Ainda não consegui vencer a preguiça e estudar direito toda essa coisa de colocar senhas no blog. Acho que alguns de vocês que não têm contas de blog vão acabar ficando inevitavelmente de fora do meu, a menos que vocês criem contas (só para ler o meu blog...). Então por enquanto eu vou continuando.
Passei aqui apenas para deixar uma reflexão sobre a exposição do chinês Ai Wei Wei que está acontecendo no MIS.
Eu soube dele pela primeira vez em Londres, uma instalação na Tate Modern onde ele lotou o piso da galeria de sementes de girassol feitas de porcelana. Milhões delas, feitas uma a uma por voluntários chineses. De lá pra cá, Wei Wei foi preso pelo governo chinês, o que causou toda uma polêmica mundial de artistas pela sua libertação, e aparentemente foi viver nos EUA ou algo assim.
A reflexão curta que eu queria deixar aqui me ocorreu enquanto visitava a exposição com Lexy e minha mãe. Ele, assim como a Yaoni Sanchez que a minha mãe lê, fala corajosa e abertamente sobre as incoerências, a estupidez e a miséria causada pela ditadura vigente em seu país de origem. Uma ditadura que prometeu igualdade a todos e forneceu uma igualdade de míngua e burocracia.
A exposição no MIS era uma coletânea enorme de fotografias tiradas por Wei Wei e seus assistentes, documentando diversos processos de diversos dos trabalhos do artista. Todos trabalhos que falavam sem romantismos desnecessários sobre tudo o que estava acontecendo. Daquele tipo de documentação direta que qualquer blogueiro hoje faz. O que levou Lexy a fazer em certo ponto aquela derradeira e já bastante recorrente pergunta: "mas isso é arte?"
Eu tenho cada vez menos respeito pelo rótulo. Acredito mesmo que qualquer desenho que ela, sem formação acadêmica em artes, faça nos cadernos que eu lhe fiz possa ser uma obra de arte (e ela tem bastante talento, mas isso é outro termo a ser esmiuçado algum dia...).
A pergunta dela me fez pensar no seguinte (sem mais demoras...): de fato, algumas das fotos que Wei Wei faz não chegam a ser muito mais diferentes do que o que muitos conterrâneos meus postam no Facebook, indignados com o nosso país. Nem é possível dizer que elas sejam dotadas daquela mítica "sensibilidade artística" que as separa das fotos das ditas "pessoas comuns". Mas tudo muda para ele (e para a Yaoni Sanchez), porque existe uma força opositora relevante. Isso muda tudo.
Se você posta no Facebook a sua indignação pelo Renan Calheiros ter assumido a presidência do senado, se você brada nas ruas o quanto você é violentamente contra o PT, se você quase tem uma síncope porque o Paulo Maluf continua gozando de plena liberdade, nada disso importa. Você vive em um país livre e supostamente democrático, onde você pode exercer a sua liberdade de expressão sem medo. Isso torna-se uma faca de dois gumes, porque embora você a possa expressar, a sua opinião também pode ser sumariamente ignorada. Se o governo não fizer nada a respeito (nem acatando o seu desejo de justiça, e nem prendendo você por externar o que sente), é quase como se você não tivesse dito nada. "A Dilma subiu o preço da gasolina! Isso é um absurdo!" E tudo o que a Dilma irá dizer é "pois é, que chato, né?" Mas o preço da gasolina continuará inflacionado.
Com Wei Wei e Sanchez, a coisa é outra. Qualquer comentário dissidente e eles misteriosamente "são sumidos" por algum tempo, têm seus bens confiscados, sua vida incrivelmente dificultada. Eles precisam de muito mais coragem para dizer o que nós ouvimos tanto que chegamos a ignorar ("mais uma denúncia de corrupção..."). O choque entre a força opositora que nós não temos aqui em nosso país e a coragem deles é o que faz um gesto tão simples como tirar um autorretrato ou blogar sobre o dia-a-dia virar uma obra de arte política. Não tem absolutamente nada a ver com técnica artística.
[Disclaimer: sim, eu sei que o Wei Wei tem obras de arquitetura incríveis, foi responsável em parte pelo estádio conhecido como "Ninho de Pássaro" na China e tem outras obras bem mais tecnicamente interessantes, mas estou me atendo aqui à exposição do MIS]
Encerro a reflexão fazendo a pergunta que fiz à minha mãe e Lexy: sendo que não temos aqui tamanha força opositora que valide as nossas expressões de indignação dissidentes, o que é que nós precisaríamos fazer (como trabalho artístico/expressivo) para ter o mesmo impacto que Wei Wei e Sanchez?