Não, eu nunca me viciei em entorpecentes. Não tenho sequer o estômago necessário para beber decentemente em uma saída com amigos. Mas sim, relatos deste blog já dão conta do fato de que eu já experimentei algumas coisas. A regra, na verdade, sempre foi esta: experimente para ter essa experiência de vida, mas nunca, JAMAIS, EM HIPÓTESE ALGUMA permita que o vício químico se instale. Não posso dizer o mesmo sobre o meu vício por jogos eletrônicos, mas isso já está no passado.
E no entanto, a experiência de pessoas próximas e colegas de faculdade (ah, a faculdade, esse antro de perdição...) me permitiu formar algumas opiniões sobre como o processo todo se desenrola.
Imagine o adolescente típico, seu quarto tão bagunçado quanto sua mente e seus planos de futuro. Certo, para algumas pessoas, essa "adolescência" penetra fundo nos vinte anos, muito além do que devia. Nosso adolescente passa os dias naquele mar de incertezas, tanta angústia, tantos sentimentos novos, tanta cobrança por entrar na melhor faculdade, ter o melhor emprego, etc, etc. Um dia, como rota de fuga temporária, ele descobre uma substância química que lhe confere minutos ou talvez horas de uma tranquilidade perfeita. Ou talvez de uma confiança inabalável. O que quer que seja que esse adolescente precisa e que a própria química do seu corpo não está fornecendo na hora. Ele faz uma descoberta assombrosa e passa a questionar os adultos que lhe dizem que isso é pecado, heresia, proibido, censurado. Sente-se até um pouco traído: como puderam esconder isso de mim? E porque será que isso não é liberado para consumo diário se todo mundo se beneficiaria disso? Mas como eu disse, são minutos ou talvez horas, e eventualmente o efeito acaba. O corpo, tendo recebido uma descarga anormal de algum dos seus componentes químicos cuidadosamente equilibrados, entra em pânico absoluto e solta outra descarga do componente complementar, para restabelecer o equilíbrio. Os efeitos são devastadores nas primeiras vezes: a tranquilidade perfeita torna-se ansiedade sacana, a confiança inabalável torna-se dúvida paranóica. Toda aquela felicidade tem, além do preço pecuniário, o preço emocional de uma depressão equivalente.
Nosso adolescente é forte ainda. Acredita que pode suportar esse preço emocional se tiver sua saúde e o apoio de amigos e parentes, se tiver suas coisas e sua rotina. E podendo suportar esse preço, não vê problema em considerar sua nova substância favorita como um "aditivo" para aqueles dias mais difíceis da adolescência. Oras, os adultos não tomam café pra ficarem acordados no escritório? É a mesma coisa. E é mesmo, mas elevada a uma potência não percebida.
Os dias difíceis da adolescência são muitos, e a pessoa normal suporta a dor para se fortalecer. O nosso adolescente não. Ele acha que não é idiota e que não vai ficar sofrendo à toa quando seu aditivo pode lhe conceder algum tempo de fuga. E nos muitos dias difíceis, ele continua tomando algum tempinho para fugir. Cada vez que faz isso, o corpo entra em novo pânico, solta mais químicos complementares, equilibra novamente a situação. Com cada nova dose e o espaço de tempo entre elas diminuindo, o corpo passa a acreditar que talvez esse seja o novo equilíbrio que tem que manter, como se essa substância a mais que está entrando nele a toda hora não fosse uma anomalia, mas sim uma constante. Gradualmente, o corpo estabelece as doses elevadas dos químicos complementares como a situação normal. O que acontece aqui na verdade é que nosso adolescente acaba de tirar a responsabilidade pelo equilíbrio de sua química interna das mãos de seu próprio corpo. Preocupe-se com o resto que a dopamina eu garanto. E o corpo vai obedecer.
Seria fácil, não fosse pelo componente econômico da equação. Porque esse fornecimento de dopamina que nosso adolescente precisa cumprir custa (e ele de repente ganha um ódio mortal pelo capitalismo...). Ou seja, além de se responsabilizar por algo que o corpo já fazia sozinho, ele também passou a precisar comprar o que o corpo produzia de graça (ele vai argumentar que o corpo produzia em pouca quantidade, e está certo, embora a solução adotada tenha sido errada...). No estado avançado do vício, ele vai precisar comprar cada vez mais da droga só para conseguir manter o equilíbrio dito "normal". Longe estão os dias em que a dose da droga o levava acima do normal. Ele condicionou sua normalidade ao dinheiro.
Considerando, acho que é algo similar à necessidade por comida ou água. Também é preciso pagar por essas coisas para sobreviver. Mas se já é difícil pagar por estas, imagine arranjar mais uma "necessidade básica" para pagar.
Como se não bastasse, enquanto esse processo vai correndo, outro rastro de destruição vai acontecendo nos bastidores: a saúde obviamente se deteriora. E em passo semelhante vão as relações com amigos e familiares. Nosso adolescente já não aguenta mais o passo econômico da vida normal, já que todo o dinheiro vai para manter sua responsabilidade sobre sua dopamina. Se for esperto e ardiloso, ainda conseguirá que algum desse dinheiro venha dos pais, enquanto a relação com eles se mantiver ativa.
Eu não sei como a história termina. Eu perdi contato com os colegas de faculdade que eu observava. Talvez haja algum fim positivo nisso tudo que eu não esteja vendo e todos nós devamos sim descobrir o aditivo de cada um. Eu não acredito nisso ainda. Ainda acho mais adequado procurar resolver os dias difíceis da adolescência na marra. E procurar aumentar dopaminas, serotoninas e outros químicos em parceria com o corpo, em vez de usar a via mais autoritária.
Tá, eu sei, nesse sentido, eu virei um daqueles caras bem caretas com papo de auto-ajuda. E não me envergonho disso.