quarta-feira, abril 24, 2013

Evangelion Rebuild 1.01

Quase dez anos depois de assistir a série de anime que influenciou a minha vida, fiquei sabendo que os criadores resolveram fazer um reboot da série. O Evangelion original, em vinte e poucos episódios, foi refeito em alguns (quatro?) filmes de duas horas cada. Tenho encontrado meios de ter acesso a isso.

Fiquei com vontade de escrever a respeito porque esta experiência tem me trazido de volta sentimentos que eu acreditava terem sido esquecidos, deixados naquela época de fim de adolescência. Sentimentos gostosos de se emocionar junto com um seriado de desenho animado.
Mas é diferente agora. Eu cresci, amadureci, e de uma forma muito simbólica, sou também um reboot daquele adolescente que eu era. Expandido, melhorado, com personagens (personas) adicionais e novos efeitos especiais.
O seriado ganhou toda uma roupagem nova, um visual muito mais dark. Os Angels estão muito mais repugnantes, viscerais mesmo. E o que mais me impressionou foi como toda a paisagem emocional dos personagens foi completamente retrabalhada, para ficar muito mais clara, muito mais envolvente e permitir uma identificação muito maior. Ainda estou apenas no primeiro filme, e já me apaixonei de novo por Ayanami, senti um mundo de pena por Shinji, e outro mundo de ódio por seu pai.

Mas rever o seriado também me trás de volta alguns conceitos há muito esquecidos no blog, e que viriam a calhar hoje em dia. O seriado tem muitos termos ligados à psicologia e religião. Eu lembro com grande afeto de usar largamente o conceito do Campo AT para falar do quanto permitimos que outras pessoas se aproximem, penetrem na nossa intimidade, e o quanto as mantemos afastadas. Lidar com alunos é estabelecer todo um novo embate de Campos AT que eu nem considerava naquela época.

Engraçado como o mundo dá voltas. Quiçá isto seja o início de algo, como o seriado foi antigamente.

Ou quiçá eu esteja novamente me apegando de mais a passados gostosos que deveriam ser superados.

Anyway, se vocês (nem sei mais quem são "vocês"...) quiserem me acompanhar, cá está. Eu adoraria ter compania, embora não consiga lembrar de ninguém que tenha curtido o anime comigo antigamente e que teria o mesmo gosto e compreensão nostálgicos que eu estou tendo.






[EDIT: Achei um dublado em português!!]

segunda-feira, abril 22, 2013

Romantismo no MASP

O melhor de ser professor é que você acaba aprendendo muito para poder ensinar, e desenvolve um olhar mais detalhado sobre coisas que normalmente passariam mais superficialmente. No ano passado, fui com alunos o Ensino Médio para a exposição sobre o Impressionismo no Centro Cultural Banco do Brasil, no centro da cidade. Aprendi muito mais do que ensinei, e saí com uma visão BEM diferente e muito mais madura do que tinha sido o movimento, o que levou aos pintores a fazerem obras daquele jeito e como os artistas seguintes se apropriaram dessa linguagem. Nesse ano, pensando em fazer o mesmo, fui dar uma olhada inicial na exposição do MASP sobre o Romantismo.

Como falar para alunos de um colégio como o meu sobre o Romantismo?


Catedral de Salisbury Vista do Jardim do Bispo
por John Constable
O movimento encerra tudo do que eles mais precisam, e ao mesmo tempo nada do que eles podem compreender tão racionalmente. Pode-se falar das questões formais que fazem uma pintura romântica: como o tom escuro da vegetação às margens do quadro isola o espectador do mundo real, fazendo-o atravessar  por um buraco na mata em penumbra para visualizar um por do sol perfeito e brilhante atrás de uma catedral esfumaçada pela perspectiva atmosférica. Falar disso é falar de como nós, espectadores do quadro, estamos colocados nessa mata fechada que pode representar um monte de coisas: uma vida difícil, sufocante como mata fechada; uma escuridão fria que representa a falta de razão, de sentimento. Enfim, a vida real é tediosa, difícil e fria; é isso que os românticos dizem. E criam até um termo para isso: a vida é cheia de spleen.  O quadro romântico fala da possibilidade de encontrar uma abertura por entre essas folhagens escuras e modorrentas, para visualizar aquele por do sol quentinho, brilhante e colorido, representando sensações positivas e êxtase, como se a vida pudesse ser melhor, mais interessante e plena. O por do sol surge por trás de uma catedral perfeita, representando o acalanto da fé e da civilização, que são vistas como fonte desses sentimentos positivos. Porém o quadro também tem um elemento pessimista, já que a catedral e o por do sol estão muito além da floresta negra em que nos encontramos, fora do alcance. A distância é tanta que os contornos da catedral ficam azulados e perdem a nitidez. A composição é um jogo de seduzir este ser da floresta com esses confortos e segurança, e ao mesmo tempo lhe negar o acesso.
A maioria dos quadros do Romantismo têm essa configuração de ambiguidades: o escuro e a luz, o selvagem e a civilização, o violento e o seguro, o arrebatamento e a razão. E a grande brincadeira do Romantismo vai ser criar tamanha tensão entre essas duas coisas, entre seduzir e negar, que o espectador vai ter medo de quando essa tensão for satisfeita. Medo de ter aquela sensação de "ué, depois de toda essa antecipação, era só isso?". Medo de que a ideia que ele criou do êxtase seja muito maior do que o êxtase em si.
Em termos mundanos, é como ser seduzido(a) pela pessoa gostosa, bem vestida e culta, apenas para descobrir que ele(a) beija mal e é um tédio na cama.  E o resultado, em termos ainda mais mundanos, é que boa parte dos Românticos vai preferir a ereção ao orgasmo, a idealização à realidade.


Mas e daí? Falar para meus alunos sobre estes aspectos visuais do Romantismo (sem mencionar ereções e orgasmos, claro... ¬.¬) faria com que eles entendessem a cara de uma pintura romântica, sem entender sua graça, sua alma. Para entender o Romantismo, seria preciso falar do sublime. Mas que criança de família abastada e vida segura conseguiria entender o pavor, a loucura e o maravilhamento do sublime? O sublime que, na época do Romantismo, era relacionado ao terror do selvagem, da noite, da violência irracional.

Um terror muito maior do que qualquer um de nós, incompreensível, indomável. A Natureza era o maior monstro! E era por isso que pessoas, nos quadros Românticos, apareciam sempre pequeninas, perdidas na mata, à deriva no mar; e as edificações pareciam ser pequenos oásis de civilização e linhas retas, sendo lenta e inexoravelmente tragados pela Natureza (alô, casa da tia Suzy...) de borrões escuros esverdeados até virar ruinas.
Cachoeira de Paulo Afonso
de E. F. Schute
Paisagem com Fonte
de Charles-Émile Vacher de Tournemine

O Romantismo, no MASP, recebeu o subtítulo de "Arte do Entusiasmo". Na verdade, o movimento de fato expressa sentimentos muito fortes. Mas nem sempre positivos, entusiásticos. Nas vertentes mais extremas, foi o movimento que levou ao Werther de Goethe, e ao Drácula de Bram Stoker.  Às poesias de Lord Byron Álvares de Azevedo (no Brasil).  Essa busca por emoções fortes (positivas e negativas) pode ser encontrada até hoje em muito da nossa cultura que procura o êxtase (extasy) a qualquer preço (inclusive pagando com a saúde). O que mostra que o Romantismo foi mais do que um movimento passageiro da primeira metade do século XIX. Ele perdura até hoje, meio escondido, debaixo da sua cama, na escuridão da mata à noite, no fundo do mar. Esperando para atacar com todo seu caráter sublime a qualquer momento.

[SERVIÇO]
Quem se interessar pela exposição, pode encontrar mais informações no site do MASP.
A exposição fica aberta de terça a domingo e feriados, das 11h às 18h. Às quintas, das 11h às 20h.
Preços vão de R$7,00 para estudantes a R$15,00 a inteira. [Terça é de graça!!!]

E mais informações sobre o romantismo podem ser encontradas nos links abaixo:
• http://pt.wikipedia.org/wiki/Romantismo
• http://pt.wikipedia.org/wiki/Romantismo_no_Brasil
• http://www.suapesquisa.com/romantismo/romantismo.htm
• http://www.soliteratura.com.br/romantismo/

Crônicas de Professor

Terminou então o primeiro bimestre do novo ano como professor de artes. Eu juro que queria muito ter a paciência e a disciplina que eu tinha antes para postar por aqui. Porque este processo que aconteceu durante o ano passado foi MUITO interessante e com certeza tem muito para ser aprendido. Mas em primeiro lugar, a vida tem sido tão intensa de um jeito tão gostoso, que não tenho tido vontade e nem tempo hábil para aquele ritual todo de escrever no blog. Porque é um ritual mesmo: você precisa acalmar, sair do ritmo que se leva nesta cidade, transcender para um estado mais plácido. Só assim dá pra chegar em um texto que não seja tão caótico e que de fato comunique sentimentos com clareza. Em segundo lugar, como já venho mencionando a cada post por aqui, eu fui perdendo o ímpeto de escrever por aqui devido a muito do que se passou no ano passado. Ainda estou tentando superar isso no que diz respeito aos objetivos deste blog.

O pior de tudo é que, quanto mais tempo passa, mais distante eu fico de conseguir estabelecer uma sensação de continuidade em relação ao que eu vou aprendendo paulatinamente como professor. Eu poderia citar aqui o que aconteceu ontem ou na semana passada, mas tudo teria alguma ligação com eventos anteriores, e sem essas ligações, tudo parece uma coleção de fatos desconexos.

De qualquer jeito, resolvi que tentar desembaraçar este nó seria impossível e que o melhor que eu teria a fazer seria de fato começar a registrar esses eventos desconexos para não perder o passo, e ir explicando o que precisar ser explicado. Ou nem explicar e assumir logo que eu estou escrevendo isso para mim mesmo. Sei lá.

Viu? Já não estou fazendo muito sentido...

Mas vamos lá, vou colocar alguns acontecimentos pontuais que vão me ocorrendo, sem cronologia, em bullet-points mesmo, e vocês que selecionem o que for relevante.

• Na época de avaliações do terceiro bimestre do ano passado, um aluno muito promissor me fez a pergunta, de forma muito respeitosa: "Psor, por que é que nós temos que provar que sabemos [nas avaliações], se estamos pagando para aprender?". Eu achei a pergunta interessante. Mais do que isso, sendo esse aluno e do modo como ele me abordou, ficou bem claro que era uma dúvida genuína e não uma daquelas perguntas maliciosas que os alunos mais arruaceiros fazem para desestabilizar a aula. Fiquei ainda mais impressionado com a rapidez com a qual a resposta surgiu na minha cabeça: "É que os pais de vocês estão pagando para que nós ensinemos a vocês sim. Essa parte nós garantimos. Porém se vocês estão de fato aprendendo e prestando atenção é algo que nós não podemos garantir. Para isso rolam as avaliações: para termos certeza de que vocês estão aproveitando. E não estão distraídos jogando joguinhos no iPad...". Eu até esperei algum retorno malicioso. Mas o aluno fez aquela cara de "ah, é!" e pareceu ter entendido alguma coisa fabulosamente interessante.

• Todo começo de ano, em Janeiro, os professores se reunem na Semana dos Professores. É um evento bem elaborado, cheio de requintes, encontros em salas de reuniões de hotéis, exercícios motivacionais, palestras de atualização, encontros de disciplinas com coordenadores e etc. Cada semana tem um tema como base. A deste ano estava lidando com interdisciplinaridade, um termo tão difícil de ser compreendido quanto o pós-moderno. Para falar a respeito, um dos palestrantes foi um filósofo de educação com o qual a equipe de artes tem se encontrado regularmente para moldar o curso. O Bologna era um senhor grande, com uma farta barba branca. Unhas compridas sem nunca ter mencionado qualquer coisa de tocar violão. Frequentemente nos encontrávamos em um instituto que ele tinha, onde quadros seus adornavam as paredes. E ele era um bom pintor.
Na palestra, Bologna contou uma história de quando era jovem e trabalhava como terapeuta. Eu não estou certo de como a história se encaixava dentro do tema de interdisciplinaridade, mas ela me deixou pensando na cena que ele descreveu durante boa parte daquele dia. Porque de alguma forma, ela tocou em algo que eu sentia dando aula de arte em um colégio com uma filosofia tão pragmática. Ele contou que, quando jovem, querendo enfrentar desafios de carreira, ele foi trabalhar em uma instituição para doentes mentais, colocado para trabalhar com aqueles casos mais complicados. Na primeira consulta com um determinado paciente, ele fez a pergunta de praxe: o senhor entende por que foi internado aqui? O paciente respondeu com alguma ansiedade: "Sabe, doutor... um peixe que vive no mar toma conhecimento de muitas coisas. Ele vê os outros peixes, ele vê a areia, vê as algas. Mas doutor, o peixe que vive no mar não vê a água! Eu estou aqui porque eu vejo a água!".

• Eu fiquei interessado no caso da aluno da outra professora de artes, que entrou neste ano. A mãe de Y. morrera quando ela era muito pequena e o pai gradualmente foi saíndo da vida dela até que ela ficou sob os cuidados dos tios. Sofrendo de um problema patológico de auto-estima, sentimentos de abandono e tendências perigosamente suicidas, ela no entanto mostrava um potencial inimaginável de expressão. O tipo de expressão catártica que eu esperava atingir com o grupo de desenho e até agora não conseguira por causa da barreira aluno-professor. Salvo raras excessões, aquelas meninas raramente desenhariam algo chocante de verdade, que botasse pra fora os sentimentos violentos da adolescência. A cada rodada do grupo, crescia nelas a consciência de que eu era um adulto e que elas não deveriam se abrir assim para um adulto, por medo de que eu levasse os desenhos, as expressões e os questionamentos para o grupo de terapeutas do departamento de orientação. Medo de serem taxadas de loucas ou problemáticas. Mal sabiam elas que eu QUERIA que elas se abrissem, e que eu JAMAIS as trairia desse jeito.
Mas Y. era diferente. Tendo passado por tanto na vida, ela estava bem à vontade com a chancela da loucura. Ela a usava com orgulho. Tinha uma única amiga na sua sala, mas andava constantemente com turmas do Ensino Médio, contando-me como este era bissexual assumido e aquele usava um cadeado como pingente no pescoço. Além do caso complicado da vida pessoal dela, chamara-me a atenção o caderno que ela tinha entregado para a avaliação. Desenhos com canetas fosforescentes, letras "fofas". Zero violência. Mas Y. não tinha limites ou bom senso no que falava (característica básica de quem foi levada na base da porrada para além "do que os outros vão pensar"). Em poucos minutos de conversa ela já tinha deixado escapar que não fora ela quem fez o caderno. A única amiga da classe tinha feito isso para ela. E ela tivera o cuidado de arrancar as páginas com seus desenhos porque sabia que eles seriam considerados "inadequados". Parei a conversa. "É por isso mesmo que você devia desenha-los. E deixar eles no caderno". E quando a conversa incluiu o fato curioso dela ter perguntado à outra professora se podia usar sangue ou outros restos humanos no desenho, eu sabia que ela TINHA que fazer parte do grupo de desenho. Ela talvez traria a transgressão que eu não conseguia fazer os outros participantes cometerem. Não que eu fosse incentivar o uso de sangue, mas com certeza dava pra explorar essas e outras ideias sem expor Y. a qualquer perigo.
Na semana de provas, Y. me encontrou debatendo com outros alunos. Ela percebeu o que todos os outros haviam percebido mas tinham pudores em comentar: eu estava de base nas unhas e tinha uma única unha pintada de preto. Ela ficou muito interessada. Em uma conversa anterior, eu havia comentado como eu também era um dos isolados na minha época de colégio, e como frequentemente, por ser sensível e adepto das artes, eu era considerado gay. Ela ficara surpresa: "você NÃO é gay?". As minhas alunas interferiram, com vergonha alheia: claro que não, ele tem uma namorada no Facebook. Mas dava pra ver uma ponta de dúvida nelas agora. Vendo as unhas cuidadas, ela insistia no assunto. "Mas você pinta as unhas". Sem constrangimento ou hesitação, disparei: "Menina que joga bola é lésbica?". Ela pensou por uns segundos antes de se dizer, com ar de vencida: "Não...". Fechei o assunto perguntando: "O que é uma pessoa gay?". "Alguém que gosta do mesmo sexo". "Exato. Hábitos e orientação sexual são duas coisas diferentes". Sem argumentos, ela pareceu olhar para o nada, considerando o que foi dito, em um daqueles momentos de "ahhh!" que indicam uma mudança de conceitos. O momento que professores adoram.
Isso, claro, não significava que ela pararia de me atormentar com o assunto. Pessoas que já foram abusadas pela vida dessa forma têm uma tendência a querer tatear seus limites, provocar, chamar a atenção. Mas no caso dela, eu achava tudo isso muito interessante.

• G. era uma das meninas do grupo de desenho. Na verdade, chama-lo hoje de grupo de desenho seria incorreto, já que o grupo conta com participantes que preferem escrever letras de música, textos curtos, fazer monólogos, e outras possibilidades. Eu aceito qualquer coisa, tentando manter o grupo mais democrático. Mas voltemos ao assunto. A participação de G. no grupo garantia que nosso relacionamento sempre estivesse um passo além daquela coisa distante entre professor e aluna. Conversávamos sobre o depois do colégio, sobre a prática de escrever, sobre os pudores que a instituição de ensino insistia em reforçar (não fale palavrão porque é feio...). E eu, naquela minha ingenuidade, achava que talvez G. estivesse "do meu lado", no sentido de que talvez ela cooperasse com a minha tentativa de ser um professor. Aos poucos, e sem qualquer malícia ou desrespeito proposital, ela foi me mostrando que uma coisa não tinha nada a ver com a outra. Porque G. era desinteressada e preguiçosa. Dizia prestar atenção na minha aula (e só na minha aula, de acordo com ela), mas entregava trabalhos pela metade, sem vontade, sem nem tentar. O ápice da desconexão entre essa nossa amizade e o meu papel de professor se deu em uma das provas do ano passado. Prova de outra matéria, que eu estava fiscalizando. Quase no fim da prova, percebi G. cochichando com a garota atrás dela. Colando? Era como se G. me desafiasse a tomar alguma atitude de professor, daquelas atitudes chatas, enquanto usava a nossa amizade como escudo. Não tive dúvidas e mudei-a de lugar. Mas fiquei o resto da prova fazendo considerações sobre aquela dicotomia de papéis, entre o professor despótico, disciplinador; e o aluno questionador. No fim das contas, era um jogo cruel. O professor precisava fazer da sua matéria e da estrutura disciplinar algo interessante, moderadamente desafiador e constantemente recompensador para o aluno. Caso contrário, este perderia o interesse e consequentemente a disciplina. O aluno, por outro lado, tinha que fingir estar interessado na matéria e cooperando com a disciplina, caso contrário levaria uma punição por não poder domar seu instinto. E na verdade, nem professor e nem aluno estavam de fato achando nada daquela disciplina toda muito relevante e faziam a mesma pergunta: no que se interessa um adolescente do Ensino Fundamental?
[Eu lembro que este texto tinha muitas outras considerações relevantes... É uma pena que tenham sido esquecidas.]

• No meio do ano passado, L. e G. começaram a namorar. Um namoro curto, mas que chamou a atenção de bastante gente. Porque L. e G. tinham seus 12 anos, e não eram da turminha popular. Na verdade, pelo contrário, eram dos retraídos, meio desajeitados, aquela turma que eventualmente acaba virando artista. Ambos eram bem altos e expressivos, embora L. fosse mais espalhafatoso e G. fosse mais do estilo Virginia Wolf. Pensando bem, talvez por isso não tenha durado... Daí o relacionamento acabou - acho que por decisão dela. Sem saber do fato, e amargando alguns abandonos na minha própria vida, recebi de G. no nosso grupo de desenhos o tema "desilusão amorosa", e desenhei uma bota com parte do poema de Yeats, sem me tocar que estava na verdade denunciando a crueldade dela. E na verdade, confirmara o que ela sentia sobre si mesma. Algo sobre o qual suponho talvez conversemos um dia. Em outro canto do colégio, L. amargava sua desilusão amorosa, seus sonhos esmagados pelas botas de G. Havia muito da dor dele que eu entendia. Mas em um dos acantonamentos do colégio ao qual eu fui como professor monitor, percebi que L. estava sendo consolado por M. Ela também era do grupo de desenhos, amiga em comum dos dois. Também muito alta para a idade e muito sensível. Menos Virginia Wolf, e talvez mais... Adriana Calcanhoto? Não sei... É que o modo como eu estou escrevendo já revela toda a intenção do que eu quero dizer: sim, eu estava prevendo algum dia eles perceberem como eles eram grandes amigos, tinha muita coisa em comum, trejeitos, problemas e gostos. E perceberiam a possibilidade de um amor muito diferente, talvez muito mais puro e satisfatório do que qualquer coisa que L. tivera por G. Eu sabia que talvez eles jamais se dessem conta disso e morria de pena da possibilidade. Por outro lado, também sabia que dizer qualquer coisa a respeito para eles seria azedar a experiência. Eu era professor de artes, mas um completo idiota em assuntos do coração. Qualquer interferência seria catastrófica.

• Quatro dos rapazes estavam sentados sobre suas mesas, dois virados de costas pra mim. Em duas das mesas do meio da sala, um moleque com mais gel no cabelo do que deveria ter sobrado no pote se debruçava de tal modo sobre sua colega que qualquer um chamaria aquilo de abuso sexual. Uma outra batia tamborilava o dedo em um joguinho no celular. A porta fora deixada aberta e vi com o canto de olho algum moleque saindo de fininho. Pedi para fecharem a porta e ninguém obedeceu. Dane-se, fui eu mesmo fechar. No meio do caminho, uma patricinha me bloqueou para me informar (não pedir, informar) que estava saindo para ir ao banheiro. A última coisa que me lembro foi algum dos meninos rindo histericamente em algum lugar, como se não estivessem no meio de uma aula. Perdi a cabeça. Olhei fixamente para a patricinha e gritei (coitada...) que ela não sairia e que se sentasse. Tomei ar e bradei a plenos pulmões: "todo mundo senta e cala a boca" (ainda preciso me informar se mandar aluno calar a boca é procedimento kosher em sala de aula...). Alguém diria depois que nunca tinha ouvido eu engrossar a voz daquele jeito. O que se seguiu foi dez minutos de esporro coletivo. Os alunos, em profundo mutismo. De algum lugar, claro, alguém gravava com celular o raro acontecimento.
Eu estava me acostumando a rompantes desse. A pequenos atos de violência com os alunos. O que acontecia era que eles percebiam como eu tinha receios em dar bronca, em excluir da sala, em mandar anotações para os pais e exercer outras atitudes despóticas. Então eles aproveitavam. Não lhes havia sido ensinada em casa qualquer educação por hierarquias superiores, então eles agiam em total barbárie, obedecendo apenas diante de punição. E eu estava ficando farto disso. Já começava a perceber em mim um certo sadismo de querer ter estes rompantes. Uma sessão dessas me garantiria pelo menos umas duas semanas de sossego. Eu precisava aprender. Eu sabia que a minha aula de artes não poderia ter a rigidez de uma aula de matemática, mas também não podia ser este manicômio ("Professor, o que significa 'manicômio'"? "Moleque, procura na Wikipedia, eu não vou te falar" - juro que rolou uma dessas NO MEIO do esporro).

• As aulas de artes não estavam sendo muito bem vistas pelos alunos, embora todo o resto da comunidade do colégio adorasse o que estávamos fazendo. Os alunos, na verdade, achavam tudo aquilo meio irrelevante. Se não era matéria de vestibular, então para que estavam aprendendo? Pra que tinham que perder tempo (de jogo) estudando a origem da fotografia ou técnicas de desenho? A professora anterior tentara doma-los na base da truculência e transformara a experiência de artes em algo completamente intragável mesmo para os interessados. Nós, professores novos, estávamos tentando transforma-la em algo que fosse gratificante, mas ao mesmo tempo levado a sério. E daí caíamos no assunto das provas. Porque o 8o e 9o anos tinham provas teóricas, que de fato nunca seriam gratificantes. Deviam, no entanto, serem levadas a sério.
No primeiro ano, as provas aconteciam na última aula do bimestre, antes da semana de provas oficial. A prova em si, com questões absurdas que exigiam que os alunos decorassem um livro, fora imposta pela professora anterior e causava vários transtornos. Mas o maior deles era que os alunos simplesmente não levavam a prova a sério. Cochichavam, colava, riam, transformavam aquilo em uma algazarra ridícula. Decoravam as páginas do livro sem entender o que memorizavam, para depois esquecer. Mais do que tudo, tratavam-nos como idiotas. Como se não estivéssemos percebendo a movimentação.
No começo deste ano, passamos a prova para a semana de provas. Eu queria fazer isso em parte como retaliação. Os alunos, claro, se revoltaram. Minha resposta era sempre irredutível: vocês fizeram aquela zona no ano passado. Se voltarmos a prova para a semana regular, essa zona vai voltar. Quando vocês conseguirem parar de nos tratar como idiotas, nós poderemos pensar no assunto. Até lá, vocês vão sim ser forçados a pelo menos tratar esta prova com alguma seriedade.
Eles concordavam. Concordavam que estavam nos tratando horrivelmente mal. Aos que insistiam em exigir que as provas voltassem ao que eram, eu perguntava se eles lembravam do que tinham pesquisado ou estudado no ano anterior. A resposta era quase sempre bem vaga.
Preparamos a prova. Era um alívio ter uma prova que finalmente fazia sentido. Questões que não eram apenas decorebas, questões que até tinham a ver com expressões atuais para eles (uma sobre o Harlem Shake!). E bota os moleques pra desenhar! "Mas professor, eu não sou bom de desenho". "Eu também não era bom de química, mas tinha que passar na prova". Ainda assim, eu confesso que fiquei meio ansioso no dia em que eles fizeram as provas. A ansiedade não durou muito. Vários dos professores que fiscalizaram as salas vieram dar os parabéns por uma prova muito bem feita, questões que ensinavam além de cobrar o já aprendido, que trazia a matéria da sala de aula para a realidade deles. Professores querendo assistir as nossas aulas porque achavam a matéria interessante (nisso eu tenho que dar o braço a torcer, a professora anterior estruturou um curso muito legal).
A chave de ouro foi a aluna que me encontrou na porta da sala dos professores e me apertou a mão: "parabéns, professor! Com uma prova você me fez entender porque que eu precisava estudar artes". Eu ainda não sei se ela dizia isso com sarcasmo, mas resolvi me afundar na minha ingenuidade e achar que era um elogio genuíno. Ganhei o dia com essa.