Sim, devo falar sobre as reações da minha turma ao meu projeto de mestrado.
Mas vou começar com as minhas reações. Frequentemente, quando menciono que considero meus cinco anos na publicidade uma perda de tempo inestimável, minha Lexy ralha comigo, dizendo que essas coisas nunca são um desperdício e que sempre aprendemos alguma coisa. Pelo menos posso me gabar de que, frente aos meus colegas de Chelsea, minha apresentação foi a mais bem produzida. Um power point de impacto que ganhou a admiração do professor Chalkley, coordenador do curso de mestrado. No mais, fiquei feliz e um pouco intimidado ao ver que havia outros pintores muito melhores do que eu em técnicas de ilustração. Mencionei colegas alemães e japoneses. Mas também senti aquela confusão típica de alunos de arte na vasta maioria deles. Eram pessoas que não tinham ao certo um porquê para fazer o que faziam, apenas se interessaram por um efeito ou uma prática. O que resultava em gaguejos, longas pausas e incoerências quando eles tinham que falar a respeito do próprio trabalho. Reconheço que isso às vezes tem mais sentimento do que as coisas excessivamente racionalizadas que eu gosto, mas ao mesmo tempo não deixo de achar tudo isso um pouco vulnerável demais. Porque são artistas confusos, frágeis, manipuláveis. Um galerista pode aprovar ou desdenhar seu trabalho meramente por gosto, mudar de idéia do dia para a noite e exclui-los da exposição. No âmbito mais racional, eu ao menos sinto uma certeza ingênua de que, embora alguém possa não gostar do trabalho, se ele for bem fundamentado, não há como negá-lo. Como o cubismo: eu não gosto, mas não posso negar sua importância histórica.
Mas chega de presunção, vamos à incerteza.
Minha apresentação estava cronometrada para dez minutos no máximo, em uns sete slides. Bem humorada no começo, estruturada e fundamentada no fim. Foi ainda onde eu apresentei a eles o logo da cabeça de leão que eles reconheceriam em várias coisas minhas. Tudo tinha o gosto de quem passou cinco anos na publicidade. E quando a apresentação terminou, senti os olhos deles em mim, na tela, de um para o outro. E então choveram as perguntas. Questionaram fundamentalmente minha divisão de masculino-feminino e meu ponto de vista heterossexual masculino. Foi simples rebater as quesões, mas fiquei com a impressão de que eles sairam respondidos, mas não satisfeitos. Não é um assunto fácil de gostar para alguns.
Nos dias que se seguiram, senti meus colegas um pouco mais frios. Os europeus, porque os asiáticos haviam se identificado profundamente com a questão. Percebi uma tendência a um padrão cronológico onde teríamos de um lado os asiáticos, onde nem o feminismo tomou raizes ainda, passando pela América que eu conheço tão bem, e terminando na Europa, onde a questão já era aparentemente velha.
Velha?
Comecei a perguntar por aí para saber o que meus colegas europeus tinham achado. O primeiro a quem perguntei foi Adam Walker, um senhor de cinquenta anos, fortemente conceitual. Disse que minha apresentação tinha sido "corajosa". Muitos outros diriam isso, e eu ainda não sei se referem-se à coragem dos ingênuos ou à coragem de quem toca em um assunto abafado. Adam me mostrou como algumas das questões (principalmente no tocante a rotinas masculinas e femininas - trabalho e tarefas domésticas) já estão mudadas por aqui, já não se aplicam tanto. Não escrevi por aqui, mas peguei uma edição da Newsweek americana que de fato comentava o caso da licença-paternidade sueca e dos homens de Nova Iorque que cuidam dos filhos enquanto as mulheres trabalham. Não posso alegar ignorância. No entanto, ele comentou que havia sido professor, e que mesmo em uma sociedade onde o assunto da igualdade entre sexos já havia sido exaurido (mas não na arte!), ele ainda sentiu o preconceito ao entrar em uma área considerada feminina por opção própria. Sentiu como apresentar-se como professor primário tinha uma conotação de homem que havia falhado nos "empregos de homem" e não tinha outra opção. Fiquei muito interessado. Ainda preciso fazer uma entrevista formal com ele para o projeto.
Depois fui ter com David Ben White, outro senhor mais velho, que tinha questionado minha posição heterossexual masculina. Depois de começar também comentando ambiguamente como eu tinha sido "corajoso", disse-me que eu tinha sido também muito amplo. Sim, de fato a questão era ampla. Mas não vi como isso podia ser diferente de alguém que apresenta um trabalho dizendo, por exemplo, estar interessado na "questão do espaço público e privado", ou na "questão do tempo", ou outra dessas "questões" que artistas confusos adoram mencionar. Na minha conversa com David, fiquei ciente de duas outras coisas.
Primeiro, eu não tinha reforçado o suficiente que eu não era contra o feminismo ou as mulheres. Erro frequente dos masculistas, que ao falarem de seus sentimentos de opressão, dizem que sua origem vem das mulheres em geral, o que soa como culpá-las por tudo e quere voltar ao modo antigo. A questão tem uma série de "culpados", incluíndo os próprios homens, mas falar do jeito errado dá essa impressão mesmo. Já leio com certa desconfiança as coisas mais recentes do Robert Bly, autor do João de Ferro, porque eu acho que ele vai por esse caminho.
A outra coisa que percebi é que a questão dos pais ausentes tinha outro tom aqui por causa das guerras. Na América do Sul ela falava apenas da industrialização e trabalhos de escritório. Aqui, tinha algo a ver com a Segunda Guerra, a Guerra Fria, Kosovo, Iraque e tantas outras. Esse era o mundo do pai adulto e ausente, além do mundo dos escritórios e do desaparecimento das 9 da manhã às 9 da noite.
No fim, a conversa com David reforçou minha impressão de que, embora ficasse claro para os mais espertos o que eu estava querendo dizer, eu havia me expressado mal. Fui descuidado. E seria algo a ser melhorado com o tempo e um orientador adequado.
Na palestra sobre identidade do post anterior, nova chance de me expressar a respeito disso. Como mencionei, o professor Cussans me deu esse toque de que eu não estava errado, apenas estava mexendo em algo que havia sido abafado e esquecido com o tempo, assim como acho que o feminismo de certa forma foi. Até na América. Mas junto com isso, o professor me deu minha primeira dica de leitura: uma nova autora chamada Susan Faludi, que além de escrever sobre as reações negativas ao feminismo no livro Backlash (por parte de homens e mulheres), havia escrito outro livro sobre homens, Stiffed: the Betrayal of Modern Man, onde ela abordava os assuntos masculistas.
Mas isso fica para outro post. Este aqui já está impraticável.
Desculpe o megapost. Mas acho que estou escrevendo em parte para documentar minha experiência para mim mesmo e para o projeto.
Bits and pieces of my life that everyone ignores when I speak, but someone reads when I write.
domingo, outubro 31, 2010
quinta-feira, outubro 28, 2010
General Theory Forum - Identity
Em uma tentativa de digerir e aproveitar melhor o conteúdo do mestrado, vou colocar aqui no blog meus pensamentos sobre as aulas de teoria das quintas feiras. São palestras sobre assuntos bem abrangentes, mas interessantes. Como esta primeira, sobre identidade.
Each of you is your own best cultural resource
[Cada um de vocês é sua própria e melhor fonte de cultura]
Foi assim que o professor John Cussans começou a bem-humorada palestra.
Embora ele tenha usado parte do começo de sua palestra para terminar a anterior (interrompida, claro, por outro alarme de incêndio), ele rapidamente chegou no assunto de identidade. Na verdade, o professor fez uma distinção importante entre o que ele chamou de identidade e individualidade. A primeira é uma questão social, são características que compartilhamos com os outros, e que servem para nos posicionarmos como diferentes ou semelhantes. A outra questão é pessoal, o que nos define para nós mesmos.
Em dado momento, ele colocou quatro perguntas na tela. Aparentemente semelhantes, elas na verdade têm nuances bem diferentes:
1) Quem é você?
2) Que tipo de pessoa é você?
3) Como você se define?
4) Como você é percebido pelos outros?
Tudo parece ser de fato uma questão de ponto de vista. Mas as respostas para estas questões todas passam pelo que ele chamou de "categorias de identificação": nome, idade, sexo, orientação sexual, raça, nacionalidade, religião, opinião política, profissão, entre outros. O que pareceu interessante é que, de acordo com o que ele mencionou, estas categorias são foretmente baseadas em contexto. Ele terminou a palestra colocando a seguinte questão: escolham três destas coisas que vocês consideram que melhor os definem. Eu entendi que, por estar neste contexto, uma coisa que eu sentia como muito importante era a nacionalidade. Se estivesse no meu país, isso não importaria. A questão tinha a ver, ele explicou, com o que o filósofo Hegel chamava da dialética do mestre e o escravo: o mestre só se reconhecia mestre se tivesse o "outro" sobre o qual ele pudesse exercer superioridade. Eu só me reconhecia brasileiro por estar rodeado de ingleses.
No fim da aula, ele pediu que levantassem as mãos as pessoas que se sentiam identificadas por cada uma das categorias. Quando ele mencionou sexo, levantei a mão junto com um par de garotas coreanas. Ele gaguejou por um instante: não esperava que um homem sentisse o peso do gênero do mesmo modo que mulheres. Quando me perguntou porque o sexo era uma questão tão importante, expliquei que fazia parte do meu projeto. Que eu vinha de uma realidade onde uma espécie de contra-preconceito latente acontecia, e onde os homens acabavam sentindo o peso de serem considerados menos espertos, menos atentos, menos decentes, menos, menos, menos... Expliquei ainda que recentemente eu tinha me dado conta de que a realidade por aqui era outra, e que essa questão já havia evoluído para além da minha realidade local.
-"Não diria que ela evoluiu aqui. Apenas... foi esquecida."- ele respondeu. Só não fiquei surpreso com a resposta, porque já a ouvira antes de outras pessoas. O que me lembra que preciso escrever sobre a recepção que o meu projeto de mestrado teve dos meus colegas. Mas fica pra outro post. O que importa aqui é que era mais uma prova de que eu estava levantando assuntos que não eram errados, mas apenas não-resolvidos.
A partir daí e das respostas de tantas outras pessoas que também se basearam em categorias que as faziam se sentirem oprimidas, a palestra passou a caminhar para um fim em clima tenso, meio introspectivo. Terminando por fim com o vídeo direto e pesado da Adrian Piper, questionando a relevância da etnia negra nos EUA: Cornered [1][2], de 1988.
Eu imaginei terminar este post com uma longa reflexão que fiz após a palestra, sobre minha própria identidade. Percebi como questões de família, educação, nacionalidade e referência moldaram quem eu sou hoje. Mas deixo essa reflexão para meu caderno de anotações, ciente de que postá-la aqui não só seria o que algumas pessoas consideram "expor-me demais" (e que eu de fato não me importo em fazer), mas também levantaria questões sobre em quem recai a "culpa" pelos meus traços mais... não-convencionais.
Mas o que eu posso colocar aqui é a idéia de que provavelmente as obras que eu fizer por aqui em Londres daqui pra frente terão mais a ver com a minha visão de brasileiro sobre a cultura e sociedade britânicas.
Each of you is your own best cultural resource
[Cada um de vocês é sua própria e melhor fonte de cultura]
Foi assim que o professor John Cussans começou a bem-humorada palestra.
Embora ele tenha usado parte do começo de sua palestra para terminar a anterior (interrompida, claro, por outro alarme de incêndio), ele rapidamente chegou no assunto de identidade. Na verdade, o professor fez uma distinção importante entre o que ele chamou de identidade e individualidade. A primeira é uma questão social, são características que compartilhamos com os outros, e que servem para nos posicionarmos como diferentes ou semelhantes. A outra questão é pessoal, o que nos define para nós mesmos.
Em dado momento, ele colocou quatro perguntas na tela. Aparentemente semelhantes, elas na verdade têm nuances bem diferentes:
1) Quem é você?
2) Que tipo de pessoa é você?
3) Como você se define?
4) Como você é percebido pelos outros?
Tudo parece ser de fato uma questão de ponto de vista. Mas as respostas para estas questões todas passam pelo que ele chamou de "categorias de identificação": nome, idade, sexo, orientação sexual, raça, nacionalidade, religião, opinião política, profissão, entre outros. O que pareceu interessante é que, de acordo com o que ele mencionou, estas categorias são foretmente baseadas em contexto. Ele terminou a palestra colocando a seguinte questão: escolham três destas coisas que vocês consideram que melhor os definem. Eu entendi que, por estar neste contexto, uma coisa que eu sentia como muito importante era a nacionalidade. Se estivesse no meu país, isso não importaria. A questão tinha a ver, ele explicou, com o que o filósofo Hegel chamava da dialética do mestre e o escravo: o mestre só se reconhecia mestre se tivesse o "outro" sobre o qual ele pudesse exercer superioridade. Eu só me reconhecia brasileiro por estar rodeado de ingleses.
No fim da aula, ele pediu que levantassem as mãos as pessoas que se sentiam identificadas por cada uma das categorias. Quando ele mencionou sexo, levantei a mão junto com um par de garotas coreanas. Ele gaguejou por um instante: não esperava que um homem sentisse o peso do gênero do mesmo modo que mulheres. Quando me perguntou porque o sexo era uma questão tão importante, expliquei que fazia parte do meu projeto. Que eu vinha de uma realidade onde uma espécie de contra-preconceito latente acontecia, e onde os homens acabavam sentindo o peso de serem considerados menos espertos, menos atentos, menos decentes, menos, menos, menos... Expliquei ainda que recentemente eu tinha me dado conta de que a realidade por aqui era outra, e que essa questão já havia evoluído para além da minha realidade local.
-"Não diria que ela evoluiu aqui. Apenas... foi esquecida."- ele respondeu. Só não fiquei surpreso com a resposta, porque já a ouvira antes de outras pessoas. O que me lembra que preciso escrever sobre a recepção que o meu projeto de mestrado teve dos meus colegas. Mas fica pra outro post. O que importa aqui é que era mais uma prova de que eu estava levantando assuntos que não eram errados, mas apenas não-resolvidos.
A partir daí e das respostas de tantas outras pessoas que também se basearam em categorias que as faziam se sentirem oprimidas, a palestra passou a caminhar para um fim em clima tenso, meio introspectivo. Terminando por fim com o vídeo direto e pesado da Adrian Piper, questionando a relevância da etnia negra nos EUA: Cornered [1][2], de 1988.
Eu imaginei terminar este post com uma longa reflexão que fiz após a palestra, sobre minha própria identidade. Percebi como questões de família, educação, nacionalidade e referência moldaram quem eu sou hoje. Mas deixo essa reflexão para meu caderno de anotações, ciente de que postá-la aqui não só seria o que algumas pessoas consideram "expor-me demais" (e que eu de fato não me importo em fazer), mas também levantaria questões sobre em quem recai a "culpa" pelos meus traços mais... não-convencionais.
Mas o que eu posso colocar aqui é a idéia de que provavelmente as obras que eu fizer por aqui em Londres daqui pra frente terão mais a ver com a minha visão de brasileiro sobre a cultura e sociedade britânicas.
terça-feira, outubro 26, 2010
Alarmes de incêndio
Quarta passada.
Eu tinha acabdo de me arrumar e estava prestes a sair do meu quarto e trancar a porta, quando o alarme de incêndio tocou. Dá pra ouví-lo acontecendo a artir de outros quartos do prédio, um alarme acionado o outro sucessivamente, até atingir o meu quarto.
Pânico? Correria? Danos materiais?
Não. Tranquei a porta do quarto deixando meu computador e documentos lá dentro, porque sabia que não haveria nada disso.
Os outros habitantes do prédio foram saíndo de seus quartos lentamente, muitos ainda vestindo pijamas. Em vez do desespero, vinham visivelmente incomodados. Um deles murmurava:
-"Not again..." - ["De novo não..."].
Ainda não tenho certeza se é uma coisa britânica recente ou apenas algo pertinente à universidade e empresas em parceria, mas ando viveno em um ambiente que vive com a paranóia por incêndios. No dia seguinte, foi a vez da faculdade. No meio da palestra introdutória do curso, o alarme diparou. Todos saíram do prédio, esperaram vinte minutos e voltaram. Sempre um alarme falso, um exercício (evidenciado pela quantidade de monitores vestindo casacos amarelo-fosforescentes nas rotas de saída).
Pra piorar a situação, os alarmes dispararam duas vezes sucessivas no fim de semana. Aparentemente, um ex-morador e ex-aluno conseguiu que o deixassem entrar e imaginou que seria super divertido disparar os alarmes... às três da manhã.
A coisa toda está criando um comportamento nos moradores do prédio e alunos da faculdade de "menino que gritava 'lobo!'". Ouvimos o alarme, calmamente terminamos o que estamos fazendo, às vezes até o ignoramos.
De vez em quando, assomamo-nos à janela, só pra ter certeza de que não há fumaça saíndo de nenhuma das janelas.
Eu tinha acabdo de me arrumar e estava prestes a sair do meu quarto e trancar a porta, quando o alarme de incêndio tocou. Dá pra ouví-lo acontecendo a artir de outros quartos do prédio, um alarme acionado o outro sucessivamente, até atingir o meu quarto.
Pânico? Correria? Danos materiais?
Não. Tranquei a porta do quarto deixando meu computador e documentos lá dentro, porque sabia que não haveria nada disso.
Os outros habitantes do prédio foram saíndo de seus quartos lentamente, muitos ainda vestindo pijamas. Em vez do desespero, vinham visivelmente incomodados. Um deles murmurava:
-"Not again..." - ["De novo não..."].
Ainda não tenho certeza se é uma coisa britânica recente ou apenas algo pertinente à universidade e empresas em parceria, mas ando viveno em um ambiente que vive com a paranóia por incêndios. No dia seguinte, foi a vez da faculdade. No meio da palestra introdutória do curso, o alarme diparou. Todos saíram do prédio, esperaram vinte minutos e voltaram. Sempre um alarme falso, um exercício (evidenciado pela quantidade de monitores vestindo casacos amarelo-fosforescentes nas rotas de saída).
Pra piorar a situação, os alarmes dispararam duas vezes sucessivas no fim de semana. Aparentemente, um ex-morador e ex-aluno conseguiu que o deixassem entrar e imaginou que seria super divertido disparar os alarmes... às três da manhã.
A coisa toda está criando um comportamento nos moradores do prédio e alunos da faculdade de "menino que gritava 'lobo!'". Ouvimos o alarme, calmamente terminamos o que estamos fazendo, às vezes até o ignoramos.
De vez em quando, assomamo-nos à janela, só pra ter certeza de que não há fumaça saíndo de nenhuma das janelas.
domingo, outubro 24, 2010
London art scene [simplified]
After a few weeks in London, I begin to get a feel of the current British art scene from talking to coleagues and flatmates. The picture that slowly comes together in my mind is a mix of personal interests and recurring names, from which I've pointed out a few relevant things in this post.
First and foremost, there was the Frieze Art Fair.
The concept, although not entirely new here in Britain, seemed to echo the SP Arte fair in São Paulo, which has turned the tide of things back in my homeland. Perhaps for the first time out there, collectors, gallery owners and artists are talking about art as a marketable product, buying and selling it shamelessly in an open fair. It's something that wildly differs from the mood of academia, where marketing art was seen as a sort of necessary evil, spoken of in almost hushed tones amidst BA students.
As for the Frieze, I narrowly missed it, seeing as I was caught in the middle of landing in London and sorting out all the bureaucracy. I heard it got marginally bad reviews, as indeed most of the art events seem to get recently. Which, in fact, matters little if nothing at all.
Another considerable art event frequently mentioned is the ongoing Turner Prize exhibition, which, as expected, also got fairly poor reviews. Including obviously a rather provocative cartoon published in the Freize blog, which curiously could also be targeted at the Frieze Fair itself.
I haven't been to the Prize yet, but that is supposed to change in the next few days, since one of our MA tutors gave us free tickets. I expect to have a better understanding of what all the fuss is about before commenting on its relevance in here.
Something I have researched enough to have a proper opinion about is British artist Tracey Emin. Her name was on the lips of every BA student living in my residence hall (of which I'm one of two MA residents) and even friends from outside the art world have come to ask my opinion about her recently. It felt much like the hype bestowed upon Mattew Barney when I was doing my own BA back in Brazil some five years ago. I had only a vague understanding of what Emin's work was about, mostly derived from her work at Saatchi's famous Sensation exhibit. But a quick search through Google gave me a wider impression. About her, I can hesitatingly issue the following paragraph:
There is poetry, and there is vesceral truth.
I believe most poetry is naive or blind by choice. And most visceral truths are downright ugly and non-poetic. Most arts students only ever get to be poetic. Very few people (I could name fellow Brazilians Erich Baptista, Rivane Neuenschwander, Dora Longo Bahia, Cazuza and Marina Lima, British band Placebo and perhaps a few Grunge bands) get a healthy, satisfying mixture of both in my opinion. They're among my favorite artists. Emin belongs to a third kind of people (akin to Pedro Juan Gutierrez, Tracey's pal Damien Hirst and some instances of Lourenço Mutarelli), those who just go for the gross visceral truth, and fuck poetry. Personally, I have no taste for that. It all just feels to me like "shock and awe" guerrilla tactics instead of art. But what do I know?
I'll end my issued opinion there. Although there are other things to be said on future posts about her.
Researching Emin, I again came upon another recurring term: Stuckism. Which a BA student flatmate described as being a sort of return to conventional illustrative painting carried out by artists who were all fed up of excessively conceptual art and the way it no longer communicated with the general public. The movement, that curiously has amidst its founders one Billy Childish, former boyfriend to (you guessed it...) Tracey Emin, had its official start in 1999. However, the prototypes for it date back as far as 1979 and the Medway Poets group.
I'm currently quite interested in the group, their past reactions to the Turner Prize. But mostly, I'm interested in their promotion of a return to understandable art and illustrative painting not seen as a heresy anymore.
More on the Turner Prize after my visit in the next few days.
=====================
Escrevi o post acima em inglês para tentar um bico em uma revista que estava pedindo colaboradores para escrever sobre arte. Quem sabe...
Abaixo, a tradução:
Após algumas semanas em Londres, posso ter uma noção do atual cenário das artes britânicas através de conversas com colegas e companheiros de apê. A imagem que lentamente se forma na minha mente é uma mistura de interesses pessoas e nomes recorrentes, dos quais pincei algumas coisas relevantes para este post.
Primeiro e mais importante, houve a Frieze Art Fair.
Embora não inteiramente novo aqui na Inglaterra, o conceito pareceu ecoar a SP Arte em São Paulo, que causou uma mudança de ares na minha terra natal. Talvez pela primeira vez por lá, colecionadores, galeristas e artistas estão falando de arte como um produto vendável, comprando e vendendo-o despudoradamente em uma feira livre. É algo que em muito difere do clima da academia, onde vender arte era visto como uma espécie de mau necessário, mencionado quase em tons sussurrados pelos alunos de bacharelado.
Quanto à Frieze, eu perdi por pouco, sendo que estava ocupado com pousar em Londres e atravessar toda a burocracia. Ouvi que teve críticas relativamente ruins, como na verdade a maioria dos eventos de arte parecem ter recentemente. Coisa que, na verdade, pouco ou nada importa.
Outro evento de arte consideravel e frequentemente mencionado foi a atual exposição do Turner Prize que, como era de se esperar, também obteve críticas ruins. Incluindo obviamente a provocative charge publicada no blog do Frieze, que curiosamente poderia também ser direcionada à Frieze Art Fair em si.
Ainda não fui ao Turner, mas isso supostamente vai mudar nos próximos dias, já que um de nossos orientadores de metrado nos deu ingressos de graça. Espero ter uma melhor compreensão do que é todo o alvoroço a respeito do assunto antes de comentar sua relevância por aqui.
Algo que eu pesquisei o suficiente para ter uma opinião a respeito foi a artista britânica Tracey Emin. O nome dela estava na boca de todo graduando de arte vivendo no meu residence hall (do qual eu sou um de dois únicos mestrandos residentes) e até de amigos de fora do universo das artes que vieram perguntar minha opinião sobre ela recentemente. Tudo parecia muito com o hype outorgado a Mattew Barney quando eu estava fazendo a minha graduaação no Brasil há cinco anos. Eu tinha apenas uma vaga compreensão do que o trabalho de Emin era, em grande parte derivada do seu trabalho na famosa exposição Sensations do Saatchi. Mas uma rápida busca no Google me deu uma impressão mais ampla. Sobre ela, posso hesitantemente publicar o seguinte parágrafo:
Há poesia, e há verdades viscerais.
Acredito que a maior parte da poesia é ingênua ou cega por escolha própria. E a maioria das verdades viscerais é de fato feia ou não poética. A maioria dos estudantes de arte chegam apenas a serem poéticos. Poucas pessoas (poderia mentionar os compatriotas Erich Baptista, Rivane Neuenschwander, Dora Longo Bahia, Cazuza e Marina Lima, a banda britânica Placebo e talvez algumas bandas grunge) chegam a uma mistura saudavel e satisfatória dos dois, na minha opinião. Estão entre os meus artistas favoritos. Emin pertence a um terceiro tipo de pessoa (partidários de Pedro Juan Gutierrez, Damien Hirst- colega de Emin e algumas instâncias de Lourenço Mutarelli), aqueles que estão atrás apenas da grotesca verdade visceral, e foda-se a poesia. Pessoalmente, não tenho gosto para isso. Tudo me parece como tática de guerrilha de chocar e atordoar em vez de arte. Mas quem sou eu pra falar disso?
Terminarei minha opinião pública por aqui. Embora haja outras coisas a serem ditas sobre ela em posts futuros.
Pesquisando Emin, novamente cheguei a outro termo recorrente: Stuckism. Algo que o meu companheiro de apê graduando descreveu como sendo um tipo de retorno à pintura ilustrativa convencional praticado por artistas que estavam fartos da arte excessivamente conceitual e o jeito como ela não comunicava mais nada ao público geral. O movimento, que cuiosamente conta entre seus fundadores com um certoBilly Childish, antigo namorado de (adivinha...)Tracey Emin, teve seu começo oficial em 1999. No entanto, protótipos dele datam dos idos de 1979 e o grupo dos Medway Poets.
Estou atualmente bem interessado pelo grupo e suas reações a edições passadas do Turner Prize. Mas estou principalmente interessado na sua divulgação de uma volta à arte compreensível e à pintura ilustrativa vista não mais como uma heresia.
Mais a respeito do Turner Prize depois da minha visita daqui a alguns dias.
First and foremost, there was the Frieze Art Fair.
The concept, although not entirely new here in Britain, seemed to echo the SP Arte fair in São Paulo, which has turned the tide of things back in my homeland. Perhaps for the first time out there, collectors, gallery owners and artists are talking about art as a marketable product, buying and selling it shamelessly in an open fair. It's something that wildly differs from the mood of academia, where marketing art was seen as a sort of necessary evil, spoken of in almost hushed tones amidst BA students.
As for the Frieze, I narrowly missed it, seeing as I was caught in the middle of landing in London and sorting out all the bureaucracy. I heard it got marginally bad reviews, as indeed most of the art events seem to get recently. Which, in fact, matters little if nothing at all.
Another considerable art event frequently mentioned is the ongoing Turner Prize exhibition, which, as expected, also got fairly poor reviews. Including obviously a rather provocative cartoon published in the Freize blog, which curiously could also be targeted at the Frieze Fair itself.
I haven't been to the Prize yet, but that is supposed to change in the next few days, since one of our MA tutors gave us free tickets. I expect to have a better understanding of what all the fuss is about before commenting on its relevance in here.
Something I have researched enough to have a proper opinion about is British artist Tracey Emin. Her name was on the lips of every BA student living in my residence hall (of which I'm one of two MA residents) and even friends from outside the art world have come to ask my opinion about her recently. It felt much like the hype bestowed upon Mattew Barney when I was doing my own BA back in Brazil some five years ago. I had only a vague understanding of what Emin's work was about, mostly derived from her work at Saatchi's famous Sensation exhibit. But a quick search through Google gave me a wider impression. About her, I can hesitatingly issue the following paragraph:
There is poetry, and there is vesceral truth.
I believe most poetry is naive or blind by choice. And most visceral truths are downright ugly and non-poetic. Most arts students only ever get to be poetic. Very few people (I could name fellow Brazilians Erich Baptista, Rivane Neuenschwander, Dora Longo Bahia, Cazuza and Marina Lima, British band Placebo and perhaps a few Grunge bands) get a healthy, satisfying mixture of both in my opinion. They're among my favorite artists. Emin belongs to a third kind of people (akin to Pedro Juan Gutierrez, Tracey's pal Damien Hirst and some instances of Lourenço Mutarelli), those who just go for the gross visceral truth, and fuck poetry. Personally, I have no taste for that. It all just feels to me like "shock and awe" guerrilla tactics instead of art. But what do I know?
I'll end my issued opinion there. Although there are other things to be said on future posts about her.
Researching Emin, I again came upon another recurring term: Stuckism. Which a BA student flatmate described as being a sort of return to conventional illustrative painting carried out by artists who were all fed up of excessively conceptual art and the way it no longer communicated with the general public. The movement, that curiously has amidst its founders one Billy Childish, former boyfriend to (you guessed it...) Tracey Emin, had its official start in 1999. However, the prototypes for it date back as far as 1979 and the Medway Poets group.
I'm currently quite interested in the group, their past reactions to the Turner Prize. But mostly, I'm interested in their promotion of a return to understandable art and illustrative painting not seen as a heresy anymore.
More on the Turner Prize after my visit in the next few days.
=====================
Escrevi o post acima em inglês para tentar um bico em uma revista que estava pedindo colaboradores para escrever sobre arte. Quem sabe...
Abaixo, a tradução:
Após algumas semanas em Londres, posso ter uma noção do atual cenário das artes britânicas através de conversas com colegas e companheiros de apê. A imagem que lentamente se forma na minha mente é uma mistura de interesses pessoas e nomes recorrentes, dos quais pincei algumas coisas relevantes para este post.
Primeiro e mais importante, houve a Frieze Art Fair.
Embora não inteiramente novo aqui na Inglaterra, o conceito pareceu ecoar a SP Arte em São Paulo, que causou uma mudança de ares na minha terra natal. Talvez pela primeira vez por lá, colecionadores, galeristas e artistas estão falando de arte como um produto vendável, comprando e vendendo-o despudoradamente em uma feira livre. É algo que em muito difere do clima da academia, onde vender arte era visto como uma espécie de mau necessário, mencionado quase em tons sussurrados pelos alunos de bacharelado.
Quanto à Frieze, eu perdi por pouco, sendo que estava ocupado com pousar em Londres e atravessar toda a burocracia. Ouvi que teve críticas relativamente ruins, como na verdade a maioria dos eventos de arte parecem ter recentemente. Coisa que, na verdade, pouco ou nada importa.
Outro evento de arte consideravel e frequentemente mencionado foi a atual exposição do Turner Prize que, como era de se esperar, também obteve críticas ruins. Incluindo obviamente a provocative charge publicada no blog do Frieze, que curiosamente poderia também ser direcionada à Frieze Art Fair em si.
Ainda não fui ao Turner, mas isso supostamente vai mudar nos próximos dias, já que um de nossos orientadores de metrado nos deu ingressos de graça. Espero ter uma melhor compreensão do que é todo o alvoroço a respeito do assunto antes de comentar sua relevância por aqui.
Algo que eu pesquisei o suficiente para ter uma opinião a respeito foi a artista britânica Tracey Emin. O nome dela estava na boca de todo graduando de arte vivendo no meu residence hall (do qual eu sou um de dois únicos mestrandos residentes) e até de amigos de fora do universo das artes que vieram perguntar minha opinião sobre ela recentemente. Tudo parecia muito com o hype outorgado a Mattew Barney quando eu estava fazendo a minha graduaação no Brasil há cinco anos. Eu tinha apenas uma vaga compreensão do que o trabalho de Emin era, em grande parte derivada do seu trabalho na famosa exposição Sensations do Saatchi. Mas uma rápida busca no Google me deu uma impressão mais ampla. Sobre ela, posso hesitantemente publicar o seguinte parágrafo:
Há poesia, e há verdades viscerais.
Acredito que a maior parte da poesia é ingênua ou cega por escolha própria. E a maioria das verdades viscerais é de fato feia ou não poética. A maioria dos estudantes de arte chegam apenas a serem poéticos. Poucas pessoas (poderia mentionar os compatriotas Erich Baptista, Rivane Neuenschwander, Dora Longo Bahia, Cazuza e Marina Lima, a banda britânica Placebo e talvez algumas bandas grunge) chegam a uma mistura saudavel e satisfatória dos dois, na minha opinião. Estão entre os meus artistas favoritos. Emin pertence a um terceiro tipo de pessoa (partidários de Pedro Juan Gutierrez, Damien Hirst- colega de Emin e algumas instâncias de Lourenço Mutarelli), aqueles que estão atrás apenas da grotesca verdade visceral, e foda-se a poesia. Pessoalmente, não tenho gosto para isso. Tudo me parece como tática de guerrilha de chocar e atordoar em vez de arte. Mas quem sou eu pra falar disso?
Terminarei minha opinião pública por aqui. Embora haja outras coisas a serem ditas sobre ela em posts futuros.
Pesquisando Emin, novamente cheguei a outro termo recorrente: Stuckism. Algo que o meu companheiro de apê graduando descreveu como sendo um tipo de retorno à pintura ilustrativa convencional praticado por artistas que estavam fartos da arte excessivamente conceitual e o jeito como ela não comunicava mais nada ao público geral. O movimento, que cuiosamente conta entre seus fundadores com um certoBilly Childish, antigo namorado de (adivinha...)Tracey Emin, teve seu começo oficial em 1999. No entanto, protótipos dele datam dos idos de 1979 e o grupo dos Medway Poets.
Estou atualmente bem interessado pelo grupo e suas reações a edições passadas do Turner Prize. Mas estou principalmente interessado na sua divulgação de uma volta à arte compreensível e à pintura ilustrativa vista não mais como uma heresia.
Mais a respeito do Turner Prize depois da minha visita daqui a alguns dias.
quinta-feira, outubro 21, 2010
Hipsters
Só uma nota rápida.
Sabe aquela galerinha hype dixcolada,do tipo Cansei de Ser Sexy? Importaram o visual, o estilo de vida, as drogas e a atitude nojenta dos hipsters de Londres. Uma subcultura que era modinha há uns cinco anos ou mais e hoje é motivo de piada. Aliás, tão motivo de piada, que uma das palestras de abertura do curso de mestrado terminou com o vídeo abaixo, ridicularizando o tipinho:
Aliás, foi uma surpresa muito boa perceber que, mesmo na Inglaterra, onde tudo deveria ser um pouco mais blasê e quadrado, uma palestra de mestrado tenha sido tão gostosa e bem-humorada. Adoro palestrantes que sabem o que estão fazendo.
Bom, deu pra perceber pelo vídeo que fim vai levar a atual modinha do Restart de roupas bizarras e coloridas...
Sabe aquela galerinha hype dixcolada,do tipo Cansei de Ser Sexy? Importaram o visual, o estilo de vida, as drogas e a atitude nojenta dos hipsters de Londres. Uma subcultura que era modinha há uns cinco anos ou mais e hoje é motivo de piada. Aliás, tão motivo de piada, que uma das palestras de abertura do curso de mestrado terminou com o vídeo abaixo, ridicularizando o tipinho:
Aliás, foi uma surpresa muito boa perceber que, mesmo na Inglaterra, onde tudo deveria ser um pouco mais blasê e quadrado, uma palestra de mestrado tenha sido tão gostosa e bem-humorada. Adoro palestrantes que sabem o que estão fazendo.
Bom, deu pra perceber pelo vídeo que fim vai levar a atual modinha do Restart de roupas bizarras e coloridas...
terça-feira, outubro 19, 2010
Política
Não, eu não vou falar da política brasileira (embora tenha opiniões muito específicas a respeito...). Já tem gente o suficiente fazendo isso de formas muito engraçadas e muito censuradas.
Primeiramente, vou falar da política na minha turma de mestrado. No começo da semana, votamos para eleger os representantes de classe. Como tínhamos direito a três representantes e eu achei que poderia fazer um bom trabalho junto com o norueguês que era o candidato óbvio, me candidatei também. Mas no final das contas, os mais votados foram ele; Jeeti, a indiana simpática que já tinha sido representante de classe no ano anterior e já conhecia os meandros da faculdade; e Christabel, uma taiwaneza nascida na Nova Zelândia e que morava no Canadá, e que aparentemente foi votada por ser a voz da enorme comunidade asiática na classe. Eu fui o quarto mais votado, seguido do meu amigo americano John, o fazedor de guitarras. Ainda assim, o voto em si era só uma formalidade técnica: ainda fui apontado por essa nova tríade de representantes para ser o cara encarregado dos e-mails e calendários, já que sou meticuloso na organização do meu Google Calendar. Ontem à noite, passei nossos horários para a turma toda, com instruções meticulosas sobre como usar o serviço do Google. Até agora, tudo corre bem...
Mas embora eu me recuse a falar do que penso sobre as iminentes eleições no meu país, vou escrever também sobre a política britânica, que ultimamente tem estado muito em evidência por aqui. Ross a discute constantemente, está nos jornais e na miríade de passeatas de protesto recentemente.
Hoje mesmo, voltando para o apê, passei por Trafalgar. A polícia já tinha fechado as ruas antecipando o trajeto da passeata e desviando o meu ônibus. Confuso, fiquei tentando entender o que se passava, quando as pessoas começaram a fluir pelo Strand em direção a Whitehall. Instintivamente apressei o passo para fugir da multidão no começo, mas depois me dei conta de que, em vez de temer isso, eu devia entender isso. Eu sempre havia ignorado a questão política do meu próprio país e já estava farto disso. Diminuí o passo e deixei-me envolver naquilo.
A passeata era contra as propostas de corte de orçamento do primeiro ministro David Cameron. Eu já havia ouvido algo sobre isso. De fato, comprara uma edição da revista americana Newsweek no aeroporto em Lisboa, a caminho de Londres, que falava sobre ele. Comparavasua proposta política à de Margaret Thatcher. Curioso sobre o nome que eu ouvi tanto na minha infância, fui procurar na Wikipedia. Parece que na década de 80, Thatcher pôs em prática uma austera política de cortes orçamentários que mergulharam o país no desemprego, rendendo-lhe o apelido de "Dama de Ferro" ("Iron Maiden") por sua aparente frieza e crueldade. Cameron estava promovendo cortes iguais ou até piores, que teriam maior efeito sobre a classe operária e estudantil e quase nenhum efeito nas classes mais abastadas. Em discurso na frente do prédio onde o atual primeiro-ministro estava morando em Whitehall, um líder sindical dirigia-se à platéia, mencionando que apesar da recessão causada pela proximidade entre as políticas do Reino Unido e dos EUA, a economia inglesa ainda era a quinta maior economia do mundo, e que se apenas metade dos impostos que a aristocracia se negava a pagar fosse cobrados, seria o suficiente para resolver a recessão. Ele terminava o discurso dizendo que Cameron estava tentando "complementar o legado daquela mulher que hoje mora no Hospital Cromwell".
When they say "cut back", we say "fight back" [Quando eles dizem "cortes de orçamento", nós dizemos "resistência"]
Our jobs are not for sale, put your bankers into jail [Nossas empregos não estão à venda, coloquem seus banqueiros na cadeia]
A coisa toda faz-me pensar sobre como eu tive a sorte de estar aqui em Londres neste exato momento. A libra nunca esteve tão baixa em relação à nossa moeda. Se eu tivesse vindo no ano passado, teria pago mais caro. Em compensação, se os cortes orçamentário realmente acontecerem, os preços dos cursos devem aumentar no ano que vem. Este foi o ano de melhor custo-benefício.
Obviamente, tenho visto a resistência chegar à faculdade. Há um protesto programado para acontecer em Trafalgar, só relativo a cortes de orçamento na educação. E eu, que sempre fui apolítico, alienado e apático, estou seriamente cogitando participar...
Primeiramente, vou falar da política na minha turma de mestrado. No começo da semana, votamos para eleger os representantes de classe. Como tínhamos direito a três representantes e eu achei que poderia fazer um bom trabalho junto com o norueguês que era o candidato óbvio, me candidatei também. Mas no final das contas, os mais votados foram ele; Jeeti, a indiana simpática que já tinha sido representante de classe no ano anterior e já conhecia os meandros da faculdade; e Christabel, uma taiwaneza nascida na Nova Zelândia e que morava no Canadá, e que aparentemente foi votada por ser a voz da enorme comunidade asiática na classe. Eu fui o quarto mais votado, seguido do meu amigo americano John, o fazedor de guitarras. Ainda assim, o voto em si era só uma formalidade técnica: ainda fui apontado por essa nova tríade de representantes para ser o cara encarregado dos e-mails e calendários, já que sou meticuloso na organização do meu Google Calendar. Ontem à noite, passei nossos horários para a turma toda, com instruções meticulosas sobre como usar o serviço do Google. Até agora, tudo corre bem...
Hoje mesmo, voltando para o apê, passei por Trafalgar. A polícia já tinha fechado as ruas antecipando o trajeto da passeata e desviando o meu ônibus. Confuso, fiquei tentando entender o que se passava, quando as pessoas começaram a fluir pelo Strand em direção a Whitehall. Instintivamente apressei o passo para fugir da multidão no começo, mas depois me dei conta de que, em vez de temer isso, eu devia entender isso. Eu sempre havia ignorado a questão política do meu próprio país e já estava farto disso. Diminuí o passo e deixei-me envolver naquilo.
A passeata era contra as propostas de corte de orçamento do primeiro ministro David Cameron. Eu já havia ouvido algo sobre isso. De fato, comprara uma edição da revista americana Newsweek no aeroporto em Lisboa, a caminho de Londres, que falava sobre ele. Comparavasua proposta política à de Margaret Thatcher. Curioso sobre o nome que eu ouvi tanto na minha infância, fui procurar na Wikipedia. Parece que na década de 80, Thatcher pôs em prática uma austera política de cortes orçamentários que mergulharam o país no desemprego, rendendo-lhe o apelido de "Dama de Ferro" ("Iron Maiden") por sua aparente frieza e crueldade. Cameron estava promovendo cortes iguais ou até piores, que teriam maior efeito sobre a classe operária e estudantil e quase nenhum efeito nas classes mais abastadas. Em discurso na frente do prédio onde o atual primeiro-ministro estava morando em Whitehall, um líder sindical dirigia-se à platéia, mencionando que apesar da recessão causada pela proximidade entre as políticas do Reino Unido e dos EUA, a economia inglesa ainda era a quinta maior economia do mundo, e que se apenas metade dos impostos que a aristocracia se negava a pagar fosse cobrados, seria o suficiente para resolver a recessão. Ele terminava o discurso dizendo que Cameron estava tentando "complementar o legado daquela mulher que hoje mora no Hospital Cromwell".
When they say "cut back", we say "fight back" [Quando eles dizem "cortes de orçamento", nós dizemos "resistência"]
Our jobs are not for sale, put your bankers into jail [Nossas empregos não estão à venda, coloquem seus banqueiros na cadeia]
A coisa toda faz-me pensar sobre como eu tive a sorte de estar aqui em Londres neste exato momento. A libra nunca esteve tão baixa em relação à nossa moeda. Se eu tivesse vindo no ano passado, teria pago mais caro. Em compensação, se os cortes orçamentário realmente acontecerem, os preços dos cursos devem aumentar no ano que vem. Este foi o ano de melhor custo-benefício.
Obviamente, tenho visto a resistência chegar à faculdade. Há um protesto programado para acontecer em Trafalgar, só relativo a cortes de orçamento na educação. E eu, que sempre fui apolítico, alienado e apático, estou seriamente cogitando participar...
sábado, outubro 16, 2010
Emily pós-balada
Ontem à noite, devido a um acesso de saudade da minha Lexy, resolvi ficar em casa, apesar do convite de meus companheiros de apê para ir a uma festa perto de casa.
No dia seguinte, eu estava acordando enquanto eles chegavam da festa. Era quase meio-dia. Lu'ay foi para o quarto e de lá não saiu. Enquanto escrevo isso, me pergunto se seu corpo inerte não estará apodrecendo já... Emily ousou sair à procura de comida. Para sua sorte, eu tinha feito um pouco mais do que devia do meu almoço, e lhe ofereci um pouco em troca de conversa (e promessas de que ela limpasse a sua parte da cozinha...).
O que Emily contou sobre a noite adolescente em Londres me pareceu um outro universo. Um onde as baladas são o que imaginamos que elas sejam, em lugares interessantes com música boa. A da noite passada havia sido em um antigo hotel desativado e transformado em casa de eventos. Eu mesmo havia ido a outra alguns dias depois de chegar em Londres, em um lugar chamado Koko e que merece um post só sobre isso e sobre a DJ da noite, a fantástica Goldierocks.
E no entanto, na índole britânica de excesso de diversão inconsequente, descobri que metade da turma do apê tem hábitos químicos muito pouco recomendáveis. Onde meus conterrâneos vão a algum lugar beber antes da balada, os britânicos encontram-se para conseguir o famoso special K, ou ket, como eles chamam. Em seguida partem para a balada, da qual retornam normalmente quando o dia amanhece.
O engraçado de tudo isso é que eles passam boa parte do tempo pechinchando por gastos com necessidades básicas ou reclamando por terem que gastar qualquer dinheiro que eles não têm, mas há sempre dinheiro para entorpecentes. Faz-me lembrar de colegas da faculdade de publicidade que não tinham muito o que comer, mas tinham a maconha para fumar. Adolescentes são adolescentes em qualquer lugar...
Vejo no entanto os dois lados dessa existência. Vejo como Emily e alguns de seus amigos são felizes, lúcidos e em controle da situação. Como têm noites mais interessantes do que muita coisa que eu já tive. Por outro lado, vejo alguns de seus amigos que já estão "fritos" demais para qualquer interação social coerente e continuam buscando aquela "viagem" perfeita.
E como a existência deles parece girar em torno de aproveitar a próxima balada enquanto seus quartos, suas cozinhas, seus relacionamentos e toda sua existência continuam sujos e desarrumados.
No dia seguinte, eu estava acordando enquanto eles chegavam da festa. Era quase meio-dia. Lu'ay foi para o quarto e de lá não saiu. Enquanto escrevo isso, me pergunto se seu corpo inerte não estará apodrecendo já... Emily ousou sair à procura de comida. Para sua sorte, eu tinha feito um pouco mais do que devia do meu almoço, e lhe ofereci um pouco em troca de conversa (e promessas de que ela limpasse a sua parte da cozinha...).
O que Emily contou sobre a noite adolescente em Londres me pareceu um outro universo. Um onde as baladas são o que imaginamos que elas sejam, em lugares interessantes com música boa. A da noite passada havia sido em um antigo hotel desativado e transformado em casa de eventos. Eu mesmo havia ido a outra alguns dias depois de chegar em Londres, em um lugar chamado Koko e que merece um post só sobre isso e sobre a DJ da noite, a fantástica Goldierocks.
E no entanto, na índole britânica de excesso de diversão inconsequente, descobri que metade da turma do apê tem hábitos químicos muito pouco recomendáveis. Onde meus conterrâneos vão a algum lugar beber antes da balada, os britânicos encontram-se para conseguir o famoso special K, ou ket, como eles chamam. Em seguida partem para a balada, da qual retornam normalmente quando o dia amanhece.
O engraçado de tudo isso é que eles passam boa parte do tempo pechinchando por gastos com necessidades básicas ou reclamando por terem que gastar qualquer dinheiro que eles não têm, mas há sempre dinheiro para entorpecentes. Faz-me lembrar de colegas da faculdade de publicidade que não tinham muito o que comer, mas tinham a maconha para fumar. Adolescentes são adolescentes em qualquer lugar...
Vejo no entanto os dois lados dessa existência. Vejo como Emily e alguns de seus amigos são felizes, lúcidos e em controle da situação. Como têm noites mais interessantes do que muita coisa que eu já tive. Por outro lado, vejo alguns de seus amigos que já estão "fritos" demais para qualquer interação social coerente e continuam buscando aquela "viagem" perfeita.
E como a existência deles parece girar em torno de aproveitar a próxima balada enquanto seus quartos, suas cozinhas, seus relacionamentos e toda sua existência continuam sujos e desarrumados.
sexta-feira, outubro 15, 2010
Ainda traduzindo
Apesar de ser professor de inglês, há ainda discrepâncias entre o inglês predominantemente americano que eu aprendi e o britânico. Algumas coisas são questões de gramática, como o uso dos verbos auxiliares corretos nas perguntas.
Emily perguntou-me outro dia:
-"Haven't you been to Camden yet?"-
Empregou o auxiliar correto em vez do erro americano "Didn't you go to Camden yet?".
Outras coisas são questões semânticas. Dia desses, Ross entrou na cozinha depois de uma noite altamente etílica e me perguntou:
-"What do you Brazilians cook when you get pissed?"
No meu vocabulário americano, a pergunta não fazia muito sentido. Para os americanos, "pissed" tem uma conotação de raiva. Fiquei alguns segundos considerando o que eu poderia cozinhar quando estivesse de mal humor. Brigadeiro? E então me dei conta da diferença de sentido: para eles, "pissed" tem sentido de bêbado ou com ressaca. A pergunta passou a fazer sentido: o que eu comeria para curar ressaca.
Parece-me que, mesmo com meu nível de inglês, acabo ainda tendo que traduzir algumas coisas.
As pessoas que lidam comigo têm falado boas coisas sobre meu inglês, que apesar de ter uma escolha de palavras bem americana e algum sotaque, ainda confunde meu colega americano John, que diz jamais ter visto um brasileiro com sotaque britânico.
A única questão que ainda me incomoda é o nome. Tive ímpetos de me apresentar como Peter, porque achei que Pedro tinha uma conotação de mexicano mal-pago. Mas logo no primeiro dia, uma vizinha inglesa ouviu-me dizer o nome e prontamente retrucou:
-"Pedro, that's such a cool name!"-
Emily perguntou-me outro dia:
-"Haven't you been to Camden yet?"-
Empregou o auxiliar correto em vez do erro americano "Didn't you go to Camden yet?".
Outras coisas são questões semânticas. Dia desses, Ross entrou na cozinha depois de uma noite altamente etílica e me perguntou:
-"What do you Brazilians cook when you get pissed?"
No meu vocabulário americano, a pergunta não fazia muito sentido. Para os americanos, "pissed" tem uma conotação de raiva. Fiquei alguns segundos considerando o que eu poderia cozinhar quando estivesse de mal humor. Brigadeiro? E então me dei conta da diferença de sentido: para eles, "pissed" tem sentido de bêbado ou com ressaca. A pergunta passou a fazer sentido: o que eu comeria para curar ressaca.
Parece-me que, mesmo com meu nível de inglês, acabo ainda tendo que traduzir algumas coisas.
As pessoas que lidam comigo têm falado boas coisas sobre meu inglês, que apesar de ter uma escolha de palavras bem americana e algum sotaque, ainda confunde meu colega americano John, que diz jamais ter visto um brasileiro com sotaque britânico.
A única questão que ainda me incomoda é o nome. Tive ímpetos de me apresentar como Peter, porque achei que Pedro tinha uma conotação de mexicano mal-pago. Mas logo no primeiro dia, uma vizinha inglesa ouviu-me dizer o nome e prontamente retrucou:
-"Pedro, that's such a cool name!"-
Odds and Ends
Pequenos detalhes percebidos até agora.
• Londres está em obras. Elas estão por toda parte, a qualquer hora. Elas causam desvios no itinerário dos ônibus e paralisam linhas do metrô, mas geralmente duram um dia e acabam. Até nisso eles são mais eficientes...
• Acabaram com uma das marcas registradas de Londres! Tenho andado de metrô de vez em quando, mas muito raramente ouvi o característico "mind the gap". Apenas em uma ou outra estação. Andei prestando atenção, e parece que eles reformaram as estações (ou os trens) para não ter mais o vão entre trem e plataforma. Às vezes o trem vem por cima da plataforma, às vezes os dois estão bem juntos. Acho que os ingleses cansaram das piadinhas com isso. Agora, ao fim dos anúncios no metrô, ouve-se um mundano: "this train is ready to depart, stand clear of the closing doors. Mind the closing doors."
• As lojas do EAT. e Pret-a-manger continuam fabulosas e cheias de coisas saudáveis e baratas. Meu café-da-manhã tem sido em uma perto de Chelsea e, mesmo fazendo a conversão de moedas, eu continua gastando mais ou menos o que eu gastava para tomar café antes.
• Eu tinha esquecido do nome do shandy. Trata-se de uma mistura de soda e chopp que eles fazem nos pubs. Muito popular entre adolescentes por parecer cerveja normal, évendida pra eles meio como medida de desenvolver a tolerância ao álcool em uma sociedade que bebe bastante. Na verdade, é a única coisa que eu consigo beber nos pubs. E ainda assim, só peço meio copo...
• Londres está em obras. Elas estão por toda parte, a qualquer hora. Elas causam desvios no itinerário dos ônibus e paralisam linhas do metrô, mas geralmente duram um dia e acabam. Até nisso eles são mais eficientes...
• Acabaram com uma das marcas registradas de Londres! Tenho andado de metrô de vez em quando, mas muito raramente ouvi o característico "mind the gap". Apenas em uma ou outra estação. Andei prestando atenção, e parece que eles reformaram as estações (ou os trens) para não ter mais o vão entre trem e plataforma. Às vezes o trem vem por cima da plataforma, às vezes os dois estão bem juntos. Acho que os ingleses cansaram das piadinhas com isso. Agora, ao fim dos anúncios no metrô, ouve-se um mundano: "this train is ready to depart, stand clear of the closing doors. Mind the closing doors."
• As lojas do EAT. e Pret-a-manger continuam fabulosas e cheias de coisas saudáveis e baratas. Meu café-da-manhã tem sido em uma perto de Chelsea e, mesmo fazendo a conversão de moedas, eu continua gastando mais ou menos o que eu gastava para tomar café antes.
• Eu tinha esquecido do nome do shandy. Trata-se de uma mistura de soda e chopp que eles fazem nos pubs. Muito popular entre adolescentes por parecer cerveja normal, évendida pra eles meio como medida de desenvolver a tolerância ao álcool em uma sociedade que bebe bastante. Na verdade, é a única coisa que eu consigo beber nos pubs. E ainda assim, só peço meio copo...
segunda-feira, outubro 11, 2010
Primeiro dia
E então chegou o dia do curso começar.
Na hora marcada, cheguei à sala principal da faculdade e entrei pelas portas duplas de madeira trabalhada. Do outro lado, uma centena de alunos de diversos cursos de mestrado estavam sentado aguardando as apresentações do dia. À frente de todos eles, um dos professores titulaes fazia a primeira, ressaltando como, em tempos de doom and gloom (desgraças e pessimismo), era cada vez mais necessário voltar a dar a devida importância ao fazer:
-"It is important that we make 'making things' matter again."
Havia nessa cena o gosto, sem dúvida britânico, das cenas no refeitório de Hogwarts. A impressão de madeira antiga, carpetes e tradição. Misturados aos tons vibrantes e vanguardistas de uma escola de arte.
Depois de uma hora de detalhes burocráticos e recados importantes, setenta daqueles alunos permaneceram na sala como mestrandos de artes enquanto os outros, de outros cursos, saíram com seus tutores. Guiados por nosso tutor, Brian Chalkley, fizemos o primeiro tour pelas dependências da faculdade. Eu fizera questão de encontrar com o Sr. Chalkley no pátio da faculdade, como "estratégia de marketing pessoal" para deixar claro que o conhecia mesmo antes de ser apresentado, e que fizera minha lição de casa quanto a pesquisar a faculdade. Ele era um senhor de seus sessenta anos, franzino e grisalho, mas vestindo camiseta e jeans como um garoto. Fiz questão de criar boa impressão com ele não só por ser o diretor do curso de artes, mas também por ter uma pesquisa baseada em questões de gênero, como a minha (correm pela internet até vídeos de apresentações dele como um alter-ego feminino, como a Rrose Selavy de Duchamp). Algo há de sair dessa coincidência.
O Sr. Chalkley terminou nossa visita guiada em um espaço de exposição, onde nos leu um trecho do escritor Harold Pinter que enfatizava a importância de produzir. De não se ater tanto ao puro significado das coisas e à pesquisa, mas de fazer. Muito. E sempre. O escritor falava de como muito do trabalho às vezes se faz a despeito do criador, que funciona muitas vezes como mero catalisador de algo que tem vida própria. Algo que nem o criador compreende totalmente, mas que precisa encontrar uma saída para o mundo real. E depois ser interpretado pelas pessoas lá fora. Inspirou-me uma nostalgia de coisas que eu escrevera nos meus primeiros cadernos de artista. O mesmo assunto.
Pausa momentânea para um daqueles medos gostosos. Eu estava na Europa. Onde o estudante médio de arte tem muito mais acesso a cultura, e consequentemente muito mais referências. As discussões noturnas com Ross na cozinha do apartamento já prenunciavam isso. Um rapaz no primeiro ano de faculdade conversava no mesmo nível que eu, um mestrando sulamericano. Só lhe faltava mesmo a prática. Será que eu conseguiria me defender no meio destes outros 70 mestrandos?
À tarde, tivemos nossa primeira "tarefa": dividir o enorme espaço no segundo andar entre todos nós, para que cada um tivesse seu canto no ateliê. Minha primeira ilusão megalomaníaca já morreu aí, pois embora eu me considerasse organizado e desejoso de liderar esse tipo de organização, outros mais sociáveis, preparados e maduros tomaram a liderança. Nosso grupo passou a ser guiado por Kristian, um norueguês falante e muito simpático. Todos nós conversamos, planejamos e raciocinamos. Mas acabamos decidindo simplesmente dividir na marra mesmo. Cada um procurou um espaço adequado, negociou, se estabeleceu. E à medida que o processo foi acontecendo, passei a conhecer vários de meus colegas, que depois me convidaram para o pub local.
Depois de Kristian, a segunda pessoa mais pro-ativa era Jeeti, de decendência hidu, falante e expressiva, que me explicou que muitos deles fizeram o grau anterior da faculdade juntos e já se conheciam.
Conheci Isabel, a handy-woman portuguesa que construia coisas do nada; John, o americano construtor de guitarras; Iacopo, um italiano vestido como aquele outro italiano bigodudo dos videogames; Nataliia, a ucraniana com quem negociei meus dois metros de parede; e um sem-numero de orientais com nomes que ainda passarei um mês decorando. De fato, Chelsea é conhecida pelo número de estudantes orientais. Sinto-me como se estivesse no meu antigo colégio...
Como tudo, ainda é cedo para dizer quais desses personagems vão ficar. Mas de maneira geral, o clima entre todos é muito bom. Mal posso esperar para começar sujar a mão de tinta!
Na hora marcada, cheguei à sala principal da faculdade e entrei pelas portas duplas de madeira trabalhada. Do outro lado, uma centena de alunos de diversos cursos de mestrado estavam sentado aguardando as apresentações do dia. À frente de todos eles, um dos professores titulaes fazia a primeira, ressaltando como, em tempos de doom and gloom (desgraças e pessimismo), era cada vez mais necessário voltar a dar a devida importância ao fazer:
-"It is important that we make 'making things' matter again."
Havia nessa cena o gosto, sem dúvida britânico, das cenas no refeitório de Hogwarts. A impressão de madeira antiga, carpetes e tradição. Misturados aos tons vibrantes e vanguardistas de uma escola de arte.
Depois de uma hora de detalhes burocráticos e recados importantes, setenta daqueles alunos permaneceram na sala como mestrandos de artes enquanto os outros, de outros cursos, saíram com seus tutores. Guiados por nosso tutor, Brian Chalkley, fizemos o primeiro tour pelas dependências da faculdade. Eu fizera questão de encontrar com o Sr. Chalkley no pátio da faculdade, como "estratégia de marketing pessoal" para deixar claro que o conhecia mesmo antes de ser apresentado, e que fizera minha lição de casa quanto a pesquisar a faculdade. Ele era um senhor de seus sessenta anos, franzino e grisalho, mas vestindo camiseta e jeans como um garoto. Fiz questão de criar boa impressão com ele não só por ser o diretor do curso de artes, mas também por ter uma pesquisa baseada em questões de gênero, como a minha (correm pela internet até vídeos de apresentações dele como um alter-ego feminino, como a Rrose Selavy de Duchamp). Algo há de sair dessa coincidência.
O Sr. Chalkley terminou nossa visita guiada em um espaço de exposição, onde nos leu um trecho do escritor Harold Pinter que enfatizava a importância de produzir. De não se ater tanto ao puro significado das coisas e à pesquisa, mas de fazer. Muito. E sempre. O escritor falava de como muito do trabalho às vezes se faz a despeito do criador, que funciona muitas vezes como mero catalisador de algo que tem vida própria. Algo que nem o criador compreende totalmente, mas que precisa encontrar uma saída para o mundo real. E depois ser interpretado pelas pessoas lá fora. Inspirou-me uma nostalgia de coisas que eu escrevera nos meus primeiros cadernos de artista. O mesmo assunto.
Pausa momentânea para um daqueles medos gostosos. Eu estava na Europa. Onde o estudante médio de arte tem muito mais acesso a cultura, e consequentemente muito mais referências. As discussões noturnas com Ross na cozinha do apartamento já prenunciavam isso. Um rapaz no primeiro ano de faculdade conversava no mesmo nível que eu, um mestrando sulamericano. Só lhe faltava mesmo a prática. Será que eu conseguiria me defender no meio destes outros 70 mestrandos?
Depois de Kristian, a segunda pessoa mais pro-ativa era Jeeti, de decendência hidu, falante e expressiva, que me explicou que muitos deles fizeram o grau anterior da faculdade juntos e já se conheciam.
Conheci Isabel, a handy-woman portuguesa que construia coisas do nada; John, o americano construtor de guitarras; Iacopo, um italiano vestido como aquele outro italiano bigodudo dos videogames; Nataliia, a ucraniana com quem negociei meus dois metros de parede; e um sem-numero de orientais com nomes que ainda passarei um mês decorando. De fato, Chelsea é conhecida pelo número de estudantes orientais. Sinto-me como se estivesse no meu antigo colégio...
Como tudo, ainda é cedo para dizer quais desses personagems vão ficar. Mas de maneira geral, o clima entre todos é muito bom. Mal posso esperar para começar sujar a mão de tinta!
sexta-feira, outubro 08, 2010
Flatmates
Já estou por aqui há pouco mais de uma semana.
Nesse tempo, deu pra conhecer um pouco dos meus colegas de apartamento e começar a definir algumas amizadas. Ao todo, somos 6 pessoas, cada um em seu quarto.
Alguém que está ficando bem próximo de mim é Ross, um rapaz de Brighton que está fazendo a graduação de artes plásticas. Frequentemente passamos as últimas horas do dia conversando na sala comum do apartamento (a porta no fim do corredor, no vídeo). Os assuntos vão de arte a política, da infância até aquela manhã. É um rapaz simples, calmo como eu, mas incrivelmente culto.
Entre o quarto dele e o meu está Lu'ay. O nome vem de sua origem meio iraquiana, meio britânica. É uma combinação estranha, porque ele é loiro e com uma cara bem inglesa, mas todos os seus assuntos parecem girar em torno de cultura árabe. Lu'ay está em um curso universitário de desenho e pretende ser ilustrador ou tatuador, o que vier primeiro. Anda sempre em roupas de hip hop, curte animação japonesa e rap. Dia desses, mostrou-me um lado de Londres que eu ignorava, falando da brutalidade policial e da dificuldade de culturas que simplesmente não se adaptam ao sistema local. Eu sempre amei a disciplina londrina e as campanhas do governo para educar a população. Mas não tinha percebido o quanto essa cidade é dura com as tribos alternativas que se originaram fora da Inglaterra, como o hip hop e o grafite. De fato, vejo muito pouco deste último por aqui e não tinha percebido isso na primeira viagem. Ainda preciso conversar muito com ele a respeito disso.
No quarto em frente ao meu está Emily. Britânica por excelência. Sua porta carrega post-its com as letras de seu nome e vivemos recombinando as letras para formar coisas absurdas:
- E M I L Y
- M I L E Y (Cirus...)
- M Y L I E ("Minha Mentira", minha sugestão)
Ainda não sei ao certo o curso que ela faz. Sai quase todas as noites para baladas no centro e volta sempre com histórias absurdas a respeito.
Ao seu lado, o mais novo habitante do apartamento é o chinês Lei. Ainda sei muito pouco sobre ele, mas faz algo relacionado a design interativo. Tem um inglês perceptivelmente estudado e imita até a intonação dandy do estereótipo britânico.
No último quarto, em frente ao Ross, está a hindu Shivangi. Esguia, franzina, mas sempre falando muito alto. Frequentemente a ouvimos em seu quarto, cantando junto com música pop ou falando com seus parentes pelo Skype. Dia desses apareceu até um segurança no apê, perguntado se tudo estava bem, por causa do barulho dela. Shivangi faz um curso relacionado como administração de mercado gráfico e pretende voltar à Índia para assumir a gráfica do pai. Fala um inglês de sotaque hindu carregadíssimo e bem interessante. Não é muito sociável e está sempre no quarto. Mas vez por outra nos vemos na cozinha, enquanto ela faz sua comida exótica e condimentada e eu lhe conto sobre o arroz e feijão brasileiro (cujo feijão eu ainda não me arrisquei a fazer...).
Todos são dos cursos de graduação. Mostram-me um respeito que eu ainda desconheço quando explico meu projeto de mestrado e perguntam-me da minha experiência na graduação. As noites têm sido divertidas, embora nem sempre dêem muito certo. Ontem mesmo ficamos andando por metade de Londres atrás de alguma balada legal, mas ninguém decidiu nada. E queria muito fazer outro videozinho para apresentá-los todos, mas dificilmente os vejo todos em casa ao mesmo tempo. A solução é ir por partes...
Nesse tempo, deu pra conhecer um pouco dos meus colegas de apartamento e começar a definir algumas amizadas. Ao todo, somos 6 pessoas, cada um em seu quarto.
Alguém que está ficando bem próximo de mim é Ross, um rapaz de Brighton que está fazendo a graduação de artes plásticas. Frequentemente passamos as últimas horas do dia conversando na sala comum do apartamento (a porta no fim do corredor, no vídeo). Os assuntos vão de arte a política, da infância até aquela manhã. É um rapaz simples, calmo como eu, mas incrivelmente culto.
Entre o quarto dele e o meu está Lu'ay. O nome vem de sua origem meio iraquiana, meio britânica. É uma combinação estranha, porque ele é loiro e com uma cara bem inglesa, mas todos os seus assuntos parecem girar em torno de cultura árabe. Lu'ay está em um curso universitário de desenho e pretende ser ilustrador ou tatuador, o que vier primeiro. Anda sempre em roupas de hip hop, curte animação japonesa e rap. Dia desses, mostrou-me um lado de Londres que eu ignorava, falando da brutalidade policial e da dificuldade de culturas que simplesmente não se adaptam ao sistema local. Eu sempre amei a disciplina londrina e as campanhas do governo para educar a população. Mas não tinha percebido o quanto essa cidade é dura com as tribos alternativas que se originaram fora da Inglaterra, como o hip hop e o grafite. De fato, vejo muito pouco deste último por aqui e não tinha percebido isso na primeira viagem. Ainda preciso conversar muito com ele a respeito disso.
No quarto em frente ao meu está Emily. Britânica por excelência. Sua porta carrega post-its com as letras de seu nome e vivemos recombinando as letras para formar coisas absurdas:
- E M I L Y
- M I L E Y (Cirus...)
- M Y L I E ("Minha Mentira", minha sugestão)
Ainda não sei ao certo o curso que ela faz. Sai quase todas as noites para baladas no centro e volta sempre com histórias absurdas a respeito.
Ao seu lado, o mais novo habitante do apartamento é o chinês Lei. Ainda sei muito pouco sobre ele, mas faz algo relacionado a design interativo. Tem um inglês perceptivelmente estudado e imita até a intonação dandy do estereótipo britânico.
No último quarto, em frente ao Ross, está a hindu Shivangi. Esguia, franzina, mas sempre falando muito alto. Frequentemente a ouvimos em seu quarto, cantando junto com música pop ou falando com seus parentes pelo Skype. Dia desses apareceu até um segurança no apê, perguntado se tudo estava bem, por causa do barulho dela. Shivangi faz um curso relacionado como administração de mercado gráfico e pretende voltar à Índia para assumir a gráfica do pai. Fala um inglês de sotaque hindu carregadíssimo e bem interessante. Não é muito sociável e está sempre no quarto. Mas vez por outra nos vemos na cozinha, enquanto ela faz sua comida exótica e condimentada e eu lhe conto sobre o arroz e feijão brasileiro (cujo feijão eu ainda não me arrisquei a fazer...).
Todos são dos cursos de graduação. Mostram-me um respeito que eu ainda desconheço quando explico meu projeto de mestrado e perguntam-me da minha experiência na graduação. As noites têm sido divertidas, embora nem sempre dêem muito certo. Ontem mesmo ficamos andando por metade de Londres atrás de alguma balada legal, mas ninguém decidiu nada. E queria muito fazer outro videozinho para apresentá-los todos, mas dificilmente os vejo todos em casa ao mesmo tempo. A solução é ir por partes...
quarta-feira, outubro 06, 2010
The lone M.A.
Já faz cinco dias que estou por aqui. Pasmem: até agora, sou o único mestrando da região.
Dia desses, estava trazendo as compras para o apartamento. Uma garota me para na porta:
-"Senhor, você mora aqui?"-
-"Sim, acabei de me mudar"- retruquei
-"Ótimo! Quantos anos você tem?"-
E diante da minha resposta, ela ficou exultante em saber que daquele momento em diante não seria a mais velha do prédio. Ela tinha 24 anos.
Juro, às vezes me pergunto se os mestrandos não estão todos em algum lugar que não me foi informado, indo a festas das quais não fiquei sabendo. Mesmo nos encontros do Freshers' Festival, o festival para a galera nova, só vi eu de mestrando. Mistério...
Essa sensação de displacement é combatida em parte por outra sensação: uma de superioridade. Os que vivem comigo estão todos passando pelo que eles chamam de foundation, o equivalente ao nosso primeiro ano de faculdade. Incomodados com as dúvidas e ansiedades do que vão escolher para o resto de suas vidas enquanto lamentam a falta de dinheiro e a preguiça. Enquanto isso, eu conto-lhes da minha experiência no meu país, do awakening há dois anos que me fez largar a publicidade e consertar a minha vida, e retiro-me ao meu quarto para trabalhar nas traduções que pagam o meu aluguel. O apartamento, vitimado por cinco jovens com idades por volta dos 20 anos, é um amontoado de pratos e panelas sujos das refeições de ontem, carpetes que suplicam por um aspirador e muita bituca de cigarro. Eles comem mal ou às vezes nem comem. Comentam sarcásticos que acabaram de acordar às quatro da tarde e pensaram em fazer algo de útil. E têm sempre um comentário de maravilhamento ao perceber que meu quarto vive arrumado, eu cozinho suficientemente bem para fazer coisas com sabor e jamais deixo prato ou panela suja depois da refeição. Minha sensação quanto a isso é uma de ser bem mais experiente. E é uma delícia sentir isso para alguém que frequentemente se sente ingênuo, imaturo, inadequado. Quase passo a me sentir responsável por eles.
Mas há ainda outros momentos em que nem a idade nem a hierarquia dos cursos faz diferença. Tenho passado noites com essa turma, nos apartamentos vizinhos, bebendo e comendo besteiras, tendo discussões ideológicas e filosóficas sobre arte, política e existência. Rimos muito um do outro, dos acasos, das piadas prontas. E sinto-me mais jovem até. Como se tivesse voltado para tudo o que eu devia ter feito durante os meus anos de graduação e não fiz por estar fazendo duas faculdades ao mesmo tempo. Como se estivesse compensando o tempo desperdiçado. Nesses momentos, não sinto a diferença de idades. Eu tenho 20 anos de novo. E é a melhor época da minha vida.
Dia desses, estava trazendo as compras para o apartamento. Uma garota me para na porta:
-"Senhor, você mora aqui?"-
-"Sim, acabei de me mudar"- retruquei
-"Ótimo! Quantos anos você tem?"-
E diante da minha resposta, ela ficou exultante em saber que daquele momento em diante não seria a mais velha do prédio. Ela tinha 24 anos.
Juro, às vezes me pergunto se os mestrandos não estão todos em algum lugar que não me foi informado, indo a festas das quais não fiquei sabendo. Mesmo nos encontros do Freshers' Festival, o festival para a galera nova, só vi eu de mestrando. Mistério...
Essa sensação de displacement é combatida em parte por outra sensação: uma de superioridade. Os que vivem comigo estão todos passando pelo que eles chamam de foundation, o equivalente ao nosso primeiro ano de faculdade. Incomodados com as dúvidas e ansiedades do que vão escolher para o resto de suas vidas enquanto lamentam a falta de dinheiro e a preguiça. Enquanto isso, eu conto-lhes da minha experiência no meu país, do awakening há dois anos que me fez largar a publicidade e consertar a minha vida, e retiro-me ao meu quarto para trabalhar nas traduções que pagam o meu aluguel. O apartamento, vitimado por cinco jovens com idades por volta dos 20 anos, é um amontoado de pratos e panelas sujos das refeições de ontem, carpetes que suplicam por um aspirador e muita bituca de cigarro. Eles comem mal ou às vezes nem comem. Comentam sarcásticos que acabaram de acordar às quatro da tarde e pensaram em fazer algo de útil. E têm sempre um comentário de maravilhamento ao perceber que meu quarto vive arrumado, eu cozinho suficientemente bem para fazer coisas com sabor e jamais deixo prato ou panela suja depois da refeição. Minha sensação quanto a isso é uma de ser bem mais experiente. E é uma delícia sentir isso para alguém que frequentemente se sente ingênuo, imaturo, inadequado. Quase passo a me sentir responsável por eles.
Mas há ainda outros momentos em que nem a idade nem a hierarquia dos cursos faz diferença. Tenho passado noites com essa turma, nos apartamentos vizinhos, bebendo e comendo besteiras, tendo discussões ideológicas e filosóficas sobre arte, política e existência. Rimos muito um do outro, dos acasos, das piadas prontas. E sinto-me mais jovem até. Como se tivesse voltado para tudo o que eu devia ter feito durante os meus anos de graduação e não fiz por estar fazendo duas faculdades ao mesmo tempo. Como se estivesse compensando o tempo desperdiçado. Nesses momentos, não sinto a diferença de idades. Eu tenho 20 anos de novo. E é a melhor época da minha vida.
sábado, outubro 02, 2010
Atualizando
Segura que este post vai ser uma colagem de melhores momentos só para atualizar. Bem no estilo "meu querido diário"...
A exposição acabou no último dia 18. Dela, só tenho a dizer que não fiquei completamente radiante com o resultado. Foi uma bela exposição e considero que a homenagem que eu devia aos meus avôs foi cumprida. No entanto, não constatei a presença de um único artista plástico, galerista ou crítico entre o público. Claro, eu não esperava ser um sucesso do dia para a noite e sei que ainda tenho um longo caminho para andar. Mas a ausência mesmo de pessoas que tinham garantido dar uma passada me frustrou um pouco. Parece-me que o comparecer em aberturas de exposição tem muito da diplomacia do "ver e ser visto". E como eu ainda não sou ninguém e não estava expondo em uma galeria propriamente dita, eles provavelmente não viram motivação política para comparecer.
Ainda assim, vendi o meu último, o Raposa e as Uvas, e fiz uma bela amizade com o pessoal da Augôsto Augusta, que me tratou com um carinho imenso. Sinto ainda que foi de fato uma exposição muito mais madura do que as anteriores. Em técnica, montagem, divulgação e mesmo no assunto. Me orgulhei, mesmo que pouca gente das artes tenha testemunhado. E isso deve ser o que importa. Mas não foi um total insucesso. Embora as pessoas não tenham aparecido, os poucos com quem falei nas semanas da exposição, em suas próprias vernissages, sabiam do que se tratava e pareciam achar interessante que eu tivesse voltado à ativa.
Quem compareceu em peso e fez da abertura um sucesso foram as pessoas relacionadas ao teatro, amigos de minha avó e pessoas ligadas à editora dos livros que ela tem ajudado a publicar sobre o teatro brasileiro. Foi uma turma divertida que comentou bastante sobre os trabalhos.
Quanto aos quadros em si, cada pessoa tinha seu favorito. Mas os grandes da Raposa e as Uvas e Hamlet tiveram grande importância, assim como a Dama das Camélias com a Cacilda Becker e o belíssimo Chá e Simpatia que emocionou bastante gente que me conhece e conhece minha avó. Daqui a algum tempo, poderei colocar os quadros no blog profissional finalmente. Com comentários sobre as peças e alguns vídeos da execução de alguns dos quadros. Aguardem!
Mas primeiro, continuemos a atualização.
Os dez dias entre o fechamento da exposição e a viagem tiveram aquele gosto estranho. As aulas de inglês foram chegando ao final, me despedi de meus alunos sem muita cerimônia ou apego. Saí para beber com a turma do circo e parecia mesmo que eu nem estava indo embora, como um dia qualquer. Mas outras coisas fizeram apertar um pouco o coração: despedir-me de minhas duas avós, meus pais, meu carro (adoro dirigir e vou ficar um ano sem isso...) e minha Lexy.
Sabe, quando vim para a Europa pela primeira vez, não havia nada além de possibilidade no ar. Tudo era lindo e novo. Eu facilmente larguei o Brasil, porque tinha perdido o emprego e terminado o namoro. Cortado as duas pontas do Laço de Alice. E não tinha qualquer perspectiva de reencontrar essas duas coisas tão cedo. Mas desta vez é diferente. Encontrei um mercado e uma carreira que pode me sustentar indefinidamente com algo que eu gosto, e já estou no meu relacionamento mais duradouro. Por isso sinto realmente que desta vez estou deixando algo no país do qual estou partindo. Há mais motivos para olhar para trás.
E assim o dia 29 foi chegando. Minha Lexy organizou a despedida no Gorila Café (fotos no Flickr). E me deu de presente um daqueles porta-retratos da Imaginarium, com uma centena de fotos enviadas por todos os meus amigos para que eu fizesse a minha própria "curadoria" delas durante a viagem. Um dos presentes mais lindos que já ganhei, não podia ser melhor! Ela realmente sabe pensar nessas coisas.
Na manhã do 29, ainda percebi uma ou outra coisa que faltou fazer. A viagem estava muito bem organizada, já que eu tive um ano para pensar em tudo. Mas não importa quanto tempo tempos, sempre falta algo.
Fiz duas malas gigantescas, levando em mente que eu ficarei o dobro do tempo da viagem anterior. Cuidado com a embalagem de eletrônicos que serão vitais para o meu sucesso e que eu não tinha há quatro anos.
E então, era hora de sair para o aeroporto. Um último adeus ao meu quarto, ao meu prédio, à minha cidade. Aos meus pais.
E então eu estava sozinho de novo.
Medo. Não era isso mesmo que eu queria? Metade de mim sentia-se muito bem. A outra perguntava se isso não estava sendo um erro. Foi devidamente ignorada.
Na sala de espera, voltei a pensar nas coincidências desta segunda viagem. Eu estava partindo logo depois de uma exposição dos meus melhores trabalhos, como na viagem anterior. Fui deixado com duas malas no aeroporto pelos meus pais, como na viagem anterior. Era ano de Copa do Mundo e o Brasil perdeu, como na viagem anterior. Eu sei que nada disso significa nada. Mas minha mente adora coincidências. Eu tinha feito a viagem anterior ao lado de uma aspirante a modelo chamada Franciele. Desta vez fui ao lado de um inglês calado.
No avião da TAP, Percy Jackson com legendas em português de Portugal. Ele falava "malta" para turma, "fixe" para legal, "porreiro" como maneiro. Divertido.
Depois de menos de uma hora em Portugal e uma máquina de refrigerantes que me roubou um euro e meio, embarquei para Londres definitivamente.
Mas o que aconteceu a partir daí fica para próximos e mais detalhados posts.
A exposição acabou no último dia 18. Dela, só tenho a dizer que não fiquei completamente radiante com o resultado. Foi uma bela exposição e considero que a homenagem que eu devia aos meus avôs foi cumprida. No entanto, não constatei a presença de um único artista plástico, galerista ou crítico entre o público. Claro, eu não esperava ser um sucesso do dia para a noite e sei que ainda tenho um longo caminho para andar. Mas a ausência mesmo de pessoas que tinham garantido dar uma passada me frustrou um pouco. Parece-me que o comparecer em aberturas de exposição tem muito da diplomacia do "ver e ser visto". E como eu ainda não sou ninguém e não estava expondo em uma galeria propriamente dita, eles provavelmente não viram motivação política para comparecer.
Ainda assim, vendi o meu último, o Raposa e as Uvas, e fiz uma bela amizade com o pessoal da Augôsto Augusta, que me tratou com um carinho imenso. Sinto ainda que foi de fato uma exposição muito mais madura do que as anteriores. Em técnica, montagem, divulgação e mesmo no assunto. Me orgulhei, mesmo que pouca gente das artes tenha testemunhado. E isso deve ser o que importa. Mas não foi um total insucesso. Embora as pessoas não tenham aparecido, os poucos com quem falei nas semanas da exposição, em suas próprias vernissages, sabiam do que se tratava e pareciam achar interessante que eu tivesse voltado à ativa.
Quem compareceu em peso e fez da abertura um sucesso foram as pessoas relacionadas ao teatro, amigos de minha avó e pessoas ligadas à editora dos livros que ela tem ajudado a publicar sobre o teatro brasileiro. Foi uma turma divertida que comentou bastante sobre os trabalhos.
Quanto aos quadros em si, cada pessoa tinha seu favorito. Mas os grandes da Raposa e as Uvas e Hamlet tiveram grande importância, assim como a Dama das Camélias com a Cacilda Becker e o belíssimo Chá e Simpatia que emocionou bastante gente que me conhece e conhece minha avó. Daqui a algum tempo, poderei colocar os quadros no blog profissional finalmente. Com comentários sobre as peças e alguns vídeos da execução de alguns dos quadros. Aguardem!
Mas primeiro, continuemos a atualização.
Os dez dias entre o fechamento da exposição e a viagem tiveram aquele gosto estranho. As aulas de inglês foram chegando ao final, me despedi de meus alunos sem muita cerimônia ou apego. Saí para beber com a turma do circo e parecia mesmo que eu nem estava indo embora, como um dia qualquer. Mas outras coisas fizeram apertar um pouco o coração: despedir-me de minhas duas avós, meus pais, meu carro (adoro dirigir e vou ficar um ano sem isso...) e minha Lexy.
Sabe, quando vim para a Europa pela primeira vez, não havia nada além de possibilidade no ar. Tudo era lindo e novo. Eu facilmente larguei o Brasil, porque tinha perdido o emprego e terminado o namoro. Cortado as duas pontas do Laço de Alice. E não tinha qualquer perspectiva de reencontrar essas duas coisas tão cedo. Mas desta vez é diferente. Encontrei um mercado e uma carreira que pode me sustentar indefinidamente com algo que eu gosto, e já estou no meu relacionamento mais duradouro. Por isso sinto realmente que desta vez estou deixando algo no país do qual estou partindo. Há mais motivos para olhar para trás.
E assim o dia 29 foi chegando. Minha Lexy organizou a despedida no Gorila Café (fotos no Flickr). E me deu de presente um daqueles porta-retratos da Imaginarium, com uma centena de fotos enviadas por todos os meus amigos para que eu fizesse a minha própria "curadoria" delas durante a viagem. Um dos presentes mais lindos que já ganhei, não podia ser melhor! Ela realmente sabe pensar nessas coisas.
Na manhã do 29, ainda percebi uma ou outra coisa que faltou fazer. A viagem estava muito bem organizada, já que eu tive um ano para pensar em tudo. Mas não importa quanto tempo tempos, sempre falta algo.
Fiz duas malas gigantescas, levando em mente que eu ficarei o dobro do tempo da viagem anterior. Cuidado com a embalagem de eletrônicos que serão vitais para o meu sucesso e que eu não tinha há quatro anos.
E então, era hora de sair para o aeroporto. Um último adeus ao meu quarto, ao meu prédio, à minha cidade. Aos meus pais.
E então eu estava sozinho de novo.
Medo. Não era isso mesmo que eu queria? Metade de mim sentia-se muito bem. A outra perguntava se isso não estava sendo um erro. Foi devidamente ignorada.
Na sala de espera, voltei a pensar nas coincidências desta segunda viagem. Eu estava partindo logo depois de uma exposição dos meus melhores trabalhos, como na viagem anterior. Fui deixado com duas malas no aeroporto pelos meus pais, como na viagem anterior. Era ano de Copa do Mundo e o Brasil perdeu, como na viagem anterior. Eu sei que nada disso significa nada. Mas minha mente adora coincidências. Eu tinha feito a viagem anterior ao lado de uma aspirante a modelo chamada Franciele. Desta vez fui ao lado de um inglês calado.
No avião da TAP, Percy Jackson com legendas em português de Portugal. Ele falava "malta" para turma, "fixe" para legal, "porreiro" como maneiro. Divertido.
Depois de menos de uma hora em Portugal e uma máquina de refrigerantes que me roubou um euro e meio, embarquei para Londres definitivamente.
Mas o que aconteceu a partir daí fica para próximos e mais detalhados posts.
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