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quinta-feira, agosto 21, 2014

Resposta para Dora

Não tenho mais escrito por aqui, e acho que o blog está morrendo mesmo. Mas neste ato de morrer, tornou-se também o lugar onde eu venho deixar minhas catarses, meus pontos finais, as soluções dos traumas e conflitos que marcaram meus vinte anos.

Coisas como o pensamento de hoje de tarde.

Por algum motivo, me peguei pensando sobre meus trabalhos dos últimos anos da faculdade de artes. E nessa corrente de pensamento, na série final de retratos que foi meu trabalho de graduação. E sempre que lembro dele, lembro da relação complexa que eu tinha com minha orientadora, Dora Longo Bahia. Como ela parecia escarnecer o fato de que eu estava defendendo como trabalho de graduação uma simples série de retratos. Mais do que isso, escarnecia o fato de eu, um homem, estar pintando retratos suspirosos de mulheres pelas quais eu tinha alguma fixação. Já naquela época, e sem ter estudado os assuntos que levariam ao meu mestrado, eu já conseguia entender que o escárnio dela representava mais do que aquilo que estava na superfície da situação. Era uma mulher forte, independente e contemporânea (leia-se após o estabelecimento dos ideais feministas como parte do status quo), zombando de uma atitude minha que era tingida de um machismo antigo, já bem capenga e moribundo, que nem percebia o quão patriarcal estava sendo. A atitude do pintor homem objetificando mulheres como musas de suas pinturas. Eternizando uma beleza que era apenas beleza, sem conteúdo. Hoje revejo minha série de retratos e tenho pruridos ideológicos em relação ao que eu fiz naquela época.

Mas o pensamento que me ocorreu esta tarde era mais específico do que isso.
Na época da minha banca de graduação, Dora lançou uma pergunta que me assombrou até o dia da banca. Eu morria de medo que meus avaliadores a fizessem porque, segundo Dora, minha resposta não era satisfatória:

"Se a série de retratos (em pintura) é produzida a partir da cópia fiel e realista dos retratos fotográficos destas mulheres, qual é o sentido de se fazer pintura? Por que não simplesmente apresentar as fotos?"

Hoje, tendo compreendido um quê sobre a verdade na arte, compreendi melhor a pergunta. As fotos tinham uma qualidade em si muito mais próxima destas mulheres. Eram o primeiro ato apaixonado de captar a beleza delas. A pintura era um fac-simile de um fac-simile. Perdia força. E tendo compreendido um quê também sobre meu próprio ato de obsessão sobre estas mulheres, compreendi também melhor a resposta. Uma resposta que, por outro lado, validaria esta cópia da cópia como um ato técnico que também tinha seu valor. Quase 11 anos depois da banca de graduação, eu acho que cheguei no que eu deveria ter respondido para minha orientadora.

Dora, o que eu faço é captar, me apropriar da beleza destas mulheres. Desconsideremos (como eu desconsiderava na época) todo o assunto da teoria de gênero (Feminismo, Masculismo, Patriarcado, Big Macho Painters...) que está implícito neste ato. Falemos apenas do ato em si. É um ato obsessivo, de moleque apaixonado que não sabe falar com garotas. De alguém que está procurando, ciente disso, um jeito de sublimar tesão não correspondido. Como ato de fruição estética, eu admito que há mais valor na minha experiência enquanto estou pintando os retratos, do que na experiência de quem vê o retrato pintado e não passa pelo processo. É arte para mim mesmo. Masturbação mesmo.
Neste ato, o mero fotografar da menina é um ato paralelo a uma ficada descompromissada de uma noite. É o usufruto momentâneo e raso da beleza desta garota pelo visor de uma máquina, congelando a imagem com o apertar de um botão, sem prestar atenção em muitos detalhes. Do ponto de vista do meu relacionamento com esta imagem (não com a menina, tenha isto em mente), é um relacionamento superficial, fugaz. Eu terei uma compreensão geral dela, das cores, da gestalt. Ela, a menina (e a imagem também, suponho...), merece mais do que isso.
Pintar o retrato da foto é um ato de obsessão e respeito maior. É paralelo a um namoro, romance de compromisso. É o usufruto demorado, estudado e cuidadoso de cada curva, cada tom acertado de cor naquela luz e naquela pose específica. Um errar e corrigir frequente, como o que fazemos em relacionamentos sérios ao tentar nos adequar ao parceiro. Na minha visão, é um respeito muito maior. Chame-o de objetificação muito maior, de obsessão doentia, chame-o de inocência ou ingenuidade. Não me importo: eu estava pintando para meu próprio deleite, como disse.

Você também pinta a partir de fotografias, né? Mas o que eu vi foram pinturas sem esta paixão estetico-erótica minha. Técnica apuradíssima na cópia realista das imagens, mas sem tesão. Se eu fosse novamente traçar paralelos, diria que é mais como uma transa em uma festa de fetiche. E eu conheço festas de fetiche... O deleite de fazer muito mais do que uma ficada descompromissada (muito mais do que uma fotografia), porém ainda menos do que um namoro firme. Não tenho nada contra. Aliás, até acho instigante. Mas, embora menos obsessivo, também me parece menos respeitoso.

Then again, você não me parecia alguém de namoros firmes.

[Claro que eu não poderia ter dito estas coisas em uma banca de graduação. Elas ficam apenas aqui, como a catarse que eu precisava em relação à Dora e àquela banca. E claro que, tendo estudado teoria de gênero, toda aquela série ganhou nuanças muito mais complexas e desagradáveis para mim, como mencionei.]

segunda-feira, março 24, 2014

Equipe do Mural - Semana 1

Vou tentar resumir a história até o momento, aproveitando que estamos ainda no começo. 

Desde que cheguei para dar aulas no Colégio, uma das coisas que me chamou a atenção foi que a professora de Artes que dava aulas antes de mim tinha conseguido um verdadeiro milagre: havia agora trabalhos de arte dos alunos espalhados por algumas paredes do Colégio. O milagre se dava pelo fato de que o arquiteto responsável pela identidade visual do Colégio era radicalmente contra qualquer desses tipos de "interferências", zelando sempre por paredes ou imaculadamente cinzas de concreto, ou com tijolo aparente, que de fato haviam se tornado a marca registrada da instituição. No meu primeiro ano, eu convivi com um enorme mural no pátio, que era uma mistura de referências da história da arte, da Mona Lisa, ao Abaporu. Só que durante as reformas das férias deste ano, devido à colocação de novos aparelhos de ar condicionado, o mural foi danificado, e alguém ordenou que fosse pintado por cima. Fiquei feliz com a reação dos coordenadores, que acharam aquilo um absurdo e prontamente montaram planos para refazer o mural. Eu me candidatei a chefiar a empreitada, que passaria a dar um objetivo para o meu curso de pintura que saíra do Memorial da America Latina no ano passado por causa de uma enchente e um incêndio (sem relação com a minha presença por lá, diga-se de passagem...) e agora estava sendo ministrado no Colégio mesmo. 

Ao contrário do que eu tinha feito no ano passado, anunciei o curso para pessoas que já tivessem alguma experiência de pintura, para montar uma equipe que não precisasse começar do zero em suas noções de cores, materiais e etc. 

A nossa primeira reunião trouxe uma colcha de retalhos de jovens artistas. Muita gente que desenhava, uns poucos que pintavam. Retratos, paisagens, esqueletos, modelos de moda... Eu sentia que dava pra trabalhar com estes poucos. Mas apesar de perceber que eles tinham conhecimento técnico, tinha medo de que eles não conseguissem se soltar, falar de assuntos mais pessoais, aqueles verdadeiramente interessantes, que fariam o Colégio perceber o mural, levá-lo a sério. Eu não queria que o mural acabasse sendo uma pinturinha comportada para papai e mamãe verem. 

Afinal, o que eu queria com o mural? Eram vários impulsos que me moviam... 
É claro que eu queria que o mural tivesse referências da história da arte. Não dá pra ignorar o passado, as origens, os grandes mestres. Mas fazer só isso seria um desperdício de espaço, esforço e esperteza. 
Um outro professor do Colégio tinha recentemente feito uma turma de fotografia extra-curricular, onde ele conseguira explorar com os alunos as opiniões que eles tinham de adolescência. Eles tinham expressado toda a dor, as ansiedades e as dúvidas dessa idade. Eu queria que o mural fosse mais assim. Que ele não exaltasse o Colégio por obrigação, mas também reconhecesse que tinha muita coisa aqui que fazia a adolescência valer a pena. 
Também queria que ele servisse como um chamado para atacar uma mentalidade vigente no Colégio desde a época em que eu era aluno, e que considerava arte uma futilidade. E quem era interessado por arte um diletante estúpido, ou pior, um CDF. Eu queria que o mural desse status a quem faz arte mesmo. A quem sente, a quem presta atenção nas coisas, a quem põe a mão na massa e entende de estética, design. 

E nesse último quesito, fiquei muito feliz quando algumas outras pessoas apareceram no segundo encontro. Eram alunos do segundo ano, algumas que tinham participado do curso de pintura do ano passado. Muita gente com ares de grafiteiros, de gente descolada, ou daquele jeito que na minha época era chamado de gótico, passou a ser emo e hoje era chamado às vezes de hipster. Eles eram desprezado em alguns círculos por serem diferentões, mas eram a turminha popular de outros círculos. Eu gostava bastante dessa gente porque eles experimentavam a vida. Roupas diferentes, novos jeitos de se comportar, de se querer, e principalmente de fazer. Eles não tinham medo. Se ficasse ruim, jogavam fora e começavam de novo. 

Eu ainda não vou dar nome aos bois (e vacas, sem intenção pejorativa...). Ainda é cedo, e eu suponho que muitos desse grupo ainda vão desistir e outros ainda vão entrar. Mas basta dizer que eu acho que temos uma mistura MUITO saudável de todo tipo de gente que o Colégio tem. Tipo um Breakfast Club do Colégio. São pessoas estranhas, e é isso que eu gosto em todos eles. 

No nosso primeiro encontro de trabalho mesmo, eu mostrei a eles como fazer transferência com thinner e fizemos novas edições de dois dos meus Phallics de Londres. Depois propus a eles para criarmos algum espaço para podermos falar anonimamente sobre tudo. Uma das meninas propôs uma conta de e-mail. Todo mundo tem a senha e pode mandar mensagens aos integrantes do grupo por esse e-mail. Ninguém sabe quem mandou. Acho que vai ser bom para desinibir essa turma. Se pudermos quebrar a barreira da timidez e do medo da reação dos outros, acho que esse grupo vai ter ótimas perspectivas.   

sábado, março 22, 2014

Trashed


Jeremy Irons é um daqueles atores que, assim como James Earl Jones ou Morgan Freeman, são detentores de vozes que valem a pena serem ouvidas. Pode declamar sonetos de amor e mensagens de genocídio com a mesma beleza.

Em Trashed, documentário exibido neste último sábado em uma sessão organizada pelo Colégio, Irons faz uma pesquisa sobre o modo como nós temos "resolvido" o problema do lixo no mundo. Ele parte das consequências dos aterros sanitários nos países pobres, onde eles não são fiscalizados; e nos ricos, onde mesmo os fiscalizados quebram as leis diante da aparente falta de alternativas. Passa então a ver opções como os incineradores e avalia as consequências da dispersão de seus resultados no ambiente ao redor. E termina o panorama pessimista investigando os giros oceanicos, áreas onde as correntes marítimas ficam dando voltas e concentram o lixo jogado pelo mundo todo.

A voz de Jeremy Irons e seu sotaque britânico reforçam a sensação de desespero nos fatos e imagens do documentário. Imagens muitas vezes impossivelmente fortes, inegavelmente chocantes. Mas em nenhum momento gratuitas. Porque a verdade é que, enquanto não formos chocados até o trauma por documentários como este ou como o Uma Verdade Inconveniente de Al Gore, não tomaremos ações significativas para mudar o que vem acontecendo. Eu assisti ao filme e não conseguia tirar da minha cabeça a longa lista de fatos cotidianos, infrações recorrentes que eu cometia, sabendo por alto das consequências que elas sugeriam. Eu continuava tomando água de copos descartáveis, mesmo tendo canecas à disposição no Colégio. Continuava aceitando meus produtos de feira embalados em sacos plásticos. E ainda não tinha feito a lição de casa básica de perguntar e averiguar se o lixo reciclável do meu prédio estava de fato sendo reciclado em vez de ser jogado junto com o resto.

Porém, mais do que tudo, não tirava da minha cabeça uma outra culpa mais inerente e difícil de mudar: a minha culpa como artista. Porque eu estava levando uma vida em prol da criação de experiências estéticas e de ensinar estas experiências aos alunos, mas isso consumia uma quantidade absurda de materiais: papel, tintas feitas de substâncias não-biodegradáveis, telas, solventes, plásticos de todo tipo. E para que? No fim de tudo, qual era o ganho que justificava tudo isso? O documentário me trouxe de volta questões da época de faculdade de Artes: seria possível reciclar esse material? Reciclar uma tela? A tinta seca e inutilizável que restava no final das sessões de pintura? Os tubos de plástico e alumínio das tintas? Pincéis velhos? Seria possível usar tudo isso para fazer mais material de arte?

Por hora, não tenho respostas a isso. Apenas uma vontade enorme de nunca mais comprar outra tela e passar a pintar em papel ou algo reciclado de jornais. Usar as tintas feitas de modo orgânico que eu ensino nas aulas. E varrer a minha casa atrás de todo plástico que possa ser substituído por papel (forros de lixo, sacolas de supermercado, embalagens para guardar alimentos prontos... ).

Trashed mostra exemplos de que reduzir drasticamente esse resultado nocivo é possível. A cidade de São Francisco, conta Irons, tem um programa que reduziu em 75% o lixo gerado na cidade, criando centenas de empregos no processo e economizando milhares de dólares para a cidade. E o passeio pela cidade é guiado por uma mulher, cuja família de três pessoas (e um coelho) conseguiram produzir, no ano passado inteiro, apenas uma sacola plástica cheia de lixo. São exemplos de que, com pesquisa e combatendo a preguiça e os hábitos de uma sociedade de consumo desenfreado e descarte irresponsável, dá sim para termos ambientes bem mais saudáveis e um futuro para nossos filhos.

Vai lá ser traumatizado um pouquinho. Você está precisando e nem sabe disso.

quinta-feira, agosto 29, 2013

Carta aos 9os

Carta lida na última aula do 2º bimestre, aos alunos do 9º ano, que estavam estudando rudimentos de cinema.


Turma,

Estamos prestes a concluir o segundo bimestre do nosso curso, e assistimos aos primeiros vídeos feitos por vocês. Eu achei importante tomar um tempo da nossa aula pra dizer algumas coisas muito importantes que eu percebi com a entrega destes trabalhos.

Não é raro eu chegar nas classes no dia que reservamos para apresentar os vídeos e ouvir de um ou outro aluno: “Leão, por favor não passa o meu vídeo para a classe! Eu vou pagar o maior mico!” Esse pedido me entristece não por causa daquela vaidade de professor, de pensar “poxa, eles não gostaram do exercício que eu fiz e que tava muito legal...”. O pedido me entristece porque, além do fato de que o vídeo dessa pessoa vai estar muito mal feito,  eu percebo também que ela não entendeu todo o propósito do exercício e, de forma geral, o propósito de se fazer arte (seja ela vídeo, foto, desenho, o que for). Artistas lidam quase sempre com o desafio da estética (de fazer algo parecer belo, interessante, estimulante).  Eles também têm medo de serem medíocres. E eles só conseguem ser bons e fazer obras geniais se eles aceitarem o desafio. Não é um desafio fácil de propor para estudantes de um colégio que tem tradição em ensinar o pensamento científico, racional, mas que não faz ideia de ensinar como nem para que produzir a beleza. Como consequência, vocês sabem resolver questões de matemática, mas ainda têm dificuldade em resolver os próprios gostos. E como consequência, o desafio de produzir um filme onde vocês vão expor a sua própria imagem é visto como algo inútil (pra que que estamos tendo essa matéria?”).  A verdade é que vocês só vão entender a utilidade desta matéria quando estiverem lá fora, tendo que falar em público em reuniões de negócios, por exemplo.  Mas segurem este pensamento, eu volto a ele daqui a pouco.

No ano passado, eu peguei um curso estruturado de um jeito que vocês teriam que produzir um vídeo por bimestre. Era pouquíssimo tempo para desenvolver roteiros coerentes, se encontrar para gravar cenas que não fossem toscas e ter carinho na edição do produto final. E com os trabalhos das outras matérias, muita gente fazia tudo isso em uma semana. O resultado, claro, era péssimo. Os alunos sentiam que era impossível chegar em um resultado bom e que estavam sendo obrigados a serem expostos ao ridículo daquele jeito. Para resolver isto, esticamos o processo para ocupar um semestre inteiro. Por mim, eu faria o vídeo direito, durante um ano todo. Com tempo para dar retornos mais úteis nos seus roteiros e filmagens.

Mas mesmo com tempos curtos, tinha muita gente que entendia o desafio e tomava gosto por fazer filmes legais. Ou talvez só tivesse medo de pagar mico... O importante é que essas pessoas levavam o exercício a sério. As outras, faziam algo parecido àquela coisa de fazer careta para o autorretrato que discutimos no ano passado. Elas faziam coisas toscas como quem diz: “se eu assumir a tosquice, ninguém vai conseguir me criticar”. E depois justificavam o resultado dizendo: “ah, vai... ficou divertido”. E a verdade é que não ficava divertido. Ficava chato, longo e frequentemente expunha os participantes a ridículos maiores do que as turmas que tentaram levar a sério.

Imagine agora a tal da reunião de negócios. Vocês vão usar a mesma estratégia da careta/tosquice assumida? Olha, eu detesto ficar só nos exemplos de emprego e carreira: a verdade é que eu acho que essa seriedade no que se faz deveria ser um valor aplicado em tudo na vida. Até vídeo caseiro, bolinho de chocolate, e-mail para a namorada. Um bom artista presta atenção nos detalhes, porque eles dão todo o gosto à obra. Tem um ditado que diz que Deus está nos detalhes.

Eu também vejo com pena que, mesmo com toda a racionalidade científica que lhes foi ensinada, vocês ainda não aprenderam a respeitar o trabalho um do outro. E preferem tirar sarro do erro (mesmo quando foi acidental) a comemorar e parabenizar um acerto. Não é novidade então, que tanta gente tenha vergonha de mostrar o que fez. Essa falta de educação básica é uma força negativa, desencorajadora. Eu acredito que seriamos muito mais produtivos, confiantes e geniais se conseguíssemos parabenizar aberta e claramente quem foi criativo e teve soluções legais, e déssemos um toque em particular, na boa, em quem errou. 

Daria menos vergonha, né? 

segunda-feira, junho 17, 2013

Aula de roteiro

Postado no Facebook, aproveitando as aulas de roteiro que dei aos meus alunos.

CENA 1: 
VIDEO: PG (Plano Geral) aéreo dos manifestantes organizando a maior manifestação pacífica em anos de história da cidade de São Paulo, tomando a Avenida Paulista. 

AUDIO: (cantos em coro mostrando indignação contra os R$3,20 do transporte, o custo da Copa, a violência policial, a corrupção, o Renan Calheiros e a PEC 37.) 


CENA 2: 
VIDEO: "Fade" para cena PC (Plano Conjunto) dos líderes do Movimento Passe Livre dialogando com o governo e a mídia toda achando essa abertura para o diálogo linda. 

AUDIO: Líder do movimento: "Só achei um absurdo sermos recebidos pelo Ministro da Segurança Pública e não pelo Ministro dos Transportes".
CENA 3:
VIDEO: "Fade" para PD (Plano Detalhe) de um canto de TV onde a manchete de um jornal afirma que o governo voltou atrás nos R$3,20 e que as manifestações pararam. 

AUDIO: Âncora do Jornal: "...o governador do Estado Geraldo Alkmin garantiu ontem que as tarifas não sofrerão mais alterações durante seu mandato".
CENA 4:
VIDEO: Corte para PC de dois adolescentes na sala de casa, assistindo TV. 

ÁUDIO: Ele: "Que bom que os protestos acabaram, né? Tanta violência...".
Ela: "É mesmo. E nós conseguimos o que queríamos. O povo brasileiro mostrou que não vai mais ser feito de panaca.˜
Ele: "É... E o Alckmin mostrou que é um cara bacana, um político legal. Metrô voltou a R$3,00. Mas sabe que eu tô com uma sensação de que a gente esqueceu alguma coisa...."
Ela: "O que?"
Ele: "Não sei... Deixa pra lá. Tira desse jornal noticiando mais um escândalo de corrupção sem solução e bota na Globo que o jogo da Copa tá começando!"

Pessoal, muita calma nessa hora. Esses políticos vão saber exatamente como desarmar essa situação e ainda saírem por cima. Prestemos atenção para não nos contentarmos com migalhas. Não deixem este roteiro virar realidade!

Considerações sobre a Revolta do Vinagre

Tentarei publicar este no blog de Artes do colégio. A parte sobre o Ai WeiWei já foi escrita aqui.

Eu ando acompanhando com muito interesse tudo relacionado aos protestos que têm ocorrido na nossa cidade. Além de perceber como os protestos mudaram minha própria posição de alienação e apatia, eles também têm me proporcionado uma ótima oportunidade para refletir um pouco sobre algumas das coisas que andei ensinando aos meus alunos de 9o ano, no curso sobre cinema. 
Atento-me especificamente a uma aula onde conversamos sobre o cinema sendo usado como ferramenta de dominação. O assunto da aula era o cinema, na forma do filme "Triunfo da Vontade" da cineasta nazista Leni Riefenstahl. Mas a rigor, a aula estende-se à mídia como um todo. Uma das estratégias de mídia que discutimos na aula consistia em omitir o emissor das mensagens. Trocando em miúdos: se você sabe QUEM emite a mensagem, você pode analisar este emissor e chegar à conclusão de que a mensagem é uma opinião de alguém de uma determinada classe social, representando determinados interesses. Mas se o emissor é oculto, a tarefa de contestar essa mensagem fica mais difícil. Nós a aceitamos como verdade mais facilmente. 

A semana pasada nos brindou com um exemplo formidável para estudo. O jornalista Arnaldo Jabor apareceu no espaço reservado a ele pela Rede Globo para emitir sua opinião sobre os protestos. De forma geral, desqualificou os protestantes, dizendo serem filhos da classe média ridiculamente protestando contra míseros R$0,20 que eles não precisavam, e descrevendo os policiais que reprimiam os protestos como as verdadeiras vítimas da violência. A opinião não era novidade. Boa parte da mídia mais conservadora repetia a mesma opinião. Mas, conforme nosso exemplo em aula, quando o William Bonner profere a notícia, sabemos que não é a opinião DELE. É uma opinião de alguém que lhe forneceu a notícia, e que permanece oculto, inquestionável, enquanto o âncora do jornal descreve os manifestantes como vândalos. Não se pode protestar contra o Bonner, seria injusto. Da mesma forma que seria injusto xingar um(a) atendente de call center pelas sacanagens perpetradas pela empresa para a qual ele/ela trabalha. "Odeie a mensagem, não o mensageiro". Mais do que isso: com o emissor oculto por trás do vasto e imponente nome da emissora de televisão mais assistida do país, a maioria das pessoas até desconfia, mas cede à ideia de que, se tamanho grupo de jornalistas está dizendo isso, eles devem saber mais do que nós. 
O caso do Jabor é diferente. Ele assina o comentário, da uma cara à opinião. O emissor não está mais oculto, ele está escancarado. E mal informado. Ele torna-se extremamente vulnerável ao ataque, à contradição de sua opinião. 
Diante da onda de denúncias de violência policial ocorrida na quinta-feira de protestos (dia 13/06), Jabor recebeu uma outra onda de vídeos em resposta ao seu comentário ([1] [2] - para citar alguns). Não teve outra opção que não a de se retratar. Mas fez isso através da CBN, tomando o constrangimento para si e evitando expor a rede Globo. 

Na segunda, eu fui ao protesto que começou na Faria Lima. Fui leve, sem nada que me tornasse uma ameaça para a polícia, pronto para correr. Meu coração acelerava com o número de gente na estação de metrô e as palavras de ordem cantadas por todos. Eu não via nada assim desde Londres, no meu mestrado. Larguei a manifestação e voltei para casa quando comecei a sentir no ar o cheiro característico dos solventes contidos nas latas de spray. Pixar propriedade alheia podia ser motivo para a polícia entrar em ação e a coisa iria escalar. Resolvi contribuir para o protesto de outras formas, incluindo este texto e a tentativa de abrir os olhos da criançada para questionar mais as informações que recebem do mundo lá fora. 

No caminho de volta para casa, fui lembrando do que eu havia escrito sobre a exposição do chinês Ai Weiwei no MISque visitei em Fevereiro deste ano. Eu soube dele pela primeira vez em Londres, uma instalação na Tate Modern onde ele lotou o piso da galeria de sementes de girassol feitas de porcelana. Milhões delas, feitas uma a uma por voluntários chineses. De lá pra cá, Wei Wei foi preso pelo governo chinês, o que causou toda uma polêmica mundial de artistas pela sua libertação, e aparentemente foi viver nos EUA ou algo assim. 

Assim como a Yaoni Sanchez que a minha mãe lê, fala corajosa e abertamente sobre as incoerências, e a miséria causada pela ditadura vigente em seu país de origem. Uma ditadura que prometeu igualdade a todos e forneceu uma igualdade de míngua e burocracia. A exposição no MIS era uma coletânea enorme de fotografias tiradas por Wei Wei e seus assistentes, documentando diversos processos de diversos dos trabalhos do artista. Todos trabalhos que falavam sem romantismos desnecessários sobre tudo o que estava acontecendo. Daquele tipo de documentação direta que qualquer blogueiro hoje faz. O que levou à já bastante recorrente pergunta: "mas isso é arte?" De fato, algumas das fotos que Wei Wei faz não chegam a ser muito mais diferentes do que o que muitos conterrâneos meus postam no Facebook, indignados com o nosso país. Nem é possível dizer que elas sejam dotadas daquela mítica "sensibilidade artística" que as separa das fotos das ditas "pessoas comuns". Mas tudo muda para ele (e para a Yaoni Sanchez), porque existe uma força opositora relevante. Isso muda tudo. Se você posta no Facebook a sua indignação contra este ou aquele partido político, esta ou aquela medida do governo, nada disso importa. Você vive em um país livre e supostamente democrático, onde você pode exercer a sua liberdade de expressão sem medo. Isso torna-se uma faca de dois gumes, porque embora você a possa expressar, a sua opinião também pode ser sumariamente ignorada. Se o governo não fizer nada a respeito (nem acatando o seu desejo de justiça, e nem prendendo você por externar o que sente), é quase como se você não tivesse dito nada. Com Wei Wei e Sanchez, a coisa é outra. Qualquer comentário dissidente e eles misteriosamente "são sumidos" por algum tempo, têm seus bens confiscados, sua vida incrivelmente dificultada. Eles precisam de muito mais coragem para dizer o que nós ouvimos tanto que chegamos a ignorar ("mais uma denúncia de corrupção..."). O choque entre a força opositora que nós não temos aqui em nosso país e a coragem deles é o que faz um gesto tão simples como tirar um autorretrato ou blogar sobre o dia-a-dia virar uma obra de arte política. Não tem absolutamente nada a ver com técnica artística. [Disclaimer: sim, eu sei que o Wei Wei tem obras de arquitetura incríveis, foi responsável em parte pelo estádio conhecido como "Ninho de Pássaro" na China e tem outras obras bem mais tecnicamente interessantes, mas estou me atendo aqui à exposição do MIS].  Encerro a reflexão fazendo a pergunta: sendo que não temos aqui tamanha força opositora que valide as nossas expressões de indignação dissidentes, o que é que nós precisaríamos fazer (como trabalho artístico/expressivo) para ter o mesmo impacto que Wei Wei e Sanchez? Talvez, na hora em que a Tropa de Choque abriu fogo contra os manifestantes na quinta, eles tenham cometido o ato que faltava para validar essa nossa grande obra de arte coletiva que aconteceu nestas últimas semanas.


sexta-feira, maio 10, 2013

Back in the Bubble

There was a strong and somewhat negative change in me after I began teaching at my former highschool. The fact is that teaching there became a sort of guideline to my existence, my routine and my interests. I was now teaching 11 to 16-year-olds from wealthy families about art, at a school that favored practical thinking. This, in a way, limited my openness exclusively to what I felt was relevant to this scenario. No time, energy or interest in anything else.

I felt hugely comfortable teaching them about the inner workings of photo cameras or the language of cinema, the practical tricks to improving their drawing and the basics of color theory. It was the practical side of art, something that wasn't so vulnerable to being written off as a useless waste of time, because it was tangible knowledge, that could be put to some use by students who had good access to high culture (though whether they chose to make the most of that access or indulge in lower, more futile, but equally usable pop references remained up to them...). This became the direction towards which I was driving all my being.
At some point, I noticed I was inherently different from the other teachers-in-training I was studying with. They were simple people from all walks of life, who had decided to provide children with some artistic experience. But they seemed conformed with ending up as underpaid teachers in public schools, as if the idea of striving for a well-paid job at a private school was an impossibility and I had somehow struck gold with the job I currently had.
It felt to me as well that they had some sort of skewed idea that the poor, the uncultured, the underdogs were the ones who would make the most of what they could offer, as if the wealthy were too priviledged and spoilt to deserve or even need these lessons and they would magically "happen" in their heads with no external help needed.
Furthermore, it bored me to notice that the approach these future teachers favored consisted of a slew of random and patronizing crafting exercises - making paper maché dolls, making stamps out of corks or potatoes, that sort of thing - that resulted in "cute" works from students who were completely clueless as to why they were doing this. The art class was an exercise in futility and students eventually degenerated into treating the class a a second break and the teacher as an idiot (with good reason too, since the class felt like the teacher was treating them as idiots...). I heard gruesome stories of disgruntled and bored public school students physically assaulting teachers -  such was the degree of disrespect. Granted that these exercises did develop students' dexterity and their cognitive abilities, but I was sure that could be done while at the same time teaching them actual conscious skills they could consciously use and facts they could assimilate, rather than one-off parlor tricks. I was expecting to be treated with respect, even if my class wasn't an integral part of the university admission exams. In order to have that, I had to give the students something tangible as well.

But all of this meant I was also becoming somewhat more narrow-minded. I had been to the public schools as part of teacher trainning. I had seen first hand how most of these humbler students were lacking in the basic formation needed to comprehend some of the more complex concepts. How most of them didn't even care. How the schools themselves were unwilling to invest what was needed for a decent art course because they didn't see it as something a future low-class worker would need. Gradually, I myself began to buy into the notion that improving an art course at a public school was a waste of time. I came close to believing that art was indeed irrelevant to these students (other than what they needed to carry out the manufacture of carnival floats and costumes, an industry that kept many of them out of misery). Bottom line: I shut myself off from the outer world, remaining inside this upper-class bubble.

I recognize this enormous prejudice as a way "the System" has of reproducing itself. Still, I see no way of escaping this at present. The teacher trainning classes, my classes, the painting classes on Wednesdays, everything is taking up so much time that there is no way to include volunteering for lower-class schools right now. Perhaps in the future.

And even then, I'll first have to be convinced I can actually make a difference in such children's lives.

segunda-feira, maio 06, 2013

Bullshitism

Lá em Londres, durante o mestrado, um dos professores nos mostrou este vídeo:




[Fiquei sabendo agora que a artista deu uma palestra na faculdade de Camberwell para os formandos do mestrado de lá naquele mesmo ano. Perdi...]

O vídeo me fez pensar sobre como eu andava ouvindo muito disso por aí. Não é nenhuma novidade que a carreira de arte baseia-se muito na sua capacidade de fazer política, de se apresentar como algo palatável e não como o que você realmente é: um estudante de arte inseguro, sem controle sobre a qualidade do que você faz, tateando no escuro pra ver se você acerta algum veio principal das questões estéticas da nossa época. Nessa tentativa de se vestir de alguém com mais autoconfiança, criamos todo esse vernáculo de palavras bonitas que na verdade não dizem nada além disso: que somos estudantes de artes inseguros, sem controle sobre a qualidade do... deu pra entender, né? Eu fui perceber lá em Chelsea (e já tinha percebido com alguns outros artistas por aqui) que essa estratégia do bullshitism realmente funciona pra muita gente. Entendidos e não entendidos de arte, que engolem as obras, sejam quais forem, se elas vierem empacotadas em palavras complicadas. Assim como engolem os artistas se eles vierem travestidos de personas excêntricas e expansivas.

Em uma tentativa bem-humorada de botar em prática essa crítica, e ao mesmo tempo tentar fazer a turminha que morava comigo na Bernard Myers House em Camberwell lavar a própria louça depois de comer, eu fiz toda uma série de fotos dos restos mofados de comida deles, cada uma acompanhada de um texto bem bullshitista, defendendo cada "obra" como um trabalho de arte pós-moderna. Acabou virando um álbum no meu Facebook, chamado de Kitchen Filth:

The latest trend in Filth Art mixes several elements of the postmodernist discourse. The contempt towards commercial art exemplified by the use of perishable materials, the stylistic promiscuity in the mix of old and new elements, the unconventional and uncategorisable final products and even ethnic elements that challenge Greenbergian modernism.


[Clique nos nomes das obras para ver]
Potception: (Ramekin on mold and unknown substance on bowl)
The geniality of this one resides in the complex play between container and substance, allowing a multiple-layered interpretation. A container sits on substance, which in turn sits on a container. This could go on indefinitely.

Koolaid: (Mold on artificially flavored beverage on glass)
The advent of modern synthetic materials such as artifical beverages gave rise to new possibilities in contemporary Filth Art, like the growth of mold on liquid displayed on this piece.

O negócio caiu tão bem na rotina da Bernard Myers, que no final do nosso período lá, eu até documentei o "trabalho final" que algum artista de Filth Art fez na nossa geladeira (e na de outros cinco apartamentos). Tudo devidamente satirizado com legenda bullshitista

Final Piece: I believe this is our Filth Artist's final piece for his/her degree show.
Notice the nice balance between the empty fridge door and the full fridge interior, linked together by the empty ketchup bottles left on the empty door, with their content reaching out to the other, full area. It's a conceptual link.
Although I have to say that I felt there's an element missing from this piece in relation to the others: the mold. Perhaps our artist just didn't have enough time to grow it before presenting it to us this morning....
You can view other pieces in this final series of works in Kenny Foot's album "June 4th"

segunda-feira, abril 22, 2013

Romantismo no MASP

O melhor de ser professor é que você acaba aprendendo muito para poder ensinar, e desenvolve um olhar mais detalhado sobre coisas que normalmente passariam mais superficialmente. No ano passado, fui com alunos o Ensino Médio para a exposição sobre o Impressionismo no Centro Cultural Banco do Brasil, no centro da cidade. Aprendi muito mais do que ensinei, e saí com uma visão BEM diferente e muito mais madura do que tinha sido o movimento, o que levou aos pintores a fazerem obras daquele jeito e como os artistas seguintes se apropriaram dessa linguagem. Nesse ano, pensando em fazer o mesmo, fui dar uma olhada inicial na exposição do MASP sobre o Romantismo.

Como falar para alunos de um colégio como o meu sobre o Romantismo?


Catedral de Salisbury Vista do Jardim do Bispo
por John Constable
O movimento encerra tudo do que eles mais precisam, e ao mesmo tempo nada do que eles podem compreender tão racionalmente. Pode-se falar das questões formais que fazem uma pintura romântica: como o tom escuro da vegetação às margens do quadro isola o espectador do mundo real, fazendo-o atravessar  por um buraco na mata em penumbra para visualizar um por do sol perfeito e brilhante atrás de uma catedral esfumaçada pela perspectiva atmosférica. Falar disso é falar de como nós, espectadores do quadro, estamos colocados nessa mata fechada que pode representar um monte de coisas: uma vida difícil, sufocante como mata fechada; uma escuridão fria que representa a falta de razão, de sentimento. Enfim, a vida real é tediosa, difícil e fria; é isso que os românticos dizem. E criam até um termo para isso: a vida é cheia de spleen.  O quadro romântico fala da possibilidade de encontrar uma abertura por entre essas folhagens escuras e modorrentas, para visualizar aquele por do sol quentinho, brilhante e colorido, representando sensações positivas e êxtase, como se a vida pudesse ser melhor, mais interessante e plena. O por do sol surge por trás de uma catedral perfeita, representando o acalanto da fé e da civilização, que são vistas como fonte desses sentimentos positivos. Porém o quadro também tem um elemento pessimista, já que a catedral e o por do sol estão muito além da floresta negra em que nos encontramos, fora do alcance. A distância é tanta que os contornos da catedral ficam azulados e perdem a nitidez. A composição é um jogo de seduzir este ser da floresta com esses confortos e segurança, e ao mesmo tempo lhe negar o acesso.
A maioria dos quadros do Romantismo têm essa configuração de ambiguidades: o escuro e a luz, o selvagem e a civilização, o violento e o seguro, o arrebatamento e a razão. E a grande brincadeira do Romantismo vai ser criar tamanha tensão entre essas duas coisas, entre seduzir e negar, que o espectador vai ter medo de quando essa tensão for satisfeita. Medo de ter aquela sensação de "ué, depois de toda essa antecipação, era só isso?". Medo de que a ideia que ele criou do êxtase seja muito maior do que o êxtase em si.
Em termos mundanos, é como ser seduzido(a) pela pessoa gostosa, bem vestida e culta, apenas para descobrir que ele(a) beija mal e é um tédio na cama.  E o resultado, em termos ainda mais mundanos, é que boa parte dos Românticos vai preferir a ereção ao orgasmo, a idealização à realidade.


Mas e daí? Falar para meus alunos sobre estes aspectos visuais do Romantismo (sem mencionar ereções e orgasmos, claro... ¬.¬) faria com que eles entendessem a cara de uma pintura romântica, sem entender sua graça, sua alma. Para entender o Romantismo, seria preciso falar do sublime. Mas que criança de família abastada e vida segura conseguiria entender o pavor, a loucura e o maravilhamento do sublime? O sublime que, na época do Romantismo, era relacionado ao terror do selvagem, da noite, da violência irracional.

Um terror muito maior do que qualquer um de nós, incompreensível, indomável. A Natureza era o maior monstro! E era por isso que pessoas, nos quadros Românticos, apareciam sempre pequeninas, perdidas na mata, à deriva no mar; e as edificações pareciam ser pequenos oásis de civilização e linhas retas, sendo lenta e inexoravelmente tragados pela Natureza (alô, casa da tia Suzy...) de borrões escuros esverdeados até virar ruinas.
Cachoeira de Paulo Afonso
de E. F. Schute
Paisagem com Fonte
de Charles-Émile Vacher de Tournemine

O Romantismo, no MASP, recebeu o subtítulo de "Arte do Entusiasmo". Na verdade, o movimento de fato expressa sentimentos muito fortes. Mas nem sempre positivos, entusiásticos. Nas vertentes mais extremas, foi o movimento que levou ao Werther de Goethe, e ao Drácula de Bram Stoker.  Às poesias de Lord Byron Álvares de Azevedo (no Brasil).  Essa busca por emoções fortes (positivas e negativas) pode ser encontrada até hoje em muito da nossa cultura que procura o êxtase (extasy) a qualquer preço (inclusive pagando com a saúde). O que mostra que o Romantismo foi mais do que um movimento passageiro da primeira metade do século XIX. Ele perdura até hoje, meio escondido, debaixo da sua cama, na escuridão da mata à noite, no fundo do mar. Esperando para atacar com todo seu caráter sublime a qualquer momento.

[SERVIÇO]
Quem se interessar pela exposição, pode encontrar mais informações no site do MASP.
A exposição fica aberta de terça a domingo e feriados, das 11h às 18h. Às quintas, das 11h às 20h.
Preços vão de R$7,00 para estudantes a R$15,00 a inteira. [Terça é de graça!!!]

E mais informações sobre o romantismo podem ser encontradas nos links abaixo:
• http://pt.wikipedia.org/wiki/Romantismo
• http://pt.wikipedia.org/wiki/Romantismo_no_Brasil
• http://www.suapesquisa.com/romantismo/romantismo.htm
• http://www.soliteratura.com.br/romantismo/

terça-feira, maio 15, 2012

Pina, Wenders e honestidade

Fui assistir Pina do Wim Wenders. Pra dizer a verdade, não gostei tanto quanto imaginava que gostaria.

Eu queria sim que minha vida fosse como os filmes do Wenders. Fotografia impecável, pelo menos três idiomas e muita poesia. Aos poucos, vou me rodeando de gente que me permite fazer isso. Começar uma conversa em português, ter passagens em inglês e um pequeno parêntesis cômico em italiano.

Não, a razão de eu não ter gostado do filme não tem nada a ver com Wenders. Tem a ver com a dança. Arrisco dizer que tenha a ver com a arte. E principalmente comigo mesmo e com acontecimentos recentes. Alguém recentemente me fez pensar bastante sobre honestidade. Mais do que isso, sobre ser honesto consigo mesmo para poder ser honesto com os outros. Essa noção aparentemente óbvia, ligada a outros questionamentos que eu estava tendo sobre a índole masculina brasileira, tem feito um considerável estrago na minha vida. Mas é um daqueles estragos que você sabe que merece, e pelos quais precisa passar. Pra se tornar um homem melhor. E isso é assunto para um outro longo post que talvez eu nunca chegue a escrever.

No meio da trilha de destruição que essa honestidade está deixando, encontra-se a minha capacidade de apreciar arte. Uma capacidade que antes era baseada em uma espécie de tolerância, como se, frente a uma obra daquelas áridas, meio abstratas e herméticas, eu dissesse "muito bem, eu não estou me relacionando com essa coisa, mas se está aqui, deve ter alguma importância e beleza que eu ainda não captei". Eu ignorava o sentimento negativo de isolamento que eu sentia, o enfado, o tédio, para quem sabe poder chegar a um nível de compreensão e maravilhamento mais adiante. Resumindo, eu fazia cara de conteúdo.
Mas dessa vez, vendo o filme com honestidade, eu resolvi não ignorar. Houve partes em que eu dormi MESMO. Houveram coreografias que não me diziam NADA. Movimentos espasmódicos que claramente eram o fim de algum longo e tortuoso processo do dançarino, mas que não queriam dizer nada para o expectador final que eu sou. Arte hoje às vezes é um processo. E faz sentido quando se vê desde o começo, como fez sentido para quem acompanhou o meu processo todo em Londres e entendeu porque que eu emergi de cabeça raspada, lixando minhas unhas em uma lixadeira mecânica. Porque que eu me embrenhei pelas baladas de Brixton. Porque que a Filha do Açougueiro teve que fugir. Mas pra quem pega o bonde andando, isso não passa de loucura estéril.
Quiçá eu devesse ter lido mais, pesquisado mais sobre a Pina Bausch antes de ir ver o filme. Ela era apenas um nome e uma noção de uma mulher daquelas.

E no entanto, há momentos de grande beleza no filme. Alguns são obra do Wenders: as tomadas do metrô alemão; as cenas nas paisagens desertas; a fila de dançarinos morbidamente sorridentes repetindo os movimentos de primavera, verão, outono e inverno; as construções meio Bauhauss onde algumas das cenas acontecem. Outras são Pina e seus bailarinos: a garota que se enrola nos braços do amado que foge dela; a outra que cai para os lados a cada passo, segura de que seu parceiro a segurará poucos centímetros antes de atingir o chão; os dançarinos jogando baldes d'água na rocha enorme no palco, me lembrando ondas na arrebentação.

Percebo que o meu estado recente me deixou um pouco avesso ao drama. Talvez um pouco mais frio, endurecendo a carapaça externa pela qual todas as artes futuras terão que penetrar pra me fazer sentir algo de fato.

E como será o efeito disso quando (e se) eu voltar a de fato fazer arte?

domingo, abril 15, 2012

Vermelho

Fui assistir Vermelho com o Antônio e o Bruno Fagundes. Os atores são pai e filho. Os personagens, Mark Rothko e Ken, são mestre e aprendiz de pintor. Essa coerência metalinguística ficou bem legal, e me deu muita vontade de voltar àquela questão da falta de um mestre. Na peça, Ken se apresenta a Rothko e começa a trabalhar para ele como assistente de ateliê. Ele é ansioso pela aprovação do mestre, que o trata como ninguém. Mas aos poucos, Rothko vai ensinando-o a ver a pintura, a encará-la com seriedade, a ter discernimento (e não apenas achar tudo "legal"). Até que eventualmente, há aquele momento sublime em que o aprendiz consegue apontar toda a megalomania e o egocentrismo do mestre e provar que ele também não é ninguém. Ou melhor, que ainda que tenha feito história, ele também é humano, preso ao seu tempo, e passível de um dia se tornar obsoleto. É a superação do mestre pelo aprendiz.
Há na peça uma energia forte, masculina, obviamente advinda dos personagens, que encarnam aquele estereótipo do pintor machão, rude, briguento. Não é à toa que a comparação entre Rothko e Pollock é feita durante boa parte da peça. Os dois, pintores machões (Pollock, até bem machista). Eu ainda não sei o que sinto a respeito desse estereótipo. Mas não gostaria de ser incluído nele algum dia.
Na época da minha graduação, eu tive a chance de ter Dora Longo Bahia como mestre. Mas eu era imaturo, arrogante, e vindo de uma geração que se dá ao luxo de desistir e ir procurar chances mais brandas ao ego diante do primeiro sinal de confronto. Tá certo que ela não facilitava muito as coisas. Mas bons mestres não afagam o seu ego desde o começo. Como resultado, eu pouco aproveitei esse relacionamento, e não tirei nenhuma chance disso além da boa nota no meu trabalho final da faculdade. Hoje, aos 30 anos, eu acho que eu teria maturidade e humildade para encarar um mestre como se deve. Para sofrer o necessário e aprender com isso.
Será que um dia eu ainda serei um mestre (que, diga-se de passagem, é mais do que apenas ser um professor de artes...)?
A peça também me deixou com vontade de voltar a fazer arte que nem essa do Rothko. Daquelas que precisam de muito tempo, muita paciência, muito gosto e discernimento pra apreciar. De demorar-se horas escolhendo o tom certo da cor (e não apenas pegar qualquer cor que vem no tubinho de tinta...), decidindo se é a relação certa com a outra cor. Dessas pequenices que não querem dizer nada para quem não está disposto a dedicar-se a essa fruição. Desse tipo de arte que eu até me divirto fazendo, mas não tenho a coragem de mostrar.

Quem sabe um dia...
Quem sabe com o mestre certo...

segunda-feira, abril 09, 2012

Jogos Vorazes

Meu alunos no colégio só falam da trilogia Jogos Vorazes, e eu queria muito comentar a respeito, depois de ter visto o primeiro filme. Devo no entanto aproveitar a oportunidade para falar de várias outras coisas e fazer um amarrado do que tem se passado.

Cenas recentes.

Tive uma aula particularmente complicada com uma turma da 7ª série que não parecia minimamente interessada em saber das festas folclóricas nacionais que estávamos estudando. O assunto já fora trazido à equipe de professores: eu achava que os alunos, nascidos e criados em sua maioria nesta mesma cidade, não tinham motivos para se interessarem por festas folclóricas de longínquos estados do nordeste. E nem mesmo pelas festas dos estados mais próximos. Só mostravam alguma empatia ao falarmos de Festa Junina, e quando muito, do Bumba-meu-boi. Claro, a equipe me disse que, como educador, eu devia encontrar meios de fazer essas festas folclóricas parecerem interessantes. Ainda estou esperando sugestões de como fazer isso...
Às tantas, perdi a paciência e chamei a atenção da classe inteira. Um dos alunos, mais desinibido, interrompeu a bronca: "Mas professor, sem querer ofender, pra que é que nós temos que estudar arte?". Eu temia a pergunta mais do que a fatídica "de onde vem os bebês?" que eu teria que responder a qualquer filho meu. A verdade é que eu mesmo não sabia (das artes, não dos bebês...). Eu me graduara e fizera um mestrado em artes. Fizera-o por vontade, por gosto (diletantismo?). Mas no fundo, nunca havia visto o sentido nisso tudo. Eu fazia de coração, mas a cabeça não entendia. Essa mentalidade, sem dúvida advinda da minha educação neste mesmo colégio, voltada para questões práticas, úteis, eficientes, com certeza tivera seu impacto no quão pouco eu conseguira me dedicar seriamente (de corpo e alma) a uma carreira como artista plástico. Eu continuava preso fundamentalmente a uma pergunta parecida, embora elaborada de forma mais madura: "pra que gastar tempo, dinheiro e cérebro em uma prática que essencialmente não executa nenhum serviço prático?" Eu ainda via arte como uma brincadeira, um parlor trick. Dá pra ver porque é que eu nunca dei muito certo, né?
O colégio, claro, estava querendo mudar esse jeito de pensar. Percebera que uma educação voltada apenas às questões práticas gerava formandos excelentes no tocante a ganhar dinheiro, porém profundamente incomodados com um vazio interior que fortuna nenhuma preenchia. Posso dizer por causos de amigos próximos que as consequências desse vazio chegaram a ser fatais para pelo menos um colega meu... Eu era parte desse processo, cria dessa mentalidade: parecia adequado que eu, percebendo as falhas daquela formação anterior, ajudasse a apontar o caminho para a nova formação.
Eu pensei em muitas formas de responder essa questão do meu aluno. Pensei em falar de estatísticas, do quanto o mercado de arte faturava, para dar uma dimensão palpável, quantíficável, compreensível para esse jeito de pensar que o colégio já instilava nos alunos (e já na 7ª série...). Mas se ele podia fazer tanto ou mais dinheiro como um engenheiro ou advogado, isso de nada o convenceria. E de qualquer forma, estudar arte não o faria automaticamente um artista de sucesso (assim como estudar matemática não o faria automaticamente um engenheiro de sucesso, e etc.). Pensei em falar de identidade, mas isso por si só já era um caminho espinhento na minha própria história. Parte da minha família era do nordeste e nem por isso eu gostava da cultura do sertão. Fora atrás da minha origem italiana e acabara me identificando muito mais com a cultura britânica, da qual não tenho descendência alguma. Eu sentia que havia sim algo a dizer aí. Algo sobre como temos que conhecer nossas origens para poder questioná-las e encontrar nossa verdadeira identidade. Algo sobre como eu começara com origens nordestinas e já fora aos confins da Walachia procurar minha identidade entre os vampiros históricos da Romênia.

E por falar em vampiros, mencionei o clássico da Anne Rice a um dos outros professores depois das aulas. Ele me falou de workshops que aconteciam entre os professores, onde era explorado o sentimento que alguns dos mais velhos tinham de que os mais novos estavam chegando para tirar os seus lugares. Lembrei logo da cena em que Armand diz a Louis que ele receia que chegue a época em que ele, contando já 400 anos, não consiga mais acompanhar as mudanças do mundo. E em seguida, pede que Louis, um vampiro recém-criado, seja seu elo de ligação com a época atual. No entanto, Armand continua tendo sua relevância, ao contar a Louis sobre a moral dos vampiros mais velhos, e porque eles tentarão matar sua pequena Cláudia, transformada em vampira ainda na infância.
Saíndo do colégio naquele dia, mencionei que Entrevista com o Vampiro talvez tivesse sido o Jogos Vorazes da minha época (dizer "na minha época" com 30 anos de idade ainda parece um anacronismo?). Foi pelo menos um dos contos que fizeram a cabeça de muita gente mais adepta à subcultura gótica. Eu poderia escrever largamente sobre como a história tem muito mais densidade do que qualquer das sagas mais recentes, mas minha opinião seria claramente enviesada. Os livros de Rice foram adequados a uma espécie de "revival" do gótico da minha geração de adolescentes. Porém tenho que admitir que Jogos Vorazes faz sim muito mais sentido para uma geração adolescente que já acompanha mais de uma dezena de edições do Big Brother e a grotesca cadeia de eventos televisionados que começou com o 11 de Setembro e hoje nos traz imagens de um país invadido e subjugado que não teve nada a ver com o assunto.

Então vamos ao que interessa: como que Jogos Vorazes me ajudará a responder a questão do meu aluno e trazer o estudo de artes para algo mais concreto para eles?

A resposta está na crítica.
A mais nova saga adolescente mostra um grupo de 24 jovens, dois de cada distrito do país fictício Panem, sendo colocados em uma arena para lutar entre si até só restar um. A carnificina é televisionada em uma espécie de reality show para uma população futurista de um distrito hierarquicamente superior que é totalmente apática ao fato de que são adolescentes de 13 a 18 anos abatendo uns aos outros como animais. Tudo isso sob um pretexto fraco e inverossímil de que a doação desses jovens como "Tributos" para o distrito superior inexplicavelmente fará com que os distritos subjugados desistam da idéia de organizar outro levante armado contra o superior. É, eu também não entendi a lógica nisso...
O que deu pra entender, e que eu acho que talvez seja a pouca parte louvável da saga, foi a crítica dupla sendo feita na história. A escritora Suzanne Collins disse em uma entrevista que teve a idéia para o livro enquanto mudava de canais na TV, entre um reality show e notícias da guerra do Iraque. A primeira crítica está no reality show no livro dela, que assim como as versões mais recentes do Big Brother, é mais "show" do que "reality". Eles nos trazem participantes que estão cientes demais de como manipular o público do outro lado da tela pode ser uma estratégia mais eficaz do que insistir na realidade do que está acontecendo do lado deles, na arena/casa dos Brothers. Há cada vez mais relacionamentos de fachada e polêmicas desnecessárias em prol de alavancar simpatia do público. Onde foi parar o "reality" de um grupo de pessoas sendo elas mesmas? Jogos Vorazes retrata isso, na medida em que a personagem principal encena um relacionamento de fachada para ganhar apoio do público, que pode lhe "patrocinar" ítens de sobrevivência dentro da arena; e na medida em que os organizadores do jogo moldam a imagem pública dela para tirar proveito disso.
Os organizadores do reality show talvez sejam o maior alvo desta crítica. No filme, eles mudam regras de forma cínica, manipulam o ambiente e os jogadores, tudo para cativar ainda mais o público. Mais uma vez, não há "reality", só o "show". Eles não deixam as coisas acontecerem naturalmente. No Big Brother e derivados, a coisa não é muito diferente (tá legal, não tem armas, bolas de fogo ou cães do inferno...). Já imaginou o que aconteceria se todos os "brothers" fossem colocados na casa e todo mundo se desse muito bem e não houvesse conflito? O programa seria um porre, com muito mais choradeira na hora em que um dos novos BFFs fosse eliminado por regras do jogo. Os organizadores precisam fomentar a discórdia, as rivalidades, o conflito. Eles precisam criar mocinhos e bandidos, mesmo que isso seja claramente artificial.
Quem assiste Jogos Vorazes deveria estar ciente de que os organizadores querem vender um determinado perfil que leva ao sucesso. O Big Brother não é diferente. E é por isso que a grande maioria dos participantes são rapazes bombados e garotas curvilíneas. Vez por outra, há um negro, um homossexual, uma gordinha ou um participante mais velho para dizer que o programa está contemplando todo tipo de gente, e até acontece de algum deles vencer de vez em quando, mas não dá pra negar que o perfil de sucesso sendo vendido pelos programas é o da beleza física.

A segunda crítica da história é relativa à guerra do Iraque. Na história, o distrito hierarquicamente superior venceu a guerra civil contra os outros distritos por ter tecnologia superior. Depois instituiu esse regime de "pão e circo" aos outros distritos e a seus próprios habitantes, mantendo-os distraídos com um programa de televisão. Os distritos vencidos são retratados lugares de baixa tecnologia, de pessoas com roupas pobres passando necessidade. Enquanto que o distrito superior tem cores, luzes, pessoas com cabelos impraticáveis e apelo pop. Lembra um pouco o Oriente Médio e os EUA, não? Interessante ver que a história está sendo escrita por uma americana, mas coloca os EUA simbólicos como os vilões da história. Na verdade, não é o primeiro filme a fazer críticas severas contra o imperialismo americano. Mas é legal ver cada vez mais filmes deixando claro que nem os americanos estão mais acreditando nessa de "luta contra o terrorismo".
Mais do que tudo, o livro serve como um aviso à geração adolescente que ficou fascinada por ele: prestem atenção, vocês estão sendo sedados pela mídia. Acordem!
O formidável aqui é que esse aviso está sendo veiculado através de um livro que virou best-seller e gerou um blockbuster adolescente nos cinemas. Ou seja, o aviso contra a mídia está sendo veiculado na própria mídia. E o sistema o veicula tranquilamente, crente de que o público já está tão sedado que nem vai perceber a crítica.

Termino este texto prolixo lembrando de uma passagem do filme onde um dos personagens diz que, se ninguém assistisse aos Jogos Vorazes, o programa e a doação de "Tributos" perderiam seu sentido e seriam cancelados. Seria maravilhoso poder fazer isso com um programa na vida real que já teve mais de uma dezena de edições e perdeu totalmente o seu sentido...

terça-feira, março 27, 2012

Caught in the undertow

Em inglês, usa-se a expressão stream of consciousness geralmente para falar do fluir das idéias, do modo como uma leva à outra, às vezes se fundindo em um raciocínio rápido e que não necessariamente segue uma lógica coerente. "Stream", aliás, é palavra usada para designar um riacho.

Pois bem, eis um exemplo típico do meu stream of consciousness atual:

Acho que eu consigo me planejar para ir comprar talheres e copos lá na 25 de Março na terça de manhã. Bom, primeiro tenho que passar no apartamento para pegar o carro: acho que deixá-lo no eletricista e pegar no fim do dia. Vejamos: um ônibus até o metro, e do metrô para a 25. Será que eu tenho crédito no Bilhete Único? Preciso estar de volta antes das 15:00 para avaliar as últimas apresentações dos meus alunos da 9a série. Ai, para tudo! Vou precisar chegar no colégio uma hora mais cedo porque esqueci de publicar na internet o gabarito do exercício que passei! Tem Wi-fi por aqui? A outra professora deve ter me mandado as respostas que ela montou. Eu sei que não vou conseguir publicar isso de casa porque hoje tenho que terminar a tradução. Peraí... Hoje tem tradução? Eu vejo isso depois. Melhor deixar uma nota no celular, ou eu vou esquecer. Aliás, já esqueci de ligar para o pessoal daquele cheque que voltou! Hoje era o último dia. Será que meu nome foi para o Serasa? A última vez que eu falei com eles foi ontem, nos intervalos das aulas de licenciatura. E por falar nisso, eu ainda não comecei aquela pesquisa sobre os diferentes tipos de escola para a aula de didática. E quando que eu vou marcar a reunião com o diretor do colégio pra falar da filosofia de ensino para essa pesquisa? A secretária dele falou pra ver um horário depois do almoço. Almoço! Eu ainda não marquei o almoço com a Bia que me escreveu. Ou o happy hour com o Laerte, que me ligou. Nem a visita à Nana pra pegar as caixas para a minha mudança. Sem falar da passada na casa do meu irmão, pra pegar o meu microfone para as aulas. Bom, no fim de semana não dá, porque tem encontro com a equipe de educação artística e com aquele filósofo/artista. Aliás, que pinturas legais as dele! E o meu ateliê continua cheio de caixas que não são minhas e com a poeira e o abandono de um ano inteiro... Aproveito quando for lá pra passar um tempo com a vovó. Poxa, estou devendo uma visita à outra vovó também! Tô morrendo de vontade de passar um tempo com elas, limpar o ateliê e voltar a pintar aquele papel giantesco que eu trouxe de Londres. Falando em afazeres artísticos, preciso terminar o desenho que eu ia mostrar para as 6as séries... E Londres! Ainda não comprei a passagem para Julho, para a cerimônia de graduação do mestrado! Pelo menos a inscrição já tá feita. Que horas são agora? Acho que ainda dá tempo de... o que é que eu ia fazer agora?

Há alguns dias, ocorreu-me o pensamento perturbador de que eu tinha deixado a publicidade porque ela estava comendo a minha vida e me deixando em um estado morto no qual eu não tinha tempo ou energia para as coisas que realmente me importavam; e que a nova rotina entre colégio, traduções, sair da casa dos pais, licenciatura e empreitadas artísticas estaria me matando do mesmo jeito. Resolvi essa angústia pensando que a publicidade me matava em prol de algo completamente irrelevante para a minha vida (e a dos outros...). A minha atual rotina pelo menos tem um sabor utilitário, relevante, pertinente. Um sabor mais acentuado de satisfação pessoal. E afinal, a única outra alternativa para esse "morrer" é eximir-me de toda e qualquer responsabilidade e não cultivar ambição alguma na vida.

Mas isso seria pior do que esse lento morrer (verbo - um pocesso). Isso seria estar morto (adjetivo - algo acabado).

quarta-feira, fevereiro 15, 2012

Nova Nod

Desci do ônibus. Caminhando em direção ao semáforo, ouvi o ruído alto, seco, breve e grave. Segundos depois, um sedã preto furou o farol vermelho acelerando. Deixava para trás uma trilha de destruição da qual faziam parte outros dois veículos. Há meio quarteirão de lá, uma base comunitária da polícia. Debati por alguns segundos se deveria aconselhar os motoristas dos carros que restaram sobre os policiais. Estavam em uma posição onde não podiam ver a base. Idéia melhor: vou falar com os policiais.
Enquanto comentava o que havia visto, um rapaz chega na base comunitária com o celular no ouvido, quase perdendo o fôlego. "Fomos alvejados", diz ele. E em seguida cita para os guardas um modelo de carro e placa. Dois dos policiais montam nas motos e saem em perseguição ao sedã preto. Há um pouco de confusão entre os policiais e o rapaz, que nervoso, não faz muito sentido. Um dos policiais começa a perder a paciência. E eu começo a entender. O sedã era a vítima. Um terceiro homem aparece em cena, um dos motoristas que ficou no rastro de destruição do sedã. Diz que uma moto deu meia volta e subiu a rua. Os policiais de moto estão indo pelo lado errado e a moto do agressor, sobre a qual tem-se apenas descrições vagas e nenhuma placa, já está longe. Depois de perceber que as vítimas têm muito mais informação do que eu, vou me subtraíndo da cena até desaparecer. O pouco de ajuda que eu podia prestar, já foi prestado. Mas assim como no assalto que sofri em Dezembro, volto a pensar nos "e se".
Todos nós somos muito pouco equipados para reagir eficientemente nessas situações. Eu estava na melhor posição possível para ver a placa do sedã. E nem me passou pela cabeça. Nossa reação natural é olhar para o estouro, para o epicentro do ocorrido, e não para o único indivíduo fugindo do local.
Mas ainda que eu tivesse reagido dessa forma mais "correta", eu teria incorrido em outro erro de estratégia: o de não raciocinar sobre quem é o agressor. No nosso país, na nossa cidade tumultuada, caótica e congestionada, um agressor teria pouquíssimos motivos para escolher um sedã para um crime depois do qual ele tem que fugir durante o horário de pico. Arriscando incorrer no perigo e na injustiça do estereótipo, acho que um agressor teria mais motivos para escolher uma moto. Ágil, rápida e igual a tantas outras. E a vítima, um carro grande, resistente, apto a furar a força o trânsito na sua tentativa de fuga. As madames entopem a Oscar Freire de SUVs que elas não conseguem estacionar.
Fico curioso para saber de gente que tenha presenciado situações em que o agressor fugiu em uma Mercedes, um Hummer, uma BMW. Na nossa cidade.

LilithNão posso deixar de pensar em uma associação pejorativa. Horas antes, eu estivera conversando com uma das professoras de educação artística. Ficamos muito entusiasmados quando começamos os dois a falar de uma exposição de Anselm Kiefer acontecida no final dos anos 90 no MAM. Eu, um adolescente que nem tinha sido equipado para reagir eficientemente neste outro tipo de situação e pelo menos ver o nome do artista. Ela, uma jovem guia de exposições que estava trabalhando em uma exposição que marcou sua vida.
Fui atormentado pelas pinturas que vi durante anos. Porque as imagens ficaram na minha cabeça, e eu nunca lembrei do nome do artista até essa conversa de hoje. As pinturas tiveram tanto impacto porque Kiefer usava referências ao mito sumério (e posteriormente hebraico) de Lilith, e eu estava no amadurecer da minha fase gótica. Veria, poucos anos mais tarde, o nome ressurgir nos jogos de RPG de vampiros, nos episódios de Evangelion, em pesquisas na internet. Os quadros também eram bem sujos, viscerais, bem "estética de decomposição". Algo que eu associaria depois aos anos 90 em si, ao grunge, uma das minhas paixões estéticas visuais e musicais (a MTV nunca mais teve vinhetas legais depois daquela época...).
Na série de quadros chamada de Lilith, que Kiefer fez inspirado em sua visita a São Paulo no fim dos anos 80, ele usa vestidos sujos e engessados na pintura para personificar a entidade mitológica. Os críticos dizem que Lilith aparece nas pinturas como se trouxesse o caos violento à cidade e "às obras de Niemeyer", que aparentemente devem simbolizar uma espécie de harmonia para ele e para os críticos europeus.

Na mitologia hebraica, depois que o relacionamento entre Adão e Lilith se desfaz, ela é banida para as "terras selvagens" (em alguns textos, a mesma Nod para o qual Caim foi banido), onde os filhos que ela tem com os demônios locais são chamados de "Lilim" e nascem e morrem às centenas todos os dias, completamente ignorados.
Perdoem-me se não me ufano com o atual momento econômico do país, as perspectivas dele ser uma potência do novo milênio e tudo que tem aparecido na mídia. A verdade é que uma parte de mim que eu gostaria que não existisse continua se sentindo de acordo com as pinturas de Kiefer.

Talvez estejamos mesmo em uma espécie de Nova Nod.
Talvez sejamos todos Lilim.

terça-feira, janeiro 10, 2012

Balanço de 2011

À medida em que a vida vai adquirindo contornos mais sérios, eu vou tendo menos tempo pra escrever por aqui. Questão de escolher de maneira sóbria quais são as suas bolas de golfe e o que é a areia [1]. O blog ainda está longe de terminar. Ele é parte intrínseca da minha presença virtual, de quem eu sou no mundo real também. Mas com certeza, eu já percebi que nesse ano, como dizia a Chebel, "I need to be living, not internerding...".

Mas vamos ao que interessa. Janeiro está quase na metade e eu ainda não fiz o balanço do ano passado. Um ano que dificilmente será superado (eu já não disse isso?), onde eu...

• ...estruturei muito melhor tudo o que eu pensava do Masculismo [1][2][3][4][5][6][7][8][9]
• ...comecei a encontrar pontos onde, apesar de diferentes, as compreensões do masculino dos ingleses e a minha se encontravam. [1]
• ...observei ativistas, protestantes e gente alternativa de verdade com visões de mundo e ideologias muito interessantes. [1][2][
• ...recebi gente lá em Londres para afastar a minha saudade. [1]
• ...conheci uma turma que não estava nem totalmente do lado masculino e nem do feminino. E estava vivendo perfeitamente bem com isso! [1][2][3][4][5]
• ...fiz vários vídeos! [1][2][3][4]
• ...percebi as crises, incoerências e o caos da faculdade em Londres. Quando a academia vira empresa, o caos se instala. Seja em que país for! [1][2]
• ...convivi com gente nova, estranha, estressante e interessante. [1][2]
• ...observei os "odds and ends" de Londres. [1][2][3]
• ...coloquei meu trabalho para inglês ver! [1][2][3][4]
• ...aproveitei que ninguém me conhecia tanto assim em Londres para ousar, dando início a uma mudança sorrateira de personalidade em direção a algo mais sexualmente ambíguo [1][2][3][4][5]
• ...visitei a Romênia, à procura do lendário e do verdadeiro conde Drácula! Aproveitei para aprender um nada de romeno. [1]
• ...comecei a cair na real em relação a ser artista, ao mercado e à academia, ao meu futuro. [1][2]
• ...me envolvi com o catálogo da turma, uma responsabilidade cheia de dor e de delícia. [1][2]
• ...assisti bem de perto à Europa entrando em crise. [1]
• ...tive que deixar a rotina gostosa de um lugar onde eu fui realmente muito feliz por um ano, para voltar ao meu país de origem e me readaptadar a estar entre conhecidos novamente. [1][2][3]
• ...tive meus choques culturais, desgostos nativos e pequenas frustrações de volta no meu país. A vida aqui jamais será a vida de lá. [1][2][3][4]


E o que será de 2012?
O ano promete muito. E embora esse muito seja muito trabalho e muitas obrigações, são também muitas possibilidades, muito gosto de vida adulta. Se tudo correr bem, será um ano em que eu...

• ...colocarei um pouco de lado as megalomanias da adolescência, o sonho não realizado e atualmente muito questionado de virar artista plástico de carreira.
• ...começarei a dar aulas de educação artística no meu saudoso Colégio Bandeirantes.
• ...investirei mais e melhor na carreira de idiomas.
• ...finalmente sairei da casa dos pais para ter o meu lugarzinho!
• ...continuarei interessado nas questões masculinas e nas ambiguidades de gênero, tentando levar uma vida que seja fiel à ideologia.
• ...voltarei brevemente à minha Londres para a cerimônia de graduação do mestrado.
• ...viajarei mais com a minha Lexy!