segunda-feira, junho 29, 2009

GamePlay Itaú Cultural

O Papo de Artista noticiou a abertura da mostra GamePlay no Itaú Cultural. A mostra faz um panorama do que acontece no âmbito dos jogos atualmente, comdireito a concurso de programadores para desenvolver um jogo em 48 horas (GameJam), festival de músicas criadas com os sintetizadores de som dos games (GameMusic com musiquinhas pentelhas em midi) e mostra de curtas criados dentro dos jogos (os chamados Machinimas, como o famoso Red vs Blue), além de 44 consoles dos mais diversos tipos para os visitantes jogarem (ai, o vício tá começando a se manifestar...).

A exposição foi organizada pelo núcleo de pesquisa em meios digitais do Itaú, o Itaulab. Suspeito a participação de uma ex-professora minha de meios digitais que é uma pesquisadora de peso no país.

O que é muito interessante da exposição é que ela mostra que a equipe do Itaú passa a tratar os games com a mesma atenção que confere a outras mídias tradicionalmente consideradas como formas de arte respeitadas. É o game passando a ser considerado arte. Bom... pelo menos pelos expositores.

Agora cadê os alunos de faculdade de arte assumindo o papel de produtores dessa nova forma de arte? Por aqui, games ainda são produzidos pela galera de programação, com formatos bem tradicionais comos os jogos de plataforma, tiro e RPG. Nada do naipe de jogos abstratos como o russo Tetris ou ambientes como The Path e Endless Forest do estúdio belga Tale of Tales. Nada com mais profundidade do que a velha história de salvar a princesa e coletar 100 moedas. Nada com mais propósito do que um jogo comercial ou advergame. Alguém se habilita?

AHIGE

[dica da @perseph0ne]

Tá, vai parecer meio ridículo no começo...
Continuamos falando da Espanha. Li este artigo sobre a ONG espanhola AHIGE (Associação de Homens pela Igualdade de Gênero) que faz campanha pelo que eles chamam de "pariedade", a igualdade de gênero.
Com cursos sobre cuidados da casa, ela promove que os homens ajudem nos afazeres domésticos, dizendo que o machismo não é coisa de gente menos instruida, como muitos pensam. Tem muito homem culto que age com igualdade na rua, mas deixa todo o cuidado da casa e filhos nas mãos da mulher. A desculpa mais comum é a de não saber fazer essas coisas prosaicas como lavar e passar roupa, por exemplo. Os cursos oferecidos pela ONG ainda incluem costurar, cozinhar e arrumar a casa, além de cursos sobre cuidados dos filhos e auto-estima.
A primeira coisa que tenho a comentar sobre isso é que eu já estive lá. Mas seis meses na Europa, tendo que cuidar de mim mesmo logo concertaram boa parte dessas coisas. Claro, a volta para o lar dos pais colocou essas novas habilidades na geladeira...
Mas acho que a ONG dá um passo muito importante e que frequentemente vai ser mal compreendido. Porque é sinal de força e superação para uma mulher vestir calças e ir disputar no braço um emprego de gerente de multinacional com uma corja de homens acostumados ao patriarcado. Mas o homem que resolve que vai gerenciar uma casa de forma melhor e mais eficiente que uma mulher só ouve chacota, humilhação, masculinidade questionada. Não é de se surpreender que a AHIGE receba tantas ameaças de grupos machistas.
O outro ponto que tenho a colocar por aqui é sempre meio controverso. Se a ideologia pregada é a da igualdade entre os sexos e todos vamos nos tratar como seres humanos neutros em questões de gênero, que se diz daquelas velhas máximas protecionistas ("mulheres primeiro") e minúcias de etiqueta (abrir a porta do carro para a mulher, servi-la primeiro à mesa, pagar a conta do restaurante) que favorecem a mulher? Algumas já viraram clichê do discurso feminista, como a história da conta do restaurante que as mulheres hoje gostam de dividir. Mas nas demais, a contenda é sempre similar: os homens concordam que a ideologia de igualdade deve se estender a tudo, enquanto as mulheres querem manter os privilegios alegando serem questão de boa educação supostamente anterior a toda a discussão. Pessoalmente, e eu sei que essa opinião vai mexer com alguns ânimos, eu continuarei a manter minha (vergonhosamente parca) etiqueta em relação às mulheres, mas concordo com a opinião de que, se elas já podem gerenciar multinacionais e jogar futebol e nós podemos cuidar da casa e ter emoções, então elas podem também abrir suas próprias portas de carro...

Geração "Nem-Nem"

O @texz colocou no twitter um link para outra daquelas matérias [em português] cada vez mais frequentes sobre a Crise dos Adolescentes de 25 (Quarterlife Crisis). Desta vez, a análise foca na sociedade espanhola, onde filhos chegam a morar com os pais até além dos 35 anos de idade.
Muito do texto é a mesma discussão do outro texto da Eyeweekly que eu postei por aqui. Mas vale ressaltar alguns parágrafos muito bem escritos e elucidativos:

"O modelo de vocação profissional que implicava um projeto de vida futuro e um destino final conhecido, com seus esforços e compensações, desapareceu. Agora, a incerteza se impõe no trabalho e no casal e não está claro que a dedicação, o compromisso, o estudo, o título, terão sua correspondente compensação social e trabalhista", afirma [Eduardo Bericat].

[...]

"[Os jovens] aplicam a estratégia de flexibilizar os desejos e de reduzir compromissos; nada de esforços exorbitantes quando o benefício não é seguro. Como o risco de frustração é grande, preferem não descartar nada e definirem-se pouco", explica Eduardo Bericat.

Achei esse detalhe muito interessante, porque é como muitos de nós se sentem. Os empregos pagam cada vez menos e dão cada vez menos benefícios. O caso é ainda pior nos Empregos que Todos Querem. Vide agências de publicidade: as grandes e famosas não pagam porque estão "te fazendo um favor" ao incluírem o nome delas no seu currículo, enquanto as pequenas e desconhecidas não pagam porque não têm dinheiro.
Ouvi esses dias de uma colega minha no twitter que "tem que amar muito o que faz pra estar em agência. O estresse é alto, o reconhecimento é baixo, a autonomia inexistente". De fato, amar muito, ser muito burro ou muito conformado. Ou qualquer combinação dos três... Frente a essa realidade, minha geração se vê desmotivada a fazer grandes esforços de carreira porque a compensação é pouca e às vezes até inexistente. É chamada por sociólogos de geração "nem-nem" porque antigamente, quem não procurava um mestrado para continuar os estudos, procurava um trabalho. Esta geração não vê propósito em procurar nenhum dos dois, porque nenhum deles oferece retorno relevante a médio prazo. A situação é tal, que alguns empregos tidos como mais nobres pagam salários modestos semelhantes aos de empregos mais simples, para os quais não é necessária uma formação muito extensa.

"Muitos dos 200 mil novos universitários formados a cada ano enfrentam com pessimismo a busca de emprego. Sabem que há uma grande porcentagem de vagas para caixas, repositores, armazenistas, balconistas, etc ocupados por diplomados ou licenciados", afirma Yolanda Rivero

O texto comenta que, pelo menos na Espanha, as opções que oferecem estabilidade de vida são cada vez mais escassas e menos atraentes. Sinto que por aqui também é assim. O autor prevê um declínio vertiginoso na qualidade de vida dos espanhóis nos anos vindouros e termina comentando como a atual situação é um barril de pólvora prestes a explodir: o que acontecerá quando a atual geração de pais que sustentam a geração "nem-nem" se aposentar?
O complicado dessa vida digital de grande metrópole é que estamos constantemente na correria. Eu vou recebendo coisas interessantes que adoraria postar por aqui e vou guardando tudo no e-mail "pra postar mais tarde". Só que esse "mais tarde" nunca vem e as coisas vão acumulando. Resultado: enxurrada de posts! Segura que hoje tem bastante coisa...

quinta-feira, junho 25, 2009

Simpsons e o Masculismo

In the past quarter century, we exposed biases against other races and called it racism, and we exposed biases against women and called it sexism. Biases against men we call humor.

Warren Farrell

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Eu sou grande fã de Simpsons. Eles inauguraram um tipo de desenho animado bem crítico, com piadinhas que passavam reto pelas crianças e só eram compreendidas pelos adultos. Um tipo de desenho que criticava a América com um humor ácido, agressivo como as cores do desenho e totalmente contrário ao "grande sonho americano". Na sua trilha seguiram Beavis & Butthead, South Park, King of the Hill e Family Guy, só para citar alguns. Por tudo isso, pretendo ainda continuar assistindo sempre que possível, enquanto continuar quebrando o récorde de série animada com mais temporadas.

Mas já que estou enveredando por essas pesquisas relacionadas ao masculismo, não posso deixar de apontá-lo como um dos desenhos mais preconceituosos contra o homem que me vêm à cabeça. O preconceito pode ser avaliado em boa parte dos personagens da série, salvo alguns raros pontos fora da curva, mas vou analisar pela família protagonista da série.
Em uma visão bem generalista, dá pra ver o padrão. Todas as mulheres da família, da mãe de Marge, Jacqueline Bouvier, até a bebê Maggie são inteligentes e relativamente refinadas. Maggie até resolve certos dilemas usando lógicas mais complexas do que seu simplório pai é capaz. Enquanto isso, os homens da família, do avô Abe Simpson ao filho Bart, são o retrato perfeito do "homem frouxo" do Robert Bly: torpes, preguiçosos, delinquentes.
Homer é a figura perfeita para ilustrar a questão do pai ausente. Trabalha em um emprego que não é seu próprio negócio, fazendo algo que não lhe interessa e nem lhe oferece crescimento pessoal. É completamente alheio a tudo que se passa em sua casa, mas ainda se proclama chefe da família. Não serve de exemplo masculino para o filho, que embora seja mais inteligente, está fadado a uma maturidade similar.
Claro, há mulheres problemáticas na série, como as amargas irmãs de Marge, e homens que mostram lampejos de maturidade ainda não definida, como o Sr. Burns (que estaria mais próximo do homem dos anos 50, do que de um homem formado, completo). Às vezes os roteiristas até tentam instilar defeitos de caráter nas personagens femininas, só para não deixar a coisa tão desagradavelmente desequilibrada. Assim como dão a Homer o papel de resolver os problema familiares com soluções surreais e completamente impossíveis, mas que lhe devolvem um pouco da dignidade de patriarca. Ou seja, mascaram mal e porcamente o excesso de maniqueísmo sexista da série. E acho que o fazem de propóstio, para que todos percebam.

Em todo caso, não estou apontando esse traço da série como algo ruim. O propósito de seus criadores é justamente criticar a sociedade americana, que atualmente encontra-se mesmo nesta situação e acho que eles fazem um trabalho formidável, embora exagerado.

Alguém aí consegue citar um exemplo masculino descente e maduro nos Simpsons?

segunda-feira, junho 22, 2009

Alice, Alice, Alice


Quando se mexe com uma coisa tão carregada de simbolismos e sacralidade quanto a arte, a vontade de dotar toda e qualquer coincidência de significados maiores é grande.

Hoje recebi dois links interessantes relacionados à personagem de Lewis Carroll, a avatar favorita da internet, Alice.
O primeiro vinha do Papo de Artista e era uma matéria sobre o animador Jan Svankmajer. Embora falasse de outra coisa, tinha um video de stop-motion do animador sobre a personagem que achei muito gostoso. Svankmajer, fiquei sabendo, influenciou meus favoritos, os irmãos Quay [1][2].
Depois recebi a notícia de que saíram as primeiras imagens da versão do Tim Burton para a continuação da história de Alice. Temática já explorada no jogo da American McGee [1], o filme vai contar a história da personagem voltando ao País das Maravilhas quando adolescente.

Alice World 1-1Mas o que mais me impressionou aconteceu na sexta.
Dia desses encontrei o Acidtwist, site de um artista denominado apenas por Tavish, com um visual de Flash bem interessante. As pinturas do artista figuravam garotas com aquela sensualidade pré-adolescente clichê e membros alongados típicos dos animes atuais. As cores eram bem cítricas e me faziam lembrar de chiclete. Por algum motivo, guardei o link e revi esses dias. E só então percebi a assustadora semelhança que a pintura mais recente na galeria tinha com minha Alice. O corte de cabelo, o vestido curto, as meias listradas. Trocara o tom de rosa por verde pastel e faltavam o bracelete de couro e o laço. Mas fora isso, era ela. em versão pré-adolescente de anime. O título do quadro, Alice World 1-1, e as referências a jogos de plataforma no cenário eram ainda mais desconcertantes para mim, porque a última Alice que desenhei e não postei aqui acompanhava personagens do Bioshock [1][2] e inaugurava minhas intenções de mergulhar Alice em um mundo relacionado aos games, assim como as histórias originais de Carroll tinham referenciado outros jogos (cartas de baralho e xadrez).
Não acredito que se trate de plágio. As referências que usei são muito comuns na internet hoje: Alice, o corte de cabelo à la anime, as meias listradas, o videogame... No mais, trata-se de uma pessoa sem qualquer conexão comigo. Ficaria até lisonjeado se minha Alice tivesse viajado tão longe. Escrevi para o artista, que não atualiza o site há um ano, mas ainda não tive respostas. É quase como se ele tivesse sumido e a personagem tivesse sua própria vida na net.

Para voltar ao mote do post, se eu fosse um pouco mais supersticioso, acreditaria que Alice está me chamando para desenhá-la de novo. E às vésperas de outra viagem, seria até muito conveniente...

terça-feira, junho 16, 2009

When do mice abandon the ship?

And so it begins.
In a casual, heart-felt conversation with my captain, I found he wasn't surprised at all. This boat has been sinking for quite a while now, the boards on the deck falling apart as we lose sailor after sailor. The remaining few try to look at each other in the eye and convince themselves that the storm will pass and they'll survive, but the truth is this boat has been sinking for quite a while and everyone knows it. Captain doesn't show it, but he's already lost his will to struggle.

So I chose. After believing for so long and hoping for better days that never came, I chose to see this desperate situation for what it was. And thus, I jumped overboard, abandoning the ship. I had waited for a sturdier vessel to leap aboard for months, but none presented itself. Even if I had seen such a vessel, could I hope to be more than just a low-class sailor, a deck-scrubber aboard it? Nay. To hell with the sailor's life! I jumped overboard. Never to set foot on a ship again.

I now find myself wondering how will I survive in the water. Can I swim for myself? For how long? What lies before me is an endless depth of darkness that both scares me and beckons me. I am free and I am vulnerable.

Brace yourselves, lads.

segunda-feira, junho 08, 2009

Redenção

Hoje passei o olho no blog e fiquei feliz em ver que a grande maioria do que tenho escrito tem algum conteúdo relevante e não é apenas blogterapia. Quero ainda fazer deste um blog que as pessoas procurem e queiram ler pra saber de coisas do universo das artes plásticas na cidade. E blogterapia não entra nos blogs de respeito que eu conheço.
Talvez por isso mesmo eu tenha relutado um pouco em escrever este post e quebrar o ritmo. Mas queria ainda assim fazer um panorama geral do que tem acontecido nos últimos meses, minha mudança de rumo, porque acho que tem muita coisa valiosa a ser comentada e aprendida.
Já não tenho receios de escrever por aqui que estou desgostoso com o trabalho na agência (tenho até vontade de explicar por aqui meus desgostos, mas seria pouco profissional e tedioso). Se alguém relacionado à agência ler isto e não gostar, certamente estará me poupando de dar o primeiro passo em uma discussão que já deveria ter acontecido.

[blogterapia mode]
Desde o começo do ano, venho procurando alternativas. Em plena crise econômica. Procuro nas artes plásticas, porque se a publicidade não me levou a lugar nenhum em cinco anos, acho que fica claro que não é o meu ramo. Toda agência que procuro só me oferece um cargo de assistente de arte por um salário irrisório. Há cinco anos...

No mês passado, com pouco esforço consegui uma entrevista interessante na Nara Roesler, uma galeria de nome no cenário das artes. Pensei que, pra ganhar pouco, eu pelo menos faria algo dentro da minha área de interesse. Só não imaginei que o "pouco" fosse tão pouco. Claro: afinal, trabalhar em galeria é outro daqueles Empregos que Todos Querem.
Voltei pra casa arrasado com o dilema. Eu já estava ganhando metade do que eu acho que é o meu valor na agência, e este novo salário me daria menos de um quarto do que eu queria ganhar... Mas ainda assim, era um emprego de nome, que eu teria orgulho de por no currículo! #comofas?

Meus pais sempre têm pontos de vista relevantes quando estou nessas enrascadas.
Mamãe foi infalível. Disse-me que eles ajudariam com os meus gastos, desde que o trabalho na galeria fosse relevante para o meu objetivo de vida. E em seguida lançou a derradeira pergunta: qual é o objetivo? Certamente não era ter uma galeria. Portanto trabalhar em uma soava como tomar outro caminho errado. E se era ser um artista plástico, eu não conseguiria isso me escravizando lá das 9 às 18 por um salário insultante e continuando sem tempo para desenvolver minha arte. Mas também não era ter uma agência de publicidade. Portanto me escravizar das 9 às 18 na agência por metade do meu valor também já não fazia mais sentido. Nenhum trabalho em publicidade fazia mais sentido.
Que poder tinha essa pergunta. Percebi que já fazia muito (MUITO) tempo que eu a perdera de vista. Não sabia mais o que eu queria para minha vida, só sabia o quanto eu queria ganhar. E isso era mesquinho e claro em todas as minhas intenções. Por isso nunca consegui que me levassem a sério. Já faz algum tempo que percebi que o que mais falta na minha vida é foco.
As respostas que dei pareciam fracas, inseguras. Queria ser artista plástico, queria dar aula em faculdade de artes. Será? Nenhuma certeza, apenas a sensação de que era sim bem mais próximo da verdade do que a publicidade. "Então vai ser capacho de artista plástico em vez de assistente de publicitário" dizia mamãe. "Ou vai na faculdade saber o que é preciso pra virar professor". E as contas? "Que contas? Você está nos seus vinte anos, não tem filho e nem casa pra sustentar!" So true... O que eu tinha era um vício por dinheiro. Um prazer em gastar sem pensar no quanto me sobrava no fim do mês. E pra não perder isso, estava perdendo a juventude. Não confundir com a Síndrome de Peter Pan daquele outro post. Estava perdendo as possibilidades da juventude, as portas abertar a carreiras mais interessantes.
Sim, eu darei aulas de inglês, farei trabalhos freelance de publicidade, tentarei vencer concursos de arte. Qualquer coisa pra me sustentar, desde que me permita seguir meu caminho nas artes. Desde que não me acorrente a uma mesa das 9 às 18, tirando-me o discernimento entre os dias todos iguais. Desde que não tire de mim o artista plástico.

Hoje voltei para casa e, conversando com meus pais sobre o dia, mamãe perguntou quanto tempo mais eu daria de chance a essa agência e por que eu já não tinha saído. Não soube responder. Porque a verdade é que nem eu sei mais o que estou fazendo lá. Só não tive coragem de sair ainda, pelo medo do desemprego.
Chega a ser engraçada a inversão. Eles deveriam estar me empurrando para ficar empregado, ganhar dinheiro, me sustentar. Não é isso que todo pai faz? Mas minha infelicidade já é tão gritante que eles me empurram para a demissão em vez disso. Porque minha felicidade vale mais pra eles.

Roam-se de inveja, eu adoro meus pais...
[/blogterapia]

quarta-feira, junho 03, 2009

This Hollow World []

Ou Everything is a version of something else.

Um dos meus livros de cabeceira ultimamente tem sido o Postmodernism de Eleanor Heartney que eu citei no post sobre a exposição do Vik Muniz. Ele explica muito sobre muita coisa do que acontece hoje, dentro e fora das artes.
Dentre outras coisas, explica que a atual tecnologia de comunicação cria uma realidade onde temos mais interação com a representação das coisas do que com as próprias coisas. Principalmente nas grandes metrópoles, onde todos estão fazendo o malabarismo entre trabalho, correr atrás do sonho (que geralmente não tem a ver com o trabalho) e consumir a dose de cultura receitada pela mídia para ser cult, sobra pouco tempo para interações diretas no mundo real.
Depois de ler sobre isso, minha primeira reação foi ficar chocado com a quantidade de simulacros com os quais eu interagia diariamente no lugar de interagir com as coisas que eles estavam substituindo. Agendas e blocos de notas no tela de computador imitando papel de verdade, rostos de pessoas nos perfis do Twitter que não me mostram como seus autores estão fisicamente, programas que fazem em minutos e pixels o que eu faço em horas e tinta. No âmbito das artes, eu tomava conhecimento das coisas por fotos publicadas em sites e revistas e não pelas obras em si.
As notícias são um assunto para um post inteiro. Você já viajou em um A330 da Air France? Conhecia algum dos mortos? Você vai ter que lidar com o trauma da Maísa? Com a vida sexual da Britney Spears? Nada disso está aí, fisicamente, na sua vida. É apenas um conceito sem uso prático que você recebeu de uma tela de TV ou página impressa. Dá a impressão de ser o mundo real e de estarmos conectados a coisas que acontecem lá longe, mas a verdade é que são bem distantes do real. Distantes geograficamente e distantes por causa das camadas de manipulação de mídia que elas atravessam até chegar a você.

Mas depois vim a perceber que é temerário criticar essa condição. Seria uma atitude velha, obsoleta, saudosista. Exigir que se escute vinil na era do MP3 só por causa do chiadinho. Mais do que exigir um retorno ao antigo, o que vale é reconhecer essa condição e saber jogar com ela. Saber não obcecar com as notícias dos tablóides, usar as mídias sociais pra combinar aquela cervejinha no fim da semana, transferir os arquivos daquele bloco de notas via internet para acessar em qualquer lugar. E principalmente para o artista, negar que isto seja uma condição presente seria ingênuo. É muito mais interessante parodiar, satirizar essa condição pós-moderna. Como o fazem as pinturas de Regina Parra baseadas em imagens de câmeras de vigilância, por exemplo.