segunda-feira, abril 28, 2008

Vira, vira, vira...

Minha Virada Cultural começou tarde graças aos outros compromissos do fim de semana. Como eu tinha comentado no Twitter, a gente passa quase um mês do mais absoluto tédio e de repente todo mundo resolve promover aquela Festa Imperdível e Diplomaticamente Importante à qual você é obrigado a comparecer. Mas, perto da meia noite, lá estávamos eu, Lexy e uma de suas amigas, desembarcando no metrô da Praça da República, onde a amiga já se despediu e foi curtir a Virada com outra turma. Já era tarde. Tarde demais para conseguir qualquer entrada para qualquer coisa relacionada a teatro.

A situação das peças teatrais na Virada foi de dar nos nervos. Onde já se viu: no maior evento de cultura da cidade, as peças mais interessantes das companias mais descoladas estavam todas em salinhas que acomodavam não mais que cinquenta pessoas e tinham uma única sessão. A correspondente teatral deste blog, minha mãe, tentou sem sucesso ver os Sátyros ou qualquer outra coisa da Praça Roosevelt, mas me ligou pra sugerir que eu nem me incomodasse de passar por lá que tava impraticável. Antes disso, ela tinha comparecido pela segunda vez à apresentação do Teatro da Vertigem no Vale do Anhangabaú. Ficou sabendo confidencialmente que, não bastando a sala com meros vinte a trinta lugares, eles tinham uma lista de pessoas ligadas à Petrobrás (patrocinadora da apresentação...) que tinham preferência. Ou seja, ninguém mais viu... Será que a minha agência banca algo assim algum dia pra que eu possa assistir?
Posteriormente, minha mãe contou que avistou o pessoal dos Acrobáticos Fratelli atravessando o Vale do Anhangabaú na corda bamba e os caras do Generik Vapeur que a assustaram com a inusitada apresentação, que incluía fogos de artifício que mais pareciam tiros naquele caos das ruas e pessoas confusas entre fugir com medo e seguir com curiosidade...

Passado esse primeiro momento de revolta e o segundo momento de total e completa desorientação até encontrar os mapinhas do evento (aliás, muitos pontos positivos para o pessoal da produção!), passamos pelos curtas-metragens da Praça Ramos e ficamos com vontade de fazer algo para o próximo Festival do Minuto (típica promessa de ano novo que nunca cumprimos...). De lá, descemos a Líbero Badaró para o que talvez tenha sido a coisa mais instigante e organizada da noite toda: a Silent Disco.

Pra quem não conhece (e não entende o inglês da Wikipedia...), o projeto Holandês consiste em montar uma balada ao ar livre, onde o público recebe fones de ouvido para ouvir a música do DJ. O resultado é hilário: umas quinhentas pessoas, todas dançando, curtindo a festa e cantando em coro enquanto os outros ficam do lado de fora do cercadinho, assistindo sem entender nada àquelas pessoas tendo espasmos rítmicos lá dentro. O local não podia ser mais apropriado: na frente do Mosteiro de São Bento e seu silêncio sacro, o DJ tocava tudo, de Beatles a rock alemão pesado e satânico, passando por coisas que eu nunca esperava em balada, como Cardigans e baladinha jazz para acalmar os nervos na saída. Curti tudo isso junto com o Roberto, antigo colega do curso de publicidade que sempre teve um jeito particular e muito estiloso de dançar. E do meu lado, Lexy ria seu sorriso mais belo e alegre, enquanto desnudava passos de dança que eu nuca a vira fazer e me dava mais motivos para gostar dela. Depois veio me contar de outro projeto similar, uma balada para cegos, onde em vez do som, as paredes e o chão vibram no ritmo, junto com as luzes. Fiquei com vontade de ir numa dessas.

Depois disso, atravessamos a São João para pegar os Mutante lá do outro lado, achando que talvez tocassem com a Zélia Duncan. Fiquei contente quando nossos acompanhantes de então perceberam que ela não estava lá e resolveram fazer outra coisa: enjoei dos Mutantes há muito tempo, depois de ouvi-los pela trigésima vez nas festinhas emaconhadas da faculdade de publicidade... No entanto, tenho que admitir que o som deles estava impecável e eu ainda preciso fazer parte de uma banda que tenha um corpo vocal daqueles, com três, quatro vozes montando acordes perfeitos.

Na volta, tentamos ainda passar na Virada das Vampiras da Galeria Olido, para assistir o sugestivo A Vampira Nua. Porque afinal, somos interessadíssimos pelo assunto. Tanto os vampiros quanto a nudez. Mas como tudo que tinha senha e ingresso, estava impraticável. A entrada da Galeria era um tapete de góticos e simpatizantes deitados no chão, tendo pego a senha para o próximo filme, daqui a umas quatro ou cinco horas...

Cansados de tanto andar, nossa Virada terminou cedo com o já tradicional sanduíche de mortadela do Mercadão. Nada melhor quando se está faminto.

Voltei ao meu carro quando o dia raiava e cheguei em casa com meu pai já acordado.

Não posso dizer que não me diverti. Mas preciso terminar fazendo algumas considerações.
Em primeiro lugar, o evento me faz amar e detestar essa cidade. O primeiro porque é só aqui que temos um evento dessa magnitude nesse país. O segundo porque só aqui tem tanta gente pra fazer desse evento uma coisa insuportável... E olha que quase ninguém que eu conheço realmente foi. Nem mesmo meus culturófilos de carteirinha, que no máximo assistiram a um show aqui ou ali e se retiraram. Supondo que um décimo da população da cidade estava lá, já seria demais pra aguentar.
Segundo, depois das recentes ocorrências de zica relativa a furtos, fui à Virada no melhor estilo militar, levando apenas o estritamente necessário e amarrado ao corpo de forma que ninguém conseguisse afanar. Comprei há tempos uma pochete dessas militares, de amarrar na perna. É brega, mas funciona que é uma beleza: o trombadinha olha pra você, olha pra pochete e fica com aquele enorme ponto de interrogação na cara, porque não sabe onde que abre aquilo. O celular fica lá no fundo, onde ele não alcaça sem que eu perceba, e só é tirado em emergências. Sempre levo um dinheiro de emergência, escondido, pra que eu possa pegar um taxi e voltar pra casa se o dito trombadinha perder a paciência e resolver me assaltar à mão armada mesmo. Não é macabro e nem pessimista, é realista...
A terceira e talvez mais polêmica consideração é quanto ao número de acompanhantes. Aqui eu percebi que vale uma das duas alternativas: ou você vai sozinho (ou acompanhado de alguma pessoa que tenha o mesmo gosto que o teu), ou vai em grupo com um itinerário bem amarrado e sem espaço para alterações e com todos os integrantes do grupo saíndo do mesmo lugar. O objetivo é evitar aquela cena comum de esperar na porta do metro pelo Fulano que atrasou quase uma hora, ou tentar encontrar aquela sua amiga no meio das mil e poucas pessoas zanzando pela São João. Você vai perder no mínimo meia hora em qualquer dessas circunstâncias e coloque mais meia pra ir da saída do metro para o evento que você pretendia ir. Indo só, você tem a possibilidade de mudar de idéia se o programa estiver muito chato, e isso é uma vantagem enorme. Porque afinal, só você muda de idéia, você não tem que convencer a trupe inteira. A regra de ouro é: seja rápido.
Finalmente, chego à conclusão que planejar para um evento desses requer a elaboração de dois itinerários que devem se encaixar. Um deles contempla a aquisição dos ingressos e senhas, no mínimo uma hora e meia antes da atração, e o outro diz respeito à atração em si, uma hora e meia depois. A idéia é conseguir uma senha a caminho de outra atração e passar lá na volta para ver.

Mas ou muito me engano, ou estou começando a soar como um fundamentalista cultural. Talvez esteja levando essa de Guerrilha Cultural muito a sério...
Quando algo vira alvo de sátira, dá pra perceber que seu tempo já passou, que virou piada velha, clichê. O Bunny de hoje tirou sarro de webcomics que fazem referência a video game...

[Olha para a lista de webcomics ao lado]
É um sinal do fim dos tempos...

quarta-feira, abril 23, 2008

SP Arte 2008

Começa hoje e vai até domingo, no pavilhão da Bienal (Parque do Ibirapuera), a quarta edição da SP Arte. A feira reúne 68 galerias, sendo sete estrangeiras, expondo seus produtos para potenciais compradores do Brasil e do mundo.

[Se eu escrevesse um período como esse último na época da faculdade de artes, eu seria condenado ao ostracismo...]

A feira é exatamemte isso a que se propõe: uma feira de arte. Mais do que a apreciação de boas obras de arte, seu objetivo é o comércio de obras mesmo. E a verba girando em um evento como esse é de tirar o fôlego. O site do evento não cita números, mas com certeza devem bater a casa dos milhões.
E faz pensar até mesmo a geração recente de artistas. Na faculdade de arte, seja ela qual for, sempre surge o grupo de jovens alinhados à filosofia de que fazer arte para vender é uma espécie de corrupção da arte. São artistas que assumem um voto de pobreza... em favor do que mesmo? Pureza? Coerência artística? Como se considerar o aspecto monetário da vida no fazer artístico fosse uma espécie de pecado. E por um acaso a arte não deveria contemplar todos os aspectos da existência, até mesmo o pecuniário? O mais abertamente paradoxal neste grupo de jovens é que, mesmo criticando o mercado, eles ainda perseguem o sonho dourado de "viver de arte". Se por um lado se negam a "prostituir" as próprias obras (para usar um termo sempre muito citado), por outro são adeptos da mendicância de subsídios governamentais (sempre reclamando por serem poucos...) ou qualquer outra fonte de renda (paitrocínio incluso) que os permita continuar essa atividade que, como defendi na monografia, não tem qualquer finalidade prática.

Bom... Entre a gravação de um curta-metragem com a turma da Lexy, os ensaios para outro show da banda no M868, no próximo dia 10, e a Virada Cultural neste fim de semana, tentarei arranjar um tempinho pra passar na SP Arte e contar por aqui o que eu encontrei de interessante.

A seguir, cenas dos próximos capítulos...

Urgência Anônima

Tem desses dia em que eu chego em casa com tempo de sobra e vontade de realmente sentar e fazer algum projeto paralelo andar. A sensação real é de que se eu parar pra assistir TV, eu vou estar desperdiçando o dia. Eu preciso fazer alguma coisa. Eu tenho tantas coisas pra fazer... Só não consigo lembrar de nenhuma. Chama-se urgência anônima. Você sabe que precisa fazer e que tem que começar nesse instante. Só não sabe o que. Claro, é um sintoma de stress. Do tipo de vida que se leva em São Paulo.

Eu ligo o computador: com certeza vai ter a ver com algo que eu faço no computador. E enquanto essa lembrança não vem, eu vou visitando sites, escrevendo no blog, conversando no MSN. Alguma hora eu vou lembrar.

Mas as horas vão passando e eu continuo surfando a web em um mar de besteiras irrelevantes. Quando bate as onze da noite, essa sensação é acompanhada de outra: frustração. Lá se vai mais uma noite das raras em que eu saio em um horário decente da agência e eu gastei fazendo nada.

Tenho ensaiado escrever coisas na agenda. Porque as grandes idéia do que eu preciso fazer quando chegar em casa sempre surgem ao longo do dia, quando eu ainda tenho umas três ou quatro horas completamente inúteis no trabalho. A medida ajuda até certo ponto. Mas continua aquela sensação de ter quinze mil projetos paralelo correndo ao mesmo tempo e eu não conseguir me focar em nenhum deles. O freela sem orçamento aprovado, os desenhos para o projeto de videogame, uns trezentos favores de desenho para diversos amigos, dois ou três quadros pra pintar, voltar a escrever decentemente, reformar os meus sites na internet, pesquisar sobre pós-graduação, pesquisar sobre multinacionais para trabalhar.............

sábado, abril 19, 2008

Comunicável novamente

A quem interessar, voltei a ser uma pessoa comunicável, com celular e tudo. O número continua o mesmo.

2000e8

O Caderno 2 do Estado de quarta-feira trouxe na capa a matéria "Geração tinta fresca", falando sobre um grupo de artistas jovens que se juntou em torno da antiquada mídia da pintura. o 200e8 é formado por oito artistas: Ana Elisa Egreja, Bruno Dunley, Marcos Brias, Marina Rheingantz, Regina Parra, Renata de Bonis, Rodolpho Parigi e Rodrigo Bivar. Na foto do jornal, reconheci dois ou três rostos de ex-alunos da faculdade de artes e frequentadores da Casa da Xiclet.

Os estilos e técnicas variam entre todos eles. Alguns abstratos, alguns figurativos. Por isso não dá realmente pra chamá-los de um movimento e nem mesmo de um coletivo de artistas, posto que isso implicaria uma relação entre estilos, temas ou filosofia. Cada um pinta do seu jeito e sobre o que quer. Mas eles dividem o ateliê, se ajudam e procuram expor juntos. De fato, pelo que conta o jornal, inauguraram nesta semana uma exposição no Museu Victor Meirelles, em Florianópolis.

O que me chamou a atenção sobre esse grupo em particular, além dos rostos conhecidos, foi o fato dos figurativos entre eles estarem pintando coisas relativamente simples, baseadas em fotos digitais.
[Qualquer semelhança com os meus retratos é mera coincidência]
E é mesmo: não dá nem pra dizer que seja influência do curso de artes, visto que eles caíam matando em cima de qualquer um que ousasse ser figurativo nesta época moderna...
Lembro que Dora sempre questionou bastante o meu uso de fotos digitais copiadas filmente na tela, insistindo que eu devia ter um por quê para isso. Nunca encontrei. A turma do 2000e8 dá uma resposta corajosa: porque sim. Mas o fato é que são as respostas de sempre. Regina Parra diz que "a pintura a partir de imagens fotográficas não é um recuo ou uma fuga diante da fotografia, mas uma possibilidade de preencher espaços (permeáveis à invenção) e chegar a lugares que a fotografia não chega". Já dei essa resposta. Mas ela parece meio vazia quando as minhas pinturas (e as de Regina) se limitam a copiar ipsis literis a foto, sem explorar as tais "possibilidades". Depois que saí da faculdade passei a fazer coisas mais livres como a série de pinturas escuras que continuo lenta e paulatinamente até hoje.

Os mais abstratos do grupo transitam entre abstrações com efeitos de luz e volume que lhe conferem um ar quase figurativo, e experimentos interessantes com uma estética que lembra uma coisa meio publicitária, pelas texturas, padrões e cores limpas e vivas.

Me passa pela cabeça que, juntando todos eles, tem-se algo similar ao Gerhard Richter.

A matéria também me trouxe boas memórias do que foi o meu pouco tempo dividindo ateliê com as garotas da faculdade. A proposta era muito parecida com a deles, de juntar todo mundo em um só lugar, de conviver e se ajudar, e de procurar exposições juntos. Mas ao contrário do 2000e8, nós não tínhamos uma mídia comum, cada um fazia uma coisa diferente e isso complica na hora de expor junto. De pintores, tínhamos eu, Gisela Gari, e um ou outro que se aventurava no assunto. Mas acima de tudo, acho que o problema do ateliê foi o comprometimento de cada um. Marcela Tiboni, Amanda Mei e Thaís Albuquerque eram pessoas que claramente pretendiam viver de arte, passar esse período inicial de pobreza financeira e riqueza espiritual e seguir em frente nesse caminho. Todos os outros (eu incluso) pareciam estar aguardando, assistindo. Esperando pra ver o que ia vingar primeiro: o ateliê e a carreira de artes, ou a variedade de planos-B que invariavelmente era mais rentável e respeitada pelos pais (no meu caso, o emprego em agência de publicidade...). Éramos pesos mortos sendo carregados por essas meninas.
Eu tinha medo. Isso é claro. Medo de desperdiçar um potencial para o mundo corporativo e para uma vida abastada perseguindo um sonho que talvez não se realizaria. Medo do que era óbvio pra mim na época: que o tipo de pintura que eu fazia não era respeitado porque seu tempo já tinha passado. Mas hoje, vendo essa matéria no jornal e as pinturas nas fotos, eu até chego a questionar. Será?

Termino de digitar isso pronto para sair para o ateliê na casa de minha avó.
Vou voltar a pintar.
Depois da matéria desta semana no LINK do Estadão, sobre agregadores para redes sociais (blogs, Twitter, Flickr, fotologs, etc...), estive seriamente considerando abrir uma conta em um desses. Porque no fim das contas, nem eu estou mais conseguindo acompanhar a quantidade de coisas que eu tenho. Só de imagens, tenho duas contas de Flickr (uma pessoal e outra que serve como portfólio) e um fotolog. O que eu coloco em cada um já está virando uma questão que eu não consigo mais resolver. Mais pessoas visitam o fotolog, porém eu acabo colocando as coisas menos interessantes por lá. De serviços de mensagem eu tenho o blog e o Twitter (única coisa que funciona na agência). Com o agregador, eu passaria um endereço a você e você poderia receber as atualizações de todos esses serviços sem ter que visitar todos esses sites. Prático, não?

O dilema: eu estava aqui finalmente conseguindo me disciplinar para produzir um novo layout para este blog (já que o atual vigora há mais de três anos e já conta com vários links desativados...). Se todos passarem a receber minhas atualizações pelo agregador, novos layouts serão uma coisa inútil. E eu estou realmente empolgado com o que eu estou fazendo para o layout: animações de alta qualidade em Flash, direção de arte baseada no meu logo do leão de pedra de Perugia, tipografia escolhida a dedo, tocador de música com opções de trilha que podem ser mudadas periodicamente (porque a atual enche o saco, né?)... Tá ficando bacana.

De qualquer forma, ainda estou dando uma olhada nos agregadores que apareceram na matéria. Tenho dúvidas a respeito de qual deles seria mais adequado para os serviços que eu uso. A maioria não é compatível com o Orkut, mas todo o resto parece funcionar bem.

Portanto devo escolher entre ser moderninho e instituir um serviço que facilita a vida dos meus poucos leitores, ou ser antiquado porém estiloso e usar a revitalização do blog como ponto de partida para a revitalização do resto.

quarta-feira, abril 16, 2008

Orgasmos criativos

Ocorreu-me no trabalho uma comparação cômica entre o prazer do trabalho criativo e o deleito orgásmico do sexo.

Quem exercita sua criatividade sem medo, seja no trabalho ou por diversão, conhece aquela sensação de satisfação frente a uma sacada genial, uma técnica bem executada, uma gestalt harmônica. Aquele momento de exclamar: "cara, fui eu que fiz isso?". Não tarda muito a chegar a idéia de como seria fantástico ter isso todo dia, a toda hora, sempre. Ser uma pessoa violentamente criativa o tempo inteiro. Aliás, é nessa premissa que são julgados os profissionais de publicidade. Mas ser criativo exige dedicação, esforço, capacidade de lidar com frustração e não tem nada a ver com o trabalho excitante que os filmes e os manuais para vestibulandos nos mostram. E chega uma hora em períodos de atividade intensa que isso cansa. Ao contrário do que muita gente pensa, criatividade não é uma característica instintiva e não dá pra ser criativo 24/7. De vez em quando todo mundo precisa do racional, quadradinho, básico.

Da mesma forma, quem tem uma vida sexual regular conhece a satisfação de cada transa. Não tarda muito em imaginar na adolescência o quão fantástico seria ter isso todo dia, a toda hora, sempre. Viver num eterno estado de deleite sexual. Aliás, é nessa premissa que se julga geralmente a felicidade nesse âmbito da vida. Mas convenhamos, esse negócio envolve muita questão moral, muita sujeira, muito desentendimento e preocupação e não tem nada a ver com aquela coisa tranquila mostrada nos romances onde ambos saem plenamente satisfeitos e felizes para sempre. E chega uma hora em períodos de atividade intensa que isso cansa. Ao contrário do que muita gente pensa, até mesmo adolescentes podem chegar a um ponto de saciedade em relação ao sexo. De vez em quando a vida precisa ser mais do que só isso.

Em ambos os casos, às vezes são os períodos de abstinência que tornam o saciar a vontade mais intenso.

E antes que comecem a especular sobre a minha vida sexual, ela vai bem, na medida certa, obrigado. É a questão da criatividade que tem me deixado meio... assado.

quarta-feira, abril 09, 2008


Eu ia postar isto no 1º de Abril, mas o pior é que é verdade... E eu me sinto mais intelectualóide e esnobe com eles. Ainda não me acostumei.

terça-feira, abril 08, 2008

Piquenique

Na segunda vez que joguei o triângulo amarelo no ar, mirando-o um pouco mais para cima, ele ameaçou continuar a parábola que o traria de volta ao gramado do parque, mas então fez um vôo razante a poucos centímetros do chão e levantou no ar, continuando a trajetória em espiral que o levaria a pousar um pouco adiante de onde eu estava. Fazia tempo que eu não jogava bumerangue no Ibirapuera. Com chuva então, era a primeira vez. Outra saudade matada foi a de tomar chuva. Assim, sem culpa, sem medo, sem frio. A atividade física no meio da chuva tem pra mim uma sensação meio ritual: talvez pudesse de fato "lavar a alma", livrar-me da zica que me levou a câmera, o celular, e por pouco não me leva até o carro.

Nosso piquenique no Ibirapuera foi um relativo fiasco. Um pouco pelo clima, que não cooperou pelo segundo fim de semana consecutivo, apesar das previsões de três sites diferentes dizendo que o domingo seria nublado, porém seco. Um pouco pelo escasso comparecimento que derivou do clima (Nana, I. e Kita nunca perdem uma dessas coisas legais e não têm medo de chuva...). Mas também um pouco pela dificuldade de se estabelecer um local de encontro dentro do parque.
Combinar na marquise, perto do MAM, o local mais óbvio, nos deixaria plantados lá por horas esperando o pessoal que só compareceria mais tarde. Então combinei no gramado onde se apresentavam as orquestras antes da construção do novo Anfiteatro do MAM. E só no dia do evento fui saber que talvez eu tenha sido da última geração que assistia concertos de orquestra no Ibirapuera.

Tenho boas lembranças daquela época. De ouvir a trilha de Pedro e o Lobo, ou aquele concerto de bigornas que virou música básica de desenho animado. Lembro também de um concerto onde uma orquestra americana tocou trilhas de filmes como Guerra nas Estrelas, Indiana Jones e Superman. São memórias atreladas ao prazer de andar de bicicleta naquelas ruas rachadas pelas raízes das árvores centenárias e ter uma infância que tinha seus momentos saudáveis longe da TV.

Ninguém sabia onde era aquele gramado. Dentre todos os meus conhecidos e os amigos da Lexy que comentavam sobre o piquenique, ninguém jamais fora assistir orquestras ou sequer os shows gratuitos de cantores brasileiros no Ibirapuera.

Mas vamos, não vou ser tão antiquado quanto o senhor Sapieha: suponho que esta geração trocou as tardes no parque ao som de orquestra por qualquer outra coisa mais moderna em frente à TV e certamente desenvolveu outras habilidades mais relevantes para o mundo moderno do que andar de bicicleta...

segunda-feira, abril 07, 2008

R.I.P. Charlton Heston

No documentário Bowling for Columbine, do Michael Moore, um Charlton Heston velho participa de um comício a favor do porte de armas nos Estados Unidos. Ele levanta um rifle e diz entusiástico: "from my cold, dead hands!" ("Só por cima do meu cadáver").

Pois é...

quinta-feira, abril 03, 2008

Chad Sapieha wrote on his Controller Freak column about how videogames could never be eternal classics like some movies. comparing Super Mario Bros with The Godfather, he wrote that people who played the game gor the first time today wouldn't feel the same impact the game had on the audience when it was launched, while the movie could be apreciated by audiences of all eras. His main argument seemed to be that the impact of videogames depends mostly on technology and complexity, which gradualy evolve; while movies owe their success to the timelessness of their plots, which are still relevant today,

[fixes tie, puts on glasses, clears throat]

Old movies and videogames are like paintings on a museum: corpses. They had their time of relevance, but today the world has moved on and they became no more than reference. Sooner or later the time comes when the current generation of audience finds the experience in both relics boring and comes to respect the good classic mostly for it's mark in history. It happens to both film and game alike, although I must admit that, due to the speed at which the gaming industry evolves, these tend to grow old much faster. But the movie is far from an eternal classic. In my childhood, Blade Runner was deemed a classic. But anyone who's watched The Matrix and other philosophical similars of the modern age will find Ridley Scott's movie "cute" (and even bashful, production-wise...).
But although both experiences might have faded away (the "loss of impact" mentioned in my final essay at the university, that happens to every overexposed artwork), one must recognize the historical value of these pieces of art. Some of the symbology used in Mario changed the world of videogames more than many a plot has changed cinema: the 100-coins-are-worth-a-life thing and jumping on the enemies to kill them are good examples that were later used in many other games. And that's how one apreciates the classics. It's like your first kiss: there will be others that'll be technically better, but that one was really where it all started.
And it's not about nostalgia. No one sees Picasso's Demoiselles D'Avignon with nostalgia (you'd actually need to be over 101 years old to be born and conscious at the time when it started Cubism). It's about respect for an important piece.

Personaly, I think mister Sapieha respects cinema so much, he underestimates other forms of art. It reminds me of that bit on Stephen Poole's Trigger Happy, where he quotes the opinio of French poet Georges Duhamel, who considered cinema to be a "passtime of the iliterate", clearly trying to defend literature as a superior form of art. And then Poole also quotes the famous Theodor Adorno's similar critique on jazz. Sapieha might one day be quoted like that: a fairly decent critic of the old generation, failing to respect the new forms of art accordingly.


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Chad Sapieha escreveu na sua seção Controller Freak sobre como os jogos jamais poderiam ser clássicos eternos como alguns filmes. Comparou Super Mario Bros com O Poderoso Chefão, dizendo que uma pessoa que jogasse o jogo pela primeira vez hoje não teria o mesmo impacto que o público teve na época do lançamento do jogo, enquanto o filme em questão tornara-se um clássico a ser apreciado por pessoas de qualquer época. Seu argumento principal parecia ser que o impacto dos jogos depende fundamentalmente da tecnologia e complexidade, que evoluem gradativamente; enquanto o filme deve seu sucesso à atemporalidade do tema, que instiga até hoje.

[ajeita a gravata, coloca os óculos, pigarreia para limpar a garganta]

Tanto um filme quanto um jogo antigos são como um quadro em um museu: cadáveres. Eles tiveram sua época de relevância, mas hoje o mundo seguiu adiante e eles são apenas referência. Cedo ou tarde chega a época em que a geração vigente de público acha a experiência de ambas as relíquias enfadonha e apenas respeita o bom clássico por seu marco na história. Isso acontece tanto do game quanto no filme, embora admito que, por causa da velocidade com a qual a indústria dos jogos evolui, estes tendem a virar passado mais rápido. Mas o filme não é um clássico eterno. Na minha infância, Blade Runner era um proclamado um clássico. Mas qualquer um que assistiu Matrix e outros similares filosóficos da era moderna vai achar o filme de Ridley Scott "bonitinho" (e meio mal-feito...).
Mas embora a experiência em si tenha se esvaído (a "perda de impacto" mencionada na minha monografia, que acontece com toda obra exposta por muito tempo), é necessário reconhecer o valor histórico dessas obras. Algumas simbologias presentes no Mario mudaram mais o mundo dos jogos do que muitas tramas mudaram o cinema: as 100 moedas que valem uma vida e o pular sobre inimigos para derrotá-los são bons exemplos apropriados por outros jogos. E é nisso que se apreciam os clássicos. É como o primeiro beijo, a primeira transa: outras tecnicamente melhores virão, mas aquele foi realmente o marco inicial.
Não confundam isso com saudosismo, nostalgia. Ninguém hoje vê o Demoiselles D'Avignon do Picasso com nostalgia (até porque você precisaria ter mais de 101 anos para estar vivo e consciente na época em que o quadro iniciou o Cubismo). É o respeito por uma obra importante.

Pessoalmente, acho que o senhor Sapieha respeita demais o cinema, ao ponto de denegrir outras formas de arte. Não deixo de pensar naquela passagem do Trigger Happy de Stephen Poole, onde ele cita a opinião do poeta francês Georges Duhamel considerando o cinema um "passatempo de iletrados", claramente tentando defender a literatura como arte superior. Em seguida, Poole também cita o famoso Theodor Adorno, da Escola de Frankfurt, criticando da mesma forma o jazz. Sapieha talvez seja citado assim algum dia: um bom teórico da geração passada, incapaz de respeitar como se deve as formas de arte futuras.

terça-feira, abril 01, 2008

April Fool's

Primeiro de Abril. Esse ano, como quase sempre, fiquei sem tempo para bolar alguma piadinha infame para o dia. Lembro há alguns anos que escrevi um texto relativamente convincente sobre como eu finalmente ficara de saco cheio de pessoas excessivamente sensíveis que se sentiam magoadas com coisas que eu escrevi ano blog e estava fechando a página. O dia seguinte amanheceu com uma dezena de mensagens das mais variadas, incluindo leitores que eu nem sabia que tinha, pedindo que não desistisse e ignorasse as reclamações. Claro, a idéia brilhante não foi minha, mas na época era pouco empregada e por isso muita gente acreditou. Em uma brincadeira menos inspirada no fotolog, publiquei uma edição de foto onde eu aparecia posando para foto com a Kirsten Dunst, umsonho de consumo meu da época (até ela virar a Mary Jane no Homem Aranha e perder todo o charme e o respeito...).

A internet vira um caos no 1º de Abril. O site do VG cats anunciou uma mudança radical de estilo de desenho e roteiro que perdeu totalmente a graça. O Magias e Barbaridades, do meu ex-colega de faculdade Fábio Ciccone, publicou uma nota sugerindo a já manjada estratégia acima de anunciar o fechamento do site. Aqui e ali, matérias fantasiosas aproveitam a época em que vivemos, onde nada é totalmente impossível. Até mesmo os sites eróticos como o DOMAI entram na brincadeira, trocando as imagens por inofensivas (e brochantes) descrições all type das modelos.