quinta-feira, março 29, 2007

My tuesday medication...

Estranho estar dentre tantas pessoas que vestem coisas esquisitas como eu e me sentir o mais normal deles. O público que foi ao show do Placebo na terça era de pessoas que pareciam emanar um mesmo tipo de estranheza que eu pareço causar em muita gente. Um povo que não se define por sexo nem por moda, que usa de tudo um pouco e aceita meninos e meninas. Na múltidão, ao meu lado, um rapaz tinha o rosto inconfundível de homem além dos 20, mas a textura e cor daquela pele pareciam seda. Coisa que mulher sabe fazer, mas raros são os homens que têm essa meticulosidade. Do outro lado, uma menina empurrava os outros, brigando para passar o show do lado "da sua mina". Eu assistia com olhos contornados de preto. Nos meus braços, Lexy debruçava-se na grade diante do palco, sabendo das artimanhas para chegar lá na frente.

E então o show começou. O primeiro a entrar foi o baterista Steve Hewitt, bloqueado de vista por uma das caixas de som. Em seguida, o longilíneo baixista Stefan Olsdal, vestindo botas agressivas e uma coleção de baixos estilosos. Por último, a presença perturbadora e deliciosa de Brian Molko: muito mais baixo do que eu antecipava, mas com um rosto reconhecível a milhas de distância "and a voice that made me cry" [not really]. Impressionei-me com o quão normal estavam vestidos. Hewitt parecia ter vestido a primeira coisa do armário, não muito diferente do que usaria em um ensaio em casa. Molko de camiseta listada e calça jeans, aparentemente tendo deixado o visual um pouco de lado para se concentrar na música.

O resto foi mais sentimento e menos memória. Eles esqueceram de Blind e Post Blue, que eu queria muito ouvir, mas compensaram com Bitter End, a favorita de Lexy. E quando ele resolveu não fazer a verborragia no fim da música, desafiei-a: "quero ver se você sabe o fim". Ela negou com a cabeça e sorriu quando ouviu-me tomar o lugar de Molko:

Everytime we're intercepted
Feels love like suicide
Slow and sad, come in silence
Arise a bitter mine
I love to see you run around
And I can see you now
Full of bees, arms wide out
Come on and reach inside
Grab the gentleness inside
Heard a cry
Six months time
In six months time
Prepare the end



Mais para frente, sussurrei a minha segunda voz quando ele cantou One of a Kind: coisa que inventei preso no trânsito um dia. Pulamos com Drag, Infra Red e muitas outras coisas boas. Teve até minha favorita de sempre, Special Needs: música para sexo.

Fim do show. Lexy ficava por lá, na esperança de pegar algum souvenir que os roadies jogavam do palco: set lists, baquetas, coisas do gênero. Já quase desesperançosa e desesperada. E então um rapaz olhou direto para ela e jogou algo no ar. Contra o escuro do palco, não vi o que era. Voou por cima dela e vi de repente que era uma palheta. Estendi a mão com toda a calma, mas antes dela chegar, dividiu-se em três outras, acertando meus dedos e espalhando por aí. Uma delas ficou na minha mão e dei para ela. Achei outra no chão.

Felizes, voltamos ao estacionamento. Meu carro sozinho, os vidros embaçados pelo sereno. E eu com uma vontade louca de escrever letras de música com a mesma dor, ainda que em uma época feliz. E maior vontade ainda de subir no palco pela segunda vez e comandar o universo com um gesto de voz.

quinta-feira, março 22, 2007

O nome é Lexy

"Quando conto para minhas amigas que você fez almoço para mim no fim de semana, elas suspiram. Me sinto a pessoa mais sortuda do mundo".

Lexy é como eu a chamo. Vim a perceber que ainda não havia escrito isso por aqui, pra manter o suspense a respeito dela.
Lexy tem dezoito anos apenas. A constatação traz muito coisa à cabeça. Porque um relacionamento com uma garota de dezoito me coloca em uma posição privilegiada de ser mais velho, mais maduro, mais vivido. Eu, que sempre me senti ínfimo, inferior, ingênuo ao comparar-me com garotas da minha idade, me sinto bem ao lado dela. Um bem-estar quase paternal de pertencer a uma geração mais velha que a dela (comentávamos que eu vivi os anos 80, enquanto ela apenas ouviu falar...).
Mas no fim das contas, a diferença de sete anos entre nós me causa sensações ambivalentes. Por um lado, sinto que é como trapacear no jogo, porque eu não sou de fato mais maduro ou melhor do que ela: sou apenas cronologicamente mais velho. It's like having a head start. Sabe-se lá como ela será aos 25 (e o que eu terei vivido para manter essa vantagem bizarra...).
Por outro lado, vivo o sonho delicioso e proibido da ninfeta. Que ela mesma mencionou estes dias que parece como algo de um livro de Melissa Pennerello (e eu só pude olhar pra ela incrédulo ao descobrir que ela também tinha um gosto por esse tipo de literatura). O tipo de coisa que os mais conservadores censuram, os pais desaprovam, mas no fim todo homem quer viver.

Num dos nossos almoços, Lexy fez algum comentário e escolheu alguma palavra específica, algum tom de voz exato. E naquele instante me dei conta de que ela tinha os mesmos vícios de fala que Bia. A meninice de Taís, os tons e suavidade de Genka, o despudor de Lee e tantos outros detalhes lascivos de tanta gente. Acho que não vou cansar de anotar por aqui as instâncias nas quais ela vai me lembrar algum detalhe ínfimo e adorável de cada pessoa da qual gostei por entre a personalidade dela mesma. Encontrei uma pessoa que é maravilhosa por ser a amálgama de todas as pessoas que amei e ainda com uma personalidade própria.
"Ai, Leão, você fica tentando reviver os amores passados através dela! Isso é doente". Vai sempre ter gente criticando meu amor pelo meu passado. Não estou revivendo meu passado através dela. Trata-se de usar essas semelhanças para esquecer o passado: gradualmente, estes serão traços dela, não dos ex-amores.
Enfim, o relacionamento é meu, não devo justificativas.

Eu me sinto a pessoa mais sortuda do mundo.
As opiniões alheias podem ir à merda.
[porque aquela coisa de "ir às favas" já não pertence mais a este blog...]

quarta-feira, março 21, 2007

Bonito ver como transformo fraquezas em especialidades.

Quando comecei a desenhar, tive a mesma dificuldade que todo mundo: mãos, pés e rostos. Em grande parte porque são detalhes tão mutáveis e expressivos, que não há regra ou medida para fazer. A proporção se aprende no olho e no instinto. E pratiquei, pratiquei, pratiquei... Anos depois, eu era perito justamente nesses detalhes. Desenhar o resto do corpo veio com o tempo e foi fácil. Mas percebi que eu tinha deixado de praticar coisas importantes que não tinham nada a ver com esses detalhes: os cenários dos meus persoangens, as roupas, esses outros pormenores que as pessoas aprendem a desenhar primeiro. Ainda não levo muito jeito pra essas coisas, mas já ando tendo idéias de arquitetura e minha Alice ganhou vestido novo. Prática, prática, prática...

Detestava tipografia. Podia escrever textos fantásticos e diagramar peças de publicidade decente. Mas na hora de escolher que tipo de letra eu usaria, eu era completamente analfabeto... Daí observei, experimentei, procurei coisas novas. Hoje não me considero perito, mas pelo menos evito as serifadas, as "a"s redondos e sem definição de uma Century Gothic, e prefiro sempre uma Helvetica a uma Arial, por saber dos erros de design de uma tipologia pirateada. Minha caligrafia, fora dos computadores, tem aquele "g" esquisito de uma Times por simples capricho.

Agora me pergunto quanto tempo ainda vai levar pra suprir a minha falta de bom senso com design...

Highlights da monografia (parte 3)

Continuando a história do aspecto técnico, desta vez falando sobre cópia e o kitsch.

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São as obras de espaço que trazem a segunda questão a ser mencionada ao se tratar do aspecto técnico: a cópia. Segundo Trevisan (e de acordo com o senso comum), obras espaciais não podem ser copiadas. A antropóloga americana Margaret Mead escreve que “a obra de arte deve garantir uma sensação de frescura”, no que a cópia, quando descoberta, perde para o original ao ser considerada uma mímica de algo que já foi feito antes.
Não se trata de fato de uma perda de valor econômico. Até porque a existência de uma cópia pode chegar a aumentar o valor de seu original no mercado. Trata-se de uma perda de valor artístico. Explico: a obra de arte tem um impacto inicial no observador. Esse impacto é concentrado inteiramente naquela única obra, e o observador terá que procurá-la para receber esse impacto. Feita uma cópia, o impacto daquela idéia passa a ser dividido entre original e cópia, e o observador passa a ter mais oportunidades de ser exposto à mesma obra, ao mesmo impacto. Quanto mais exposto a esse impacto, mas rapidamente o observador chegará a uma saciedade, um anestesiamento diante da idéia. Analogamente, quanto menor a exposição à obra, mais impactante cada um desses eventos será. Trevisan escreve: “é preferível contemplar-se um objeto artístico durante seis segundos dez vezes, com intervalos, do que durante um minuto, sem interrupção”.
Um dos efeitos da cópia é essa espécie de “deflação” do valor artístico de seu original. Gravadores geralmente imprimem um número fixo de exemplares de suas gravuras, todos numerados. Tendo a matriz, o gravador poderia imprimir um número quase infinito de exemplares, porém tem a noção de que não só o valor econômico de cada uma delas diminuiria, como também seu valor artístico. Aliás, no caso específico de gravuras e outras obras geradas por matrizes, surge o dilema: quanto mais exemplares forem impressos, maior será o poder de disseminação dessa obra específica e da idéia que ela comunica; porém menor será o preço e o valor artístico de cada uma delas.
No caso de gravuras, estamos falando de cópias feitas pelo próprio artista, o que poderia ser defendido como uma outra obra. E mesmo pinturas gêmeas feitas pelo mesmo pintor são consideradas mais dignas do a cópia mais fiel de um copista. Qual é a diferença então entre a cópia produzida pelo próprio artista e a cópia de um copista? De modo geral, a cópia feita por outro é vista como uma idéia não-espontânea, um mero exercício técnico, já que seu executor não precisou pensar na composição, na escolha deste material em detrimento daquele, na abordagem do tema. No mais, existe uma espécie de fetichismo relativo ao material original, que passou pelas mãos do artista e foi simbolicamente “abençoado” por ele: caso no qual a cópia ganha ares de heresia.

Mas voltemos à deflação do valor artístico.
Uma das imagens que tornou-se símbolo de Arte no século XX foi a Mona Lisa de Leonardo Da Vinci. Mesmo antes da chegada da internet e da disseminação de imagens digitais, a obra já constava entre as mais conhecidas do mundo. E não era raro encontrar atrelada a ela a expressão “o sorriso enigmático da Mona Lisa” ou os mistérios relativos a quem era a personagem retratada. Pessoalmente, eu não conseguia entender qual era o enigma por trás daquele sorriso, que parecia tão igual a outros sorrisos de outros retratos feitos por outros artistas. A proveniência da personagem era outra coisa que despertava em mim tanta curiosidade quanto qualquer outro retrato. Qual era a importância deste? Perguntando a outras pessoas sobre o tal sorriso enigmático, percebia que muitas delas também empregavam o termo apenas por ouvi-lo de outras pessoas aparentemente mais entendidas de Arte. E assim, a lenda do sorriso enigmático ia se propagando mais por rumor do que por experiência pessoal dos observadores.
O caso da Mona Lisa é o caso mais claro do kitsch na Arte. Trata-se de um fenômeno onde a obra é tão difundida, copiada e compreendida, que perde seu impacto. Um observador que a vê já sabe tudo a seu respeito antes mesmo de lançar um olhar no quadro original. Já sabe suas histórias, seus pontos fortes e fracos, seus mitos (incluindo o do sorriso enigmático), e toda sorte de informação a respeito. Muitas vezes até já viu a imagem da obra. O que resta então do impacto que ele receberia ao ver a obra? Apenas a vaidade de se estar vendo o quadro original, abençoado pelas mãos do artista. Mas a idéia transmitida por ele já foi recebida, processada e assimilada muito antes.
Ou seja, de forma simples, uma obra de arte que se tornou um ícone kitsch já não requer de seu observador que faça o esforço de pensar sobre ela. Outros já pensaram e estão oferecendo a informação processada a ele. É uma experiência estética vazia.

terça-feira, março 20, 2007

Alice 27




"Alice felt more confident in her new party dress"
"Alice sentia-se mais confiante com seu novo vestido de festa"


P.S.: Depois de um longo e tenebroso inverno, ela está de volta em fase nova.

sexta-feira, março 16, 2007

Never figured you for a Hollow person...

"Vai, coloca aquela música legal" ela disse, dando dois toques no espaço vazio onde encaixava-se a frente do meu rádio do carro.
Pausei por alguns segundos. Não acreditei.

Horas antes, tínhamos entrado no meu carro e, já um pouco saturados do Meds do Placebo tocando pela vigésima vez, tínhamos decidido ouvir outra coisa. Ela avaliou a pequena coleção que levo no carro e encontrou apenas coisas que desconhecia, de um gosto musical estranho e uma geração anterior à dela. Bowie, Tears for Fears, meu irmão tocando MPB.
Quando ela leu em voz alta o título do meu CD de Dark Lounge, tensionei um pouco. Coisas que só eu gostava e outras pessoas aceitavam por educação quando viajavam comigo.
Ela continuava atravessando minha coleção quando chegou no Johhny Hollow. "Rock progressivo para góticos" eu expliquei. Ela colocou o CD. Olhei para frente, dirigi o carro, fingi ignorar minha tensão enquanto ela escutava a entrada de Bag of Snow e continuava a conversar sobre qualquer coisa.
E de repente, no meio de Halfway to God: "Cara, meu computador tá cheio de músicas assim! Você tem que me passar esse CD."

Johhny Hollow? Alguém além de mim era capaz de apreciar Johhny Hollow? "Meu, tem gente que não gosta disso?" ela perguntava surpresa.

Música sempre foi o assunto complicado nos meus relacionamentos. Não sei dizer exatamente por que é que me importo tanto com isso, mas toda vez que uma garota torcia o nariz para minhas músicas, seu conceito caía um pouco e a minha auto-estima ia junto. Um índice de beleza pouco convencional, eu sei, mas que eu não conseguia ignorar.
Parando o carro ao som de Skeleton Song, ela me puxava para o banco do passageiro e eu nunca pensei que o violino gentil dessa música pudesse inspirar alguém mais além de mim para carinhos.

Sou um pseudo-gótico feliz e completo. Pela primeira vez.

quinta-feira, março 15, 2007

Highlights da monografia (parte 2)

Eu sei, demorou. Mas voltei a escrever ativamente a monografia e ainda tenho esperanças de conseguir terminar neste semestre.

Só pra situar meus leitores: depois da parte 1, eu enveredei por um livro do Armindo Trevisan chamado Como Apreciar Arte. Foi um verdadeiro achado, porque ele pegava a minha teoria inicial de três ítens que definiam o que é Arte e complementava com outros. Ao fim do livro, eu estava com cinco ítens e já contestando um deles. Ou seja, quatro aproveitáveis e muita discussão para a banca.
Estes ítens eram:
• O aspecto psico-biográfico do autor
• O aspecto técnico
• O aspecto sociológico
• O aspecto estético
• O aspecto simbólico ou iconográfico (ítem que o próprio Trevisan já começa a contestar porque depois da arte abstrata, ele não vale mais...)

Chega de considerações. Vamos ao aspecto técnico, porque o psico-biográfico eu ainda estou terminando de redigir.

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O segundo aspecto mencionado por Trevisan, o técnico, é tão axiomático quanto o primeiro. Assim como não se tem uma obra de arte sem um autor, não se tem uma obra de arte sem um conhecimento técnico. Ou melhor, toda obra precisa de uma manifestação concreta: não há obra de arte que seja pura idéia sem matéria. Mesmo a literatura precisa do domínio técnico da palavra, do sistema de símbolos de um alfabeto, de um meio de visualização. Mesmo a performance requer a presença física do artista ou de algo acontecendo, ocupando espaço e durando um certo tempo.
O século XX trouxe algumas tentativas de questionar a afirmação através de arte conceitual como no caso do Carvalho, de Michael Craig-Martin . A obra simples consistia de um copo d’água e muito exercício de propaganda, pois o artista afirmava ter transformado um carvalho em um copo. Em exposições, o copo era apresentado com uma longa entrevista transcrita ao lado [1] [2], onde um repórter perplexo tentava entender o conceito da obra e Craig-Martin respondia com réplicas indiretas, nunca explicando a piada. Embora a obra fosse predominantemente conceitual, ela ainda dependia de objetos simples e de técnicas de propaganda para existir.

O termo “dominar uma técnica” remete a anos de estudo, a uma rigidez conservadora. No entanto, pode-se dizer mesmo de uma pessoa que nunca tenha estudado desenho, que ao pegar um lápis e tentar desenhar algo em um papel, ela está aplicando uma técnica. Seu domínio sobre ela pode não ser completo, mas é o suficiente para que ela execute um desenho simples. Pode-se dizer o mesmo até de artistas que criam meios e técnicas novas para produzir uma obra: ainda que nova, uma técnica precisa de um mínimo de domínio para resultar em uma obra.

O aspecto técnico levanta algumas questões dignas de serem mencionadas.
A primeira delas é a distinção que Trevisan faz entre “obras de tempo e obras de epaço”. Diz o autor: “as primeiras não possuem existência física permanente, podendo e devendo ser reproduzidas. [...] Cada execução constitui um original que se perde, a despeito da possibilidade de ser gravado. A aura específica da ocasião, com a presença concreta da orquestra, dos cantores, dos ouvintes, dos múltiplos incidentes que acompanham a execução, etc. desaparece”. Ou seja, seria irrelevante taxar de fraude a cópia de uma partitura musical. A importância da música não está no papel no qual foi anotada, mas na sua execução. No modo como ocupa o tempo. O resto é irrelevante no que tange a questão de autenticidade: uma partitura pode ser copiada para servir a toda uma orquestra e uma edição de um texto publicada por esta ou aquela editora continua sendo a mesma obra de arte. As artes de espaço, por outro lado, têm sua importância relacionada ao plano físico, material. Ao modo como ocupam o espaço. O resto é também irrelevante: uma pintura não acontece em um tempo definido e limitado e uma escultura pode durar milênios sendo a mesma obra.
Assim que, de forma simples, configuram-se como obras de tempo tais Artes como a música, o teatro e a literatura e possuem um caráter muito mais conceitual ao passo que obras de espaço incluem a pintura, escultura e fotografia, sendo geralmente muito mais visuais.
O autor em questão deixa escapar um ponto muito atual: artes virtuais. Tomemos como exemplo uma ilustração criada em um software de manipulação de imagem. Ela é uma imagem estática, eminentemente visual e supostamente independente do tempo. É uma arte de espaço, certo? Mas qual é exatamente o espaço que ela ocupa, o material do qual é feita? Os pixels e a memória do computador que geram a imagem na tela estão em constante mutação. E aliás, um arquivo de computador pode ser infinitamente duplicado, a exemplo de qualquer imagem divulgada pela internet. Então como é possível garantir ou até mesmo supor que exista uma autenticidade para esta imagem? Sem a possibilidade ou até a relevância de julgar a autenticidade pelo material que constitui a obra, a única suposta autenticidade estaria em seu conceito e composição, que é também a única autenticidade considerável em obras de tempo. Assim, as artes virtuais aludem a características de ambos os lados, sem no entanto pertencerem completamente a nenhum deles.

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Cansaram? Muita chatice acadêmica? Vou deixar vocês digerindo enquanto escrevo as...

CENAS DO PRÓXIMO CAPÍTULO:
• A questão da cópia
• O kitsch

terça-feira, março 13, 2007

About her

I knew I had seen that face somewhere.
What I didn't know was that the initial similarity related to a completely unpredictable person. And it would bring other similarities with it. She resembled Malú, a very good friend of Taís from the days of our first affair. But I never nurtured any feelings for Malú except for our common passion for writting. And really, the similarity lingered in little details and random expressions in her face. It behaved like some colored lighting effect that would vanish when she tilted her head into the shadow. It was there, and then upon her next smile it was gone. Hence, no one would agree that it even existed because it wasn`t there all the time, as is the case with most of my comparisons.

And then there were other things. The way the corner of her lips curved like my cousin Flávia's. A palette of colors that wasn't exactly the same as Taís, but more like Genka's. Darker tones of the same hue. That misteriously soft skin like Bia`s. A language of her own that wasn`t as complex as Russian, but still gave me the delight of learning and using.
I spent the days with the strange feeling of listening to one of those "best hits" CDs, with the best songs from different phases of a band. She was all the best traits of many people I had known and many people I had loved.

How boring it would be if she was just a rerun of past relationships and friends. Alas, she did have her own set of peculiarities. One slightly slanted tooth made her too embarassed to smile, but I delighted in prying that secret smile out of her. She had a secret voice as well, with which she`d seduce me with promises of things to come.
All the rest were wonderfully strange paradoxes to match my own. That mix of childish innocence and adult superiority, those tiny girly hands with long enamelled fingernails. A busy lovelife where none of them had ever cooked for her on a weekend afternoon. That same gothy depressed undertone like the one I sometimes use and fear I may be turning emo...

segunda-feira, março 12, 2007

É engraçado como essas coisas acontecem...
[Vide último parágrafo: "Na minha obssessão por padrões..."]
[Piadinha interna]

quinta-feira, março 08, 2007

Tecendo um lado do Laço e desfiando o outro...

No trabalho, o stress amontoa com a saída da Loo e a pilha de trabalho dos quais eu e Cíntia não estamos dando conta.
Depois de alguns esporros totalmente desnecessários, estouro do meu jeito calmo e contesto meu chefe. Coisa que um estagiário não devia fazer. Minha situação na agência não vai nada bem.
A caminho de casa, me pego pensando se realmente quero fazer isso para o resto da vida. Porque se chego a este ponto em uma agência tão calma, que me fez trabalhar em apenas um sábado nos seis meses em que estou aqui e me deu todos os feriados, imagine como será em agências maiores.
Em cima de tudo, estou amargando o fato de que desenho e design são duas coisas muito diferentes, embora uma palavra derive da outra. Minhas ilustrações são meu orgulho no trabalho, mas meus layouts podem ser superados por qualquer estagiário... A pena é que o emprego em publicidade depende mais de design que de desenho. Poupem-me da réplica de que isso eu aprendo com o tempo: eu sei disso, mas que empresa me daria esse tempo todo para aprender?
Mais complicada é a questão que vem como consequência: se não vou fazer isso, o que posso fazer?

No escuro do quarto à noite, cogito trabalhar em banco...

terça-feira, março 06, 2007

"It`s in the water baby, it`s between you and me"

Me apaixono por alguém à medida em que me apaixono pela música.
São canções de intimidade indecente e daquele amor cáustico. Já me pego no trabalho cantarolando incessantemente e rivalizando com Cíntia, que me incomoda com o mesmo refrão de músicas em tom pastel repetido à exaustão.
Meu raciocínio tem ao fundo essa interferência, como ouvir rádio na Paulista ou uma daquelas televisões antigas onde a imagem de um outro canal ficava vagando fantasmagórica no fundo. A organização de quais trabalhos para quais clientes e dos comandos para o programa novo que estou gostando de usar dividem espaço com memórias ainda frescas de um novo tom de voz e suavidade, de novas (e sempre as mesmas) cores e com aquela sensação de uma comparação bizarra daquelas minhas que ainda está por vir. Em que outros rostos eu vi aquele rosto antes?

segunda-feira, março 05, 2007

Domingo de Troca.
E finalmente, dentre toda a aspereza dos meses anteriores, um pouco de suavidade.
De fato, o horizonte é mais próximo do que se imagina.

quinta-feira, março 01, 2007

Dias densos

Dias densos. Não posso dizer que sejam intensos. Apenas densos. A diferença é que em dias intensos eu faço poucas coisas que serão lembradas por muito tempo. Limbos de Verão Perfeito. Dias densos cansam porque são cheios de realizações efêmeras e desimportantes. Mas ao menos estou fazendo alguma coisa.

Sou uma pessoa sem tempo algum.
Trabalho na agência e ganho pouco como estagiário. O trabalho é interessante e eu já me percebo fazendo exigências mais adultas aos colegas, perguntando coisas difíceis, percebendo falhas deles onde antes eu é que era corrigido.
Daí volto pra casa e trabalho do mesmo jeito, horas diante do computador, sem ganhar nada. Pequenos favores para a família, para pessoas que não ouso cobrar porque me ajudaram demais sem pensar no dinheiro. Fico feliz: me pego resolvendo mesmo estas coisas mais divertidas e familiares com um profissionalismo que eu não tinha. Mas eu bem que podia estar ganhando em cima disso... Alguém precisa de freelas de direção de arte?
A outra arte, aquela pessoal, está numa paralisia com fim indeterminado.
Fora tudo isso, monografia. `Nuff said.

Na outra ponta do Laço de Alice, um caos sem tamanho e sem explicação. O meu hábito de omitir os nomes das minhas aventuras por aqui já causou malentendidos. Outra pessoa me deixa na ambiguidade, sem me dizer um não mas ainda se mostrando interessada. Eu não lido bem com ambiguidades... Em outro front, soube da dor e a delícia de dizer um não: ótimo ser cortejado, péssimo ser o vilão.
Tudo muito bom. Mas eu continuo precisando apenas de colo e cafuné, finais de semana tranquilos e vocabulários íntimos. E tudo isso ainda está muito além do horizonte.


[or is it?]