrome", porque não sabia que era ansiedade...). Depois, me ajudou a entender qual era o peso disso que eu achava que os outros esperavam de mim. Por último, me ajudou a entender que ninguém esperava nada de mim. A única pessoa que esperava algo de mim era eu mesmo. E eu conseguia negociar comigo mesmo.
Eu considero que me curei de fato quando viajei pela primeira vez, sozinho, para a Europa. Poderia ter sido Ásia, África, ou até aqui do lado, em Sergipe ou Espírito Santo. O que importou foi que eu viajei sozinho. E me hospedei em um lugar onde eu era sim estrangeiro, em meio a muitos outros estrangeiros. Todo mundo agia diferente e não tinha um "normal". Mais do que isso, ninguém tinha ouvido falar de Bandeirantes, de USP, de FAAP (eu acabei fazendo DUAS faculdades por causa disso tudo...). Eu não era nem classe média-alta. Eu era nada. E como nada, eu podia ser tudo. E em um lugar onde todos eram estrangeiros, eu podia agir como eu quisesse e querer o que eu quisesse.
Eu nunca me senti tão leve...
Depois dessa viagem, eu compreendi algumas coisas. Primeiro, o poder de entender que ninguém esperava nada de mim. Nem os meus pais esperavam algo de mim de fato: eles queriam apenas que eu fosse feliz e auto-suficiente (se isso ia ser alcançado como artista plástico, arquiteto, vendedor de sapatos ou camelô da 25 de Março, não importava...). Eu que tinha que gostar de mim mesmo e do que eu fazia, não os outros. Comecei a estudar coisas de meu interesse e a mudar meu visual para algo que eu gostasse. Parei de ir nas baladas que os meus amigos iam e procurei outras onde eu pudesse fazer coisas que eu gostava (karaokê, baladas de gótico, etc...). Danem-se os outros.
Depois, entendi que ser estranho e único me tornava muito mais interessante do que todo mundo que queria ser "normal". E isso tem uma ressonância muito peculiar na adolescência: você quer fazer parte do Bando e ser normal, mas ao mesmo tempo quer ser único e melhor do que os outros. Essa tensão é o que gera a ansiedade. Eu escolhi ser diferentão mesmo. E me orgulhar disso. A barba esquisita é parte desse processo, aliás...
Por último, eu entendi que revelar isso aos meus amigos de confiança e pedir ajuda nas horas mais tensas aliviava MUITO o peso disso tudo. Tive namoradas que sentaram comigo no canto das baladas até o enjôo passar, amigos que conversavam comigo sobre outras coisas para me distrair da auto-avaliação, pais que me contaram suas próprias histórias de ansiedade. Mas sendo que você já me procurou pra pedir ajuda, acho que não preciso enfatizar essa parte! Você fez muito bem em fazer isso!
Então, pra fechar esse texto enorme: ninguém espera nada de você. Seja você mesma, diferente, única, estranha e maravilhosa. Converse consigo mesma para entender do que você gosta, use as suas roupas com vontade e com orgulho, considere no Ensino Médio as carreiras que te fascinam e não apenas as que dão dinheiro (o dinheiro vem para quem é apaixonado pelo que faz - vide eu que estou ganhando a vida com arte).
As coisas não têm todo esse peso, importância e significado que você acha que elas têm. Seja leve.
sábado, junho 14, 2014
Para Bárbara, sobre depressão
Dia desses recebi a notícia de que uma aluna do Colégio não estava mais vindo às aulas devido a um caso bem sério de depressão. Ela não tem Facebook e eu não tive outro meio de entrar em contato com ela, mas queria muito escrever para ela. Pensei em escrever por aqui e torcer para que, de boca em boca, esta mensagem chegasse até ela de alguma maneira. Depois percebi que estava escrevendo não só para ela, mas para muitos casos de adolescentes com os quais entro em contato, e que estão passando por coisas assim.
Eu mesmo nunca tive depressão. Pelo menos nada mais sério do que os pensamentos de morte comuns da adolescência. E demorou muito tempo até que eu entendesse o que era este enorme cachorro preto. Eu precisei de filmes como "Melancholia" (Lars von Trier) e a convivência íntima com amigos vitimados pelo cachorro que conseguiram me levar além do muro de ignorância que se ergue entre os deprimidos e o resto do mundo. O tanto que eu gostava dessas pessoas me fez continuar do lado delas sem criticar, até que eu entendesse que aquilo era real. Que elas não estavam apenas com preguiça da vida. Que elas não estavam tristinhas por brigar com o namorado. Que elas não estavam fazendo manha pra chamar atenção. Elas estavam doentes. Mesmo.
De novo, eu nunca tive depressão. Tudo que eu posso fazer como alguém que vê de fora, é fazer o possível para entender do meu jeito e não colocar mais tijolos naquele muro de preconceitos. O que eu entendi depois de ler muito e perguntar muito é que parte disso é biológico, é um problema relacionado a neurotransmissores no cérebro. O cérebro é um órgão, e como tal, pode adoecer. Isso se resolve com remédios. Mas eles resolvem sintomas pontuais para aliviar o peso, e não resolvem as causas. Estas devem ser curadas pela luta diária dessa pessoa em criar sentido para a vida. Pra fazer até as coisas mais mundanas e banais. E eu não quero ser pretensioso, achando que arte vai curar isso, mas acredito mesmo, pessoalmente, honestamente, que pode ajudar.
Eu não vou fazer a conversa de auto-ajuda de professor tradicional, de te dizer que a vida é linda e você ainda não percebeu. Até porque ela não é. Ela é dura, injusta e irracional. E ninguém sente isso mais do que o adolescente. Uma colega professora me deu o que pensar nesses dias ao dizer que muita gente menciona a adolescência como a melhor época da sua vida. Imaginei o que sentiria um adolescente passando por todo esse tumulto ao ouvir isso. Se ESTA é a melhor época da vida, que grande porcaria vai ser todo o resto! E eu acho bem o contrário: você está sim na pior época da sua vida. Seu inferno particular. Não vou me alongar nos motivos de eu achar isso, qualquer adolescente fala disso melhor do que eu. A boa notícia é que, se esta é a pior época da sua vida, o que vem depois só pode ser melhor. Você só precisa passar dessa época, aguentar um pouco. A vida fica deliciosa depois, se você se abrir para ela e procurar o que é que te agrada, sem preconceitos ou pudores. Ela fica deliciosa quando você vê aos poucos tudo o que você é e consegue fazer se desenvolver e virar um poder. Um verdadeiro poder. Dá trabalho, mas como qualquer obra de arte, você faz sedento pelo resultado, não choramingando o processo. Quem sabe, talvez você até chegue a curtir os processos. Como em qualquer obra de arte. Pra dizer a verdade, é aí que a arte ajuda: naquele "procurar o que é que te agrada" e poder explorá-lo sem pudores, sob a chancela de arte. E isso que te agrada vai criar uma ilha de conforto nessa coisa dura, injusta e irracional. E esse conforto vai virar um continente com tempo e dedicação. A dureza, injustiça e irracionalidade jamais desaparecerão por completo, mas pelo menos você vai ter terra firme no meio disso.
Os meus vinte anos foram infinitamente melhores e mais cheios de significado do que a adolescência. E os meus trinta estão sendo a melhor época da minha vida. Desconfio que essa avaliação mude quando eu chegar aos quarenta.
Então aguente firme. Você é linda. Você tem um talento a ser nutrido. Você tem um caminho a percorrer. E a vista no caminho é de tirar o fôlego. Espero que você entenda que eu não estou dizendo que a vida é linda, mas que ela pode ficar.
Em tempo, e mais uma vez, eu nunca tive depressão. Em vez disso, eu lutei por anos com um outro cachorro, o da ansiedade. Mas isso dá todo um outro texto, para uma outra pessoa.
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I recently got word that one of the students from the School was not showing up to class due to a very bad case of depression. She has no Facebook account and I had no other way of getting in touch with her, but I really wanted to write to her. I thought about writing here in hopes that this message could reach her somehow, passing from person to person. Then I realised I wasn't writing only for her, but for many other cases of teenagers I've come across, who are dealing with stuff like that.
I myself have never had depression. At least nothing more serious than the average death wishes of teenage. And it took a long time until I understood what this huge black dog was. It took me movies like "Melancholia" (Lars von Trier) and the close proximity to friends who were victims of the dog and were able to take me beyond the wall of ignorance that rises between the depressed and the rest of the world. What love I had for these people made me stick around without criticising them long enough for me to understand that this was real. They weren't merely being lazy about dealing with life. They weren't feeling down because they had a fight with the boyfriend. They weren't just being bitchy to draw attention. They were sick. For real.
Once again, I've never had depression. The only thing I could do as someone who sees this from the outside, was to try my best to understand it in my own way and not add anymore bricks to that wall of misconceptions. And what I understood after reading a lot and asking a lot is that a part of this is biological, it's a problem with neurotransmitters in the brain. The brain is an organ, and as such, it can get sick. This can be dealt with using medication. But medication solves the specific symptoms to lighten the burden, it does not attack the causes. These must be cured through the individual's daily struggle to create meaning in living. To carry out even the most mundane and trivial tasks. And I don't want to be pretentious, thinking that art will heal this, but I really believe, personally, honestly, that it might help.
I'm not going to go into the whole self-help talk a traditional teacher would, of telling you that life is beautiful and you just haven't noticed it yet. Because it's not. Life is hard, unfair and irrational. And nobody feels that more than the teenager. A teacher colleague of mine gave me much food for thought recently by saying that some people mention teenage as the best time of their lives. Imagine what a teenager would think upon hearing that if he or she was going through all this turmoil. If THIS is the best time of my life, what a load of crap the rest of it is going to be! And I believe in quite the opposite: you are indeed in the worst time of your life. Your own private hell. I'm not going to try to explain this opinion of mine, any teenager can talk about this better than I can. The good news is that, if this is the worst time of your life, what comes later can only take a turn for the better. All you need to do is get through this stage, hold on a bit longer. Life turns out to be delicious after this, if you open up to it and actively look for what it is that pleases you, unabashedly and with an open mind. It turns out to be delicious when you slowly but surely see everything you are and everything you can do evolve and become your power. Real power. It's hard work, but as with any work of art, you do it out of a thirst for the result, not whining about the process. Who knows, you might even enjoy the processes. As with any work of art. To tell you the truth, that's where art helps: in "looking for what it is that pleases you" and being able to explore it unabashedly, under the guise of art. And this thing that pleases you will create an island of comfort within this hard, unfair and irrational thing. And this comfort will turn into a continent if you give it time and dedication. The hardness, unfairness and irrationality will never disappear completely, but at least you will have dry land in the middle of it.
My twenties were infinitely better and more meaningful than my teens. And my thirties are being the best time of my life. I suspect this assessment will change once I reach my forties.
So hod on. You are beautiful. You have a talent that must be nurtured. You have a path to travel. And the view along the way is breathtaking. I hope you understand that I am not saying life is beautiful, but it can be made so.
In time, and once again, I have never had depression. Instead, I fought for years with another dog, that of anxiety. But that's a whole other text, for a whole other person.
segunda-feira, março 24, 2014
Equipe do Mural - Semana 1
Vou tentar resumir a história até o momento, aproveitando que estamos ainda no começo.
Desde que cheguei para dar aulas no Colégio, uma das coisas que me chamou a atenção foi que a professora de Artes que dava aulas antes de mim tinha conseguido um verdadeiro milagre: havia agora trabalhos de arte dos alunos espalhados por algumas paredes do Colégio. O milagre se dava pelo fato de que o arquiteto responsável pela identidade visual do Colégio era radicalmente contra qualquer desses tipos de "interferências", zelando sempre por paredes ou imaculadamente cinzas de concreto, ou com tijolo aparente, que de fato haviam se tornado a marca registrada da instituição. No meu primeiro ano, eu convivi com um enorme mural no pátio, que era uma mistura de referências da história da arte, da Mona Lisa, ao Abaporu. Só que durante as reformas das férias deste ano, devido à colocação de novos aparelhos de ar condicionado, o mural foi danificado, e alguém ordenou que fosse pintado por cima. Fiquei feliz com a reação dos coordenadores, que acharam aquilo um absurdo e prontamente montaram planos para refazer o mural. Eu me candidatei a chefiar a empreitada, que passaria a dar um objetivo para o meu curso de pintura que saíra do Memorial da America Latina no ano passado por causa de uma enchente e um incêndio (sem relação com a minha presença por lá, diga-se de passagem...) e agora estava sendo ministrado no Colégio mesmo.
Ao contrário do que eu tinha feito no ano passado, anunciei o curso para pessoas que já tivessem alguma experiência de pintura, para montar uma equipe que não precisasse começar do zero em suas noções de cores, materiais e etc.
A nossa primeira reunião trouxe uma colcha de retalhos de jovens artistas. Muita gente que desenhava, uns poucos que pintavam. Retratos, paisagens, esqueletos, modelos de moda... Eu sentia que dava pra trabalhar com estes poucos. Mas apesar de perceber que eles tinham conhecimento técnico, tinha medo de que eles não conseguissem se soltar, falar de assuntos mais pessoais, aqueles verdadeiramente interessantes, que fariam o Colégio perceber o mural, levá-lo a sério. Eu não queria que o mural acabasse sendo uma pinturinha comportada para papai e mamãe verem.
Afinal, o que eu queria com o mural? Eram vários impulsos que me moviam...
É claro que eu queria que o mural tivesse referências da história da arte. Não dá pra ignorar o passado, as origens, os grandes mestres. Mas fazer só isso seria um desperdício de espaço, esforço e esperteza.
Um outro professor do Colégio tinha recentemente feito uma turma de fotografia extra-curricular, onde ele conseguira explorar com os alunos as opiniões que eles tinham de adolescência. Eles tinham expressado toda a dor, as ansiedades e as dúvidas dessa idade. Eu queria que o mural fosse mais assim. Que ele não exaltasse o Colégio por obrigação, mas também reconhecesse que tinha muita coisa aqui que fazia a adolescência valer a pena.
Também queria que ele servisse como um chamado para atacar uma mentalidade vigente no Colégio desde a época em que eu era aluno, e que considerava arte uma futilidade. E quem era interessado por arte um diletante estúpido, ou pior, um CDF. Eu queria que o mural desse status a quem faz arte mesmo. A quem sente, a quem presta atenção nas coisas, a quem põe a mão na massa e entende de estética, design.
E nesse último quesito, fiquei muito feliz quando algumas outras pessoas apareceram no segundo encontro. Eram alunos do segundo ano, algumas que tinham participado do curso de pintura do ano passado. Muita gente com ares de grafiteiros, de gente descolada, ou daquele jeito que na minha época era chamado de gótico, passou a ser emo e hoje era chamado às vezes de hipster. Eles eram desprezado em alguns círculos por serem diferentões, mas eram a turminha popular de outros círculos. Eu gostava bastante dessa gente porque eles experimentavam a vida. Roupas diferentes, novos jeitos de se comportar, de se querer, e principalmente de fazer. Eles não tinham medo. Se ficasse ruim, jogavam fora e começavam de novo.
Eu ainda não vou dar nome aos bois (e vacas, sem intenção pejorativa...). Ainda é cedo, e eu suponho que muitos desse grupo ainda vão desistir e outros ainda vão entrar. Mas basta dizer que eu acho que temos uma mistura MUITO saudável de todo tipo de gente que o Colégio tem. Tipo um Breakfast Club do Colégio. São pessoas estranhas, e é isso que eu gosto em todos eles.
No nosso primeiro encontro de trabalho mesmo, eu mostrei a eles como fazer transferência com thinner e fizemos novas edições de dois dos meus Phallics de Londres. Depois propus a eles para criarmos algum espaço para podermos falar anonimamente sobre tudo. Uma das meninas propôs uma conta de e-mail. Todo mundo tem a senha e pode mandar mensagens aos integrantes do grupo por esse e-mail. Ninguém sabe quem mandou. Acho que vai ser bom para desinibir essa turma. Se pudermos quebrar a barreira da timidez e do medo da reação dos outros, acho que esse grupo vai ter ótimas perspectivas.
Miopia seletiva
Eu percebi o problema pela primeira vez durante o meu segundo ano de aulas no Colégio, em uma aula sobre proporção humana. Além de ter todo o esquema de proporções do corpo (as 7 cabeças e tal) projetado na frente da sala, tinha feito outros rabiscos e desenhado outro corpo ao lado da projeção. No que, até então, era uma imagem corriqueira das minhas aulas, eu estava passando por entre as mesas, respondendo a chamados de alunos que queriam saber apenas uma coisa: "Psor, tá certo?" Eu ia respondendo com toda sinceridade, sim, não, quase lá, tá errado aqui e ali. Mas em uma turma particularmente barulhenta, me vi sobrecarregado de alunos pedindo minha atenção por essa pergunta tão simples. E aí me bateu: por que é que eles perguntam, se a resposta está diretamente na frente deles? Passei a responder de uma forma até um pouco mais grossa, dizendo "largue o lápis, olhe para a lousa".
"Mas psor, me diz você se está certo!"
"Largue o lápis, olhe para a lousa".
Os alunos demoravam algumas repetições até fazer o que eu estava pedindo. Depois eu perguntava: "está parecido com o seu caderno ali no pescoço da figura?"
"Mas psor...."
"Está parecido com o seu caderno?" eu insistia.
"Não mas..."
"Então não está certo, né?"
O aluno reagia não como se fosse contrariado, mas como se levantar a cabeça e olhar para o que estava sendo colocado diante deles fosse uma tarefa árdua, pensar na informações fosse exaustivo. Ter o rápido sim ou não do professor era muito mais confortável.
Essa aparente miopia dos alunos, que incapacitava por vezes até os que se sentavam à frente de enxergar as respostas dispostas diante dos olhos deles, ganhou ares de seletividade mais adiante, no final daquele ano. Na última aula de um 9º ano, que jamais teria aula comigo de novo, eu me dei por vencido diante de uma classe totalmente descontrolada, que não respondia a pedidos de silêncio nem ao silêncio do professor, mas continuava me rodeando em volta da minha mesa, pedindo orientação sobre o que estudar para a prova. O problema ali era que todos os que me rodeavam estavam essencialmente perguntando a mesma coisa, mas todos queriam uma resposta tête-a-tête, única, para aquele indivíduo.
Vencido, eu abri um Word projetado na lousa e passei a escrever as orientações para a prova. A quem me perguntava, eu respondia lacônico: "na lousa..." e voltava a escrever. A balbúrdia não cessou, mas os alunos passaram a ler, todos juntos, às mensagens que eu projetava, voltando depois à mesa para fazer mais perguntas.
Mas o que mais me chamou a atenção foi quando, entre os alunos lá na frente, eu vi alguns deles tirando seus iPhones para fotografar a tela. Mudei de fonte de letra, e passei a escrever:
[perceberam como ninguém dá a mínima para o que eu falar, mas se eu escrever, todo mundo lê e ainda fotografa? Entendamos assim: contato direto não funciona, vocês precisam ler depois uma foto do que eu ia dizer agora. São três graus de separação: fala - escrita - foto. Quanto mais separado eu estiver de vocês, mas atenção eu terei?]
A ideia parecia familiar. Me lembrava daquela outra cena comum das aulas, quando algum dos alunos perguntava: "Psor, isso tá no site do Colégio?". E a partir do momento em que eu respondia afirmativamente, aquele aluno ia perder qualquer atenção na aula e passar a jogar em seu iPad, crente de que poderia ter o mesmo efeito assistindo à aula ou pegando os arquivos do site. Ninguém mais escrevia nada. Quando muito, fotografavam uma tela projetada lá na frente. A foto, claro, jamais seria vista por eles.
Hoje aconteceu a cena mais recente dessas. Ultrajado porque ninguém lhe disse que os sketchbooks valeriam nota, um aluno do 8º ano me confrontou, dizendo que essa informação não estava no site do Colégio. Aproveitava ainda para confrontar as datas erradas que eu tinha colocado no site sobre a entrega de um exercício fotográfico. Incrédulo, eu só pude questionar se a minha presença lá na frente ainda valia alguma coisa. Eu tinha avisado sobre o valor dos sketchbooks na primeira aula do ano, e anotado no canto da lousa, como de praxe para qualquer lição de casa, a data da entrega do exercício. Mas de nada importava, o site do Colégio ditava as regras. Era ao site que eles respondiam. O site era tudo. Eu, ali na frente, era uma distração barulhenta, incompreensível como os professores do Charlie Brown. Comentei com a classe, que eu conseguira miraculosamente acalmar, que do jeito que as coisas estavam, o Colégio poderia disponibilizar aulas no site, e ninguém precisava estar lá. Alunos pesquisariam em casa, professores só viriam ao Colégio para administrar provas.
E por mais que, no fundo da cabeça de qualquer um, essa possibilidade parecesse tentadora, havia uma falha desumana nesse tipo de raciocínio, e ela tinha absolutamente tudo a ver com a minha matéria. Eu viera a compreender ao final do meu segundo ano de aulas, que o que eu deveria estar ensinando a estes alunos não era a história do surgimento da fotografia, ou que misturando cores primárias nós chegamos às secundárias. Não era a sucessão de movimentos de arte ou o jeito "certo" de fazer um roteiro de filme. Eles precisavam aprender uma coisa ainda mais básica. Uma coisa que eles estavam perdendo com o avanço tecnológico. Uma coisa que eles talvez só fossem perceber muito depois de se formarem da faculdade, quando a vida perdesse o sentido e parecesse fria demais. Eles precisavam aprender a ver.
Eles precisam aprender a ver em vez de apenas enxergar. A ouvir em vez de apenas escutar. Sentir em vez de só tocar (continuo achando o touchscreen a maior ironia desta época...). No âmbito da Lexy, ela diria ainda em saborear em vez de apenas experimentar. Era uma questão de percepção. Estes alunos estavam com a percepção tão embotada, tão atrofiada, tão esquecida, que haviam desenvolvido esse tipo de miopia seletiva, de visão meramente funcional, que só servia para navegar o ambiente sem bater nas mesas. Porque nem para ler servia direito. Para isso, tinha algum professor que lia por eles. As respostas estavam diante deles, assim como aquele desenho de proporção estivera, e eles não conseguiam VER!!
E naquele momento de compreender isso, eu tive raiva. Deles, dos pais deles, dos iPads e iPhones deles, de toda essa situação. De mim, por toda a impotência diante do valor cada vez mais questionável que eu tinha como professor. E a questão não era que eu achasse que seria substituído pela internet e aparelhos de mão. A questão é que estas coisas jamais ensinariam a estes alunos sobre percepção. Elas eram necessárias hoje, faziam parte da realidade deles. Mas valiam à pena se o preço a pagar era o esvaziamento dos sentidos?
Com toda a raiva, eu ao menos havia entendido a importância que os professores tinham, e que parecia cada vez mais indiscutível, na era da informática.
"Mas psor, me diz você se está certo!"
"Largue o lápis, olhe para a lousa".
Os alunos demoravam algumas repetições até fazer o que eu estava pedindo. Depois eu perguntava: "está parecido com o seu caderno ali no pescoço da figura?"
"Mas psor...."
"Está parecido com o seu caderno?" eu insistia.
"Não mas..."
"Então não está certo, né?"
O aluno reagia não como se fosse contrariado, mas como se levantar a cabeça e olhar para o que estava sendo colocado diante deles fosse uma tarefa árdua, pensar na informações fosse exaustivo. Ter o rápido sim ou não do professor era muito mais confortável.
Essa aparente miopia dos alunos, que incapacitava por vezes até os que se sentavam à frente de enxergar as respostas dispostas diante dos olhos deles, ganhou ares de seletividade mais adiante, no final daquele ano. Na última aula de um 9º ano, que jamais teria aula comigo de novo, eu me dei por vencido diante de uma classe totalmente descontrolada, que não respondia a pedidos de silêncio nem ao silêncio do professor, mas continuava me rodeando em volta da minha mesa, pedindo orientação sobre o que estudar para a prova. O problema ali era que todos os que me rodeavam estavam essencialmente perguntando a mesma coisa, mas todos queriam uma resposta tête-a-tête, única, para aquele indivíduo.
Vencido, eu abri um Word projetado na lousa e passei a escrever as orientações para a prova. A quem me perguntava, eu respondia lacônico: "na lousa..." e voltava a escrever. A balbúrdia não cessou, mas os alunos passaram a ler, todos juntos, às mensagens que eu projetava, voltando depois à mesa para fazer mais perguntas.
Mas o que mais me chamou a atenção foi quando, entre os alunos lá na frente, eu vi alguns deles tirando seus iPhones para fotografar a tela. Mudei de fonte de letra, e passei a escrever:
[perceberam como ninguém dá a mínima para o que eu falar, mas se eu escrever, todo mundo lê e ainda fotografa? Entendamos assim: contato direto não funciona, vocês precisam ler depois uma foto do que eu ia dizer agora. São três graus de separação: fala - escrita - foto. Quanto mais separado eu estiver de vocês, mas atenção eu terei?]
A ideia parecia familiar. Me lembrava daquela outra cena comum das aulas, quando algum dos alunos perguntava: "Psor, isso tá no site do Colégio?". E a partir do momento em que eu respondia afirmativamente, aquele aluno ia perder qualquer atenção na aula e passar a jogar em seu iPad, crente de que poderia ter o mesmo efeito assistindo à aula ou pegando os arquivos do site. Ninguém mais escrevia nada. Quando muito, fotografavam uma tela projetada lá na frente. A foto, claro, jamais seria vista por eles.
Hoje aconteceu a cena mais recente dessas. Ultrajado porque ninguém lhe disse que os sketchbooks valeriam nota, um aluno do 8º ano me confrontou, dizendo que essa informação não estava no site do Colégio. Aproveitava ainda para confrontar as datas erradas que eu tinha colocado no site sobre a entrega de um exercício fotográfico. Incrédulo, eu só pude questionar se a minha presença lá na frente ainda valia alguma coisa. Eu tinha avisado sobre o valor dos sketchbooks na primeira aula do ano, e anotado no canto da lousa, como de praxe para qualquer lição de casa, a data da entrega do exercício. Mas de nada importava, o site do Colégio ditava as regras. Era ao site que eles respondiam. O site era tudo. Eu, ali na frente, era uma distração barulhenta, incompreensível como os professores do Charlie Brown. Comentei com a classe, que eu conseguira miraculosamente acalmar, que do jeito que as coisas estavam, o Colégio poderia disponibilizar aulas no site, e ninguém precisava estar lá. Alunos pesquisariam em casa, professores só viriam ao Colégio para administrar provas.
E por mais que, no fundo da cabeça de qualquer um, essa possibilidade parecesse tentadora, havia uma falha desumana nesse tipo de raciocínio, e ela tinha absolutamente tudo a ver com a minha matéria. Eu viera a compreender ao final do meu segundo ano de aulas, que o que eu deveria estar ensinando a estes alunos não era a história do surgimento da fotografia, ou que misturando cores primárias nós chegamos às secundárias. Não era a sucessão de movimentos de arte ou o jeito "certo" de fazer um roteiro de filme. Eles precisavam aprender uma coisa ainda mais básica. Uma coisa que eles estavam perdendo com o avanço tecnológico. Uma coisa que eles talvez só fossem perceber muito depois de se formarem da faculdade, quando a vida perdesse o sentido e parecesse fria demais. Eles precisavam aprender a ver.
Eles precisam aprender a ver em vez de apenas enxergar. A ouvir em vez de apenas escutar. Sentir em vez de só tocar (continuo achando o touchscreen a maior ironia desta época...). No âmbito da Lexy, ela diria ainda em saborear em vez de apenas experimentar. Era uma questão de percepção. Estes alunos estavam com a percepção tão embotada, tão atrofiada, tão esquecida, que haviam desenvolvido esse tipo de miopia seletiva, de visão meramente funcional, que só servia para navegar o ambiente sem bater nas mesas. Porque nem para ler servia direito. Para isso, tinha algum professor que lia por eles. As respostas estavam diante deles, assim como aquele desenho de proporção estivera, e eles não conseguiam VER!!
E naquele momento de compreender isso, eu tive raiva. Deles, dos pais deles, dos iPads e iPhones deles, de toda essa situação. De mim, por toda a impotência diante do valor cada vez mais questionável que eu tinha como professor. E a questão não era que eu achasse que seria substituído pela internet e aparelhos de mão. A questão é que estas coisas jamais ensinariam a estes alunos sobre percepção. Elas eram necessárias hoje, faziam parte da realidade deles. Mas valiam à pena se o preço a pagar era o esvaziamento dos sentidos?
Com toda a raiva, eu ao menos havia entendido a importância que os professores tinham, e que parecia cada vez mais indiscutível, na era da informática.
quinta-feira, agosto 29, 2013
Carta aos 9os
Carta lida na última aula do 2º bimestre, aos alunos do 9º ano, que estavam estudando rudimentos de cinema.
Turma,
Estamos
prestes a concluir o segundo bimestre do nosso curso, e assistimos aos
primeiros vídeos feitos por vocês. Eu achei importante tomar um tempo da nossa
aula pra dizer algumas coisas muito importantes que eu percebi com a entrega
destes trabalhos.
Não é raro
eu chegar nas classes no dia que reservamos para apresentar os vídeos e ouvir
de um ou outro aluno: “Leão, por favor não passa o meu vídeo para a classe! Eu
vou pagar o maior mico!” Esse pedido me entristece não por causa daquela
vaidade de professor, de pensar “poxa, eles não gostaram do exercício que eu
fiz e que tava muito legal...”. O pedido me entristece porque, além do fato de
que o vídeo dessa pessoa vai estar muito mal feito, eu percebo também que ela não entendeu todo o
propósito do exercício e, de forma geral, o propósito de se fazer arte (seja
ela vídeo, foto, desenho, o que for). Artistas lidam quase sempre com o desafio
da estética (de fazer algo parecer belo, interessante, estimulante). Eles também têm medo de serem medíocres. E
eles só conseguem ser bons e fazer obras geniais se eles aceitarem o desafio. Não
é um desafio fácil de propor para estudantes de um colégio que tem tradição em
ensinar o pensamento científico, racional, mas que não faz ideia de ensinar
como nem para que produzir a beleza. Como consequência, vocês sabem resolver
questões de matemática, mas ainda têm dificuldade em resolver os próprios
gostos. E como consequência, o desafio de produzir um filme onde vocês vão
expor a sua própria imagem é visto como algo inútil (pra que que estamos tendo
essa matéria?”). A verdade é que vocês
só vão entender a utilidade desta matéria quando estiverem lá fora, tendo que
falar em público em reuniões de negócios, por exemplo. Mas segurem este pensamento, eu volto a ele
daqui a pouco.
No ano
passado, eu peguei um curso estruturado de um jeito que vocês teriam que
produzir um vídeo por bimestre. Era pouquíssimo tempo para desenvolver roteiros
coerentes, se encontrar para gravar cenas que não fossem toscas e ter carinho
na edição do produto final. E com os trabalhos das outras matérias, muita gente
fazia tudo isso em uma semana. O resultado, claro, era péssimo. Os alunos
sentiam que era impossível chegar em um resultado bom e que estavam sendo
obrigados a serem expostos ao ridículo daquele jeito. Para resolver isto, esticamos
o processo para ocupar um semestre inteiro. Por mim, eu faria o vídeo direito,
durante um ano todo. Com tempo para dar retornos mais úteis nos seus roteiros e
filmagens.
Mas mesmo
com tempos curtos, tinha muita gente que entendia o desafio e tomava gosto por
fazer filmes legais. Ou talvez só tivesse medo de pagar mico... O importante é
que essas pessoas levavam o exercício a sério. As outras, faziam algo parecido
àquela coisa de fazer careta para o autorretrato que discutimos no ano passado.
Elas faziam coisas toscas como quem diz: “se eu assumir a tosquice, ninguém vai
conseguir me criticar”. E depois justificavam o resultado dizendo: “ah, vai...
ficou divertido”. E a verdade é que não ficava divertido. Ficava chato, longo e
frequentemente expunha os participantes a ridículos maiores do que as turmas
que tentaram levar a sério.
Imagine
agora a tal da reunião de negócios. Vocês vão usar a mesma estratégia da
careta/tosquice assumida? Olha, eu detesto ficar só nos exemplos de emprego e
carreira: a verdade é que eu acho que essa seriedade no que se faz deveria ser
um valor aplicado em tudo na vida. Até vídeo caseiro, bolinho de chocolate,
e-mail para a namorada. Um bom artista presta atenção nos detalhes, porque eles
dão todo o gosto à obra. Tem um ditado que diz que Deus está nos detalhes.
Eu também
vejo com pena que, mesmo com toda a racionalidade científica que lhes foi
ensinada, vocês ainda não aprenderam a respeitar o trabalho um do outro. E
preferem tirar sarro do erro (mesmo quando foi acidental) a comemorar e
parabenizar um acerto. Não é novidade então, que tanta gente tenha vergonha de
mostrar o que fez. Essa falta de educação básica é uma força negativa,
desencorajadora. Eu acredito que seriamos muito mais produtivos, confiantes e
geniais se conseguíssemos parabenizar aberta e claramente quem foi criativo e
teve soluções legais, e déssemos um toque em particular, na boa, em quem errou.
Daria menos vergonha, né?
segunda-feira, junho 17, 2013
Aula de roteiro
Postado no Facebook, aproveitando as aulas de roteiro que dei aos meus alunos.
CENA 1:
VIDEO: PG (Plano Geral) aéreo dos manifestantes organizando a maior manifestação pacífica em anos de história da cidade de São Paulo, tomando a Avenida Paulista.
AUDIO: (cantos em coro mostrando indignação contra os R$3,20 do transporte, o custo da Copa, a violência policial, a corrupção, o Renan Calheiros e a PEC 37.)
CENA 2:
VIDEO: "Fade" para cena PC (Plano Conjunto) dos líderes do Movimento Passe Livre dialogando com o governo e a mídia toda achando essa abertura para o diálogo linda.
AUDIO: Líder do movimento: "Só achei um absurdo sermos recebidos pelo Ministro da Segurança Pública e não pelo Ministro dos Transportes".
CENA 3:
VIDEO: "Fade" para PD (Plano Detalhe) de um canto de TV onde a manchete de um jornal afirma que o governo voltou atrás nos R$3,20 e que as manifestações pararam.
AUDIO: Âncora do Jornal: "...o governador do Estado Geraldo Alkmin garantiu ontem que as tarifas não sofrerão mais alterações durante seu mandato".
CENA 4:
VIDEO: Corte para PC de dois adolescentes na sala de casa, assistindo TV.
ÁUDIO: Ele: "Que bom que os protestos acabaram, né? Tanta violência...".
Ela: "É mesmo. E nós conseguimos o que queríamos. O povo brasileiro mostrou que não vai mais ser feito de panaca.˜
Ele: "É... E o Alckmin mostrou que é um cara bacana, um político legal. Metrô voltou a R$3,00. Mas sabe que eu tô com uma sensação de que a gente esqueceu alguma coisa...."
Ela: "O que?"
Ele: "Não sei... Deixa pra lá. Tira desse jornal noticiando mais um escândalo de corrupção sem solução e bota na Globo que o jogo da Copa tá começando!"
Pessoal, muita calma nessa hora. Esses políticos vão saber exatamente como desarmar essa situação e ainda saírem por cima. Prestemos atenção para não nos contentarmos com migalhas. Não deixem este roteiro virar realidade!
CENA 1:
VIDEO: PG (Plano Geral) aéreo dos manifestantes organizando a maior manifestação pacífica em anos de história da cidade de São Paulo, tomando a Avenida Paulista.
AUDIO: (cantos em coro mostrando indignação contra os R$3,20 do transporte, o custo da Copa, a violência policial, a corrupção, o Renan Calheiros e a PEC 37.)
CENA 2:
VIDEO: "Fade" para cena PC (Plano Conjunto) dos líderes do Movimento Passe Livre dialogando com o governo e a mídia toda achando essa abertura para o diálogo linda.
AUDIO: Líder do movimento: "Só achei um absurdo sermos recebidos pelo Ministro da Segurança Pública e não pelo Ministro dos Transportes".
CENA 3:
VIDEO: "Fade" para PD (Plano Detalhe) de um canto de TV onde a manchete de um jornal afirma que o governo voltou atrás nos R$3,20 e que as manifestações pararam.
AUDIO: Âncora do Jornal: "...o governador do Estado Geraldo Alkmin garantiu ontem que as tarifas não sofrerão mais alterações durante seu mandato".
CENA 4:
VIDEO: Corte para PC de dois adolescentes na sala de casa, assistindo TV.
ÁUDIO: Ele: "Que bom que os protestos acabaram, né? Tanta violência...".
Ela: "É mesmo. E nós conseguimos o que queríamos. O povo brasileiro mostrou que não vai mais ser feito de panaca.˜
Ele: "É... E o Alckmin mostrou que é um cara bacana, um político legal. Metrô voltou a R$3,00. Mas sabe que eu tô com uma sensação de que a gente esqueceu alguma coisa...."
Ela: "O que?"
Ele: "Não sei... Deixa pra lá. Tira desse jornal noticiando mais um escândalo de corrupção sem solução e bota na Globo que o jogo da Copa tá começando!"
Pessoal, muita calma nessa hora. Esses políticos vão saber exatamente como desarmar essa situação e ainda saírem por cima. Prestemos atenção para não nos contentarmos com migalhas. Não deixem este roteiro virar realidade!
Considerações sobre a Revolta do Vinagre
Tentarei publicar este no blog de Artes do colégio. A parte sobre o Ai WeiWei já foi escrita aqui.
Eu ando acompanhando com muito interesse tudo relacionado aos protestos que têm ocorrido na nossa cidade. Além de perceber como os protestos mudaram minha própria posição de alienação e apatia, eles também têm me proporcionado uma ótima oportunidade para refletir um pouco sobre algumas das coisas que andei ensinando aos meus alunos de 9o ano, no curso sobre cinema.
Atento-me especificamente a uma aula onde conversamos sobre o cinema sendo usado como ferramenta de dominação. O assunto da aula era o cinema, na forma do filme "Triunfo da Vontade" da cineasta nazista Leni Riefenstahl. Mas a rigor, a aula estende-se à mídia como um todo. Uma das estratégias de mídia que discutimos na aula consistia em omitir o emissor das mensagens. Trocando em miúdos: se você sabe QUEM emite a mensagem, você pode analisar este emissor e chegar à conclusão de que a mensagem é uma opinião de alguém de uma determinada classe social, representando determinados interesses. Mas se o emissor é oculto, a tarefa de contestar essa mensagem fica mais difícil. Nós a aceitamos como verdade mais facilmente.
A semana pasada nos brindou com um exemplo formidável para estudo. O jornalista Arnaldo Jabor apareceu no espaço reservado a ele pela Rede Globo para emitir sua opinião sobre os protestos. De forma geral, desqualificou os protestantes, dizendo serem filhos da classe média ridiculamente protestando contra míseros R$0,20 que eles não precisavam, e descrevendo os policiais que reprimiam os protestos como as verdadeiras vítimas da violência. A opinião não era novidade. Boa parte da mídia mais conservadora repetia a mesma opinião. Mas, conforme nosso exemplo em aula, quando o William Bonner profere a notícia, sabemos que não é a opinião DELE. É uma opinião de alguém que lhe forneceu a notícia, e que permanece oculto, inquestionável, enquanto o âncora do jornal descreve os manifestantes como vândalos. Não se pode protestar contra o Bonner, seria injusto. Da mesma forma que seria injusto xingar um(a) atendente de call center pelas sacanagens perpetradas pela empresa para a qual ele/ela trabalha. "Odeie a mensagem, não o mensageiro". Mais do que isso: com o emissor oculto por trás do vasto e imponente nome da emissora de televisão mais assistida do país, a maioria das pessoas até desconfia, mas cede à ideia de que, se tamanho grupo de jornalistas está dizendo isso, eles devem saber mais do que nós.
O caso do Jabor é diferente. Ele assina o comentário, da uma cara à opinião. O emissor não está mais oculto, ele está escancarado. E mal informado. Ele torna-se extremamente vulnerável ao ataque, à contradição de sua opinião.
Diante da onda de denúncias de violência policial ocorrida na quinta-feira de protestos (dia 13/06), Jabor recebeu uma outra onda de vídeos em resposta ao seu comentário ([1] [2] - para citar alguns). Não teve outra opção que não a de se retratar. Mas fez isso através da CBN, tomando o constrangimento para si e evitando expor a rede Globo.
Na segunda, eu fui ao protesto que começou na Faria Lima. Fui leve, sem nada que me tornasse uma ameaça para a polícia, pronto para correr. Meu coração acelerava com o número de gente na estação de metrô e as palavras de ordem cantadas por todos. Eu não via nada assim desde Londres, no meu mestrado. Larguei a manifestação e voltei para casa quando comecei a sentir no ar o cheiro característico dos solventes contidos nas latas de spray. Pixar propriedade alheia podia ser motivo para a polícia entrar em ação e a coisa iria escalar. Resolvi contribuir para o protesto de outras formas, incluindo este texto e a tentativa de abrir os olhos da criançada para questionar mais as informações que recebem do mundo lá fora.
No caminho de volta para casa, fui lembrando do que eu havia escrito sobre a exposição do chinês Ai Weiwei no MIS, que visitei em Fevereiro deste ano. Eu soube dele pela primeira vez em Londres, uma instalação na Tate Modern onde ele lotou o piso da galeria de sementes de girassol feitas de porcelana. Milhões delas, feitas uma a uma por voluntários chineses. De lá pra cá, Wei Wei foi preso pelo governo chinês, o que causou toda uma polêmica mundial de artistas pela sua libertação, e aparentemente foi viver nos EUA ou algo assim.
Assim como a Yaoni Sanchez que a minha mãe lê, fala corajosa e abertamente sobre as incoerências, e a miséria causada pela ditadura vigente em seu país de origem. Uma ditadura que prometeu igualdade a todos e forneceu uma igualdade de míngua e burocracia. A exposição no MIS era uma coletânea enorme de fotografias tiradas por Wei Wei e seus assistentes, documentando diversos processos de diversos dos trabalhos do artista. Todos trabalhos que falavam sem romantismos desnecessários sobre tudo o que estava acontecendo. Daquele tipo de documentação direta que qualquer blogueiro hoje faz. O que levou à já bastante recorrente pergunta: "mas isso é arte?" De fato, algumas das fotos que Wei Wei faz não chegam a ser muito mais diferentes do que o que muitos conterrâneos meus postam no Facebook, indignados com o nosso país. Nem é possível dizer que elas sejam dotadas daquela mítica "sensibilidade artística" que as separa das fotos das ditas "pessoas comuns". Mas tudo muda para ele (e para a Yaoni Sanchez), porque existe uma força opositora relevante. Isso muda tudo. Se você posta no Facebook a sua indignação contra este ou aquele partido político, esta ou aquela medida do governo, nada disso importa. Você vive em um país livre e supostamente democrático, onde você pode exercer a sua liberdade de expressão sem medo. Isso torna-se uma faca de dois gumes, porque embora você a possa expressar, a sua opinião também pode ser sumariamente ignorada. Se o governo não fizer nada a respeito (nem acatando o seu desejo de justiça, e nem prendendo você por externar o que sente), é quase como se você não tivesse dito nada. Com Wei Wei e Sanchez, a coisa é outra. Qualquer comentário dissidente e eles misteriosamente "são sumidos" por algum tempo, têm seus bens confiscados, sua vida incrivelmente dificultada. Eles precisam de muito mais coragem para dizer o que nós ouvimos tanto que chegamos a ignorar ("mais uma denúncia de corrupção..."). O choque entre a força opositora que nós não temos aqui em nosso país e a coragem deles é o que faz um gesto tão simples como tirar um autorretrato ou blogar sobre o dia-a-dia virar uma obra de arte política. Não tem absolutamente nada a ver com técnica artística. [Disclaimer: sim, eu sei que o Wei Wei tem obras de arquitetura incríveis, foi responsável em parte pelo estádio conhecido como "Ninho de Pássaro" na China e tem outras obras bem mais tecnicamente interessantes, mas estou me atendo aqui à exposição do MIS]. Encerro a reflexão fazendo a pergunta: sendo que não temos aqui tamanha força opositora que valide as nossas expressões de indignação dissidentes, o que é que nós precisaríamos fazer (como trabalho artístico/expressivo) para ter o mesmo impacto que Wei Wei e Sanchez? Talvez, na hora em que a Tropa de Choque abriu fogo contra os manifestantes na quinta, eles tenham cometido o ato que faltava para validar essa nossa grande obra de arte coletiva que aconteceu nestas últimas semanas.
Eu ando acompanhando com muito interesse tudo relacionado aos protestos que têm ocorrido na nossa cidade. Além de perceber como os protestos mudaram minha própria posição de alienação e apatia, eles também têm me proporcionado uma ótima oportunidade para refletir um pouco sobre algumas das coisas que andei ensinando aos meus alunos de 9o ano, no curso sobre cinema.
Atento-me especificamente a uma aula onde conversamos sobre o cinema sendo usado como ferramenta de dominação. O assunto da aula era o cinema, na forma do filme "Triunfo da Vontade" da cineasta nazista Leni Riefenstahl. Mas a rigor, a aula estende-se à mídia como um todo. Uma das estratégias de mídia que discutimos na aula consistia em omitir o emissor das mensagens. Trocando em miúdos: se você sabe QUEM emite a mensagem, você pode analisar este emissor e chegar à conclusão de que a mensagem é uma opinião de alguém de uma determinada classe social, representando determinados interesses. Mas se o emissor é oculto, a tarefa de contestar essa mensagem fica mais difícil. Nós a aceitamos como verdade mais facilmente.
A semana pasada nos brindou com um exemplo formidável para estudo. O jornalista Arnaldo Jabor apareceu no espaço reservado a ele pela Rede Globo para emitir sua opinião sobre os protestos. De forma geral, desqualificou os protestantes, dizendo serem filhos da classe média ridiculamente protestando contra míseros R$0,20 que eles não precisavam, e descrevendo os policiais que reprimiam os protestos como as verdadeiras vítimas da violência. A opinião não era novidade. Boa parte da mídia mais conservadora repetia a mesma opinião. Mas, conforme nosso exemplo em aula, quando o William Bonner profere a notícia, sabemos que não é a opinião DELE. É uma opinião de alguém que lhe forneceu a notícia, e que permanece oculto, inquestionável, enquanto o âncora do jornal descreve os manifestantes como vândalos. Não se pode protestar contra o Bonner, seria injusto. Da mesma forma que seria injusto xingar um(a) atendente de call center pelas sacanagens perpetradas pela empresa para a qual ele/ela trabalha. "Odeie a mensagem, não o mensageiro". Mais do que isso: com o emissor oculto por trás do vasto e imponente nome da emissora de televisão mais assistida do país, a maioria das pessoas até desconfia, mas cede à ideia de que, se tamanho grupo de jornalistas está dizendo isso, eles devem saber mais do que nós.
O caso do Jabor é diferente. Ele assina o comentário, da uma cara à opinião. O emissor não está mais oculto, ele está escancarado. E mal informado. Ele torna-se extremamente vulnerável ao ataque, à contradição de sua opinião.
Diante da onda de denúncias de violência policial ocorrida na quinta-feira de protestos (dia 13/06), Jabor recebeu uma outra onda de vídeos em resposta ao seu comentário ([1] [2] - para citar alguns). Não teve outra opção que não a de se retratar. Mas fez isso através da CBN, tomando o constrangimento para si e evitando expor a rede Globo.
Na segunda, eu fui ao protesto que começou na Faria Lima. Fui leve, sem nada que me tornasse uma ameaça para a polícia, pronto para correr. Meu coração acelerava com o número de gente na estação de metrô e as palavras de ordem cantadas por todos. Eu não via nada assim desde Londres, no meu mestrado. Larguei a manifestação e voltei para casa quando comecei a sentir no ar o cheiro característico dos solventes contidos nas latas de spray. Pixar propriedade alheia podia ser motivo para a polícia entrar em ação e a coisa iria escalar. Resolvi contribuir para o protesto de outras formas, incluindo este texto e a tentativa de abrir os olhos da criançada para questionar mais as informações que recebem do mundo lá fora.
No caminho de volta para casa, fui lembrando do que eu havia escrito sobre a exposição do chinês Ai Weiwei no MIS, que visitei em Fevereiro deste ano. Eu soube dele pela primeira vez em Londres, uma instalação na Tate Modern onde ele lotou o piso da galeria de sementes de girassol feitas de porcelana. Milhões delas, feitas uma a uma por voluntários chineses. De lá pra cá, Wei Wei foi preso pelo governo chinês, o que causou toda uma polêmica mundial de artistas pela sua libertação, e aparentemente foi viver nos EUA ou algo assim.
Assim como a Yaoni Sanchez que a minha mãe lê, fala corajosa e abertamente sobre as incoerências, e a miséria causada pela ditadura vigente em seu país de origem. Uma ditadura que prometeu igualdade a todos e forneceu uma igualdade de míngua e burocracia. A exposição no MIS era uma coletânea enorme de fotografias tiradas por Wei Wei e seus assistentes, documentando diversos processos de diversos dos trabalhos do artista. Todos trabalhos que falavam sem romantismos desnecessários sobre tudo o que estava acontecendo. Daquele tipo de documentação direta que qualquer blogueiro hoje faz. O que levou à já bastante recorrente pergunta: "mas isso é arte?" De fato, algumas das fotos que Wei Wei faz não chegam a ser muito mais diferentes do que o que muitos conterrâneos meus postam no Facebook, indignados com o nosso país. Nem é possível dizer que elas sejam dotadas daquela mítica "sensibilidade artística" que as separa das fotos das ditas "pessoas comuns". Mas tudo muda para ele (e para a Yaoni Sanchez), porque existe uma força opositora relevante. Isso muda tudo. Se você posta no Facebook a sua indignação contra este ou aquele partido político, esta ou aquela medida do governo, nada disso importa. Você vive em um país livre e supostamente democrático, onde você pode exercer a sua liberdade de expressão sem medo. Isso torna-se uma faca de dois gumes, porque embora você a possa expressar, a sua opinião também pode ser sumariamente ignorada. Se o governo não fizer nada a respeito (nem acatando o seu desejo de justiça, e nem prendendo você por externar o que sente), é quase como se você não tivesse dito nada. Com Wei Wei e Sanchez, a coisa é outra. Qualquer comentário dissidente e eles misteriosamente "são sumidos" por algum tempo, têm seus bens confiscados, sua vida incrivelmente dificultada. Eles precisam de muito mais coragem para dizer o que nós ouvimos tanto que chegamos a ignorar ("mais uma denúncia de corrupção..."). O choque entre a força opositora que nós não temos aqui em nosso país e a coragem deles é o que faz um gesto tão simples como tirar um autorretrato ou blogar sobre o dia-a-dia virar uma obra de arte política. Não tem absolutamente nada a ver com técnica artística. [Disclaimer: sim, eu sei que o Wei Wei tem obras de arquitetura incríveis, foi responsável em parte pelo estádio conhecido como "Ninho de Pássaro" na China e tem outras obras bem mais tecnicamente interessantes, mas estou me atendo aqui à exposição do MIS]. Encerro a reflexão fazendo a pergunta: sendo que não temos aqui tamanha força opositora que valide as nossas expressões de indignação dissidentes, o que é que nós precisaríamos fazer (como trabalho artístico/expressivo) para ter o mesmo impacto que Wei Wei e Sanchez? Talvez, na hora em que a Tropa de Choque abriu fogo contra os manifestantes na quinta, eles tenham cometido o ato que faltava para validar essa nossa grande obra de arte coletiva que aconteceu nestas últimas semanas.
sexta-feira, maio 10, 2013
Back in the Bubble
There was a strong and somewhat negative change in me after I began teaching at my former highschool. The fact is that teaching there became a sort of guideline to my existence, my routine and my interests. I was now teaching 11 to 16-year-olds from wealthy families about art, at a school that favored practical thinking. This, in a way, limited my openness exclusively to what I felt was relevant to this scenario. No time, energy or interest in anything else.
I felt hugely comfortable teaching them about the inner workings of photo cameras or the language of cinema, the practical tricks to improving their drawing and the basics of color theory. It was the practical side of art, something that wasn't so vulnerable to being written off as a useless waste of time, because it was tangible knowledge, that could be put to some use by students who had good access to high culture (though whether they chose to make the most of that access or indulge in lower, more futile, but equally usable pop references remained up to them...). This became the direction towards which I was driving all my being.
At some point, I noticed I was inherently different from the other teachers-in-training I was studying with. They were simple people from all walks of life, who had decided to provide children with some artistic experience. But they seemed conformed with ending up as underpaid teachers in public schools, as if the idea of striving for a well-paid job at a private school was an impossibility and I had somehow struck gold with the job I currently had.
It felt to me as well that they had some sort of skewed idea that the poor, the uncultured, the underdogs were the ones who would make the most of what they could offer, as if the wealthy were too priviledged and spoilt to deserve or even need these lessons and they would magically "happen" in their heads with no external help needed.
Furthermore, it bored me to notice that the approach these future teachers favored consisted of a slew of random and patronizing crafting exercises - making paper maché dolls, making stamps out of corks or potatoes, that sort of thing - that resulted in "cute" works from students who were completely clueless as to why they were doing this. The art class was an exercise in futility and students eventually degenerated into treating the class a a second break and the teacher as an idiot (with good reason too, since the class felt like the teacher was treating them as idiots...). I heard gruesome stories of disgruntled and bored public school students physically assaulting teachers - such was the degree of disrespect. Granted that these exercises did develop students' dexterity and their cognitive abilities, but I was sure that could be done while at the same time teaching them actual conscious skills they could consciously use and facts they could assimilate, rather than one-off parlor tricks. I was expecting to be treated with respect, even if my class wasn't an integral part of the university admission exams. In order to have that, I had to give the students something tangible as well.
But all of this meant I was also becoming somewhat more narrow-minded. I had been to the public schools as part of teacher trainning. I had seen first hand how most of these humbler students were lacking in the basic formation needed to comprehend some of the more complex concepts. How most of them didn't even care. How the schools themselves were unwilling to invest what was needed for a decent art course because they didn't see it as something a future low-class worker would need. Gradually, I myself began to buy into the notion that improving an art course at a public school was a waste of time. I came close to believing that art was indeed irrelevant to these students (other than what they needed to carry out the manufacture of carnival floats and costumes, an industry that kept many of them out of misery). Bottom line: I shut myself off from the outer world, remaining inside this upper-class bubble.
I recognize this enormous prejudice as a way "the System" has of reproducing itself. Still, I see no way of escaping this at present. The teacher trainning classes, my classes, the painting classes on Wednesdays, everything is taking up so much time that there is no way to include volunteering for lower-class schools right now. Perhaps in the future.
And even then, I'll first have to be convinced I can actually make a difference in such children's lives.
I felt hugely comfortable teaching them about the inner workings of photo cameras or the language of cinema, the practical tricks to improving their drawing and the basics of color theory. It was the practical side of art, something that wasn't so vulnerable to being written off as a useless waste of time, because it was tangible knowledge, that could be put to some use by students who had good access to high culture (though whether they chose to make the most of that access or indulge in lower, more futile, but equally usable pop references remained up to them...). This became the direction towards which I was driving all my being.
At some point, I noticed I was inherently different from the other teachers-in-training I was studying with. They were simple people from all walks of life, who had decided to provide children with some artistic experience. But they seemed conformed with ending up as underpaid teachers in public schools, as if the idea of striving for a well-paid job at a private school was an impossibility and I had somehow struck gold with the job I currently had.
It felt to me as well that they had some sort of skewed idea that the poor, the uncultured, the underdogs were the ones who would make the most of what they could offer, as if the wealthy were too priviledged and spoilt to deserve or even need these lessons and they would magically "happen" in their heads with no external help needed.
Furthermore, it bored me to notice that the approach these future teachers favored consisted of a slew of random and patronizing crafting exercises - making paper maché dolls, making stamps out of corks or potatoes, that sort of thing - that resulted in "cute" works from students who were completely clueless as to why they were doing this. The art class was an exercise in futility and students eventually degenerated into treating the class a a second break and the teacher as an idiot (with good reason too, since the class felt like the teacher was treating them as idiots...). I heard gruesome stories of disgruntled and bored public school students physically assaulting teachers - such was the degree of disrespect. Granted that these exercises did develop students' dexterity and their cognitive abilities, but I was sure that could be done while at the same time teaching them actual conscious skills they could consciously use and facts they could assimilate, rather than one-off parlor tricks. I was expecting to be treated with respect, even if my class wasn't an integral part of the university admission exams. In order to have that, I had to give the students something tangible as well.
But all of this meant I was also becoming somewhat more narrow-minded. I had been to the public schools as part of teacher trainning. I had seen first hand how most of these humbler students were lacking in the basic formation needed to comprehend some of the more complex concepts. How most of them didn't even care. How the schools themselves were unwilling to invest what was needed for a decent art course because they didn't see it as something a future low-class worker would need. Gradually, I myself began to buy into the notion that improving an art course at a public school was a waste of time. I came close to believing that art was indeed irrelevant to these students (other than what they needed to carry out the manufacture of carnival floats and costumes, an industry that kept many of them out of misery). Bottom line: I shut myself off from the outer world, remaining inside this upper-class bubble.
I recognize this enormous prejudice as a way "the System" has of reproducing itself. Still, I see no way of escaping this at present. The teacher trainning classes, my classes, the painting classes on Wednesdays, everything is taking up so much time that there is no way to include volunteering for lower-class schools right now. Perhaps in the future.
And even then, I'll first have to be convinced I can actually make a difference in such children's lives.
quarta-feira, outubro 17, 2012
Crônicas de Professor
Um dos meus alunos me entregou hoje uma sacolinha. Disse que era um presente de dia do professor. Confesso que recebi o mimo um pouco desconfiado: eu nunca tinha recebido nada assim e nem esperava criar esse impacto na cabeça de alguém tão cedo. Por que logo eu de todos os professores? Ele não precisava de nota, era um bom aluno. Também duvido que tivesse feito isso para muitos outros professores, pois os pais teriam desembolsado uma quantia salgada para mimar professores. Me pareceu algo sincero e exclusivo. Me senti especial.
Dentro da sacola, uns poucos produtos da Phebo. O presente gerou sensações engraçadas. Meu pai usava Phebo e eu identificava os perfumes ao estilo de masculinidade dele. Por isso, senti minha "adultice" confirmada com esse presente. O estilo de masculino paterno que eu lembrava na minha infância era um para o qual sabonetes com "1/4 de creme hidratante" ainda eram algo inexistente ou irrelevante. Um estilo que sentia um tipo de validação naquela sensação de pele esticada depois do banho. Eu lembro que eu gostava da sensação (talvez por gostar da ligação aspiracional que ela tinha com meu pai). Era um prazer meio bronco, meio rústico. Uma das minhas colegas professoras chamou de um prazer meio S&M. Eu não o estranharia depois das baladas do meu ano passado...
Havia também o deleite do perfume, que na infância fora marcadamente diferente dos perfumes dos meus produtos infantis. Era alheio, era mais complexo. Era daquele universo simbólico do moleque imberbe que se maravilha com os produtos de barbearia do pai.
Esse significado todo me pegou tão de surpresa que nem agradeci o aluno o suficiente. Preciso fazer isso!
Já fiquei sabendo que amanhã ganharei um outro presentinho. Enquanto isso, fico aqui pensando que deveria ter feito mais pela minha inspiradora professora de história do que apenas uma homenagem sincera no Facebook. Ela tinha que saber o quanto tinha sido importante.
E de preferência, enquanto ela estava viva.
Dentro da sacola, uns poucos produtos da Phebo. O presente gerou sensações engraçadas. Meu pai usava Phebo e eu identificava os perfumes ao estilo de masculinidade dele. Por isso, senti minha "adultice" confirmada com esse presente. O estilo de masculino paterno que eu lembrava na minha infância era um para o qual sabonetes com "1/4 de creme hidratante" ainda eram algo inexistente ou irrelevante. Um estilo que sentia um tipo de validação naquela sensação de pele esticada depois do banho. Eu lembro que eu gostava da sensação (talvez por gostar da ligação aspiracional que ela tinha com meu pai). Era um prazer meio bronco, meio rústico. Uma das minhas colegas professoras chamou de um prazer meio S&M. Eu não o estranharia depois das baladas do meu ano passado...
Havia também o deleite do perfume, que na infância fora marcadamente diferente dos perfumes dos meus produtos infantis. Era alheio, era mais complexo. Era daquele universo simbólico do moleque imberbe que se maravilha com os produtos de barbearia do pai.
Esse significado todo me pegou tão de surpresa que nem agradeci o aluno o suficiente. Preciso fazer isso!
Já fiquei sabendo que amanhã ganharei um outro presentinho. Enquanto isso, fico aqui pensando que deveria ter feito mais pela minha inspiradora professora de história do que apenas uma homenagem sincera no Facebook. Ela tinha que saber o quanto tinha sido importante.
E de preferência, enquanto ela estava viva.
quinta-feira, junho 28, 2012
Crônicas de Professor
O Clube de Desenho dos Excluídos
"Professor, me dá um assunto para eu desenhar?"
A ideia partiu de Luisa, uma das minhas alunas do 7º ano. Eu tinha percebido a Luísa atrás da classe. Ela era do tipo que se destacava. Grande, cabelo crespo, camiseta preta de banda de heavy metal. E no entanto, uma doçura e timidez incomparáveis. Ela já me mostrara personagens em um caderno e eu acho que tinha mostrado os postais da Butcher.
"Tá. Deixa eu pensar. Mas você me dá um assunto também?"
No fim da aula, havíamos começado algo curioso e muito interessante. Pensando em um outro exercício baseado em um poema das aulas de espanhol, lembrei que os alunos do 8º andavam me perguntando como representar em fotografia uma mentira. Então esse foi o tema que Luisa teria que desenhar para a semana seguinte. O tema que eu desenharia: uma ideia de morte. Luisa estava ficando cada vez mais interessante.
Quantas vezes eu não pensara no assunto? Não como o suicida (tá, desse jeito também, todo adolescente cogita...), mas de um jeito bem pragmático, sem juízo de valor. E eu conhecia o drama desse tipo de adolescente: qualquer menção que se fizesse ao assunto já disparava alarmes nas cabeças de pais e professores, e às vezes você só queria se indagar sobre o assunto. Ou às vezes essa preocupação dos mais velhos só exacerbava um sentimento de isolamento e incompreensão que o adolescente sentia e o mergulhava mais fundo nos pensamentos de morte. Eu vi nisso uma chance dourada. A chance de, como alguém que já havia estado lá, poder dar o espaço para que ela falasse disso até esgotar o assunto, sem julgamento, sem alarme, como apenas um fato da vida. E calejar alguma dor que a estava corroendo.
Luísa me trouxe uma resposta inusitada. Um bom desenho de um palhaço com os dizeres "Palhaços mentem". Eu não soube ao certo o que tirar disso, mas acho que em um primeiro momento, importava mais a resposta que eu lhe daria. E entreguei um desenho em grafite sobre papel preto (o grafite fica claro no fundo escuro) de uma cabeça de um robô separada do corpo, flutuando desligada por esse nada. Os dizeres eram algo do tipo "Onde não há tempo nem espaço, pois não há corpo para os sentir." Tivemos uma breve conversa sobre essa ideia. Uma espécie de paz perene, a libertação do "não ser", depois que a máquina que era o nosso corpo fosse desligada. Sem céu, inferno e deidades julgadoras. Apenas um nada. Pleno e correto.
Na segunda rodada da brincadeira, a Mari apareceu. Uma amiga de outra sala que nos viu entregando os desenhos um para o outro e quis participar. Apesar de tão alta quanto a Luisa, ela não tinha chamado tanto a atenção pessoalmente. Eu a percebera no Facebook por ela ser uma otaku (and proud of it...). E depois, em aula, chamou a atenção pela qualidade da produção acadêmica, o intelecto desenvolvido o suficiente para apreciar abstração e experimentação com materiais. Mas a rigor, era outra garota grande com um temperamento tímido e voz baixa.
Nessa segunda rodada, apareceram temas como "mulher" (meu para a Luisa desenhar), "drogas" (da Luísa para a Mari) e "aparência" (da Mari para mim). E novamente, a Luísa me interessou. Eu lhe pedira para pensar em "mulher" para ver como ela se relacionava com a questão dos padrões de beleza e toda aquela besteira que traumatiza profundamente as adolescentes.
Ela me trouxe o desenho de um travesti e dizeres sobre estar em um corpo errado.
A terceira rodada está em andamento. E com duas participantes novas. Laura é uma terceira menina alta. Com um temperamento mais pesado (porém nunca violento). Revelou-me que é escritora além de desenhar (ah, as memórias da minha época de colégio...). Aparenta um profundo ceticismo em relação à vida, como alguém que já passou por mais do que deveria nessa idade. A outra é a oriental Kellen, a primeira garota pequena do grupo. Me parecia o ponto fora da curva, até lançar despudoradamente o tema de "câncer" para uma das meninas.
Nas reuniões de professores, os outros têm recebido bem a minha iniciativa, apesar de me acautelarem. Dizem que eu preciso ter uma boa noção do meu papel como professor. Eu não sou um terapeuta, eu não sou um potencial pretendente amoroso, eu não sou sequer um melhor amigo. Eu sou um professor. E elas precisam ter isso claro na cabeça. Dizem que há um limite para o quão íntimo eu posso ser delas sem receber nos ombros a responsabilidade pelas questões psicológicas delas.
Eu continuo defendendo que, em um ambiente desses, cheio de pressões (sociais, acadêmicas e biológicas), muita gente precisa ver na arte um espaço para descarregar o peso. Um espaço sem nenhum adulto entrando em pânico ao ouvir adolescente falar das questões brutais da vida (já existe a turma bem treinada do departamento de Orientação Educacional para isso).
Eu vejo principalmente na atitude da Laura que elas precisam de um espaço e uma experiência emocional que faça sentido para elas. Elas querem sentir alguma coisa. E taboadas, regras gramaticais e fatos históricos decorados para ganhar nota só as estão anestesiando mais.
Eu acho que é isso que deveria ser a aula de arte. Expressão irrestrita. Sem medo, sem censura e transgredindo os limites dos temas PG-13.
"Professor, me dá um assunto para eu desenhar?"
A ideia partiu de Luisa, uma das minhas alunas do 7º ano. Eu tinha percebido a Luísa atrás da classe. Ela era do tipo que se destacava. Grande, cabelo crespo, camiseta preta de banda de heavy metal. E no entanto, uma doçura e timidez incomparáveis. Ela já me mostrara personagens em um caderno e eu acho que tinha mostrado os postais da Butcher.
"Tá. Deixa eu pensar. Mas você me dá um assunto também?"
No fim da aula, havíamos começado algo curioso e muito interessante. Pensando em um outro exercício baseado em um poema das aulas de espanhol, lembrei que os alunos do 8º andavam me perguntando como representar em fotografia uma mentira. Então esse foi o tema que Luisa teria que desenhar para a semana seguinte. O tema que eu desenharia: uma ideia de morte. Luisa estava ficando cada vez mais interessante.
Quantas vezes eu não pensara no assunto? Não como o suicida (tá, desse jeito também, todo adolescente cogita...), mas de um jeito bem pragmático, sem juízo de valor. E eu conhecia o drama desse tipo de adolescente: qualquer menção que se fizesse ao assunto já disparava alarmes nas cabeças de pais e professores, e às vezes você só queria se indagar sobre o assunto. Ou às vezes essa preocupação dos mais velhos só exacerbava um sentimento de isolamento e incompreensão que o adolescente sentia e o mergulhava mais fundo nos pensamentos de morte. Eu vi nisso uma chance dourada. A chance de, como alguém que já havia estado lá, poder dar o espaço para que ela falasse disso até esgotar o assunto, sem julgamento, sem alarme, como apenas um fato da vida. E calejar alguma dor que a estava corroendo.
Luísa me trouxe uma resposta inusitada. Um bom desenho de um palhaço com os dizeres "Palhaços mentem". Eu não soube ao certo o que tirar disso, mas acho que em um primeiro momento, importava mais a resposta que eu lhe daria. E entreguei um desenho em grafite sobre papel preto (o grafite fica claro no fundo escuro) de uma cabeça de um robô separada do corpo, flutuando desligada por esse nada. Os dizeres eram algo do tipo "Onde não há tempo nem espaço, pois não há corpo para os sentir." Tivemos uma breve conversa sobre essa ideia. Uma espécie de paz perene, a libertação do "não ser", depois que a máquina que era o nosso corpo fosse desligada. Sem céu, inferno e deidades julgadoras. Apenas um nada. Pleno e correto.
Na segunda rodada da brincadeira, a Mari apareceu. Uma amiga de outra sala que nos viu entregando os desenhos um para o outro e quis participar. Apesar de tão alta quanto a Luisa, ela não tinha chamado tanto a atenção pessoalmente. Eu a percebera no Facebook por ela ser uma otaku (and proud of it...). E depois, em aula, chamou a atenção pela qualidade da produção acadêmica, o intelecto desenvolvido o suficiente para apreciar abstração e experimentação com materiais. Mas a rigor, era outra garota grande com um temperamento tímido e voz baixa.
Nessa segunda rodada, apareceram temas como "mulher" (meu para a Luisa desenhar), "drogas" (da Luísa para a Mari) e "aparência" (da Mari para mim). E novamente, a Luísa me interessou. Eu lhe pedira para pensar em "mulher" para ver como ela se relacionava com a questão dos padrões de beleza e toda aquela besteira que traumatiza profundamente as adolescentes.
Ela me trouxe o desenho de um travesti e dizeres sobre estar em um corpo errado.
A terceira rodada está em andamento. E com duas participantes novas. Laura é uma terceira menina alta. Com um temperamento mais pesado (porém nunca violento). Revelou-me que é escritora além de desenhar (ah, as memórias da minha época de colégio...). Aparenta um profundo ceticismo em relação à vida, como alguém que já passou por mais do que deveria nessa idade. A outra é a oriental Kellen, a primeira garota pequena do grupo. Me parecia o ponto fora da curva, até lançar despudoradamente o tema de "câncer" para uma das meninas.
Nas reuniões de professores, os outros têm recebido bem a minha iniciativa, apesar de me acautelarem. Dizem que eu preciso ter uma boa noção do meu papel como professor. Eu não sou um terapeuta, eu não sou um potencial pretendente amoroso, eu não sou sequer um melhor amigo. Eu sou um professor. E elas precisam ter isso claro na cabeça. Dizem que há um limite para o quão íntimo eu posso ser delas sem receber nos ombros a responsabilidade pelas questões psicológicas delas.
Eu continuo defendendo que, em um ambiente desses, cheio de pressões (sociais, acadêmicas e biológicas), muita gente precisa ver na arte um espaço para descarregar o peso. Um espaço sem nenhum adulto entrando em pânico ao ouvir adolescente falar das questões brutais da vida (já existe a turma bem treinada do departamento de Orientação Educacional para isso).
Eu vejo principalmente na atitude da Laura que elas precisam de um espaço e uma experiência emocional que faça sentido para elas. Elas querem sentir alguma coisa. E taboadas, regras gramaticais e fatos históricos decorados para ganhar nota só as estão anestesiando mais.
Eu acho que é isso que deveria ser a aula de arte. Expressão irrestrita. Sem medo, sem censura e transgredindo os limites dos temas PG-13.
segunda-feira, abril 09, 2012
Jogos Vorazes
Meu alunos no colégio só falam da trilogia Jogos Vorazes, e eu queria muito comentar a respeito, depois de ter visto o primeiro filme. Devo no entanto aproveitar a oportunidade para falar de várias outras coisas e fazer um amarrado do que tem se passado.
Cenas recentes.
Tive uma aula particularmente complicada com uma turma da 7ª série que não parecia minimamente interessada em saber das festas folclóricas nacionais que estávamos estudando. O assunto já fora trazido à equipe de professores: eu achava que os alunos, nascidos e criados em sua maioria nesta mesma cidade, não tinham motivos para se interessarem por festas folclóricas de longínquos estados do nordeste. E nem mesmo pelas festas dos estados mais próximos. Só mostravam alguma empatia ao falarmos de Festa Junina, e quando muito, do Bumba-meu-boi. Claro, a equipe me disse que, como educador, eu devia encontrar meios de fazer essas festas folclóricas parecerem interessantes. Ainda estou esperando sugestões de como fazer isso...
Às tantas, perdi a paciência e chamei a atenção da classe inteira. Um dos alunos, mais desinibido, interrompeu a bronca: "Mas professor, sem querer ofender, pra que é que nós temos que estudar arte?". Eu temia a pergunta mais do que a fatídica "de onde vem os bebês?" que eu teria que responder a qualquer filho meu. A verdade é que eu mesmo não sabia (das artes, não dos bebês...). Eu me graduara e fizera um mestrado em artes. Fizera-o por vontade, por gosto (diletantismo?). Mas no fundo, nunca havia visto o sentido nisso tudo. Eu fazia de coração, mas a cabeça não entendia. Essa mentalidade, sem dúvida advinda da minha educação neste mesmo colégio, voltada para questões práticas, úteis, eficientes, com certeza tivera seu impacto no quão pouco eu conseguira me dedicar seriamente (de corpo e alma) a uma carreira como artista plástico. Eu continuava preso fundamentalmente a uma pergunta parecida, embora elaborada de forma mais madura: "pra que gastar tempo, dinheiro e cérebro em uma prática que essencialmente não executa nenhum serviço prático?" Eu ainda via arte como uma brincadeira, um parlor trick. Dá pra ver porque é que eu nunca dei muito certo, né?
O colégio, claro, estava querendo mudar esse jeito de pensar. Percebera que uma educação voltada apenas às questões práticas gerava formandos excelentes no tocante a ganhar dinheiro, porém profundamente incomodados com um vazio interior que fortuna nenhuma preenchia. Posso dizer por causos de amigos próximos que as consequências desse vazio chegaram a ser fatais para pelo menos um colega meu... Eu era parte desse processo, cria dessa mentalidade: parecia adequado que eu, percebendo as falhas daquela formação anterior, ajudasse a apontar o caminho para a nova formação.
Eu pensei em muitas formas de responder essa questão do meu aluno. Pensei em falar de estatísticas, do quanto o mercado de arte faturava, para dar uma dimensão palpável, quantíficável, compreensível para esse jeito de pensar que o colégio já instilava nos alunos (e já na 7ª série...). Mas se ele podia fazer tanto ou mais dinheiro como um engenheiro ou advogado, isso de nada o convenceria. E de qualquer forma, estudar arte não o faria automaticamente um artista de sucesso (assim como estudar matemática não o faria automaticamente um engenheiro de sucesso, e etc.). Pensei em falar de identidade, mas isso por si só já era um caminho espinhento na minha própria história. Parte da minha família era do nordeste e nem por isso eu gostava da cultura do sertão. Fora atrás da minha origem italiana e acabara me identificando muito mais com a cultura britânica, da qual não tenho descendência alguma. Eu sentia que havia sim algo a dizer aí. Algo sobre como temos que conhecer nossas origens para poder questioná-las e encontrar nossa verdadeira identidade. Algo sobre como eu começara com origens nordestinas e já fora aos confins da Walachia procurar minha identidade entre os vampiros históricos da Romênia.
E por falar em vampiros, mencionei o clássico da Anne Rice a um dos outros professores depois das aulas. Ele me falou de workshops que aconteciam entre os professores, onde era explorado o sentimento que alguns dos mais velhos tinham de que os mais novos estavam chegando para tirar os seus lugares. Lembrei logo da cena em que Armand diz a Louis que ele receia que chegue a época em que ele, contando já 400 anos, não consiga mais acompanhar as mudanças do mundo. E em seguida, pede que Louis, um vampiro recém-criado, seja seu elo de ligação com a época atual. No entanto, Armand continua tendo sua relevância, ao contar a Louis sobre a moral dos vampiros mais velhos, e porque eles tentarão matar sua pequena Cláudia, transformada em vampira ainda na infância.
Saíndo do colégio naquele dia, mencionei que Entrevista com o Vampiro talvez tivesse sido o Jogos Vorazes da minha época (dizer "na minha época" com 30 anos de idade ainda parece um anacronismo?). Foi pelo menos um dos contos que fizeram a cabeça de muita gente mais adepta à subcultura gótica. Eu poderia escrever largamente sobre como a história tem muito mais densidade do que qualquer das sagas mais recentes, mas minha opinião seria claramente enviesada. Os livros de Rice foram adequados a uma espécie de "revival" do gótico da minha geração de adolescentes. Porém tenho que admitir que Jogos Vorazes faz sim muito mais sentido para uma geração adolescente que já acompanha mais de uma dezena de edições do Big Brother e a grotesca cadeia de eventos televisionados que começou com o 11 de Setembro e hoje nos traz imagens de um país invadido e subjugado que não teve nada a ver com o assunto.
Então vamos ao que interessa: como que Jogos Vorazes me ajudará a responder a questão do meu aluno e trazer o estudo de artes para algo mais concreto para eles?
A resposta está na crítica.
A mais nova saga adolescente mostra um grupo de 24 jovens, dois de cada distrito do país fictício Panem, sendo colocados em uma arena para lutar entre si até só restar um. A carnificina é televisionada em uma espécie de reality show para uma população futurista de um distrito hierarquicamente superior que é totalmente apática ao fato de que são adolescentes de 13 a 18 anos abatendo uns aos outros como animais. Tudo isso sob um pretexto fraco e inverossímil de que a doação desses jovens como "Tributos" para o distrito superior inexplicavelmente fará com que os distritos subjugados desistam da idéia de organizar outro levante armado contra o superior. É, eu também não entendi a lógica nisso...
O que deu pra entender, e que eu acho que talvez seja a pouca parte louvável da saga, foi a crítica dupla sendo feita na história. A escritora Suzanne Collins disse em uma entrevista que teve a idéia para o livro enquanto mudava de canais na TV, entre um reality show e notícias da guerra do Iraque. A primeira crítica está no reality show no livro dela, que assim como as versões mais recentes do Big Brother, é mais "show" do que "reality". Eles nos trazem participantes que estão cientes demais de como manipular o público do outro lado da tela pode ser uma estratégia mais eficaz do que insistir na realidade do que está acontecendo do lado deles, na arena/casa dos Brothers. Há cada vez mais relacionamentos de fachada e polêmicas desnecessárias em prol de alavancar simpatia do público. Onde foi parar o "reality" de um grupo de pessoas sendo elas mesmas? Jogos Vorazes retrata isso, na medida em que a personagem principal encena um relacionamento de fachada para ganhar apoio do público, que pode lhe "patrocinar" ítens de sobrevivência dentro da arena; e na medida em que os organizadores do jogo moldam a imagem pública dela para tirar proveito disso.
Os organizadores do reality show talvez sejam o maior alvo desta crítica. No filme, eles mudam regras de forma cínica, manipulam o ambiente e os jogadores, tudo para cativar ainda mais o público. Mais uma vez, não há "reality", só o "show". Eles não deixam as coisas acontecerem naturalmente. No Big Brother e derivados, a coisa não é muito diferente (tá legal, não tem armas, bolas de fogo ou cães do inferno...). Já imaginou o que aconteceria se todos os "brothers" fossem colocados na casa e todo mundo se desse muito bem e não houvesse conflito? O programa seria um porre, com muito mais choradeira na hora em que um dos novos BFFs fosse eliminado por regras do jogo. Os organizadores precisam fomentar a discórdia, as rivalidades, o conflito. Eles precisam criar mocinhos e bandidos, mesmo que isso seja claramente artificial.
Quem assiste Jogos Vorazes deveria estar ciente de que os organizadores querem vender um determinado perfil que leva ao sucesso. O Big Brother não é diferente. E é por isso que a grande maioria dos participantes são rapazes bombados e garotas curvilíneas. Vez por outra, há um negro, um homossexual, uma gordinha ou um participante mais velho para dizer que o programa está contemplando todo tipo de gente, e até acontece de algum deles vencer de vez em quando, mas não dá pra negar que o perfil de sucesso sendo vendido pelos programas é o da beleza física.
A segunda crítica da história é relativa à guerra do Iraque. Na história, o distrito hierarquicamente superior venceu a guerra civil contra os outros distritos por ter tecnologia superior. Depois instituiu esse regime de "pão e circo" aos outros distritos e a seus próprios habitantes, mantendo-os distraídos com um programa de televisão. Os distritos vencidos são retratados lugares de baixa tecnologia, de pessoas com roupas pobres passando necessidade. Enquanto que o distrito superior tem cores, luzes, pessoas com cabelos impraticáveis e apelo pop. Lembra um pouco o Oriente Médio e os EUA, não? Interessante ver que a história está sendo escrita por uma americana, mas coloca os EUA simbólicos como os vilões da história. Na verdade, não é o primeiro filme a fazer críticas severas contra o imperialismo americano. Mas é legal ver cada vez mais filmes deixando claro que nem os americanos estão mais acreditando nessa de "luta contra o terrorismo".
Mais do que tudo, o livro serve como um aviso à geração adolescente que ficou fascinada por ele: prestem atenção, vocês estão sendo sedados pela mídia. Acordem!
O formidável aqui é que esse aviso está sendo veiculado através de um livro que virou best-seller e gerou um blockbuster adolescente nos cinemas. Ou seja, o aviso contra a mídia está sendo veiculado na própria mídia. E o sistema o veicula tranquilamente, crente de que o público já está tão sedado que nem vai perceber a crítica.
Termino este texto prolixo lembrando de uma passagem do filme onde um dos personagens diz que, se ninguém assistisse aos Jogos Vorazes, o programa e a doação de "Tributos" perderiam seu sentido e seriam cancelados. Seria maravilhoso poder fazer isso com um programa na vida real que já teve mais de uma dezena de edições e perdeu totalmente o seu sentido...
Cenas recentes.
Tive uma aula particularmente complicada com uma turma da 7ª série que não parecia minimamente interessada em saber das festas folclóricas nacionais que estávamos estudando. O assunto já fora trazido à equipe de professores: eu achava que os alunos, nascidos e criados em sua maioria nesta mesma cidade, não tinham motivos para se interessarem por festas folclóricas de longínquos estados do nordeste. E nem mesmo pelas festas dos estados mais próximos. Só mostravam alguma empatia ao falarmos de Festa Junina, e quando muito, do Bumba-meu-boi. Claro, a equipe me disse que, como educador, eu devia encontrar meios de fazer essas festas folclóricas parecerem interessantes. Ainda estou esperando sugestões de como fazer isso...
Às tantas, perdi a paciência e chamei a atenção da classe inteira. Um dos alunos, mais desinibido, interrompeu a bronca: "Mas professor, sem querer ofender, pra que é que nós temos que estudar arte?". Eu temia a pergunta mais do que a fatídica "de onde vem os bebês?" que eu teria que responder a qualquer filho meu. A verdade é que eu mesmo não sabia (das artes, não dos bebês...). Eu me graduara e fizera um mestrado em artes. Fizera-o por vontade, por gosto (diletantismo?). Mas no fundo, nunca havia visto o sentido nisso tudo. Eu fazia de coração, mas a cabeça não entendia. Essa mentalidade, sem dúvida advinda da minha educação neste mesmo colégio, voltada para questões práticas, úteis, eficientes, com certeza tivera seu impacto no quão pouco eu conseguira me dedicar seriamente (de corpo e alma) a uma carreira como artista plástico. Eu continuava preso fundamentalmente a uma pergunta parecida, embora elaborada de forma mais madura: "pra que gastar tempo, dinheiro e cérebro em uma prática que essencialmente não executa nenhum serviço prático?" Eu ainda via arte como uma brincadeira, um parlor trick. Dá pra ver porque é que eu nunca dei muito certo, né?
O colégio, claro, estava querendo mudar esse jeito de pensar. Percebera que uma educação voltada apenas às questões práticas gerava formandos excelentes no tocante a ganhar dinheiro, porém profundamente incomodados com um vazio interior que fortuna nenhuma preenchia. Posso dizer por causos de amigos próximos que as consequências desse vazio chegaram a ser fatais para pelo menos um colega meu... Eu era parte desse processo, cria dessa mentalidade: parecia adequado que eu, percebendo as falhas daquela formação anterior, ajudasse a apontar o caminho para a nova formação.
Eu pensei em muitas formas de responder essa questão do meu aluno. Pensei em falar de estatísticas, do quanto o mercado de arte faturava, para dar uma dimensão palpável, quantíficável, compreensível para esse jeito de pensar que o colégio já instilava nos alunos (e já na 7ª série...). Mas se ele podia fazer tanto ou mais dinheiro como um engenheiro ou advogado, isso de nada o convenceria. E de qualquer forma, estudar arte não o faria automaticamente um artista de sucesso (assim como estudar matemática não o faria automaticamente um engenheiro de sucesso, e etc.). Pensei em falar de identidade, mas isso por si só já era um caminho espinhento na minha própria história. Parte da minha família era do nordeste e nem por isso eu gostava da cultura do sertão. Fora atrás da minha origem italiana e acabara me identificando muito mais com a cultura britânica, da qual não tenho descendência alguma. Eu sentia que havia sim algo a dizer aí. Algo sobre como temos que conhecer nossas origens para poder questioná-las e encontrar nossa verdadeira identidade. Algo sobre como eu começara com origens nordestinas e já fora aos confins da Walachia procurar minha identidade entre os vampiros históricos da Romênia.
E por falar em vampiros, mencionei o clássico da Anne Rice a um dos outros professores depois das aulas. Ele me falou de workshops que aconteciam entre os professores, onde era explorado o sentimento que alguns dos mais velhos tinham de que os mais novos estavam chegando para tirar os seus lugares. Lembrei logo da cena em que Armand diz a Louis que ele receia que chegue a época em que ele, contando já 400 anos, não consiga mais acompanhar as mudanças do mundo. E em seguida, pede que Louis, um vampiro recém-criado, seja seu elo de ligação com a época atual. No entanto, Armand continua tendo sua relevância, ao contar a Louis sobre a moral dos vampiros mais velhos, e porque eles tentarão matar sua pequena Cláudia, transformada em vampira ainda na infância.
Saíndo do colégio naquele dia, mencionei que Entrevista com o Vampiro talvez tivesse sido o Jogos Vorazes da minha época (dizer "na minha época" com 30 anos de idade ainda parece um anacronismo?). Foi pelo menos um dos contos que fizeram a cabeça de muita gente mais adepta à subcultura gótica. Eu poderia escrever largamente sobre como a história tem muito mais densidade do que qualquer das sagas mais recentes, mas minha opinião seria claramente enviesada. Os livros de Rice foram adequados a uma espécie de "revival" do gótico da minha geração de adolescentes. Porém tenho que admitir que Jogos Vorazes faz sim muito mais sentido para uma geração adolescente que já acompanha mais de uma dezena de edições do Big Brother e a grotesca cadeia de eventos televisionados que começou com o 11 de Setembro e hoje nos traz imagens de um país invadido e subjugado que não teve nada a ver com o assunto.
Então vamos ao que interessa: como que Jogos Vorazes me ajudará a responder a questão do meu aluno e trazer o estudo de artes para algo mais concreto para eles?
A resposta está na crítica.
A mais nova saga adolescente mostra um grupo de 24 jovens, dois de cada distrito do país fictício Panem, sendo colocados em uma arena para lutar entre si até só restar um. A carnificina é televisionada em uma espécie de reality show para uma população futurista de um distrito hierarquicamente superior que é totalmente apática ao fato de que são adolescentes de 13 a 18 anos abatendo uns aos outros como animais. Tudo isso sob um pretexto fraco e inverossímil de que a doação desses jovens como "Tributos" para o distrito superior inexplicavelmente fará com que os distritos subjugados desistam da idéia de organizar outro levante armado contra o superior. É, eu também não entendi a lógica nisso...
O que deu pra entender, e que eu acho que talvez seja a pouca parte louvável da saga, foi a crítica dupla sendo feita na história. A escritora Suzanne Collins disse em uma entrevista que teve a idéia para o livro enquanto mudava de canais na TV, entre um reality show e notícias da guerra do Iraque. A primeira crítica está no reality show no livro dela, que assim como as versões mais recentes do Big Brother, é mais "show" do que "reality". Eles nos trazem participantes que estão cientes demais de como manipular o público do outro lado da tela pode ser uma estratégia mais eficaz do que insistir na realidade do que está acontecendo do lado deles, na arena/casa dos Brothers. Há cada vez mais relacionamentos de fachada e polêmicas desnecessárias em prol de alavancar simpatia do público. Onde foi parar o "reality" de um grupo de pessoas sendo elas mesmas? Jogos Vorazes retrata isso, na medida em que a personagem principal encena um relacionamento de fachada para ganhar apoio do público, que pode lhe "patrocinar" ítens de sobrevivência dentro da arena; e na medida em que os organizadores do jogo moldam a imagem pública dela para tirar proveito disso.
Os organizadores do reality show talvez sejam o maior alvo desta crítica. No filme, eles mudam regras de forma cínica, manipulam o ambiente e os jogadores, tudo para cativar ainda mais o público. Mais uma vez, não há "reality", só o "show". Eles não deixam as coisas acontecerem naturalmente. No Big Brother e derivados, a coisa não é muito diferente (tá legal, não tem armas, bolas de fogo ou cães do inferno...). Já imaginou o que aconteceria se todos os "brothers" fossem colocados na casa e todo mundo se desse muito bem e não houvesse conflito? O programa seria um porre, com muito mais choradeira na hora em que um dos novos BFFs fosse eliminado por regras do jogo. Os organizadores precisam fomentar a discórdia, as rivalidades, o conflito. Eles precisam criar mocinhos e bandidos, mesmo que isso seja claramente artificial.
Quem assiste Jogos Vorazes deveria estar ciente de que os organizadores querem vender um determinado perfil que leva ao sucesso. O Big Brother não é diferente. E é por isso que a grande maioria dos participantes são rapazes bombados e garotas curvilíneas. Vez por outra, há um negro, um homossexual, uma gordinha ou um participante mais velho para dizer que o programa está contemplando todo tipo de gente, e até acontece de algum deles vencer de vez em quando, mas não dá pra negar que o perfil de sucesso sendo vendido pelos programas é o da beleza física.
A segunda crítica da história é relativa à guerra do Iraque. Na história, o distrito hierarquicamente superior venceu a guerra civil contra os outros distritos por ter tecnologia superior. Depois instituiu esse regime de "pão e circo" aos outros distritos e a seus próprios habitantes, mantendo-os distraídos com um programa de televisão. Os distritos vencidos são retratados lugares de baixa tecnologia, de pessoas com roupas pobres passando necessidade. Enquanto que o distrito superior tem cores, luzes, pessoas com cabelos impraticáveis e apelo pop. Lembra um pouco o Oriente Médio e os EUA, não? Interessante ver que a história está sendo escrita por uma americana, mas coloca os EUA simbólicos como os vilões da história. Na verdade, não é o primeiro filme a fazer críticas severas contra o imperialismo americano. Mas é legal ver cada vez mais filmes deixando claro que nem os americanos estão mais acreditando nessa de "luta contra o terrorismo".
Mais do que tudo, o livro serve como um aviso à geração adolescente que ficou fascinada por ele: prestem atenção, vocês estão sendo sedados pela mídia. Acordem!
O formidável aqui é que esse aviso está sendo veiculado através de um livro que virou best-seller e gerou um blockbuster adolescente nos cinemas. Ou seja, o aviso contra a mídia está sendo veiculado na própria mídia. E o sistema o veicula tranquilamente, crente de que o público já está tão sedado que nem vai perceber a crítica.
Termino este texto prolixo lembrando de uma passagem do filme onde um dos personagens diz que, se ninguém assistisse aos Jogos Vorazes, o programa e a doação de "Tributos" perderiam seu sentido e seriam cancelados. Seria maravilhoso poder fazer isso com um programa na vida real que já teve mais de uma dezena de edições e perdeu totalmente o seu sentido...
terça-feira, março 27, 2012
Caught in the undertow
Em inglês, usa-se a expressão stream of consciousness geralmente para falar do fluir das idéias, do modo como uma leva à outra, às vezes se fundindo em um raciocínio rápido e que não necessariamente segue uma lógica coerente. "Stream", aliás, é palavra usada para designar um riacho.
Pois bem, eis um exemplo típico do meu stream of consciousness atual:
Acho que eu consigo me planejar para ir comprar talheres e copos lá na 25 de Março na terça de manhã. Bom, primeiro tenho que passar no apartamento para pegar o carro: acho que deixá-lo no eletricista e pegar no fim do dia. Vejamos: um ônibus até o metro, e do metrô para a 25. Será que eu tenho crédito no Bilhete Único? Preciso estar de volta antes das 15:00 para avaliar as últimas apresentações dos meus alunos da 9a série. Ai, para tudo! Vou precisar chegar no colégio uma hora mais cedo porque esqueci de publicar na internet o gabarito do exercício que passei! Tem Wi-fi por aqui? A outra professora deve ter me mandado as respostas que ela montou. Eu sei que não vou conseguir publicar isso de casa porque hoje tenho que terminar a tradução. Peraí... Hoje tem tradução? Eu vejo isso depois. Melhor deixar uma nota no celular, ou eu vou esquecer. Aliás, já esqueci de ligar para o pessoal daquele cheque que voltou! Hoje era o último dia. Será que meu nome foi para o Serasa? A última vez que eu falei com eles foi ontem, nos intervalos das aulas de licenciatura. E por falar nisso, eu ainda não comecei aquela pesquisa sobre os diferentes tipos de escola para a aula de didática. E quando que eu vou marcar a reunião com o diretor do colégio pra falar da filosofia de ensino para essa pesquisa? A secretária dele falou pra ver um horário depois do almoço. Almoço! Eu ainda não marquei o almoço com a Bia que me escreveu. Ou o happy hour com o Laerte, que me ligou. Nem a visita à Nana pra pegar as caixas para a minha mudança. Sem falar da passada na casa do meu irmão, pra pegar o meu microfone para as aulas. Bom, no fim de semana não dá, porque tem encontro com a equipe de educação artística e com aquele filósofo/artista. Aliás, que pinturas legais as dele! E o meu ateliê continua cheio de caixas que não são minhas e com a poeira e o abandono de um ano inteiro... Aproveito quando for lá pra passar um tempo com a vovó. Poxa, estou devendo uma visita à outra vovó também! Tô morrendo de vontade de passar um tempo com elas, limpar o ateliê e voltar a pintar aquele papel giantesco que eu trouxe de Londres. Falando em afazeres artísticos, preciso terminar o desenho que eu ia mostrar para as 6as séries... E Londres! Ainda não comprei a passagem para Julho, para a cerimônia de graduação do mestrado! Pelo menos a inscrição já tá feita. Que horas são agora? Acho que ainda dá tempo de... o que é que eu ia fazer agora?
Há alguns dias, ocorreu-me o pensamento perturbador de que eu tinha deixado a publicidade porque ela estava comendo a minha vida e me deixando em um estado morto no qual eu não tinha tempo ou energia para as coisas que realmente me importavam; e que a nova rotina entre colégio, traduções, sair da casa dos pais, licenciatura e empreitadas artísticas estaria me matando do mesmo jeito. Resolvi essa angústia pensando que a publicidade me matava em prol de algo completamente irrelevante para a minha vida (e a dos outros...). A minha atual rotina pelo menos tem um sabor utilitário, relevante, pertinente. Um sabor mais acentuado de satisfação pessoal. E afinal, a única outra alternativa para esse "morrer" é eximir-me de toda e qualquer responsabilidade e não cultivar ambição alguma na vida.
Mas isso seria pior do que esse lento morrer (verbo - um pocesso). Isso seria estar morto (adjetivo - algo acabado).
Pois bem, eis um exemplo típico do meu stream of consciousness atual:
Acho que eu consigo me planejar para ir comprar talheres e copos lá na 25 de Março na terça de manhã. Bom, primeiro tenho que passar no apartamento para pegar o carro: acho que deixá-lo no eletricista e pegar no fim do dia. Vejamos: um ônibus até o metro, e do metrô para a 25. Será que eu tenho crédito no Bilhete Único? Preciso estar de volta antes das 15:00 para avaliar as últimas apresentações dos meus alunos da 9a série. Ai, para tudo! Vou precisar chegar no colégio uma hora mais cedo porque esqueci de publicar na internet o gabarito do exercício que passei! Tem Wi-fi por aqui? A outra professora deve ter me mandado as respostas que ela montou. Eu sei que não vou conseguir publicar isso de casa porque hoje tenho que terminar a tradução. Peraí... Hoje tem tradução? Eu vejo isso depois. Melhor deixar uma nota no celular, ou eu vou esquecer. Aliás, já esqueci de ligar para o pessoal daquele cheque que voltou! Hoje era o último dia. Será que meu nome foi para o Serasa? A última vez que eu falei com eles foi ontem, nos intervalos das aulas de licenciatura. E por falar nisso, eu ainda não comecei aquela pesquisa sobre os diferentes tipos de escola para a aula de didática. E quando que eu vou marcar a reunião com o diretor do colégio pra falar da filosofia de ensino para essa pesquisa? A secretária dele falou pra ver um horário depois do almoço. Almoço! Eu ainda não marquei o almoço com a Bia que me escreveu. Ou o happy hour com o Laerte, que me ligou. Nem a visita à Nana pra pegar as caixas para a minha mudança. Sem falar da passada na casa do meu irmão, pra pegar o meu microfone para as aulas. Bom, no fim de semana não dá, porque tem encontro com a equipe de educação artística e com aquele filósofo/artista. Aliás, que pinturas legais as dele! E o meu ateliê continua cheio de caixas que não são minhas e com a poeira e o abandono de um ano inteiro... Aproveito quando for lá pra passar um tempo com a vovó. Poxa, estou devendo uma visita à outra vovó também! Tô morrendo de vontade de passar um tempo com elas, limpar o ateliê e voltar a pintar aquele papel giantesco que eu trouxe de Londres. Falando em afazeres artísticos, preciso terminar o desenho que eu ia mostrar para as 6as séries... E Londres! Ainda não comprei a passagem para Julho, para a cerimônia de graduação do mestrado! Pelo menos a inscrição já tá feita. Que horas são agora? Acho que ainda dá tempo de... o que é que eu ia fazer agora?
Há alguns dias, ocorreu-me o pensamento perturbador de que eu tinha deixado a publicidade porque ela estava comendo a minha vida e me deixando em um estado morto no qual eu não tinha tempo ou energia para as coisas que realmente me importavam; e que a nova rotina entre colégio, traduções, sair da casa dos pais, licenciatura e empreitadas artísticas estaria me matando do mesmo jeito. Resolvi essa angústia pensando que a publicidade me matava em prol de algo completamente irrelevante para a minha vida (e a dos outros...). A minha atual rotina pelo menos tem um sabor utilitário, relevante, pertinente. Um sabor mais acentuado de satisfação pessoal. E afinal, a única outra alternativa para esse "morrer" é eximir-me de toda e qualquer responsabilidade e não cultivar ambição alguma na vida.
Mas isso seria pior do que esse lento morrer (verbo - um pocesso). Isso seria estar morto (adjetivo - algo acabado).
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