Assisti a uma palestra da faculdade que me fez pensar sobre um detalhe interessante. A pesquisadora Ope Lori é uma lésbica negra em um relacionamento interracial (sua parceira é inglesa - BEM branca). Ela percebeu uma tendência geral de associarem a negra do casal como o perfil mais masculino e dominante. A tendência era expressa até pela mídia como nos seriados The L Word e Lip Service, entre outros. Achei interessante e muito verdadeiro. O que ela queria dizer, de certa forma, é que a raça tem seu papel na definição de gênero.
Dentre outras coisas, ela comentou que essa percepção tinha parte de sua origem no passado escravo da raça negra, onde as mulheres negras faziam o trabalho braçal dos homens nos campos (sendo consideradas pelos mestres como "surrogate men", substitutos de homens) e o trabalho delicado das mulheres nas casas.
Enfim, não acho que vá ter qualquer impacto na minha própria pesquisa, mas achei uma constatação curiosa.
Bits and pieces of my life that everyone ignores when I speak, but someone reads when I write.
segunda-feira, fevereiro 28, 2011
Shift happens 2
Coisa curiosa aconteceu hoje que eu achei digna de comentar aqui, como indício do meu processo durante o curso.
O pessoal do mestrado, insatisfeito com o pouco contato que temos com os nossos tutores e o pouco retorno que temos sobre o nosso trabalho, começou a convidar artistas de fora para virem à faculdade darem uma olhada nas nossas coisas e fazerem uns tutoriais extra-oficiais. Eu achei bem legal a idéia e falei que queria participar.
Hoje chegou a lista dos artistas que eles conseguiram e dos grupos que eles montaram, alocando cada aluno para um grupo com um artista que tivesse algo a ver com sua prática. E eu fui colocado no grupo que seria tutelado pelo Marco Chiandetti, um ex-mestrando de Chelsea que atualmente está conduzindo um trabalho de escultura como pesquisador na faculdade.
Peraí, um escultor?
Hoje à noite, em uma abertura de uma exposição, um colega meu estava conversando comigo sobre algo similar. Disse-me que estava gostando das coisas que eu estava fazendo aqui, os objetos e performances. Foi aí que eu percebi que eu não estava mais sendo considerado um pintor. Tirando os cartões postais da Filha do Açogueiro, eu não tinha enfrentado uma pintura decente desde o retrato de Dawn Mellor em Novembro. Pra dizer a verdade, nem eu mesmo estava mais me considerando um pintor. Não depois de perceber os pintores de verdade daqui e como eles lidavam com a pintura de um modo que eu nunca me permiti lidar (e ainda preciso um dia). A verdade é que eu estava me permitindo fazer todas as coisas que eu só poderia fazer aqui, porque a pintura eu podia fazer quando voltasse para meu país. Estava aproveitando as instalações, os ateliês de cerâmica, madeira, metal, cera. Meu processo estava sendo mais um refinamento do conceito masculista no meu trabalho do que um exercício de técnica. A experiência está sendo uma época um pouco incerta e desconfortável, porque eu sempre gostei de rótulos e definições. Ser um pintor definia para mim mesmo quem eu era. Confesso estar gostando muito desta nova liberdade, mas ainda ando por ela com um pouco de cautela e desconfiança, sentindo a falta da minha identidade. Sim, eu sou um artista, mas que tipo de artista?
No atual vácuo em que me encontro, tenho total liberdade de movimentos, mas também total ausência de bases sólidas nas quais tomar impulso para pular mais alto.
O pessoal do mestrado, insatisfeito com o pouco contato que temos com os nossos tutores e o pouco retorno que temos sobre o nosso trabalho, começou a convidar artistas de fora para virem à faculdade darem uma olhada nas nossas coisas e fazerem uns tutoriais extra-oficiais. Eu achei bem legal a idéia e falei que queria participar.
Hoje chegou a lista dos artistas que eles conseguiram e dos grupos que eles montaram, alocando cada aluno para um grupo com um artista que tivesse algo a ver com sua prática. E eu fui colocado no grupo que seria tutelado pelo Marco Chiandetti, um ex-mestrando de Chelsea que atualmente está conduzindo um trabalho de escultura como pesquisador na faculdade.
Peraí, um escultor?
Hoje à noite, em uma abertura de uma exposição, um colega meu estava conversando comigo sobre algo similar. Disse-me que estava gostando das coisas que eu estava fazendo aqui, os objetos e performances. Foi aí que eu percebi que eu não estava mais sendo considerado um pintor. Tirando os cartões postais da Filha do Açogueiro, eu não tinha enfrentado uma pintura decente desde o retrato de Dawn Mellor em Novembro. Pra dizer a verdade, nem eu mesmo estava mais me considerando um pintor. Não depois de perceber os pintores de verdade daqui e como eles lidavam com a pintura de um modo que eu nunca me permiti lidar (e ainda preciso um dia). A verdade é que eu estava me permitindo fazer todas as coisas que eu só poderia fazer aqui, porque a pintura eu podia fazer quando voltasse para meu país. Estava aproveitando as instalações, os ateliês de cerâmica, madeira, metal, cera. Meu processo estava sendo mais um refinamento do conceito masculista no meu trabalho do que um exercício de técnica. A experiência está sendo uma época um pouco incerta e desconfortável, porque eu sempre gostei de rótulos e definições. Ser um pintor definia para mim mesmo quem eu era. Confesso estar gostando muito desta nova liberdade, mas ainda ando por ela com um pouco de cautela e desconfiança, sentindo a falta da minha identidade. Sim, eu sou um artista, mas que tipo de artista?
No atual vácuo em que me encontro, tenho total liberdade de movimentos, mas também total ausência de bases sólidas nas quais tomar impulso para pular mais alto.
quarta-feira, fevereiro 23, 2011
Instalação?
Parece até ridículo eu não ter pensado nisso antes.
Recentemente, a turma do apartamento começou a discutir como a nossa cozinha e espaço comunal são sem graça, quando comparados com os outros apartamentos. Usamos o espaço para cozinhar e comer, mas não muito para conviver. Em parte porque a bagunça é tamanha que não faz do ambiente algo convidativo. Mas mencionei que era também porque nenhum de nós tinha colocados seus trabalho e coisas nas paredes como os outros habitantes do prédio.
Pensando nisso, voltando para casa na segunda-feira depois da minha performance no Salon, deixei o pedaço de parede com o botão pregado em um canto da sala. Ficou instalado confortavelmente junto das cortinas que ajudavam a esconder um pouco o fato de tratar-se de uma nesga de madeira e fazia parecer como se o botão estivesse pregado diretamente na parede. E daí pensei: acho que só esse botão, costurado com arame diretamente na parede, já serviria como um trabalho em si, independente da performace. Ele já incorporava várias das idéias (a atitude feminina de pregar botões, junto com as práticas masculinas da carpintaria na produção do botão e alvenaria no fato de estar pregado na parede). Por aqui, talvez ele tivesse menos significado, já que eu não tinha a possibilidade de me apresentar como estrangeiro e soltar aquelas informações todas sobre como as coisas são no meu país. Mas ainda assim, acho que seria uma boa instalação, se produzida cuidadosamente. Vou inscrevê-la em alguns salões e exibições por aqui e ver no que dá.
Recentemente, a turma do apartamento começou a discutir como a nossa cozinha e espaço comunal são sem graça, quando comparados com os outros apartamentos. Usamos o espaço para cozinhar e comer, mas não muito para conviver. Em parte porque a bagunça é tamanha que não faz do ambiente algo convidativo. Mas mencionei que era também porque nenhum de nós tinha colocados seus trabalho e coisas nas paredes como os outros habitantes do prédio.
Pensando nisso, voltando para casa na segunda-feira depois da minha performance no Salon, deixei o pedaço de parede com o botão pregado em um canto da sala. Ficou instalado confortavelmente junto das cortinas que ajudavam a esconder um pouco o fato de tratar-se de uma nesga de madeira e fazia parecer como se o botão estivesse pregado diretamente na parede. E daí pensei: acho que só esse botão, costurado com arame diretamente na parede, já serviria como um trabalho em si, independente da performace. Ele já incorporava várias das idéias (a atitude feminina de pregar botões, junto com as práticas masculinas da carpintaria na produção do botão e alvenaria no fato de estar pregado na parede). Por aqui, talvez ele tivesse menos significado, já que eu não tinha a possibilidade de me apresentar como estrangeiro e soltar aquelas informações todas sobre como as coisas são no meu país. Mas ainda assim, acho que seria uma boa instalação, se produzida cuidadosamente. Vou inscrevê-la em alguns salões e exibições por aqui e ver no que dá.
Minha avó perguntando no Formspring:
Pé, foi você que escreveu este texto em 2006, ou é de outra pessoa? Ny
Sim, fui eu que escrevi "Margot"! Gostou?
Pé, foi você que escreveu este texto em 2006, ou é de outra pessoa? Ny
Sim, fui eu que escrevi "Margot"! Gostou?
terça-feira, fevereiro 22, 2011
Margot
[Texto original escrito em Agosto de 2006 para o projeto Literatura Corporal e publicado no extinto blog Umas Cabeças e o Dobro de Mãos]
Lázaro empurrou o portão da casa onde Margot vivera seus últimos anos. O portão de ferro rangeu o descuido do tempo. No pequeno jardim da entrada, as folhas secas de uma figueira enorme foram varridas pelo vento, fugindo como insetos quando uma presença maior entra em cena. Margot adorava aquela figueira. Adorava mais ainda os figos que recebia dela, como gratificação pelos cuidados, numa relação simbiótica. A árvore havia sido quase tão velha quanto ela. Mas agora Margot estava morta e a figueira perdurava. Pro inferno com a simbiose.
Lutando contra a artrite, Lázaro escolheu a chave que conhecia tão bem e abriu a porta da frente. O verniz nas volutas dos ornamentos barrocos estava descascando. Lá dentro, uma dezena de fantasma brancos cobriam os móveis do pó levantado pela corrente de ar que entrou com Lázaro. Devolveram-lhe o aroma de Margot e instantaneamente um flash de lembranças quase palpáveis do corpo dela, do estilo que só ela tivera na juventude e uma distante noção do modo com o qual ela encarava a vida. Nostalgia. Tristeza e uma infindável solidão que enfraqueceu-lhe as pernas.
Segurou-se no batente da porta. A casa ainda tinha a presença dela. Forte, como se ela estivesse mesmo dentro da casa.
Lázaro entrou com a maleta. Ficaria lá pelos próximos dias, para fazer o inventário dos espólios de Margot. Passou a tarde retirando os lençóis brancos dos móveis, colocando o relógio de parede para funcionar e abrindo a casa. O sol entrava pela janela e iluminava as partículas de pó se revoltando contra aquele intruso. Em seguida, abriu o escritório. Paredes forradas em veludo já mostravam sinais de infiltração. largou a maleta sobre a mesa. O escritório não lhe dizia nada sobre Margot. Alguém havia estado aqui e deixado a papelada para que ele trabalhasse. Essa pequena intromissão tirara daquela sala todo resquício dela. E de qualquer forma, nos anos que Lázaro passara na casa, usara o escritório muito mais do que ela.
Ao lado do escritório, as escadas. Lázaro teve medo da artrite e não subiu. Ao lado delas, um elevador rudimentar. Entrou, fechou as grades a duras penas e apertou o segundo andar, reclinando contra as paredes de madeira laminada. O maquinário rangeu um protesto, mas aceitou a subida. Lázaro saiu do elevador para um corredor estreito em forma de L que levava dos dois quartos à direita, para um banheiro à esquerda.
Guiado por um irracional desejo, pisou no banheiro em frente ao espelho simples, quadrado, sobre a pia branca que ele sabia estava descolada da parede e bamba. Margot nunca consertara a maldita pia. De uma cômoda ao lado da pia vinha-lhe o aroma dos perfumes de Margot. Eram perfumes masculinos, em sua maioria. Ela adorava perfumes masculinos, e embora ele conhecera outras mulheres que os preferiam, lembraria sempre dela quando associasse o corpo feminino a estes aromas. Lembrava-se agora das tantas vezes em que voltara dos encontros com ela e descobrira maravilhado que suas roupas estavam impregnadas daquele cheiro.
Esticou a mão para alcançar o interruptor, mas deteve-se diante de idéia de que encontraria no espelho não seu próprio reflexo, mas o reflexo dela...
Pausa. O gotejar de canos vazando trazia à mente idéias de tempo, do limo crescendo entre azulejos.
Respirou fundo e apertou o interruptor: no espelho,apenas a figura nariguda e enrugada dele mesmo. A devastação de seus cabelos brancos criando entradas cada vez mais fundas na testa. Olhou em volta: havia ainda a banheira de porcelana, com a cortina de plástico suja, e o armário de remédios que não socorrera Margot a tempo. Estruturas de ferro com toalhas empoleiradas também. Tudo esverdeado pela iluminação de uma doentia luz fluorescente. Sua mão ainda estava no interruptor: apagou a luz e foi para o quarto.
Deteve-se frente à porta entreaberta do quarto de Margot por alguns momentos. De repente faltavam-lhe forças. Silencioso, de cabeça baixa, empurou a porta com dois dedos retorcidos pela doença. A porta abriu-se com um ranger melancólico: Lázaro viu
primeiro o piso de madeira. Era diferente do piso nos outros cômodos. Era uma madeira escura que escurecia o aspecto do quarto inteiro e abrigava os dois tapete persas de Margot. Notou logo que haviam mexido em um deles: no padrão geométrico bordado no tapete, havia uma imperfeição - obrigatória em todo tapete persa legítimo. Só que não estava no mesmo lugar de sempre. Haviam girado o tapete. No fundo do quarto, a cama de Margot: cama de viúva. Comprada quando Lázaro saiu de sua vida, como se tivesse morrido. Era banhada pela luz daquele fim de tarde: vermelha, entrando pela janela e sendo filtrada por persianas. A luz na cama eram cortes profundos. A cama, com luzes e sombras, era um tigre transmodificado em mobília. Lázaro veio sentar-se em seu lombo, acariciando-a como para evitar que acordasse. Por um momento, devaneou na ilusão de que acariciava Margot. As curvas mornas de Margot adormecida, nua e jovem. Seu corpo esbelto que ela dizia ser gordo de teimosa que era. Forçou-se a despertar e recolheu a mão atrevida. As almofadas redondas e fartas na cama lembravam-lhe zombeteiras dos seios de Margot. Nunca tivera nas mãos seios mais perfeitos depois daqueles. Acendeu a lâmpada da mesa de cabeceira e a luz mostrou-lhe um vulto ao lado do armário. Seu coração acelerado esperando encontrá-la: vestiria seu casaco de pele perfumado e as roupas de uma senhora de respeito, vindo dizer-lhe que o amava.
Não. Era apenas o casaco de pele pendurado na porta do armário. Perfumado, porém oco, sem Margot em roupas requintadas por dentro. Lázaro arrastou-se até ele como um morto-vivo e afundou o rosto na pelagem, as lágrimas brotando em profusão enqanto absorvia aquele perfume até seus pulmões estarem prestes a arrebentar. Tinha medo de que o aroma sumisse com o tempo e com ele toda memória visceral de Margot. Caiu de joelhos frente ao casaco, soluçando como criança. Quase podia sentir os dedos carinhosos e macios dela percorrendo seus cabelos que não mais existiam enquanto ela sussurrava: "Shh... Calma, meu amor. Vai ficar tudo bem."
Lázaro empurrou o portão da casa onde Margot vivera seus últimos anos. O portão de ferro rangeu o descuido do tempo. No pequeno jardim da entrada, as folhas secas de uma figueira enorme foram varridas pelo vento, fugindo como insetos quando uma presença maior entra em cena. Margot adorava aquela figueira. Adorava mais ainda os figos que recebia dela, como gratificação pelos cuidados, numa relação simbiótica. A árvore havia sido quase tão velha quanto ela. Mas agora Margot estava morta e a figueira perdurava. Pro inferno com a simbiose.
Lutando contra a artrite, Lázaro escolheu a chave que conhecia tão bem e abriu a porta da frente. O verniz nas volutas dos ornamentos barrocos estava descascando. Lá dentro, uma dezena de fantasma brancos cobriam os móveis do pó levantado pela corrente de ar que entrou com Lázaro. Devolveram-lhe o aroma de Margot e instantaneamente um flash de lembranças quase palpáveis do corpo dela, do estilo que só ela tivera na juventude e uma distante noção do modo com o qual ela encarava a vida. Nostalgia. Tristeza e uma infindável solidão que enfraqueceu-lhe as pernas.
Segurou-se no batente da porta. A casa ainda tinha a presença dela. Forte, como se ela estivesse mesmo dentro da casa.
Lázaro entrou com a maleta. Ficaria lá pelos próximos dias, para fazer o inventário dos espólios de Margot. Passou a tarde retirando os lençóis brancos dos móveis, colocando o relógio de parede para funcionar e abrindo a casa. O sol entrava pela janela e iluminava as partículas de pó se revoltando contra aquele intruso. Em seguida, abriu o escritório. Paredes forradas em veludo já mostravam sinais de infiltração. largou a maleta sobre a mesa. O escritório não lhe dizia nada sobre Margot. Alguém havia estado aqui e deixado a papelada para que ele trabalhasse. Essa pequena intromissão tirara daquela sala todo resquício dela. E de qualquer forma, nos anos que Lázaro passara na casa, usara o escritório muito mais do que ela.
Ao lado do escritório, as escadas. Lázaro teve medo da artrite e não subiu. Ao lado delas, um elevador rudimentar. Entrou, fechou as grades a duras penas e apertou o segundo andar, reclinando contra as paredes de madeira laminada. O maquinário rangeu um protesto, mas aceitou a subida. Lázaro saiu do elevador para um corredor estreito em forma de L que levava dos dois quartos à direita, para um banheiro à esquerda.
Guiado por um irracional desejo, pisou no banheiro em frente ao espelho simples, quadrado, sobre a pia branca que ele sabia estava descolada da parede e bamba. Margot nunca consertara a maldita pia. De uma cômoda ao lado da pia vinha-lhe o aroma dos perfumes de Margot. Eram perfumes masculinos, em sua maioria. Ela adorava perfumes masculinos, e embora ele conhecera outras mulheres que os preferiam, lembraria sempre dela quando associasse o corpo feminino a estes aromas. Lembrava-se agora das tantas vezes em que voltara dos encontros com ela e descobrira maravilhado que suas roupas estavam impregnadas daquele cheiro.
Esticou a mão para alcançar o interruptor, mas deteve-se diante de idéia de que encontraria no espelho não seu próprio reflexo, mas o reflexo dela...
Pausa. O gotejar de canos vazando trazia à mente idéias de tempo, do limo crescendo entre azulejos.
Respirou fundo e apertou o interruptor: no espelho,apenas a figura nariguda e enrugada dele mesmo. A devastação de seus cabelos brancos criando entradas cada vez mais fundas na testa. Olhou em volta: havia ainda a banheira de porcelana, com a cortina de plástico suja, e o armário de remédios que não socorrera Margot a tempo. Estruturas de ferro com toalhas empoleiradas também. Tudo esverdeado pela iluminação de uma doentia luz fluorescente. Sua mão ainda estava no interruptor: apagou a luz e foi para o quarto.
Deteve-se frente à porta entreaberta do quarto de Margot por alguns momentos. De repente faltavam-lhe forças. Silencioso, de cabeça baixa, empurou a porta com dois dedos retorcidos pela doença. A porta abriu-se com um ranger melancólico: Lázaro viu
primeiro o piso de madeira. Era diferente do piso nos outros cômodos. Era uma madeira escura que escurecia o aspecto do quarto inteiro e abrigava os dois tapete persas de Margot. Notou logo que haviam mexido em um deles: no padrão geométrico bordado no tapete, havia uma imperfeição - obrigatória em todo tapete persa legítimo. Só que não estava no mesmo lugar de sempre. Haviam girado o tapete. No fundo do quarto, a cama de Margot: cama de viúva. Comprada quando Lázaro saiu de sua vida, como se tivesse morrido. Era banhada pela luz daquele fim de tarde: vermelha, entrando pela janela e sendo filtrada por persianas. A luz na cama eram cortes profundos. A cama, com luzes e sombras, era um tigre transmodificado em mobília. Lázaro veio sentar-se em seu lombo, acariciando-a como para evitar que acordasse. Por um momento, devaneou na ilusão de que acariciava Margot. As curvas mornas de Margot adormecida, nua e jovem. Seu corpo esbelto que ela dizia ser gordo de teimosa que era. Forçou-se a despertar e recolheu a mão atrevida. As almofadas redondas e fartas na cama lembravam-lhe zombeteiras dos seios de Margot. Nunca tivera nas mãos seios mais perfeitos depois daqueles. Acendeu a lâmpada da mesa de cabeceira e a luz mostrou-lhe um vulto ao lado do armário. Seu coração acelerado esperando encontrá-la: vestiria seu casaco de pele perfumado e as roupas de uma senhora de respeito, vindo dizer-lhe que o amava.
Não. Era apenas o casaco de pele pendurado na porta do armário. Perfumado, porém oco, sem Margot em roupas requintadas por dentro. Lázaro arrastou-se até ele como um morto-vivo e afundou o rosto na pelagem, as lágrimas brotando em profusão enqanto absorvia aquele perfume até seus pulmões estarem prestes a arrebentar. Tinha medo de que o aroma sumisse com o tempo e com ele toda memória visceral de Margot. Caiu de joelhos frente ao casaco, soluçando como criança. Quase podia sentir os dedos carinhosos e macios dela percorrendo seus cabelos que não mais existiam enquanto ela sussurrava: "Shh... Calma, meu amor. Vai ficar tudo bem."
Salon
Não há muito o que comentar do evento acontecido na segunda-feira. Fiz a minha performance de novo, desta vez para os meus colégas do mestrado e outros alunos de outras faculdades. Como esperado, as reações deles foram bem mais mornas do que as do pessoal do Q-Art, devido à má reputação decorrente do meu começo. Acho que sempre que eu mencionar esses assuntos masculistas, eles vão se fechar um pouco assim.
Mas consegui gravar a performance desta vez, e devo colocar aqui em breve. Levou menos de 10 minutos, mais rápida do que a primeira. O que gosto desta performance é que, mesmo quando ela dá errado, o erro funciona a meu favor.
Mas apesar da falta de reação dos meus colegas, outras coisas interessantes aconteceram. O organizador do evento veio me parabenizar, dizendo que o jeito como eu levava essa performance "sem cara de performance" era muito gostoso, fazia a platéia simpatizar comigo e deixava toda a discussão bem mais leve. Conheci ainda um fotógrafo profissional que estava fotografando retratos profissionais de homens como forma de explorar e resgatar masculinidade. Conversamos longamente sobre o perigo que esse trabalho tinha de cair na discussão sobre orientação sexual em vez de gênero masculino.Ele, aliás, era heterossexual. E pude novamente constatar como a pergunta por aqui não ofende tanto quanto nas culturas latinas. Uma das minhas colegas, uma mãe lésbica de 35 anos, passou o resto da noite conversando comigo sobre questões de gênero, sexualidade e como esses assuntos masculinos precisam sim serem conversados mesmo na cultura britânica. Foi muito revelador.
Mas ainda estou esperando as pedradas advindas dos meus outros colegas daquela noite.
Mas consegui gravar a performance desta vez, e devo colocar aqui em breve. Levou menos de 10 minutos, mais rápida do que a primeira. O que gosto desta performance é que, mesmo quando ela dá errado, o erro funciona a meu favor.
Mas apesar da falta de reação dos meus colegas, outras coisas interessantes aconteceram. O organizador do evento veio me parabenizar, dizendo que o jeito como eu levava essa performance "sem cara de performance" era muito gostoso, fazia a platéia simpatizar comigo e deixava toda a discussão bem mais leve. Conheci ainda um fotógrafo profissional que estava fotografando retratos profissionais de homens como forma de explorar e resgatar masculinidade. Conversamos longamente sobre o perigo que esse trabalho tinha de cair na discussão sobre orientação sexual em vez de gênero masculino.Ele, aliás, era heterossexual. E pude novamente constatar como a pergunta por aqui não ofende tanto quanto nas culturas latinas. Uma das minhas colegas, uma mãe lésbica de 35 anos, passou o resto da noite conversando comigo sobre questões de gênero, sexualidade e como esses assuntos masculinos precisam sim serem conversados mesmo na cultura britânica. Foi muito revelador.
Mas ainda estou esperando as pedradas advindas dos meus outros colegas daquela noite.
Interim Show
Então vamos lá... Vou tentar escrever o que eu lembro disso.
O longo processo começou em Dezembro com a discussão do que fazer. Tínhamos um desafio bem claro: colocar 75 alunos em um espaço onde mal daria para expor 30. A discussão durou dois meses. As propostas começaram com a divisão do espaço em 75 partes iguais, uma para cada um. Daí nos tocamos que a faculdade queria que colaborássemos uns com os outros, mas fazer isso em 75 pessoas de culturas tão variadas (europeus diversos, um brasileiro, dois colombianos, miríade de asiáticos, persas, paquistaneses e tudo mais que você possa imaginar) não seria tarefa fácil. Os anarco-socialistas do grupo protestaram que não queriam entrar nas "ideologias antediluvianas e opressoras do capital", então deveríamos fazer um show que não procurasse vender obras e nem estabelecer hierarquias. Alguém sugeriu um evento de uma semana onde sequer mostraríamos obras, haveria apenas a interação com o público. Os alunos que já tinham carreiras iniciantes protestaram dizendo que queriam expôr o que tinham para seus colecionadores e galeristas. Alguém lembrou do Nomadic Hive Manifesto e contemplamos discutir o atual cenário político. Alguns dos asiáticos proclamaram que não tinham o menor interesse pela política local. E assim foi a conversa até o começo de Fevereiro, quando os anarco-socialistas intervieram na discussão de novo pra tomar a posição hierarquica superior de decisores e estabelecer que dividiríamos o espaço em 75 partes iguais, uma pra cada um. Ceeeeerto...
Eu confesso que, durante os dias que antecederam o Interim Show, eu estava mais preocupado com outras coisas. Estava relativamente apavordo com a primeira performance da minha vida, no Q-Art Convenor. Produzindo partes para isso, pensando na logística do transporte e horários, no que dizer. A performance foi feita no dia anterior á abertura do show, e foi tão bem recebida, que cogitei mudar radicalmente o que eu mostraria no Interim. Mas seria tão complicado arranjar espaço em um dia, que resolvi continuar com o plano inicial de mostrar a Filha do Açogueiro.
Não lembro direito do termo usado, mas um dos meus colegas referiu-se à atividade intensa que acontecia no diminuto Triangle Space como uma espécie de "sucursal do inferno" ou "casa do rancor". Porque todos estavam tentando adquirir os materiais que precisavam, colocar seus trabalhos em lugares visíveis e fazer a politicagem necessária ("Eu não estou te atrapalhando, né? Me diz se eu estiver. Ah, estou? Putz, que pena eu não posso mudar...") até o horário da abertura. Eu mesmo passei boa parte do dia negociando um espaço alternativo, porque eu tinha sido colocado atrás de um alemão minimalista que construiu trés caixas de luz do tamanho de geladeiras e ninguém ia ver os meus cartões postais... Espaço negociado, eu estava quase perdendo a sanidade tentando negociar o andaime pra pendurar os fios para os cartões. E foi então que Brian Chalkley, o coordenador do curso, entrou no espaço e começou a dar sua opinião. Me disse que seu eu fosse o trigésimo aluno a pendurar coisas no teto, ele ficaria muito desapontado que ninguém estava pensando em outra solução mais criativa. Quase perco a compostura. Num ímpeto raivoso, fui aos estúdios de metal e madeira e produzi em duas horas um machado de carne cravado em uma tábua de cortar carne colocada no chão, com uma empunhadura cumprida na ponta da qual ficaram pendurados os carões. O efeito visual foi interessante, mas roubou a cena dos cartões, que ficaram meio desimportantes. E no fim o conjunto todo ficou pequenininho e escondido nos escombros do que virou uma grande amontoado amorfo e nonsense de arte contemporânea.
Eu participei de algumas outras coisas, colaborações interessantes. Dois noruegueses me chamaram para encenar uma versão condensada e encenada apenas por homens da Casa de Bonecas do Ibsen, escritor norueguês. Minha avó chegou a encenar essa peça na década de 50. E uma alemã me colocou entre três participantes (3 = triângulo = Triangle Space) de uma performance onde esvaziamos latas de uma espuma isolante que expandia em um amontoado no chão.
Claro que O Sistema se encarregou de dar sentido àquilo, como sempre faz com os artistas depois que os confundiu bastante. Professores argumentaram como aquilo fazia um comentário à falta de espaço da faculdade, ao multiculturalismo de Londres, como cada visitante teria uma experiência diferente dependendo de como andasse por entre as coisas e outros blablablás com cara de conteúdo. E no fim, todo mundo considerou o acontecimento um relativo sucesso.
Eu ainda não sei ao certo o que pensar a respeito. E na verdade, resolvi não pensar muito a respeito. Estou apenas colhendo as opiniões sobre a minha personagem (por enquanto bem positivas) e esperando o stress e o rancor passarem.
O longo processo começou em Dezembro com a discussão do que fazer. Tínhamos um desafio bem claro: colocar 75 alunos em um espaço onde mal daria para expor 30. A discussão durou dois meses. As propostas começaram com a divisão do espaço em 75 partes iguais, uma para cada um. Daí nos tocamos que a faculdade queria que colaborássemos uns com os outros, mas fazer isso em 75 pessoas de culturas tão variadas (europeus diversos, um brasileiro, dois colombianos, miríade de asiáticos, persas, paquistaneses e tudo mais que você possa imaginar) não seria tarefa fácil. Os anarco-socialistas do grupo protestaram que não queriam entrar nas "ideologias antediluvianas e opressoras do capital", então deveríamos fazer um show que não procurasse vender obras e nem estabelecer hierarquias. Alguém sugeriu um evento de uma semana onde sequer mostraríamos obras, haveria apenas a interação com o público. Os alunos que já tinham carreiras iniciantes protestaram dizendo que queriam expôr o que tinham para seus colecionadores e galeristas. Alguém lembrou do Nomadic Hive Manifesto e contemplamos discutir o atual cenário político. Alguns dos asiáticos proclamaram que não tinham o menor interesse pela política local. E assim foi a conversa até o começo de Fevereiro, quando os anarco-socialistas intervieram na discussão de novo pra tomar a posição hierarquica superior de decisores e estabelecer que dividiríamos o espaço em 75 partes iguais, uma pra cada um. Ceeeeerto...
Eu confesso que, durante os dias que antecederam o Interim Show, eu estava mais preocupado com outras coisas. Estava relativamente apavordo com a primeira performance da minha vida, no Q-Art Convenor. Produzindo partes para isso, pensando na logística do transporte e horários, no que dizer. A performance foi feita no dia anterior á abertura do show, e foi tão bem recebida, que cogitei mudar radicalmente o que eu mostraria no Interim. Mas seria tão complicado arranjar espaço em um dia, que resolvi continuar com o plano inicial de mostrar a Filha do Açogueiro.
Não lembro direito do termo usado, mas um dos meus colegas referiu-se à atividade intensa que acontecia no diminuto Triangle Space como uma espécie de "sucursal do inferno" ou "casa do rancor". Porque todos estavam tentando adquirir os materiais que precisavam, colocar seus trabalhos em lugares visíveis e fazer a politicagem necessária ("Eu não estou te atrapalhando, né? Me diz se eu estiver. Ah, estou? Putz, que pena eu não posso mudar...") até o horário da abertura. Eu mesmo passei boa parte do dia negociando um espaço alternativo, porque eu tinha sido colocado atrás de um alemão minimalista que construiu trés caixas de luz do tamanho de geladeiras e ninguém ia ver os meus cartões postais... Espaço negociado, eu estava quase perdendo a sanidade tentando negociar o andaime pra pendurar os fios para os cartões. E foi então que Brian Chalkley, o coordenador do curso, entrou no espaço e começou a dar sua opinião. Me disse que seu eu fosse o trigésimo aluno a pendurar coisas no teto, ele ficaria muito desapontado que ninguém estava pensando em outra solução mais criativa. Quase perco a compostura. Num ímpeto raivoso, fui aos estúdios de metal e madeira e produzi em duas horas um machado de carne cravado em uma tábua de cortar carne colocada no chão, com uma empunhadura cumprida na ponta da qual ficaram pendurados os carões. O efeito visual foi interessante, mas roubou a cena dos cartões, que ficaram meio desimportantes. E no fim o conjunto todo ficou pequenininho e escondido nos escombros do que virou uma grande amontoado amorfo e nonsense de arte contemporânea.
Eu participei de algumas outras coisas, colaborações interessantes. Dois noruegueses me chamaram para encenar uma versão condensada e encenada apenas por homens da Casa de Bonecas do Ibsen, escritor norueguês. Minha avó chegou a encenar essa peça na década de 50. E uma alemã me colocou entre três participantes (3 = triângulo = Triangle Space) de uma performance onde esvaziamos latas de uma espuma isolante que expandia em um amontoado no chão.
Claro que O Sistema se encarregou de dar sentido àquilo, como sempre faz com os artistas depois que os confundiu bastante. Professores argumentaram como aquilo fazia um comentário à falta de espaço da faculdade, ao multiculturalismo de Londres, como cada visitante teria uma experiência diferente dependendo de como andasse por entre as coisas e outros blablablás com cara de conteúdo. E no fim, todo mundo considerou o acontecimento um relativo sucesso.
Eu ainda não sei ao certo o que pensar a respeito. E na verdade, resolvi não pensar muito a respeito. Estou apenas colhendo as opiniões sobre a minha personagem (por enquanto bem positivas) e esperando o stress e o rancor passarem.
domingo, fevereiro 20, 2011
Odds and Ends
• Conversando durante uma balada com o americano Jonathan Morgan, um dos meus colegas do curso, chegamos à conclusão de que raríssimas vezes tínhamos visto os ingleses se beijando nas baladinhas. Para mim a constatação era ainda mais estranha, porque eu estava morando em um edifício repleto de moradores entre os 18 e 22 anos de idade, e se isso fosse na minha cidade, seria uma pegação desenfreada. Aqui, tudo corria na maior normalidade.
Cheguei a uma teoria interessante: na América, a base do convívio social é o sexo. O que fica implícito na saída para a balada é a busca pelo sexo e outras intimidades físicas. Nesse processo, o uso de entorpecentes (entenda-se aqui o álcool, além das drogas ilícitas) é um efeito colateral dessa busca. Acontece para temperar as delícias da noite.
Aqui, a base do convívio social são os estados alterados. O que fica implícito na saída para a balada é a busca por um estado de consciência alterada, geralmente consequente do uso de entorpecentes (sim, o álcool principalmente, mas as drogas sintéticas também). Nesse processo, o sexo e intimidades físicas são um efeito colateral dessa busca. Acontecem como consequência dos excessos e da perda voluntária de controle sobre si mesmo.
• Estação de Camden Town no fim de semana passado. Um punk (sexo não-identificável) caído inconsciente na plataforma 4. Minha reação natural foi fotografar isto e postar na internet como um espécime da vida londrina. Enquanto eu procurava minha câmera, um transeunte alertou um dos funcionários do metrô, que veio socorrer. Acordou o individuo que, com lentes de contato vermelhas saíndo do lugar, ensaiou respostas malcriadas ao funcionário antes de perceber que estava de fato precisando de ajuda. Quando eles saíram, fui deixado na plataforma, sentindo-me como o americano que eu sou: alguém que se importava mais com sua própria "aventura", ignorando o fato de que aquele era outro ser humano em apuros, precisando que alguém o ajudasse. Eu ainda tenho muito o que aprender...
• Vejo os rapazes londrinos andando por aí com combinações de roupas que eu acho bem atraentes. Aos poucos eu vou me vestindo mais ou menos assim por aqui. Mas percebo que algumas dessas combinações funcionam muito bem neles, porque o biotipo deles lhes permite. São roupas que ficam bem em pessoas pálidas, de cabelos lisos e loiros e olhos azuis, e que pareceriam meio deslocadas em alguém de aparência latina. Não sei especificar detalhes.
Apesar disso, tenho curiosamente recebido comentários de aprovação referentes ao meu estilo nem americano e nem europeu. À mistura de elementos do dandy inglês e do astro de rock, a personalidade definida pela barba e os óculos, os broches colocados nas lapelas, o chapéu, os detalhes em geral. A carefully crafted personality.
Cheguei a uma teoria interessante: na América, a base do convívio social é o sexo. O que fica implícito na saída para a balada é a busca pelo sexo e outras intimidades físicas. Nesse processo, o uso de entorpecentes (entenda-se aqui o álcool, além das drogas ilícitas) é um efeito colateral dessa busca. Acontece para temperar as delícias da noite.
Aqui, a base do convívio social são os estados alterados. O que fica implícito na saída para a balada é a busca por um estado de consciência alterada, geralmente consequente do uso de entorpecentes (sim, o álcool principalmente, mas as drogas sintéticas também). Nesse processo, o sexo e intimidades físicas são um efeito colateral dessa busca. Acontecem como consequência dos excessos e da perda voluntária de controle sobre si mesmo.
• Estação de Camden Town no fim de semana passado. Um punk (sexo não-identificável) caído inconsciente na plataforma 4. Minha reação natural foi fotografar isto e postar na internet como um espécime da vida londrina. Enquanto eu procurava minha câmera, um transeunte alertou um dos funcionários do metrô, que veio socorrer. Acordou o individuo que, com lentes de contato vermelhas saíndo do lugar, ensaiou respostas malcriadas ao funcionário antes de perceber que estava de fato precisando de ajuda. Quando eles saíram, fui deixado na plataforma, sentindo-me como o americano que eu sou: alguém que se importava mais com sua própria "aventura", ignorando o fato de que aquele era outro ser humano em apuros, precisando que alguém o ajudasse. Eu ainda tenho muito o que aprender...
• Vejo os rapazes londrinos andando por aí com combinações de roupas que eu acho bem atraentes. Aos poucos eu vou me vestindo mais ou menos assim por aqui. Mas percebo que algumas dessas combinações funcionam muito bem neles, porque o biotipo deles lhes permite. São roupas que ficam bem em pessoas pálidas, de cabelos lisos e loiros e olhos azuis, e que pareceriam meio deslocadas em alguém de aparência latina. Não sei especificar detalhes.
Apesar disso, tenho curiosamente recebido comentários de aprovação referentes ao meu estilo nem americano e nem europeu. À mistura de elementos do dandy inglês e do astro de rock, a personalidade definida pela barba e os óculos, os broches colocados nas lapelas, o chapéu, os detalhes em geral. A carefully crafted personality.
sexta-feira, fevereiro 18, 2011
Shift happens
Já foi documentado diversas vezes aqui no blog. Eu alterno entre épocas apolíneas e dionisíacas. Eu sinto a vontade de me afundar no racional, erguer castelos de logística que regem meus dias, uma sólida rotina onde tudo funciona como um relógio suiço apesar das bizarrices, manias e obssessões. Talvez até por causa das bizarrices, manias e obssessões.
Daí chega uma época na vida, talvez por pressões externas, talvez apenas pela monotonia da minha própria certice, em que eu me descubro cansado disso tudo. E começo a precisar da noite, dos lugares da cidade que "pessoas de bem" não vão. Preciso me destruir um pouco, encarar de frente minhas perversões, egoísmos, esquisitices. Na verdade, tudo não passa da busca pelo visceral que é perdido ou sufocado nas épocas de certice. Porque eu também preciso disso pra viver. Aquele lado que me tem citando Cazuza e Marina Lima.
Essa época está chegando de novo. E o problema dela é que o lado meu que precisa da organização e disciplina sofre com o caos inerente a ela. Meu diminuto quarto está uma bagunça. Minhas rotinas completamente alteradas não funcionam mais. Mas principalmente, a documentação obssessiva de cada parte do meu processo por aqui deixou de fluir. Prova disso é que o tão falado Interim Show veio e se foi e eu nem tenho muito informação coerente para documentá-lo por aqui. Me tranquilizo sabendo que boas coisas surgem do meio dessa destruição, como sempre surgiram nos meus outros mergulhos no abismo.
Dia desses, Nana estava me lembrando da época em que eu participava do falecido blog Umas cabeças e o Dobro de Mãos; ou da Literatura Corporal, uma lista de e-mails de cronistas que se interessavam por suspense, terror, erótica e assuntos do gênero. Foi uma época fértil e um mergulho no abismo que deixou ótimas recordações, como O Prédio ou o Como um Cão. Estou tentando procurar o Margot, mas para minha grande infelicidade, ele não existe mais na internet. Postarei dos meus arquivos quando voltar pra casa hoje.
Mas acho que essa revisão nostálgica dos meus períodos literários me fez pensar no que muita gente comenta, de como eu sou melhor escritor do que artista plástico. O pior de tudo é que eu concordo. Meu pai que explicou a questão da melhor forma: é muito fácil maravilhar alguém com uma bela imagem. E na época em que vivemos, há belas imagens em todos os lugares. Então o impacto de uma bela imagem é diminuto. Mas maravilhar com a linguagem é uma coisa cada vez mais rara. Eu tenho facilidade e prática para isso. E quando acontece, o impacto é fulminante.
No entanto, já me vejo naquela fase da vida onde a perspectiva de começar de novo depois de ter trilhado um outro caminho por tanto tempo parece pesada e impraticável demais.
Daí chega uma época na vida, talvez por pressões externas, talvez apenas pela monotonia da minha própria certice, em que eu me descubro cansado disso tudo. E começo a precisar da noite, dos lugares da cidade que "pessoas de bem" não vão. Preciso me destruir um pouco, encarar de frente minhas perversões, egoísmos, esquisitices. Na verdade, tudo não passa da busca pelo visceral que é perdido ou sufocado nas épocas de certice. Porque eu também preciso disso pra viver. Aquele lado que me tem citando Cazuza e Marina Lima.
Essa época está chegando de novo. E o problema dela é que o lado meu que precisa da organização e disciplina sofre com o caos inerente a ela. Meu diminuto quarto está uma bagunça. Minhas rotinas completamente alteradas não funcionam mais. Mas principalmente, a documentação obssessiva de cada parte do meu processo por aqui deixou de fluir. Prova disso é que o tão falado Interim Show veio e se foi e eu nem tenho muito informação coerente para documentá-lo por aqui. Me tranquilizo sabendo que boas coisas surgem do meio dessa destruição, como sempre surgiram nos meus outros mergulhos no abismo.
Dia desses, Nana estava me lembrando da época em que eu participava do falecido blog Umas cabeças e o Dobro de Mãos; ou da Literatura Corporal, uma lista de e-mails de cronistas que se interessavam por suspense, terror, erótica e assuntos do gênero. Foi uma época fértil e um mergulho no abismo que deixou ótimas recordações, como O Prédio ou o Como um Cão. Estou tentando procurar o Margot, mas para minha grande infelicidade, ele não existe mais na internet. Postarei dos meus arquivos quando voltar pra casa hoje.
Mas acho que essa revisão nostálgica dos meus períodos literários me fez pensar no que muita gente comenta, de como eu sou melhor escritor do que artista plástico. O pior de tudo é que eu concordo. Meu pai que explicou a questão da melhor forma: é muito fácil maravilhar alguém com uma bela imagem. E na época em que vivemos, há belas imagens em todos os lugares. Então o impacto de uma bela imagem é diminuto. Mas maravilhar com a linguagem é uma coisa cada vez mais rara. Eu tenho facilidade e prática para isso. E quando acontece, o impacto é fulminante.
No entanto, já me vejo naquela fase da vida onde a perspectiva de começar de novo depois de ter trilhado um outro caminho por tanto tempo parece pesada e impraticável demais.
terça-feira, fevereiro 15, 2011
Tutorial 4
[Post original em inglês para facilitar a documentação desses tutoriais no final do curso]
Para meu segundo tutorial com o Sr. Dalwood, eu tinha duas coisas para mostrar. Tinha o resultado da performance no Q-Art Convenor na quarta-feira anterior, e os cartões postais da Filha do Açogueiro no Interim Show. Eram coisas diferentes, mas de alguma forma relacionadas. Ambas eram uma nova espécie de sátira da masculinidade. A performance com o botão, porque eu estava pegando algo feminino e meigo e fingindo torná-lo uma tarefa masculina, e completamente invalidando seu propósito durante esse processo. Os cartões postais, porque eu era um homem adulto, ilustrando um alter ego que era uma garotinha, que por sua vez tentava agir de uma forma não tão feminina e bem violenta.
Quanto ao botão, o Sr. Dalwood ficou em uma das mesmas questões lançadas por alguém da platéia na quarta: onde eu estava querendo chegar? Eu estava propositalmente tentando fazer a platéia me detestar para provar algo? Mais importante, ele perguntou, será que algum deles de fato considerou o assunto em questão? Eu achei que alguns deles tinham considerado sim. Algumas das mulheres apenas acharam aquilo bonitinho, mas alguns dos homens consideraram sim. Outra coisaa que ele mencionou foi que, para ele, parecia que eu não estava de fato fazendo uma performance, mas apenas tendo uma conversa honesta e direta com a platéia sobre os assuntos que me interessavam. De certa forma, era isso que eu adorava nessa performance: ela me permitia ter essa conversa honesta e direta. Eu estava lidando com o assunto de frente, em vez de me proteger atrás de camadas impenetráveis de abstração e teoria. No entanto, eu não achava que aquilo era apenas uma conversa. Eu estava executando a tarefa de costurar o botão na parede. Uma tarefa inútil, já que eu tivera que fazer alterações para passar da costura em tecido para a costura em parede, e portanto, se qualquer um tentasse seguir os passos mencionados no tutorial, esse botão jamais seria costurado direito. E como eu tinha postulado antes no meu trabalho de graduação sobre a minha definição de arte, ela era sempre inútil, do ponto de vista prático.
Dexter também não conseguiu sugerir algo que seria considerado uma tarefa especificamente feminina na Inglaterra. Ele mencionou trocar fraldas, e eu tive lampejos de como isso estaria ligado à questão de homens cuidando dos filhos nos países nórdicos e aos pais de Nova Iorque, assim como à impossibilidade de homens serem considerados para empregos como babás na Europa, já que seriam considerados pervertidos sexuais.
A respeito dos cartões postais, eu fiquei feliz em ver que ele chegou a algumas das conclusões que eu esperava. Ele entendeu a Filha do Açogueiro como um alter ego (e um colega que passou por aqui enquanto eu estava escrevendo isso me perguntou porque ela usava a mesma pulseira de couro que eu, apenas para perceber o porque no segundo seguinte...), e ele colocou uma questão interessante. Alice era mais passiva, apenas observava o mundo ao redor, enquanto que a Filha do Açogueiro estava ativamente participando do ambiente com um machado de carne em mãos. A questão era: o que ela estava atacando? O que eu queria atacar? A questão parecia óbvia no começo e eu estava prestes a me precipitar a responder que eu estava atacando os papéis masculinos convencionais ou algo do gênero. Mas repentinamente me dei conta de que o assunto era bem mais difícil de entender. O que eu de fato estava atacando?
Não houve problema com a obviedade de escrever no verso dos cartões postais. Ele achou apenas que eu poderia fazer isso de forma menos direta. Eu já tinha sentido que estava perdendo um pouco da melhor qualidade das aventuras da Filha do Açogueiro ao tentar ligpa-las tão obviamente às teorias às quais eu tinha sido exposto e principalmente às palestras do Professor Cussans. Eu tinha que deixá-la correr solta um pouco mais e, nas palavras do Sr. Dalwood, me aventurar na minha mais profunda estranheza. Ir mais a fundo na psichê. Eu concordei. Eu senti que os três cartões que eu tinha no Interim Show perdiam em comparação com as outras pinturas não por causa de seu tamanho e mídia, mas por causa do quão superficiais eles eram. No entanto, eu temo um pouco pelos resultados disso. Por motivos que eu nem consigo me permitir escrever por aqui.
Mas um pouco disso tem a ver com o quão perturbadoramente longe eu consigo ir ao mutilar a figura de uma garotinha. Eu estava pensando que ela é uma criança mexendo com uma faca e acidentes podem acontecer. Assim como eu me machucara no começo do mestrado por ser descuidado ao lidar com os assuntos masculistas. Já antevejo ela perdendo alguns membros. Mas por outro lado, se o Trevor Brown conseguiu durar tanto tempo [1][2] [3] [4] [5], acho que isso não será tamanho problema pra mim.
==========O==========
For my second tutorial with Mr. Dalwood, I had two things to show. There was the result of my perfomrnace at the Q-Art Convenor on the previous Wednesday, and the postcards of the Butcher's Daughter on the Interim Show. They were different things, but somehow related. They were both a new sort of mockery of manhood. The button performance, because I was taking something feminine and dainty and pretending to make it a manly task, and completely invalidating its purpose in the process. The postcards, because I was a grown man, ilustrating an alter ego who was a little girl, who in turn tried to act not-so-girly and quite violent.
For the button, Mr. Dalwood stuck to one of the same questions brought forth by someone in my audience on Wednesday: where was I going with this? Was I deliberately trying to get the audience to hate me to prove a point? More importantly, he asked, did any of them actually consider the point? I thought some of them did. Some of the women just found it cute, but some of the men did.
Another thing he mentioned was that it seemed to him that I wasn't actually making a performance, but just having a frank and direct talk with the audience about the issues I was concerned with. In a way, that was what I most liked about this performance: it enabled me to have that frank and direct talk. It was dealing with the matter head-on, and not shielded behind impenetrable layers of abstraction and theory. However, I didn't consider it to be merely a talk. I was doing that task of sewing the button to the wall. A pointless task, since I had to alter it to go from sewing on cloth to sewing on wall, and thus, if anyone should follow the steps provided on the tutorial, they'd never get that button sown on their coat correctly. And as I had stated in my earlier graduation work about the definition of art, it was always pointless from a practical point of view.
Dexter also failed to give me any suggestion of something that would be considered purely a woman's task in Britain. He mentioned changing diapers, and I did glimpse how it would tie with the matter of men caring for children in Nordic countries and the fathers in New York, as well as the impossibility for men to be considered for jobs as au pairs in Europe, since they'd be considered perverts.
With regards to the postcards, I was happy to see he came to some of the expected conclusions. He understood the Butcher's Daughter as an alter ego (and another colleague who came around while I was writing this asked me why she wore my wristband, only to have it click on his mind a second later...), and he posed an interesting question. Alice was more passive, just watching the world around her, while the Butcher's Daughter was actively engaging with her surroundings and wielding a meat cleaver at them. The question was: what was she attacking? What did I want to attack? At first the question seemed obvious and I was about to jump at saying that I was attacking conventional male roles or something like that. But then it clicked and I understood that the matter was a lot harder to figure out. What was I attacking?
There was no problem with the obviousness of writing on the back of the postcards. He just thought I could do that in a less direct way. I had already felt I was loosing some of the best quality of the Butcher's Daughter's adventures by trying to tie them so obviously to the theories I had been exposed, namely to Professor Cussan's lectures. I had to let her run free a bit more and, in Mr. Dalwood's words, tap into the deeper strangeness in me. Go deeper into the psyche. I agreed. I felt the three postcards in the Interim Show lost in comparison to other paintings not because of their size and media, but because of how superficial they were. I do however fear some of the outcomes of that. For reasons I can't even bring myself to publish here.
But some of it had to do with the disturbing extent I could go into mutilating a figure of a little girl. I was thinking that she's a child wielding a knife and accidents will happen. Just like I had gotten hurt in the beginning of the MA by being careless when dealing with the masculist issue. I could already foresee her loosing a few limbs. But then again, if Trevor Brown has been around for so long [1][2] [3] [4] [5], then I suppose it's not that big of an issue.
Para meu segundo tutorial com o Sr. Dalwood, eu tinha duas coisas para mostrar. Tinha o resultado da performance no Q-Art Convenor na quarta-feira anterior, e os cartões postais da Filha do Açogueiro no Interim Show. Eram coisas diferentes, mas de alguma forma relacionadas. Ambas eram uma nova espécie de sátira da masculinidade. A performance com o botão, porque eu estava pegando algo feminino e meigo e fingindo torná-lo uma tarefa masculina, e completamente invalidando seu propósito durante esse processo. Os cartões postais, porque eu era um homem adulto, ilustrando um alter ego que era uma garotinha, que por sua vez tentava agir de uma forma não tão feminina e bem violenta.
Quanto ao botão, o Sr. Dalwood ficou em uma das mesmas questões lançadas por alguém da platéia na quarta: onde eu estava querendo chegar? Eu estava propositalmente tentando fazer a platéia me detestar para provar algo? Mais importante, ele perguntou, será que algum deles de fato considerou o assunto em questão? Eu achei que alguns deles tinham considerado sim. Algumas das mulheres apenas acharam aquilo bonitinho, mas alguns dos homens consideraram sim. Outra coisaa que ele mencionou foi que, para ele, parecia que eu não estava de fato fazendo uma performance, mas apenas tendo uma conversa honesta e direta com a platéia sobre os assuntos que me interessavam. De certa forma, era isso que eu adorava nessa performance: ela me permitia ter essa conversa honesta e direta. Eu estava lidando com o assunto de frente, em vez de me proteger atrás de camadas impenetráveis de abstração e teoria. No entanto, eu não achava que aquilo era apenas uma conversa. Eu estava executando a tarefa de costurar o botão na parede. Uma tarefa inútil, já que eu tivera que fazer alterações para passar da costura em tecido para a costura em parede, e portanto, se qualquer um tentasse seguir os passos mencionados no tutorial, esse botão jamais seria costurado direito. E como eu tinha postulado antes no meu trabalho de graduação sobre a minha definição de arte, ela era sempre inútil, do ponto de vista prático.
Dexter também não conseguiu sugerir algo que seria considerado uma tarefa especificamente feminina na Inglaterra. Ele mencionou trocar fraldas, e eu tive lampejos de como isso estaria ligado à questão de homens cuidando dos filhos nos países nórdicos e aos pais de Nova Iorque, assim como à impossibilidade de homens serem considerados para empregos como babás na Europa, já que seriam considerados pervertidos sexuais.
A respeito dos cartões postais, eu fiquei feliz em ver que ele chegou a algumas das conclusões que eu esperava. Ele entendeu a Filha do Açogueiro como um alter ego (e um colega que passou por aqui enquanto eu estava escrevendo isso me perguntou porque ela usava a mesma pulseira de couro que eu, apenas para perceber o porque no segundo seguinte...), e ele colocou uma questão interessante. Alice era mais passiva, apenas observava o mundo ao redor, enquanto que a Filha do Açogueiro estava ativamente participando do ambiente com um machado de carne em mãos. A questão era: o que ela estava atacando? O que eu queria atacar? A questão parecia óbvia no começo e eu estava prestes a me precipitar a responder que eu estava atacando os papéis masculinos convencionais ou algo do gênero. Mas repentinamente me dei conta de que o assunto era bem mais difícil de entender. O que eu de fato estava atacando?
Não houve problema com a obviedade de escrever no verso dos cartões postais. Ele achou apenas que eu poderia fazer isso de forma menos direta. Eu já tinha sentido que estava perdendo um pouco da melhor qualidade das aventuras da Filha do Açogueiro ao tentar ligpa-las tão obviamente às teorias às quais eu tinha sido exposto e principalmente às palestras do Professor Cussans. Eu tinha que deixá-la correr solta um pouco mais e, nas palavras do Sr. Dalwood, me aventurar na minha mais profunda estranheza. Ir mais a fundo na psichê. Eu concordei. Eu senti que os três cartões que eu tinha no Interim Show perdiam em comparação com as outras pinturas não por causa de seu tamanho e mídia, mas por causa do quão superficiais eles eram. No entanto, eu temo um pouco pelos resultados disso. Por motivos que eu nem consigo me permitir escrever por aqui.
Mas um pouco disso tem a ver com o quão perturbadoramente longe eu consigo ir ao mutilar a figura de uma garotinha. Eu estava pensando que ela é uma criança mexendo com uma faca e acidentes podem acontecer. Assim como eu me machucara no começo do mestrado por ser descuidado ao lidar com os assuntos masculistas. Já antevejo ela perdendo alguns membros. Mas por outro lado, se o Trevor Brown conseguiu durar tanto tempo [1][2] [3] [4] [5], acho que isso não será tamanho problema pra mim.
For my second tutorial with Mr. Dalwood, I had two things to show. There was the result of my perfomrnace at the Q-Art Convenor on the previous Wednesday, and the postcards of the Butcher's Daughter on the Interim Show. They were different things, but somehow related. They were both a new sort of mockery of manhood. The button performance, because I was taking something feminine and dainty and pretending to make it a manly task, and completely invalidating its purpose in the process. The postcards, because I was a grown man, ilustrating an alter ego who was a little girl, who in turn tried to act not-so-girly and quite violent.
For the button, Mr. Dalwood stuck to one of the same questions brought forth by someone in my audience on Wednesday: where was I going with this? Was I deliberately trying to get the audience to hate me to prove a point? More importantly, he asked, did any of them actually consider the point? I thought some of them did. Some of the women just found it cute, but some of the men did.
Another thing he mentioned was that it seemed to him that I wasn't actually making a performance, but just having a frank and direct talk with the audience about the issues I was concerned with. In a way, that was what I most liked about this performance: it enabled me to have that frank and direct talk. It was dealing with the matter head-on, and not shielded behind impenetrable layers of abstraction and theory. However, I didn't consider it to be merely a talk. I was doing that task of sewing the button to the wall. A pointless task, since I had to alter it to go from sewing on cloth to sewing on wall, and thus, if anyone should follow the steps provided on the tutorial, they'd never get that button sown on their coat correctly. And as I had stated in my earlier graduation work about the definition of art, it was always pointless from a practical point of view.
Dexter also failed to give me any suggestion of something that would be considered purely a woman's task in Britain. He mentioned changing diapers, and I did glimpse how it would tie with the matter of men caring for children in Nordic countries and the fathers in New York, as well as the impossibility for men to be considered for jobs as au pairs in Europe, since they'd be considered perverts.
With regards to the postcards, I was happy to see he came to some of the expected conclusions. He understood the Butcher's Daughter as an alter ego (and another colleague who came around while I was writing this asked me why she wore my wristband, only to have it click on his mind a second later...), and he posed an interesting question. Alice was more passive, just watching the world around her, while the Butcher's Daughter was actively engaging with her surroundings and wielding a meat cleaver at them. The question was: what was she attacking? What did I want to attack? At first the question seemed obvious and I was about to jump at saying that I was attacking conventional male roles or something like that. But then it clicked and I understood that the matter was a lot harder to figure out. What was I attacking?
There was no problem with the obviousness of writing on the back of the postcards. He just thought I could do that in a less direct way. I had already felt I was loosing some of the best quality of the Butcher's Daughter's adventures by trying to tie them so obviously to the theories I had been exposed, namely to Professor Cussan's lectures. I had to let her run free a bit more and, in Mr. Dalwood's words, tap into the deeper strangeness in me. Go deeper into the psyche. I agreed. I felt the three postcards in the Interim Show lost in comparison to other paintings not because of their size and media, but because of how superficial they were. I do however fear some of the outcomes of that. For reasons I can't even bring myself to publish here.
But some of it had to do with the disturbing extent I could go into mutilating a figure of a little girl. I was thinking that she's a child wielding a knife and accidents will happen. Just like I had gotten hurt in the beginning of the MA by being careless when dealing with the masculist issue. I could already foresee her loosing a few limbs. But then again, if Trevor Brown has been around for so long [1][2] [3] [4] [5], then I suppose it's not that big of an issue.
domingo, fevereiro 13, 2011
Emily e a cozinha
Cheguei na cozinha no sábado à noite e Emily estava terminando de arrumar suas coisas. Pela primeira vez desde que cheguei, a cozinha estava (quase) impecável. Fiquei surpreso! Ela comentou que tinha levado três horas para limpar a cozinha e que não faria isso de novo.
Era uma mudança estranha. Porque desde que eu chegara, Emily parecia ser a responsável por boa parte da bagunça. Ela e seus amigos que vinham cozinhar e saíam sem arrumar nem lavar nada e às vezes levando utensílios com eles. Já dei um dos meus copos como perdido (provavelmente quebrado, não sei) e duas das minha colheres passaram um mês desaparecidas até voltarem uns dois dias atrás. Hoje de manhã foram meus potes pra comer cereal no café da manhã.
Mas ainda que o sumiço de utensílios continue, resolvi deixá-la em paz porque pelo menos quanto à limpeza ela parece ter mudado. Falta mudar os outros britânicos do apartamento.
Mas me pergunto o que terá levado a essa mudança. Andei pensando que eles não se tocavam quanto à sujeira e bagunça da cozinha porque Londres no inverno não tinha insetos. E como moramos em um dos andares superiores, ratos também não apareciam. Porque só assim eles aprenderiam...
Mas não pensei na questão do cheiro. Emily, como toda garota, era especialmente sensível a odores estranhos na cozinha. e quando a nossa bagunça começou a feder, ela começou a obcecar com limpeza. Fez o fogão, o interior da geladeira, a lata de lixo, o interior dos armários... Só pediu que eu fizesse o microondas.
Estou até querendo incentivá-la a manter o comportamento. E quem sabe dar um jeito nesses amigos dela que chegam pra cozinhar na nossa cozinha. Sugestões?
Era uma mudança estranha. Porque desde que eu chegara, Emily parecia ser a responsável por boa parte da bagunça. Ela e seus amigos que vinham cozinhar e saíam sem arrumar nem lavar nada e às vezes levando utensílios com eles. Já dei um dos meus copos como perdido (provavelmente quebrado, não sei) e duas das minha colheres passaram um mês desaparecidas até voltarem uns dois dias atrás. Hoje de manhã foram meus potes pra comer cereal no café da manhã.
Mas ainda que o sumiço de utensílios continue, resolvi deixá-la em paz porque pelo menos quanto à limpeza ela parece ter mudado. Falta mudar os outros britânicos do apartamento.
Mas me pergunto o que terá levado a essa mudança. Andei pensando que eles não se tocavam quanto à sujeira e bagunça da cozinha porque Londres no inverno não tinha insetos. E como moramos em um dos andares superiores, ratos também não apareciam. Porque só assim eles aprenderiam...
Mas não pensei na questão do cheiro. Emily, como toda garota, era especialmente sensível a odores estranhos na cozinha. e quando a nossa bagunça começou a feder, ela começou a obcecar com limpeza. Fez o fogão, o interior da geladeira, a lata de lixo, o interior dos armários... Só pediu que eu fizesse o microondas.
Estou até querendo incentivá-la a manter o comportamento. E quem sabe dar um jeito nesses amigos dela que chegam pra cozinhar na nossa cozinha. Sugestões?
sexta-feira, fevereiro 11, 2011
Q-Art Convenor
Eu estava a caminho do Q-Art Convenor, um evento que acontecia uma vez por mês, organizado por uma estudante da faculdade de Goldsmiths, mas aberto a estudantes de todas as faculdades. No evento, seis artistas participantes deveriam trazer seus trabalhos e teriam 25 minutos para apresentar e receber críticas do público, também majoritariamente composto por estudantes de arte. Eu não queria desperdiçar a chance.
Encarei o evento como uma oportunidade de apresentar uma das performances que eu vinha desenvolvendo em Janeiro. O problema: eu precisava de uma parede na qual eu pudesse fazer quatro furos e a galeria não me permitira furar as paredes deles. Então eu estava levando minha própria "parede". A táboa de madeira machucava minha mão com o peso. Mas o resultado seria tão legal...
O evento começou com pinturas e esculturas. Mas perto das quatro da tarde, chegou a minha vez.
Fui bem franco com a platéia. Comentei que era a minha primeira performance e eu nem sabia se ia funcionar (mentira: eu já tinha testado na faculdade). Me apresentei, mencionando de onde eu vinha, e que eu já ouvira o sotaque de um conterrâneo na platéia. E então comecei dizendo que eu estava em Londres há cinco meses e que a minha estadia aqui me colocara em situações com as quais eu nunca lidei em casa. Como quando meu casaco perdeu um botão. E eu percebi que nunca tinha precisado pregar um botão. Resolvi incentivar a participação do público e escolhi um dos rapazes na platéia: "o senhor já pregou um botão antes?" Para minha surpresa, o pai dele era alfaiate. Foi uma surpresa produtiva que nos levou à questão da diferença entre "alfaiate" e "costureira", incluindo a diferença de valor dos dois termos.
Percebendo algumas das garotas na platéia murmurando que também jamais haviam pregado um botão, resolvi a questão com bom humor: "ótimo, então meu tutorial vai servir tanto para homens quanto para mulheres!"
O que se seguiu foi um passo a passo bem humorado sobre como pregar um botão. Mas eu mencionava que, por causa do enorme tamanho da platéia, eu tivera que fazer algumas alterações na apresentação, porque seria difícil para as pessoas do fundo verem um diminuto botão. Então tirei da minha mochila um enorme botão de madeira (dá pra ver eu produzindo ele no vídeo sobre a partida da Lexy - minuto 3:53). "Todo mundo consegue ver o botão?" Risos calorosos da platéia. E em vez de pregá-lo no meu casaco que de fato estava sem um botão, preguei-o na minha "parede portátil", usando uma furadeira em vez de agulha e fio de cobre em vez de linha.
O processo, claro, não era o mesmo. Tive que tirar alguns detalhes do verdadeiro processo de pregar um botão e colocar outros para lidar com a parede e o fio de cobre. E algumas coisas até ficaram ainda mais complicadas e demoradas. Então, para não entediar a platéia, conversei sobre como as coisas eram no meu país; sobre empregadas domésticas que faziam esses serviços mais amenos que os homens raramente faziam; e até sobre minha namorada que trabalhava em uma agência de publicidade, trabalho antes executado apenas por homens. Eu podia ter falado mais. Mas de fato, conseguir executar todo o processo e manter uma conversa inteligente ao mesmo tempo era uma tarefa ingrata.
Mas me surpreendi com o modo como eu estava sendo criativo e perspicaz com aquelas pessoas. Quando tentei furar a parede pela primeira vez, não percebi a furadeira ajustada para girar ao contrário. Pressionei-a contra a parede e nada aconteceu. Até que uma das garotas perguntou: "tem certeza de que não está indo ao contrário?" Parei tudo, reajustei a furadeira e comentei: "se supõe que um homem saiba fazer essas coisas..." A platéia gargalhou. Mais adiante, meu nervosismo dificultava a tarefa simples de passar o fio de cobre pelos buracos. "É difícil fazer isso com mãos trêmulas", comentei. E a platéia pareceu se afeiçoar mais ao meu jeito desastrado.
Quando tudo estava terminado, recebi os aplausos e dei inícios às perguntas. Mais uma vez, fiquei surpreso com o quanto a platéia pareceu simpatizar com minha performance. E imagino até que minha própria turma de mestrado não teria sido tão calorosa. Talvez porque eu já tivesse queimado o meu filme além do tolerável com a minha apresentação inicial, e com minhas vãs tentativas de falar seriamente sobre o assunto.
A performance me mostrou que lidar com o masculismo de maneira séria era uma vulnerabilidade. Era abrir-se para ataques sérios. Enquanto que o humor permitia fazer as pessoas pensarem no assunto, enquanto se estava fora do alcance da crítica mais pesada. O humor permitia uma ambiguidade, ninguém sabia se você estava falando sério ou não, mas a questão ficava no ar.
Abaixo, o vídeo que recebi do Wagner, o meu conterrâneo na platéia, que gravou a sessão de perguntas. O áudio está péssimo e as legendas consequentemente piores. Mas dá pra entender como a platéia reagiu.
sábado, fevereiro 05, 2011
Interim Crisis
Em um dos recentes encontros e palestras sobre os protestos, foi levantada a questão dos estudantes estrangeiros. O que era pra ser uma discussão informativa sobre como o assuntos dos cortes de financiamento influenciavam esta parcela da população rapidamente deu lugar a discussões estruturais muito mais importantes.
Pessoalmente, cheguei à conclusão de que os cortes não me influenciam diretamente. Primeiro porque os preços que os alunos estrangeiros pagam (direferentes e mais caros que os dos alunos europeus) não vão sofrer alteração. O que muda para o estrangeiro estudando em Londres é a questão do visto. Pelo esquema atual, cerca de 196,000 estudantes estrangeiros viajam até a metrópole todo ano para fazer parte dos cursos de faculdades privadas. Com a nova proposta, os critérios de seleção para vistos de estudante ficarão mais difícieis, limitando o número a estimados 87,00, menos da metade. Eles também planejam acabar com a possibilidade que o visto dá a estes estudantes de ficarem para trabalhar no país por dois anos após o término do curso.
Mas como mencionei acima, nada disso me afeta diretamente. O curso já foi pago e ando pela Europa com um passaporte italiano que me permite ficar por aqui pelo tempo que eu quiser.
No entanto, a discussão levantou outro aspecto relevante. O professor Cussans esteve nesse encontro e revelou detalhes estruturais escabrosos sobre a faculdade. Em primeiro lugar, o preço mais elevado para estrangeiros foi instaurado inicialmente sob a premissa de que os alunos locais pagavam impostos que eram revertidos em subsídios para a faculdade, diminuíndo o custo que eles geravam, e portanto o preço que tinham que pagar. Alunos estrangeiros supostamente pagariam mais para compensar os impostos que não pagam ao governo. A verdade é que acabamos virando uma lucrativa fonte de renda para as faculdades, pagando cerca de três vezes mais do que os alunos locais. A consequência capitalista disso é que as faculdades começaram a fazer de tudo para incluir mais e mais alunos estrangeiros em seu meio, visando aumentar esse lucro. O efeito é visível nos processos de seleção. Alunos locais têm mais dificuldade de serem aceitos nas faculdades e atravessam uma minuciosa avaliação de seus portfolios e currículos. Quanto aos alunos estrangeiros, a coisa acontece como aconteceu comigo: entrevistas por telefone a longa distância, ou com funcionários de faculdades que não têm nada a ver com a faculdade que te interessa (o senhor que me entrevistou e disse que meu trabalho era fantástico era da faculdade de moda e claramente procurava alunos desse curso...). Óbvio que eles procuram alunos que sejam capazes de escrever uma tese de mestrado, mas o fator principal ainda é a carteira: você pode pagar pelo curso? Sabendo disso, não supreende o fato de eu não ter conseguido aquela bolsa de estudo, mesmo tendo ouvido que meu trabalho era um dos melhores que o entrevistador tinha visto e tendo descoberto que o coordenador do curso também lidava com questões de gênero na arte.
Na publicidade, há um termo para um produto que custa pouco para fazer e é vendido com uma alta margem de lucro: é a chamada "vaca leiteira" da empresa. Nós, os alunos estrangeiros, somos as vacas leiteiras das faculdades inglesas.
Eu normalmente não me deixo abater por essas questões políticas. Mas confesso que nos meses recentes, tenho questionado cada vez mais a validade do que eu estou fazendo aqui. Será que importa para alguém? Ou será que apenas o dinheiro que eu trouxe importa?
Mudando um pouco de tema, me rendi à percepção de que os assuntos masculistas simplesmente não são assunto aqui na Europa (são um non-issue, um "não-assunto"). O sexismo aqui é combatido com veemência de ambos os lados. E nos poucos assuntos onde essa igualdade entre sexos ainda não chegou para os homens, a questão é abafada, ignorada. Meus colegas americanos (dos EUA e Colômbia) percebem isso e me confortam dizendo que meu projeto seria bem relevante no nosso continente. Mas não aqui. Por isso que tenho decidido dar um tempo no masculismo. Pelo menos não tentarei mais lidar com ele tão diretamente, tão insistentemente, enquanto estiver por aqui. Claro, continuarei a fazer alguns experimentos. Mas o foco principal vai mudar para outra coisa.
Juntando os dois assuntos, minha situação como estudante estrangeiro que não importa me confere uma certa isenção de responsabilidade que me parece bem confortável. Só assim posso ter certeza de que não importa se eu mudo completamente o projeto que eu inicialmente tinha vindo fazer aqui. Os tutores deram sua benção.
Nesta próxima semana, montaremos o polêmico interim show que já rendeu muita discussão e rancor entre os 75 alunos (maioria estrangeiros) do curso. Ando pensando no que colocar lá. Se arrisco a fazer uma das performances sobre questões masculinas que tenho experimentado durante o mês de Janeiro, e caio mais um vez em uma questão que não importa aqui, em um formato arriscado que nunca fiz antes; se arrisco colocar os fálicos e receber as mesmas críticas [1][2] que já venho recebendo sobre eles; ou se corro para ter prontos mais dos cartões postais do Tate Modern com as ilustrações da Butcher's Daughter viajando por Londres, que é para onde meu mestrado está se encaminhando. Sou tentado mais pela terceira opção, embora tenha vários medos envolvidos nisso. Medo de que singelos e diminutos cartões postais fiquem quase invisíveis em uma exposição com trabalhos de 75 alunos em um espaço onde mal cabem 30. Medo de que estas pinturinhas percam na comparação com os trabalhos de outros "pintores machões" (ainda preciso escrever sobre esse termo), com telas enormes, tinta a óleo em profusão, abstração proliferando. Medo de não importar. E talvez ainda mais medo de que ela, minha Butcher's Daughter, seja criticada e questionada como o resto das minhas coisas por aqui. Porque não sei o que vou fazer se eu perder a fé nela também.
Pessoalmente, cheguei à conclusão de que os cortes não me influenciam diretamente. Primeiro porque os preços que os alunos estrangeiros pagam (direferentes e mais caros que os dos alunos europeus) não vão sofrer alteração. O que muda para o estrangeiro estudando em Londres é a questão do visto. Pelo esquema atual, cerca de 196,000 estudantes estrangeiros viajam até a metrópole todo ano para fazer parte dos cursos de faculdades privadas. Com a nova proposta, os critérios de seleção para vistos de estudante ficarão mais difícieis, limitando o número a estimados 87,00, menos da metade. Eles também planejam acabar com a possibilidade que o visto dá a estes estudantes de ficarem para trabalhar no país por dois anos após o término do curso.
Mas como mencionei acima, nada disso me afeta diretamente. O curso já foi pago e ando pela Europa com um passaporte italiano que me permite ficar por aqui pelo tempo que eu quiser.
No entanto, a discussão levantou outro aspecto relevante. O professor Cussans esteve nesse encontro e revelou detalhes estruturais escabrosos sobre a faculdade. Em primeiro lugar, o preço mais elevado para estrangeiros foi instaurado inicialmente sob a premissa de que os alunos locais pagavam impostos que eram revertidos em subsídios para a faculdade, diminuíndo o custo que eles geravam, e portanto o preço que tinham que pagar. Alunos estrangeiros supostamente pagariam mais para compensar os impostos que não pagam ao governo. A verdade é que acabamos virando uma lucrativa fonte de renda para as faculdades, pagando cerca de três vezes mais do que os alunos locais. A consequência capitalista disso é que as faculdades começaram a fazer de tudo para incluir mais e mais alunos estrangeiros em seu meio, visando aumentar esse lucro. O efeito é visível nos processos de seleção. Alunos locais têm mais dificuldade de serem aceitos nas faculdades e atravessam uma minuciosa avaliação de seus portfolios e currículos. Quanto aos alunos estrangeiros, a coisa acontece como aconteceu comigo: entrevistas por telefone a longa distância, ou com funcionários de faculdades que não têm nada a ver com a faculdade que te interessa (o senhor que me entrevistou e disse que meu trabalho era fantástico era da faculdade de moda e claramente procurava alunos desse curso...). Óbvio que eles procuram alunos que sejam capazes de escrever uma tese de mestrado, mas o fator principal ainda é a carteira: você pode pagar pelo curso? Sabendo disso, não supreende o fato de eu não ter conseguido aquela bolsa de estudo, mesmo tendo ouvido que meu trabalho era um dos melhores que o entrevistador tinha visto e tendo descoberto que o coordenador do curso também lidava com questões de gênero na arte.
Na publicidade, há um termo para um produto que custa pouco para fazer e é vendido com uma alta margem de lucro: é a chamada "vaca leiteira" da empresa. Nós, os alunos estrangeiros, somos as vacas leiteiras das faculdades inglesas.
Eu normalmente não me deixo abater por essas questões políticas. Mas confesso que nos meses recentes, tenho questionado cada vez mais a validade do que eu estou fazendo aqui. Será que importa para alguém? Ou será que apenas o dinheiro que eu trouxe importa?
Mudando um pouco de tema, me rendi à percepção de que os assuntos masculistas simplesmente não são assunto aqui na Europa (são um non-issue, um "não-assunto"). O sexismo aqui é combatido com veemência de ambos os lados. E nos poucos assuntos onde essa igualdade entre sexos ainda não chegou para os homens, a questão é abafada, ignorada. Meus colegas americanos (dos EUA e Colômbia) percebem isso e me confortam dizendo que meu projeto seria bem relevante no nosso continente. Mas não aqui. Por isso que tenho decidido dar um tempo no masculismo. Pelo menos não tentarei mais lidar com ele tão diretamente, tão insistentemente, enquanto estiver por aqui. Claro, continuarei a fazer alguns experimentos. Mas o foco principal vai mudar para outra coisa.
Juntando os dois assuntos, minha situação como estudante estrangeiro que não importa me confere uma certa isenção de responsabilidade que me parece bem confortável. Só assim posso ter certeza de que não importa se eu mudo completamente o projeto que eu inicialmente tinha vindo fazer aqui. Os tutores deram sua benção.
Nesta próxima semana, montaremos o polêmico interim show que já rendeu muita discussão e rancor entre os 75 alunos (maioria estrangeiros) do curso. Ando pensando no que colocar lá. Se arrisco a fazer uma das performances sobre questões masculinas que tenho experimentado durante o mês de Janeiro, e caio mais um vez em uma questão que não importa aqui, em um formato arriscado que nunca fiz antes; se arrisco colocar os fálicos e receber as mesmas críticas [1][2] que já venho recebendo sobre eles; ou se corro para ter prontos mais dos cartões postais do Tate Modern com as ilustrações da Butcher's Daughter viajando por Londres, que é para onde meu mestrado está se encaminhando. Sou tentado mais pela terceira opção, embora tenha vários medos envolvidos nisso. Medo de que singelos e diminutos cartões postais fiquem quase invisíveis em uma exposição com trabalhos de 75 alunos em um espaço onde mal cabem 30. Medo de que estas pinturinhas percam na comparação com os trabalhos de outros "pintores machões" (ainda preciso escrever sobre esse termo), com telas enormes, tinta a óleo em profusão, abstração proliferando. Medo de não importar. E talvez ainda mais medo de que ela, minha Butcher's Daughter, seja criticada e questionada como o resto das minhas coisas por aqui. Porque não sei o que vou fazer se eu perder a fé nela também.
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