sexta-feira, janeiro 25, 2008

The Ghost of Me

Ouvindo a porta abrir, o pai pergunta quem é.
-"It's the ghost of Frida Kahlo"- responde Salma Hayek, entrando pela porta com aquelas sobrancelhas maiores que as minhas. Nesse ponto do filme, ela já está interpretando uma Frida amargurada pela própria condição física e a traição de Diego Riviera.
Mas a frase ressoou com o modo como eu andava me sentindo. O fim de ano e a arrumação geral da casa necessariamente me colocam em contato com tanta coisa que eu já fiz em outras épocas da vida e das quais me orgulho. Eu me orgulho de quem eu era. Eu me orgulho do adolescente que eu era na época do colégio, que escrevia, desenhava e fazia teatro com o mesmo ímpeto e gosto. Eu me orgulho da filosofia daquela época, das teorias metafísicas do que era a realidade, a religião, a condição humana, a vida, o amor e a morte. Eu me orgulho do artista que eu era na faculdade, com três ou quatro projetos correndo a cada ano, coisas realmente interessantes que tinham potencial para exposições e prêmios. Havia sempre alguma coisa acontecendo na minha cabeça, uma obssessão por algo, concreto, indicável.
E hoje eu sou vazio. Não termino uma pintura há mais de dois anos. A última peça de teatro que fiz foi há mais de quatro. Percebo que não tenho idéias, salvo efêmeros planos de carreira. E não é nada daqueles melindres de artista, de achar que nenhuma das minhas idéias é boa e que eu sou um fracasso: é simplesmente não ter idéias mesmo. Eu não me interesso por quase nada. Nada desperta meu ímpeto, minha libido artística. A vida enveredou para um eterno bege sem graça do qual eu nunca aprendi a sair sozinho.
Eu acordo e faço a cama com a certeza mecânica de um soldado. Tomo o ônibus para o trabalho como se de fato ainda estivesse dormindo. Frito na cadeira em frente ao computador por quase onze horas diárias simplesmente porque aquilo paga as contas, abanando para afugentar or problemas do emprego e as complicações dos trabalhos mal-feitos como se fossem moscas. Minha mente durante o trajeto de volta para casa habita uma espécie de devaneio sem sonho, como uma TV fora do ar. Em casa, ainda ensaio lembrar de algo legal pra fazer, mas uma rara espécie de Alzheimer toma conta de mim e não lembro de nada. De fato, falta-me energia para o pouco de que lembro.

Sou o fantasma de mim mesmo: conservando a aparência e a reputação do que eu fui, sem conseguir sê-lo efetivamente.

Dave McKean

Procurando pelo site do livro do Stephen King que estou terminando, encontrei as ilustrações da minha edição, feitas por Dave McKean.
O tipo de arte dele era algo que me incomodava antes de entrar para o curso de artes. Não é ilustrativa, realista. São visões de pesadelo, colagens texturizadas de imagens que já são violentas por si só. Às vezes, imagens que sacrificam noções como proporção ou perspectiva para atingir um efeito maior de desnorteamento onírico.
Não são imagens belas. Pelo menos não no sentido antigo de belezam, do sensual, do suave, do perfeito. São imagens de uma nova beleza que vem desde o fim do século passado e começo deste milênio. Talvez influenciada pelos anos de guerra, talvez pela degradação e enlouquecimento coletivo da humanidade. É a beleza do grotesco, do assimétrico, do estranhamente fora de lugar. Do sujo de ferrugem do tempo, de sangue do morto, de tudo que é hostil. Uma coisa que incomoda, mas ao mesmo tempo prende a atenção e faz querer ver de novo. É estética de decomposição, que eu escrevi na época da faculdade.

Eu vi muita coisa assim. Muita coisa que eu gostei. Estava nos livros do RPG de vampiros que eu joguei algumas poucas vezes com meus amigos, ou ilustrava versões das histórias de Neil Gaiman, ou ainda na primeira versão do site da banda Johnny Hollow. Nem sempre eram de autoria de McKean, mas tinham essa cara.
Hoje, com o que aprendi dos programas que uso na publicidade, eu poderia fazer imagens assim. Acho que ainda não tenho a criatividade solta para chegar nessas coisas tão interessantes, mas daria pra começar por aí. Se eu tivesse a câmera pra fazer as imagens...

quinta-feira, janeiro 24, 2008

Virada tardia

Ocorre-me que até agora não fiz o balanço do ano passado, como faço tradicionalmente. Pois bem, ei-lo aqui, com algumas semanas de atraso:

Em 2007 eu:

• Continuei querendo voltar para a Europa e desprezando o modo de pensar americano.

• Entrei para uma banda de rock, que passou a ser parte intrínseca do meu ano. O repentino ingresso no mundo da música ainda serve atualmente para testar minha hipótese de que, no mundo da arte atual, chega mais longe quem tem mais ímpeto e a técnica fica em segundo plano.

• Constatei a quase total erradicação do meu problema de ansiedade quando terminei a primeira apresentação da banda sem sintoma algum.

• Conheci minha Lexy graças à banda. Nossa diferença de idade deu cabo a certo ciúmes antigos que eu sentia.

• Dei fim ao caso da Genka, que hoje está feliz ao lado de um russo.

• Vi minha habilidade de canto decolar com a prática e me surpreendi com o que eu sou capaz. Por outro lado, descobri que pode-se fazer qualquer arte sem técnica, mas o canto sem técnica dói. E não estou só falando em desafinos.

• Vi minha habilidade de artista plástico definhar perante a falta de prática, já que a atividade da banda tomava boa parte do meu tempo livre.

• Vi o resto do meu tempo (uma parcela cada vez maior do meu dia) ser inevitavelmente tomado pela tentativa de ganhar dinheiro suficiente para sair da casa dos pais.

• Vi os rapazes da banda se tornarem as pessoas mais importantes para mim neste ano.

• Arquitetei a sorrateira fuga do trabalho escravo (leia-se estágio) que fazia tão mal para mim psicologicamente quanto financeiramente.

• Comecei a procurar apartamentos para alugar após ser contratado no novo emprego e percebi que a incompatibilidade com meu irmão tornaria o dividir um apê entre nós inviável.

• Encontrei o apartamento perfeito e estava quase assinando o negócio, apenas para ser puxado de volta à realidade do meu salário insuficiente. A saída da casa dos pais vai ter que esperar um pouco.

• Constatei a morte da minha esperança em algum dia encontrar realização pessoal na publicidade: essa carreira não é pra mim e quanto mais eu insistir, mais sofrerei com horas-extras e stress.

• Ainda não encontrei uma carreira substituta ou uma alternativa para me sustentar. Enquanto isso não aparece, continuo semeando uma úlcera com o trabalho de onze horas diárias naquela agência.

• Cogitei virar ator, para testar a outra hipótese sobre o mundo das artes: a de que bons contatos levam ao sucesso e técnica continua sendo secundária. Desisti da idéia por falta de tempo mesmo...

• Tive o aniversário mais animal até agora, com a festa surpresa que eu queria. Poucos apareceram, mas também não dá pra ter tudo...

• Estive em yet another acidente automobilístico, pela primeira vez não sendo o causador dele. E outra vez saí ileso.

• Briguei com meus pais para poder passar um natal com gente que realmente importa em vez de passar a noite sendo ignorado pelas minhas primas.

• Passei a última semana do ano tentando gravar um vídeo sobre uma cidade moribunda em Alagoas. Até que roubaram minha câmera e o complô local não me permitiu fazer nada a respeito.

• Passei um reveillon muito sem graça, se comparado ao precedente: preciso fazer minhas próprias festas sempre...


E em 2008 eu pretendo:

• Arranjar uma alternativa de ganha-pão. Isso é indiscutível e imprescindível.

• Voltar a estudar, aprender e me informar sobre arte. Seria conveniente trabalhar na área. Na verdade, a síntese desta resolução seria "voltar a me considerar um artista". Sair da época negra e torpe que foram os anos após o fim do curso de artes, onde a procura por dinheiro tomou o lugar do crescimento pessoal.

• Voltar ao circo (promessa repetida do ano passado...).

• Concertar a p*rra da minha internet de casa e voltar a ter algum acesso decente a MSN, blogs, fotologs e etc, porque isso aqui tá mais desabitado que a São Paulo do Second Life...

sexta-feira, janeiro 18, 2008

Assigned languages

There was definitely a difference between my english and hers. She seemed embarrassed by her simpler level, wereas I seemed embarrassed to know more. Ashamed to show off.

After I left her at her place, I made my way back home remembering how it was back in Europe. I didn't consciously understand it back then, but I was assigning specific languages to each person I met. I never actually thought about it back home, because everyone would speak the same language and other tongues were seen as something out of place, a prodigious ability.
My choices of assigned languages were always slim: either my native Portuguese, my dear English, the new and entertaining Italian, or my corroded Spanish. Everyone I met there was assigned one in my head. At times I met so many different people in one day, that I was unsure of which language we had used when we first met. And they might not have minded, but I felt it would be rude of me to address them in another language other than their assigned one. That delicious shift between languages that I enjoyed so much was something we did together, when conversing in a large group.
There was something fun about it though. I never felt that my complete ignorance of German, for example, was an actual limitation. It was more like language-jousting: in a large group, I could suddenly detour into Italian and a few people in the group would be left out of the conversation. Then one of them would regain the conversation by addressing someone in German, and it would be my turn to be left out.

Strange to understand it now, but I felt just as affraid of showing off in Europe, where everyone spoke two or three different languages, as I felt in my own country, where most people would obviuosly be assigned Portuguese as their language and wouldn't understand the vocabulary in this post.

Random Literature

"Ei, ei!" Ela soltava de repente, alto e autoritário, mas em um tom propositalmente pueril. Eu parava de repente, ou acordava de um devaneio desses que me atacam depois de um dia de trabalho, e virava o rosto para olhar para ela. Suas sobrancelhas franzidas brincando de seriedade e a boca em bico, birrenta.

Mas então, percebendo-me atento, as sobrancelhas relaxam, os lábios apertam-se em um sorriso bochechudo de bebê e aqueles olhos maiores que o mundo piscam duas ou três vezes antes dela me dizer: "amo você!".

Apetite

"Você tem apetite pelo trabalho", um dos meus chefes comentou esses dias. Não soube o que responder a isso. Disse ainda que, quando não se tem apetite, deve-se ter ao menos disciplina. Aé fiquei ainda mais perplexo.

Eu, que volta e meia durmo entre um clique e outro do mouse (principalmente depois do almoço...), que não sei o que se passa 80% do tempo naquela agência, que sigo apenas ordens diretas e pontuais sem pensar mais do que isso, que não dou a mínima para o que se passa na publicidade mundial. Eu tenho apetite pelo trabalho.

E como não demonstrar serviço e apetite, sendo que duas pessoas pediram demissão da área de criação quando saímos de férias e continuamos com o mesmo volume de trabalho? Eu mesmo estou encarregado de quase todas as alterações de peças e os e-mails e banners mais simples. Chego e processar cinco peças ao dia, quando antes me via com dificuldade para levar a cabo três.

Já tô até vendo a gastrite que eu vou desenvolver daqui a pouco...

sábado, janeiro 05, 2008

Fim de ano

Natal passado no nordeste, visitando a família.
Para enfrentar o caos do sistema aéreo brasileiro, comprei o volume 4 da série The Dark Tower, do Stephen King. Mal lembrava eu que o volume anterior havia acabado com nossos heróis viajando a fatal velocidade abordo de um trêm dotado de uma inteligência artifical que, após séculos de negligência e desuso, tornara-se suicida. Livro ótimo pra ler abordo de um avião da TAM a 10 mil pés de altura, né?

A cidade de minhas tias continuava lá, de pé naquela terra onde a vegetacão é violenta e a lei inexiste. Cortada pelos trilhos de um trem que, neste ano, passava pintado patrioticamente com as cores da bandeira.
E talvez pela primeira vez senti naquele lugar a passagem dos anos. Estava na ausência de tia Margot, cujo nome agora enfeitava o posto de saúde da cidade; na surdez e confusão da geração de tias solteiras de 80 anos (exceto por tia Tereze, que ainda tem mais saúde do que muito adolescente...), nas cores mais acinzentadas dos seus cabelos e o amarelo brilhoso e levemente senil das suas peles.
A cidade estava acabando. Já era uma noção presente em tudo, como no universo do livro de King, onde o mundo que o protagonista conhecia estava moving on, passando, se deturpando e deixando de existir para dar lugar a outra coisa desconhecida. A cidade de minhas tias estava moving on. A família já estava se reunindo em torno das mesas nos lendários almoços de natal a discutir o destino deste ou daquele membro, das próprias tias, de bens e etc.

No ar, a sensação palpável (tão palpável quanto o calor nordestino) da violência aumentando em direção à nossa família, a aristocracia da região. Da hostilidade tensionando pronta para o bote no olhar dos matutos na estação de trem. No olhar dos vigias vigicobiçando a propriedade. Um leve cheiro de turba ensandecida no ar, misturado aos cheiros comuns de vinhaça da usina de açucar, de maresia das praias, de cajú na mata.

E de fato, a violência explodiu poucos dias depois do natal. Caminhávamos na praia, eu, meus pais e meu irmão. Descuido: trouxera minha câmera para fotografar uma das minhas praias favoritas, onde aprendi a pegar onda quando criança. Eu normalmente não levo câmeras para a praia com medo de que a areia danifique o mecanismo.
A família caminhou pela orla: meus pais pelo exercício, eu e meu irmão pela compania. Conversavam sobre filosofia e eu, sentindo-me seguro quando dobramos pela parte mais desabitada da praia, tirei a câmera da capa e comecei a fotografar e fazer pequenos vídeos de minha família caminhando pela areia, o calor fazendo a imagem bruxulear diante das lentes.
Na volta (tinha acabado de fotografar uma caravela portuguesa, espécie de água viva que andava infestando as praias nordestinas e que encantava pelos tons de violeta e rosa, e colocara a câmera de volta na capa), dois rapazes apareceram do nada. Aliás, seria um eufemismo dizer que apareceram do nada: vemos os vultos de pessoas caminhando pela praia a quilômetros de distância, mas minha atenção estava na fotografia. Antes que pudesse avaliar o perfil dos rapazes e perceber o perigo, já estavam a poucos metros. De um trapo em uma das mãos, um deles tirou um revolver. Trinta e oito, reluzente, bem azeitado. Arma de polícia, porque bandido não mantém um ferro desse jeito. Meu pai diria depois que não viu pontas de bala nos buracos do cilindro, mas vai saber se não tinha uma na agulha (a única necessária pra fazer um estrago)?
-"Senta no chão e não olha"- o outro gritava. O rapaz armado apontava o revolver pra o rosto de meu pai e cobria o rosto com o trapo de onde o tirara.
Tudo ganhou aquele tom de realidade, à medida em que a adrenalina invadia meu sangue. Tudo mais nítido, mais lá. Como se o resto dos meus 26 anos tivesse sido um sonho bom.
Sentamos na areia. Eles recolheram nossos pertences, incluíndo a câmera pendurada no meu ombro. Depois devolveram documentos e a chave do carro. Me levantaram primeiro e disseram que me sentasse mais acima na areia. Depois sentaram meu irmão junto. No medo, estive pronto para ouvir disparos. Mataríam os pais e os filhos, no desespero, não correriam atrás dos bandidos em fuga. Mas logo em seguida meus pais sentaram-se ao meu lado.
Meu irmão, sempre de boa índole, murmurava suave alguma coisa que nos acalmasse, algo sobre bens materiais e prescindíveis. E então eu retruquei: "é, mas lá se vai a minha câmera...".

Todos sabíamos: o ruim não era perder a câmera. Um pouco de dinheiro e eu podia comprar outra. Mas aquele aparelho guardava imagens inspiradas do que talvez fosse o último almoço em família na casa das tias. Aqueles rapazes roubavam boas memórias. Como Alzheimer.

De volta à parte movimentada da praia, procurei a delegacia. Os nativos do lugar diziam até que não me desse ao trabalho: ela estava sempre fechada. Mais tarde, no povoado vizinho, encontramos um comunicado na porta da delegacia dizendo que a polícia estava em greve. Pelo vermelho descolorido da impressão, eu suspeitava no mínimo uns seis meses de greve. O delegado levou meu pai a uma salinha. Quando meu pai descreveu os bandidos dizendo serem dois, o delegado completou: "mulatos?" Ele até sabia quem eram. Não disse, mas era óbvio: policiais encenando crimes para chamar a atenção de um governo que não dava ouvidos à sua greve. Depois deu aquele conselho bem brasileiro: "doutor, vai curtir sua praia".

Digam o que disserem deste pais. Que tem cultura, que é lindo e toda a ladainha. Eu saio dele na primeira chance que tiver de um emprego decente lá fora.