Era uma cidade indefinida onde havia um conflito entre duas facções. De um lado, a turma grunge, representada por cores escuras, sóbrias, palavras sérias e uma atitude bem combativa e consideravelmente homofóbica. Do outro, a turma do glam rock, representada por cores fosforescentes, irreverência, uma atitude gender bender e bem mais pacífica.
Na parte que eu me lembro do sonho, eu começava andando por um bairro da cidade onde os glam rockers tínham fechado várias lojas e negócios do grunge colando cartazes coloridos nas fachadas. Eu estava olhando para aquilo, andando de um jeito engraçado e achando uma maravilha como o "nosso movimento" estava progredindo. Sim, claro, eu era da turma do glam.
De repente, os cartazes foram rareando, o bairro voltou a ser grunge, e eu comecei a ter a impressão de que estava na parte errada da cidade. Repentinamente, passei por três rapazes da facção oposta. Trocamos aqueles olhares e em segundos, estávamos em franca perseguição. Eles em bicicletas, eu atravessando as ruas em estilo parkour. Até que cheguei em um lugar de paredes grossas e portas fechadas com placas de madeira. Fitas coloridas e cartazes mostravam que era um reduto glam. Bati e consegui entrar.Lá dentro, outros glam rockers ajudaram a me defender, encaixando placas de metal para formar uma enorme barreira naquela primeira sala. Apesar da barreira segurar a primeira leva dos grunges, uns poucos remanescentes continuaram lutando pelos corredores daquele lugar. Mas no fim, conseguimos sobreviver. Os grunges não foram derrotados, eles desistiram. Assim, por ver que éramos em número maior e as barreiras que montávamos eram intransponíveis. Desistiram por tédio, não por serem derrotados. Nós éramos muito pacíficos para tomar atitudes mais ativas de combate.
Quando o ataque terminou, eu resolvi conhecer mais daquele reduto glam que eu tinha achado. Eu sabia que, se saísse pela porta, teria que lidar com os grunges de novo. Precisava achar um jeito de ficar por aqui. Logo descobri que o lugar era uma espécie de faculdade de arte. Colegas do passado se misturavam com colegas do presente. Uma garota da minha faculdade de graduação estava testando uma instalação onde elementos arquitetônicos barrocos estavam fixados na parede por tiras magnéticas que podiam ser desligadas, fazendo todas as peças caírem ao mesmo tempo. Um dos meus colegas do mestrado testavava uma geringonça que disparava dardos de sucção, daqueles de armas de criança. Outro do mestrado terminava uma escultura de uma cabeça com um moicano pink.
E ficou claro para mim que, se eu queria ficar lá, eu tinha que desenvolver um trabalho de arte qualquer. Forte referência ao meu mestrado em Londres. Mas eu sentia que não tinha capacidade como artista para desenvolver um trabalho coerente e relevante o suficiente para chegar no nível deles. Eu não me sentia um artista de verdade.
Acordei percebendo que, depois da mudança psicológica causada pelo mestrado, eu não me sentia mais mesmo...
Bits and pieces of my life that everyone ignores when I speak, but someone reads when I write.
segunda-feira, outubro 31, 2011
terça-feira, outubro 18, 2011
Rotina
O frio voltou definitivamente, e Londres prepara-se para entrar no inverno novamente. As ruas estão cobertas de folhas secas e as noites estão chegando cada vez mais cedo.
Nesses dias sem faculdade ou outras preocupações, tenho curtido a rotina que eu já curtia moderadamente durante a época do mestrado. É uma rotina simples, porém divertida e barata. Fornece-me uma sensação de que tudo está em seu lugar e eu estou onde deveria estar. Ainda que rotinas só sirvam para serem quebradas de vez em quando.
Segundas são o dia em que o cinema de Brixton cobra preços mais modestos pelos ingressos, então são os meus dias de cinema. Saio de casa e em 15 minutos estou lá. O bairro parece um pouco ameaçador à noite, pois apesar dos espaços abertos, tem um sem-número de pessoas suspeitas na praça, perguntando casualmente se um rapaz jovem como eu não gostaria de comprar pílulas ou erva. Mas o cinema é confortável, bem frequentado e tem uma boa variedade de filmes.
As noites de quarta são para o karaokê do Escape. Para jovens ainda sóbrios mas a meio caminho da embriaguez e para surpresas agradáveis quando aquela pessoa tímida sobe nos caixotes em meio à pequena pista de dança e solta uma voz que ninguém sabia que ela tinha. A noite continua madrugada adentro no Madame Jojo's ao lado, para apresentações de drag. Mas além de eu raramente ter vontade de estender a balada até tão tarde, não quero pagar o preço da entrada, que tornaria a noite cara demais para a rotina. De qualquer forma, as "garotas" na entrada e suas conversas debochadas e maquiagens propositalmente exageradas e tortas são uma diversão por si só.
Há quase sempre alguém convidando para beber em algum lugar nas sextas à noite. Eu ainda saio bastante com a turma da faculdade, embora muitos desses encontros sejam despedidas de quem está voltando para seu país de origem. Quando não há convites para o pub, dou um pulo no Royal Vauxhall Tavern. Apesar de aturar as pouco-inspiradas tentativas de aproximação de um ou outro rapaz, a quem eu logo aviso educadamente que o meu negócio é outro, me divirto com a variedade da fauna local, e as apresentações absurdas e exageradas, porém nada pretensiosas.
Sábados geralmente são reservados para a cultura, e faço uma visita aos museus e galerias onde ouvi dizer que algo bom está sendo exposto. Tate, Whitechapel, Serpentine, Victoria & Albert, British Museum...
Já o domingo é um dia de upkeeping. Dormir direito, cuidar de mim e da casa. Compras de supermercado, limpeza, lavanderia e tentativas (frustradas) de atualizações na internet.
Há uma felicidade complacente nessa rotina. Solitária, mas talvez confortável justamente por isso. Eu só preciso lidar comigo mesmo e com mais ninguém. Mas eu sei que eu preciso ser mais sociável do que isso. Na minha volta para casa, tentarei, como da outra vez, importar o máximo desse modo de vida para a realidade de lá. Adaptando dias e horários para levar em conta amigos, familiares e minha menina.
Como dizia Hemmingway, citando John Donne: "no man is an island".
Nesses dias sem faculdade ou outras preocupações, tenho curtido a rotina que eu já curtia moderadamente durante a época do mestrado. É uma rotina simples, porém divertida e barata. Fornece-me uma sensação de que tudo está em seu lugar e eu estou onde deveria estar. Ainda que rotinas só sirvam para serem quebradas de vez em quando.
Segundas são o dia em que o cinema de Brixton cobra preços mais modestos pelos ingressos, então são os meus dias de cinema. Saio de casa e em 15 minutos estou lá. O bairro parece um pouco ameaçador à noite, pois apesar dos espaços abertos, tem um sem-número de pessoas suspeitas na praça, perguntando casualmente se um rapaz jovem como eu não gostaria de comprar pílulas ou erva. Mas o cinema é confortável, bem frequentado e tem uma boa variedade de filmes.
As noites de quarta são para o karaokê do Escape. Para jovens ainda sóbrios mas a meio caminho da embriaguez e para surpresas agradáveis quando aquela pessoa tímida sobe nos caixotes em meio à pequena pista de dança e solta uma voz que ninguém sabia que ela tinha. A noite continua madrugada adentro no Madame Jojo's ao lado, para apresentações de drag. Mas além de eu raramente ter vontade de estender a balada até tão tarde, não quero pagar o preço da entrada, que tornaria a noite cara demais para a rotina. De qualquer forma, as "garotas" na entrada e suas conversas debochadas e maquiagens propositalmente exageradas e tortas são uma diversão por si só.
Há quase sempre alguém convidando para beber em algum lugar nas sextas à noite. Eu ainda saio bastante com a turma da faculdade, embora muitos desses encontros sejam despedidas de quem está voltando para seu país de origem. Quando não há convites para o pub, dou um pulo no Royal Vauxhall Tavern. Apesar de aturar as pouco-inspiradas tentativas de aproximação de um ou outro rapaz, a quem eu logo aviso educadamente que o meu negócio é outro, me divirto com a variedade da fauna local, e as apresentações absurdas e exageradas, porém nada pretensiosas.
Sábados geralmente são reservados para a cultura, e faço uma visita aos museus e galerias onde ouvi dizer que algo bom está sendo exposto. Tate, Whitechapel, Serpentine, Victoria & Albert, British Museum...
Já o domingo é um dia de upkeeping. Dormir direito, cuidar de mim e da casa. Compras de supermercado, limpeza, lavanderia e tentativas (frustradas) de atualizações na internet.
Há uma felicidade complacente nessa rotina. Solitária, mas talvez confortável justamente por isso. Eu só preciso lidar comigo mesmo e com mais ninguém. Mas eu sei que eu preciso ser mais sociável do que isso. Na minha volta para casa, tentarei, como da outra vez, importar o máximo desse modo de vida para a realidade de lá. Adaptando dias e horários para levar em conta amigos, familiares e minha menina.
Como dizia Hemmingway, citando John Donne: "no man is an island".
segunda-feira, outubro 10, 2011
Melancholia
[Post cheio de spoilers - se você não assistiu o filme, não leia]
Lars von Trier tem aos poucos se tornado um dos meus diretores favoritos. Pelo lado técnico, ele tem a proeza do Gerhard Richter na pintura, de transitar por diversos níveis técnicos com igual competência, de produções minimalistas como Dogvile e a sequência Manderlay, para exuberâncias visuais e técnicas como Antichrist e o recente Melancholia. Eu absorvo suas cenas em câmera lenta com o deleite de quem está diante de uma boa pintura, daquelas antigas e grandiosas. Pelo lado do conteúdo, Ele me dá aquela impressão venerável de alguém que já andou por muito mais do lado negro e visceral da vida do que eu, e está tentando me acautelar a respeito.
Melancholia é essencialmente, um filme sobre a depressão clínica. E talvez um dos melhores relatos do assunto que eu tenho visto ultimamente. Porque ele não se preocupa apenas em ilustrar a depressão, mas consegue com certo sucesso fazer a ponte para explicar às pessoas "normais" o que é a depressão usando termos que elas entendem. Não sei se posso dizer que é o melhor filme de Von Trier. Com toda a produção minimalista, ainda acho que Dogvile e Manderlay conseguiam ter mais recall. Ainda assim, é um grande filme por tudo que eu consegui entender dele e pelo que ele conquista em termos visuais.
Pra início de conversa, há a paciente deprimida. Justine, (Kirsten Dunst, ainda meu sonho de consumo, mesmo depois da vida real roubar-lhe algo do brilho de antes) está se casando em grande estilo com Michael (Alexander Skarsgard de True Blood) em uma fabulosa mansão. Concordo que, com uma mãe daquelas (Charlotte Rampling) vociferando contra as noções românticas de casamento, qualquer um ficaria triste. Mas o incômodo de Justine é mais do que apenas essa questão pontual.
Para Justine, a vida comum, a sociedade e seus rituais e noções do que é "correto" (perfeitamente expressado pelo adjetivo britânico "proper") parecem não ter a menor relevância. Mais do que isso, causam até um desconforto, são coisas que ela se esforça para aguentar. Todo esse ter que sorrir e esbanjar felicidade e vitalidade, quando tudo que ela quer é ficar em um canto, quieta, ensimesmada. Para ela é sofrer para agradar aos outros e nada disso faz sentido. Lidar com as pessoas é enfadonho, ter que subentender o que elas querem e adaptar-se às situações é maçante. Até esses adjetivos que estou usando não fazem jus ao sentimento (ou a falta dele) de Justine. Parecem adjetivos pertinentes a uma garotinha mimada, e Justine não é isso. Garotinhas mimadas querem driblar o tédio com aventuras, ela só quer ser deixada em paz.
As pessoas em volta dela comportam-se como qualquer família ao redor de um deprimido: fazem tudo errado. Exortam-na a manter as aparências, evitar cenas, sorrir para os convidados. Tudo está bem, pessoas! Somos felizes! Ficam furiosos quando ela não consegue suportar isso tudo e se ausenta, quando desiste de se ater às convenções. Jogam na cara dela o quanto estão gastando no casamento, quanto tempo, dinheiro e paciência. Como se a culpa e o dever de mostrar-se grata pudessem suplantar a depressão. A doença acaba custando-lhe o casamento antes mesmo da noite de núpcias (outra coisa que ela não consegue suportar).
O problema de Justine é um problema de perspectiva: a dela em relação à vida, contra a do resto da humanidade. E aqui está uma das lições do filme sobre a depressão. Justine não tem um desejo ativo e suicida por morrer, como a maioria pensa que os deprimidos têm. Em momento algum do filme ela demonstra isso. Ela preferiria definhar lentamente e em paz a executar qualquer violência dolorosa contra si mesma, e essa é a maior diferença. Mas ela não se importaria se o fim chegasse logo. Mais do que isso, ela gostaria que os outros tivessem mais noção da perspectiva dela. Nem todo deprimido é suicida. Nem todo suicida é deprimido.
Atendendo aos seus anseios, o planeta Melancholia é avistado por astrônomos, vindo em direção à Terra. Com um tamanho várias vezes maior do que o nosso planeta, ele é inicialmente previsto como passando perto da Terra, mas depois revela-se em rota de colisão, inevitavelmente aniquilando-a.
A revelação altera o equilibrio das coisas entre Justine e seus familiares. Antes deprimida e dificilmente aguentando o fardo da sociedade sobre ela, Justine torna-se livre, até por vezes feliz. Capaz de curtir a poesia e transgressão representada pela presença desse enorme planeta crescendo a cada dia, chega a permitir-se o luxo lascivo de banhar-se na luz refletida do planeta para a Terra. Com a vida na Terra extinta (que ela "sabe" ser a única existente no universo), tudo voltará à ordem complacente e banal que deveria ser, sem rituais, "propriety", dinheiro, certo ou errado. Nada mais importa e essa sensação a liberta.
O resto da família tem o colapso considerado "normal". Os mais racionais se suicidam por não aguentarem a inevitabilidade do desastre (um suicídio mais realista do que o clichê do deprimido) e a irmã de Justine, a pragmática Claire (Charlotte Gainsborough, de Antichrist), tenta racionalizar o melhor jeito de passar esses últimos momentos.
Há uma cena que eu achei de uma lucidez deliciosa nessa inversão emocional. Claire pede a Justine que passem o último momento juntas com Leo, filho de Claire. Para que a coisa seja mais suportável para Claire, ela pede que estejam juntos no belíssimo jardim da mansão, tomando vinho, ouvindo música. Um fim digno.
Justine se recusa.
Em todos os anos que ela teve que suportar os rituais e aparências da "normalidade" dos outros, ninguém nunca atenuou as coisas para ela. Agora que eles estão diante da "normalidade" dela, ela também não fará gentilezas irrelevantes. A vantagem está do lado dela e ela deleita-se na vingança.
Em vez disso, ela passa seus últimos momentos construíndo uma "caverna mágica" para seu sobrinho. Há algo de ritual nisso também, dela preparar seu último momento. Mas há uma diferença nesse ritual, similar à diferença nos anseios de morte do deprimido e do suicida. O ritual que ela faz com o sobrinho é uma banalidade de faz-de-conta. Ela faz por prazer, sabendo que não fará a mínima diferença. Aceitar o ritual de Claire seria diferente: seria um inútil "manter as aparências", imposto como se Claire ainda acreditasse que elas importariam para os outros durante o fim do mundo.
Lars von Trier tem aos poucos se tornado um dos meus diretores favoritos. Pelo lado técnico, ele tem a proeza do Gerhard Richter na pintura, de transitar por diversos níveis técnicos com igual competência, de produções minimalistas como Dogvile e a sequência Manderlay, para exuberâncias visuais e técnicas como Antichrist e o recente Melancholia. Eu absorvo suas cenas em câmera lenta com o deleite de quem está diante de uma boa pintura, daquelas antigas e grandiosas. Pelo lado do conteúdo, Ele me dá aquela impressão venerável de alguém que já andou por muito mais do lado negro e visceral da vida do que eu, e está tentando me acautelar a respeito.
Melancholia é essencialmente, um filme sobre a depressão clínica. E talvez um dos melhores relatos do assunto que eu tenho visto ultimamente. Porque ele não se preocupa apenas em ilustrar a depressão, mas consegue com certo sucesso fazer a ponte para explicar às pessoas "normais" o que é a depressão usando termos que elas entendem. Não sei se posso dizer que é o melhor filme de Von Trier. Com toda a produção minimalista, ainda acho que Dogvile e Manderlay conseguiam ter mais recall. Ainda assim, é um grande filme por tudo que eu consegui entender dele e pelo que ele conquista em termos visuais. Pra início de conversa, há a paciente deprimida. Justine, (Kirsten Dunst, ainda meu sonho de consumo, mesmo depois da vida real roubar-lhe algo do brilho de antes) está se casando em grande estilo com Michael (Alexander Skarsgard de True Blood) em uma fabulosa mansão. Concordo que, com uma mãe daquelas (Charlotte Rampling) vociferando contra as noções românticas de casamento, qualquer um ficaria triste. Mas o incômodo de Justine é mais do que apenas essa questão pontual.
Para Justine, a vida comum, a sociedade e seus rituais e noções do que é "correto" (perfeitamente expressado pelo adjetivo britânico "proper") parecem não ter a menor relevância. Mais do que isso, causam até um desconforto, são coisas que ela se esforça para aguentar. Todo esse ter que sorrir e esbanjar felicidade e vitalidade, quando tudo que ela quer é ficar em um canto, quieta, ensimesmada. Para ela é sofrer para agradar aos outros e nada disso faz sentido. Lidar com as pessoas é enfadonho, ter que subentender o que elas querem e adaptar-se às situações é maçante. Até esses adjetivos que estou usando não fazem jus ao sentimento (ou a falta dele) de Justine. Parecem adjetivos pertinentes a uma garotinha mimada, e Justine não é isso. Garotinhas mimadas querem driblar o tédio com aventuras, ela só quer ser deixada em paz.
As pessoas em volta dela comportam-se como qualquer família ao redor de um deprimido: fazem tudo errado. Exortam-na a manter as aparências, evitar cenas, sorrir para os convidados. Tudo está bem, pessoas! Somos felizes! Ficam furiosos quando ela não consegue suportar isso tudo e se ausenta, quando desiste de se ater às convenções. Jogam na cara dela o quanto estão gastando no casamento, quanto tempo, dinheiro e paciência. Como se a culpa e o dever de mostrar-se grata pudessem suplantar a depressão. A doença acaba custando-lhe o casamento antes mesmo da noite de núpcias (outra coisa que ela não consegue suportar).
O problema de Justine é um problema de perspectiva: a dela em relação à vida, contra a do resto da humanidade. E aqui está uma das lições do filme sobre a depressão. Justine não tem um desejo ativo e suicida por morrer, como a maioria pensa que os deprimidos têm. Em momento algum do filme ela demonstra isso. Ela preferiria definhar lentamente e em paz a executar qualquer violência dolorosa contra si mesma, e essa é a maior diferença. Mas ela não se importaria se o fim chegasse logo. Mais do que isso, ela gostaria que os outros tivessem mais noção da perspectiva dela. Nem todo deprimido é suicida. Nem todo suicida é deprimido.
Atendendo aos seus anseios, o planeta Melancholia é avistado por astrônomos, vindo em direção à Terra. Com um tamanho várias vezes maior do que o nosso planeta, ele é inicialmente previsto como passando perto da Terra, mas depois revela-se em rota de colisão, inevitavelmente aniquilando-a.
A revelação altera o equilibrio das coisas entre Justine e seus familiares. Antes deprimida e dificilmente aguentando o fardo da sociedade sobre ela, Justine torna-se livre, até por vezes feliz. Capaz de curtir a poesia e transgressão representada pela presença desse enorme planeta crescendo a cada dia, chega a permitir-se o luxo lascivo de banhar-se na luz refletida do planeta para a Terra. Com a vida na Terra extinta (que ela "sabe" ser a única existente no universo), tudo voltará à ordem complacente e banal que deveria ser, sem rituais, "propriety", dinheiro, certo ou errado. Nada mais importa e essa sensação a liberta.
O resto da família tem o colapso considerado "normal". Os mais racionais se suicidam por não aguentarem a inevitabilidade do desastre (um suicídio mais realista do que o clichê do deprimido) e a irmã de Justine, a pragmática Claire (Charlotte Gainsborough, de Antichrist), tenta racionalizar o melhor jeito de passar esses últimos momentos.
Há uma cena que eu achei de uma lucidez deliciosa nessa inversão emocional. Claire pede a Justine que passem o último momento juntas com Leo, filho de Claire. Para que a coisa seja mais suportável para Claire, ela pede que estejam juntos no belíssimo jardim da mansão, tomando vinho, ouvindo música. Um fim digno.
Justine se recusa.
Em todos os anos que ela teve que suportar os rituais e aparências da "normalidade" dos outros, ninguém nunca atenuou as coisas para ela. Agora que eles estão diante da "normalidade" dela, ela também não fará gentilezas irrelevantes. A vantagem está do lado dela e ela deleita-se na vingança.
Em vez disso, ela passa seus últimos momentos construíndo uma "caverna mágica" para seu sobrinho. Há algo de ritual nisso também, dela preparar seu último momento. Mas há uma diferença nesse ritual, similar à diferença nos anseios de morte do deprimido e do suicida. O ritual que ela faz com o sobrinho é uma banalidade de faz-de-conta. Ela faz por prazer, sabendo que não fará a mínima diferença. Aceitar o ritual de Claire seria diferente: seria um inútil "manter as aparências", imposto como se Claire ainda acreditasse que elas importariam para os outros durante o fim do mundo.
quinta-feira, outubro 06, 2011
Gisele and Hopeless Men
Nana comentou recentemente que a Gisele Bundchen tinha aparecido em um comercial da marca de lingerie Hope [1][2][3] que a fez pensar em mim. E eu fiquei muito feliz com essa lembrança suscitada pelo comercial, onde a modelo "ensina" que dar notícias ruins aos homens vestindo lingerie diminui o impacto do problema e a consequente bronca. Fiquei feliz, porque enquanto muita gente comentava sobre o mau gosto do comercial ao supostamente objetificar as mulheres (há controvérsias, já que uma vertente atual do feminismo até enxerga nisso uma espécie de poder feminino), Nana não pode deixar de perceber o quanto o comercial denigria os homens. De fato, eu sempre detestei essa idéia de homens cegados pela mera promessa de sexo, do sexo usado como mecanismo de controle.
Pensando em escrever este post, lembrei de outro comercial que rolou no começo do ano, a tentativa da Bombril de continuar na cabeça do consumidor depois da saída do Carlos Moreno, o garoto Bombril. Nessa nova campanha, a Marisa Orth, Dani Calabresa e Monica Iozzi fazem uma apelo para que "mulheres evoluídas" forcem seus homens retrógrados a ajudarem nos afazeres domésticos.
Apesar das duas campanhas terem esse apelo para a guerra dos sexos, acho que é muito válido ressaltar algumas diferenças cruciais. A campanha da Bombril tem aquele ar de brincadeira com um fundo de verdade. O jeito absurdo e caricato das humoristas não está insinuando que a mulher evoluída trate o homem de fato feito cachorro. Tudo tem um ar de sátira que é muito difícil de levar a sério. No entanto, ela consegue comunicar nas entrelinhas um retrato da utopia atual, onde as mulheres têm liberdade para ter pulso mais firme, e os homens têm a possibilidade de "evoluírem" também e passarem a ser mais presentes na vida doméstica. A idéia é que, na vida real, longe da sátira, ambos os sexos passem a respeitar um ao outro de forma mais igualitária. Quem ataca esse comercial de cara por ser sexista (tá, confesso, eu pensei em fazer isso quando vi...) está perdendo boa parte da mensagem e fazendo uma leitura simplista da coisa.
O comercial da Hope é outra coisa e esse eu não tenho receio em criticar. Ele procura ser mais uma espécie de verdade em tom de brincadeira. A Gisele é uma das chamadas figuras aspiracionais, aquela que algumas mulheres querem ser. Sendo assim, ela é muito mais passível de seduzir (não no sentido sexual) a espectadora a agir de fato desse jeito, a usar o que o comercial chama de "charme da mulher brasileira" pra subjugar o homem. Como eu mencionei antes, há quem ache que o uso consciente desse dito poder feminino é uma forma de feminismo atual, enquanto que outras pessoas criticam o comercial por voltar a objetificar a mulher. No caso do homem insinuado nesse comercial, não há dúvidas: ele é torpe, controlado por sexo e sem esperança de evoluir além disso.
Pensando em escrever este post, lembrei de outro comercial que rolou no começo do ano, a tentativa da Bombril de continuar na cabeça do consumidor depois da saída do Carlos Moreno, o garoto Bombril. Nessa nova campanha, a Marisa Orth, Dani Calabresa e Monica Iozzi fazem uma apelo para que "mulheres evoluídas" forcem seus homens retrógrados a ajudarem nos afazeres domésticos.
Apesar das duas campanhas terem esse apelo para a guerra dos sexos, acho que é muito válido ressaltar algumas diferenças cruciais. A campanha da Bombril tem aquele ar de brincadeira com um fundo de verdade. O jeito absurdo e caricato das humoristas não está insinuando que a mulher evoluída trate o homem de fato feito cachorro. Tudo tem um ar de sátira que é muito difícil de levar a sério. No entanto, ela consegue comunicar nas entrelinhas um retrato da utopia atual, onde as mulheres têm liberdade para ter pulso mais firme, e os homens têm a possibilidade de "evoluírem" também e passarem a ser mais presentes na vida doméstica. A idéia é que, na vida real, longe da sátira, ambos os sexos passem a respeitar um ao outro de forma mais igualitária. Quem ataca esse comercial de cara por ser sexista (tá, confesso, eu pensei em fazer isso quando vi...) está perdendo boa parte da mensagem e fazendo uma leitura simplista da coisa.
O comercial da Hope é outra coisa e esse eu não tenho receio em criticar. Ele procura ser mais uma espécie de verdade em tom de brincadeira. A Gisele é uma das chamadas figuras aspiracionais, aquela que algumas mulheres querem ser. Sendo assim, ela é muito mais passível de seduzir (não no sentido sexual) a espectadora a agir de fato desse jeito, a usar o que o comercial chama de "charme da mulher brasileira" pra subjugar o homem. Como eu mencionei antes, há quem ache que o uso consciente desse dito poder feminino é uma forma de feminismo atual, enquanto que outras pessoas criticam o comercial por voltar a objetificar a mulher. No caso do homem insinuado nesse comercial, não há dúvidas: ele é torpe, controlado por sexo e sem esperança de evoluir além disso.
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