O alarme de incêndio da faculdade tocou às dez horas da terça-feira. Era mais um teste dos alarmes e o barulho cessou depois de dez segundos. Para mim, o alarme marcava o final do meu tempo. Eram dez horas e meu segundo tutorial com
Dawn Mellor estava para começar.
Assim que o alarme parou, pisei na cantina da faculdade, onde deveria encontrá-la. Eu parecia calmo e arrumado, mas era só fachada: eu estivera produzindo em um ritmo alucinante de praticamente um trabalho por dia desde que
Lexy partiu (motivo pelo qual demorei a voltar a escrever por aqui...) e passara a noite anterior terminado detalhes até as quatro da manhã, tendo dormido três horas mal-dormidas à espera de um vídeo que só terminou de ser processado pelo computador quando já era hora de acordar.
Ela chegou alguns minutos atrasada, demorou outros para pegar um café. Nada de pontualidade britânica. Mas ela estava descansada e bem. Apesar de ainda estar vestida da cabeça os pés de preto, trazia um sobretudo de um tom
salmon meio indefinido que lhe suavizava o caráter.
Vamos ver, o que eu tinha feito até aquele momento?
O primeiro tutorial me deixara com raiva de
Dawn. Uma raiva banal, puramente emotiva, sem propósito. Raiva de quem tem sua vaidade atacada por verdades que não quer ouvir. Então comecei o processo de trabalho de uma forma mais "terapêutica", esvaziando minha raiva por ela em um retrato banal que não lhe mostrei (mas que dá pra ser visto de relance no vídeo que acabei de postar sobre a
partida da Lexy). Com o coração mais leve, fui lidar com a parte mais didática do que ela tinha me dito. A grande questão era: como aquilo tudo se relacionava a mim? Nas duas semanas que passei com
Lexy sem produzir, meu pensamento vagou por essa questão. Discuti-a com ela e procurei minhas primeiras memórias desse sentimento de inferioridade como homem. Parti da carga simbólica do meu relacionamento com minhas primas e outras mulheres da família, até chegar ao que eu percebia como uma questão sexista inversa da carreira de publicidade, onde as áreas que ganham mais trabalham quase exclusivamente com mulheres. Não ficava mais pessoal e "não-generalista" do que isso. E resolvi que eu tinha que fazer algo que ligasse o Masculismo, meu passado em publicidade, e minha condição de estrangeiro em Londres. Parti então para fazer obras apropriando-me de peças de publicidade londrina, que eu sempre gostei. Seria um trabalho ao mesmo tempo pessoal, público e pós-moderno. Puxa!
Mas eu sabia que eu não seria avaliado apenas pelo lado teórico no qual
Dawn tinha comentado. Soube que um dos quesitos de avaliação era chamado "risco", a coragem de arriscar formatos diferentes e sair da zona de conforto. Fiz isso aventurando-me a montar um banner de internet, daqueles que eu fazia na última agência onde trabalhei.
Por último, eu experimentara alguns problemas ao tentar fazer a técnica de transferência por aqui, porque as telas e produtos químicos eram diferentes. E como o papel estava disponível em tamanhos e em qualidades que eu nunca havia visto antes, fiz duas peças de 150cms de pura transferência, apenas por diversão. Na verdade, eu pensara em fazer imagens enormes de objetos fálicos pelos quais os homens definem seu status: as canetas, os relógios, as gravatas. Na minha experiência como professor de inglês em empresas, eu tinha visto os homens vestidos todos iguais, terno e gravata, tendo apenas esses elementos para se destacarem. As transferências gigantescas tinham alguma coisa de elegantemente pornográfica em seu tamanho e alusão ao poder.
Bom, estes parágrafos caóticos serviram apenas para dizer que eu tinha sido um bom aluno. Levei em consideração o que ela me dissera no tutorial anterior, mudei todo meu raciocínio em decorrência das questões inegáveis que ela apontou. Portanto eu trabalhei, e isso conta por uns dois terços de todo o resultado do nosso encontro. O que veio a seguir foram picuinhas vingativas de escorpiano.
Assim como ela, em algum nível inconsciente, sabia exatamente o que estava fazendo ao vir falar comigo vestida daquele jeito na primeira vez, eu encarei este segundo encontro com a mesma consciência de mim mesmo. Eu sabia que aos olhos dela, eu era um aluno desconhecido e desinteressante. Precisava mudar isso. Minha carta na manga foi começar nossa conversa comentando sobre a exposição dela que havia acabado naquele fim de semana. Eu tinha ido fazer minha lição de casa: tinha ido ver como ela trabalhava e se ela praticava o que pregava. A exposição no Estúdio Voltaire era uma coleção de pequenos retratos de celebridades hollywoodianas, todas pintadas à perfeição e depois violentamente rabiscadas com dizeres sarcásticos. E para ser fiel ao que pregava, Dawn deixava a última cartada para o
press release da exposição: recusando-se a ser ela mesma uma celebridade, escrevera uma extensa biografia totalmente falsa, onde ela dizia que sua mãe se suicidara enquanto ela era criança e como ela tivera um relacionamento conturbado de dez anos com
Whoopi Goldberg. Estava na verdade tirando sarro dos artistas que se valem de tragédias pessoais para ganhar notoriedade. Pessoalmente, eu achei isso uma manobra defensiva: não era possível avaliar o quanto o trabalho tinha a ver com as questões pessoais dela, simplesmente porque ninguém tinha acesso às questões pessoais dela. Ainda assim, concordo que ela estava lidando com um fato tangível da vida contemporânea, que era o status de celebridade que todos almejam e invejam. Em algum lugar, ela comentava sobre como depois de certo ponto, todo mundo fica cansado de ler sobre a guerra no Iraque ou os protestos estudantis e quer apenas saber quem ganhou o Big Brother ou a mais recente besteira da Britney Spears...
Nossa conversa começou pela exposição dela, pela biografia
fake e por artistas de tragédia. E consegui com isso fazer com que o clima da conversa fosse bem menos tenso do que da primeira vez. Meus colegas que passavam por nós estranhavam como estávamos rindo juntos depois de eu ter passado a semana inteira demonizando a mulher... Era uma tática óbvia, tamanha era a puxação de saco, quase uma coisa cínica. Como eu disse, picuinha vingativa de escorpiano.
Quando chegamos ao meu espaço do ateliê, tudo estava meticulosamente organizado. Nada da pintura pretensiosa da primeira vez (e nem do discurso pretensioso que a acompanhava). Coisas pontuais, apresentadas de forma limpa e profissional.
Claro, escondi o retrato raivoso...
Dawn Mellor gostou um pouco mais dessas coisas. Minha impressão geral é que, na primeira vez, ela não conhecia nada, e pessoas como ela (e como
Dora) têm uma tendência a atacar primeiro o que não conhecem antes de serem atacadas. Desta vez, ela conhecia, ela tinha entendido a evolução, e foi muito mais cordial.
Juntando as apropriações de peças publicitárias e o banner, chegamos à conclusão de que dava pra fazer toda uma campanha, com peças impressas e de internet. Eu certamente tinha a capacidade técnica pra isso. Ela comentou sobre como a minha sátira à publicidade britânica não era violenta, era quase banal. Mas que isso podia virar uma qualidade, já que a publicidade tinha aquele quê de querer apresentar algo incrível e novo, e eu a estava atancando ao torná-la banal. Pessoalmente, eu sentia que isso ainda precisava ser mais trabalhado. Eu me sentia no meio do caminho entre a violência e o banal, e precisava escolher algum deles.
Quanto às transferências que eu apelidei de "fálicos", ela achou a elegância da coisa interessante. A escolha pelo papel certo, a imagem definida, o acráter pornográfico associado àquilo. Deveria haver algo de cômico para quebrar a pretensão daquilo tudo: resolvi fazer isso com os títulos. Mas vou revelar essas coisas por aqui assim que conseguir trabalhar mais nelas.
Dawn considerou que eram peças separadas das outras. Talvez viessem a se relacionar com o resto mais tarde, mas por enquanto eram um
sideshow, uma vertente paralela do processo maior.
Miraculosamente, conseguimos esvaziar a conversa antes que o tempo se esgotasse. Ela me passou algumas referência feministas que pedi, e levantou-se para ir ao próximo aluno. Engraçado: ela parecia tão menor agora. Uma pessoa normal. Frágil até. Não que eu a tivesse destituído de seu poder, longe disso. Mas talvez eu tivesse crescido um pouco mais com tudo isso para não ser mais tão violentamente intimidado por mulheres como esta.
E nesse sentido, a escolha de
Dawn Mellor para minha primeira tutora talvez tivesse sido perfeita.
[Imagens por aqui e no blog pofissional a partir da semana que vem, quando o departamento de fotografia me permitir...]