terça-feira, março 29, 2005

Temporada na casa da vó: dia 38

A estadia na casa da minha avó mudou pouca coisa durante a semana. Afinal, eu nunca passei muito tempo em casa, seja a minha ou a dela. Mas as poucas coisas que mudaram são interessantes e parecem ter dado um gosto maior à vida. Agora, depois de um mês, posso definir o que é a minha rotina diária.
Acordo com o barulho do resto da família, que sai um pouco mais cedo do que eu. Ainda de pijamas, troco algumas palavras com eles que já estão de roupas de trabalho (nunca imaginei meu irmão preguiçoso com roupas de trabalho...). Dou bom dia para minha avó em seu robe de seda e eterno sorriso de vó. Raramente peguei-a com uma cara normal, dessas neutras que a gente faz durante o dia. Sempre que me vê, sorri. Percebi o quanto meu mundo era deshumanizado. Acordava e caia fora de casa, tendo um contato muito ralo com a família. Depois voltava e todo mundo já estava dormindo (exceto o irmão, que só voltava de madrugada...). Agora dormimos todos no mesmo quarto e a manhã é muito "familiar". Estou gostando disso. Muito. Um costume que vou tentar levar de volta pra casa.
O banho virou outra experiência. Alguns desconfortos e outras maravilhas. Obviamente sinto falta do chuveiro de casa. Chuveiro, cama e comida da própria casa sempre deixam saudade. O espelho é menor. É reconfortante lá em casa poder me despir em frente a um espelho que me mostra da cabeça aos joelhos. Reconfortante ver que meu corpo ainda está lá. Na casa da minha avó o espelho é muito menor. Para onde foi o resto de mim? Outra coisa: o banheiro tem janelas para fora da casa. Lá em casa, o banheiro fica exatamente no centro, a única janela dá para a área de serviço. É um banheiro escuro. Na casa da minha avó, há o erotismo do meu próprio corpo iluminado pela luz difusa do sol atravessando o box do chuveiro. Meu corpo tem outra cor.

Volto pra casa tarde da noite e termino o dia com algum jantar qualquer. Lá em casa, havia uma espécie de acordo entre o que nós (filhos) comíamos e a comida light de dieta que eles (pais) comíam. Eram coisas diferentes convivendo na mesma geladeira. Na casa da vovó, tudo parece ser light demais. Até pra eles. Ainda assim, acontece vez ou outra de encararmos uma macarronada de vó italiana ou uma boa canja daquelas que só avó sabe fazer.
Como chego tarde, como só, assistindo TV. Tenho voltado a ver animação japonesa. As de má qualidade do Cartoon Network. Saudades da Locomotion.

Recebi notícias de que voltaremos para casa no final de semana. E então lembro que sexta é 1o de Abril e que pode ser uma mentirinha antecipada. Ou ainda, lembro que estamos no Brasil e que é o costume local não cumprir com prazos. Mas a esperança é a última que morre, certo?

segunda-feira, março 28, 2005

Sobre minha formação espartana

Estive conversando com Nana,Tink e Thelus num café em algum lugar, depois do cinema. Falávamos de formação, dos traumas do colégio e todas aquelas coisas nas quais a Tink não concorda comigo mas tem lá suas contradições também. Daí me peguei pensando sobre a minha formação espartana.

Vejamos:
Viajamos para outro país onde eu fui colocado em um colégio que obrigava cada turma a ficar em fila, por ordem de tamanho, todas as manhãs, enquanto a diretora fazia algum pronunciamento besta qualquer. Havia missa uma quarta-feira de cada mês, e mesmo que seguisse outra religião além da católica tinha que comparecer. A cada três lições não feitas, uma nota era mandada aos pais que deveria voltar assinada por eles no dia seguinte (prática que só me ensinou a forjar assinaturas...). Tínhamos uniformes específicos, de calça e sapato social e camisa branca. Moletom nos dias de educação física. Tínhamos aulas de religião e música, cantávamos em coro onde eu era uma das vozes principais. Enfim, disciplina, disciplina, disciplina. O ensino em si era leve, porém me colocou à frente em algumas matérias quando voltei ao meu país.

Voltei e fui colocado em um colégio onde o ensino era muito mais rígido, voltado mesmo para resultados, estatísticas de vestibular e a dita "formação de um aluno cidadão". Mas não havia mais filas por ordem de tamanho, não haviam mais notas sendo enviadas para casa à espera de assinatura (e portanto eu deixei de fazer lições de casa...) e podíamos vir com a roupa que queriamos. Os alunos fumavam no pátio do colégio em calças jeans rasgadas e plataformas brancas de patricinha. Havia liberdade de culto religioso (e logo me tornei ateu quando vi como religião servia de instrumento de controle...), não havia música nem coro (pena, adorava o negócio, mas era igualmente um exercício de controle). Eu pude relaxar um pouco, mas mesmo relaxado, eu era o cúmulo da disciplina, seguindo ordens, tentando fazer com que o sistema, como um todo, funcionasse e me colocasse em uma boa faculdade. Minha disciplina me levava longe nos estudos, me garantia a amizade (e consequentemente a ajuda...) dos professores, e me colocava nas primeiras classes, já que o colégio dividia seus alunos em salas de acordo com as notas. Nunca questionei ou me revoltei contra o sistema, porque eu estava sendo amplamente recompensado por ele. Revolta era para a galera das últimas classes. Eles argumentavam que o sistema de separação de classes nos fazia excessivamente competitivos. Eu respondia: assim vai ser a vida fora do colégio. Acostumem-se.

Pra mim sempre me pareceu lógico: coopere, e o sistema vai cooperar com você. Se não há razão para revolta, não seja um rebelde sem causa.

Hoje ainda tenho traços dessa educação espartana. Ainda avalio pessoas na mesma carreira que eu quanto a pontos positivos e negativos, o que têm de melhor do que eu e o que têm de pior. Isso não quer dizer que não consiga conviver com eles. Velho clichê: "Amigos, amigos; negócios aparte". Ainda monto estratégias de carreira, planos a longo prazo, metas. Isso não quer dizer que não procura um "spice" no fim de semana ou que minha vida seja o trabalho. Enfim, estou tentando juntar o melhor de ambos os estilos de vida, o desregrado e o disciplinado. Mas há quem ainda me ache espartano demais.

Quando se visita os dois polos, pode-se entender o quanto de cada um é necessário para a vida.

quinta-feira, março 24, 2005

Another one bites the dust

Acabo de saber que o blog do Lala`s Joe, o Whaddafuck, encerrou suas atividades. Acompanhei, ao longo dos últimos dois ou três dias, uma pequena discussão entre o autor (convencido de sua própria natureza deliciosamente mesquinha) e alguns supostos leitores (incapazes de tolerar o fato ou as opiniões emitidas sobre eles, que os tornavam igualmente mesquinhos). Não consegui identificar com clareza os envolvidos na história, e suponho que nem importe. O fato é que minha lista de blogs fica cada dia mais vazia de blogs com verdadeiro conteúdo e mais repleta de cadáveres de blogs mortos ou blogs que não dizem nada. Estes, invariavelmente, sobrevivem por mais tempo ( o meu incluso ), porque não precisam lidar com o escrutínio e a intolerância de pessoas que convivem com os autores na vida real.

< DISCLAIMER > Fora o próprio autor do referido blog, não estou me referindo aqui a nenhuma pessoa específica, mas ao público leitor de blogs como um todo. Não me apedrejem!< /DISCLAIMER >

Houve uma época em que eu escrevia sobre a minha vida. Ler o meu blog era um canal aberto para sentimentos, opiniões e grandes idéias que eu não encontrava espaço ou pessoa que me ouvisse pra expressar na vida real. O blog era, literalmente, um diário virtual e uma extensão de mim.
Daí tive meus próprios episódios com pessoas da minha vida real e cogitei por um tempo parar de escrever, ou voltar à prática retrógrada de escrever em cadernos guardados no fundo da mochila. Em vez disso, resolvi censurar assuntos, dizer algumas coisas de forma cifrada, guardar outras escondidas na página de forma que só quem conhecesse saberia encontrar. Mas mantive o blog. A vontade e o gosto pela expressão escrita, pela escolha adequada e poética de palavras e pela divulgação me encorajaram a não cortar o suposto mal pela raíz. E o que obtive? Algo semelhante às minhas pinturas, que são tecnicamente belas, mas vazias de conteúdo. Não dizem nada da minha vida e dos pequenos gostos que a fazem digna de ser vivida. Porque, se eu me arriscasse a compartilhar dessas coisas, muita gente adoraria ler e se identificaria, e veria a poesia na vida. Mas muita gente sairia machucada por estar relacionada a mim e não compreender os sentimentos.
Leitores de blog, de um modo geral, são daquelas pessoas que bradam contra a hipocrisia mas não toleram as opiniões verdadeiras. Ou melhor, não toleram que possamos ter tais opiniões e ainda tentar conviver com os alvos delas. Acham que deviamos sair na porrada mesmo com quem não gostamos, mesmo que pelas razões mais bestas. Meu pai dizia que o que estraga a medicina é o doente, porque nunca o tratamento sai como na teoria. Talvez o que estrague o blog sejam os leitores. Alguns deles, ao menos.

Chega de revolta, que isso não faz bem num blog.
Como homenagem, assim como havia feito com o antigo blog da Lee, o link para o Whaddafuck vai permanecer na minha lista por algum tempo.

Godsped, my friend.
I`ll be waiting for your secret ressurrection.

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Outro come poeira



I`ve just gotten word that Lala's Joe's blog, Whaddafuck, has been shut down. I`ve been witness, along the past few days to a little quarrel between the author (aware of his own deliciously vile nature) and some supposed readers (unnable to tolerate the fact or the opinions about them, which made them just as vile). I wasn`t able to identify those involved, and I don`t suppose it matters. The fact is that my list of blogs grow empty of blogs with real meaning each day, and full of blog corpses or blogs with no real content. The later invariably survive longer (mine included) because they don`t have to deal with the scrutiny and intolerance of people who actually live with the author in real life.

< DISCLAIMER > Aside from the author of the referred blog, I`m not talking about any particular person, but about the blog reading public in general. So don`t stone me to death! < /DISCLAIMER >

There was a time when I`d write about my life. Reading my blog was having an open channel to feelings, opinions and great ideas that had no space or listeners in real life. The blog was, literally, a virtual diary and an extension of me.
Then I had my own episodes with people in my real life and began pondering on quitting it all, or going back to the retrograde practice of writting in notebooks kept away in the depths of my backpack. Instead, I decided to apply censorship to certain subjects, write some in codes, keep others hidden in places only certain people would find. But I kept the blog going. The will and satisfaction of written expression, of choosing the right and poetic words and of publishing encouraged me not to cut this supposed evil by the root. What did I get from it all? Something similar to my paintings, that are technically beautiful, but empty of content. They say nothing of my life and of the little pleasures that make it worth living. If I were to risk sharing these things, many would love to read them and would identify with the poetry in my life. But likewise, many would end up hurt due to being related to me and misunderstanding my feelings.
Blog readers, in general, are those people who shout against hypocrisy but can`t tolerate the real opinions. Or rather, they can`t tolerate that we would have such opinions and still try to co-exist with their subjects. They believe we should actually break out in full-contact martial-art brawling with anyone we even remotely dislike. My father used to say that what spoils medicine is the patient, because treatment never turns out like it did in the the textbooks. Perhaps what spoils blogs are their readers. Some of them, at least.

Enough with the bitching, cause it ain't healthy for my blog.
As a tribute, just like I did with Lee's old blog, the Whaddafuck link will remain on my list for a while.

Deus te proteja, meu caro.
Estarei esperando tua secreta ressurreição.

terça-feira, março 22, 2005

To be understood as you see fit.

Once upon a time, there was a kingdom, where a prince was born. The king and queen threw a party to celebrate, but forgot to invite the hermit fairy. When she got word of the party, she appeared in the castle and cast a strange curse upon the young prince: instead of cripling him, or casting any other spell that would render him incapable of having a normal life, she gave him the capability of excelling at everything he tried. As he grew, he quickly became the best in all arts and sciences that were taught to him, as well as a record-breaker at any sport he tried his hand at.
But in the end, even with all his possibilities, he grew to be the saddest of kings. Because, excelling at everything, he was never able to choose any particular career. And he was clearly aware that he could never pratice all careers at once because he would never completely commit to any of them. He'd live fractions of everything, but never focus on something specific.

Last I heard, he was trying to choose between music and engineering.

segunda-feira, março 21, 2005

Réquiem por uma inocência

Na sexta à noite, fui ao aniversário do Lala's Joe.
Um dos ilustres convidados, amigo que é de um fotógrafo com uma agência de modelos, trouxe duas garotas a tiracolo. Lindas em seus vestidos pretos e sapatos de salto agulha. Conversa vai, garçom vem e, na ausência da Tink, acabei travando conversa com a mais nova delas. Disse-me que era do interior. Falava da cidade com tamanho extase que dava gosto. Da vida noturna que ela não tivera na cidade natal, das pessoas, das luzes. Deslumbrada. Tão deslumbrada, que não atentava ao fato de estar morando em um apartamento diminuto, dividido com outras seis pessoas: três outras modelos, um rapaz e dois homossexuais. How can one so sweet leave such a sour aftertaste? Divertia-se contando como enojava um dos homossexuais com seu corpo feminino. E era jovem mas sabia usar o corpo que tinha.

Há algo quase mágico sobre uma mulher que sabe usar seu corpo. Que veste-se em vestidos pretos decotados sem parecer vulgar e usa sapatos de salto alto conseguindo manter a elegância nos passos. Junte isso a um rosto delicado que aparente uns três anos a menos do que a idade real e ela pode conquistar o mundo.

Mas eis que logo aí, quando ela nos deixou pensando pensamentos sexuais sem objetivo, que ela veio dizer por aí que era virgem... Proclamou com toda ingenuidade aqueles clichês de revista para adolescentes, sobre como ela não havia encontrado o rapaz certo e que essas coisas deveriam acontecer natralmente. O pensamento em si matou qualquer sugestão sexual e me encheu de uma profunda melancolia. Porque, minha cara, na cidade em que vieste e no ambiente da carreira que escolheste, nada disso aconteceria naturalmente. Pude vê-la sendo seduzida por qualquer canalha da estirpe do meu colega que a trouxera, que lhe prometeria o mundo só para tirar-lhe a virgindade e conseguir mais um ponto no "placar". E então a mandaria embora como se afugenta uma mosca incômoda, deixando-a deprimida, complexada, acabada e a um passo do suicídio. Era a destruição violenta e fútil de algo belo e frágil sendo anunciada no contexto que envolvia as palavras dela. E o que mais me doía era que eu não podia fazer nada para evitar aquilo. Teria aconselhado a ela que voltasse à cidade natal e estudasse veterinária, como ela queria. Mas ela não me escutaria. Os sonhos de fama e fortuna em uma cidade brilhante onde há festa todas as noites eram muito mais sedutores.

quinta-feira, março 17, 2005

In jungian psychology, the role of the father is associated with the ruler, the king. It`s an archetype of supreme power.

Yesterday, I visited my father at the hospital.
Calm down, he`s alright. A few weeks ago another docter, a friend of his, suggested that he take a few routine exams of his intestine. People over the age of 50 are supposed to take them regularly. The exams showed the presence of polyps, that were cut off and examined.
One of them had cancerous cells.
Luck would have it that he took these exams before the cancer could spread, so he is perfectly safe. Doctors diagnosed a 95% chance that the cancerous polyp would not grow back. But since father didn't want to give the other 5% any chance, he took the doctor's advice and had a small portion of his intestine removed.
I visited him after the surgery, while he was still recovering from the anesthesics. Mom was with him during the whole procedure (being a doctor as well, she was allowed into the operating room).

I came into the room and saw him on one of those minute hospital beds. I remember when grandmother had a heart attack and we visited her in ICU. The hospital bed was barely big enough for her. I had the impression that her legs were sticking out, the matress ending just above her ankles. She seemed a skeletal interpretation of herself. And now I remember the size of my cousin`s coffin, making him seem like a scaled model of the real thing. It seems death, even in small portions, makes you smaller.
But not my father. The bed could be small, but his huge figure took all available space in it, pinning it down with it's colossal weight. He had something like an oxigen mask on and was covered up to his neck with the bed sheets that allowed us a dim notion of his posture on the bed. He seemed to drift in and out of conciousness, as the anesthesics wore off. When he saw us, and someone said we were all here to see him, he mumbled some question about a cat that left an awkward silence in the room: no one new how to answer and it seemed to us all (perhaps more to me) like something was amiss. It was odd to see him, the pinacle of rational thought, asking dazed surreal questions.
We all sat around him, not taking our eyes off of him. He realized he was covered by the bed sheets and struggled to free his right hand from underneath. Then he held it up, as if expecting something, or more like as if he had forgotten why he wanted it free in the first place. Not knowing what (or who) he expected, and seeing as no one moved to take his hand, I took it gently.
Father`s hands mean power. His whole figure means power. But his hands are a focused expression of it. Big, rough, with a kind of certainty. Holding my hand, his was a huge lion`s paw, able to crush mine in a moment`s carelessness.
A huge sedated lion. He slept and at times groaned with his deep voice, indeed like a lion`s growl inside a cave. His mumbled, barely coprehensible words also like growls. And like the sedated lion he was, he'd try and scratch the itchy stitches of the surgery, and mother would reprimend him as if she thought herself to be stronger than the lion. A lion tamer.
We sat there for a while longer, in silence as he slept and groaned. Or whispering trivialities. When the late hours of the night came, we went home. Mom stayed with him. They`ll be there `till sunday. Before we left, he waved at me and Tink, wiggling his fingers like a playful child.

I left the room with a strong notion in my head that the times were changing. It was the same notion I had back in Aunt Suzy`s, that his genertion was growing old and I was stepping up to take his place. Only this time it hit me with the certainty of biology. He was no longer the king, the emperor, the god of my childhood. In the second half of his life, he would now be a common man. One that would grow old and diminish as I grew stronger, bigger and more powerful. As if this power was some liquid, cohese thing that could flow from one person to the other. Vaguely I imagined some time in the future where I`d hold his hand with lion paws of my own and all the tenderness in the world, careful not to crush him.

segunda-feira, março 14, 2005

Spice II

No final de semana, fui ao Parque Vila Lobos com a Tink.
Pode-se alugar bicicletas lá. As bicicletas de dois lugares (daquelas que uma pessoa pedala atrás da outra) estão a R$8,00 a hora e é um passeio interessante.
O parque em si é uma área enorme e aberta, quase totalmente plana. Sugiro qu escultores e arquitetos visitem o parque: a noção de espaço que se têm lá, pra quem se liga nessas coisas, é rara de se obter em uma cidade como São Paulo. Perfeito também para empinar pipa!
Fora isso, há muitas possibilidades de se exercitar por lá, além de um jardim calmo e recluso para quem não quer tanta agitação, e um viveiro de onde saem as mudar das plantas do parque.

A bicicleta dupla é uma experiência interessante: você faz dois terços da força da bicicleta comum, não precisa ficar gritando pra se comunicar com quem anda contigo, além de atrair os olhares curiosos da galera. Só leve em consideração o raciocínio do motorista de caminhão: as curvas têm que ser muito mais abertas e planejadas de antemão (não dá pra reagir em cima da hora e virar) e você tem que pegar leve na velocidade porque não dá pra parar de repente também (tente imaginar um caminhão com uma carreta cheia de troncos de árvore brecando de repente -- todos os troncos acertariam a cabine como arietes usados para derrubar portas de castelos!).

quinta-feira, março 10, 2005

Pra você que ainda não entendeu o kitsch.

Lembra quando você tinha que ler todos aqueles livros pro vestibular?
Aí obviamente não ia dar pra ler todos eles no mesmo ano. Principalmente quando qualquer coisa do Eça de Queiroz estava incluída. Então os cursinhos e colégios faziam uns resumos enormes dos livros, com os pontos mais relevantes e "o que o escritor quis dizer" (que francamente, como todos nós sabemos, é uma descomunal besteira). Você decorava todas as respostas dos resumos e já tinha, pro vestibular, todas elas na ponta da língua. Mais condicionado que isso, nem o cachorro do Pavlov. Mas o que acontece é que você não lia os livros. Logo, não pensava neles. E obviamente não pensava nas coisas que os resumos diziam estarem contida nos livros nem tinha sua própria interpretação deles. O que você tinha era uma compreensão padronizada, um senso comum, sobre a obra. Você havia experimentado a versão light, que todo mundo também conhece.

Isso é o kitsch: é a maravilha da arte, padronizada, explicada e dissecada para quem não tem sensibilidade se maravilhar também.

Outro exmplo: você vê a Mona Lisa e fica supostamente maravilhado com o dito "sorriso enigmático" dela porque em algum lugar você leu que ela tinha um sorriso enigmático. Mas muitas outras musas em muitos outros quadros já sorriram sem motivo e seus sorrisos nunca foram chamados de enigmáticos. Francamente, você não faz idéia de porque o sorriso dela é enigmático ou porque é o quadro mais famoso do mundo. Mas você ouviu falar disso, então deve ser verdade.

Enfim, explicado de uma forma bem simplificada e kitsch, é isso.

terça-feira, março 08, 2005

Aproveito que hoje é o Dia das Mulheres pra postar aqui o

Manifesto Masculinista



Em primeiro lugar, masculinismo é radicalmente diferente de machismo. O machismo é a atitude que reduz as mulheres a animais inferiores, sem capacidade de decisão, intelecto ou vontade própria. É a afirmação do homem sobre a mulher baseado em sofismas, lógicas tortas e raciocínios rasos. Tudo isso respaldado por milênios de cultura patriarcal que criaram uma tradição onde a posição superior masculina é supostamente inquestionável e óbvia.
A tudo isso digo NÃO!

Ao longo dos anos, as mulheres lutaram para serem julgadas como iguais aos homens. Mostraram-se igualmente capazes para desenvolver as mais diversas tarefas e merecedoras dos mesmo direitos. O mais importante do movimento feminista, a meu ver, foi o amadurecimento da consciência feminina: chegamos ao ponto em que as mulheres têm plena consciência do que é ser mulher hoje. Dos mecanismos de controle, das humilhações, dos conformismos aos quais estão sujeitas. Entendem tudo isso e têm a opção de dar um basta no que não lhes agrade. Em suma, conhecem o papel da mulher na sociedade atual. E nesse ponto, estão muito mais evoluídas do que os homens. Ainda mergulhados no antigo sistema patriarcal, os homens primeiro riram das tentativas de emancipação feminina, depois se ultrajaram e por fim terminaram aceitando a igualdade feminina. Mas enquanto elas continuavam a pensar em seu lugar na sociedade, eles permaneciam estacionados no passado, sem questionar seu papel social e sem perceber, não só a obsolecência dos antigos sistemas de controle, mas o surgimento de mecanismos para controlá-los. Continuavam em tal estado de imaturidade, que os mais recentes movimentos feministas passaram a considerá-los escória, animais imundos, levados apenas pelo impulso sexual. Inverteram-se os papéis e hoje os homens são dominados por mecanismos de controle, humilhações e conformismos muito semelhantes aos usados para dominar as mulheres. E a tudo isso novamente eu digo NÃO!

Toda vez que uma mulher tenta me seduzir para conseguir o que quer, para me manipular, sinto que estou sendo chamado de imbecil. E que essa imbecilidade é diretamente ligada ao fato de eu ser um homem. Minha masculinidade, nesse caso, me denigre tanto quanto a feminilidade denigre a mulher-objeto: sou inferior por causa de algo que não posso mudar e que é um juizo de valor estúpido e sem fundamento. Ser homem hoje é ser visto como um animal frio ao qual importa apenas a conquista sexual. É ser visto como um ser incapaz de raciocínio emotivo, de intuição, de sutileza. Não só pelo sexo oposto: os próprios homens taxam uns aos outros de afeminados, bichas, gays, quando percebem um homem com alguma capacidade emocional e delicadeza. Precisamos amadurecer: o homem não deve ser apenas a força destruidora e conquistadora pregada pela mídia, o ser puramente lógico e bélico. O sexo masculino tem a mesma capacidade que o feminino para a atividade criadora e sutil. Basta se desfazer do próprio preconceito.

Assim sendo, o masculinismo não é afirmar a superioridade do homem sobre a mulher novamente. Mas é, em um primeiro momento, lutar contra o conceito da superioridade estratégica da mulher sobre o homem que vem sendo difundido hoje. Em um segundo momento, e de principal importância, é afirmar que a superioridade não está ligada ao sexo e sim a características mais individuais e ao ponto de vista sob o qual o julgamento é feito. É ingênuo pensar que todos somos perfeitamente iguais e ninguém é superior a ninguém. As diferenças existem e devem ser respeitadas. Porêm mais ingênuo ainda é pensar que uma característica como o sexo automaticamente define, sem sombra de dúvida, a superioridade de um sobre o outro.


São Paulo, 8 de Março de 2005

segunda-feira, março 07, 2005

All of a sudden, I feel wanted.
Spare me the pseudo-erotic puns about the meanings of that sentence. I mean I have felt wanted as a friend, as an intelligent person, or rather as a like-minded person.
It`s been a few weeks since I`ve gone out to lunch with Lala`s Joe, a fellow co-worker. Our chat over lunch revolves as much around such tiny issues like the psychological integrity of other co-workers as it does around the bigger issues, like the existence of gods, the true nature of love and our own individual history. Sometimes we even talk about our own artistic endeavors.
Also, today, Persephone called me on the cell phone to say we hadn't talked in a while and she just wanted to say "hi". We've been chatting on MSN during the lazy hours at work when we've both finished our tasks. Trading weird links to bizarre stuff on the net and talking about goth trends.
I`m not used to this sort of attention. Don`t get me wrong, I`m not complaining or anything. On the contrary: I`m flattered. I`m used to being ignored. Or being summoned only for very specific reasons or favors. Seldom have I been invited to lunch, for example. And then again, on the few occasions it happened, the other person was just being polite. Even fewer are the occasions in which someone who isn`t romantically attached to me has called me on the phone just to say "hi". But lo and behold, there are people who have recently demonstrated they not only like my company, but they desire it.
To better understand the subtlety of it: they`ve gone from passively enjoying my company (that is, enjoying it because I just happened to be there at the time), to actively seeking it (which would be to look for me when I`m not there and note my absence). It all seems slightly new to me. Or not exactly new, but like a feeling I hadn`t felt in a long time.

To both and all of you: thank you.

quarta-feira, março 02, 2005

Surreal revelation XVI:

Let`s start with a controversial concept: there is no such thing as life.
Not as we all think of it, anyway. We think of it as some sort of magical, unnexplainable thing. People seem to deny any reductionist view on the subject simply because it is... well, reductionist. But for the purposes of this surreal revelation, let`s say that there actually is no life. That every living organism is in fact a collection of chemical and physical reactions, with an immensely complex number of variables - too complex for us to understand.
Then what we can recognize as our own conscience is highly influenced by our biological bodies. We feel depression, boredom, happyness, satisfaction, everything due to a certain amount of enzimes and substances in the brain or in the bloodstream. Thus, such emotions can be manipulated chemically (as they often are nowadays). If both assumptions are correct, then we truly do work as machines built of organic components. And our magical unnexplainable concept of such a thing as life becomes rather obsolete. I`ve rambled about that theory more than once in this blog, so you should be acquainted with it.

But more important than dissolving the link between conscience and this magical, mysterious and esoteric thing called life, is to dissolve the link between the concept of entity and that of life. The common concept of entity is that of a sentient being, capable of reason (no matter how simplistic or instinctive), regardless of the physical body (or lack of one) it inhabits. It is that which is you. The concept of entity is thus very similar to the common concept of soul. You can exist outside of your body, beyond your body.
My concept of entity is quite similar, except for the fact that, since there is no such thing as life, entities aren't necessarily "living beings".

For example, Art is an entity. In many degrees. As a whole, art lives. It answers to the many stimuli of each time, it changes, it evolves. It has it's moods: it got depressed during romanticism, it got playful during part of the barroque, it got mad during the wars. But also, in a smaller degree, it maintains dialogue with each artist individualy. I believe I've written something about this in here. About how an artist starts with one idea in mind, and the little mishaps and chance events turn that work into something else, almost as if Art was replying to the artist's initial statement. It's a dialectic thing: if the artist hadn't started the work, Art alone wouldn't start it. But it did carry on after the beggining. That is, the existence of Art as an entity depends on the existence of humans, but humans in themselves aren't completely responsible for art.

So, you see, just as we can consider ourselves entities, although made of biological parameters, certain entities have other, less physical parameters.

And finally, we get to the concept of gods. People tend to believe that gods are beings, that they are "alive". That they have consciences and are aware of our existence. Hence, that we can "pray to the gods" and they will actually "listen". What if God (I'll loosely use the christian monoteistic concept for better general comprehension, but I`m referring to general gods, to what spawned everything) is an entity like I`ve explained Art to be? What if, like Art, God's "conscience" is build up of parameters, chance events, actions and reactions, that give us a sense that He is actually reasoning about things, answering to stimuli, being "alive"? Most people would call this "life" of His, under this point of view, an "illusion". But if, as I stated in the biggining, we are also a collection of chance events, parameters, actions and reactions, then we'd be just as "alive" as God and Art are.

It's amazing to comprehend that, through this chain of reason, I have taken a step out of atheism. Because if these ideas are correct, then there are such systems of action and reaction (such entities) that I could call gods and believe in them. Not in any true religious sense, with rituals and whatnot, but in my own sense. A holistic view of things, perhaps?

And no, I didn`t take mescalin to write this...