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sábado, dezembro 12, 2015


Faleceu na madrugada de hoje, dia 12/12/2015, aos 89 anos, minha avó Nydia Licia Pincherle Cardoso

Qualquer um que escrevesse este texto falaria da carreira dela. Eu acho essa uma tarefa ingrata. Frequentemente eu mesmo me cobro de ter que saber tudo a respeito da minha avó e meu avô, por acreditar que só assim eu mostro o respeito devido às lendas que eles foram. E que lendas que eles foram! Leiam as matérias de imprensa, leiam os sites, a Enciclopédia Itaú Cultural, leiam os livros da Coleção Aplauso! Leiam a autobiografia dela. Se é informação que vocês procuram, não peçam pra mim. Eu não vou saber ser objetivo. Eu não sou historiador, e muitas outras pessoas muito mais sérias devem ter feito pesquisas muito mais completas do que o meu conhecimento deles, tendo mais propriedade pra falar da vida deles do que eu. Eu sou só o neto. Mas talvez por isso mesmo, por ter convivido com ela como neto, e por ter um gosto pela escrita, que me escolheram para este texto. Eu mesmo teria exigido estar nesta posição, para poder honrar ela apropriadamente. Porque daqui, dá pra falar da Nydia como pessoa. Uma coisa, por exemplo, que eu jamais vou poder experimentar a respeito do meu avô Sérgio, de quem sobrou para mim apenas a lenda do teatro. E embora seja importante misturar nesse meu texto a memória da atriz Nydia Licia, eu quero falar da minha avó. Eu acho que isso tem mais valor e mais da alma dela pra mim. Vovó Dona Nydia, como passei a chama-la quando pequeno, ao ouvir uma cozinheira chama-la assim.

Vovó Dona Nydia nasceu em Trieste, 30 de Março de 1926. Filha de Giacomo Giuseppe Pincherle, médico especializado no tratamento de tuberculose; e Alice Schwarzkopf, preparadora vocal de cantores de ópera. Vejam bem, uma pessoa ligada à medicina e outra ligada às artes. Talvez daí tenha surgido um padrão na família comparável àquela família do 100 anos de Solidão, um intercalar-se de artistas como nós, netos da Nydia artista, e médicos de tuberculose, como sua filha Sylvia. E talvez por isso que Trieste sempre me pareceu uma terra mística. Onde cantores de ópera meio tísicos ensinavam lendas germanas às crianças através de espetáculos musicais, enquanto tratavam seus pulmões entre o pinheiral da “Pineta del Carso”, o sanatório de meu bisavô. Uma terra que já estava tão ao norte da Itália, quase na fronteira com a Áustria, que havia impresso na vó Dona Nydia aqueles cabelos loiros e olhos claros, o porte e os modos germânicos contidos, e uma infância repleta de um folklore europeu alpino, bem diferente do que eu percebia como italiano. Era a terra do Bora, o vento de inverno que chegava a 200 km/h e gelava apenas um lado das árvores, varrendo pedestres das ruas e dobrando placas. Eu visitei essa Trieste em 2006, passeei pelas colinas e tirei uma foto atendendo ao pedido de minha avó, que me disse para “beijar o mar” dela, o Adriático. Ela não visitava Trieste desde a década de 70 ou 80.
Mais tarde na vida, eu soube de outra Trieste. A que não podia existir no mesmo lugar físico do que aquela terra mística da vó Dona Nydia. Devia ser outra coisa, em uma dimensão paralela na qual nem o Bora ou a ópera chegavam. Da qual trens partiam cheios de italianos para campos de concentração fora do país. E na qual um médico judeu tinha que vender a preço irrisório um dos hospitais mais respeitados da região. Foi dos horrores dessa realidade paralela que eles fugiram para o  Brasil.
Eles largaram tudo na Itália e vieram para este lado do Atlântico. Eu sei que essa história já não é nova, muita gente aqui tem uma história dessas na família. Então eu pulo os pormenores e vou a dois pontos que interessam. Primeiramente, esse lento recomeçar do nada me ensinou quando adulto que bens materiais são só coisas. Que a vida pode ser mais simples. Que importa mais quem você é e não o que você tem. Ela vivia uma vida pacata e simples nestes anos mais recentes, mas vejam o impacto que ela causou. Ela vivia em uma vila pequena e escondida, sem alardes, mas tinha o porte físico, a dicção e a distinção de uma diva. Ela não tinha, ela era. Em segundo lugar, e talvez a ideia que mais me deleite, ela fugiu dos regimes totalitários europeus e, assim como muitos daqueles fugitivos, viveu até quase 90 anos de idade. Sobreviveu a muitos dos que seriam seus captores. E não apenas sobreviveu: ela veio para o Brasil, e com Pietro Maria Bardi, participou do começo do MASP, conhecendo Di Cavalcanti, Oswald de Andrade, Flávio de Carvalho, Aldemir Martins, Marcelo Grassmann, Lasar Segall, Tarsila do Amaral, Menotti Del Picchia... A lista é enorme. Porém mais importante: foram artistas modernos. E o teatro que surgiu do contato com essa cena cultural era um teatro moderno. Entende? Foram artistas da “arte degenerada” que os regimes totalitários tentaram obliterar. Ela ter vivido até quase 90 anos e contribuído para a solidificação da arte moderna no Brasil foi seu último chute no traseiro do nazi-fascismo.

Mas como eu disse, dessa Nydia Licia para a vovó Dona Nydia, há uma separação tão imensa que eu preciso fazer essa separação até aqui, no texto. Eu conheci uma outra pessoa, que eu queria relembrar pra vocês. A única ligação dela com a Nydia Licia é uma memória distante na minha infância da década de 80, de saber que ela viajava de avião entre o Rio e São Paulo. Eu não sabia o que ela fazia no Rio, sabia apenas que era “coisa de atriz”. Mas ela vinha direto para nosso apartamento do lado do aeroporto, trazendo um punhado de sachês com mel que eram oferecidos no café da manhã do vôo, e dava de colherzinha para mim e para meu irmão João. De volta à casa dela na vila, ela transformava esse hábito de nos adoçar a vida em uma brincadeira doce de esconder chocolates na sala e nos guiar até eles pelo “quente ou frio”. E nossos olhos passeavam por aquela casa! Por estantes lotadas de livros em diversos idiomas, por quadros que fizeram parte de minha educação visual e que anos mais tarde eu saberia serem esboços de cenário, por aquarelas da mãe dela, por móveis ornados de estilos diferentes e às vezes conflitantes. Tudo parecia ter uma história. E tudo, embora de cores diversas, me lembrava um tom de bege meio dourado. Era o tom dela, dos móveis dela, das roupas dela. É difícil explicar sinestesia, mas era o tom até do perfume dela: um daqueles perfumes numerados específicos, 4711. Um perfume que combinava com seu gesto de usar seus casacos por cima dos ombros, sem de fato vestir as mangas. Um perfume que combinava com seus gestos e serenidade meio felinos. Ela adorava gatos, e os da vila a recebiam como uma deles. Como a rainha deles. Acho que vou lembrar dela no olhar de todos os gatos. Na memória infantil de minha mãe, que tantas vezes havia sido colocada para dormir ninada pela canção de Tutu Marambá cantada por minha avó, ela assumia essa identidade deste gato que cantava nos telhados à noite. Não era muito distante da realidade da Nydia Licia que ninava sua garotinha antes de sair para a peça da noite na Companhia Nydia Licia-Sérgio Cardoso. E por essa identificação, sempre a chamava de . A simplificação monossilábica de gato? Ou a corruptela infantil de Tutu Marambá?

Acima de tudo, minha memória mais acessível da vovó Dona Nydia era sua paixão pelo natal. Embora judia, ela adorava o natal. Época em que ela trazia a mim e meu irmão para perto dela e lia os épicos contos de natal da Turma do Mickey que parodiavam o Guerra nas Estrelas, ou a coleção de Asterix que ela adorava. Hoje me pergunto por que ela não lia os contos germanos de sua infância. Nos finais de ano, a casa dela enchia-se da fragrância de pinheiro, quando ela mandava trazer um pinheiro de verdade para colocar no canto da sala dela. Ela o decorava com toda sua extensa coleção de adornos natalinos, de origens e estilo diversos. Na noite após a montagem da árvore, ela apagava as luzes da sala e acendia velas fixadas na árvore. E então eu e meu irmão caçávamos entre as bolotas coloridas os peixinhos de chocolate embrulhados em papel alumínio que ela conseguia das freiras morando perto da casa dela. Havia algo muito adequado para a época de festas e desejos de paz no fato desta judia confraternizar com freiras católicas e montar aquela árvore que enchia sua sala de presença. Nos anos mais recentes, ela delegava funções: meu irmão, o engenheiro, balanceava a árvore amarrando-a com fios de nylon para evitar desastres enquanto eu, o artista plástico, montava o “presépio da lareira”. Dito assim entre aspas porque não era um presépio mesmo. Ela tirava tudo de sua lareira desativada e deixava-me construir alguma cena festiva com os enfeites natalinos antes mesmo de enfeitar a árvore. Meu presépio tinha primazia criativa. Esse mashup de referências natalinas faziam dela uma pessoa que, aos 89 anos, continuava sendo totalmente atual, até mesmo fortemente pós moderna. O pós moderno é esta justaposição descompromissada de referências que, mesmo divergentes, chegam em uma coerência estética. O natal dela era pós moderno.
Ela sempre me incentivou como artista. Talvez tenha lhe faltado pulso para fazer de mim um ator. A família sabe que eu demonstrei interesse. Ou talvez, do jeito dela, ela tenha preferido me dar liberdade para ser o artista que eu quisesse ser. João tornou-se músico e ela foi sua preparadora vocal, seguindo os passos da mãe. Eu tornei-me artista plástico e ela me deu um quarto na casa dela que passou a ser meu ateliê. Já com dificuldade de subir a escada escorregadia até ele, vovó me interrompia no meio da tarde para que eu descesse para uma xícara de cappuccino instantâneo e contos de sua vida épica. Ela sabia, mais do que ninguém e mesmo que o jogo hoje fosse outro, o que era ser um artista jovem, ainda ingênuo, em início de carreira. E talvez aqui esteja condensada toda a falta que ela vai me fazer: avó, referência histórica, mentora artística, mecenas e até merendeira. Que vácuo enorme para preencher...

Quando eu era bem criança, cinco anos de idade, eu tive um sonho do qual ainda me lembro. Por um motivo besta que não convém contar,  eu havia morrido e ido para o céu. O céu do meu sonho era um lugar à meia-luz. Uma coxia de teatro (embora na época eu não soubesse o que ou como era uma coxia), com luzes apagadas e a pouca iluminação vinda de algum lá fora qualquer. A impressão era mesmo de um teatro ocioso, sem peças sendo encenadas. Eu via muitas cordas, madeira e dobradiças, enquanto era levado por alguma presença desconhecida para perto de uma figura sentada lá no canto. Uma figura que eu inexplicavelmente sabia ser o meu avô, sentada em um banquinho em frente a um tabuleiro de xadrez. Como eu já disse, nunca conheci o Sérgio de verdade, que não fosse a lenda do teatro. E portanto desconheço se ele jogava xadrez. Ele me disse para ficar quietinho. Porque ali, todo mundo estava relaxando, ficando quietinho. Na monotonia dos adultos, que as crianças ainda não entendem, eu me distraía observando meu avô. Não seu rosto, que eu não conhecia de verdade no mundo real, mas observando as asas dele. Um par meio mambembe de asas de madeira. Operadas com cordas, polias e dobradiças. Asas de teatro, que ele operava comicamente de vez em quando. E nesse faz de conta gostoso de adulto, de saber que a realidade é outra mas querer brincar de acreditar na fantasia, eu fico visualizando essa imagem da vovó Dona Nydia chegando nessa coxia no céu. Não a vovó Dona Nydia, mas a Nydia linda e capaz da década de 50. Pra sentar junto do meu avô do outro lado da mesa de xadrez e ficar quietinha. Operando vez por outra seu par de asinhas de teatro.


Para sempre Vovó Dona Nydia. Para sempre .

sábado, junho 14, 2014

Para Bárbara, sobre depressão


Dia desses recebi a notícia de que uma aluna do Colégio não estava mais vindo às aulas devido a um caso bem sério de depressão. Ela não tem Facebook e eu não tive outro meio de entrar em contato com ela, mas queria muito escrever para ela. Pensei em escrever por aqui e torcer para que, de boca em boca, esta mensagem chegasse até ela de alguma maneira. Depois percebi que estava escrevendo não só para ela, mas para muitos casos de adolescentes com os quais entro em contato, e que estão passando por coisas assim. 

Eu mesmo nunca tive depressão. Pelo menos nada mais sério do que os pensamentos de morte comuns da adolescência. E demorou muito tempo até que eu entendesse o que era este enorme cachorro preto. Eu precisei de filmes como "Melancholia" (Lars von Trier) e a convivência íntima com amigos vitimados pelo cachorro que conseguiram me levar além do muro de ignorância que se ergue entre os deprimidos e o resto do mundo. O tanto que eu gostava dessas pessoas me fez continuar do lado delas sem criticar, até que eu entendesse que aquilo era real. Que elas não estavam apenas com preguiça da vida. Que elas não estavam tristinhas por brigar com o namorado. Que elas não estavam fazendo manha pra chamar atenção. Elas estavam doentes. Mesmo. 

De novo, eu nunca tive depressão. Tudo que eu posso fazer como alguém que vê de fora, é fazer o possível para entender do meu jeito e não colocar mais tijolos naquele muro de preconceitos. O que eu entendi depois de ler muito e perguntar muito é que parte disso é biológico, é um problema relacionado a neurotransmissores no cérebro. O cérebro é um órgão, e como tal, pode adoecer. Isso se resolve com remédios. Mas eles resolvem sintomas pontuais para aliviar o peso, e não resolvem as causas. Estas devem ser curadas pela luta diária dessa pessoa em criar sentido para a vida. Pra fazer até as coisas mais mundanas e banais. E eu não quero ser pretensioso, achando que arte vai curar isso, mas acredito mesmo, pessoalmente, honestamente, que pode ajudar.

Eu não vou fazer a conversa de auto-ajuda de professor tradicional, de te dizer que a vida é linda e você ainda não percebeu. Até porque ela não é. Ela é dura, injusta e irracional. E ninguém sente isso mais do que o adolescente. Uma colega professora me deu o que pensar nesses dias ao dizer que muita gente menciona a adolescência como a melhor época da sua vida. Imaginei o que sentiria um adolescente passando por todo esse tumulto ao ouvir isso. Se ESTA é a melhor época da vida, que grande porcaria vai ser todo o resto! E eu acho bem o contrário: você está sim na pior época da sua vida. Seu inferno particular. Não vou me alongar nos motivos de eu achar isso, qualquer adolescente fala disso melhor do que eu. A boa notícia é que, se esta é a pior época da sua vida, o que vem depois só pode ser melhor. Você só precisa passar dessa época, aguentar um pouco. A vida fica deliciosa depois, se você se abrir para ela e procurar o que é que te agrada, sem preconceitos ou pudores. Ela fica deliciosa quando você vê aos poucos tudo o que você é e consegue fazer se desenvolver e virar um poder. Um verdadeiro poder. Dá trabalho, mas como qualquer obra de arte, você faz sedento pelo resultado, não choramingando o processo. Quem sabe, talvez você até chegue a curtir os processos. Como em qualquer obra de arte. Pra dizer a verdade, é aí que a arte ajuda: naquele "procurar o que é que te agrada" e poder explorá-lo sem pudores, sob a chancela de arte. E isso que te agrada vai criar uma ilha de conforto nessa coisa dura, injusta e irracional. E esse conforto vai virar um continente com tempo e dedicação. A dureza, injustiça e irracionalidade jamais desaparecerão por completo, mas pelo menos você vai ter terra firme no meio disso. 

Os meus vinte anos foram infinitamente melhores e mais cheios de significado do que a adolescência. E os meus trinta estão sendo a melhor época da minha vida. Desconfio que essa avaliação mude quando eu chegar aos quarenta.
  
Então aguente firme. Você é linda. Você tem um talento a ser nutrido. Você tem um caminho a percorrer. E a vista no caminho é de tirar o fôlego. Espero que você entenda que eu não estou dizendo que a vida é linda, mas que ela pode ficar. 

Em tempo, e mais uma vez, eu nunca tive depressão. Em vez disso, eu lutei por anos com um outro cachorro, o da ansiedade. Mas isso dá todo um outro texto, para uma outra pessoa. 


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I recently got word that one of the students from the School was not showing up to class due to a very bad case of depression. She has no Facebook account and I had no other way of getting in touch with her, but I really wanted to write to her. I thought about writing here in hopes that this message could reach her somehow, passing from person to person. Then I realised I wasn't writing only for her, but for many other cases of teenagers I've come across, who are dealing with stuff like that. 
I myself have never had depression. At least nothing more serious than the average death wishes of teenage. And it took a long time until I understood what this huge black dog was. It took me movies like "Melancholia" (Lars von Trier) and the close proximity to friends who were victims of the dog and were able to take me beyond the wall of ignorance that rises between the depressed and the rest of the world. What love I had for these people made me stick around without criticising them long enough for me to understand that this was real. They weren't merely being lazy about dealing with life. They weren't feeling down because they had a fight with the boyfriend. They weren't just being bitchy to draw attention. They were sick. For real. 
Once again, I've never had depression. The only thing I could do as someone who sees this from the outside, was to try my best to understand it in my own way and not add anymore bricks to that wall of misconceptions. And what I understood after reading a lot and asking a lot is that a part of this is biological, it's a problem with neurotransmitters in the brain. The brain is an organ, and as such, it can get sick. This can be dealt with using medication. But medication solves the specific symptoms to lighten the burden, it does not attack the causes. These must be cured through the individual's daily struggle to create meaning in living. To carry out even the most mundane and trivial tasks. And I don't want to be pretentious, thinking that art will heal this, but I really believe, personally, honestly, that it might help.
I'm not going to go into the whole self-help talk a traditional teacher would, of telling you that life is beautiful and you just haven't noticed it yet. Because it's not. Life is hard, unfair and irrational. And nobody feels that more than the teenager. A teacher colleague of mine gave me much food for thought recently by saying that some people mention teenage as the best time of their lives. Imagine what a teenager would think upon hearing that if he or she was going through all this turmoil. If THIS is the best time of my life, what a load of crap the rest of it is going to be! And I believe in quite the opposite: you are indeed in the worst time of your life. Your own private hell. I'm not going to try to explain this opinion of mine, any teenager can talk about this better than I can. The good news is that, if this is the worst time of your life, what comes later can only take a turn for the better. All you need to do is get through this stage, hold on a bit longer. Life turns out to be delicious after this, if you open up to it and actively look for what it is that pleases you, unabashedly and with an open mind. It turns out to be delicious when you slowly but surely see everything you are and everything you can do evolve and become your power. Real power. It's hard work, but as with any work of art, you do it out of a thirst for the result, not whining about the process. Who knows, you might even enjoy the processes. As with any work of art. To tell you the truth, that's where art helps: in "looking for what it is that pleases you" and being able to explore it unabashedly, under the guise of art. And this thing that pleases you will create an island of comfort within this hard, unfair and irrational thing. And this comfort will turn into a continent if you give it time and dedication. The hardness, unfairness and irrationality will never disappear completely, but at least you will have dry land in the middle of it. 
My twenties were infinitely better and more meaningful than my teens. And my thirties are being the best time of my life. I suspect this assessment will change once I reach my forties. 
So hod on. You are beautiful. You have a talent that must be nurtured. You have a path to travel. And the view along the way is breathtaking. I hope you understand that I am not saying life is beautiful, but it can be made so.  
In time, and once again, I have never had depression. Instead, I fought for years with another dog, that of anxiety. But that's a whole other text, for a whole other person.

quinta-feira, janeiro 17, 2013

A Timeless Place: Oblivion


Previously: [][]

I came to visit this place with Lexy, knowing that perhaps this would be one of the last times that Utinga would be there. At least the Utinga of my childhood, which was inherently tied to the family's ownership of the sugar plant. But the current generation of the family lacked any interest whatsoever in managing the factory. We watched the family's great wealth dwindle over the years, even though Utinga itself remained fairly unchanged - except, as noted on a previous post, for those who died and those who were born within the family and its servants... the city had been founded to house the factory workers and the family of owners and managers. When the factory was sold to foreign buyers a little over a couple of years ago, we naturally assumed that was the end of that. At least for the family. As for the workers and the sugar plant, there was talk of it being dismantled, scrapped. It still stands there as I write, churning the machinery and spewing out pure, refined sugar. It even keeps the family name on its front. But should it ever truly end, I believe Utinga will go with it.

Today, after lunch, I went down to aunt Suzy's place. It was a large manor sitting on the side of the hill that overlooked Utinga's train station. Lexy seemed surprised at the sheer size of the house and it dawned on me that i had never considered it to be a mansion, having spent so many summers there and knowing every nook and cranny of the place. The house itself had remained stagnant like most of the city. The large trees beside it overgrown with parasitic vines drooping from them, white and ghostly like cobwebs, which had always been there. Our room - the one me and my brother had spent our childhood sleeping in - was still unchanged as well: the wooden ceiling with that aluminum ceiling fan threatening to fall on us while we slept and even our old, worn bodyboards with their incoherent neon hues resting atop the closet like they probably had been for years. The floor tiles in the bathroom, in candy-hued yellow and pink still contrasted with the black tiles on the walls. The two pianos in the dinning hall still managed to play my brother's Debussy. I didn't check, but I was sure the porches and balconies would still have that assortment of perfectly kept deck furniture from sometime around the 1930s and the yard would still be in regal order despite the aggressiveness of the surrounding flora. The train still went past the house at around 5pm. Time was kept by a set of wall clocks placed around the house, and you could hear their ticking if things were silent enough.

But as much as I would like to believe that this place would remain like this forever, it was already changing very noticeably. The changes felt like little flaws in the composition, little things that were out of place. It was the way the new locomotives on the trains were silent enough so that I could only hear them when they blew their whistle going past the station, instead of hearing that chugging of machinery a couple of minutes before, coming from afar. It was in the way three of the wall clocks had stopped, probably wanting in vain for time to actually stop there. It was in the increasing number of defective keys in the pianos my brother played.
But other things made de passage of time more terrifyingly obvious. For starters, there had been no Christmas celebration there that year. Aunt Suzy hadn`t even ordered for the Christmas tree to be set up. There wasn`t a trace of Christmas anywhere.
The servants were getting really old. Nita, someone I had always regarded as a plump girl who was an amazing cook and sometimes watched over me and my brother, was now showing clear signs of old age. Thin, a bit slower on the gestures, a bit more wrinkled.
But the final blow to my heart was finding aunt Suzy herself, sitting on the living room chairs watching TV. Nothing special about her watching TV, it was the way I had always remembered her (though the TV kept getting louder over the years...). What was startling was her figure. Withered and thin, so thin she found it difficult to move at all. Her hair had finally turned grey and there seemed to be more skin than the bones to support it. People mentioned she wasn`t eating properly, barely drank anything, just smoked her cigarettes and drank coffee. My visit had to do with her arrival back from the hospital, after she had to be nurtured back to some measure of health there. She appeared to us all like someone who was giving up. On everything: the house, the sugar plant, even her own body. It was understandable. She was one of the last survivors of her generation, apart from one of her sisters who still lived in Maceió. There had been four girls and two boys (one of them my grandfather). The years had taken most of them away, including aunt Margot, who had always appeared to me as the head of the family ("matriarch" would have been the wrong term: she never had any children), and who sat with aunt Suzy in that living room. It felt like her story had ended and all that was left was the existence in that house, defying time and oblivion.

As we left the house, going back to my cousin`s house further up on the hill, my mind wandered through all the melancholy poetry of what was happening there. I thought of that place, and how the remaining wall clocks would stop, halting time so that the next Christmas and New Year`s Eve would forever be kept at bay. The house would freeze in time in the year 2013. No 5pm train would ever be heard again, silent engines or not. The thriving aggressive nature surrounding the house would break through the defences, coming to sunbathe on the deck chairs, to silence my brother`s pianos for good, to make its own makeshift Christmas trees all over the house and to take back the seashell collection that the aunts had stolen from the beaches years ago. Possibly to finally be hit by the fall of that aluminium ceiling fan.
In the living room, the TV would be silent. Those small and comfortable rocking chairs would be motionless. Aunt Suzy would still be sitting on the big chair in front of the TV, her skin turned into the bark of a thriving tree that would preserve her placid and somewhat apathetic eyes.

Outside of the spell that locked the house in time, the rest of the family would go on with their lives. Possibly leaving Utinga once that house was sold and going to live in Maceió. The city was growing and becoming a place of opportunity and my cousins (some of them who I remembered as toddlers until just recently) were finding their ways to make their own wealth in due time. Nothing to do with sugar. Time kept going, faster and faster. Into the future.

Away from oblivion.



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Anteriormente: [][]

Eu vim visitar este lugar com a Lexy, sabendo que talvez esta fosse uma das últimas vezes que Utinga estaria lá. Pelo menos a Utinga da minha infância, que era inerentemente ligada ao controle que a família tinha da usina de açúcar. Mas a geração atual da família não tinha o menor interesse em gerenciar a usina. Assistimos enquanto a grande fortuna da família minguava com os anos, embora Utinga em si permanecesse relativamente inalterada - exceto, como comentado em um post anterior, por aqueles que morriam e aqueles que nasciam entre a família e seus empregados... A cidade fora fundada para abrigar os trabalhadores da usina e as famílias de donos e gerentes. Quando a usina foi vendida para compradores estrangeiros pouco mais de dois anos atrás, nós naturalmente assumimos que era o fim daquilo. Pelo menos para a família. Quanto aos trabalhadores e à usina, havia rumores de que ela seria desmontada. Ela ainda está de pé por lá, enquanto eu escrevo, girando o maquinário e cuspindo açúcar puro e refinado. Ela até mantém o nome da família na sua fachada. Mas se algum dia terminasse de vez, acredito que Utinga em si sucumbiria junto. 

Hoje, depois do almoço, desci para a casa de tia Suzy. Era uma grande mansão sentada em um dos lados da colina que se erguia atrás da estação de trem de Utinga. Lexy pareceu surpresa com o tamanho enorme da casa e me ocorreu que eu nunca havia considerado ela uma mansão, tendo passado tantos verões lá e conhecido cada dobra e rachadura do lugar. A casa em si permanecia estagnada como a maior parte da cidade. As árvores grandes ao seu lado infestadas de trepadeiras parasíticas, brancas e fantasmagóricas como teias de aranha, que sempre estiveram lá. Nosso quarto - no qual eu e meu irmão passamos nossa infância dormindo - ainda não havia sido mudado: o teto de madeira com aquele ventilador de alumínio ameaçando cair sobre nós enquanto dormíamos e até as nossas antigas e gastas pranchas de bodyboard, com seus tons de neón incoerentes descansavam sobre o armário como haviam permanecido há anos. Os azulejos no chão do banheiro ainda tinham seus tons de amarelo e rosa parecendo bala de goma e contrastando com os azulejos pretos nas paredes. Os dois pianos na sala de jantar ainda conseguiam tocar o Debussy do meu irmão. Eu não olhei, mas tinha certeza de que as varandas ainda tinham aquele ajuntamento de móveis de varanda mais ou menos da década de 1930, mantidos em perfeito estado, e que os jardins ainda estariam em perfeita ordem apesar da agressividade da flora local. O trem ainda passava pela casa por volta das 5 da tarde. O tempo era informado por uma coleção de relógios de parede colocados pela casa, e era possível ouvir seu tique-taque se tudo estivesse silencioso o suficiente. 

Porém por mais que eu quisesse acreditar que este lugar permaneceria assim para sempre, ele já estava mudando perceptivelmente. As mudanças eram sentidas como falhas na composição, pequenas coisas que estavam fora de lugar. Era o modo como as novas locomotivas nos trens eram silenciosas o suficiente para que eu só conseguisse ouví-las quando elas apitavam perto da estação, em vez de ouvir aquele ruído grave de máquinas vindo de longe alguns minutos antes. Era o jeito como três dos relógios de parede tinham parado, provavelmente querendo em vão que o tempo de fato parasse lá. Era o número cada vez maior de teclas defeituosas no piano que meu irmão tocava. 
Mas outras coisas deixavam a passagem do tempo ainda mais terrivelmente óbvia. Para começar, não houve comemoração de natal este ano. Tia Suzy nem sequer havia ordenado que montassem a árvore de natal. Não havia traço algum de natal em lugar nenhum.
Os empregados estavam ficando velhos. Nita, alguém que eu sempre reconhecera como uma garota curvilínea que cozinhava muito bem e às vezes cuidava de mim e do meu irmão, estava agora demonstrando sinais claros da idade. Fina, um pouco mais lenta nos gestos, um pouco mais enrugada. 
Porém o golpe final no meu coração foi encontrar a própria tia Suzy, sentada nas poltronas da sala de estar, assistindo TV. Nada especial sobre ela assistir TV, era como eu sempre me lembrava dela (embora o volume da TV ficasse mais alto com o passar dos anos...). O que era surpreendente era sua figura. Esmaecida e magra, tão magra que tinha dificuldade de fazer o mínimo movimento. Seu cabelo finalmente tornara-se acinzentado e parecia haver mais pele do que os ossos para suportá-la. Pessoas diziam que ela não estava comendo direito, mal bebia nada, apenas fumava cigarros e bebia café. Minha visita tinha a ver com sua chegada do hospital, onde ela tinha sido alimentada para que voltasse a alguma medida de saúde. Ela parecia para todos nós como alguém que estava desistindo. De tudo: da casa, da usina de açúcar, até de seu próprio corpo. Era compreensível. Ela era uma das últimas sobreviventes da sua geração da família, fora uma de suas irmãs que ainda morava em Maceió. Tinham sido quatro garotas e dois garotos (um deles o meu avô). Os anos haviam levado a maioria deles, incluíndo a tia Margô, que sempre me parecera como a líder da família ("matriarca"seria o termo errado: ela nunca tivera filhos), e que se sentava com tia Suzy naquela sala de estar. Parecia que sua história tinha acabado e tudo que sobrara era a existência naquela casa, desafiando o tempo e o esquecimento.     

Enquanto partíamos da casa, voltando para a casa das minhas primas mais para cima da colina, minha mente passeava pela poesia melancólica do que estava acontecendo lá. Eu imaginava aquele lugar, e como os relógios restantes parariam de funcionar, parando o tempo de forma que o próximo natal e reveillon seriam para sempre mantidos à distância. A casa pararia no tempo no ano de 2013. Nenhum trem das 5 seria ouvido novamente, com ou sem motores silenciosos. A natureza agressiva e verdejante ao redor da casa atravessaria as defesas, vindo tomar sol nas cadeiras da varanda, ou silenciar os pianos do meu irmão para sempre, ou fazer suas próprias árvores de natal mambembes pela casa e levar de volta a coleção de conchas que as tias tinham roubado das praias há muitos anos. Possivelmente finalmente seria acertada pela queda daquele ventilador de alumínio.
Na sala de estar, a TV estaria quieta. Aquelas pequenas e confortáveis cadeiras de balanço estariam paradas. Tia Suzy ainda estaria sentada na poltrona em frente à TV, sua pele transformada na casca de uma árvore frondosa que preservaria seus olhos plácidos e consideravelmente apáticos.


Fora do feitiço que trancaria a casa no tempo, o resto da família continuaria com suas vidas. Possivelmente deixando Utinga uma vez que a casa fosse vendida e indo morar em Maceió. A cidade estava crescendo e virando um lugar de oportunidade e meus primos (alguns que eu ainda considerava crianças até pouco tempo), estava encontrando seus jeitos de fazer suas próprias fortunas no tempo certo. Nada relacionado ao açúcar. O tempo continuava avançando, mais e mais rápido.  Em direção ao futuro.

Para longe do esquecimento.

Closing a cycle (sayonara, imouto-chan)

Despite the advice of psychoanalyst readers of this blog, I really need to begin this post by apologizing in advance. It will render me a lot of discussion with a lot of people involved. But I can't avoid being minimally committed to what little art I still do and I do consider this blog as a form of art, in a loose sense. That said, I need to close a cycle here that is being closed in my life, to explain a few things to myself, put all the anger away and move on. Otherwise this blog and the things in my head will remain incomplete. This might have dire consequences to the blog, given the long pauses that have happened.

Please notice that it took me something around nine months to write this post. The feelings included in it are no longer current, but I felt it would be important to write them down here anyway.

While I was getting another bunch of things to move from my parents' apartment to my own, I came across my collection of Video Girl Ai manga. It was such a pleasant time in my life. I'm constantly searching for other manga that touch my soul like that one. But I decided not to bring these magazines home yet. There was a metaphor contained in that whole story and taking them home would worsen my current withdrawal symptoms and the sadness. At that time, I had a childish tendency to compare the characters in that romance to people in my own. The main character, Ai Amano, a VideoGirl, was initially compared to Lee, but after a short time (and for a long time after that) that character was transferred to Nana. 

The VideoGirl came into the life (literally - from a video tape, she crossed the TV screen into the real world) of a pure-hearted boy who was having sentimental problems. She would serve him as a guide, as a companion while the boy healed, as an advisor in matters of the heart. And theoretically, she would never fall in love. In the case of Ai Amano, whose tape had been executed in a faulty VCR, she appeared with a few glitches. Among those, the ability to fall in love.

In my life, the character meant someone with whom I could have a relationship of complete trust and intimacy, being able to speak of all the subjects I would normally consider taboo when talking to girlfriends (the promiscuity, perversions, gender ambiguity, loyalty, etc...). Because after all, we weren't in any commitment, so there was no implied contract of any sort of loyalty between us, and each had their own affairs. This person was a best friend, and that friendship came before any love relationship, and that allowed for this unconditional freedom. There was however that delicious tension of something between the two.

Nana had been my VideoGirl for a while. We had total access to each other, through blogs, late night chatter on Skype or MSN, the short period we were in the same college class. At any moment, we knew quite well what was going on in each other's lives. We gave each other advice regarding relationships, regarding life. But contrary to a VideoGirl, a normal boy like me had the ability to fall in love. And so, in 2007, when she broke up her 7-year relationship with her boyfriend, I mustered enough courage to tell her. I caught her by surprise, and sweetly and tenderly, she dismissed me. She told me I was like a brother to her (something that would later provide me with the nickname of "Nii-san" - "older brother" in Japanese). Placed in the farthest reaches of the "familyzone" (further away even than the "friendzone"), I accepted the situation and buried any feeling I had. If I was more propper, I would have done what most people do and would have disappeared from her life. Cut off any contact. Sometime later, that would be the final lesson she would teach me.

The fact is I didn't want to be like most people. I wanted to be different, I wanted to be me. More than anything, I wanted to keep this person with whom I could open up, completely unafraid of being judged. After an initial moment's discomfort, life continued normally for both of us. She went back to her boyfriend. And I watched from the rafters while she took that downward spiral through depression, while she got pregnant from the unwanted daughter that would heal her from it, while she broke apart the relationship with the child's father that had lasted for as long as we knew each other.

Five years later. I was spending the year in London for my Masters' degree and our talks had gone back to what they were before I was exiled into the "familyzone". And they were good talks. Talks that were worth burying my feelings like I had done. VideoGirl talks. While I shaved my hair, while I faced my teenage traumas, while I reviewed sexuality, my native culture and my place in the world, she was someone who listened without judging. More than that, she was someone who even applauded and encouraged my attitudes, instead of just tolerating my strangeness. I never heard a single word of censorship from her. And I was someone who, when she found herself a single unemployed post-depressive mother, had been there to tell her she was still worth it. She had always been worth it and would always be. We were each giving the other what the other needed at that time. Falling in love was an obvious thing to happen. And when we talked openly about it, everything I had buried for five years burst up from the ground again and flourished. Neither of us had any control over it. And I must admit: it was beautiful. Writing anything about it would only cheapen what happened, but I can say it was beautiful.

Of course, my being in London was convenient. It gave us the possibility of sleeping on that and thinking it over. Because it wouldn't be that simple. She had ditched me in 2007 and, ever since then, I had started another good relationship that was full of understanding with Lexy. Five years. My longest relationship to date. With someone who went out on a limb to please me, to win my family over and chase her own dreams. Someone whom I'd come to respect as I had never respected any of the previous girlfriends. Someone who also listened to me throughout all the process of change that I had gone through in London and was also going through her own changes in life. 

Nana was never a big challenge for Lexy. Because Lexy was someone who would fight for things, for life, someone who liked achieving things. Lexy was an overachiever. Nana, on the other hand, just wanted some peace. She was concerned with her own happiness, and in a certain way, she wanted to be left alone. She didn't care about challenges. Challenges had lost any meaning to her after she recovered from depression (and these illnesses do have a way of putting things in perspective...). She didn't want to fight for anything, the only thing that mattered to her was happiness: pure, simple, limitless and with no concessions. And therefore, when I became a challenge, when I became something to fight for, she had no second thoughts about disconnecting from me and giving up the fight.

I suffered. I suffered a lot with the break-up of a friendship that had lasted for over 10 years. And however, she did teach me a lot. First of all, she opened my eyes regarding several of my little personal illusions. As I had mentioned in Laerte's post, she made me see how I had a tendency to "blame or demand certain things of others (and fate) that were in fact senseless demands". I had a rather vague idea that the world was fair. And in a fair world, those 10+ years I spent getting through her hard times, even if from afar, would be worth something. In a fair world, the fact that I had placed friendship over feelings would have been worth something, perhaps the continuation of that friendship. It would be worth reciprocity from her behalf in this recent situation. But of course, all of that was an illusion: we do not live in a fair world and those who really believe that have a lot of growing up to do. I had a lot of growing up to do.
No. We live in a cynical world, as a friend in London once said. A world that will laugh at you if you believe this sort of thing. I'm not saying Nana was laughing at me. She was simply trying to prove a fact of life: that she had no obligation whatsoever to deal with the likes of me.

She also opened my eyes as to a sort of pride that I had regarding my role in this story. Come to think of it, she had spent the greater part of those 10 years of our friendship dating someone else with whom she had shared a house and with whom she had eventually conceived a child. And then I watched her isolate that same person from her life and only failed to do it completely because their daughter still bonded them together for practical reasons (though, if she could, she would indeed completely ignore the existence of that person after that).
What right did I have to think I could be any more valuable than that person if I hadn't even shared my life with her that way? What right did I have to think that I was deserving of any more special treatment than the one dispensed on him, and that she would think twice or have any remorse in excluding me from her life in the same way? What's more: I didn't have "practical bonds" with her, so she could savor our complete and utter disconnection.

I decided to write this when I noticed a few months back that I had been excluded from her list of friends on Facebook. An apparently trivial, almost childish fact. A fact that might mean the world to people of my students' ages, and that an adult was supposed to ignore. But to me, it meant something. Because without Facebook or access to her blog and Tumblr, she was shutting down any form of contact I could have with her. Any whatsoever. Blocking any possibility that I may know what was going on with my alleged friend. The only way of contacting her again would be to call or write an e-mail (direct contact), which is something I promised her I wouldn't do on our last squabble ("don't worry, I will not bother you again"). And anyhow, I presume that even this sort of contact will soon be cut off as well.
On what little contact we had after that, she became colder and more aggressive. Until the final e-mail came in November, telling me not to contact her again. Ever. As she signed off, she called me by my real name and signed it with hers. It was a very symbolic and violent gesture. We had NEVER used our real names.

Before finishing this post, I need to make it clear that, despite it all, it isn't my intention to turn Nana into a sort of villain. It would be unfair to do it merely because I am the losing side of this story. It is actually quite the opposite, I believe she deserves some sort of recognition for reaching a sort of consciousness about herself that very few people have. I would have said "very few women", but the fact is I believe even very few men have it nowadays. A consciousness of placing her own happiness above everything. Rigorously everything: above matters of equivalence (that which is "fair"), above matters or morality, above friendships of over a decade. Quite the contrary, her happiness is worth A LOT. And she won't allow ANYTHING to threaten it. The careless would label her dangerously selfish. Feminists would call her a free woman.

I'll start simply calling her Mariana. Or even Anonymous. If I have reasons to call her anything at all.

Finally, I mentioned of the dire consequences for this blog. It was created vaguely around the same time I met her (a little more than a year later) and completed its 10th year in April, exactly on the day before she started her new relationship and began cutting all ties with me [1st post]. And since I just love coincidences like that with an almost religious fervor, I gave serious thought to closing down the blog. It would be a perfect cycle.

But alas, we're still here, I just felt I couldn`t give in to this. This cycle needed this closure and I needed to keep going on. Taking her advice on that final e-mail, I had to learn to put the past behind.
I believe I won`t be writing as often on this blog. I came to realise I wrote a great deal of things because I knew she was reading. I must learn again to write for myself. And as this post gets closer to the bottom of the page and can no longer be easily retrieved by readers (since the blog`s archive settings are busted...), so too will I put this whole story and pain aside.

segunda-feira, outubro 10, 2011

Melancholia

[Post cheio de spoilers - se você não assistiu o filme, não leia]

Lars von Trier tem aos poucos se tornado um dos meus diretores favoritos. Pelo lado técnico, ele tem a proeza do Gerhard Richter na pintura, de transitar por diversos níveis técnicos com igual competência, de produções minimalistas como Dogvile e a sequência Manderlay, para exuberâncias visuais e técnicas como Antichrist e o recente Melancholia. Eu absorvo suas cenas em câmera lenta com o deleite de quem está diante de uma boa pintura, daquelas antigas e grandiosas. Pelo lado do conteúdo, Ele me dá aquela impressão venerável de alguém que já andou por muito mais do lado negro e visceral da vida do que eu, e está tentando me acautelar a respeito.

Melancholia by Lars Von TrierMelancholia é essencialmente, um filme sobre a depressão clínica. E talvez um dos melhores relatos do assunto que eu tenho visto ultimamente. Porque ele não se preocupa apenas em ilustrar a depressão, mas consegue com certo sucesso fazer a ponte para explicar às pessoas "normais" o que é a depressão usando termos que elas entendem. Não sei se posso dizer que é o melhor filme de Von Trier. Com toda a produção minimalista, ainda acho que Dogvile e Manderlay conseguiam ter mais recall. Ainda assim, é um grande filme por tudo que eu consegui entender dele e pelo que ele conquista em termos visuais.

Pra início de conversa, há a paciente deprimida. Justine, (Kirsten Dunst, ainda meu sonho de consumo, mesmo depois da vida real roubar-lhe algo do brilho de antes) está se casando em grande estilo com Michael (Alexander Skarsgard de True Blood) em uma fabulosa mansão. Concordo que, com uma mãe daquelas (Charlotte Rampling) vociferando contra as noções românticas de casamento, qualquer um ficaria triste. Mas o incômodo de Justine é mais do que apenas essa questão pontual.

Para Justine, a vida comum, a sociedade e seus rituais e noções do que é "correto" (perfeitamente expressado pelo adjetivo britânico "proper") parecem não ter a menor relevância. Mais do que isso, causam até um desconforto, são coisas que ela se esforça para aguentar. Todo esse ter que sorrir e esbanjar felicidade e vitalidade, quando tudo que ela quer é ficar em um canto, quieta, ensimesmada. Para ela é sofrer para agradar aos outros e nada disso faz sentido. Lidar com as pessoas é enfadonho, ter que subentender o que elas querem e adaptar-se às situações é maçante. Até esses adjetivos que estou usando não fazem jus ao sentimento (ou a falta dele) de Justine. Parecem adjetivos pertinentes a uma garotinha mimada, e Justine não é isso. Garotinhas mimadas querem driblar o tédio com aventuras, ela só quer ser deixada em paz.

As pessoas em volta dela comportam-se como qualquer família ao redor de um deprimido: fazem tudo errado. Exortam-na a manter as aparências, evitar cenas, sorrir para os convidados. Tudo está bem, pessoas! Somos felizes! Ficam furiosos quando ela não consegue suportar isso tudo e se ausenta, quando desiste de se ater às convenções. Jogam na cara dela o quanto estão gastando no casamento, quanto tempo, dinheiro e paciência. Como se a culpa e o dever de mostrar-se grata pudessem suplantar a depressão. A doença acaba custando-lhe o casamento antes mesmo da noite de núpcias (outra coisa que ela não consegue suportar).

O problema de Justine é um problema de perspectiva: a dela em relação à vida, contra a do resto da humanidade. E aqui está uma das lições do filme sobre a depressão. Justine não tem um desejo ativo e suicida por morrer, como a maioria pensa que os deprimidos têm. Em momento algum do filme ela demonstra isso. Ela preferiria definhar lentamente e em paz a executar qualquer violência dolorosa contra si mesma, e essa é a maior diferença. Mas ela não se importaria se o fim chegasse logo. Mais do que isso, ela gostaria que os outros tivessem mais noção da perspectiva dela. Nem todo deprimido é suicida. Nem todo suicida é deprimido.

Atendendo aos seus anseios, o planeta Melancholia é avistado por astrônomos, vindo em direção à Terra. Com um tamanho várias vezes maior do que o nosso planeta, ele é inicialmente previsto como passando perto da Terra, mas depois revela-se em rota de colisão, inevitavelmente aniquilando-a.

A revelação altera o equilibrio das coisas entre Justine e seus familiares. Antes deprimida e dificilmente aguentando o fardo da sociedade sobre ela, Justine torna-se livre, até por vezes feliz. Capaz de curtir a poesia e transgressão representada pela presença desse enorme planeta crescendo a cada dia, chega a permitir-se o luxo lascivo de banhar-se na luz refletida do planeta para a Terra. Com a vida na Terra extinta (que ela "sabe" ser a única existente no universo), tudo voltará à ordem complacente e banal que deveria ser, sem rituais, "propriety", dinheiro, certo ou errado. Nada mais importa e essa sensação a liberta.

O resto da família tem o colapso considerado "normal". Os mais racionais se suicidam por não aguentarem a inevitabilidade do desastre (um suicídio mais realista do que o clichê do deprimido) e a irmã de Justine, a pragmática Claire (Charlotte Gainsborough, de Antichrist), tenta racionalizar o melhor jeito de passar esses últimos momentos.

Há uma cena que eu achei de uma lucidez deliciosa nessa inversão emocional. Claire pede a Justine que passem o último momento juntas com Leo, filho de Claire. Para que a coisa seja mais suportável para Claire, ela pede que estejam juntos no belíssimo jardim da mansão, tomando vinho, ouvindo música. Um fim digno.

Justine se recusa.

Em todos os anos que ela teve que suportar os rituais e aparências da "normalidade" dos outros, ninguém nunca atenuou as coisas para ela. Agora que eles estão diante da "normalidade" dela, ela também não fará gentilezas irrelevantes. A vantagem está do lado dela e ela deleita-se na vingança.

Em vez disso, ela passa seus últimos momentos construíndo uma "caverna mágica" para seu sobrinho. Há algo de ritual nisso também, dela preparar seu último momento. Mas há uma diferença nesse ritual, similar à diferença nos anseios de morte do deprimido e do suicida. O ritual que ela faz com o sobrinho é uma banalidade de faz-de-conta. Ela faz por prazer, sabendo que não fará a mínima diferença. Aceitar o ritual de Claire seria diferente: seria um inútil "manter as aparências", imposto como se Claire ainda acreditasse que elas importariam para os outros durante o fim do mundo.

sexta-feira, dezembro 24, 2010

Snowy December



O mestrado entrou em recesso. Aproveitei os últimos dias antes do natal para passar na biblioteca, que ainda estava aberta. Li em uma semana o que devia ter lido em um mês. As idéias foram clareando, chegando em pontos interessantes e evidenciando as perigosas generalizações das quais todo mundo tem me avisado. Ando lutando com isso de não fazer generalizações. Eu sempre fui interessado em achar padrões, repetições, coisas assim. E acho mesmo que ideologias são generalizações, então arte baseada em ideologia vai perigosamente passar por isso. Enfim, devo escrever um resumo das minhas conclusões até agora em Janeiro, e tudo ficará bem mais claro para postar por aqui.

Fora do âmbito acadêmico, as coisas giram em torno de forte maniaco-depressão. Acordo maravilhado com a neve e seus desafios. Saio do quarto e me incomodo com o apartamento e todo o prédio cada vez mais vazios, inertes e frios. Tenho aproveitado uma estranha espécie de contentamento. É o prazer anti-social da não-interação. De poder organizar meu quarto, meu dia, minha mente, sem ter as interferências que decorrem do relacionamento com outras pessoas. Mas então chega a noite (e aqui ela atualmente chega às 16h00 e dura mais de 12 horas) e a solidão bate forte. Uma necessidade de carinho, palavra, risadas compartilhadas. Uma culpa de não ser sociável, de não procurar as pessoas que se escondem nas duas ou três janelas ainda acesas do prédio. Talvez o faça hoje, na noite de natal.

Isso tudo acontece enquanto as notas da guitarra de Jeff Buckley se repetem uma e outra vez, sempre que vejo os sofás vazios do prédio.

Mas no fim do dia, o silêncio. Deito pra dormir e não ouço mais a balburdia dos adolescentes londrinos, drogados e festeiros, nos outros apartamentos. Apenas o tique-taque do meu relógio, que por sinestesia transforma-se em algo diferente à medida que escorrego para dentro do sonho.

Avisaram-me desta forte melancolia desde que mencionei que estaria em Londres no inverno. Confesso que eu tinha curiosidade para senti-la. A melancolia que eu tinha no colégio, que impulsioava minha criatividade da época e que foi transmutada quando comecei a namorar pessoas alegres, virando algo muito mais positivo, embora menos potente. Hello darkness, my old friend. I've come to talk to you again.

terça-feira, janeiro 26, 2010

Sobre tempo

Hoje de manhã, voltando de mais uma das aulas de inglês, fui pensando bastante sobre tempo. Tenho muito o que pensar sobre tempo.
Tenho sentido a urgência e vontade de que o tempo passe. Meu maior desejo seria já estar no pós-Londres, com o mestrado feito, podendo fazer ainda a licenciatura e começar a dar aulas no meu antigo colégio. Com o salário e as perspectivas de carreira de lá, eu sentiria que minha vida estaria novamente no lugar certo, no tempo certo, e não com esse atraso monstruoso. Imagino que deixaria de sentir pena de mim mesmo por estar fazendo bicos e sobrevivendo a duras penas, enquanto todos meus antigos colegas já têm carreiras consolidadas e salários que os permitem tocar a vida em frente. Mais do que isso, eu teria um propósito e estaria fazendo algo de construtivo no mundo. Não que as aulas de inglês não sejam algo de construtivo, mas não consigo me dedicar a elas como eu gostaria. My mind just isn't in it...
E no entanto, se esse meu desejo fosse realizado, eu perderia o ano em Londres. Com todas as delícias e agonias instigantes que ele certamente vai me trazer. Todas as pessoa interessantes a conhecer e as experiências que mudam a sua vida para sempre. Além disso, perderia a possibilidade (ainda que remota...) de conseguir um emprego na TATE Modern e trabalhar do lado do quadro da Dorothea Tanning [1]e das obras do Anish Kapoor.

Em outro assunto relacionado ao tempo, queria ter de volta esses últimos meses para poder recomeçar a série do TBC. Não é que eu esteja totalmente insatisfeito com ela, mas algo curioso aconteceu nas últimas semanas, me preparando para o quadro da Cacilda no Dama das Camélias: eu acho que finalmente me enchi de retratar pessoas desse jeito. De copiar todas as diferenças tonais de uma foto e tentar chegar o mais perto da semelhança absoluta. Quero daqui pra frente usar outras técnicas, coisas mais instigantes. E acho que adoraria ter feito isso com os quadros que já terminei. Minha Lexy me diz que eu sou o artita, que posso fazer isso quando quiser. Mas não teria tempo de ter tudo isso pronto para as exposições que quero fazer este ano antes de viajar. O tempo, infelizmente, é sempre muito pouco.
Continuo remoendo sobre as conveniências de tempo desse projeto do TBC. Não existiria melhor tempo para fazê-lo do que agora. Soube pelos jornais que o TBC foi comprado pela Funarte, que pretende reabri-lo com novidades, incluíndo um centro de memória do teatro brasileiro, onde uma exposição do meu trabalho viria bem a calhar. Mais recentemente, uma notícia contou que o próprio teatro Sérgio Cardoso está com planos de reformas para melhor utilizar suas salas de ensaio, incluíndo também fazer um centro cultural com espaços de exposição. Eles têm planos de abrir o espaço com exposições sobre o próprio Sérgio Cardoso e sobre Paschoal Carlos Magno, ambos personagens históricos que dão nome às salas principais do teatro. Gostaria muito de ver como posso me infiltrar nesses assuntos.
E no entanto, por mais conveniente que seja o tempo, ainda é tarde demais para Nino Amato, amicíssimo da família, que estava gerenciando o teatro até sua morte. Como passa o tempo: nem me lembro se isso foi há um ou dois anos. Tenho pressa em terminar esse projeto antes que mais pessoas importantes percam a chance de vê-lo em vida.

Em um comentário em um post recente, o Lala's - com quem felizmente retomei contato após muito tempo - comentou algo que achei pertinente. Tendo estudado análise e começado a clinicar, ele concluiu sobre mim que eu estou frequentemente invalidando meu momento atual e sonhando sobre dias melhores. Achei justo e preciso.
E quiçá este post inteiro tenha sido mais uma lamentação desse tipo.

sábado, dezembro 19, 2009

Ansiedades

Nem tudo tem sido maravilhoso nesta recente vida de artista plástico.
Os dias têm sido inegavelmente mais prazeirosos e a qualidade de vida aumentou consideravelmente. A segunda metade de 2009 me trouxe experiências e memórias boas o suficiente para dar aquela impressão de que o ano esticou, durou mais do que estes 12 meses.
No entanto, carrego comigo um pacotão de culpa que tenho tentado ignorar mas fica a cada dia mais pesado. Pesam sobre mim os anos desperdiçados fazendo duas faculdade simultâneas enquanto eu poderia ter começado a estagiar. Pesam os cinco anos seguintes, dedicando-me à publicidade sem chegar a lugar nenhum. Pesa a ignorância de não ter me informado sobre processos seletivos de empresas de verdade enquanto eu ainda tinha a possibilidade de entrar em alguma delas e ter a tão respeitada carreira empresarial. Pesam as escolhas erradas que fiz depois que voltei de viagem em 2006. Acima de tudo, pesam as comparações. Perceber que todo mundo já tem seu rumo e um salário decente ou ao menos um mestrado (comentário de patricinha: "todas as minhas amigas estão casando e tendo filhos"), enquanto eu estou aqui, começando do zero de novo. Fazendo agora, aos 28, o que eu devia ter feito aos 23.
-"Não se desespere, você ainda é jovem e tá na idade de fazer essas coisas."
Claro, todo mundo diz isso para encorajar. Mas não me furto à noção de que, pelas minhas costas, a conversa é outra. Estão todos preocupados com meu desemprego, com esse meu estado de estar esperando por Londres, pelo mestrado, pela possibilidade de ter uma carreira de verdade. Se tudo correr de acordo com os planos, terei o mestrado e licenciatura, habilitando-me a dar aulas, quando eu fizer 30 anos de idade. É um longo tempo para poder finalmente ter uma carreira. Enquanto isso, eu espero.

["This is an Edgewalker Line train to Waiting Place"]

Quiçá tudo isso seja na verdade o que os psicólogos chamam de projeção: eu estou projetando nos outros a minha própria preocupação. Quiçá ninguém esteja dando a mínima para a minha situação. Não vem ao caso. De qualquer forma, esse meu atraso de vida é uma bagagem cada vez mais saliente no meu pacotão de culpa. É uma lufada de ansiedade que tenho conseguido manter longe de mim até agora, mas é cada vez mais difícil de ignorar. Me ataca nas noites de solidão, dentro do carro na volta pra casa, na inveja frente às notícias de que meu irmão está saíndo de casa antes de mim (e que meus pais o estão ajudando em vez de dificultar como fizeram comigo...). Tranquilizo-me na variedade de histórias de vida de artistas plásticos que só decolaram aos 30.


Soube recentemente que recebi minha primeira crítica. Daquelas que eu esperava receber quando decidi largar a estabilidade da agência: alguém a quem eu não devia dar importância insinuou que eu larguei a publicidade porque tive medo. Um medo infantil de quem não quer crescer. Na verdade foi um outro medo, de quem sabe muito bem onde se meteu: medo de passar mais cinco anos na mesma merda, ganhando o mesmo salário. Mal sabe ele que, exceto por estes meses de Dezembro e Janeiro quando vários dos meus alunos de inglês saem de férias, minhas contas mostram que tenho ganhado nos outros meses o mesmo ou às vezes até o dobro do que ganhava na agência. Mas entendo o ponto de vista dele: funcionários que se aposentam depois de trinta ou quarenta anos trabalhando para os outros pensam apenas na estabilidade cinzenta e insossa que lhes permitiu comprar seus apartamentos vendendo seus sonhos da juventude.
Se eu já esperava receber esta crítica e ela veio de alguém a quem eu devia ignorar, porque é que ela me atinge? Andei pensando nisso durante algum tempo. Hoje vejo que talvez seja porque ainda estou na dúvida. Incerto sobre se isso é de fato o melhor caminho a tomar. Pensando se talvez há alguma outra saída óbvia e rentável que eu não estou enxergando. Parte de mim sabe que não há outro rumo. Este é o meu rumo. Resta enfrentar. Mas outra parte tem medo de estar se metendo em outra besteira que me roubara mais anos da minha vida para nada.
A crítica me atinge porque tenho precisado cada vez mais que me digam que o que eu estou fazendo é correto. Que me façam acreditar. Até mesmo que me forcem a isto. Morro de medo de alguém algum dia dizer o contrário, que isso é errado, que é uma burrice. Morro de medo que alguém desaprove.
Ao mesmo tempo anseio por que alguém o diga. Uma pessoa séria na qual eu acredite, e que diga essa verdade para mim porque quer meu bem. Ao menos assim eu seria forçado a lidar com esse fato antes do passar dos anos, do estilhaçar dos sonhos e de mais frustrações.

E você? O que acha? Faço hoje a coisa certa?

terça-feira, dezembro 15, 2009

Random literature

The flickering neon glow of the fluorescent lights gave no warmth to her skin. Neither actual warmth on her flesh, nor the pinkish hue on her face in the mirror. The lights in her bathroom bathed everything in a sickly artificial green. She supposed everything in her life had somehow acquired that ill quality, that lack of flavour. When did this happen? How long ago? What was the exact day - the hour, the minute - when everything just suddenly faded into this stale aspect?
For quite some time she had basked in the relative comfort of imagining herself going back to a time when life was simpler. Regressing into the former years when life didn't seem so demanding. And then further back, into the pleasant discoveries of her teenage years. When that wasn't enough, she began obssessing with childhood naiveté and the innocent games she played with cousins and neighbors. But just recently even those memories were paling away into their reality: they were substitutes of the real thing. It felt like she was dragging the smudge of greenish, greasy blight across her past, tainting and corrupting everything until it all seemed pointles, tasteless and ever so cold. She wanted to regress further, but found herself unable to consciously remember a time before that.

Still, she needed to go back further for more comfort.

That night, in her pale green bathroom, she peeled away all her clothes. Having regressed so far into childhood, she no longer felt aroused by her own nudity like she had been as a teenager. The discomfort of the cold tiles on the floor was eased when she slipped into the hot water of the bathtub. She held a razor blade between her fingers with all the gentleness of a mother. But what she did after she settled in the warmth of the tub was all but motherly.
Cecilia LisbonJust two mercifully brief moments of sharp pain when she opened her veins. With enough patience, she managed to bare the pain and witness as it progressed, like most cuts usually did, turning from hurt into warmth. She could imagine the flesh around those wounds turning a deeper shade of pink. Painting the water a deeper and more real shade of red. The color and warmth flowing all around her. She closed her eyes, and that evil light of the fluorescent bulbs filtered through her eyelids as a dim red flicker. In the constricted space of that tub, she managed as best she could to curl up and embrace her knees. There was little she could actualy do with her hands, given her open wrists, but she found a way to lean her knees against the hard sides of the tub.
She could then feel the warmth of her cuts slowly mutate into a gentle throbbing she could recognize as her own heart, like most cuts would do when left alone.

And there she stayed, surrounded by that warm red glow. Feeling rather than listening through the water, as the pulse of her life diminished. Regressing further back into a time with no conscious memories to taint. Recognizing a time of sheer experience and bliss. Flowing quieter and quieter, closer and closer, into oblivion.

domingo, maio 10, 2009

Welcome to your Quarterlife Crisis

Esta semana, uma amiga minha colocou no Twitter um link para uma matéria no site Eyeweekly sobre o que eles chamaram de Quarterlife Crisis. Traduzindo em miúdos, a "Crise de um Quarto de Vida". Geralmente referida por aqui como a dos Adolescentes de 25.
O começo do texto traça dois perfis, masculino e feminino, bem conhecidos por muita gente com a qual eu convivo. Pessoalmente, o que mais me chamou a atenção foi o segundo parágrafo:
Ele vai de bicicleta para seu trabalho em uma agência de publicidade, onde ele usa seu mestrado em Letras para revisar redação publicitária, e passa várias horas lendo blogs de música e assistindo traillers de filmes, Twitando atualizações periodicamente sobre seu dia de trabalho para seus 74 followers. Ele não odeia de fato seu trabalho, mas sente que sua pele está cheia de vermes rastejando nela durante a maior parte do tempo em que está lá, então ele planeja se mudar para a Tailândia, ou talvez escrever um livro. Ou fazer faculdade de direito.

Não é totalmente idêntico a mim, mas é quase uma versão minha em um universo alternativo. Não vou de bicicleta para o trabalho ainda, mas o plano estava na minha cabeça há muito tempo, só esperando eu resolver a questão de chegar no trabalho suado e fedido. Estou em vias de conseguir um mestrado em artes plásticas que não vai mudar em nada o meu cargo de assistente de arte que pega serviços secundários e menores nas agências enquanto gente menos capaz pega o interessante. Passo boa parte do dia lendo webcomics e Twitando atualizações para meus 53 followers (Putz, tenho até menos do que o cara do exemplo...). Não odeio meu trabalho (de fato, é uma das agências mais gostosas e tranquilas nas quais trabalhei...), mas sinto que tudo aquilo tem um quê de perda de tempo às vezes e que eu poderia estar ganhando mais e fazendo algo que me desse mais satisfação pessoal. Planejo passar um tempo em Londres, ou talvez fazer exposições. Só não penso em fazer MAIS UMA faculdade...

O texto continua tentando explicar o fenômeno. Diz que acontece entre gente no fim dos vinte, começo dos trinta; de classe média-alta; bem educada e informada. Algo como a Charlotte, personagem de Scarlet Johansson em Lost in Translation.

Eles não conseguem tomar nenhuma decisão porque não sabem o que querem, e não sabem o que querem porque não sabem quem são, e não sabem quem são porque têm a permissão e possibilidade de serem o que eles quiserem.

Ao contrário da crise de meia-idade, onde o indivíduo se pega percebendo como tinha muitos sonhos e nenhum deles foi realizado, a crise de quarto-de-vida que a antecede encontra o indivíduo se perguntando qual é o plano, quais são os sonhos. Conheço muita gente, muita mesmo, acometida de casos severos de depressão porque não encontra gosto em nada do que faz. Lembro vagamente de diversas coisas que escrevi por aqui, sobre como o problema não era não ter aptidão alguma, mas ter várias aptidões. Sentir que cada decisão era a negação de várias outras possibilidades que talvez fossem a escolha certa.

De forma geral, o coração da crise de quarto-de-vida está nas promessas que nos foram feitas e nunca chegaram a ser realizadas. Eu acreditava, como uma boa maioria de colegas do colégio, que se eu estudasse bastante e entrasse em uma boa faculdade, eu teria um emprego rentável garantido em uma carreira criativa e interessante. A minha parte do acordo foi cumprida, mas o retorno nunca veio. Já é óbvio que não há vagas suficientes para suprir a quantidade crescente de pessoas saíndo das faculdades procurando trabalhos "criativos e interessantes" (que eu chamo de Empregos que Todos Querem). Então só estudo e boas faculdades não garantem a vida como garantiam nas gerações anteriores. De fato, esses caminhos de vida significam cada vez menos para a minha geração. Hoje vejo que as pessoas que estão de fato nos Empregos que Todos Querem são pessoas que parecem ter nascido apenas para aquilo e nada mais. Não há outra opção e eles se dedicam inteira e unicamente àquilo. Os outros, com mais do que uma única aptidão, acabam frustrados pelo que escolheram em detrimento das outras possibilidades. E esse sentimento é pesadíssimo.

Pra sair um pouco de cima do texto da Eyeweekly, fala-se muito que a educação mudaria para melhor a situação do país. Mas eu acho que a crise de quarto-de-vida mostra o contrário: com mais acesso à educação, mais pessoas estudariam para conseguir Empregos que Todos Querem, e teríamos mais pessoas concorrendo para vagas mais escassas. Claro que não posso advogar aqui que melhorar a educação no país seja uma coisa ruim (heresia!), mas tem suas consequências.

Voltando ao texto, um dos últimos parágrafos me surpreendeu fazendo uma interpretação pejorativa das mídias sociais como o Orkut e o Facebook:
Todo tipo de conhecidos meio esquecidos e amizades abandonadas reaparecem nesta planilha de razões potenciais para se sentir péssimo sobre você mesmo. Se você é tão mesquinho quanto eu, você passa boa parte do seu tempo no Facebook medindo seus próprios sentimentos de inadequação em relação direta com o sucesso dos outros. Todas essas pessoas para as quais você não dava a mínima alguns anos atrás são agora exemplos onipresentes e referências para medir todas a oportunidades que você tem ou não na vida.

Cogito saír do Orkut... Na verdade, o mais correto seria ouvir a Lexy e parar de me comparar aos outros. Se você souber como fazer isso, por favor me conte.