sexta-feira, outubro 31, 2008

A verdade sobre publicitários

Recebi este texto por e-mail no trabalho. Acho que ele resume toda minha frustração com a carreira de publiciotário e o porque venho tentando fazer menos disso e mais arte de verdade a cada dia.

Criação: são exatamente o tipinho que as pessoas que não conhecem nenhum publicitário imaginam como sendo um publicitário. Consideram-se o cérebro da agência de publicidade, mas na realidade são os primeiros na cadeia alimentar, diariamente estuprados por todos os outros setores da agência. Porém, estrategicamente a diretoria os oferece vagas no estacionamento, os melhores computadores disponíveis, liberdade de chegar mais tarde no trabalho (um pouquinho mais tarde), e mais algumas regalias baratas e dispensáveis, o que os fazem acreditar que são o setor de maior prestígio dentro da agência. É um prática comum dentre os criativos se masturbar olhando o espelho, uns chegam até a levar ao banheiro um espelhinho de mão escondido no meio da revista Meio & Mensagem. Dividem-se em alguns cargos/castas que variam de nome e função dentre os tipos de agência, mas que de modo geral são:


Redatores:
vestem preto ou casacos Adidas, usam tênis coloridos e têm cara de nerd . São pseudo-intelectuais insuportáveis, acreditam saber mais do que todo mundo em absolutamente QUALQUER assunto. Adoram supervalorizar o próprio trabalho a ponto de demorar 3 horas para decidir se no "Compre já!" deve entrar uma exclamação ou não. Trabalham anos e anos em troca de salários mínimos, com o sonho de ganhar prêmios e dinheiro. Quando isso ocorre (se um dia ocorrer), já estão velhos, impotentes e flácidos demais para poder aproveitar. Decidem então se dedicar a escrever um livro genial, brilhante e revolucionário, que nunca será publicado.

Diretores de arte: Fumam maconha , usam calças jeans rasgadas, tênis all-star sujo e geralmente possuem brincos ou tatuagens. Reclamam o tempo inteiro sobre tudo. Às vezes saem pra almoçar apenas para reclamar: reclamam do trabalho, do clima, do atendimento do garçom, da própria barriga que não pára de crescer. Possuem olheiras e cara de sujo que são, além de estilinho, decorrentes das centenas de noites em claro e finais de semana dedicados a anúncios que não servirão pra nada além da inscrição em prêmios que só outros publicitários verão, ou para grandes e memoráveis obras de arte como o selo de "Saldão de Natal". Consideram-se grandes artistas, mas quando chegam aos trinta e muitos, frustrados com a carreira dedicada a campanhas "humanizadas" de lojas de departamento ou bancos, montam uma confecção de camisetas moderninhas e "com conceito".

Diretores de criação: "Vai tocando aí e no domingo de tarde a gente dá uma olhada". "Ainda não temos. Pensem mais nisso durante a madrugada e amanhã de manhã a gente vê". "Sei que é chato, mas vamos precisar da força de todo mundo nesse feriado. É uma concorrência muito importante que se rolar, vamos poder contratar mais gente pra dasafogar vocês e dar uma ajeitada no salário da galera". Se você nunca ouviu frases assim, não conhece nenhum diretor de criação. Esses sujeitos estão para o Yoda assim como os redatores e diretores de arte estão para os jedis. O Yoda já foi um grande jedi um dia, acumulou grande poder e conhecimento, mas acabou por virar um monstrinho velhinho e recluso que se esconde em um pântano. Um dia um garoto ambicioso com potencial para virar o mais poderoso jedi vai encontrá-lo, receber seus ensinamentos e depois da morte do mestre Yoda, vai ter sua companhia como um espírito que opina e se intromete, até que o mesmo aconteça com ele.


Atendimento: "Cara, se a gente não fizer isso, vamos perder a conta!". "Varejão! Cores fortes, título chamativo, splash falando da novidade e bastante destaque no logo e site". "Devemos criar uma comunicação criativa, envolvente e impactante. Porém não temos verba e nem prazo.". Essas frases são típicas tanto na fala quantos textos do profissional de atendimento. Provavelmente em seus teclados, cada um dos F (F1, F2, etc) é o atalho com uma dessas frases. Possuir um sorriso maroto e ser mais escorregadio que um sapo besuntado de manteiga são pré-requisitos para ser um profissional de atendimento bem-sucedido. Normalmente não conseguiram entrar na área de criação e fazem de conta que são importantes na agência. Vivem em sites de conteúdo compartilhado falando mal do pessoal da criação. Classificam-se hierarquicamente como segue:

Estagiários: tiradores de xerox, digitadores, carregadores de pasta e aprendizes de técnicas de furtividade. Por um incrível fenômeno da economia brasileira, ganham 500 reais de salário mas dirigem um C3 0Km e têm uma renda mensal que ultrapassa os 3000 reais. E, por uma coincidência incrível, seus pais são clientes dos seus colegas de outro grupo de atendimento, que sentam a uns 4 metros pro lado.

Assistentes: basicamente fazem o trabalho dos executivos e gerentes de conta, mas ganham o mesmo que a babá dos mesmos.

Executivos: nesse ponto da carreira já são peritos nas disciplinas ninja de furtividade e das bombas de fumaça. O uso de outras pessoas como escudo humano e as zarabatanas com dardos envenenados já é prática comum.

Gerentes: a única diferença do gerente de conta para um executivo de conta é a espetacular coincidência de ele ser amigo pessoal do diretor de atendimento.

Diretor de conta: são como todo mestre ninja em filmes de ação dos anos 80. À primeira vista, são beberrões e bon vivants, mas no momento de perigo revelam-se grandes mestres do subterfúgio.

Diretor de atendimento: são o Kaiser Sose da propaganda. Alguns funcionários dizem que não passam de uma lenda. Outros dizem que são ninjas tão poderosos que ninguém os vê, ninguém os ouve, mas todos ficam sabendo de seus incríveis feitos.

Puta acéfala: São um tipo curioso de profissional de atendimento, pois são denominados como qualquer um dos cargos citados acima, porém possuem designações completamente diferentes. Suas atividades se resumem a sorrir, vestir decotes e roupas justas, abaixar para pegar coisas estrategicamente derrubadas em frente a clientes e permancer alcoolizadas em festinhas e happy hours que contam com a presença de clientes e membros da diretoria.


Mídia: o dia do mídia geralmente segue um padrão muito particular, independente do sujeito ser estagiário ou diretor de mídia. Eles chegam na agência 9:30, até as 10:45 olham os e-mails pessoais, os e-mails de sacanagem, as notícias, sites de fofoca, o horóscopo, o guia da tv a cabo e, por fim, os e-mails de trabalho. Aí é o momento aonde vão até a copa pegar um café e bater papo até umas 11:30.
Então começam a decidir aonde será o almoço, que só voltam depois das 14:30. Até as 15:30 é tempo mais do que suficiente para escovar os dentes, ir ao banheiro, conversar sobre como o almoço foi gostoso e olhar mais e-mails pessoais. Aí então é hora de pegar no batente. E dá-lhe números, tabelas e valores até as 17:00, quando param para aproveitar os doces, cestas, bolos, chocolates e diversos outros mimos que receberam dos veículos de mídia (canais de tv, revistas, empresas de mídia exterior, etc). Depois, até as 18:00, é hora de combinar com os amigos sobre o show do Eric Clapton, do qual ganharam de algum veículo vários convites para o camarote VIP. Como nessa hora os colegas de outros setores da agência ainda estão trabalhando, costumam ir acompanhados de outros mídias de outras agências.

Planejamento: esses indivíduos, que costumam se auto-intitular "planners", são de fato os verdadeiros gênios da propaganda. Não por suas realizações profissionais (que na verdade não são nada mais do que pura encheção de lingüiça), mas por terem convencido o mercado inteiro que, para realizar o seu trabalho fantasticamente genial, não podem ter sua brilhante mente perturbada por problemas mundanos como prazos e baixos salários. Ganham razoavelmente bem, chegam tarde, fazem 3 horas de almoço, vão embora cedo, entram em sites de qualquer besteira o dia inteiro com o argumento de estarem pesquisando as tendências do momento e, aos 40 minutos do segundo tempo, montam um power point recheado de expressões em inglês que não fazem muito sentido ( "out of the box", "apettite appeal", "brand development") e ensaiam uma apresentação para o cliente com explicações e defesas tão enroladas e absurdas que o mesmo, com vergonha de fazer papel de estúpido, classifica como genial e os aplaude de pé.

Estúdio, RTV, Produção Gráfica e Tráfego: o dia a dia dessas áreas da agência fariam o Jack Bauer sentar num canto e chorar. Ganham miseravelmente mal, trabalham em condições desumanas e lidam diariamente com todo o tipo de explosivos, animais venenosos, ataques terroristas e invasões de extraterrestres, geralmente encaminhados a eles pelo pessoal do atendimento. E, para piorar, enquanto tentam matar um tiranossauro com um canivete, ainda precisam aturar o pessoal da criação criticando a cor desbotada do cabo do canivete e insistindo na maneira conceitualmente correta de se desviar de uma abocanhada do gigantesco animal.

Presidência e Vice-presidência: autênticos deuses do Olimpo. Ficam lá em cima se divertindo às custas dos pobres mortais, inventando desastres naturais, guerras e maldições. Só descem ao mundo dos mortais para possuir as mais belas donzelas ou deixar seus nomes marcados nas grandes batalhas, nas quais não podem se ferir".

Fonte desconhecida, mas divertida

terça-feira, outubro 28, 2008

Zombie Walk 2008

Zombie Walk 2008


É neste domingo! Preparem a anilina e dentes postiços!

Pensando sobre o Vazio

Deitado na cama hoje de manhã, tentando criar coragem para mais um dia maçante de publicidade, ouvi a notícia de que o segundo andar da Bienal havia sido pixado na noite de domingo, dia da abertura. A minha primeira reação, como a de muita gente, foi de revolta, raiva mesmo. Mas por volta da hora em que eu entrava no banho, comecei a ser tomado de outros sentimentos. Quanto mais pensava no assunto, mais me parecia que a revolta frente a esse ato era uma demonstração de puritanismo. Eu, que defendia as ações de Eric Haris e Dylan Klebold como uma forma de expressão desesperada, me opor a este tipo de manifestação?



Deixemos claro algumas coisas.

Eu já mencionei por aqui que ainda tenho lá meus conservadorismos que dificultam que eu aceite o pixo como forma de arte. Já foi difícil aceitar o grafite, e este apenas quando passou para o âmbito das galerias (mesmo ciente de que isso o invalidava como street art). Eu não consideraria um pixador específico um artista, nem um grupo de pixadores um coletivo. Mas preciso admitir que as ações deste grupo enorme e organizado de pixadores estão perigando por áreas que chamam a atenção de interessados em arte. Não se trata mais de moleques deixando uns poucos rabiscos estilizados em lugares aparentemente impossíveis. Não se trata daquela atitude primitiva de marcar território. Eles estão questionando. E questionando com razão e ideologia. Questionam a apropriação da estética de rua por artistas que a usam para se promoverem como alternativos dentro de instituições d’O Sistema. Questionam a apropriação dos termos “espaço e patrimônio público” por instituições que, na primeira oportunidade, vetam, proíbem e negam.

É temerário e inconseqüente dizer isso, mas essa entidade que é esse grupo de pixadores está ganhando aos poucos o meu interesse assim como o Picasso fez na época da faculdade: o conceito geral é muito instigante, embora o visual do produto final seja horrendo.



Isto posto, vamos ao ocorrido.

No domingo, dia da abertura da Bienal, um grupo de 40 pixadores (o número é basicamente sempre o mesmo...) compareceu à Bienal, inicialmente para “avaliar o terreno”. Mais tarde, entraram com as latas de tinta e começaram a intervenção no segundo andar, que permanecia vazio por decisão dos curadores. Houve choque com os seguranças e os pixadores fugiram, deixando para trás apenas uma integrante do grupo, denominada Carol, de 23 anos, que foi levada ao 36º DP da rua Tutóia.

O segundo andar da Bienal foi uma proposta esquisita desde o começo. Do ponto de vista mais mercadológico, deixar um andar vazio diminuía o espaço ocupado por arte e o número de participações possíveis, a menos que todo mundo fizesse trabalhos bem pequenos (uma impossibilidade em tempos tão megalomaníacos...). Do ponto de vista crítico, como citado por um dos que comentaram a notícia no link acima, essa proposta só fazia mostrar o “esvaziamento da importância desse tipo de mostra”. Do ponto de vista teórico, o espaço vazio devia “provocar uma reflexão a respeito do espaço”.

Sobre este último, cada pessoa tem direito à sua própria reflexão. Há quem considere Balthus um pedófilo e quem veja valor em suas pinturas. Há quem entre no segundo andar da Bienal para pensar sobre arquitetura e quem entre para pensar sobre o conceito abstrato do vazio. Há quem receba esse estímulo de forma passiva, e quem resolva agir sobre ele (como no caso dos referidos pixadores...). Ou seja, cada um reage a essa proposta do seu jeito. Se a proposta era uma reflexão sobre o espaço, achei fantástico que alguém tentasse ocupá-lo, primeira idéia que vem à cabeça em épocas de superpopulação. E mais: depois de se ver tanta proposta de arte dita “interativa” por aí, acho um retrocesso condenar uma intervenção que agrega tanto à idéia inicial.

A reação dos curadores também é algo a ser comentado. Depois do alarde feito em torno da Choque Cultural e do precedente trabalho de graduação do Rafael Augustaitiz (Rafael Pixobomb), achei que a galera tivesse entendido que todo esse barulho na mídia só fortalece a rebeldia dessa turma. De certa forma, eles são como ereção fora de hora: quanto mais você mexer e pensar nesse inconveniente, pior fica.

quinta-feira, outubro 23, 2008

Há alguns dias que a turma da publicidade vem discutindo a discussão (pleonasmo, eu sei...) que rolou entre os titãs do meio, Nizan Guanaes e Fábio Fernandes, no evento Maximídia. Achei ao menos relevante deixar por aqui uma opinião a respeito, já que pelo menos por enquanto continuo publicitário...

Entendo o lado do Nizan (o que não significa, conforme explico a seguir, que concorde com ele). Ele atualmente comanda um grupo de empresas de propaganda que cuida de clientes altamente influentes, com investimentos em publicidade da ordem de milhões. Perder um só desses clientes não é uma coisa leve. São empresas cujos gerentes normalmente são homens de negócios, pessoas de números, de fatos, pouco ou nada criativas e relativamente conservadoras. Pessoas que em tempos de crise tentarão agir de forma cautelosa e ainda menos criativa. O discurso dele não é para os ouvidos da platéia do Maximídia e sim para os ouvidos de possíveis clientes que estejam prestando alguma atenção. Ele quer parecer seguro.
Mais do que isso, seu discurso tem uma alarmante semelhança com a ideologia republicana norte-americana do controle pelo medo. Diga que a situação está ruim, mais ruim do que parece. Afirme e ameace que ela vai ficar pior. Logo em seguida, ofereça-se como o salvador, o porto seguro. Votem em mim e às favas com a opinião pública.
Nizan não liga para a opinião do Fábio. Não liga para a opinião das centenas de micro-agências de publicidade que estão hoje execrando seu nome e o de suas empresas. Não tem por que ligar. Ele liga para a opinião de seus investidores. E está agindo de acordo.
Eu entendo o lado dele, mas realmente não dá pra levar a sério tanta teatralidade.

Porém também piso em ovos ao dizer que concordo plenamente com o Fábio. Porque do lado dele, o discurso parece ter aquele som de "o amor (ou a criatividade, nesse caso) conquista tudo, move montanhas, vence obstáculos". Embora seja um discurso muito mais acreditável no meio publicitário, tem ares de inconsequência romântica, como um bom bordão publicitário que te diz "beba a minha marca de refrigerante e seja hype". Parece daquele tipo de coisa que somos ensinados a gostar, daquele tipo de valor que estamos anestesiados demais para questionar. Porque ele é rosa e bonitinho e confortável.
Acho estranho um profissional, dono de uma agência/empresa ($$) ir para um painel denominado "Indústria da Comunicação - Oportunidades e Riscos" e só falar esses tipos de "slogans da publicidade para publicitários" em vez de realmente falar de indústria, de oportunidades e riscos, de coisas palpáveis.

Ou seja, é difícil escolher lados em conversa de publicitário. Pessoalmente, não estou nem com um e nem com o outro.

sábado, outubro 18, 2008

2000e8 ao vivo

A palestra mais recente do grupo 2000e8 aconteceu na sexta, na Escola São Paulo. Desta vez com Regina Parra e Bruno Dunley, moderada por Marcos Brias (outro membro do 2000e8) devido à ausênca de última hora do moderador oficial.

A dupla seguia a tendência dessas palestras de juntar dois integrantes do grupo com pesquisas visuais bem diferentes.

Dunley foi o primeiro a expor seus trabalhos [1][2], que de cara me lembraram a neutralidade de cores das naturezas-mortas do Giorgio Morandi, que ele logo citou como uma de suas referências. E me pareceu mais que coincidência ver entre a platéia o Paulo Pasta: havia um diálogo entre as pinturas de ambos, na materialização descompromissada de vastas áreas de cor aplicada em camadas grossas de tinta, pinceladas bem visíveis. Um tibuto à cor e uma fome por sua corporificação.
Mais adiante, Dunley apresentou séries que saíam do abstrato e adentravam a pintura figurativa, ilustrando paredes, pisos de azulejo e outras partes de interiores. Alguém (acredito que tenha sido Rodolpho Parigi) comentou que a procura de Dunley parecia girar em torno de ambientes caseiros. O comentário pareceu atingi-lo com o valor de uma revelação, de algo que ele de fato não tinha percebido, mas que era uma verdade incontestável.
Nas últimas séries mostradas, ele aplicava uma linha grossa de tinta pura, sem pincelada, diretamente acima da tela. O intuito era devolver a materialidade à pintura que, enveredando para a ilustração, tinha perdido um pouco da densidade dos abstratos. Me lembrou do meu retrato de Taís, onde eu tinha colado o pedaço de tela e pintado por cima para incluir um elemento que lhe desse uma relevância tridimensional, e não apenas plana. Esse elemento final de Dunley era como a assinatura, o fechamento, a "nota fiscal" da pintura acabada, como ele chegou a comentar.

Me identifiquei mais com os trabalhos de Regina Parra. Não tanto por serem pinturas figurativas [1][2], mas por um interesse em assuntos perversos que, em seu trabalho, tinham bastante a ver com identidade e identificação. Eu já tinha visto sua série chamada Devir, de retratos de crianças que cresceriam para se tornarem assassinos. Mas ela apresentou ontem sua série mais recente, de pinturas baseadas em imagens de câmeras de vigilância. Parecendo inicialmente banais, as pinturas ganhavam enorme poder e terror depois de alguns segundos, quando se percebia de onde vinham suas referências: aquele casal com a garotinha no carro de supemercado era a família Nardoni; aquele avião na pista era o fatídico vôo da TAM que saiu da pista de Congonhas; e a que mais levantou controvérsia na noite, de um frame de um interrogatório na prisão de Guantanamo. Todas imagens que teríam sido apagadas para dar lugar a outras de igual efemeridade, mas que são valorizadas ao serem materializadas em pintura. Mais do que isso, Parra coloca uma questão digna de nota: toda essa vigilância parece irrelevante ao percebermos que ela não previne os atos horrendos que acontecem a seguir. Um olhar inútil, obsoleto, ineficaz.
Parra faz uma escolha hábil com os títulos de sua pinturas, evitando a obviedade de chamar a pintura do casal de "Nardoni" ou a do interrogatório de "Guantánamo". Ela quer sim chamar atenção para o poder destas imagens, mas sem cair no ato kitsch de fazer um julgamento socio-político, de fazer mais barulho em cima de assuntos que já foram suficientemente alardeados.
Devo ainda comentar aqui que, ao escolher as imagens de baixa resolução das câmeras de vigilância como referência, Parra lembra bastante das pinturas de mortos do Gerhard Richter[1]. Não apenas pela escolha do assunto mórbido, mas pela qualidade de imagem desfocada e de cores lavadas que as câmeras antigas e de arquivos policiais tinham. Um visual que, mesmo na pintura, lembra um monitor de TV e transforma o que seria uma ineficiência (de resolução) em uma qualidade estética. Processo parecido ao que Richter fazia quando pintou o oficial alemão ou seu famoso nu descendo as escadas.

quinta-feira, outubro 16, 2008

Adendos à lista de webcomics

Incluí três webcomics na minha lista crescente neste blog.
Não lembro muito bem como foi que de de cara com o Abominable Charles Christopher de Karl Kerschl. Com uma versão traduzida para o português, a tirinha conta a história de um pé-grande vivendo em uma floresta prestes a ser desmatada pelo Homem. O personagem principal em si é mudo, de uma doçura e ingenuidade comoventes. No entanto os animais falam. E muito. Acho que o que de fato me conquistou foi a tirinha dos gambás publicitários, mas aconselho a começar do começo.

Através do Abominável, descobri a delícia estética que é Kukuburi, de Ramón Perez. Infelizmente não há tradução disponível, mas vale pelos gráficos e pelo modo como ele conta a história, que gira em torno de uma garota que acidentalmente atravessa um portal para um outro mundo muito louco, onde tem início uma disputa entre o bem e o mal por esta visitante que parece ter poderes importantíssimos nesse novo mundo.

Finalmente, através de um link no VG Cats, cheguei em MS Paint Adventures. O nome sugere que a tirinha é criada inteiramente no MS Paint, programa antiquíssimo de imagem da Microsoft. Mas o próprio autor (simplesmente chamado de Andrew) confessa que, embora esse tenha sido o intuito, ele preferiu mudar para o Photoshop porque, bom, "Paint blows" (Paint é um saco). Mas manteve o visual sem anti-aliasing e bem tosco. A história desse webcomic simula os antigos RPGs de computador, com a cena acontecendo na tela e uma linha de texto onde era possível digitar o comando para o personagem. Começa com o "jogador" na pele de um detetive cheio de auto-confiança e sem noção do ridículo, que precisa apenas sair de sua sala (alguém aí jogou Crimson Room, Viridian Room ou White Chamber, da FASCO-CS?). A cada atualização, o autor recolhe as sugestões dos visitantes para a próxima ação do personagem. Os resultados são imprevisíveis e completamente hilários.
MS Paint chama a atenção pelos detalhes que só quem jogou esses jogos (e outros) lembra. A arma logo na primeira cena que, devido a um "bug" do sistema, às vezes reveza seu lugar com uma chave; as janelas falsas que dão para outras dimensões; os menus cheios de ítens sem sentido a serem coletados ao longo da aventura; os poderes de ataque dos personagens, que ficam cada vez mais complexos à medida que eles avançam de nível. O autor usa dessas coisas para criar um universo de regras muito próprias. Por exemplo, em determinado momento do começo, alguém sugeriu que o personagem pegasse as coisas de sua sala e montasse um forte. Sob o efeito do alcool, o personagem entrou na edificação e foi transportado para uma realidade alternativa, um sonho coletivo com outros personagens. A ação foi repetida inúmeras vezes para resolver os mais diversos problemas.
Em alguns momentos, principalmente depois de tanto tempo avançando, as várias pontas soltas dessa história non-sense transformam tudo em um novelo muito complexo e incompreensível. Mas o humor prevalece e o autor resolve esses impasses com muita criatividade e referências de games.

segunda-feira, outubro 06, 2008

I had read it before somewhere...

Trechos do livro Galapagos de Kurt Vonnegut. Para você, que como eu, não entende chongas de economia e ainda tem a pretensão de entender a crise econômica atual.

"México e Chile e Brazil e Argentina estavam igualmente falidos - e a Indonésia e as Filipinas e o Paquistão e a Índia e a Tailândia e a Itália e a Irlanda e a Bélgica e a Turquia. Nações inteiras estavam repentinamente na mesma situação que o San Mateo, incapazes de comprar com seu dinheiro de papel e moedas, ou suas promessas de pagar mais tarde, mesmo as coisas mais essenciais. Pessoas com qualquer mantimento para vender, compatriotas e estrangeiros, estavam se recusando a trocar seus bens por dinheiro. Eles estava de repente dizendo para pessoas com nada além de representações de riqueza em papel, "Acordem, seus idiotas! O que fez vocês pensarem que papel era tão valioso?

Ainda havia bastante comida e combustível e tal para todos os humanos no planetas, mesmo sendo tão numerosos, mas milhões e milhões deles estava começando a morrer de fome. Os mais saudáveis deles poderiam durar sem comida apenas por volta de quarenta dias, e então a morte chegaria.
E essa fome era tão puramente o produto de cérebros enormes quanto era a Nona Sinfonia de Beethoven.
Estava tudo na cabeça das pessoas. Elas tinham simplesmente mudado sua opinião sobre a riqueza de papel[...]."

Eu sei, a crise é mais complexa do que isso. Mas a visão simplista aplicada à história de Vonnegut realmente faz pensar. No fim das contas estamoss todos aqui discutindo que papel vale mais do que os outros, quando tudo não passa realmente de papel.