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sábado, dezembro 12, 2015


Faleceu na madrugada de hoje, dia 12/12/2015, aos 89 anos, minha avó Nydia Licia Pincherle Cardoso

Qualquer um que escrevesse este texto falaria da carreira dela. Eu acho essa uma tarefa ingrata. Frequentemente eu mesmo me cobro de ter que saber tudo a respeito da minha avó e meu avô, por acreditar que só assim eu mostro o respeito devido às lendas que eles foram. E que lendas que eles foram! Leiam as matérias de imprensa, leiam os sites, a Enciclopédia Itaú Cultural, leiam os livros da Coleção Aplauso! Leiam a autobiografia dela. Se é informação que vocês procuram, não peçam pra mim. Eu não vou saber ser objetivo. Eu não sou historiador, e muitas outras pessoas muito mais sérias devem ter feito pesquisas muito mais completas do que o meu conhecimento deles, tendo mais propriedade pra falar da vida deles do que eu. Eu sou só o neto. Mas talvez por isso mesmo, por ter convivido com ela como neto, e por ter um gosto pela escrita, que me escolheram para este texto. Eu mesmo teria exigido estar nesta posição, para poder honrar ela apropriadamente. Porque daqui, dá pra falar da Nydia como pessoa. Uma coisa, por exemplo, que eu jamais vou poder experimentar a respeito do meu avô Sérgio, de quem sobrou para mim apenas a lenda do teatro. E embora seja importante misturar nesse meu texto a memória da atriz Nydia Licia, eu quero falar da minha avó. Eu acho que isso tem mais valor e mais da alma dela pra mim. Vovó Dona Nydia, como passei a chama-la quando pequeno, ao ouvir uma cozinheira chama-la assim.

Vovó Dona Nydia nasceu em Trieste, 30 de Março de 1926. Filha de Giacomo Giuseppe Pincherle, médico especializado no tratamento de tuberculose; e Alice Schwarzkopf, preparadora vocal de cantores de ópera. Vejam bem, uma pessoa ligada à medicina e outra ligada às artes. Talvez daí tenha surgido um padrão na família comparável àquela família do 100 anos de Solidão, um intercalar-se de artistas como nós, netos da Nydia artista, e médicos de tuberculose, como sua filha Sylvia. E talvez por isso que Trieste sempre me pareceu uma terra mística. Onde cantores de ópera meio tísicos ensinavam lendas germanas às crianças através de espetáculos musicais, enquanto tratavam seus pulmões entre o pinheiral da “Pineta del Carso”, o sanatório de meu bisavô. Uma terra que já estava tão ao norte da Itália, quase na fronteira com a Áustria, que havia impresso na vó Dona Nydia aqueles cabelos loiros e olhos claros, o porte e os modos germânicos contidos, e uma infância repleta de um folklore europeu alpino, bem diferente do que eu percebia como italiano. Era a terra do Bora, o vento de inverno que chegava a 200 km/h e gelava apenas um lado das árvores, varrendo pedestres das ruas e dobrando placas. Eu visitei essa Trieste em 2006, passeei pelas colinas e tirei uma foto atendendo ao pedido de minha avó, que me disse para “beijar o mar” dela, o Adriático. Ela não visitava Trieste desde a década de 70 ou 80.
Mais tarde na vida, eu soube de outra Trieste. A que não podia existir no mesmo lugar físico do que aquela terra mística da vó Dona Nydia. Devia ser outra coisa, em uma dimensão paralela na qual nem o Bora ou a ópera chegavam. Da qual trens partiam cheios de italianos para campos de concentração fora do país. E na qual um médico judeu tinha que vender a preço irrisório um dos hospitais mais respeitados da região. Foi dos horrores dessa realidade paralela que eles fugiram para o  Brasil.
Eles largaram tudo na Itália e vieram para este lado do Atlântico. Eu sei que essa história já não é nova, muita gente aqui tem uma história dessas na família. Então eu pulo os pormenores e vou a dois pontos que interessam. Primeiramente, esse lento recomeçar do nada me ensinou quando adulto que bens materiais são só coisas. Que a vida pode ser mais simples. Que importa mais quem você é e não o que você tem. Ela vivia uma vida pacata e simples nestes anos mais recentes, mas vejam o impacto que ela causou. Ela vivia em uma vila pequena e escondida, sem alardes, mas tinha o porte físico, a dicção e a distinção de uma diva. Ela não tinha, ela era. Em segundo lugar, e talvez a ideia que mais me deleite, ela fugiu dos regimes totalitários europeus e, assim como muitos daqueles fugitivos, viveu até quase 90 anos de idade. Sobreviveu a muitos dos que seriam seus captores. E não apenas sobreviveu: ela veio para o Brasil, e com Pietro Maria Bardi, participou do começo do MASP, conhecendo Di Cavalcanti, Oswald de Andrade, Flávio de Carvalho, Aldemir Martins, Marcelo Grassmann, Lasar Segall, Tarsila do Amaral, Menotti Del Picchia... A lista é enorme. Porém mais importante: foram artistas modernos. E o teatro que surgiu do contato com essa cena cultural era um teatro moderno. Entende? Foram artistas da “arte degenerada” que os regimes totalitários tentaram obliterar. Ela ter vivido até quase 90 anos e contribuído para a solidificação da arte moderna no Brasil foi seu último chute no traseiro do nazi-fascismo.

Mas como eu disse, dessa Nydia Licia para a vovó Dona Nydia, há uma separação tão imensa que eu preciso fazer essa separação até aqui, no texto. Eu conheci uma outra pessoa, que eu queria relembrar pra vocês. A única ligação dela com a Nydia Licia é uma memória distante na minha infância da década de 80, de saber que ela viajava de avião entre o Rio e São Paulo. Eu não sabia o que ela fazia no Rio, sabia apenas que era “coisa de atriz”. Mas ela vinha direto para nosso apartamento do lado do aeroporto, trazendo um punhado de sachês com mel que eram oferecidos no café da manhã do vôo, e dava de colherzinha para mim e para meu irmão João. De volta à casa dela na vila, ela transformava esse hábito de nos adoçar a vida em uma brincadeira doce de esconder chocolates na sala e nos guiar até eles pelo “quente ou frio”. E nossos olhos passeavam por aquela casa! Por estantes lotadas de livros em diversos idiomas, por quadros que fizeram parte de minha educação visual e que anos mais tarde eu saberia serem esboços de cenário, por aquarelas da mãe dela, por móveis ornados de estilos diferentes e às vezes conflitantes. Tudo parecia ter uma história. E tudo, embora de cores diversas, me lembrava um tom de bege meio dourado. Era o tom dela, dos móveis dela, das roupas dela. É difícil explicar sinestesia, mas era o tom até do perfume dela: um daqueles perfumes numerados específicos, 4711. Um perfume que combinava com seu gesto de usar seus casacos por cima dos ombros, sem de fato vestir as mangas. Um perfume que combinava com seus gestos e serenidade meio felinos. Ela adorava gatos, e os da vila a recebiam como uma deles. Como a rainha deles. Acho que vou lembrar dela no olhar de todos os gatos. Na memória infantil de minha mãe, que tantas vezes havia sido colocada para dormir ninada pela canção de Tutu Marambá cantada por minha avó, ela assumia essa identidade deste gato que cantava nos telhados à noite. Não era muito distante da realidade da Nydia Licia que ninava sua garotinha antes de sair para a peça da noite na Companhia Nydia Licia-Sérgio Cardoso. E por essa identificação, sempre a chamava de . A simplificação monossilábica de gato? Ou a corruptela infantil de Tutu Marambá?

Acima de tudo, minha memória mais acessível da vovó Dona Nydia era sua paixão pelo natal. Embora judia, ela adorava o natal. Época em que ela trazia a mim e meu irmão para perto dela e lia os épicos contos de natal da Turma do Mickey que parodiavam o Guerra nas Estrelas, ou a coleção de Asterix que ela adorava. Hoje me pergunto por que ela não lia os contos germanos de sua infância. Nos finais de ano, a casa dela enchia-se da fragrância de pinheiro, quando ela mandava trazer um pinheiro de verdade para colocar no canto da sala dela. Ela o decorava com toda sua extensa coleção de adornos natalinos, de origens e estilo diversos. Na noite após a montagem da árvore, ela apagava as luzes da sala e acendia velas fixadas na árvore. E então eu e meu irmão caçávamos entre as bolotas coloridas os peixinhos de chocolate embrulhados em papel alumínio que ela conseguia das freiras morando perto da casa dela. Havia algo muito adequado para a época de festas e desejos de paz no fato desta judia confraternizar com freiras católicas e montar aquela árvore que enchia sua sala de presença. Nos anos mais recentes, ela delegava funções: meu irmão, o engenheiro, balanceava a árvore amarrando-a com fios de nylon para evitar desastres enquanto eu, o artista plástico, montava o “presépio da lareira”. Dito assim entre aspas porque não era um presépio mesmo. Ela tirava tudo de sua lareira desativada e deixava-me construir alguma cena festiva com os enfeites natalinos antes mesmo de enfeitar a árvore. Meu presépio tinha primazia criativa. Esse mashup de referências natalinas faziam dela uma pessoa que, aos 89 anos, continuava sendo totalmente atual, até mesmo fortemente pós moderna. O pós moderno é esta justaposição descompromissada de referências que, mesmo divergentes, chegam em uma coerência estética. O natal dela era pós moderno.
Ela sempre me incentivou como artista. Talvez tenha lhe faltado pulso para fazer de mim um ator. A família sabe que eu demonstrei interesse. Ou talvez, do jeito dela, ela tenha preferido me dar liberdade para ser o artista que eu quisesse ser. João tornou-se músico e ela foi sua preparadora vocal, seguindo os passos da mãe. Eu tornei-me artista plástico e ela me deu um quarto na casa dela que passou a ser meu ateliê. Já com dificuldade de subir a escada escorregadia até ele, vovó me interrompia no meio da tarde para que eu descesse para uma xícara de cappuccino instantâneo e contos de sua vida épica. Ela sabia, mais do que ninguém e mesmo que o jogo hoje fosse outro, o que era ser um artista jovem, ainda ingênuo, em início de carreira. E talvez aqui esteja condensada toda a falta que ela vai me fazer: avó, referência histórica, mentora artística, mecenas e até merendeira. Que vácuo enorme para preencher...

Quando eu era bem criança, cinco anos de idade, eu tive um sonho do qual ainda me lembro. Por um motivo besta que não convém contar,  eu havia morrido e ido para o céu. O céu do meu sonho era um lugar à meia-luz. Uma coxia de teatro (embora na época eu não soubesse o que ou como era uma coxia), com luzes apagadas e a pouca iluminação vinda de algum lá fora qualquer. A impressão era mesmo de um teatro ocioso, sem peças sendo encenadas. Eu via muitas cordas, madeira e dobradiças, enquanto era levado por alguma presença desconhecida para perto de uma figura sentada lá no canto. Uma figura que eu inexplicavelmente sabia ser o meu avô, sentada em um banquinho em frente a um tabuleiro de xadrez. Como eu já disse, nunca conheci o Sérgio de verdade, que não fosse a lenda do teatro. E portanto desconheço se ele jogava xadrez. Ele me disse para ficar quietinho. Porque ali, todo mundo estava relaxando, ficando quietinho. Na monotonia dos adultos, que as crianças ainda não entendem, eu me distraía observando meu avô. Não seu rosto, que eu não conhecia de verdade no mundo real, mas observando as asas dele. Um par meio mambembe de asas de madeira. Operadas com cordas, polias e dobradiças. Asas de teatro, que ele operava comicamente de vez em quando. E nesse faz de conta gostoso de adulto, de saber que a realidade é outra mas querer brincar de acreditar na fantasia, eu fico visualizando essa imagem da vovó Dona Nydia chegando nessa coxia no céu. Não a vovó Dona Nydia, mas a Nydia linda e capaz da década de 50. Pra sentar junto do meu avô do outro lado da mesa de xadrez e ficar quietinha. Operando vez por outra seu par de asinhas de teatro.


Para sempre Vovó Dona Nydia. Para sempre .

domingo, abril 26, 2015

Sobre Autoridade na Escola

Na Colômbia e um pouco aqui no Brasil, eu peguei um estilo de escola que insistia um tanto em uma disciplina quase militar, que punia quem desobedecia ou se insubordinava sem clemência ou negociação. Jã não existia a palmatória ou qualquer outro tipo de castigo físico. Estes tinham sido abolidos pelos nossos professores, que haviam sofrido bastante com esses tipos de punição e, lembrando da dor, não se sentiam à vontade para aplica-los a nós, seus alunos.

A geração de professores e pais que cuidou da minha havia abolido o castigo físico, mas ainda exercia uma autoridade punitiva e absoluta, que não admitia ser questionada. A autoridade que, ao ser perguntada sobre os por quês, respondia: "porque eu sou seu professor/pai e eu estou mandando". Não negociava e raramente se explicava.

Minha geração ainda achava tudo aquilo muito injusto, relacionando esse tipo de autoridade inquestionável e absoluta aos regimes totalitários que estes mesmos adultos diziam serem deshumanos e cruéis. Minha geração experimentou ser uma autoridade mais clemente e conciliadora, democrática, aberta ao diálogo e à negociação, querendo explicar ao invés de impor.

Nosso experimento gerou filhos e alunos sem limites, pois se limites podem ser negociados, eles podem ser superados. Esta nova geração venceu seus adultos pela insistência e habilidade de negociação superior, conseguindo o que queriam apesar das regras e ameaças.

Alguém me pergunta que tipo de professores esta geração será, se eles não conhecem disciplina e limite. E eu imagino que serão professores extremamente autoritários. Afinal, se eles são acostumados desde pequenos a sempre terem o que querem e a reagirem agressivamente sem serem punidos por isso, eles reagirão autoritários e despóticos a todo aluno que não responder de acordo com a vontade deles. E vamos retroceder para autoridades totalitárias novamente.

A pergunta que permanece é: quando e como voltaremos daí para os castigos corporais?

quinta-feira, setembro 11, 2014

Para Sabrina, sobre ansiedade


Primeiro, adorei que você me escreveu pra perguntar sobre ansiedade em resposta ao texto sobre depressão. Faz muito bem para nós saber que o nosso conhecimento e experiência de vida podem realmente ajudar alguém para além "daquilo que cai no vestibular". 
Eu demorei um pouco pra responder (o que, para uma pessoa ansiosa pode ser terrível, eu sei), porque sempre que eu começava, eu me pegava contando toda a minha história de vida e de como e porque eu tive ansiedade, em vez de entrar logo no assunto como eu fiz com o texto da depressão. É mais difícil pra mim falar sobre isso, porque minha perspectiva é muito de dentro do problema. Com a depressão foi mais fácil, porque eu era um espectador assistido ao drama, sem participar dele. Mas vamos tentar... 

"Solitaire" (2004)
óleo sobre madeira
A respeito da vontade
de não sentir nada
Eu não sou especialista nesses transtornos. Sou apenas alguém com alguma sensibilidade que observa essas coisas. Mas eu frequentemente penso na ansiedade como o oposto completo da depressão. Onde a depressão é uma falta de sentido e de sentimento na vida, a ansiedade é um excesso muito violento de sentimentos e significados imaginados, quase paranóicos em relação a tudo. Você sente demais, você conjectura demais, você atribui significados demais a coisas que talvez não tenham significado nenhum. Tudo parece ter consequências pesadas demais que PRECISAM ser consideradas (ênfase no "parece")! Faz sentido? Nas épocas de crise, tudo que eu queria era poder não sentir nada... 

Bom, eu vejo que não vou conseguir falar do assunto sem falar da minha experiência. Então, pra resumir e tirar logo do caminho a minha história, eu tive uma adolescência de me mudar bastante, viajar muito, começar de novo algumas tantas vezes. Esse movimento todo gerou na minha cabeça uma auto-avaliação constante: será que eu estou agindo certo? A pergunta, na verdade, era "será que eu estou sendo normal"? Ela me afetava bastante, porque moramos fora do Brasil, e como estrangeiro você se pergunta isso bastante. Achei importante falar desse questionamento e auto-avaliação, porque nele está uma das bases da ansiedade (pelo menos do modo como eu a encarei): a ideia de que os outros esperam algo de nós. Esperam que tenhamos determinadas atitudes, que nos encaixemos em determinados estilos, que tenhamos determinados objetivos de vida. Nós não sabemos ao certo o que acontece com quem não corresponde a essas expectativas todas, sabemos apenas que queremos corresponder. Queremos que os outros gostem de nós. Isso é muito importante, mas eu volto a isso daqui a pouco... 

"Sickness" (2004)
Óleo sobre tela
A respeito do enjôo
Me chamou muito a atenção duas coisas que você escreveu: primeiro que você acha que os outros devem te achar muito estranha. E depois, que você tem pavor da ideia de vomitar em público. Essas duas coisas foram muito parte da minha história também. A ansiedade se manifesta em cada pessoa de formas muito diferentes. Pra mim, ela começou com crises de amidalite antes de cada viagem que a família fazia ou provas na escola. Depois, na adolescência, ela mudou para algo mais pontual e instantâneo, um enjôo forte que acontecia em toda balada, toda situação social onde eu achava que estava sendo julgado (ênfase no "achava", porque ninguém estava prestando a mínima atenção em mim...). Ele atacava de repente, as coisas literalmente perdiam a cor, a graça, eu sentia o sangue fugir do meu rosto (devia estar ficando pálido), perdia as forças e começava a me concentrar apenas nesse enjôo. Só existia o enjôo. 
Eu tinha muito medo de mostrar aos outros que eu estava passando mal. Medo como o seu, de me acharem estranho, incapaz de fazer algo tão banal quanto se divertir em uma balada. E isso, claro, alimentava o ciclo (ansiedade dá enjôo, que me dá medo, que gera mais ansiedade, que dá mais enjôo, que gera mais medo...).Então, durante MUITO tempo, eu escondi isso. Eu passei mal sozinho. Tinha ainda mais medo de vomitar em público também. E cheguei a fazê-lo apenas uma vez por causa de ansiedade, em um hotel onde passávamos férias. Bem no saguão do hotel, enquanto eu procurava desesperadamente por um banheiro. O mais importante desse episódio foi que ele não foi o fim do mundo. Ele não significou NADA. Ninguém sequer lembrava disso no dia seguinte.

As coisas pioraram muito antes de melhorarem. O vestibular me levou ao pior período de ansiedade. Porque eu achava que todo mundo esperava que eu passasse direto. Porque eu achava que esperavam que eu fizesse USP. Porque eu achava que esperavam que eu tivesse uma "carreira de verdade" além das artes plásticas. Eu achava que esperavam muito de mim. De novo, ênfase em todos esses "achava". Minha ansiedade alcançou picos insuportáveis. Eu comecei a pensar que eu teria que lidar com ela a vida toda. Eu comecei a imaginar outros 50, 60 anos de enjôos e sentimentos de inadequação. Eu comecei a cogitar dar um fim nisso mais cedo... 

E foi aí que eu procurei ajuda. 

Eu comecei terapia já em um ponto em que a cadeia de raciocínio era tão automática, que o primeiro sinal de enjôo já disparava pensamentos de morte. A terapia me ajudou primeiramente dando um nome a isso que eu sentia (até então, eu apelidava isso de "a síndrome", porque não sabia que era ansiedade...). Depois, me ajudou a entender qual era o peso disso que eu achava que os outros esperavam de mim. Por último, me ajudou a entender que ninguém esperava nada de mim. A única pessoa que esperava algo de mim era eu mesmo. E eu conseguia negociar comigo mesmo. 
Eu considero que me curei de fato quando viajei pela primeira vez, sozinho, para a Europa. Poderia ter sido Ásia, África, ou até aqui do lado, em Sergipe ou Espírito Santo. O que importou foi que eu viajei sozinho. E me hospedei em um lugar onde eu era sim estrangeiro, em meio a muitos outros estrangeiros. Todo mundo agia diferente e não tinha um "normal". Mais do que isso, ninguém tinha ouvido falar de Bandeirantes, de USP, de FAAP (eu acabei fazendo DUAS faculdades por causa disso tudo...). Eu não era nem classe média-alta. Eu era nada. E como nada, eu podia ser tudo. E em um lugar onde todos eram estrangeiros, eu podia agir como eu quisesse e querer o que eu quisesse. 

Eu nunca me senti tão leve... 

Depois dessa viagem, eu compreendi algumas coisas. Primeiro, o poder de entender que ninguém esperava nada de mim. Nem os meus pais esperavam algo de mim de fato: eles queriam apenas que eu fosse feliz e auto-suficiente (se isso ia ser alcançado como artista plástico, arquiteto, vendedor de sapatos ou camelô da 25 de Março, não importava...). Eu que tinha que gostar de mim mesmo e do que eu fazia, não os outros. Comecei a estudar coisas de meu interesse e a mudar meu visual para algo que eu gostasse. Parei de ir nas baladas que os meus amigos iam e procurei outras onde eu pudesse fazer coisas que eu gostava (karaokê, baladas de gótico, etc...). Danem-se os outros. 
Depois, entendi que ser estranho e único me tornava muito mais interessante do que todo mundo que queria ser "normal". E isso tem uma ressonância muito peculiar na adolescência: você quer fazer parte do Bando e ser normal, mas ao mesmo tempo quer ser único e melhor do que os outros. Essa tensão é o que gera a ansiedade. Eu escolhi ser diferentão mesmo. E me orgulhar disso. A barba esquisita é parte desse processo, aliás... 
Por último, eu entendi que revelar isso aos meus amigos de confiança e pedir ajuda nas horas mais tensas aliviava MUITO o peso disso tudo. Tive namoradas que sentaram comigo no canto das baladas até o enjôo passar, amigos que conversavam comigo sobre outras coisas para me distrair da auto-avaliação, pais que me contaram suas próprias histórias de ansiedade. Mas sendo que você já me procurou pra pedir ajuda, acho que não preciso enfatizar essa parte! Você fez muito bem em fazer isso! 

Então, pra fechar esse texto enorme: ninguém espera nada de você. Seja você mesma, diferente, única, estranha e maravilhosa. Converse consigo mesma para entender do que você gosta, use as suas roupas com vontade e com orgulho, considere no Ensino Médio as carreiras que te fascinam e não apenas as que dão dinheiro (o dinheiro vem para quem é apaixonado pelo que faz - vide eu que estou ganhando a vida com arte). 

As coisas não têm todo esse peso, importância e significado que você acha que elas têm. Seja leve. 

quinta-feira, agosto 21, 2014

Resposta para Dora

Não tenho mais escrito por aqui, e acho que o blog está morrendo mesmo. Mas neste ato de morrer, tornou-se também o lugar onde eu venho deixar minhas catarses, meus pontos finais, as soluções dos traumas e conflitos que marcaram meus vinte anos.

Coisas como o pensamento de hoje de tarde.

Por algum motivo, me peguei pensando sobre meus trabalhos dos últimos anos da faculdade de artes. E nessa corrente de pensamento, na série final de retratos que foi meu trabalho de graduação. E sempre que lembro dele, lembro da relação complexa que eu tinha com minha orientadora, Dora Longo Bahia. Como ela parecia escarnecer o fato de que eu estava defendendo como trabalho de graduação uma simples série de retratos. Mais do que isso, escarnecia o fato de eu, um homem, estar pintando retratos suspirosos de mulheres pelas quais eu tinha alguma fixação. Já naquela época, e sem ter estudado os assuntos que levariam ao meu mestrado, eu já conseguia entender que o escárnio dela representava mais do que aquilo que estava na superfície da situação. Era uma mulher forte, independente e contemporânea (leia-se após o estabelecimento dos ideais feministas como parte do status quo), zombando de uma atitude minha que era tingida de um machismo antigo, já bem capenga e moribundo, que nem percebia o quão patriarcal estava sendo. A atitude do pintor homem objetificando mulheres como musas de suas pinturas. Eternizando uma beleza que era apenas beleza, sem conteúdo. Hoje revejo minha série de retratos e tenho pruridos ideológicos em relação ao que eu fiz naquela época.

Mas o pensamento que me ocorreu esta tarde era mais específico do que isso.
Na época da minha banca de graduação, Dora lançou uma pergunta que me assombrou até o dia da banca. Eu morria de medo que meus avaliadores a fizessem porque, segundo Dora, minha resposta não era satisfatória:

"Se a série de retratos (em pintura) é produzida a partir da cópia fiel e realista dos retratos fotográficos destas mulheres, qual é o sentido de se fazer pintura? Por que não simplesmente apresentar as fotos?"

Hoje, tendo compreendido um quê sobre a verdade na arte, compreendi melhor a pergunta. As fotos tinham uma qualidade em si muito mais próxima destas mulheres. Eram o primeiro ato apaixonado de captar a beleza delas. A pintura era um fac-simile de um fac-simile. Perdia força. E tendo compreendido um quê também sobre meu próprio ato de obsessão sobre estas mulheres, compreendi também melhor a resposta. Uma resposta que, por outro lado, validaria esta cópia da cópia como um ato técnico que também tinha seu valor. Quase 11 anos depois da banca de graduação, eu acho que cheguei no que eu deveria ter respondido para minha orientadora.

Dora, o que eu faço é captar, me apropriar da beleza destas mulheres. Desconsideremos (como eu desconsiderava na época) todo o assunto da teoria de gênero (Feminismo, Masculismo, Patriarcado, Big Macho Painters...) que está implícito neste ato. Falemos apenas do ato em si. É um ato obsessivo, de moleque apaixonado que não sabe falar com garotas. De alguém que está procurando, ciente disso, um jeito de sublimar tesão não correspondido. Como ato de fruição estética, eu admito que há mais valor na minha experiência enquanto estou pintando os retratos, do que na experiência de quem vê o retrato pintado e não passa pelo processo. É arte para mim mesmo. Masturbação mesmo.
Neste ato, o mero fotografar da menina é um ato paralelo a uma ficada descompromissada de uma noite. É o usufruto momentâneo e raso da beleza desta garota pelo visor de uma máquina, congelando a imagem com o apertar de um botão, sem prestar atenção em muitos detalhes. Do ponto de vista do meu relacionamento com esta imagem (não com a menina, tenha isto em mente), é um relacionamento superficial, fugaz. Eu terei uma compreensão geral dela, das cores, da gestalt. Ela, a menina (e a imagem também, suponho...), merece mais do que isso.
Pintar o retrato da foto é um ato de obsessão e respeito maior. É paralelo a um namoro, romance de compromisso. É o usufruto demorado, estudado e cuidadoso de cada curva, cada tom acertado de cor naquela luz e naquela pose específica. Um errar e corrigir frequente, como o que fazemos em relacionamentos sérios ao tentar nos adequar ao parceiro. Na minha visão, é um respeito muito maior. Chame-o de objetificação muito maior, de obsessão doentia, chame-o de inocência ou ingenuidade. Não me importo: eu estava pintando para meu próprio deleite, como disse.

Você também pinta a partir de fotografias, né? Mas o que eu vi foram pinturas sem esta paixão estetico-erótica minha. Técnica apuradíssima na cópia realista das imagens, mas sem tesão. Se eu fosse novamente traçar paralelos, diria que é mais como uma transa em uma festa de fetiche. E eu conheço festas de fetiche... O deleite de fazer muito mais do que uma ficada descompromissada (muito mais do que uma fotografia), porém ainda menos do que um namoro firme. Não tenho nada contra. Aliás, até acho instigante. Mas, embora menos obsessivo, também me parece menos respeitoso.

Then again, você não me parecia alguém de namoros firmes.

[Claro que eu não poderia ter dito estas coisas em uma banca de graduação. Elas ficam apenas aqui, como a catarse que eu precisava em relação à Dora e àquela banca. E claro que, tendo estudado teoria de gênero, toda aquela série ganhou nuanças muito mais complexas e desagradáveis para mim, como mencionei.]

segunda-feira, março 24, 2014

Miopia seletiva

Eu percebi o problema pela primeira vez durante o meu segundo ano de aulas no Colégio, em uma aula sobre proporção humana. Além de ter todo o esquema de proporções do corpo (as 7 cabeças e tal) projetado na frente da sala, tinha feito outros rabiscos e desenhado outro corpo ao lado da projeção. No que, até então, era uma imagem corriqueira das minhas aulas, eu estava passando por entre as mesas, respondendo a chamados de alunos que queriam saber apenas uma coisa: "Psor, tá certo?" Eu ia respondendo com toda sinceridade, sim, não, quase lá, tá errado aqui e ali. Mas em uma turma particularmente barulhenta, me vi sobrecarregado de alunos pedindo minha atenção por essa pergunta tão simples. E aí me bateu: por que é que eles perguntam, se a resposta está diretamente na frente deles? Passei a responder de uma forma até um pouco mais grossa, dizendo "largue o lápis, olhe para a lousa".
"Mas psor, me diz você se está certo!"
"Largue o lápis, olhe para a lousa".
Os alunos demoravam algumas repetições até fazer o que eu estava pedindo. Depois eu perguntava: "está parecido com o seu caderno ali no pescoço da figura?"
"Mas psor...."
"Está parecido com o seu caderno?" eu insistia.
"Não mas..."
"Então não está certo, né?"
O aluno reagia não como se fosse contrariado, mas como se levantar a cabeça e olhar para o que estava sendo colocado diante deles fosse uma tarefa árdua, pensar na informações fosse exaustivo. Ter o rápido sim ou não do professor era muito mais confortável.

Essa aparente miopia dos alunos, que incapacitava por vezes até os que se sentavam à frente de enxergar as respostas dispostas diante dos olhos deles, ganhou ares de seletividade mais adiante, no final daquele ano. Na última aula de um 9º ano, que jamais teria aula comigo de novo, eu me dei por vencido diante de uma classe totalmente descontrolada, que não respondia a pedidos de silêncio nem ao silêncio do professor, mas continuava me rodeando em volta da minha mesa, pedindo orientação sobre o que estudar para a prova. O problema ali era que todos os que me rodeavam estavam essencialmente perguntando a mesma coisa, mas todos queriam uma resposta tête-a-tête, única, para aquele indivíduo.
Vencido, eu abri um Word projetado na lousa e passei a escrever as orientações para a prova. A quem me perguntava, eu respondia lacônico: "na lousa..." e voltava a escrever. A balbúrdia não cessou, mas os alunos passaram a ler, todos juntos, às mensagens que eu projetava, voltando depois à mesa para fazer mais perguntas.
Mas o que mais me chamou a atenção foi quando, entre os alunos lá na frente, eu vi alguns deles tirando seus iPhones para fotografar a tela. Mudei de fonte de letra, e passei a escrever:

[perceberam como ninguém dá a mínima para o que eu falar, mas se eu escrever, todo mundo lê e ainda fotografa? Entendamos assim: contato direto não funciona, vocês precisam ler depois uma foto do que eu ia dizer agora. São três graus de separação: fala - escrita - foto. Quanto mais separado eu estiver de vocês, mas atenção eu terei?]

A ideia parecia familiar. Me lembrava daquela outra cena comum das aulas, quando algum dos alunos perguntava: "Psor, isso tá no site do Colégio?". E a partir do momento em que eu respondia afirmativamente, aquele aluno ia perder qualquer atenção na aula e passar a jogar em seu iPad, crente de que poderia ter o mesmo efeito assistindo à aula ou pegando os arquivos do site. Ninguém mais escrevia nada. Quando muito, fotografavam uma tela projetada lá na frente. A foto, claro, jamais seria vista por eles.

Hoje aconteceu a cena mais recente dessas. Ultrajado porque ninguém lhe disse que os sketchbooks valeriam nota, um aluno do 8º ano me confrontou, dizendo que essa informação não estava no site do Colégio. Aproveitava ainda para confrontar as datas erradas que eu tinha colocado no site sobre a entrega de um exercício fotográfico. Incrédulo, eu só pude questionar se a minha presença lá na frente ainda valia alguma coisa. Eu tinha avisado sobre o valor dos sketchbooks na primeira aula do ano, e anotado no canto da lousa, como de praxe para qualquer lição de casa, a data da entrega do exercício. Mas de nada importava, o site do Colégio ditava as regras. Era ao site que eles respondiam. O site era tudo. Eu, ali na frente, era uma distração barulhenta, incompreensível como os professores do Charlie Brown. Comentei com a classe, que eu conseguira miraculosamente acalmar, que do jeito que as coisas estavam, o Colégio poderia disponibilizar aulas no site, e ninguém precisava estar lá. Alunos pesquisariam em casa, professores só viriam ao Colégio para administrar provas.

E por mais que, no fundo da cabeça de qualquer um, essa possibilidade parecesse tentadora, havia uma falha desumana nesse tipo de raciocínio, e ela tinha absolutamente tudo a ver com a minha matéria. Eu viera a compreender ao final do meu segundo ano de aulas, que o que eu deveria estar ensinando a estes alunos não era a história do surgimento da fotografia, ou que misturando cores primárias nós chegamos às secundárias. Não era a sucessão de movimentos de arte ou o jeito "certo" de fazer um roteiro de filme. Eles precisavam aprender uma coisa ainda mais básica. Uma coisa que eles estavam perdendo com o avanço tecnológico. Uma coisa que eles talvez só fossem perceber muito depois de se formarem da faculdade, quando a vida perdesse o sentido e parecesse fria demais. Eles precisavam aprender a ver.

Eles precisam aprender a ver em vez de apenas enxergar. A ouvir em vez de apenas escutar. Sentir em vez de só tocar (continuo achando o touchscreen a maior ironia desta época...). No âmbito da Lexy, ela diria ainda em saborear em vez de apenas experimentar. Era uma questão de percepção. Estes alunos estavam com a percepção tão embotada, tão atrofiada, tão esquecida, que haviam desenvolvido esse tipo de miopia seletiva, de visão meramente funcional, que só servia para navegar o ambiente sem bater nas mesas. Porque nem para ler servia direito. Para isso, tinha algum professor que lia por eles. As respostas estavam diante deles, assim como aquele desenho de proporção estivera, e eles não conseguiam VER!!

E naquele momento de compreender isso, eu tive raiva. Deles, dos pais deles, dos iPads e iPhones deles, de toda essa situação. De mim, por toda a impotência diante do valor cada vez mais questionável que eu tinha como professor. E a questão não era que eu achasse que seria substituído pela internet e aparelhos de mão. A questão é que estas coisas jamais ensinariam a estes alunos sobre percepção. Elas eram necessárias hoje, faziam parte da realidade deles. Mas valiam à pena se o preço a pagar era o esvaziamento dos sentidos?

Com toda a raiva, eu ao menos havia entendido a importância que os professores tinham, e que parecia cada vez mais indiscutível, na era da informática.

sábado, março 22, 2014

Trashed


Jeremy Irons é um daqueles atores que, assim como James Earl Jones ou Morgan Freeman, são detentores de vozes que valem a pena serem ouvidas. Pode declamar sonetos de amor e mensagens de genocídio com a mesma beleza.

Em Trashed, documentário exibido neste último sábado em uma sessão organizada pelo Colégio, Irons faz uma pesquisa sobre o modo como nós temos "resolvido" o problema do lixo no mundo. Ele parte das consequências dos aterros sanitários nos países pobres, onde eles não são fiscalizados; e nos ricos, onde mesmo os fiscalizados quebram as leis diante da aparente falta de alternativas. Passa então a ver opções como os incineradores e avalia as consequências da dispersão de seus resultados no ambiente ao redor. E termina o panorama pessimista investigando os giros oceanicos, áreas onde as correntes marítimas ficam dando voltas e concentram o lixo jogado pelo mundo todo.

A voz de Jeremy Irons e seu sotaque britânico reforçam a sensação de desespero nos fatos e imagens do documentário. Imagens muitas vezes impossivelmente fortes, inegavelmente chocantes. Mas em nenhum momento gratuitas. Porque a verdade é que, enquanto não formos chocados até o trauma por documentários como este ou como o Uma Verdade Inconveniente de Al Gore, não tomaremos ações significativas para mudar o que vem acontecendo. Eu assisti ao filme e não conseguia tirar da minha cabeça a longa lista de fatos cotidianos, infrações recorrentes que eu cometia, sabendo por alto das consequências que elas sugeriam. Eu continuava tomando água de copos descartáveis, mesmo tendo canecas à disposição no Colégio. Continuava aceitando meus produtos de feira embalados em sacos plásticos. E ainda não tinha feito a lição de casa básica de perguntar e averiguar se o lixo reciclável do meu prédio estava de fato sendo reciclado em vez de ser jogado junto com o resto.

Porém, mais do que tudo, não tirava da minha cabeça uma outra culpa mais inerente e difícil de mudar: a minha culpa como artista. Porque eu estava levando uma vida em prol da criação de experiências estéticas e de ensinar estas experiências aos alunos, mas isso consumia uma quantidade absurda de materiais: papel, tintas feitas de substâncias não-biodegradáveis, telas, solventes, plásticos de todo tipo. E para que? No fim de tudo, qual era o ganho que justificava tudo isso? O documentário me trouxe de volta questões da época de faculdade de Artes: seria possível reciclar esse material? Reciclar uma tela? A tinta seca e inutilizável que restava no final das sessões de pintura? Os tubos de plástico e alumínio das tintas? Pincéis velhos? Seria possível usar tudo isso para fazer mais material de arte?

Por hora, não tenho respostas a isso. Apenas uma vontade enorme de nunca mais comprar outra tela e passar a pintar em papel ou algo reciclado de jornais. Usar as tintas feitas de modo orgânico que eu ensino nas aulas. E varrer a minha casa atrás de todo plástico que possa ser substituído por papel (forros de lixo, sacolas de supermercado, embalagens para guardar alimentos prontos... ).

Trashed mostra exemplos de que reduzir drasticamente esse resultado nocivo é possível. A cidade de São Francisco, conta Irons, tem um programa que reduziu em 75% o lixo gerado na cidade, criando centenas de empregos no processo e economizando milhares de dólares para a cidade. E o passeio pela cidade é guiado por uma mulher, cuja família de três pessoas (e um coelho) conseguiram produzir, no ano passado inteiro, apenas uma sacola plástica cheia de lixo. São exemplos de que, com pesquisa e combatendo a preguiça e os hábitos de uma sociedade de consumo desenfreado e descarte irresponsável, dá sim para termos ambientes bem mais saudáveis e um futuro para nossos filhos.

Vai lá ser traumatizado um pouquinho. Você está precisando e nem sabe disso.

sexta-feira, maio 10, 2013

Back in the Bubble

There was a strong and somewhat negative change in me after I began teaching at my former highschool. The fact is that teaching there became a sort of guideline to my existence, my routine and my interests. I was now teaching 11 to 16-year-olds from wealthy families about art, at a school that favored practical thinking. This, in a way, limited my openness exclusively to what I felt was relevant to this scenario. No time, energy or interest in anything else.

I felt hugely comfortable teaching them about the inner workings of photo cameras or the language of cinema, the practical tricks to improving their drawing and the basics of color theory. It was the practical side of art, something that wasn't so vulnerable to being written off as a useless waste of time, because it was tangible knowledge, that could be put to some use by students who had good access to high culture (though whether they chose to make the most of that access or indulge in lower, more futile, but equally usable pop references remained up to them...). This became the direction towards which I was driving all my being.
At some point, I noticed I was inherently different from the other teachers-in-training I was studying with. They were simple people from all walks of life, who had decided to provide children with some artistic experience. But they seemed conformed with ending up as underpaid teachers in public schools, as if the idea of striving for a well-paid job at a private school was an impossibility and I had somehow struck gold with the job I currently had.
It felt to me as well that they had some sort of skewed idea that the poor, the uncultured, the underdogs were the ones who would make the most of what they could offer, as if the wealthy were too priviledged and spoilt to deserve or even need these lessons and they would magically "happen" in their heads with no external help needed.
Furthermore, it bored me to notice that the approach these future teachers favored consisted of a slew of random and patronizing crafting exercises - making paper maché dolls, making stamps out of corks or potatoes, that sort of thing - that resulted in "cute" works from students who were completely clueless as to why they were doing this. The art class was an exercise in futility and students eventually degenerated into treating the class a a second break and the teacher as an idiot (with good reason too, since the class felt like the teacher was treating them as idiots...). I heard gruesome stories of disgruntled and bored public school students physically assaulting teachers -  such was the degree of disrespect. Granted that these exercises did develop students' dexterity and their cognitive abilities, but I was sure that could be done while at the same time teaching them actual conscious skills they could consciously use and facts they could assimilate, rather than one-off parlor tricks. I was expecting to be treated with respect, even if my class wasn't an integral part of the university admission exams. In order to have that, I had to give the students something tangible as well.

But all of this meant I was also becoming somewhat more narrow-minded. I had been to the public schools as part of teacher trainning. I had seen first hand how most of these humbler students were lacking in the basic formation needed to comprehend some of the more complex concepts. How most of them didn't even care. How the schools themselves were unwilling to invest what was needed for a decent art course because they didn't see it as something a future low-class worker would need. Gradually, I myself began to buy into the notion that improving an art course at a public school was a waste of time. I came close to believing that art was indeed irrelevant to these students (other than what they needed to carry out the manufacture of carnival floats and costumes, an industry that kept many of them out of misery). Bottom line: I shut myself off from the outer world, remaining inside this upper-class bubble.

I recognize this enormous prejudice as a way "the System" has of reproducing itself. Still, I see no way of escaping this at present. The teacher trainning classes, my classes, the painting classes on Wednesdays, everything is taking up so much time that there is no way to include volunteering for lower-class schools right now. Perhaps in the future.

And even then, I'll first have to be convinced I can actually make a difference in such children's lives.

segunda-feira, maio 06, 2013

Bullshitism

Lá em Londres, durante o mestrado, um dos professores nos mostrou este vídeo:




[Fiquei sabendo agora que a artista deu uma palestra na faculdade de Camberwell para os formandos do mestrado de lá naquele mesmo ano. Perdi...]

O vídeo me fez pensar sobre como eu andava ouvindo muito disso por aí. Não é nenhuma novidade que a carreira de arte baseia-se muito na sua capacidade de fazer política, de se apresentar como algo palatável e não como o que você realmente é: um estudante de arte inseguro, sem controle sobre a qualidade do que você faz, tateando no escuro pra ver se você acerta algum veio principal das questões estéticas da nossa época. Nessa tentativa de se vestir de alguém com mais autoconfiança, criamos todo esse vernáculo de palavras bonitas que na verdade não dizem nada além disso: que somos estudantes de artes inseguros, sem controle sobre a qualidade do... deu pra entender, né? Eu fui perceber lá em Chelsea (e já tinha percebido com alguns outros artistas por aqui) que essa estratégia do bullshitism realmente funciona pra muita gente. Entendidos e não entendidos de arte, que engolem as obras, sejam quais forem, se elas vierem empacotadas em palavras complicadas. Assim como engolem os artistas se eles vierem travestidos de personas excêntricas e expansivas.

Em uma tentativa bem-humorada de botar em prática essa crítica, e ao mesmo tempo tentar fazer a turminha que morava comigo na Bernard Myers House em Camberwell lavar a própria louça depois de comer, eu fiz toda uma série de fotos dos restos mofados de comida deles, cada uma acompanhada de um texto bem bullshitista, defendendo cada "obra" como um trabalho de arte pós-moderna. Acabou virando um álbum no meu Facebook, chamado de Kitchen Filth:

The latest trend in Filth Art mixes several elements of the postmodernist discourse. The contempt towards commercial art exemplified by the use of perishable materials, the stylistic promiscuity in the mix of old and new elements, the unconventional and uncategorisable final products and even ethnic elements that challenge Greenbergian modernism.


[Clique nos nomes das obras para ver]
Potception: (Ramekin on mold and unknown substance on bowl)
The geniality of this one resides in the complex play between container and substance, allowing a multiple-layered interpretation. A container sits on substance, which in turn sits on a container. This could go on indefinitely.

Koolaid: (Mold on artificially flavored beverage on glass)
The advent of modern synthetic materials such as artifical beverages gave rise to new possibilities in contemporary Filth Art, like the growth of mold on liquid displayed on this piece.

O negócio caiu tão bem na rotina da Bernard Myers, que no final do nosso período lá, eu até documentei o "trabalho final" que algum artista de Filth Art fez na nossa geladeira (e na de outros cinco apartamentos). Tudo devidamente satirizado com legenda bullshitista

Final Piece: I believe this is our Filth Artist's final piece for his/her degree show.
Notice the nice balance between the empty fridge door and the full fridge interior, linked together by the empty ketchup bottles left on the empty door, with their content reaching out to the other, full area. It's a conceptual link.
Although I have to say that I felt there's an element missing from this piece in relation to the others: the mold. Perhaps our artist just didn't have enough time to grow it before presenting it to us this morning....
You can view other pieces in this final series of works in Kenny Foot's album "June 4th"

quinta-feira, janeiro 17, 2013

Closing a cycle (sayonara, imouto-chan)

Despite the advice of psychoanalyst readers of this blog, I really need to begin this post by apologizing in advance. It will render me a lot of discussion with a lot of people involved. But I can't avoid being minimally committed to what little art I still do and I do consider this blog as a form of art, in a loose sense. That said, I need to close a cycle here that is being closed in my life, to explain a few things to myself, put all the anger away and move on. Otherwise this blog and the things in my head will remain incomplete. This might have dire consequences to the blog, given the long pauses that have happened.

Please notice that it took me something around nine months to write this post. The feelings included in it are no longer current, but I felt it would be important to write them down here anyway.

While I was getting another bunch of things to move from my parents' apartment to my own, I came across my collection of Video Girl Ai manga. It was such a pleasant time in my life. I'm constantly searching for other manga that touch my soul like that one. But I decided not to bring these magazines home yet. There was a metaphor contained in that whole story and taking them home would worsen my current withdrawal symptoms and the sadness. At that time, I had a childish tendency to compare the characters in that romance to people in my own. The main character, Ai Amano, a VideoGirl, was initially compared to Lee, but after a short time (and for a long time after that) that character was transferred to Nana. 

The VideoGirl came into the life (literally - from a video tape, she crossed the TV screen into the real world) of a pure-hearted boy who was having sentimental problems. She would serve him as a guide, as a companion while the boy healed, as an advisor in matters of the heart. And theoretically, she would never fall in love. In the case of Ai Amano, whose tape had been executed in a faulty VCR, she appeared with a few glitches. Among those, the ability to fall in love.

In my life, the character meant someone with whom I could have a relationship of complete trust and intimacy, being able to speak of all the subjects I would normally consider taboo when talking to girlfriends (the promiscuity, perversions, gender ambiguity, loyalty, etc...). Because after all, we weren't in any commitment, so there was no implied contract of any sort of loyalty between us, and each had their own affairs. This person was a best friend, and that friendship came before any love relationship, and that allowed for this unconditional freedom. There was however that delicious tension of something between the two.

Nana had been my VideoGirl for a while. We had total access to each other, through blogs, late night chatter on Skype or MSN, the short period we were in the same college class. At any moment, we knew quite well what was going on in each other's lives. We gave each other advice regarding relationships, regarding life. But contrary to a VideoGirl, a normal boy like me had the ability to fall in love. And so, in 2007, when she broke up her 7-year relationship with her boyfriend, I mustered enough courage to tell her. I caught her by surprise, and sweetly and tenderly, she dismissed me. She told me I was like a brother to her (something that would later provide me with the nickname of "Nii-san" - "older brother" in Japanese). Placed in the farthest reaches of the "familyzone" (further away even than the "friendzone"), I accepted the situation and buried any feeling I had. If I was more propper, I would have done what most people do and would have disappeared from her life. Cut off any contact. Sometime later, that would be the final lesson she would teach me.

The fact is I didn't want to be like most people. I wanted to be different, I wanted to be me. More than anything, I wanted to keep this person with whom I could open up, completely unafraid of being judged. After an initial moment's discomfort, life continued normally for both of us. She went back to her boyfriend. And I watched from the rafters while she took that downward spiral through depression, while she got pregnant from the unwanted daughter that would heal her from it, while she broke apart the relationship with the child's father that had lasted for as long as we knew each other.

Five years later. I was spending the year in London for my Masters' degree and our talks had gone back to what they were before I was exiled into the "familyzone". And they were good talks. Talks that were worth burying my feelings like I had done. VideoGirl talks. While I shaved my hair, while I faced my teenage traumas, while I reviewed sexuality, my native culture and my place in the world, she was someone who listened without judging. More than that, she was someone who even applauded and encouraged my attitudes, instead of just tolerating my strangeness. I never heard a single word of censorship from her. And I was someone who, when she found herself a single unemployed post-depressive mother, had been there to tell her she was still worth it. She had always been worth it and would always be. We were each giving the other what the other needed at that time. Falling in love was an obvious thing to happen. And when we talked openly about it, everything I had buried for five years burst up from the ground again and flourished. Neither of us had any control over it. And I must admit: it was beautiful. Writing anything about it would only cheapen what happened, but I can say it was beautiful.

Of course, my being in London was convenient. It gave us the possibility of sleeping on that and thinking it over. Because it wouldn't be that simple. She had ditched me in 2007 and, ever since then, I had started another good relationship that was full of understanding with Lexy. Five years. My longest relationship to date. With someone who went out on a limb to please me, to win my family over and chase her own dreams. Someone whom I'd come to respect as I had never respected any of the previous girlfriends. Someone who also listened to me throughout all the process of change that I had gone through in London and was also going through her own changes in life. 

Nana was never a big challenge for Lexy. Because Lexy was someone who would fight for things, for life, someone who liked achieving things. Lexy was an overachiever. Nana, on the other hand, just wanted some peace. She was concerned with her own happiness, and in a certain way, she wanted to be left alone. She didn't care about challenges. Challenges had lost any meaning to her after she recovered from depression (and these illnesses do have a way of putting things in perspective...). She didn't want to fight for anything, the only thing that mattered to her was happiness: pure, simple, limitless and with no concessions. And therefore, when I became a challenge, when I became something to fight for, she had no second thoughts about disconnecting from me and giving up the fight.

I suffered. I suffered a lot with the break-up of a friendship that had lasted for over 10 years. And however, she did teach me a lot. First of all, she opened my eyes regarding several of my little personal illusions. As I had mentioned in Laerte's post, she made me see how I had a tendency to "blame or demand certain things of others (and fate) that were in fact senseless demands". I had a rather vague idea that the world was fair. And in a fair world, those 10+ years I spent getting through her hard times, even if from afar, would be worth something. In a fair world, the fact that I had placed friendship over feelings would have been worth something, perhaps the continuation of that friendship. It would be worth reciprocity from her behalf in this recent situation. But of course, all of that was an illusion: we do not live in a fair world and those who really believe that have a lot of growing up to do. I had a lot of growing up to do.
No. We live in a cynical world, as a friend in London once said. A world that will laugh at you if you believe this sort of thing. I'm not saying Nana was laughing at me. She was simply trying to prove a fact of life: that she had no obligation whatsoever to deal with the likes of me.

She also opened my eyes as to a sort of pride that I had regarding my role in this story. Come to think of it, she had spent the greater part of those 10 years of our friendship dating someone else with whom she had shared a house and with whom she had eventually conceived a child. And then I watched her isolate that same person from her life and only failed to do it completely because their daughter still bonded them together for practical reasons (though, if she could, she would indeed completely ignore the existence of that person after that).
What right did I have to think I could be any more valuable than that person if I hadn't even shared my life with her that way? What right did I have to think that I was deserving of any more special treatment than the one dispensed on him, and that she would think twice or have any remorse in excluding me from her life in the same way? What's more: I didn't have "practical bonds" with her, so she could savor our complete and utter disconnection.

I decided to write this when I noticed a few months back that I had been excluded from her list of friends on Facebook. An apparently trivial, almost childish fact. A fact that might mean the world to people of my students' ages, and that an adult was supposed to ignore. But to me, it meant something. Because without Facebook or access to her blog and Tumblr, she was shutting down any form of contact I could have with her. Any whatsoever. Blocking any possibility that I may know what was going on with my alleged friend. The only way of contacting her again would be to call or write an e-mail (direct contact), which is something I promised her I wouldn't do on our last squabble ("don't worry, I will not bother you again"). And anyhow, I presume that even this sort of contact will soon be cut off as well.
On what little contact we had after that, she became colder and more aggressive. Until the final e-mail came in November, telling me not to contact her again. Ever. As she signed off, she called me by my real name and signed it with hers. It was a very symbolic and violent gesture. We had NEVER used our real names.

Before finishing this post, I need to make it clear that, despite it all, it isn't my intention to turn Nana into a sort of villain. It would be unfair to do it merely because I am the losing side of this story. It is actually quite the opposite, I believe she deserves some sort of recognition for reaching a sort of consciousness about herself that very few people have. I would have said "very few women", but the fact is I believe even very few men have it nowadays. A consciousness of placing her own happiness above everything. Rigorously everything: above matters of equivalence (that which is "fair"), above matters or morality, above friendships of over a decade. Quite the contrary, her happiness is worth A LOT. And she won't allow ANYTHING to threaten it. The careless would label her dangerously selfish. Feminists would call her a free woman.

I'll start simply calling her Mariana. Or even Anonymous. If I have reasons to call her anything at all.

Finally, I mentioned of the dire consequences for this blog. It was created vaguely around the same time I met her (a little more than a year later) and completed its 10th year in April, exactly on the day before she started her new relationship and began cutting all ties with me [1st post]. And since I just love coincidences like that with an almost religious fervor, I gave serious thought to closing down the blog. It would be a perfect cycle.

But alas, we're still here, I just felt I couldn`t give in to this. This cycle needed this closure and I needed to keep going on. Taking her advice on that final e-mail, I had to learn to put the past behind.
I believe I won`t be writing as often on this blog. I came to realise I wrote a great deal of things because I knew she was reading. I must learn again to write for myself. And as this post gets closer to the bottom of the page and can no longer be easily retrieved by readers (since the blog`s archive settings are busted...), so too will I put this whole story and pain aside.

quinta-feira, agosto 02, 2012

O Laerte  recentemente publicou um par de textos [1] [2] muito relevantes sobre o tratamento psicanalítico.

Me chamou muito a atenção ele mencionar o tratamento da psicanálise como um esforço de "retificação e responsabilização" do indivíduo. No meu caso, posso sentir exatamente esse tipo de coisa, ao ser levado nas sessões a responder por uma série de idiossincrasias. Coisas que eu julgava serem a forma "correta" de se viver, e que no entanto, para novamente citar o texto, não passavam de "culpar ou demandar certas coisas dos outros (e do destino), que [eram] na verdade demandas insensatas".

Sensatez, aliás, passa a ser outra palavra interessante. Making sense, fazer sentido. Quando eu penso nisso, penso em agir de forma lógica e coerente, de acordo com o lado racional. E vou dizer uma coisa: eu cansei da coerência. Eu fico aqui escrevendo sobre a era pós-moderna e como não há qualquer obrigação por coerência estilística na arte hoje, mas acho que a coisa vai bem além. Não há qualquer obrigação por coerência hoje. Ponto.
Eu acho que a gente acaba negando muito do nosso lado subjetivo para poder ser coerente. Quando se fala em homens então, a coisa é pior ainda. E eu neguei mesmo. Muita coisa.
A terapia tem mostrado muita coisa conflitante, muito paradoxo, muita contradição. Mas também tem me deixado mais à vontade com as incoerências. Com poder dizer "sim, eu penso coisas conflitantes", "sim, eu quero um pouco de tudo". E na verdade, talvez essa seja a forma "correta" de se viver.

(""""""""""""""correta"""""""""""""" assim, com MUITAS áspas).

Combate

"...e na minha situação de hoje eu acho que eu teria como enfrentar um desses encontros de X anos de formandos do colégio".

"Enfrentar..." sublinhou o analista.

Nas nossas sessões, esse assunto tem aparecido bastante. Tenho algum receio de escrever a respeito, porque eu sei que todo mundo vai ficar reparando nisso quando lidar comigo. Mas resolvi que isso vai fazer parte do processo terapêutico todo.
O fato é que ele começou a insistir no fato de que eu encaro a grande maioria dos relacionamentos interpessoais que eu tenho como uma espécie de combate ou negociação (para evitar os comentários que surgirão sobre a minha escolha belicosa de termos...). Exceto por raríssimas exceções. Raríssimas mesmo. E mesmo essas, eu tenho a tendência a estragar. Vide exemplos recentes.

Eu não posso dizer com certeza que os anos de educação no meu antigo colégio tenham sido os únicos responsáveis por isso. Quiçá a tendência venha de antes disso e tenha sido apenas potencializada pela formação competitiva do colégio. E no entanto, eu ainda não enxergo como encarar as coisas de outro jeito. Eu só vejo o caráter cáustico dos relacionamentos amorosos, a competição profissional entre os colegas de trabalho e faculdade, o wrestling pela aprovação da família. Há sempre a consideração pelo Outro. E isso é sempre um combate, com estratégias, ganhos e perdas. É possível ser de outro jeito? Não totalmente, eu acho. Mas é possível ser menos assim, como percebo pelos meus exemplos próximos. Ou gente que simplesmente adota a estratégia de "não jogar o jogo". Mas mesmo isso é uma estratégia, né?

Falamos do colégio. E é engraçado, porque isso me trouxe a um exemplo paradoxal de mim mesmo. Eu sou assim, de encarar as coisas como esse combate, mas sempre adotando as vias mais passive-aggressive, evitando o confronto direto e violento, fazendo de tudo para evitar brigas. Como se enxergasse o confronto, mas tivesse medo dele. Minha atuação como professor é o exemplo perfeito: faço de tudo para dominar a classe, mas ainda sou cheio de pudores para dar broncas e excluir da sala, por receio dos alunos . Os alunos percebem. E testam limites.

Talvez tenha sido cedo para escrever aqui. Eu ainda preciso pensar mais sobre o assunto. Voltei para casa me perguntando se o melhor seria aprender a confrontar diretamente, perder esse medo e evoluir; ou seguir os exemplos de quem se excluiu do jogo, largar esse papel e me exilar do convívio social.

O importante é: eu de certa forma cansei disso. Concordo com o analista (e com boa parte dos comentários que virão) que há de existir outro modo de conviver.

terça-feira, março 27, 2012

Caught in the undertow

Em inglês, usa-se a expressão stream of consciousness geralmente para falar do fluir das idéias, do modo como uma leva à outra, às vezes se fundindo em um raciocínio rápido e que não necessariamente segue uma lógica coerente. "Stream", aliás, é palavra usada para designar um riacho.

Pois bem, eis um exemplo típico do meu stream of consciousness atual:

Acho que eu consigo me planejar para ir comprar talheres e copos lá na 25 de Março na terça de manhã. Bom, primeiro tenho que passar no apartamento para pegar o carro: acho que deixá-lo no eletricista e pegar no fim do dia. Vejamos: um ônibus até o metro, e do metrô para a 25. Será que eu tenho crédito no Bilhete Único? Preciso estar de volta antes das 15:00 para avaliar as últimas apresentações dos meus alunos da 9a série. Ai, para tudo! Vou precisar chegar no colégio uma hora mais cedo porque esqueci de publicar na internet o gabarito do exercício que passei! Tem Wi-fi por aqui? A outra professora deve ter me mandado as respostas que ela montou. Eu sei que não vou conseguir publicar isso de casa porque hoje tenho que terminar a tradução. Peraí... Hoje tem tradução? Eu vejo isso depois. Melhor deixar uma nota no celular, ou eu vou esquecer. Aliás, já esqueci de ligar para o pessoal daquele cheque que voltou! Hoje era o último dia. Será que meu nome foi para o Serasa? A última vez que eu falei com eles foi ontem, nos intervalos das aulas de licenciatura. E por falar nisso, eu ainda não comecei aquela pesquisa sobre os diferentes tipos de escola para a aula de didática. E quando que eu vou marcar a reunião com o diretor do colégio pra falar da filosofia de ensino para essa pesquisa? A secretária dele falou pra ver um horário depois do almoço. Almoço! Eu ainda não marquei o almoço com a Bia que me escreveu. Ou o happy hour com o Laerte, que me ligou. Nem a visita à Nana pra pegar as caixas para a minha mudança. Sem falar da passada na casa do meu irmão, pra pegar o meu microfone para as aulas. Bom, no fim de semana não dá, porque tem encontro com a equipe de educação artística e com aquele filósofo/artista. Aliás, que pinturas legais as dele! E o meu ateliê continua cheio de caixas que não são minhas e com a poeira e o abandono de um ano inteiro... Aproveito quando for lá pra passar um tempo com a vovó. Poxa, estou devendo uma visita à outra vovó também! Tô morrendo de vontade de passar um tempo com elas, limpar o ateliê e voltar a pintar aquele papel giantesco que eu trouxe de Londres. Falando em afazeres artísticos, preciso terminar o desenho que eu ia mostrar para as 6as séries... E Londres! Ainda não comprei a passagem para Julho, para a cerimônia de graduação do mestrado! Pelo menos a inscrição já tá feita. Que horas são agora? Acho que ainda dá tempo de... o que é que eu ia fazer agora?

Há alguns dias, ocorreu-me o pensamento perturbador de que eu tinha deixado a publicidade porque ela estava comendo a minha vida e me deixando em um estado morto no qual eu não tinha tempo ou energia para as coisas que realmente me importavam; e que a nova rotina entre colégio, traduções, sair da casa dos pais, licenciatura e empreitadas artísticas estaria me matando do mesmo jeito. Resolvi essa angústia pensando que a publicidade me matava em prol de algo completamente irrelevante para a minha vida (e a dos outros...). A minha atual rotina pelo menos tem um sabor utilitário, relevante, pertinente. Um sabor mais acentuado de satisfação pessoal. E afinal, a única outra alternativa para esse "morrer" é eximir-me de toda e qualquer responsabilidade e não cultivar ambição alguma na vida.

Mas isso seria pior do que esse lento morrer (verbo - um pocesso). Isso seria estar morto (adjetivo - algo acabado).

quarta-feira, fevereiro 15, 2012

Nova Nod

Desci do ônibus. Caminhando em direção ao semáforo, ouvi o ruído alto, seco, breve e grave. Segundos depois, um sedã preto furou o farol vermelho acelerando. Deixava para trás uma trilha de destruição da qual faziam parte outros dois veículos. Há meio quarteirão de lá, uma base comunitária da polícia. Debati por alguns segundos se deveria aconselhar os motoristas dos carros que restaram sobre os policiais. Estavam em uma posição onde não podiam ver a base. Idéia melhor: vou falar com os policiais.
Enquanto comentava o que havia visto, um rapaz chega na base comunitária com o celular no ouvido, quase perdendo o fôlego. "Fomos alvejados", diz ele. E em seguida cita para os guardas um modelo de carro e placa. Dois dos policiais montam nas motos e saem em perseguição ao sedã preto. Há um pouco de confusão entre os policiais e o rapaz, que nervoso, não faz muito sentido. Um dos policiais começa a perder a paciência. E eu começo a entender. O sedã era a vítima. Um terceiro homem aparece em cena, um dos motoristas que ficou no rastro de destruição do sedã. Diz que uma moto deu meia volta e subiu a rua. Os policiais de moto estão indo pelo lado errado e a moto do agressor, sobre a qual tem-se apenas descrições vagas e nenhuma placa, já está longe. Depois de perceber que as vítimas têm muito mais informação do que eu, vou me subtraíndo da cena até desaparecer. O pouco de ajuda que eu podia prestar, já foi prestado. Mas assim como no assalto que sofri em Dezembro, volto a pensar nos "e se".
Todos nós somos muito pouco equipados para reagir eficientemente nessas situações. Eu estava na melhor posição possível para ver a placa do sedã. E nem me passou pela cabeça. Nossa reação natural é olhar para o estouro, para o epicentro do ocorrido, e não para o único indivíduo fugindo do local.
Mas ainda que eu tivesse reagido dessa forma mais "correta", eu teria incorrido em outro erro de estratégia: o de não raciocinar sobre quem é o agressor. No nosso país, na nossa cidade tumultuada, caótica e congestionada, um agressor teria pouquíssimos motivos para escolher um sedã para um crime depois do qual ele tem que fugir durante o horário de pico. Arriscando incorrer no perigo e na injustiça do estereótipo, acho que um agressor teria mais motivos para escolher uma moto. Ágil, rápida e igual a tantas outras. E a vítima, um carro grande, resistente, apto a furar a força o trânsito na sua tentativa de fuga. As madames entopem a Oscar Freire de SUVs que elas não conseguem estacionar.
Fico curioso para saber de gente que tenha presenciado situações em que o agressor fugiu em uma Mercedes, um Hummer, uma BMW. Na nossa cidade.

LilithNão posso deixar de pensar em uma associação pejorativa. Horas antes, eu estivera conversando com uma das professoras de educação artística. Ficamos muito entusiasmados quando começamos os dois a falar de uma exposição de Anselm Kiefer acontecida no final dos anos 90 no MAM. Eu, um adolescente que nem tinha sido equipado para reagir eficientemente neste outro tipo de situação e pelo menos ver o nome do artista. Ela, uma jovem guia de exposições que estava trabalhando em uma exposição que marcou sua vida.
Fui atormentado pelas pinturas que vi durante anos. Porque as imagens ficaram na minha cabeça, e eu nunca lembrei do nome do artista até essa conversa de hoje. As pinturas tiveram tanto impacto porque Kiefer usava referências ao mito sumério (e posteriormente hebraico) de Lilith, e eu estava no amadurecer da minha fase gótica. Veria, poucos anos mais tarde, o nome ressurgir nos jogos de RPG de vampiros, nos episódios de Evangelion, em pesquisas na internet. Os quadros também eram bem sujos, viscerais, bem "estética de decomposição". Algo que eu associaria depois aos anos 90 em si, ao grunge, uma das minhas paixões estéticas visuais e musicais (a MTV nunca mais teve vinhetas legais depois daquela época...).
Na série de quadros chamada de Lilith, que Kiefer fez inspirado em sua visita a São Paulo no fim dos anos 80, ele usa vestidos sujos e engessados na pintura para personificar a entidade mitológica. Os críticos dizem que Lilith aparece nas pinturas como se trouxesse o caos violento à cidade e "às obras de Niemeyer", que aparentemente devem simbolizar uma espécie de harmonia para ele e para os críticos europeus.

Na mitologia hebraica, depois que o relacionamento entre Adão e Lilith se desfaz, ela é banida para as "terras selvagens" (em alguns textos, a mesma Nod para o qual Caim foi banido), onde os filhos que ela tem com os demônios locais são chamados de "Lilim" e nascem e morrem às centenas todos os dias, completamente ignorados.
Perdoem-me se não me ufano com o atual momento econômico do país, as perspectivas dele ser uma potência do novo milênio e tudo que tem aparecido na mídia. A verdade é que uma parte de mim que eu gostaria que não existisse continua se sentindo de acordo com as pinturas de Kiefer.

Talvez estejamos mesmo em uma espécie de Nova Nod.
Talvez sejamos todos Lilim.