quinta-feira, junho 28, 2007

Lost, yesterday, somewhere between Sunrise and Sunset, two golden hours, each set with sixty diamond minutes. No reward is offered, for they are gone forever.

[Horace Mann]

Algum dia ainda terei duas horas às quais poderei dedicar esta citação.

segunda-feira, junho 25, 2007

Level up!

Ensaio da banda no sábado.

Leandro tinha feito uma participação no nosso show no Manifesto. Desta vez, estava lá para tentar entrar para a banda de vez. Passaríamos a ser seis, se ele fosse aceito. E os estúdios passariam a ser pequenos...

Entre os acordes de Put My Leash On, chego àquele ponto do "You are the rock and roll" onde devo segurar a nota por alguns compassos até a Isa assumir. Mas dessa vez tudo parece mais fácil. Arrisco e subo o tom da nota. A banda continua. Isa assume com floreios e a potência vocal dela cobre a minha voz, mas eu não paro. Mantenho a nota e faço a ponte com o refrão sem interromper.
No fim da música, ela vem comentar ao meu lado como estou repentinamente cantando melhor. Mais fôlego, mais controle das notas altas, mais segurança.

No fim do ensaio, uma idéia bizarra tida recentemente pelo BBK nos levou a experimentar uma versão rock de Geni e o Zeppelin, aquela do Chico Buarque. Faria parte da trilha sonora do curta-metragem que Lexy estava produzindo na faculdade. Eu mesmo fiquei surpreso ao ver como não demorou muito para encontrar o caminho da música, os tons de voz e os floreios. Eu estava muito mais criativo e seguro da minha voz, fazendo coisas que soavam a Brian Molko. Algo como se repentinamente eu tivesse passado o ponto de ativação da minha habilidade de canto e não tivesse percebido.

Mais tarde, na casa da Lexy, me peguei escutando músicas e pensando em como eu cantaria esta ou aquela parte de modo diferente. Percebi o nascimento de pequenos detalhes estilísticos, aquelas assinaturas sonoras que fazem a gente perceber por exemplo que a música que acaba de começar é do Aerosmith por causa das guitarras. Ou distinguir entre as vozes do David Bowie e do Iggy Pop.

Mas essa evolução de nível trouxe consequências. Vivo hoje com uma constante, embora diminuta, irritação na garganta. Um tossir leve depois de cada ensaio. Penso, embora não leve a sério, nos cuidados com bebidas geladas e essas coisas.
Ainda não cheguei no ponto de poder julgar outras vozes e técnicas. Ou de perceber as diminutas diferenças que o tempo frio ou o humor causam na voz, como a Isa aponta de vez em quando.

Prática, prática, prática...

quinta-feira, junho 21, 2007

Cadernos do Hopper!

--- Davi Medeiros escreveu:

> Leão, sei que vc vai gostar deste site,
> especialmente a parte onde vc
> pode ver o caderninho de anotações do Hopper, se é q
> vc já não viu,
> http://www.mfa.org/hopper/
>
> Qualquer dia dá upload no seu caderninho ;)
>
> DL
>
>


Cara, o Hopper é um dos meus pintores favoritos. Melhor do que ele, só o alemão Gerhard Richter (aliás, se achar um site com os cadernos dele, eu quero!) se você estiver interessado em técnica de pintura, ou o Lucian Freud (neto do Sigmund...) se o lance for uma poesia similar ao Hopper.
É gostoso de ver esses cadernos do Hopper, porque lembram muitas das anotações que eu fiz para alguns dos retratos que eu fazia na época da faculdade de artes. Coisas do tipo o tom de pele a ser usado, transparências, detalhes de luz.
Agora, que letrinha de merda que o cara tinha! Dá um trabalho entender os garranchos! Se bem que a única pessoa que precisava entender o que estava escrito era ele mesmo...

Só senti falta das anotações de algumas das pinturas mais famosas. "Nighthawks"(a mais famosa de todas) ou essa da entrada do site, chamada "Chop Suey", seriam anotações interessantes de ler.

Cara, valeu pela dica!
Qualquer dia eu scaneio os meus (já são uns seis ou sete...).

sexta-feira, junho 15, 2007

Passos

A agência tem um piso de laminado de madeira, aparentemente construido com algum espaço entre o laminado e a laje. É um piso barulhento: ouve-se o andar das pessoas o dia todo. Como resultado, aprendemos a reconhecer as pessoas pelos passos, que muitas vezes parecem ter mais identidade do que as vozes.

De vez em quando, venho de All Star. Dias lacônicos, porque meus passos não fazem qualquer barulho a não ser um suave murmúrio quando desgrudam do tablado. Mas na maioria das vezes, venho de botas. Aquelas mesmas botas surradas que percorreram a Europa e que não consigo jogar fora por senti-las como que abençoadas pela experiência. Nesses dias, a Loo costumava dizer, eu tenho passos de psicopata: o som marcado e intimidante do calcanhar de borracha, em passos premeditados, numa cadência lenta e quase sádica.

Luciana, do atendimento, tem o passo mais característico: o som alto e pontiagudo dos saltos duros, os passos rápidos, ansiosos, imperativos. Consigo ouvi-la saíndo da sala e percorrendo o espaço todo até a minha, passando por cima de tapetes e abafando o som em dois passos, para voltar com força no corredor.

Cíntia vem de salto mais baixo, emborrachado. O som é forte como o da Luciana, mas parece um outro timbre de voz. E a essas alturas já sei diferenciar entre as duas. No mais, ela imprime menos urgência na cadência dos passos, porque é uma pessoa mais tranquila.

Lia, a faxineira, tem passos silenciosos de gato, com seus sapatos baixos de pano. Ouço-a apenas quando já está na porta, olhado por cima do meu ombro ou varrendo o chão e reclamando das marcas que a borracha da minha bota deixa quando arrasto o pé em um passo em falso.

E o Mr. President tem passos de chefe. Eles não são tão altos como os da Luciana, posto que ele não precisa dessa imponência toda: já é o chefe e não precisa brigar por atenção. Em compensação, seus passos são densos. Não sei explicar o som, mas embora em volume mais baixo, ele preenche todo o espaço, oprime, esmaga. Sapatos de homem, pesados, mas emborrachados. Ele é sorrateiro: ouço-o no corredor e meu corpo tensiona. Ele já está a dois passos da porta. Com um comando, fecho a janela da internet.

quarta-feira, junho 06, 2007

Minha aprendizagem de desenho, pintura e o trabalho com imagens em geral aconteceu desde uma idade muito jovem. Como resultado disso, hoje que tenho plena consciência de minha consciência, não sou capaz de dizer quando exatamente foi que aprendi algumas coisas. Quando foi aquele momento epifânico de dizer "ah, então é assim que funciona!"
Com a música, e especificamente a música de estúdio, dá pra aprender enquanto vou fazendo e relatar aqui as pequenas delícias do aprendizado.

Descobri, por exemplo, que em uma banda do estilo de power trio como a nossa (guiatra, baixo e bateria), há um organograma de relações acontecendo durante as músicas. De forma simples, a bateria e o baixo se ajudam e complementam. Eles marcam um ritmo juntos, criando uma base para a música (talvez venha daí a pronúncia de bass, o baixo em inglês, que soa como base, ou base em português). Do outro lado, o casal entre a guitarra e o vocal dança por cima dessa base, um teoricamente complementando o outro.
Na nossa banda, a metafora é acompanhada pelo figurino. O baixista e o baterista vestem-se com roupas normais e têm um lado mais pragmático e menos enfeitado. Já eu e o guitarrista nos divertimos com pinduricalhos e excentricidades, cultuando ídolos mais esquisitos e bizarros.

terça-feira, junho 05, 2007

Estereótipos 3

A balada de boy é assim.
A multidão na entrada da balada é super produzida. Tudo com muito dourado e prateado. Muitos rostos sorridentes de gente de bem, mas que na verdade são só fachada. Essa galera exterioriza normalidade para esconder a decadência moral. A entrada é uma competição de quem é mais VIP.

A balada de rock é assado.
A multidão na entrada da balada é bem hard-core. Tudo com muito couro e alumínio. Muitos rostos mal-encarados de gente do mau, mas que na verdade são só fachada. Essa galera exterioriza violência para esconder a insegurança. A entrada é uma competição de quem sabe mais de rock.

sexta-feira, junho 01, 2007

Garage Days

Hoje vejo: deveria ter documentado por aqui a gravação desse CD da banda. Foi uma aventura e tanto. Restam-me hoje, por entre as vinhas e o musgo que são a memória dos meses de monografia, algumas flores de acontecimentos memoráveis dessa gravação e edição.

A lista inicial de músicas que gravaríamos contava com cerca de vinte canções. Terminamos com oito, possíveis dez.
Delas, a flor mais bela na memória, meu orgulho, é Boy Toy. Que veio do nada, simplória, besta e com uma letra banal. Tinha as cores do baixo, que brilhava forte e chamativo na música. Daí Nando a tomou nas mãos e a fez voar, sem perder essa graça do baixo. E com essa base firme, eu pude experimentar, fazer pequenos floreios, até ter a idéia divertida de colocar quatro frases no meio do solo de guitarra, distorcidas como se viessem de um rádio antigo. Ficou divertido. Ficou malicioso: uma malícia que quem me conhece acha que eu sou tímido demais pra ter.
Pra contextualizar: Boy Toy foi sobre uma época em que tanto eu como Nando estávamos descompromissados. Sobre ambos, em histórias separadas mas semelhantes, sermos tomados como objetos sexuais (coisa que mulheres detestam e homens adoram). Sexo por diversão, descompromissado. Agir como namorado por uma noite ou duas e depois desaparecer.
Junto dela sempre esteve Put My Leash On, composição do próprio Nando, com mais experiência. Brincadeiras de tempo, de tons, de tudo. Surgiu pouco depois daquela época, quando ele engatou um relacionamento que prometia durar mais, mas como a maioria de seus casos, desbravou duas ou três semanas e morreu. Enquanto isso, no meu front, Lexy. Isa emprestou vozes ao refrão, parecendo ser a versão feminina de um Nando que normalmente não se deixaria prender, mas que se entregava voluntariamente àquele amor. Mas o que realmente me entusiasmou na mixagem dela, foi a idéia do BBK, que já na época tinha assumido um papel de supervisor de mixagem, de jogar no refrão ao mesmo tempo a minha voz final e uma voz guia (espécie de blueprint para o intrumental se basear, ou seja, uma voz que não vale, cantada de qualquer jeito). O resultado: as duas vozes seguiam em uníssono até um ponto, e então a guia tomava uma estrada de tons baixos e a final subia quase ao limite das cordas vocais iniciantes.

Caroline, a grande vedete da banda antes dessas irmãs, começou mal. Nunca tínhamos experimentado cantá-la em estúdio. E a cacofonia de três pessoas tentando executar o backing vocal, que funcionava muito bem em shows e ensaios, revelou sua cara feia quando as vozes apareceram mais nítidas e limpas no estúdio. Não acreditávamos: como podíamos ser traídos assim por Caroline? No fim, em uma época já turbulenta, me enchi de brios e tomei as rédeas da música, gravando o backing do meu jeito (tá, com vários conselhos de várias pessoas...). Hoje vejo Caroline como uma parte do percuso onde eu mudei. E dá pra perceber na voz da música, que começa insegura e desafina um pouco na primeira frase, mas que entra segura e mais forte no backing. Ambas são minhas, mas são duas pessoas diferentes.

Sweet Home Alabama [Lynird Skynird] sempre foi o nosso porto seguro. Fácil, bonita e com espaço para a banda toda fazendo floreios. Mas ainda mostrava um pouco da minha insegurança, quando eu tentava as piruetas vocais da Isa, cantora mais experiente, e acabava fazendo involuntariamente sempre a mesma coisa. Não é tão fácil como ela faz parecer.

Outras vieram e foram. Cherokee que só ganhou um refrão em tons escutáveis na última sessão de mixagem, Hey Joe[Hendrix] que eu dividi com Nando fazendo aquela coisa de perguntas e respostas e ganhou um monólogo improvisado no final, Johhny B Goode[Chick Berry] que ainda me deixou com dúvidas, Born To Be Wild[Steppenwolf] que passou por cirugia para ser separada da siamesa Paranoid[Black Sabbath], que era demais para minha voz.

E não foram poucos os percalços. A falta de dinheiro de uma banda composta por estagiários e desempregados (exceto o BBK, cuja ajuda nesse caso foi inestimável). A coexistência do projeto com o resto das vidas (monografias, curtas-metragens, empregos, causos do guitarrista, etc...). Os desentendimentos e turbulências que prometiam rachar a banda em dois e botar tudo a perder (e que sumiram como uma tempestade que para de chover quando tudo já acredita-se perdido...).

Não deixo de mencionar mais alguns capítulos memoráveis.
Amigos em escolas de gravação que precisavam de bandas amigas para gravar o trabalho do semestre (Não Sem Você, a escolhida, recebeu monólogos em inglês e italiano, mas ainda vai demorar pra vocês verem como ficou e acho que não vai entrar no CD a tempo...).
Nando e eu, que tivemos a idéia e vontade de gravar Pink[Aerosmith], o que acabou quase gerando a cisão da banda (uma daquelas tempestades...).
A festa que foi a sessão de fotos para o encarte do CD, comparável apenas ao pesadelo que foi depois discutir com o fotógrafo e amigo.
O possível patrocínio para a impressão do encarte, que ocorreria em troca de um show. Para pessoas de seus quarenta anos. Nas palavras do BBK: "papelão na certa".

Ainda restam capítulos finais a serem escritos. Epílogos desta saga que suponho serão shows interessantes que aparecerão em decorrência desse trabalho todo. Aguardem: em breve, nossa Producer Butcher vai colocar as músicas na net.

E a partir daqui, vou relatar com mais cuidado cada curva deste caminho (pra evitar futuros posts quilométricos como este).

Fake endings

Foi uma semana de fake endings.
Eu já passava meus dias respirando a liberdade de não precisar mais escrever e ouvindo aquela canção-tema de fim de filme começar a tocar aquelas notas de fim da história.
E então meu professor enviou aquele e-mail dizendo que as bancas de graduação foram passadas para Agosto. Ainda não tenho informação sobre a entrega do material, se também acontecerá em Agosto ou se ainda preciso correr para entregar agora. Mas de um jeito ou de outro, ainda vou lidar com a M3 por mais dois meses...

Na quarta-feira, tivemos a última sessão de mixagem do CD da banda. Era outra daquelas cenas de filme: eu entrando na cabine de som para gravar o vocal de Sweet Home Alabama mais de dois meses atrás, inseguro sobre em qual tom cantar as improvisações e floreios entre as estrofes, sem entender nada sobre mixagem. Fade out, fade in: dois meses depois, estava na porta da cabine ouvindo o técnico e Isa Aguiar procurarem o tom certo para o backing vocal de Cherokee (do vocalista anterior da banda) e eu interrompo tentando um tom alto, meio Placebo. Eles gostam. Fecho a porta da cabine com um pouco mais de convicção e limpo a garganta. Contino sem entender nada sobre mixagem... Mas pelo menos o sentimento de inadequação sumiu, aquele desconforto diante de ser o que menos sabe de música lá dentro, apesar de ser o vocalista da banda. Agora me sinto em casa e evoluindo.
O fake ending nessa história? Desconfio que o CD ainda não esteja pronto. Dúvidas sobre sessões de mixagem às quais eu não compareci e o que foi feito com as vozes...

Fora do estúdio e da faculdade, as amigas da Lexy terminam com os namorados, brigam com os ficantes, descontam o stress da faculdade em quem não devem. São fake endings também: daqueles fins de namoro que continuam, duram mais um ano ou dois.