Referente aos textos: [Prologue][Romania][Arrival][A spell of anxiety][Sighisoara]
Bits and pieces of my life that everyone ignores when I speak, but someone reads when I write.
quinta-feira, abril 28, 2011
domingo, abril 24, 2011
sábado, abril 23, 2011
Visiting Vlad - Epilogue
Comecei minha jornada de volta ontem de manha, voltando para Brasov. Tomei meu tempo: teria dois dias para voltar, prevendo qualquer atraso.
A medida que o trem atravessava os Carpatos, me dei conta de que ja me familiarizara o suficiente com a paisagem para fazer uma descricao mais experiente do pais. A paisagem pela janela ia me lembrando dos detalhes que eu tinha visto nesses dez dias correndo atras de Dracula. Era uma terra de amplos campos verdes onde animais poderiam correr livres. A terra era escura e fertil onde tinha sido arada, e boa parte do territorio era rural, sendo pastado por ovelhas de uma la estranha que escorria quase lisa (de fato, nao me ocorre ter visto nenhum romeno de cabelos cacheados). Vez por outra uma ferida imensa na terra era um rio cruzando o territorio. As margens eram sempre de pedra cinza-amarelada, dura e a água por vezes cristalina e em outras de um cinza meio esverdeado. No horizonte, os Carpatos se projetavam do solo, formando uma ferradura que tomava conta de boa parte da Transilvania, com Tirgu Mures bem no seu centro. Eram montanhas daquela mesma pedra cinza, que chegavam a alturas onde a neve comecava a acumular nos picos. Mas eram em grande parte cobertas de uma vegetacao bela e hostil. Coniferas eram tao presentes quanto aquelas outras arvores retorcidas e peladas, de troncos acinzentados, altos e esguios, por entre as quais eu fantasiava correr como um lobisomem. Elas estavam destituidas de folhas mesmo em plena primavera. O pais inteiro parecia ainda nao ter acordado para a nova estacao. Mas aqui e ali, umas arvores rebeldes ja despontavam flores brancas, rosadas e roxas. Estas ultimas em um formato que eu nunca tinha visto, como bojos de calices de vinho.
As casas dos camponeses tem uma arquitetura peculiar, europeia. Mas sao rodeadas de entulho da propria construcao e da vida rural. Muita lama. Porem o mais perturbador e deslocado sao as referencias a entulho de uma realidade capitalista, de plastico colorido e design de marcas, que nao tem nada a ver com a vida simples dessa gente, mas que permanecem como evidencia no lixo do quintal. Evidencia de que o modo de vida deles foi corrompido e seduzido por um outro modo de vida do qual eles nao fazem parte e pelo qual eles anseiam. Nas cidades grandes, a mesma incoerencia pode ser vista na fusao das muralhas da cidade medieval com os predios dos empreendimentos imobiliarios americanoides. Predios que, exceto nos bairros atualmente ricos, estao sempre descascando, imundos, quebrados. Por que e que a minha mente identifica isso imeddiatamente com o leste europeu, com passados socialistas? A Romenia algum dia foi socialista? Nao tenho informacao sobre isso.
As pessoas sao outro misto indecifravel. Por causa das diferentes etnias, do embate entre o rural predominante no pais e um desejo pelo moderno. Vao dos boiardos que ja foram aristocracia e hoje sao caipiras pobres, passando pelos roma (os ciganos propriamente ditos) e os adolescentes das cidades grandes. Nao pude deixar de notar os tenis impossivelmente brancos dos garotos ricos, mesmo em um pais onde ha terra e po e sujeira em tudo. E provavelmente mante-los brancos deve ser um sinal de status, de estar acima da decadencia ao redor.
Deixei Brasov hoje de manha. Passei por Sighisoara mas nao parei. Estou tomando o aviao em Tirgu Mures sob aquela luz peculiar do entardecer centenario deles.
Tenho lido muito sobre Stoker e a epoca em que ele escreveu Dracula. O suficiente para querer aproveitar minha estadia na Inglaterra e visitar algumas das cidades onde ele aconteceu. Whitby e partes da Irlanda. E o suficiente para querer um pouco do que era aquela epoca. Mesmo que fosse uma epoca de muito sentimento contido (e que o proprio livro parece criticar), mas era uma epoca em que as pessoas viviam para fazer o que era certo e virtuoso. E sabiam o que era certo e virtuoso. Os excessos sentimentais aconteciam como excessos e nao rotineiramente como hoje. Entao quando as pessoas se permitiam sentir, o sentimento era intenso. Hoje nos permitimos tanto e tao frequentemente, que o sentimento e diluido em partes infinitesimais.
Aprendi muito com essa aventura. Agora volto para Londres para lidar com o meu mestrado, sentindo que eu dediquei mais fervor ao meu estudo do Vlad Tepes e da Romenia do que jamais poderia dedicar ao Masculismo. E se por um lado serviu para intensificar a crescente certeza de que eu deveria ter seguido pela carreira literaria em vez das artes plasticas, por outro lado me deu a nocao de uma nova forma de viajar e aproveitar uma viagem. De procurar viagens que facam mais sentido para mim, e aproveita-las do meu jeito, de uma forma mais cerebral alem da empirica.
A medida que o trem atravessava os Carpatos, me dei conta de que ja me familiarizara o suficiente com a paisagem para fazer uma descricao mais experiente do pais. A paisagem pela janela ia me lembrando dos detalhes que eu tinha visto nesses dez dias correndo atras de Dracula. Era uma terra de amplos campos verdes onde animais poderiam correr livres. A terra era escura e fertil onde tinha sido arada, e boa parte do territorio era rural, sendo pastado por ovelhas de uma la estranha que escorria quase lisa (de fato, nao me ocorre ter visto nenhum romeno de cabelos cacheados). Vez por outra uma ferida imensa na terra era um rio cruzando o territorio. As margens eram sempre de pedra cinza-amarelada, dura e a água por vezes cristalina e em outras de um cinza meio esverdeado. No horizonte, os Carpatos se projetavam do solo, formando uma ferradura que tomava conta de boa parte da Transilvania, com Tirgu Mures bem no seu centro. Eram montanhas daquela mesma pedra cinza, que chegavam a alturas onde a neve comecava a acumular nos picos. Mas eram em grande parte cobertas de uma vegetacao bela e hostil. Coniferas eram tao presentes quanto aquelas outras arvores retorcidas e peladas, de troncos acinzentados, altos e esguios, por entre as quais eu fantasiava correr como um lobisomem. Elas estavam destituidas de folhas mesmo em plena primavera. O pais inteiro parecia ainda nao ter acordado para a nova estacao. Mas aqui e ali, umas arvores rebeldes ja despontavam flores brancas, rosadas e roxas. Estas ultimas em um formato que eu nunca tinha visto, como bojos de calices de vinho.
As casas dos camponeses tem uma arquitetura peculiar, europeia. Mas sao rodeadas de entulho da propria construcao e da vida rural. Muita lama. Porem o mais perturbador e deslocado sao as referencias a entulho de uma realidade capitalista, de plastico colorido e design de marcas, que nao tem nada a ver com a vida simples dessa gente, mas que permanecem como evidencia no lixo do quintal. Evidencia de que o modo de vida deles foi corrompido e seduzido por um outro modo de vida do qual eles nao fazem parte e pelo qual eles anseiam. Nas cidades grandes, a mesma incoerencia pode ser vista na fusao das muralhas da cidade medieval com os predios dos empreendimentos imobiliarios americanoides. Predios que, exceto nos bairros atualmente ricos, estao sempre descascando, imundos, quebrados. Por que e que a minha mente identifica isso imeddiatamente com o leste europeu, com passados socialistas? A Romenia algum dia foi socialista? Nao tenho informacao sobre isso.
As pessoas sao outro misto indecifravel. Por causa das diferentes etnias, do embate entre o rural predominante no pais e um desejo pelo moderno. Vao dos boiardos que ja foram aristocracia e hoje sao caipiras pobres, passando pelos roma (os ciganos propriamente ditos) e os adolescentes das cidades grandes. Nao pude deixar de notar os tenis impossivelmente brancos dos garotos ricos, mesmo em um pais onde ha terra e po e sujeira em tudo. E provavelmente mante-los brancos deve ser um sinal de status, de estar acima da decadencia ao redor.
Deixei Brasov hoje de manha. Passei por Sighisoara mas nao parei. Estou tomando o aviao em Tirgu Mures sob aquela luz peculiar do entardecer centenario deles.
Tenho lido muito sobre Stoker e a epoca em que ele escreveu Dracula. O suficiente para querer aproveitar minha estadia na Inglaterra e visitar algumas das cidades onde ele aconteceu. Whitby e partes da Irlanda. E o suficiente para querer um pouco do que era aquela epoca. Mesmo que fosse uma epoca de muito sentimento contido (e que o proprio livro parece criticar), mas era uma epoca em que as pessoas viviam para fazer o que era certo e virtuoso. E sabiam o que era certo e virtuoso. Os excessos sentimentais aconteciam como excessos e nao rotineiramente como hoje. Entao quando as pessoas se permitiam sentir, o sentimento era intenso. Hoje nos permitimos tanto e tao frequentemente, que o sentimento e diluido em partes infinitesimais.
Aprendi muito com essa aventura. Agora volto para Londres para lidar com o meu mestrado, sentindo que eu dediquei mais fervor ao meu estudo do Vlad Tepes e da Romenia do que jamais poderia dedicar ao Masculismo. E se por um lado serviu para intensificar a crescente certeza de que eu deveria ter seguido pela carreira literaria em vez das artes plasticas, por outro lado me deu a nocao de uma nova forma de viajar e aproveitar uma viagem. De procurar viagens que facam mais sentido para mim, e aproveita-las do meu jeito, de uma forma mais cerebral alem da empirica.
quinta-feira, abril 21, 2011
Visiting Vlad - The rush to Poeinari
Fechada. Claro que a porta do hotel estaria fechada. Eram cinco da manha e eu estava tentando sair para pegar o primeiro trem da manha para Curtea de Arges. Bati na porta da dona do hotel, que abriu em menos de um segundo, de banho tomado e arrumada. Me desculpei como pude por incomoda-la a essa hora da manha, mas ela me abriu sorridente e se despediu.
Minutos depois, estava no trem para Titu, e depois para Curtea de Arges. Eu ia preocupado. Tinha planejado meu tempo para chegar na cidade na noite anterior, dormir e comecar a peregrinacao para o castelo de manha cedo. A maior parte da informacao que eu tinha sobre como chegar la viera de um site de um cara muito estranho (me pergunto se eu passo uma impressao similar?) que fizera o caminho em 2005. Ele especificamente dizia para sair pela manha para voltar no fim da tarde. Mas eu chegaria em Curtea de Arges quase ao meio dia. Eu estava arriscando ter que voltar no meio do caminho, sem visitar o castelo, dependendo de quanto demorasse a caminhada.
Tive tempo apenas de largar as coisas no quarto da pensao (que alias, foi um achado, um custo-beneficio fantastico!). Rapidamente montei minha mochila com os essenciais e algumas excentricidades (eu queria levar meus pinduricalhos goticos para serem "abencoados" - ou "amaldicoados, sei la) e parti em direcao a minha ultima aventura.
De acordo com o site que eu mencionei, da pra chegar em Poeinari pegando a van para Arefu. Mas Arefu fica a quatro quilometros de Poeinari, e andar tudo isso levaria um tempo que eu nao tinha mais. Por sorte, eu tinha obcecado o suficiente com o castelo para saber de Capatineni, o vilarejo mais proximo. A van passa por la e toma uma estrada de terra em direcao a Arefu. Assim que vi a placa, pedi para descer.
O vilarejo estava repleto de pistas: "Camping Dracula", "Hotel Dracula", "Restaurante Dracula", eles estavam realmente aproveitando a fama do voivode. Uma placa me direcionou por uma das estradas, anunciando que o castelo estava a 1,5km. O rio Arges passava pela cidade, e seguindo-o alem dos detritos da urbanizacao, onde a agua era cristalina, pude ver o castelo entre as montanhas pela primeira vez.
A visao me pegou de surpresa. Mas la estava ele!
Andando pelas margens do Arges, passando por pastores com seus carneiros, cheguei a hidrelectrica de Vidraru. O site tambem mencionara isso, e eu a vi no mapa antes de partir. Se eu passasse o castelo, chegaria na represa de Vidraru, um caminho tortuoso e hostil por entre os Carpatos.
O turismo da regiao de fato estava tentando capitalizar em cima do castelo, e tinham ate construido uma pousada ao lado da hidreletrica, chamada "Pensiunea Cetatea", a Pensao do Castelo.
La por perto, encontrei o comeco dos longos 1480 degraus para o castelo. Tomei meu tempo, subi aos poucos. As placas ao longo da subida pareciam zombar do esforco, indicando quantos degraus faltavam. Outras davam informacao e rumores sobre o castelo. A escadaria mostrava os sinais do tempo, da floresta ao redor mudando, derrubando partes, retomando o lugar.
Depois de uma hora fazendo videos dos entornos e pegando folego para a escalada, cheguei no castelo.
Um "porteiro" guarda a entrada, pedindo 5 Lei - a moeda romena - para entrar (embora ele tenha tentado superfaturar a entrada e cobrar quase 10 para mim...).
Finalmente, eu estava la. No ultimo castelo de Dracula. A vista era uma das mais belas que eu tinha visto. Em grande parte, a beleza tinha a ver com essa sensacao de estar no alto de um penhasco e poder ver toda aquela belisima paisagem romena ao redor, por milhas, sentindo-me seguro dentro de uma fortificacao. Mas talvez tambem fosse pelo historico do lugar, e por saber que eu estava la, depois de uma peregrinacao de uma semana.
O castelo original era apenas um cubo de pedra, construido antes do Vlad Tepes, como refugio para um de seus predecessores. Vlad construiu as muralhas e torres de vigia durante seu governo. Para essa tarefa, ele aprisionou os boiardos, a antiga aristocracia da regiao de Targoviste, que se aliara aos Danesti (aquela linhagem rival, lembra?). Dracula levou-os a Poeinari e obrigou-os a trabalhar "ate rasgarem a roupa do corpo", construindo as muralhas e torres.
O unico cerco documentado a Poenari aconteceu em 1462, contra os turcos, supostamente quando aconteceu o episodio em que sua primeira esposa recebeu a flecha com a mensagem falsa dizendo que ele tinha morrido e se jogou no Arges, preferindo a morte a ser escrava dos turcos. E o mesmo ano em que Vlad foi pedir subsidios ao imperador da regiao e foi aprisionado, acusado de traicao, e enviado como prisioneio ao castelo de Bran. Ele ainda teria um ultimo governo por volta de 1470, antes de ser morto em batalha.
Com uma sensacao de missao cumprida e uma felicidade sem tamanho, voltei a Curtea de Arges. Me joguei na ampla cama do quarto de hotel e, exausto, dormi por duas horas. Estava na hora de comecar minha lenta jornada de volta a Londres.
Minutos depois, estava no trem para Titu, e depois para Curtea de Arges. Eu ia preocupado. Tinha planejado meu tempo para chegar na cidade na noite anterior, dormir e comecar a peregrinacao para o castelo de manha cedo. A maior parte da informacao que eu tinha sobre como chegar la viera de um site de um cara muito estranho (me pergunto se eu passo uma impressao similar?) que fizera o caminho em 2005. Ele especificamente dizia para sair pela manha para voltar no fim da tarde. Mas eu chegaria em Curtea de Arges quase ao meio dia. Eu estava arriscando ter que voltar no meio do caminho, sem visitar o castelo, dependendo de quanto demorasse a caminhada.
Tive tempo apenas de largar as coisas no quarto da pensao (que alias, foi um achado, um custo-beneficio fantastico!). Rapidamente montei minha mochila com os essenciais e algumas excentricidades (eu queria levar meus pinduricalhos goticos para serem "abencoados" - ou "amaldicoados, sei la) e parti em direcao a minha ultima aventura.
De acordo com o site que eu mencionei, da pra chegar em Poeinari pegando a van para Arefu. Mas Arefu fica a quatro quilometros de Poeinari, e andar tudo isso levaria um tempo que eu nao tinha mais. Por sorte, eu tinha obcecado o suficiente com o castelo para saber de Capatineni, o vilarejo mais proximo. A van passa por la e toma uma estrada de terra em direcao a Arefu. Assim que vi a placa, pedi para descer.
O vilarejo estava repleto de pistas: "Camping Dracula", "Hotel Dracula", "Restaurante Dracula", eles estavam realmente aproveitando a fama do voivode. Uma placa me direcionou por uma das estradas, anunciando que o castelo estava a 1,5km. O rio Arges passava pela cidade, e seguindo-o alem dos detritos da urbanizacao, onde a agua era cristalina, pude ver o castelo entre as montanhas pela primeira vez.
A visao me pegou de surpresa. Mas la estava ele!
Andando pelas margens do Arges, passando por pastores com seus carneiros, cheguei a hidrelectrica de Vidraru. O site tambem mencionara isso, e eu a vi no mapa antes de partir. Se eu passasse o castelo, chegaria na represa de Vidraru, um caminho tortuoso e hostil por entre os Carpatos.
O turismo da regiao de fato estava tentando capitalizar em cima do castelo, e tinham ate construido uma pousada ao lado da hidreletrica, chamada "Pensiunea Cetatea", a Pensao do Castelo.
La por perto, encontrei o comeco dos longos 1480 degraus para o castelo. Tomei meu tempo, subi aos poucos. As placas ao longo da subida pareciam zombar do esforco, indicando quantos degraus faltavam. Outras davam informacao e rumores sobre o castelo. A escadaria mostrava os sinais do tempo, da floresta ao redor mudando, derrubando partes, retomando o lugar.
Depois de uma hora fazendo videos dos entornos e pegando folego para a escalada, cheguei no castelo.
Um "porteiro" guarda a entrada, pedindo 5 Lei - a moeda romena - para entrar (embora ele tenha tentado superfaturar a entrada e cobrar quase 10 para mim...).
Finalmente, eu estava la. No ultimo castelo de Dracula. A vista era uma das mais belas que eu tinha visto. Em grande parte, a beleza tinha a ver com essa sensacao de estar no alto de um penhasco e poder ver toda aquela belisima paisagem romena ao redor, por milhas, sentindo-me seguro dentro de uma fortificacao. Mas talvez tambem fosse pelo historico do lugar, e por saber que eu estava la, depois de uma peregrinacao de uma semana.
O castelo original era apenas um cubo de pedra, construido antes do Vlad Tepes, como refugio para um de seus predecessores. Vlad construiu as muralhas e torres de vigia durante seu governo. Para essa tarefa, ele aprisionou os boiardos, a antiga aristocracia da regiao de Targoviste, que se aliara aos Danesti (aquela linhagem rival, lembra?). Dracula levou-os a Poeinari e obrigou-os a trabalhar "ate rasgarem a roupa do corpo", construindo as muralhas e torres.
O unico cerco documentado a Poenari aconteceu em 1462, contra os turcos, supostamente quando aconteceu o episodio em que sua primeira esposa recebeu a flecha com a mensagem falsa dizendo que ele tinha morrido e se jogou no Arges, preferindo a morte a ser escrava dos turcos. E o mesmo ano em que Vlad foi pedir subsidios ao imperador da regiao e foi aprisionado, acusado de traicao, e enviado como prisioneio ao castelo de Bran. Ele ainda teria um ultimo governo por volta de 1470, antes de ser morto em batalha.
Com uma sensacao de missao cumprida e uma felicidade sem tamanho, voltei a Curtea de Arges. Me joguei na ampla cama do quarto de hotel e, exausto, dormi por duas horas. Estava na hora de comecar minha lenta jornada de volta a Londres.
quarta-feira, abril 20, 2011
Visiting Vlad - Lost in Vlad's capital
Por alguma razao, me despedi de Brasov com uma certa melancolia. Talvez porque foi a cidade onde eu passei mais tempo durante a viagem. Talvez porque eu estava comecando a fazer amizades mais significativas com Soren, o dinamarques com quem eu jantei essas noites e Andra, a esforcada dona do albergue. Nos despedimos cedo, enquanto Andra tentava fazer cafe da manha para um grupo de vinte adolescentes e alguns professores que tinha chegado na noite anterior. Tirei fotos com ambos e disse adeus, avisando que talvez eu voltasse em dois dias, no meu trajeto de volta a Londres.
Na estacao, subi no onibus e fiz minhas financas. Ja estava alem da metade da viagem e ainda muito antes da metade do dinheiro que eu levara. A Romenia estava provando ser um destino relativamente barato.
Durante as duas horas da viagem de onibus, fui pulando de um lado do outro, fotografando e gravando videos. Subimos os Carpatos ate onde ainda havia varios centimetros de neve, descendo depois para Sinais, uma vila agreste perdida no meio do nada, rodeada por florestas de pinheiros que pareciam o cenario perfeito para contos de lobisomem. Eu estava deixando a Transilvania e entrando na Wallachia. Mais adiante, a paisagem voltou a ser planicie, e Targoviste me pegou de surpresa, quando comecei a cochilar.
Fiquei impressionado com Targoviste. Impressionado em um sentido estranho. Dizem os relatos historicos que ha 500 anos, esta era a capital da regiao governada por Vlad III. Foi daqui que ele partiu, cruzou Bran e travou batalha em Brasov.
E no entanto, a cidade era um nada. Uma parada no meio do caminho para caminhoes e trens de carga. Casas pequenas, simples, calcadas esburacadas. E internet quase inexistente... Quando o Rio de Janeiro deixou de ser a capital do Brasil, usou o impulso ganho nos seus anos de importancia para virar uma cidade fundamental para o pais, mesmo sem o poder politico. Claro, Targoviste deixou de ser a capital ha muito tempo, cedendo o lugar para Bucareste, mas ainda assim, eu nao imagino o Rio regredindo tanto.
Eu nao teria sequer me aventurado tao ao sul se nao fosse pela Curtea Domneasca. Andei por quase uma hora, com toda a minha bagagem nas costas (nao achei lugares para deixar tudo aquilo), perguntando aos nativos (ja que nao achei internet para me informar melhor), ate encontrar o lugar. A chamada "Corte do Principe" consistia de uma basilica com um interior de tirar o folego, repleto de imagens de santos do chao ao teto; as ruinas do palacio; e a Turnul Chindiei [Torre de Chindia]. Inicialmente, o terreno abrigava a casa de Mircea, o Velho, quando ele governou a Wallachia. Quando o terreno passou para Vlad Dracul, o pai, este contruiu um suntuoso palacio, do qual hoje sobraram apenas as ruinas. No reinado do seu filho, Vlad Tepes, foi construida a torre, que servia propositos militares e dava o toque de recolher, depois do qual ninguem podia manter fogos acesos para evitar que a cidade fosse vista de longe. Algum tempo depois, provavelmente depois que a capital foi transferida para Bucareste, foi construida a basilica. Hoje a torre abriga uma exibicao de armas e documentos de Vlad III (que estava fechada para a pascoa...), as ruinas sao abertas a visitacao e guardam entalhes de pedra expostos nos subterraneos morbidamente refrigerados do castelo, e a basilica tambem fica aberta, apesar de estar passando por restauracao.
Eu cheguei. Aquilo era o mais proximo que eu ia chegar do verdadeiro Dracula historico, longe da ficcao de Stoker. Ali era o centro do seu imperio, e aquele foi, pelo que eu pude entender, o verdadeiro castelo do Dracula. Mais uma etapa da minha missao estava cumprida! E uma etapa que eu nem sabia que existia quando planejei a viagem...
Na volta, o imprevisivel aconteceu. Cansado pelo peso da mochila, um pouco confuso com uma cidade plana que nao tinha marcos visiveis, me perdi por entre suas ruas humildes. Cheguei na estacao de onibus meia hora depois do ultimo onibus para Brasov ter partido.
Um momento de panico. Os olhos dos ciganos comunicando que eles estavam reconhecendo a minha situacao fragilizada. Na estacao de trem, o ultimo para Brasov sairia dentro de uma hora, mas chegaria por la perto da meia noite, tarde demais para rumara para meu ultimo destino, Curtea de Arges. Estava me resignando a aparecer na albergue de Brasov e pedir envergonhado a Andra que me recebesse a uma da manha...
So por curiosidade e completa falta de opcao, perguntei sobre Curtea de Arges. A moca que me atendeu falou como se fosse a coisa mais obvia do mundo (e constatando no mapa, ficava obvio mesmo): ir ate Brasov para depois ir a Curtea de Arges tomaria um tempo absurdo! Ela sugeriu uma viagem mais curta, descendo a montanha ate Titu, e depois seguindo pelos vales ate Curtea de Arges. Ainda era um ir e vir, mas as distancias eram muito menores e eu estaria em Curtea de Arges em tres horas.
No entanto, nao havia mais trens naquele dia. O plano passou a ser deixar Targoviste as 6:30 e chegar em Curtea as 9:30, como seu eu tivesse seguido o plano original e acordado meio tarde... Percebi que ia ser isso ou desistir do ultimo destino, o precioso Castelo de Poeinari.
Decidido, arrastei os passos ate o albergue humilde que eu tinha visto perto da estacao de onibus. Acomodacoes modestas. MUITO modestas. Mas uma aventura nao seria uma aventura sem seus altos e baixos. Pelo menos eu tinha meu proprio banheiro... Me fechei no quarto e abri a caixa de botoes de chocolate que minha Lexy me mandara para a Pascoa.
E foi entao que percebi que de fato, era Pascoa.
Na estacao, subi no onibus e fiz minhas financas. Ja estava alem da metade da viagem e ainda muito antes da metade do dinheiro que eu levara. A Romenia estava provando ser um destino relativamente barato.
Durante as duas horas da viagem de onibus, fui pulando de um lado do outro, fotografando e gravando videos. Subimos os Carpatos ate onde ainda havia varios centimetros de neve, descendo depois para Sinais, uma vila agreste perdida no meio do nada, rodeada por florestas de pinheiros que pareciam o cenario perfeito para contos de lobisomem. Eu estava deixando a Transilvania e entrando na Wallachia. Mais adiante, a paisagem voltou a ser planicie, e Targoviste me pegou de surpresa, quando comecei a cochilar.
Fiquei impressionado com Targoviste. Impressionado em um sentido estranho. Dizem os relatos historicos que ha 500 anos, esta era a capital da regiao governada por Vlad III. Foi daqui que ele partiu, cruzou Bran e travou batalha em Brasov.
E no entanto, a cidade era um nada. Uma parada no meio do caminho para caminhoes e trens de carga. Casas pequenas, simples, calcadas esburacadas. E internet quase inexistente... Quando o Rio de Janeiro deixou de ser a capital do Brasil, usou o impulso ganho nos seus anos de importancia para virar uma cidade fundamental para o pais, mesmo sem o poder politico. Claro, Targoviste deixou de ser a capital ha muito tempo, cedendo o lugar para Bucareste, mas ainda assim, eu nao imagino o Rio regredindo tanto.
Eu nao teria sequer me aventurado tao ao sul se nao fosse pela Curtea Domneasca. Andei por quase uma hora, com toda a minha bagagem nas costas (nao achei lugares para deixar tudo aquilo), perguntando aos nativos (ja que nao achei internet para me informar melhor), ate encontrar o lugar. A chamada "Corte do Principe" consistia de uma basilica com um interior de tirar o folego, repleto de imagens de santos do chao ao teto; as ruinas do palacio; e a Turnul Chindiei [Torre de Chindia]. Inicialmente, o terreno abrigava a casa de Mircea, o Velho, quando ele governou a Wallachia. Quando o terreno passou para Vlad Dracul, o pai, este contruiu um suntuoso palacio, do qual hoje sobraram apenas as ruinas. No reinado do seu filho, Vlad Tepes, foi construida a torre, que servia propositos militares e dava o toque de recolher, depois do qual ninguem podia manter fogos acesos para evitar que a cidade fosse vista de longe. Algum tempo depois, provavelmente depois que a capital foi transferida para Bucareste, foi construida a basilica. Hoje a torre abriga uma exibicao de armas e documentos de Vlad III (que estava fechada para a pascoa...), as ruinas sao abertas a visitacao e guardam entalhes de pedra expostos nos subterraneos morbidamente refrigerados do castelo, e a basilica tambem fica aberta, apesar de estar passando por restauracao.
Eu cheguei. Aquilo era o mais proximo que eu ia chegar do verdadeiro Dracula historico, longe da ficcao de Stoker. Ali era o centro do seu imperio, e aquele foi, pelo que eu pude entender, o verdadeiro castelo do Dracula. Mais uma etapa da minha missao estava cumprida! E uma etapa que eu nem sabia que existia quando planejei a viagem...
Na volta, o imprevisivel aconteceu. Cansado pelo peso da mochila, um pouco confuso com uma cidade plana que nao tinha marcos visiveis, me perdi por entre suas ruas humildes. Cheguei na estacao de onibus meia hora depois do ultimo onibus para Brasov ter partido.
Um momento de panico. Os olhos dos ciganos comunicando que eles estavam reconhecendo a minha situacao fragilizada. Na estacao de trem, o ultimo para Brasov sairia dentro de uma hora, mas chegaria por la perto da meia noite, tarde demais para rumara para meu ultimo destino, Curtea de Arges. Estava me resignando a aparecer na albergue de Brasov e pedir envergonhado a Andra que me recebesse a uma da manha...
So por curiosidade e completa falta de opcao, perguntei sobre Curtea de Arges. A moca que me atendeu falou como se fosse a coisa mais obvia do mundo (e constatando no mapa, ficava obvio mesmo): ir ate Brasov para depois ir a Curtea de Arges tomaria um tempo absurdo! Ela sugeriu uma viagem mais curta, descendo a montanha ate Titu, e depois seguindo pelos vales ate Curtea de Arges. Ainda era um ir e vir, mas as distancias eram muito menores e eu estaria em Curtea de Arges em tres horas.
No entanto, nao havia mais trens naquele dia. O plano passou a ser deixar Targoviste as 6:30 e chegar em Curtea as 9:30, como seu eu tivesse seguido o plano original e acordado meio tarde... Percebi que ia ser isso ou desistir do ultimo destino, o precioso Castelo de Poeinari.
Decidido, arrastei os passos ate o albergue humilde que eu tinha visto perto da estacao de onibus. Acomodacoes modestas. MUITO modestas. Mas uma aventura nao seria uma aventura sem seus altos e baixos. Pelo menos eu tinha meu proprio banheiro... Me fechei no quarto e abri a caixa de botoes de chocolate que minha Lexy me mandara para a Pascoa.
E foi entao que percebi que de fato, era Pascoa.
terça-feira, abril 19, 2011
Visiting Vlad - Bran Castle
-"Ce face?" ["O que voce esta fazendo?"] perguntou o garotinho.
Eu estava agachado na Piata Sfatului, fingindo ter comida na mao para ver se os pombos, como os de Veneza, se arriscavam a pousar em mim pra conferir. Os daqui eram mais timidos. O passatempo local da criancada era correr atras dos pombos e jogar pao para ve-los se atirarem as dezenas sobre qualquer pedaco.
Percebi que estava me distraindo e perdendo tempo. Corri para a estacao da cidade e tomei o onibus para Bran. Pouco menos de uma hora de viagem, passando por Rasnov no meio do caminho. Eu tinha lido sobre Rasnov, que tinha um letreiro mais impressionante do que o de Brasov, por estar logo na frente do castelo da cidade. Mas a unica licao a aprender por la era mais sobre estrategias de defesa medieval: a fortaleza de Rasnov, em vez da muralha dupla, tinha muralhas que eram aposentos inteiros. Fiquei imaginando invasores derrubando a muralha e tendo que lutar entre a mobilia dos aposentos, coisa meio complicada...
O onibus me largou no meio da cidade de Bran. No primeiro momento, nao vi o castelo. Mas quando me virei para olhar, ele estava la, quase em cima de mim. Enorme sobre o penhasco, em uma curva da estrada. Um pequeno rio fluindo pelo lado.
Nao vou me deter muito na minha visita ao castelo de Bran. O site deles diz mais do que eu poderia dizer por aqui sem entediar meus leitores. Alem disso, eles tem um tour virtual bem decente.
Devo mencionar que o castelo nao faz apologia a Vlad Tepes. Em vez disso, a visita parece girar em torno da historia da Rainha Marie da Romenia e sua filha Ileana, da Austria, durante a primeira metade do seculo XX. Foram os ultimos ocupantes aristocratas do castelo, que hoje exibe a colecao de moveis de Marie. Parece ter sido um lugar muito gostoso de morar.
Como eu tinha dito no comeco da aventura, Bran nao foi o castelo real de Vlad Tepes. De fato, documentos contam que ele tomou o castelo apenas brevemente em 1459, durante uma de suas excursoes para punir or mercadores germanicos de Brasov, que se recusavam a obedecer as leis de comercio da Wallachia regida por Vlad III. A punicao, obviamente, incluia o brutal impalamento. Diz a lenda que Vlad aprendeu a tecnica durante a epoca em que viveu com os turcos. Seu pai, Vlad Dracul, mandou Vlad e seu irmao Radu para serem refens honorarios dos turcos, como garantia para o tratado de paz entre Dracul e os Otomanos que ele jurou pela Ordem do Dragao a combater. Radu se deu muito bem entre os turcos, enquanto Vlad III foi constantemente maltratado por nao aceitar que seu pai negociasse com o inimigo. Aproveitou para aprender tudo o que pode, e voltou para tomar posse da Wallachia. De volta ao seu pais, empregou tecnicas crueis, mas relativamente comuns em epocas onde outros governantes enforcavam e cravavam seus suditos com estacas como punicao. Ele acreditava que so o terror colocaria ordem interna no pais, fortalecendo-o para combater as ameacas externas. Hoje, o povo romeno o considera um unificador, um heroi historico.
Quanto a sua estadia em Bran, alem do episodio em 1459, tambem soube que depois de perder algumas guerras, Vlad foi pessoalmente pedir financiamento ao governante superior, Mathias Corvinus. Insatisfeito com Vlad, Corvinus o aprisionou por suposta traicao (?), mantendo-o em Bran por dois meses antes de transferi-lo para outro lugar.
Mas se Bran nao foi o castelo de Dracula, porque ele ganha tanta fama como tal?
Pessoalmente, acho que e por causa de uma serie de coincidencias com a historia de Stoker. O castelo ficticio, assim como Bran, tambem era descrito como estando no alto de um penhasco, do lado de um rio. Mais do que isso, Stoker o colocou entre a Transilvania, Moldavia e Bukovina, como eu disse. E Bran estava entre Transilvania, Moldavia e Wallachia. Perdoando a licensa poetica, o aficionado por vampiros diria que Stoker errou por um nome, mas que Bran poderia muito bem ser o castelo.
Vlad Tepes passou por aqui a caminho de Brasov. Era o acesso mais facil a Brasov para um exercito vindo do sudoeste. Mas de onde vinha Vlad III? O centro de seu governo estava em Targoviste, um pouco mais ao sul de Bran. E e pra la que eu vou tentar ir amanha.
Acabam aqui as partes planejadas e reservadas da viagem. Para o resto, ou nao encontrei coisas reservaveis, ou fui aconselhado a chegar nos lugares e procurar. Nem tudo na Romenia esta na internet.
Eu estava agachado na Piata Sfatului, fingindo ter comida na mao para ver se os pombos, como os de Veneza, se arriscavam a pousar em mim pra conferir. Os daqui eram mais timidos. O passatempo local da criancada era correr atras dos pombos e jogar pao para ve-los se atirarem as dezenas sobre qualquer pedaco.
Percebi que estava me distraindo e perdendo tempo. Corri para a estacao da cidade e tomei o onibus para Bran. Pouco menos de uma hora de viagem, passando por Rasnov no meio do caminho. Eu tinha lido sobre Rasnov, que tinha um letreiro mais impressionante do que o de Brasov, por estar logo na frente do castelo da cidade. Mas a unica licao a aprender por la era mais sobre estrategias de defesa medieval: a fortaleza de Rasnov, em vez da muralha dupla, tinha muralhas que eram aposentos inteiros. Fiquei imaginando invasores derrubando a muralha e tendo que lutar entre a mobilia dos aposentos, coisa meio complicada...
O onibus me largou no meio da cidade de Bran. No primeiro momento, nao vi o castelo. Mas quando me virei para olhar, ele estava la, quase em cima de mim. Enorme sobre o penhasco, em uma curva da estrada. Um pequeno rio fluindo pelo lado.
Nao vou me deter muito na minha visita ao castelo de Bran. O site deles diz mais do que eu poderia dizer por aqui sem entediar meus leitores. Alem disso, eles tem um tour virtual bem decente.
Devo mencionar que o castelo nao faz apologia a Vlad Tepes. Em vez disso, a visita parece girar em torno da historia da Rainha Marie da Romenia e sua filha Ileana, da Austria, durante a primeira metade do seculo XX. Foram os ultimos ocupantes aristocratas do castelo, que hoje exibe a colecao de moveis de Marie. Parece ter sido um lugar muito gostoso de morar.
Como eu tinha dito no comeco da aventura, Bran nao foi o castelo real de Vlad Tepes. De fato, documentos contam que ele tomou o castelo apenas brevemente em 1459, durante uma de suas excursoes para punir or mercadores germanicos de Brasov, que se recusavam a obedecer as leis de comercio da Wallachia regida por Vlad III. A punicao, obviamente, incluia o brutal impalamento. Diz a lenda que Vlad aprendeu a tecnica durante a epoca em que viveu com os turcos. Seu pai, Vlad Dracul, mandou Vlad e seu irmao Radu para serem refens honorarios dos turcos, como garantia para o tratado de paz entre Dracul e os Otomanos que ele jurou pela Ordem do Dragao a combater. Radu se deu muito bem entre os turcos, enquanto Vlad III foi constantemente maltratado por nao aceitar que seu pai negociasse com o inimigo. Aproveitou para aprender tudo o que pode, e voltou para tomar posse da Wallachia. De volta ao seu pais, empregou tecnicas crueis, mas relativamente comuns em epocas onde outros governantes enforcavam e cravavam seus suditos com estacas como punicao. Ele acreditava que so o terror colocaria ordem interna no pais, fortalecendo-o para combater as ameacas externas. Hoje, o povo romeno o considera um unificador, um heroi historico.
Quanto a sua estadia em Bran, alem do episodio em 1459, tambem soube que depois de perder algumas guerras, Vlad foi pessoalmente pedir financiamento ao governante superior, Mathias Corvinus. Insatisfeito com Vlad, Corvinus o aprisionou por suposta traicao (?), mantendo-o em Bran por dois meses antes de transferi-lo para outro lugar.
Mas se Bran nao foi o castelo de Dracula, porque ele ganha tanta fama como tal?
Pessoalmente, acho que e por causa de uma serie de coincidencias com a historia de Stoker. O castelo ficticio, assim como Bran, tambem era descrito como estando no alto de um penhasco, do lado de um rio. Mais do que isso, Stoker o colocou entre a Transilvania, Moldavia e Bukovina, como eu disse. E Bran estava entre Transilvania, Moldavia e Wallachia. Perdoando a licensa poetica, o aficionado por vampiros diria que Stoker errou por um nome, mas que Bran poderia muito bem ser o castelo.
Vlad Tepes passou por aqui a caminho de Brasov. Era o acesso mais facil a Brasov para um exercito vindo do sudoeste. Mas de onde vinha Vlad III? O centro de seu governo estava em Targoviste, um pouco mais ao sul de Bran. E e pra la que eu vou tentar ir amanha.
Acabam aqui as partes planejadas e reservadas da viagem. Para o resto, ou nao encontrei coisas reservaveis, ou fui aconselhado a chegar nos lugares e procurar. Nem tudo na Romenia esta na internet.
segunda-feira, abril 18, 2011
Visiting Vlad - Brasov by day
Enquanto escrevo isso, me ocorre que desperdicei um dia ficando para ver Brasov. Mas e aquele tipo de coisa que a gente so percebe depois que ja fez.
Apesar da cidade ser grande, nao houve muito que me interessasse por aqui. A lenda e o fato historico do Dracula tangenciam Brasov e nao deixam muitos rastros na cidade. Ainda assim, passei o dia interessado pela antiga estrutura medieval da cidade, que me ensinou muito depois de ter visto Sighisoara.
Assim como a cidade anterior, Brasov tambem tinha uma muralha pontilhada por torres. E cada uma delas tambem era defendida e mantida por uma das guildas da cidade. Entao depois de comecar o dia novamente na Igreja Negra, ao lado da Piata Sfatului (a Praca do Conselho), fui para as duas torres mais proeminentes da cidade, a Turnul Negru (Torre Negra), pertencente aos ferreiros; e a Turnul Alb (Torre Branca) dos latoeiros (gente que lida com latao).
O interessante sobre essas torres e que elas ficavam no monte proximo da cidade com alguns metros de distancia entre elas e a muralha antiga, hoje ja incorporada pelas casas modernas. Pareceu-me uma estrategia mais interessante do que a de Sighisoara, porque significava que se a torre fosse derrotada, a cidade nao necessariamente seria invadida como consequencia. No entanto, fica claro que Sighisoara nao tinha essa opcao, por ser uma cidade no alto do morro, onde o espaco para colocar torres era pouco, e elas tinham que ser incluidas na muralha mesmo.
Brasov, ao contratio, estabelecera-se em um vale. De inicio me pareceu uma besteira, ja que invasores vindos das montanhas teriam a vantagem de altura. Mas depois imaginei que seria quase impossivel empurrar canhoes ou catapultas morro acima nos Carpatos, e so conseguiriam talves avancar com alguns homens que seriam facilmente derrotados pelas torres. Alem disso, qualquer governante esperto teria sentinelas no alto da montanha para ver a chegada do inimigo.
As estrategias de defesa de Brasov tinham ainda outros detalhes interessantes. A muralha era dupla, e depois do inimigo ter perdido muito para atravessar a primeira, seria encurralado entre o resto dela e uma segunda muralha. No espaco entre as duas ficavam os bastioes da cidade, onde as guarnicoes do exercito se reuniam para suprir as torres.
Um pouco adiante da cidade ficava a fortificacao do governante. Um pequeno castelo no alto de uma colina, com muralhas reforcadas e quatro cantos proeminentes, de onde as sentinelas veriam o inimigo muito antes dele chegar. No centro do castelo, uma vila confortavel e aconchegante rodeava um poco. Hoje, o castelo virou uma especie de atracao noturna, completa com bar e discoteca. Mas e aberto a visitacao durante o dia. Devo admitir que ele esta em pessimo estado de conservacao, paredes ruindo e luminaria quebrada. Parece ser algo constante por aqui. E de certa forma, e um sinal pequeno do que acontece em maior escala em toda Brasov, onde empreendimentos imobiliarios com cara de coisa americana tomam os morros ao redor do centro historico, invadem as muralhas e deformam a identidade centenaria do lugar com uma voracidade maior do que os antigos hunos ou magiares.
A noite, sai com um dinamarques que tambem estava hospedado no albergue para experimentarmos a comida tipica local. Esqueci de mencionar, mas eu ja tinha experimentado a paprica cu pui, mencionada nas primeiras paginas do livro do Bram Stoker como "paprica hendl", com a mamaliga que ele descreve como mingau de milho, a boa e velha polenta. Desta vez, procurei o outro prato mencionado como impletata, que ele descrevia como beringela recheada de carne. Sem conseguir encontra-la, aceitei a sugestao do pessoal do albergue de experimentar a tuchitura transilvania, um delicioso picadinho de carne bovina com bacon e um molho que nao consegui decifrar, mas que com certeza levava paprica. Voltando para casa, peguei o livro e me dei conta de que ele menciona vinhos tambem. Veremos se os encontro.
Apesar da cidade ser grande, nao houve muito que me interessasse por aqui. A lenda e o fato historico do Dracula tangenciam Brasov e nao deixam muitos rastros na cidade. Ainda assim, passei o dia interessado pela antiga estrutura medieval da cidade, que me ensinou muito depois de ter visto Sighisoara.
Assim como a cidade anterior, Brasov tambem tinha uma muralha pontilhada por torres. E cada uma delas tambem era defendida e mantida por uma das guildas da cidade. Entao depois de comecar o dia novamente na Igreja Negra, ao lado da Piata Sfatului (a Praca do Conselho), fui para as duas torres mais proeminentes da cidade, a Turnul Negru (Torre Negra), pertencente aos ferreiros; e a Turnul Alb (Torre Branca) dos latoeiros (gente que lida com latao).
O interessante sobre essas torres e que elas ficavam no monte proximo da cidade com alguns metros de distancia entre elas e a muralha antiga, hoje ja incorporada pelas casas modernas. Pareceu-me uma estrategia mais interessante do que a de Sighisoara, porque significava que se a torre fosse derrotada, a cidade nao necessariamente seria invadida como consequencia. No entanto, fica claro que Sighisoara nao tinha essa opcao, por ser uma cidade no alto do morro, onde o espaco para colocar torres era pouco, e elas tinham que ser incluidas na muralha mesmo.
Brasov, ao contratio, estabelecera-se em um vale. De inicio me pareceu uma besteira, ja que invasores vindos das montanhas teriam a vantagem de altura. Mas depois imaginei que seria quase impossivel empurrar canhoes ou catapultas morro acima nos Carpatos, e so conseguiriam talves avancar com alguns homens que seriam facilmente derrotados pelas torres. Alem disso, qualquer governante esperto teria sentinelas no alto da montanha para ver a chegada do inimigo.
As estrategias de defesa de Brasov tinham ainda outros detalhes interessantes. A muralha era dupla, e depois do inimigo ter perdido muito para atravessar a primeira, seria encurralado entre o resto dela e uma segunda muralha. No espaco entre as duas ficavam os bastioes da cidade, onde as guarnicoes do exercito se reuniam para suprir as torres.
Um pouco adiante da cidade ficava a fortificacao do governante. Um pequeno castelo no alto de uma colina, com muralhas reforcadas e quatro cantos proeminentes, de onde as sentinelas veriam o inimigo muito antes dele chegar. No centro do castelo, uma vila confortavel e aconchegante rodeava um poco. Hoje, o castelo virou uma especie de atracao noturna, completa com bar e discoteca. Mas e aberto a visitacao durante o dia. Devo admitir que ele esta em pessimo estado de conservacao, paredes ruindo e luminaria quebrada. Parece ser algo constante por aqui. E de certa forma, e um sinal pequeno do que acontece em maior escala em toda Brasov, onde empreendimentos imobiliarios com cara de coisa americana tomam os morros ao redor do centro historico, invadem as muralhas e deformam a identidade centenaria do lugar com uma voracidade maior do que os antigos hunos ou magiares.
A noite, sai com um dinamarques que tambem estava hospedado no albergue para experimentarmos a comida tipica local. Esqueci de mencionar, mas eu ja tinha experimentado a paprica cu pui, mencionada nas primeiras paginas do livro do Bram Stoker como "paprica hendl", com a mamaliga que ele descreve como mingau de milho, a boa e velha polenta. Desta vez, procurei o outro prato mencionado como impletata, que ele descrevia como beringela recheada de carne. Sem conseguir encontra-la, aceitei a sugestao do pessoal do albergue de experimentar a tuchitura transilvania, um delicioso picadinho de carne bovina com bacon e um molho que nao consegui decifrar, mas que com certeza levava paprica. Voltando para casa, peguei o livro e me dei conta de que ele menciona vinhos tambem. Veremos se os encontro.
domingo, abril 17, 2011
Visiting Vlad - Pequeno dicionario romeno
[A ser expandido durante a viagem]
ASTEPTARE - Esperar
BILET - Bilhete, ingresso, passagem
BINE - Bem
BUNA - Bom
COPI - Crianca
CU - Com
DA - Sim
DESCHIS - Aberto ("Desfechado"?)
FASOLE - Feijao
INCHIS - Fechado
INPINGE - Empurre
MULTUMESC - Muito obrigado (eles tambem dizem "Merci", mas acho que a intencao e ser o termo em frances mesmo)
NU - Nao
PENTRU - Para
PIACERE - Prazer, usado como "de nada"
PLECARE - Partir
SCUSATI-MI - Com licensa
SERA - Noite
SOSTIRE - Chegar
STREGA - Bruxa
STRIGOI - Fantasma
SUNT - Sou/Estou
TRAGE - Puxe
VANZARE - Vender
VISNI - Cereja
VORBERE - Falar
IUBESC - Amor
IUBIRE - Amar
TE ROG - "Te rogo", "te suplico", expressao para "por favor"
ZIUA - dia
ASTEPTARE - Esperar
BILET - Bilhete, ingresso, passagem
BINE - Bem
BUNA - Bom
COPI - Crianca
CU - Com
DA - Sim
DESCHIS - Aberto ("Desfechado"?)
FASOLE - Feijao
INCHIS - Fechado
INPINGE - Empurre
MULTUMESC - Muito obrigado (eles tambem dizem "Merci", mas acho que a intencao e ser o termo em frances mesmo)
NU - Nao
PENTRU - Para
PIACERE - Prazer, usado como "de nada"
PLECARE - Partir
SCUSATI-MI - Com licensa
SERA - Noite
SOSTIRE - Chegar
STREGA - Bruxa
STRIGOI - Fantasma
SUNT - Sou/Estou
TRAGE - Puxe
VANZARE - Vender
VISNI - Cereja
VORBERE - Falar
IUBESC - Amor
IUBIRE - Amar
TE ROG - "Te rogo", "te suplico", expressao para "por favor"
ZIUA - dia
Visiting Vlad - Lost in Brasov
Me despedi da recepcionista com caninos longos e aversao a alho do albergue em Sighisoara.
Na estacao de onibus, meu romeno ja estava tomando forma:
EU - "Buna ziua! Scusati-mi, te rog, autobus pentru Brasov?" [Bom dia! Com licensa, por favor, o onibus para Brasov?]
?? - Nu, ?????? autobus. ??????? treni. [Sem onibus, algo sobre trens]
EU - "Ah, bine.... Multumesc" [Ah, esta bem, muito obrigado]
Mais adiante, eu outra compania de onibus, encontrei um que iria para Brasov. Estava receoso dos trens, por ouvir rumores de que iam cheios de ciganos. E nao os boiardos, os outros, que eram insistentes e cheios de truques.
O onibus me levou para Brasov em quatro horas. A paisagem mudou lentamente das planicies ao pe dos Carpatos, para embrenhar-se pelas montanhas e por florestas de arvores peladas. Algumas montanhas eram cobertas de arvores com folhas vermelhas, como montanhas de sangue. Depois de um tempo, a paisagem voltou a planicie, desta vez com os picos nevados dos Carpatos ao fundo, surgindo primeiro atraves da nevoa, como fantasmas, e gradualmente ficando mais definidos. Pouco tempo depois, desci em Brasov.
O comeco foi confuso. Era um domingo, as agencias de informacao estavam fechadas, nao havia lugar nenhum para pegar um mapa e aqueles ciganos apareciam em todos os lugares. Decifrando os mapas de pontos de onibus, consegui entender o que me levaria ao albergue. O Onibus me deixou perto da praca principal, a Piata Strafului, logo em frente a Igreja Negra. Eu tinha lido sobre a igreja, que recebeu o nome depois que a fuligem de um incendio deixou suas pedras pretas. Hoje, depois de um intenso programa de restauracao, ela tinha sido escovada ate ficar.... bem, cinza. Minha primeira visao dela nao poderia ter sido mais publicitaria: na composicao do meu ponto de vista, o relogio da igreja alinhava com o singelo letreiro com o nome da cidade nas montanhas ao fundo.
Da praca, caminhei um pouco. Atravessei a Porta Schei e segui ate um dos cantos da cidade. Porque e que albergues sao sempre nos cantos da cidade? Eu sei, por causa do preco... Demorei para achar o albergue. Eles nao tinham placa alguma na porta e eu tinha cometido um dos meus erros tipicos: tinha visto na internet tudo sobre como chegar la, menos o numero da casa. E nao estava anotado em lugar nenhum. Mas apesar do desespero, eu raramente perco a calma nessas horas. Andei por muito tempo, ate dar em um hotel com o mesmo nome (e precos bem mais caros). A dona, muito solicita, me deixou usar o computador para ver os detalhes do albergue na internet.
A turma do albergue era mais estressada do que o pessoal em Sighisoara. Pudera: aquele estava vazio salvo por mim e a escritora americana, enquanto o de Brasov estava recebendo grupos inteiros,avidos por informacao sobre os varios castelos da regiao (ao contrario do que eu pensava, nem todo mundo vai a Romenia para visitar o de Bran e ouvir sobre o Dracula). Depois de uma explicacao acelerada da recepcionista, sai para a cidade para comer um KFC (quem diria, e bem caro na Romenia!), deixando as iguarias locais para o dia seguinte. Logo depois, muito cansado, resolvi voltar, relaxar e ler mais sobre Stoker. Comecaria bem cedo no dia seguinte.
Na estacao de onibus, meu romeno ja estava tomando forma:
EU - "Buna ziua! Scusati-mi, te rog, autobus pentru Brasov?" [Bom dia! Com licensa, por favor, o onibus para Brasov?]
?? - Nu, ?????? autobus. ??????? treni. [Sem onibus, algo sobre trens]
EU - "Ah, bine.... Multumesc" [Ah, esta bem, muito obrigado]
Mais adiante, eu outra compania de onibus, encontrei um que iria para Brasov. Estava receoso dos trens, por ouvir rumores de que iam cheios de ciganos. E nao os boiardos, os outros, que eram insistentes e cheios de truques.
O onibus me levou para Brasov em quatro horas. A paisagem mudou lentamente das planicies ao pe dos Carpatos, para embrenhar-se pelas montanhas e por florestas de arvores peladas. Algumas montanhas eram cobertas de arvores com folhas vermelhas, como montanhas de sangue. Depois de um tempo, a paisagem voltou a planicie, desta vez com os picos nevados dos Carpatos ao fundo, surgindo primeiro atraves da nevoa, como fantasmas, e gradualmente ficando mais definidos. Pouco tempo depois, desci em Brasov.
O comeco foi confuso. Era um domingo, as agencias de informacao estavam fechadas, nao havia lugar nenhum para pegar um mapa e aqueles ciganos apareciam em todos os lugares. Decifrando os mapas de pontos de onibus, consegui entender o que me levaria ao albergue. O Onibus me deixou perto da praca principal, a Piata Strafului, logo em frente a Igreja Negra. Eu tinha lido sobre a igreja, que recebeu o nome depois que a fuligem de um incendio deixou suas pedras pretas. Hoje, depois de um intenso programa de restauracao, ela tinha sido escovada ate ficar.... bem, cinza. Minha primeira visao dela nao poderia ter sido mais publicitaria: na composicao do meu ponto de vista, o relogio da igreja alinhava com o singelo letreiro com o nome da cidade nas montanhas ao fundo.
Da praca, caminhei um pouco. Atravessei a Porta Schei e segui ate um dos cantos da cidade. Porque e que albergues sao sempre nos cantos da cidade? Eu sei, por causa do preco... Demorei para achar o albergue. Eles nao tinham placa alguma na porta e eu tinha cometido um dos meus erros tipicos: tinha visto na internet tudo sobre como chegar la, menos o numero da casa. E nao estava anotado em lugar nenhum. Mas apesar do desespero, eu raramente perco a calma nessas horas. Andei por muito tempo, ate dar em um hotel com o mesmo nome (e precos bem mais caros). A dona, muito solicita, me deixou usar o computador para ver os detalhes do albergue na internet.
A turma do albergue era mais estressada do que o pessoal em Sighisoara. Pudera: aquele estava vazio salvo por mim e a escritora americana, enquanto o de Brasov estava recebendo grupos inteiros,avidos por informacao sobre os varios castelos da regiao (ao contrario do que eu pensava, nem todo mundo vai a Romenia para visitar o de Bran e ouvir sobre o Dracula). Depois de uma explicacao acelerada da recepcionista, sai para a cidade para comer um KFC (quem diria, e bem caro na Romenia!), deixando as iguarias locais para o dia seguinte. Logo depois, muito cansado, resolvi voltar, relaxar e ler mais sobre Stoker. Comecaria bem cedo no dia seguinte.
sexta-feira, abril 15, 2011
Visiting Vlad - Sighisoara
Quisera ter feito videos do trajeto entre Tirgu Mures e Sighisoara. Parte do cenario era o tipico filme de vampiros. Parti em uma manha nublada e chuvosa, por planicies repletas de arvores sem folhas e cemiterios de tumbas retorcidas, cobertas de musgo. A planicie se estendia ate o horizonte, onde os primeiros sinais dos Carpatos se projetavam contra o seu nublado.
Nao gravei imagens, por estar entretido em uma conversa produtiva com um casal de alemaes. Me ajudaram a localizar o onibus certo e a falar com o motorista. Mas depois fiquei encabulado de filmar o trajeto pela janela do lado deles.
No nosso trajeto, pegamos camponeses com chapeus enormes e camponesas em saias floridas e lenco na cabeca, que nao se intimidavam na hora de botar o seio para fora e alimentar seus bebes. Eram os boiardos, uma variedade dos ciganos da regiao. As outras criancas falavam um lento romeno que parecia o entoar de magia. Prolongados "la" e vibrantes Rs, em uma melodia bem peculiar.
Uma breve passada no divertido albergue para deixar as minhas coisas, e logo parti para ver a cidade, que ja mostrava sinais de estar na base dos Carpatos. Todo aquele clima de leste europeu estava la, os predios meio decaidos, nao muito cuidados; rodeados por uma natureza hostil, porem muito bonita; e a presenca sempre forte da igreja ortodoxa nas igrejas majestosas e impecaveis contrastando com o desgaste arquitetonico local.
Entrei na area murada da cidade (o "burgo" de Sighisoara) pela torre do relogio. Quase fiquei em uma pensao ao pe da torre, nao fosse o preco alto. Parecia estranhamente correto: todos os jogos da franquia Castlevania que eu jogava na infancia tinham uma fase que se passava dentro de uma torre do relogio, antes de chegar ao castelo do Dracula. Na minha edicao favorita do jogo, vencer a fase do relogio dava acesso ao personagem Grant Danasty [1][2], cujo sobrenome era uma corruptela de Danesti, a linhagem similar porem rival a familia de Vlad.
O interior da torre hoje abriga um museu com um pouco da historia de Sighisoara e uma vista interessante dos mecanismos do relogio (muito mais simples e em melhor estado do que os do jogo...). Do alto da torre, pude ver a cidade inteira, alem de placas que indicavam a distancia para diversas cidades na Europa, com Londres entre elas.
Logo ao lado da torre, encontrei o que procurava. Uma casinha simples tinha um dragao na porta anunciando que aquilo hoje era um restaurante. A "Casa Dracula", como era chamada, tinha outra placa na parede que proclamava em romeno que "neste local, entre os anos de 1431 e 1435, habitou Vlad Dracul, filho de Mircea, o Velho". Tratava-se do pai de Dracula, Vlad II.
A cidade tinha uma antiga muralha do seculo 14 que, embora um pouco destruida pelo tempo, ainda mantinha muito de sua graca. Originalmente, ela deveria ter 14 torres, cada uma mantida por uma das guildas da cidade (a Guilda dos Ferreiros, dos Acougueiros, dos Carpinteiros, etc.), alem de cinco bastioes de artilharia. Com o passar do tempo, sobraram 9 torres e 2 bastioes. Seguindo-a, encontrei a "igreja na colina" depois de subir os 172 degraus da escada coberta, e alem dela, o cemiterio germano.
E possivel ver Sighisoara em um dia, se o passeio for bem planejado. Uma trupe de cinco atores vestidos em roupas de epoca passeia pelas ruas regularmente, contando detalhes engracados aos turistas em romeno e anunciando sua localizacao com um tambor medieval. As lojinhas de souvenirs estao em todas as partes e vendem coisas que vao do Dracula mitologico ao verdadeiro governante romeno, alem de artesanato local.
Durante os dois dias que fiquei na cidade, sempre voltei ao albergue durante o por do sol, atravessando a ponte de pedestres sob aquela peculiar luz do entardecer nos Carpatos. A turma do albergue foi muito divertida e informativa, e conversamos ate as primeiras horas da manha. Alem deles, conheci uma estudante de literatura americana que estava fazendo o caminho inverso ao meu, vindo de Brasov, e que me deu varias dicas, alem de trocarmos figurinhas sobre vampiros.
O melhor de tudo e que a ansiedade do primeiro dia sumiu, a medida que fui ficando mais a vontade no pais.
Amanha, Brasov. A apelidada "Hollywood romena" por causa do enorme letreiro em uma das colinas proximas.
Nao gravei imagens, por estar entretido em uma conversa produtiva com um casal de alemaes. Me ajudaram a localizar o onibus certo e a falar com o motorista. Mas depois fiquei encabulado de filmar o trajeto pela janela do lado deles.
No nosso trajeto, pegamos camponeses com chapeus enormes e camponesas em saias floridas e lenco na cabeca, que nao se intimidavam na hora de botar o seio para fora e alimentar seus bebes. Eram os boiardos, uma variedade dos ciganos da regiao. As outras criancas falavam um lento romeno que parecia o entoar de magia. Prolongados "la" e vibrantes Rs, em uma melodia bem peculiar.
Uma breve passada no divertido albergue para deixar as minhas coisas, e logo parti para ver a cidade, que ja mostrava sinais de estar na base dos Carpatos. Todo aquele clima de leste europeu estava la, os predios meio decaidos, nao muito cuidados; rodeados por uma natureza hostil, porem muito bonita; e a presenca sempre forte da igreja ortodoxa nas igrejas majestosas e impecaveis contrastando com o desgaste arquitetonico local.
Entrei na area murada da cidade (o "burgo" de Sighisoara) pela torre do relogio. Quase fiquei em uma pensao ao pe da torre, nao fosse o preco alto. Parecia estranhamente correto: todos os jogos da franquia Castlevania que eu jogava na infancia tinham uma fase que se passava dentro de uma torre do relogio, antes de chegar ao castelo do Dracula. Na minha edicao favorita do jogo, vencer a fase do relogio dava acesso ao personagem Grant Danasty [1][2], cujo sobrenome era uma corruptela de Danesti, a linhagem similar porem rival a familia de Vlad.
O interior da torre hoje abriga um museu com um pouco da historia de Sighisoara e uma vista interessante dos mecanismos do relogio (muito mais simples e em melhor estado do que os do jogo...). Do alto da torre, pude ver a cidade inteira, alem de placas que indicavam a distancia para diversas cidades na Europa, com Londres entre elas.
Logo ao lado da torre, encontrei o que procurava. Uma casinha simples tinha um dragao na porta anunciando que aquilo hoje era um restaurante. A "Casa Dracula", como era chamada, tinha outra placa na parede que proclamava em romeno que "neste local, entre os anos de 1431 e 1435, habitou Vlad Dracul, filho de Mircea, o Velho". Tratava-se do pai de Dracula, Vlad II.
A cidade tinha uma antiga muralha do seculo 14 que, embora um pouco destruida pelo tempo, ainda mantinha muito de sua graca. Originalmente, ela deveria ter 14 torres, cada uma mantida por uma das guildas da cidade (a Guilda dos Ferreiros, dos Acougueiros, dos Carpinteiros, etc.), alem de cinco bastioes de artilharia. Com o passar do tempo, sobraram 9 torres e 2 bastioes. Seguindo-a, encontrei a "igreja na colina" depois de subir os 172 degraus da escada coberta, e alem dela, o cemiterio germano.
E possivel ver Sighisoara em um dia, se o passeio for bem planejado. Uma trupe de cinco atores vestidos em roupas de epoca passeia pelas ruas regularmente, contando detalhes engracados aos turistas em romeno e anunciando sua localizacao com um tambor medieval. As lojinhas de souvenirs estao em todas as partes e vendem coisas que vao do Dracula mitologico ao verdadeiro governante romeno, alem de artesanato local.
Durante os dois dias que fiquei na cidade, sempre voltei ao albergue durante o por do sol, atravessando a ponte de pedestres sob aquela peculiar luz do entardecer nos Carpatos. A turma do albergue foi muito divertida e informativa, e conversamos ate as primeiras horas da manha. Alem deles, conheci uma estudante de literatura americana que estava fazendo o caminho inverso ao meu, vindo de Brasov, e que me deu varias dicas, alem de trocarmos figurinhas sobre vampiros.
O melhor de tudo e que a ansiedade do primeiro dia sumiu, a medida que fui ficando mais a vontade no pais.
Amanha, Brasov. A apelidada "Hollywood romena" por causa do enorme letreiro em uma das colinas proximas.
Visiting Vlad - A spell of anxiety
["Spell" em ingles, vale para o verbo "soletrar", mas tambem para o substantivo "maldicao" e para referir-se a sintomas passageiros]
Minha primeira noite na Romenia nao foi facil. Assim como minha primeira noite na Italia, eu senti a tensao de um dos meus ataques de ansiedade querendo se instalar. Depois de ter encontrado um lugar com internet para mandar noticias e comido algo rapido (no McDonald`s, assim como naquela primeira noite na Italia), eu voltei para meu quarto de hotel para tentar relaxar. Tomei um banho, deitei no carpete do amplo espaco do meu quarto e tentei lentamente perceber todos os meus musculos tensos e tentar forca-los a relaxar. Essa tensao era um dos principais aspectos da ansiedade e surgia sempre que eu me distanciava de minha rotinas planejadas. Minha cabeca fervilhava com pensamentos inspirados, porem sofridos, flashes rapidos como videoclipe. Era algo assim:
A spell of anxiety
"Spell", sintoma passageiro
"to spell", soletrar
"Spell", maldicao na terra dos vampiros
O que e que eu estou fazendo aqui, afinal? Que loucura e essa?
Vontade de pegar um aviao de volta amanha. De volta para onde? Londres? Sao Paulo?
Imagens de Lucy Westerna contorcendo-se na cama durante um ataque de um Dracula invisivel
Um anuncio em romeno na televisao: o tom declamatorio da publicidade fazia aquilo um pouco mais familiar
Percebi que o embate com a linguagem ao mesmo tempo familiar e alheia (alien) piorava minha tensao: eu estava saturado dela por hoje
Me levanto para mudar de canal e colocar em uma MTV romena, a Kiss TV, onde hip hop americano me fornece um ingles mais palatavel, ainda que a qualidade da programacao seja pessima
Deito de novo: a mudanca de perspectiva me traz imagens do castelo no filme do Coppola, de perspectivas que confundem o que e chao, parede e teto
Me sinto mentalmente fragil, como um ingles da era Vitoriana (como Bram Stoker), sendo invadido por um sublime que sua personalidade contida nao consegue aguentar
Sera que isso sempre vai acontecer nas minhas primeiras noites em terras estranhas? Deveria me programar em proximas viagens para lidar com isso
Depois de algum tempo, um pouco mais sob controle, desliguei a TV e procurei o refugio dos livros que trouxe comigo. Li ate as primeiras horas da manha sobre a vida de Stoker. Me identifiquei com sua infancia meio doente, seu amor pela literatura e sua mania de organizacao que o fez um bom contador (como eu organizo minusiosamente minhas financas), mas nao com o porte atletico que o fez popular na faculdade ou com os detalhes da vida na Irlanda. Soube que ele se tornou critico de teatro nao-pago porque sentia que o ator Henry Irving merecia alguem que o elogiasse, e largou um bom emprego como contador do governo quando Irving o convidou para gerenciar um teatro em Londres com ele. Tal atitude servical seria caricaturada em Dracula, em personagens como Renfield e o protagonista Jonathan Harker, que servem aos minimos desejos do conde. O primeiro e levado a loucura por isso, enquanto o outro rebela-se e foge do castelo.
A relacao de Stoker e Irving foi poderosa, e deu fama ao ator em vida, e ao escritor alem da morte. Minha vontade de identificar-me com essa historia e tamanha, que me pergunto se ainda encontrarei um Irving/Dracula a quem servir para ficar na historia, ou um Stoker/Renfield que me fara famoso em vida. Devaneios...
Acordei de manha apenas com um aftertaste da ansiedade passada. Esperava nao sentir mais isso durante a viagem.
Minha primeira noite na Romenia nao foi facil. Assim como minha primeira noite na Italia, eu senti a tensao de um dos meus ataques de ansiedade querendo se instalar. Depois de ter encontrado um lugar com internet para mandar noticias e comido algo rapido (no McDonald`s, assim como naquela primeira noite na Italia), eu voltei para meu quarto de hotel para tentar relaxar. Tomei um banho, deitei no carpete do amplo espaco do meu quarto e tentei lentamente perceber todos os meus musculos tensos e tentar forca-los a relaxar. Essa tensao era um dos principais aspectos da ansiedade e surgia sempre que eu me distanciava de minha rotinas planejadas. Minha cabeca fervilhava com pensamentos inspirados, porem sofridos, flashes rapidos como videoclipe. Era algo assim:
A spell of anxiety
"Spell", sintoma passageiro
"to spell", soletrar
"Spell", maldicao na terra dos vampiros
O que e que eu estou fazendo aqui, afinal? Que loucura e essa?
Vontade de pegar um aviao de volta amanha. De volta para onde? Londres? Sao Paulo?
Imagens de Lucy Westerna contorcendo-se na cama durante um ataque de um Dracula invisivel
Um anuncio em romeno na televisao: o tom declamatorio da publicidade fazia aquilo um pouco mais familiar
Percebi que o embate com a linguagem ao mesmo tempo familiar e alheia (alien) piorava minha tensao: eu estava saturado dela por hoje
Me levanto para mudar de canal e colocar em uma MTV romena, a Kiss TV, onde hip hop americano me fornece um ingles mais palatavel, ainda que a qualidade da programacao seja pessima
Deito de novo: a mudanca de perspectiva me traz imagens do castelo no filme do Coppola, de perspectivas que confundem o que e chao, parede e teto
Me sinto mentalmente fragil, como um ingles da era Vitoriana (como Bram Stoker), sendo invadido por um sublime que sua personalidade contida nao consegue aguentar
Sera que isso sempre vai acontecer nas minhas primeiras noites em terras estranhas? Deveria me programar em proximas viagens para lidar com isso
Depois de algum tempo, um pouco mais sob controle, desliguei a TV e procurei o refugio dos livros que trouxe comigo. Li ate as primeiras horas da manha sobre a vida de Stoker. Me identifiquei com sua infancia meio doente, seu amor pela literatura e sua mania de organizacao que o fez um bom contador (como eu organizo minusiosamente minhas financas), mas nao com o porte atletico que o fez popular na faculdade ou com os detalhes da vida na Irlanda. Soube que ele se tornou critico de teatro nao-pago porque sentia que o ator Henry Irving merecia alguem que o elogiasse, e largou um bom emprego como contador do governo quando Irving o convidou para gerenciar um teatro em Londres com ele. Tal atitude servical seria caricaturada em Dracula, em personagens como Renfield e o protagonista Jonathan Harker, que servem aos minimos desejos do conde. O primeiro e levado a loucura por isso, enquanto o outro rebela-se e foge do castelo.
A relacao de Stoker e Irving foi poderosa, e deu fama ao ator em vida, e ao escritor alem da morte. Minha vontade de identificar-me com essa historia e tamanha, que me pergunto se ainda encontrarei um Irving/Dracula a quem servir para ficar na historia, ou um Stoker/Renfield que me fara famoso em vida. Devaneios...
Acordei de manha apenas com um aftertaste da ansiedade passada. Esperava nao sentir mais isso durante a viagem.
quinta-feira, abril 14, 2011
Visiting Vlad - Arrival
Depois de duas horas de viagem atraves de um ceu nublado, descemos abaixo do nivel das nuvens e tive minha primeira visao da Romenia. Minha impressao era de que ate a luz aqui e diferente. Mais dourada. Lembra um tanto a iluminacao no filme do Coppola.
A imagem la do alto era de uma terra rustica, agricola, de muitas areas cultivadas e poucas cidades. Casas baixas, sempre menores do que as igrejas locais.
O povo daqui nao parecia muito diferente do povo italiano. Seus rostos camponeses, estaturas medianas.
Mas fiquei fascinado com o idioma. Ja enquanto procurava os detalhes pela iternet, pude perceber como era um idioma parecido com o italiano que eu aprendi ("buna sera" dizem eles a noite). De fato, aparentemente ambos os idiomas tem uma fonte comum no latim. No entanto, a semelhanca era mais perceptivel no texto do que na lingua falada, e tentar entender o que eles dizem e um exercicio complicado. Ainda assim, a maioria das pessoas fala ingles e eu consigo me virar muito bem por aqui.
Algumas percepcoes daqui sao memorias revividas dos meus primeiros dias em Perugia. O cheiro do ar lembra cidades medievais, o ar mais frio de onde a primavera ainda nao chegou, a iluminacao noturna alaranjada do centro da cidade, os computadores sem acentos... Mas principalmente esse embate com o idioma e essa sensacao de nao-familiaridade que atica um pouco a minha sindrome de ansiedade.
Amanha parto para Sighisoara, a cidade onde Dracula nasceu.
Enquanto isso, aproveitem uma das minhas cenas favoritas do filme do Coppola.
A imagem la do alto era de uma terra rustica, agricola, de muitas areas cultivadas e poucas cidades. Casas baixas, sempre menores do que as igrejas locais.
O povo daqui nao parecia muito diferente do povo italiano. Seus rostos camponeses, estaturas medianas.
Mas fiquei fascinado com o idioma. Ja enquanto procurava os detalhes pela iternet, pude perceber como era um idioma parecido com o italiano que eu aprendi ("buna sera" dizem eles a noite). De fato, aparentemente ambos os idiomas tem uma fonte comum no latim. No entanto, a semelhanca era mais perceptivel no texto do que na lingua falada, e tentar entender o que eles dizem e um exercicio complicado. Ainda assim, a maioria das pessoas fala ingles e eu consigo me virar muito bem por aqui.
Algumas percepcoes daqui sao memorias revividas dos meus primeiros dias em Perugia. O cheiro do ar lembra cidades medievais, o ar mais frio de onde a primavera ainda nao chegou, a iluminacao noturna alaranjada do centro da cidade, os computadores sem acentos... Mas principalmente esse embate com o idioma e essa sensacao de nao-familiaridade que atica um pouco a minha sindrome de ansiedade.
Amanha parto para Sighisoara, a cidade onde Dracula nasceu.
Enquanto isso, aproveitem uma das minhas cenas favoritas do filme do Coppola.
quarta-feira, abril 13, 2011
Visiting Vlad - Romania
Romênia.
Rodeada pela Sérbia e Bulgária ao sul, Hungria e Ucrânia ao norte e com a Moldávia crescendo no nordeste como um calo. O país em si é dividido por três regiões.
Ao noroeste, a conhecida Transilvânia (como já mencionei, do latim "trans" - além; e "sylvam" - floresta ou bosque). Eu devo chegar no país por lá, pousando em Tirgu Mures, uma cidade rodeada pelos Cárpatos, a característica cordilheira de montanhas que até hoje fica no inconsciente coletivo quando mencionamos a Transilvânia.
Ao nordeste, a região da Moldávia (sim, como o país que situa-se além das fronteiras romenas naquela direção). Stoker colocou o castelo do Conde entre a Transilvânia, a Moldávia, e uma região ao norte chamada Bukovina, hoje pertencente à Ucrânia. O protagonista Jonathan Harker atravessa Bistrita, uma cidade que existe ainda na Transilvânia, para chegar ao castelo. Porém Drácula nunca esteve nessa região, e hoje há por lá apenas uma atração turistica criada em cima do livro, sem conexão com o verdadeiro príncipe romeno.
Acreditando que seria perda de tempo ir atrás disso, marquei minha viagem para ir para o sul, em direção da terceira região, a Wallachia ("Ualaquía"). Do outro lado dos Cárpatos, foi aqui que Drácula viveu e batalhou de fato. A região recebe o nome do termo Valach, usado pelos germanos para se referir aos estrangeiros (geralmente invasores). Eu tinha ouvido coisa similar na Itália, onde o termo bárbaro veio de babale, o gaguejar característico de quem vem de fora e tenta falar um idioma que não é o seu.
Meu primeiro objetivo vai ser chegar em Bran, perto da divisa entre as três regiões. Me ponho a pensar que Stoker acertou ao colocar o castelo do conde em uma divisa similar, mas errou por alguns quilômetros e mencionou uma região errada. Em Bran fica o que é anunciado como o verdadeiro castelo do Conde Drácula.
Mas como veremos durante a viagem, a verdade por aqui não é assim tão clara e óbvia.
A região foi palco de muita guerra durante a idade média, o que causou ondas migratórias que misturaram os povos. Os romenos são uma mistura incompreensível de povos do leste europeu, dentre os quais se destacam os magiares da Hungria, os szelekys nativos da Transilvânia, os dácios que foram parte do império romano e toda sorte de povos de origem eslava.
Essa mistura de povos (e consequentemente de versões da história) cria uma terra onde a verdade é difícil de achar, o fato histórico é um mito e o mito, um fato histórico. Já comentei por aqui como a conhecida imagem do próprio Vlad era na verdade um de seus cortesãos. E mesmo o castelo de Bran só chegou a ser ocupado por ele brevemente em 1459 (sua morada, veremos, era mais ao oeste).
Mas isso tudo eu irei desvendando ao longo dos relatos.
Rodeada pela Sérbia e Bulgária ao sul, Hungria e Ucrânia ao norte e com a Moldávia crescendo no nordeste como um calo. O país em si é dividido por três regiões.
Ao noroeste, a conhecida Transilvânia (como já mencionei, do latim "trans" - além; e "sylvam" - floresta ou bosque). Eu devo chegar no país por lá, pousando em Tirgu Mures, uma cidade rodeada pelos Cárpatos, a característica cordilheira de montanhas que até hoje fica no inconsciente coletivo quando mencionamos a Transilvânia.
Ao nordeste, a região da Moldávia (sim, como o país que situa-se além das fronteiras romenas naquela direção). Stoker colocou o castelo do Conde entre a Transilvânia, a Moldávia, e uma região ao norte chamada Bukovina, hoje pertencente à Ucrânia. O protagonista Jonathan Harker atravessa Bistrita, uma cidade que existe ainda na Transilvânia, para chegar ao castelo. Porém Drácula nunca esteve nessa região, e hoje há por lá apenas uma atração turistica criada em cima do livro, sem conexão com o verdadeiro príncipe romeno.
Acreditando que seria perda de tempo ir atrás disso, marquei minha viagem para ir para o sul, em direção da terceira região, a Wallachia ("Ualaquía"). Do outro lado dos Cárpatos, foi aqui que Drácula viveu e batalhou de fato. A região recebe o nome do termo Valach, usado pelos germanos para se referir aos estrangeiros (geralmente invasores). Eu tinha ouvido coisa similar na Itália, onde o termo bárbaro veio de babale, o gaguejar característico de quem vem de fora e tenta falar um idioma que não é o seu.
Meu primeiro objetivo vai ser chegar em Bran, perto da divisa entre as três regiões. Me ponho a pensar que Stoker acertou ao colocar o castelo do conde em uma divisa similar, mas errou por alguns quilômetros e mencionou uma região errada. Em Bran fica o que é anunciado como o verdadeiro castelo do Conde Drácula.
Mas como veremos durante a viagem, a verdade por aqui não é assim tão clara e óbvia.
A região foi palco de muita guerra durante a idade média, o que causou ondas migratórias que misturaram os povos. Os romenos são uma mistura incompreensível de povos do leste europeu, dentre os quais se destacam os magiares da Hungria, os szelekys nativos da Transilvânia, os dácios que foram parte do império romano e toda sorte de povos de origem eslava.
Essa mistura de povos (e consequentemente de versões da história) cria uma terra onde a verdade é difícil de achar, o fato histórico é um mito e o mito, um fato histórico. Já comentei por aqui como a conhecida imagem do próprio Vlad era na verdade um de seus cortesãos. E mesmo o castelo de Bran só chegou a ser ocupado por ele brevemente em 1459 (sua morada, veremos, era mais ao oeste).
Mas isso tudo eu irei desvendando ao longo dos relatos.
terça-feira, abril 12, 2011
Visiting Vlad - Prologue
In the vampire world gender roles are confusing: Dracula penetrates, but he - not the woman - receives the vital fluid, blood/semen.
[BELFORD, Barbara. Bram Stoker: A Biography of the Author of Dracula. London: Phoenix, 1997]
Aqui começam os relatos da minha visita à Romênia, em busca do castelo de Drácula. A viagem ainda não começou, e eu me encontro neste momento terminando minhas obrigações do mestrado em artes na faculdade de Chelsea, em Londres. Uma raridade aconteceu: eu comecei a lidar com essas obrigações com antecedência suficiente para poder me presentear o tempo para pesquisar sobre este personagem que, de acordo com o livro citado acima, já superou o diabo como ícone do mal e só perde em citações literárias para Sherlock Holmes.
Minha escolha por essa viagem parecia no começo ter sido isolada da minha pesquisa sobre gender roles no mestrado. Mas eu já sabia que existiam conexões. Os vampiros de Anne Rice tinham sido os primeiros a me chamar a atenção para o fato de que essas criaturas pertencem ao sobrenatural ("além do natural"), e portanto além das distinções de sexo, idade ou parentesco (Louis e Lestat, Louis e Claudia, Lestat e Gabrielle). Fazia muito sentido portanto que Bram Stoker tivesse situado tal criatura na Transilvânia que, conforme me dei conta pesquisando o lugar, era a "área além da selva" (do latim: "trans" - além; "silvana" - silvícola, relativo à selva, ao bosque, ao natural).
De certa forma, eu estava tomando o recesso da faculdade para descansar da pesquisa, sem no entanto abandoná-la completamente.
Vou para esta viagem acompanhado de dois livros: o original Dracula de Bram Stoker, em inglês; e o livro citado acima, uma biografia sobre Stoker que cita documentos históricos, notas pessoas do autor e faz um bom apanhado sobre a época em que o livro foi escrito. De início, já aponto algumas coisas:
• Stoker viveu e escreveu no fim da Era Vitoriana na Inglaterra, uma época cheia de morais e bons costumes, que o autor prezava e tentava proteger da Era Moderna que chegava. Seu vampiro é uma metáfora de todos os desejos reprimidos que os vitorianos mantinham, o monstro perfeito do romantismo, e ao mesmo tempo uma alegoria do modernismo chegando para arrebatar toda essa época, sodomizá-la e converte-la com seu liberalismo, sua sexualidade e sua psicanálise.
• O Conde Drácula histórico foi apenas um veículo para Stoker comunicar sua história. Sua real inspiração veio de uma relação conturbada com o ator inglês Henry Irving, que inspirou os modos e o poder dominador do Dácula fictício. A história toda é uma codificação do medo e fascínio de Stoker por Irving, de seu sentimento de masculinidade ameaçada e do processo psicológico de "matar a figura paterna" que Irving veio a representar para ele.
Tentarei escrever a maior parte das coisas em forma de notas curtas, para não perder tanto tempo e ímpeto burilando textos mais complexos. Mas os próximos dois posts vão ser um pouco longos sim, para contar a história do conde e de seu país.
[BELFORD, Barbara. Bram Stoker: A Biography of the Author of Dracula. London: Phoenix, 1997]
Aqui começam os relatos da minha visita à Romênia, em busca do castelo de Drácula. A viagem ainda não começou, e eu me encontro neste momento terminando minhas obrigações do mestrado em artes na faculdade de Chelsea, em Londres. Uma raridade aconteceu: eu comecei a lidar com essas obrigações com antecedência suficiente para poder me presentear o tempo para pesquisar sobre este personagem que, de acordo com o livro citado acima, já superou o diabo como ícone do mal e só perde em citações literárias para Sherlock Holmes.
Minha escolha por essa viagem parecia no começo ter sido isolada da minha pesquisa sobre gender roles no mestrado. Mas eu já sabia que existiam conexões. Os vampiros de Anne Rice tinham sido os primeiros a me chamar a atenção para o fato de que essas criaturas pertencem ao sobrenatural ("além do natural"), e portanto além das distinções de sexo, idade ou parentesco (Louis e Lestat, Louis e Claudia, Lestat e Gabrielle). Fazia muito sentido portanto que Bram Stoker tivesse situado tal criatura na Transilvânia que, conforme me dei conta pesquisando o lugar, era a "área além da selva" (do latim: "trans" - além; "silvana" - silvícola, relativo à selva, ao bosque, ao natural).
De certa forma, eu estava tomando o recesso da faculdade para descansar da pesquisa, sem no entanto abandoná-la completamente.
Vou para esta viagem acompanhado de dois livros: o original Dracula de Bram Stoker, em inglês; e o livro citado acima, uma biografia sobre Stoker que cita documentos históricos, notas pessoas do autor e faz um bom apanhado sobre a época em que o livro foi escrito. De início, já aponto algumas coisas:
• Stoker viveu e escreveu no fim da Era Vitoriana na Inglaterra, uma época cheia de morais e bons costumes, que o autor prezava e tentava proteger da Era Moderna que chegava. Seu vampiro é uma metáfora de todos os desejos reprimidos que os vitorianos mantinham, o monstro perfeito do romantismo, e ao mesmo tempo uma alegoria do modernismo chegando para arrebatar toda essa época, sodomizá-la e converte-la com seu liberalismo, sua sexualidade e sua psicanálise.
• O Conde Drácula histórico foi apenas um veículo para Stoker comunicar sua história. Sua real inspiração veio de uma relação conturbada com o ator inglês Henry Irving, que inspirou os modos e o poder dominador do Dácula fictício. A história toda é uma codificação do medo e fascínio de Stoker por Irving, de seu sentimento de masculinidade ameaçada e do processo psicológico de "matar a figura paterna" que Irving veio a representar para ele.
Tentarei escrever a maior parte das coisas em forma de notas curtas, para não perder tanto tempo e ímpeto burilando textos mais complexos. Mas os próximos dois posts vão ser um pouco longos sim, para contar a história do conde e de seu país.
quarta-feira, abril 06, 2011
Novos limites
Conversei com Brian Chalkley na segunda sobre os novos rumos que a minha arte (e provavelmente a minha aparência) iam tomar em Maio. Eu estava muito interessado nessa feminização do visual que as bandas de rock tinham feito na época do glam rock. Brian , claro, começou a me dar referências e estímulos para que eu explorasse o mundo do drag. Oreet Ashery, Rrose Sélavy, Pierre Molinier . Vale dizer que eu nunca soube que existia o termo drag king, para mulheres que se vestem de homens, como Ashery.
Eu li um pouco a respeito, incluíndo entrevistas com o próprio Brian/Dawn Chalkely. Mas quando as referências entraram em Molinie, eu puxei o freio...
Era óbvio que Brian em algum ponto me puxaria para esse lado, mas isso era o trabalho dele, não o meu. E era muito importante definir esse limite. Mais do que isso, era muito importante falar de outros limites. O drag me parecia como uma tentativa de cruzar completamente para o outro gender. Brian continuava sendo biologicamente um homem, mas ele tentava fazer com que suas características sociais fossem totalmente femininas (se ele conseguia isso ou não, é outra questão). Eu não queria fazer esse cruzamento completo. Eu queria continuar sendo identificado como masculino e heterossexual, embora um que fosse mais aberto a significantes femininos na aparência e nos modos. Lendo um dos livros que Brian me emprestou, cheguei a uma menção de um dos mitos de Hércules, onde ele é feito escravo da Rainha Omfália, que o veste de mulher. Algumas versões do mito o colocam como um personagem tão viril, que as vestes femininas não afetam sua auto-confiança.
A outra questão de limites aqui tinha a ver com o limite entre vida e arte (que eu mencionei em algum parágrafo daqui). Porque o problema com a performance drag é que ela acaba. Em determinado momento, o artista tira todos os adereços e volta a uma normalidade. Não é nada que proponha uma mudança efetiva na vida se ele volta a reforçar as condutas sociais do seu sexo depois que a performance acaba. Este é um limite que eu quero borrar em vez de reforçar. Criar uma persona que eu poderia, se assim o desejasse, manter pelo resto da vida.
Ou até o mestrado acabar e eu voltar ao meu país...
Eu li um pouco a respeito, incluíndo entrevistas com o próprio Brian/Dawn Chalkely. Mas quando as referências entraram em Molinie, eu puxei o freio...
Era óbvio que Brian em algum ponto me puxaria para esse lado, mas isso era o trabalho dele, não o meu. E era muito importante definir esse limite. Mais do que isso, era muito importante falar de outros limites. O drag me parecia como uma tentativa de cruzar completamente para o outro gender. Brian continuava sendo biologicamente um homem, mas ele tentava fazer com que suas características sociais fossem totalmente femininas (se ele conseguia isso ou não, é outra questão). Eu não queria fazer esse cruzamento completo. Eu queria continuar sendo identificado como masculino e heterossexual, embora um que fosse mais aberto a significantes femininos na aparência e nos modos. Lendo um dos livros que Brian me emprestou, cheguei a uma menção de um dos mitos de Hércules, onde ele é feito escravo da Rainha Omfália, que o veste de mulher. Algumas versões do mito o colocam como um personagem tão viril, que as vestes femininas não afetam sua auto-confiança.
A outra questão de limites aqui tinha a ver com o limite entre vida e arte (que eu mencionei em algum parágrafo daqui). Porque o problema com a performance drag é que ela acaba. Em determinado momento, o artista tira todos os adereços e volta a uma normalidade. Não é nada que proponha uma mudança efetiva na vida se ele volta a reforçar as condutas sociais do seu sexo depois que a performance acaba. Este é um limite que eu quero borrar em vez de reforçar. Criar uma persona que eu poderia, se assim o desejasse, manter pelo resto da vida.
Ou até o mestrado acabar e eu voltar ao meu país...
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