terça-feira, maio 29, 2007

Profissão de picuinha

Na faculdade de publicidade me ensinaram que qualquer peça publicitária pode ser infinitamente melhorada. Não existe tal coisa como a peça publicitária perfeita. Afinal, muito do assunto tem a ver com gosto: do coitado do estagiário que tem que convencer o diretor de arte sobre aquele layout, do diretor de arte que tem que convencer a atendimento, da atendimento que tem que convencer o chefe, do chefe que tem que convencer o contato publicitário do cliente, do contato que tem que convencer o próprio cliente, do cliente que tem que convencer seu público-alvo.
A profissão publicitária é uma profissão de caçadores de picuinha. Um monte de gente que passa o tempo procurando a peça perfeita e sabendo que ela não existe. Daí surgem situações como as destes últimos dias, do meu chefe me pedindo pra reimprimir uma peça (gastar tinta e papel) porque quer que eu suba o slogan meio centímetro. Mas o mais satírico é a cliente dizendo que o logo não está centralizado dentro do quadrado no qual foi inserido: daí eu vou lá no programa medir e de fato existe uma diferença. De um pixel. Sabe que um pixel, dependendo do tamanho da peça, da menos de um milímetro?
Perdi a conta das vezes em que o meu chefe abre um arquivo meu, mexe em algo e pergunta: "Olha ai, não ficou bem melhor?". 90% das vezes, eu comprimo os lábios pra não deixar escapar um "Er... não". Outros 5% são de vezes nas quais eu nem percebo o que foi que ele mudou proque estava olhando pra outra coisa.

Vou parar por aqui. Acho que de fato está na hora de procurar outra linha de trabalho...

segunda-feira, maio 28, 2007

Aftermath

Terminou o domingo e pela primeira vez em muito tempo, tive aquela sensação de vazio porque eu não tinha que escrever mais nada. A monografia estava terminada e a caminho da impressão na segunda. O parto foi difícil e o filho não é algo de que me orgulho: franzino, pequeno, quase parece dizer ele mesmo para mim "ora, rapaz, você pode mais do que isso". Houve uma época em que eu podia. Houve uma época em que eu realmente achava que eu precisava fazer mais do que isso. Mas hoje não tenho mais inteligência paciência para esse tipo de trabalho. E sei que não vai fazer diferença. Vou me lembrar com amargura das noites que passei tentando matar a preguiça para começar a escrever. às vezes, o processo demorava duas horas pra que eu começasse a escrever, e as noites não rendiam. Por isso o resultado medíocre...

Fechado o último PDF, a pele encolheu, como se esperasse o impacto daquela falta total do que fazer, aquele vácuo que a minha vida se tornaria sem esse trabalho. Seria um vácuo relaxante, um impacto bem-vindo. Eu teria ido à livraria mais próxima e me presenteado o próximo volume da série do Stephen King que eu estava lendo antes dessa odisséia monográfica começar, só pra ler algo bem superficial dor a change. Eu teria passado uns dois dias vagabundando só porque eu posso.
Mas então abri os olhos e olhei em volta do quarto. Pilhas de papéis, tralhas e lixo. E nada daquilo tinha algo a ver com a M3. Eram pequenas coisas que eu deixava em cima da minha mesa para me lembrar que tinha que resolver este ou aquele assunto rapidinho. Jogar fora revistas velhas, devolver CDs, terminar pinturas e desenhos, etc. E tudo isso foi amontoando e amontoando na mesa, porque eu coloquei a vida em espera enquanto escrevia algo tão simples. E agora que eu não tinha mais a desculpa, tudo aquilo me olhava com impaciência, esperando ser resolvido.
E não era só a quinquilharia sobre a minha mesa. Outras coisas me rondavam sem estarem representadas naquela baderna. Rondavam como cães esperando eu baixar a guarda. A questão do meu emprego que não vingava, o portfolio necessário para isso que precisava ser atualizado, o consequente plano de sair da casa dos pais. Do outro lado, a banda e demais projetos de arte que comecei em parceria com outras pessoas e depois suspendi. E em algum lugar lá no fundo, mais distante porém não mais pesada, estava a culpa de não ver amigos tão queridos há tanto tempo. Tudo isso e outras coisas das quais não estava me lembrando estavam tensionados, esperando uma palavra minha que dissesse que a M3 acabou, para saltarem sobre mim exigindo minha mais completa e total atenção.
Pois que venham todos. Eu nada posso fazer a não ser me dedicar ao que puder, com o tempo que tiver. As perdas serão altas e o stress igual ao dos últimos meses. Mas não há outra alternativa.
Me vem à cabeça a idéia de países como o Japão, crivados de desastres naturais, que aprenderam a recomeçar do zero sem reclamar depois que uma dessas catástrofes acontece. Eles sobrevivem a destruição, olham em volta, avaliam os estragos, e voltam a construir do nada. Porque não há outra alternativa.
O recomeço é lento, mas ali do lado, um líder comunista já dizia que "a maior jornada começa com o primeiro passo". Eu não sou comunista, mas concordo. Se eu pensar em tudo que preciso fazer, eu desespero. Há de se começar pelas pequenas coisas.

O holocausto da monografia passou.
Walk with me through the wreckage. Vamos avaliar a destruição e o que sobrou.

sexta-feira, maio 11, 2007

Ih, onde é que tá o freio dessa geringonça?

Passo os dias diagramando peças para a divisão de serviços financeiros da BMW. Algum dia ainda escrevo sobre como, ao conviver diariamente com um cliente, você já começa a entender as picuinhas, as manhas e as obrigatoriedades de cada anúncio. Chama-se diretrizes de uso da marca...
Daí volto pra casa, janto e descanso por uma hora. Então sento no computador e continuo diagramando a M3. A tela é pequena e meu olhos cansam rápido. Eles ardem diariamente e suspeito de conjuntivite, mas sei que é apenas cansaço. Sono vem. Mas há semanas não sei o que é dormir antes das 2 da manhã.

[arrasta imagem pra cá, alinha com texto, aumenta tamanho de letra ali, copia e cola, copia e cola, copia e cola].

Já estou colando post-its e descolando-os porque fica mais bonito se eu alinhar com aquele canto de tela ou com o teclado do computador.

No meio do dia sou violentado por epifanias sobre falhas no modo como apresentei este ou aquele conceito da monografia.

Namorada? Ah, sim, aquela menina bonita que almoça comigo!

A banda, apesar de estar acontecendo alucinadamente, é um murmúrio no fundo da cacofonia. Estou implorando por compreensão porque nas semanas a seguir serei uma nulidade...

Sabe aquela sensação de aceleração inexorável que se sente quando a carroça chega no topo do morro e começa a rolar ladeira abaixo? Pois é...

Uma coisa leva à outra.

Falando em falta de utilidade prática, estava pesquisando algumas coisas na net e acabei chegando na relativamente conhecida capa do CD do Blur. A capa me chamou a atenção porque as pessoas têm a tendência a associar esse estilo de desenho à banda e não ao artista que o desenvolveu, Julian Opie.
Aliás, citei a obra H, de Opie quando da minha visita ao Tate em Londres. Tratava-se de uma daquelas obras de arte conceituais. Era um enorme duto de ventilação, mas desconectado de um sistema e sem função nenhuma. O texto explicativo ao lado da obra comentava sobre como o artista acreditava justamente que a falta de funcionalidade tornava o objeto uma obra de arte. Na época, eu ainda não tinha desenvolvido a teoria o suficiente pra chegar a essa mesma conclusão, mas anotei no meu caderno de viagem e rever a anotação foi uma surpresa muito gratificante e oportuna.

Isso ainda vai vir à tona na minha defesa da monografia...

quinta-feira, maio 10, 2007

Highlights da monografia (resumo)

Eu tinha pensado em colocar por aqui parte por parte da monografia. Mas além da coisa ir evoluindo e se alterando ao longo do tempo, eu não tive saco pra fazer esse acompanhamento virtual.

Então coloco por aqui o resumão da teoria, e se vocês querem os particulares e as questões tangenciais, que procurem o livro no ano que vem...

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Depois de partir de três características, encontrar as cinco do Trevisan e digerir tudo, voltei a três aspectos. Aspectos meio complexos e cheios de desdobramentos, mas três ainda assim.

Aspecto documental
Toda obra tem um autor influenciado por referências que adquiriu ao longo da vida, qualidades e defeitos. Todos os detalhes biográficos deste autor podem influenciar na criação da obra.
Além disso, toda obra é influenciada pelo tempo e local em que foi criada. Ainda que ela não ilustre detalhes de seu tempo e local, ela representará idéias vigentes na época, sendo intrinsecamente ligada a ela.

• Aspecto técnico
Toda obra é um exercício de técnica. Não existe obra que seja pura idéia sem manifestação.
Há dois tipos de obra mais comuns ao considerarmos formas de arte: as obras de espaço e as de tempo. No entanto, o século XX trouxe, entre outras coisas, formas de arte híbridas, combinando artes de espaço e de tempo.

Aspecto estético
Toda obra visa deflagrar no observador uma experiência estética. Ela pode ser relacionada a qualquer um dos cinco sentidos, e mesmo a combinações deles. E não é só referente à beleza: pode ser a sensação de choque frente a algo perturbador, a repulsa diante do grotesco, ou mesmo a sensação cômica do inesperado causada por muitas das obras que se valem de trocadilhos ou inversões de expectativa e que estão muito na moda atualmente.
A experiência estética também é muitas vezes o estímulo que leva o artista a criar. É o chamado instinto de autor, a vontade de fazer algo semelhante, reproduzir ou renovar um estímulo recebido, geralmente com a intenção de querer ser o responsável por essa mesma experiência estética no observador.
Questão que vale ser mencionada neste resumo é de que o estado em que se encontra o observador influencia na sua percepção e na intensidade dessa experiência estética. Um observador cansado não dará importância a detalhes minuciosos e terá uma sensibilidade menos aflorada, por exemplo.
Por isso me coloco em posição crítica em relação a museus: a quantidade de obras dificulta prestar a atenção devida a cada obra separadamente. No mais, depois do vigésimo quadro renascentista da Virgem Maria, qualquer observador começa a cansar...

Esses três aspectos devem no entanto ser empregados sem ter em vista uma utilidade prática. Caso contrário, a produção em questão incorre em outra categoria (design, publicidade, moda, etc), deixando de ser puramente arte.
A arte assim, destilada e pura (detesto usar esse termo...), não deve servir a nenhum propósito, não deve executar nenhum serviço específico. Ela gera a experiência estética, incita o observador a pensar e, a partir do século XX, discute o próprio ato artístico, a técnica, a percepção (a autofinalidade da arte).

Há casos de atividades de outras categorias que assumem as características do que esta monografia considera como arte. Atividades que normalmente têm um objetivo prático, mas que em determinadas instâncias produzem obras que inviabilizam sua aplicação prática e servem apenas para contemplação ou discussão de conceitos inerentes à prática da atividade. Casos como o de instalações não habitáveis produzidas por arquitetos ou roupas que sacrificam o conforto e a versatilidade em prol da estética, sendo impraticáveis fora da passarela de moda.

quarta-feira, maio 09, 2007

Seasons

Hoje de manhã, com o frio, lembrei da Itália e de ver neve pela primeira vez. Memória quase palpável.
Se eu fosse um escritor mais assíduo, escreveria narrativas onde meus personagens adolescentes compartilhavam seus segredos íntimos e tinham suas experiências sexuais no verão. A escassez de roupas de uma temporada de férias na praia convidaria para o sexo, mas também ambientaria a metáfora de personagens menos protegidos, com menos camadas, mais vulneráveis. Daí, quando o inverno chegasse, a situação teria ficado tão tensa e estranha entre eles, que se tornariam distantes, introspectivos, defensivos. Envoltos em roupas pesadas como se fossem armaduras e com movimentos mais contidos. O amadurecimento aparecendo em diálogos mais filosóficos ambientados em restaurantes caros onde eles momentaneamente tirariam algumas camadas de roupa (armadura), o suficiente para tolerarem uma troca de palavras. A conversa seria fria, como respiração condensada, e o tom de tudo seria um acinzentado azul. Clichê.

Todo mundo tem uma preferência por frio ou calor. Pra mim, essas questões de clima trazem à tona um caráter adaptativo e paradoxal. Porque acho uma delícia os prazeres invernais: as comidas quentes e cheias de rituais classudos como os fondues e vinhos na frente da lareira, as escolha de roupas e modos mais refinados, a filosofia existencial e introspectiva durante viagens a Campos do Jordão ou outro lugar classudo e completamente demodê.
E no entanto, não conseguiria viver eternamente assim, abdicando da lascívia visceral, despudorada e primitiva dos meses de veraneio: o não se preocupar com um clima que permite a nudez irrestrita, o esconder e revelar dos trajes de banho, a vida debaixo d`água e o perder o controle e regrassar à liberdade de um estado animal, sujo e despreocupado.

[Ocorre-me que todo ano escrevo um post similar...]

segunda-feira, maio 07, 2007

Il luogo di Fotolog è temporaneamente giù.

Usando o fotolog esses dias, recebi uma mensagem de erro escrita em diversas linguas. Fiquei entretido com o italiano:

Il luogo di Fotolog è temporaneamente giù. La squadra è dura sul lavoro da riportarlo. Usi nel frattempo, prego questa occasione andare all'esterno e prendere alcune immagini - aspettiamo con impazienza di vederle.

Vamos frase por frase, em tradução ao pé da letra, pra que vocês compreendam a delícia de intensidade que é o raciocínio do italiano.

Il luogo di Fotolog è temporaneamente giù.
Eles usa "luogo", que significa literalmente lugar, em vez de se render ao "site" em inglês. Europeus em geral respeitam muito a própria língua e dificilmente usam expressões americanizadas. Fico pensando se uma agência de publicidade na Itália diria "bozza" em vez de "rough" e "disegno" em vez de "design", entre outros.
Eles também usam o "giù", que seria a tradução literal de "pra baixo", ou o "down" que se usa pra dizer em inglês "the site is down", em sentido de estar fora do ar. A tradução é tão ao pé da letra, que onde os anglófonos diriam "I`m feeling down", os italianos podem dizer "Mi sento giù". Já o Cazuza desencanava e dizia logo "Me sinto tão down".

La squadra è dura sul lavoro da riportarlo.
"A equipe persiste no trabalho de trazê-lo de volta". O "squadra" serve para equipes de jogos, equipes de empresa e até exércitos: vem da tradição romana de trabalho em equipe voltado para a guerra. É uma coisa só e muito intensa, em vez da nossa pluralidade de "time", "equipe", "quadrilha", etc. Adorei o "riportarlo" porque me traz à cabeça a idéia de pegar o site com as mãos e colocar de volta na prateleira onde estava.

Usi nel frattempo, prego questa occasione andare all'esterno e prendere alcune immagini
"Use nesse meio tempo, lhe rogo, esta ocasião para ir ao exterior (da casa) e pegar algumas imagens". O italiano é cheio dessas inversões de estrutura no estilo do "Ouviram do Ipiranga as margens plácidas": aqui, o sentido correto seria "Lhe rogo que use nesse meio tempo a ocasião para....". Exemplo da dramaticidade italiana é a expressão "prego", de pregar, rogar, pedir fervorosamente. Eles cortaram um "per" ("para") antes do "occasione ("ocasião") que não tenho certeza se foi erro: de vez em quando eles omitem uma ou outra conjunção ou prepeosição pra que a coisa fique mais sonora. O sentido fica entendido pelo contexto mesmo. Por último, eles fazem essa distinção um pouco mais formal do que nós entre "o externo" e "o interno" da casa, onde nós só dizemos "lá fora" e "aqui dentro".

aspettiamo con impazienza di vederle.
"Esperamos com impaciência por vê-las." Outro exemplo gostoso de dramaticidade italiana: pensar que eles vão estar lá, nessa ansiedade sofrida para ver fotos novas. Chega a ser romântico.

domingo, maio 06, 2007

Estágio

O estágio é uma troca de promessas entre as duas partes envolvidas.
O estágiário oferece a promessa de uma evolução no aprendizado a um ritmo rápido, que não prejudique muito o andamento da empresa. Ao mesmo tempo, oferece a possibilidade de se adaptar às necessidades específicas da empresa e seu modus operandi, coisa que um profissional viciado pelo estilo de trabalho de outra empresa demoraria mais a superar.
Do outro lado, o empregador oferece a promessa de uma efetivação que irá praticamente triplicar o salário do empregado da noite para o dia, além da tolerância aos erros do profissional iniciante e um didatismo que lhe permita aprender rapidamente.

Mas em algum momento do meu caso, uma falha gerou um círculo vicioso.
Não se sabe quem foi o primeiro responsável pelo problema. Talvez eu não tenha mantido um ritmo consistente ou rápido o suficiente de aprendizagem que agradasse a agência o suficiente para acarretar na minha efetivação. Isso fez com que meu chefe tivesse dúvidas sobre a minha efetivação e não a consumasse no começo do ano, como esperado. Ou talvez a diminuição do meu ritmo de aprendizagem e evolução tivesse a ver com a desmotivação provocada pela efetivação que nunca veio, por questões financeiras ou mera falta de escrúpulo do meu chefe.
O caso é que uma coisa alimenta a outra: minha evolução baixa não inspira a agência a me efetivar e essa condição de estagiário não me inspira a evoluir. Essa complicação simbiótica só acabará em Junho quando, formado pela faculdade, eu não poderei mais ser estagiário. E a agência terá que tomar por força a decisão de me efetivar ou me demitir. Mesmo efetivado, eu teria a consciência de que essa promoção não aconteceu por mérito meu, mas por questões legais. E eu continuaria ganhando um salário que, apesar de bem maior, ainda é baixo para a categoria.

Voltando àquela comparação de sempre entre empregos e relacionamentos amorosos, sinto este emprego como uma daquelas namoradas lindas e educadas, mas que raramente me beijam e só aceitam transar depois do casamento. Ou seja, é lindo e utópico, mas não compensa nas questões mais mundanas.

quinta-feira, maio 03, 2007

Café Aurora

[Texto escrito na quinta, publicado no sábado...]

A verdade é que nenhum de nós estava muito confiante ontem.

Talvez fosse a platéia rala de quarta-feira pós-feriado (mamãe, curiosa, apareceu lá no fundo). Talvez fosse o amplificador detonado do BBK, o baixista. Talvez fosse Fê Pastana não conseguindo se encontrar direito na bateria. Ou a Isa Aguiar anotando Candy na mão. Eu mesmo sabia da minha insegurança: na terceira noite seguida de cantoria após os ensaios de improviso para este show repentino, minha voz já sofria as consequências. Perdi uma das subidas do Fall to Pieces e depois disso fiquei meio receoso em testar limites no palco. E embora estivesse um pouco mais à vontade lá em cima, após meses de conhecer estes rapazes e tocar e brigar e acontecer, sentia-me menos agitado do que no Manifesto. Uma versão cansada de mim mesmo.

O Café Aurora tinha cara de pub. Não pude deixar de cogitar que talvez a minha insegurança também tivesse origem nos traumas que herdei do Ealing Park em Londres. As mesas de madeira com verniz descascando, o tablado rangendo no chão, o staff mau-encarado. Lexy encostada no canto tinha um ar de pub também. Quase como se ela fosse a co-protagonista da história triste em Candy. Mas o cenário dava um ar gostoso. Decadente, mas gostoso. Ar de fim de noite em pub, de.... Voltei pra casa e não me saia da cabeça o clip de Good-night song do Tears for Fears. Foi bem isso. Só que um cenário menos Vegas e mais Londres, com as superfícies polidas de metal e plástico sendo substituídas por madeira.

Mas nem tudo são lamentos. Toquei gaita em Pink, nos divertimos bastante e deu pra refrescar a banda que, após dois meses tentando acabar o CD demo, estava sedenta por apresentações.