domingo, novembro 29, 2009

Do outro lado do Rio Verde

Acordei hoje de manhã.
A garganta doia muito. No chão do quarto, roupas molhadas. Na área de serviço, seis dos meus quadros e os painéis que usei na Casa das Caldeiras com os textos sobre o Masculismo. Tive receio de tirar os quadros das embalagens. Receio de descobrir que talvez eu tivesse danificado mais algum deles. Desde o fim da faculdade, já perdi os retratos de Bia e Rafaela por problemas de estocagem e transporte. Mas a checagem tinha que ser feita e qualquer perigo de estrago evitado.

Há apenas um jeito de resumir a exposição de ontem: a produção falhou. E falhou pesado. Na quarta anterior, tínhamos nos reunido para ver o local e decidir quem ia expor o que aonde. Consegui ficar com um dos pontos mais legais da balada, uma tenda logo na saída do local onde as bandas estariam tocando. O único problema: iluminação. Me pareceu algo simples de arranjar para uma produtora que estava montando toda uma balada, então não dei muita atenção. Mas então chegou o dia, e a fantástica iluminação que arranjaram pra mim se resumiu a um conjunto de luzes de árvore de natal... Dois, na verdade. Cada um durou cerca de meia hora até queimar e apagar de vez. No escuro, descolei um holofote que sobrara e, com uma folha de papel sulfite, improvisei um abatjour que iluminava por igual todo o ambiente com uma luz difusa. Era o suficiente, embora não o melhor. E eu já estava descontente com minha suposta produtora pro ter sido eu que me virei pra montar isso. A coisa ficou ainda pior quando, depois de mais duas horas de evento, até o holofote queimou. Depois disso, joguei a toalha. Afinal, minhas reclamações já estavam sendo retrucadas por aquele "é mesmo, né?" de quem nem está prestando atenção no que você diz. Se nem os produtores do evento estavam se importando, não tinha muito que eu pudesse fazer.
A iluminação não foi a única falha de produção. Falou-se em imprimir etiquetas ou algo do gênero para os trabalhos expostos, mas eu acabei tendo que fazer isso em casa também, na correria entre a volta da montagem, um banho e o retorno ao local. Fora que em duas semanas tentando, eles não conseguiram achar uma câmera para a Lexy, que fotografaria o evento. Resolvi o assunto com uma mensagem de Twitter e um telefonema. Aliás, valeu Iraê!
Depois que a banda do meu irmão tocou, inventei qualquer desculpa e desmontei a exposição. Apenas com a ajuda da Lexy e com a chuva molhando as coisas a caminho do carro. Quanto mais eu ficasse por lá, mais estragaria os quadros. E não valia a pena o risco para continuar expondo no escuro para um público que estava mais interessado em fumar e ouvir dub do que em artes visuais.

Devo admitir alguns pontos positivos. Como produtores de eventos musicais, eles sabem realmente fazer uma balada. Iluminação das bandas feita por VJs que projetavam imagens ao vivo no palco, deliciosas experiências gastronômicas acontecendo na cozinha, um número decente de pessoas comparecendo apesar do mau tempo, tudo isso em um local muito bem escolhido. Mas não tenho como aproveitar quase nada disso quando eles dão tanto zelo e importância para os músicos e tratam os artistas plásticos como meros decoradores de ambiente.

Ainda assim, houve momentos em que eu quase me esqueci desses "detalhes". As pessoas se reunindo em torno do quadro novo e comentando a respeito sem saber que eu era o autor me deram impressões muito favoráveis do impacto que ele tem ao vivo. Os retratos (Lilly, Tinkerbell, Thaís, Lee e Lexy) dividiam opiniões como sempre, e cada pessoa tinha seu favorito por esta ou aquela razão. Tive feedbacks gostosos dos outros artistas como a Beatriz Chachamovitz, que plantou seus singelos "pólipos" entre a vegetação do lugar; e do Geraldo Yang, que trouxe aquarelas muito bem humoradas.
Geraldo fez-me perceber um detalhe inconsciente no quadro novo. Tendo vivido por um ano no sul dos Estados Unidos, ele percebeu que a casa na pintura tem arquitetura daquela região, devido às referências que procurei. Eu queria mesmo uma dessas casas, porque era a imagem na minha cabeça. Mas ele me fez ver que eu tinha escolhido uma arquitetura de uma sociedade extremamente machista, e colocado ao lado dela uma mulher muito maior do que aquilo. Na minha cabeça, a casa tinha conotações femininas, mas o fato é que ela é um símbolo masculino naquele contexto.
Os gostos doces da noite terminaram com visitas do Tex, amigo da Lexy que chegou até a perguntar preços dos quadros; e o Gonzo, vocalista e líder da banda do meu irmão e que sempre tem um carinho inigualável com outros artistas.

Foi uma noite de sabores e dissabores. Mas muita coisa foi aprendida sobre que exposições aceitar no futuro.

quarta-feira, novembro 25, 2009

Anúncio rápido!

Você sabe que eu sou artista plástico e que meu irmão é músico, mas nunca viu nosso trabalho? No sábado, dia 28, você vai ter a sua chance. Ele vai estar tocando com seu projeto Mais Massa (com músicos de Fortaleza) e eu vou estar expondo um pouco do velho e as coisas mais recentes do Masculismo. Ando até pensando em fazer disso uma verdadeira vernissage e passar verniz no último quadro ao vivo, no meio do evento.

Passa lá!

Vai ser no Centro Cultural Rio Verde:
Rua Belmiro Braga, 119 - Vila Madalena
Tel.: 11 3459-5321


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sexta-feira, novembro 20, 2009

Mudanças

Sejamos francos: este blog estava um porre.

Dia desses, um dolorosamente sincero amigo meu comentou sobre este fato. Começamos a conversar sobre porque isso tinha acontecido. Afinal, esta página já foi muito apreciada pela qualidade da literatura. O que aconteceu?
Quando comecei a escrever, minha proposta era de escrever como se o fizesse para mim mesmo. O que é diferente de fazê-lo de fato, pois se estivesse verdadeiramente escrevendo para mim mesmo, não publicaria meus textos na internet (uma lição que muita gente desconhece e por isso reclama da suposta "falta de privacidade online"). Mas eu queria escrever com a poesia e a autenticidade de quem escreve para si mesmo. O gosto da literatura de diário adolescente.
Acredito que, por pelo menos um ou dois anos, eu fiz exatamente isso. Mas então entrei no processo que todo escritor de blog entra, de descobrir as consequências de ter uma opinião tornada pública. Esse tipo de literatura leva muito de opinião pessoal e pieguices passionais. E essas coisas às vezes machucam quem ficou de fora dos elogios. Ouvi muita reclamação, troquei muitas farpas virtuais... Tive até ex-namorada que veio escarafunchar críticas minhas anos depois que eu as havia escrito. Eu poderia lidar com tudo isso de duas formas: bater de frente e esperar calejar, descartando da vida (e do blog) as pessoas que não conseguissem aguentar opiniões pessoais; ou pisar em ovos, ser diplomático e criterioso com o que eu escrevia por aqui. Não tive força pra escolher a primeira estratégia, então optei pela segunda.
Nos anos que se seguiram, o blog passou a ser uma tediosa procissão de resenhas culturais. Filmes, exposições, ensaios sobre teoria artística e outras chatices acadêmicas... Pessoalmente, eu estava satisfeito. Ainda escrevia "para mim", sobre coisas que muito me interessavam. Mas condenei os leitores a desbravarem uma terra estéril e asséptica, cheia de termos e assuntos que não lhes interessavam. O blog passou a ter um caráter informativo e didático, apoético. A pouca poesia que aqui havia se resumia nas imagens de trabalhos e pequenas coisas que eu colocava. E no entanto, nem mesmo essa função de informar sobre o mundo da arte ele estava cumprindo direito. Fui a muitas exposições e eventos que não tive paciência para relatar aqui. E mesmo que o fizesse, ninguém estava interessado em ler. Minha turma de artes plásticas, que seria a mais interessada, é meio alheia ao mundo dos blogs. E quem conhece e participa desse mundo não é tão interessado assim por arte profissional.

Quando percebi, estava sozinho.

Tinha perdido os poucos leitores que vinham até aqui pela poesia e não soube ganhar novos que aproveitassem a informação. Recentemente, além da solidão, comecei a perceber o lento definhar do pouco que restara neste blog. A preguiça e falta de tempo para relatar as coisas, o desinteresse. Meses inteiros quase sem conteúdo. Praticamente a única coisa que ainda mantem esse blog vivo é sua idade, porque morro de pena de dar um fim a algo que já vem acontecendo há tantos anos e secretamente tenho esse orgulho de ser o último blog vivo da época em que todos nós escrevíamos. Algo como minha avó e o TBC.

Mas estou em uma época fértil de mudanças em que estou reorganizando muitas coisas, prioridades e detalhes da vida. E por que não incluir o blog nesse processo? De fato, eu tinha pensado (como sempre penso e raramente faço) em inaugurar um novo layout no meu aniversário. Aproveitaria assim para inaugurar uma nova fase nos textos. Voltar a ter poesia nas coisas. E que ela atraisse os leitores, antigos e novos.

Pois bem, ei-lo, o novo layout. Passa a fazer parte da identidade visual que estou usando profissionalmente, com meu leão e tudo. Por enquanto, ainda está em fases iniciais. Ainda não descobri como colocar vários dos efeitos e serviços que eu queria, mas isso vai sendo feito aos poucos. Opiniões de todos (tenho dúvidas sobre as cores...) serão muito bem vindas. O que importa por enquanto é sinalizar a mudança. E coroar assim o despertar de consciência que começou há exatamente um ano.

[Ah, sim... e eu tirei a musiquinha pentelha]

terça-feira, novembro 17, 2009

Maria Della Costa

Terminei na semana passada a parte de pintura do primeiro quadro que estou fazendo sobre as atrizes do TBC. Acho que finalmente consigo fazer um quadro em um mês. Foi uma coisaa complicada, porque fui experimentar uma técnica de transferência de imagens impressas para a tela que o Rauschemberg usava. Muito frustrante quando essas coisas não dão certo. Mas eu sou teimoso e acabei gastando uma semana nisso até que desse certo.

Apesar de ter motivos pessoais para começar a série com uma cena do Entre Quatro Paredes (encenado por minha avó, meu avô e Cacilda Becker), por ter ensaiado a peça com a Lee há muitos anos, cedi ao apelo visual da belíssima Maria Della Costa. Na peça Ralé, de Maxim Gorki, dirigida por Flamínio Bollini Cerri, ela encarna a bela e perigosa esposa de um dono de cortiço, que trama a morte do marido e agride a própria irmã ao perceber que seu amante passa a interessar-se por esta. Trajando um longo vestido, ela aparece em uma das fotos em uma pose que lembra as musas do cine noir.

Há algumas semanas, soube por minha avó que Maria Della Costa estaria dando autógrafos no lançamento de sua biografia. Aproveitei a chance para conhecê-la de perto. Simpaticíssima, não se negou a tirar uma foto comigo depois de saber de quem eu era neto.

Eu e Maria Della Costa na Livraria Cultura, durante o lançamento de sua biografia.

quarta-feira, novembro 11, 2009

Red Bull House of Art

Como diria meu professor de física do colégio: "tive três orgasmos com essa notícia..."

A Trip publicou em seu site uma notícia sobre este projeto da Red Bull, a cargo dos curadores Lucas Bambozzi e Maria Monteiro, que colocará a partir de hoje dez artistas de diferentes nacionalidades para habitar um hotel do centro de São Paulo por 30 dias. Durante este tempo, os artistas devem produzir trabalhos relacionados ao espaço, ao centro urbano, à cidade. O rol de "vítimas" desta primeira edição conta com gente do Brasil, África do Sul, Japão, Alemanha, Argentina, Portugal e dos Estados Unido. São pessoas dos mais variados tipo, idades e mídias, sem nada um comum, o que estimula a riqueza do diálogo e a diversidade, bem ao estilo Red Bull. Entre os brasileiros, está em destaque a queridíssima Regina Parra, do desmantelado grupo 2000e8 [1] [2].
Interessante, o site da Trip aponta, é que os artistas vão para o espaço sem um projeto definido, tendo que criar do zero a partir do espaço. Como incentivo, os organizadores ainda levarão seus acólitos a diversas exposições relevantes em São Paulo, como a da Pippilotti Rist no MIS e da própria Regina na Galeria Leme, além de galerias fora do circuito tradicional, como a Choque Cultural e a Casa da Xiclet (!).

Fiquei imaginando o que eu colocaria por lá. Provavelmente etntaria fazer uma idéia antiga, do tempo da faculdade, quando eu ainda estava pintando a Virgem e o Menino e obcecado com temas recorrentes da pintura antiga. Era uma idéia de fazer a Venus, como uma pintura gigantesca na lateral de um prédio do centro. As pinturas da Venus antiga expressavam o ideal de belza feminina da época, e a minha seria uma modelo de revista, daquelas que anunciam "15 maneiras simples de perder uns quilinhos para o verão" ou qualquer outra futilidade estética. Só que apesar da linguagem publicitária, ela não estaria vendendo nada. Apenas estaria lá, do tamanho de uma deusa inatingível e maior do que qualquer homem.
Claro que a atual lei contra outdoors seria um empecilho... Mas será que há excessões para obras de arte? Algo a pesquisar...

quinta-feira, novembro 05, 2009

Homens que dizem não

A propóstio, ao ler meu último post, Nana me passou um link para uma matéria que fala justamente do assunto de sexo como mecanismo de controle masculino. Achei relevante.

quarta-feira, novembro 04, 2009

Atualizando

Quase um mês sem atualizar isso aqui... E eu que queria transformá-lo em um blog sério, estou indo por um péssimo caminho.

Sem títuloNo começo de Outubro, terminei o primeiro quadro da nova série. Apelidado de "A Casa na Colina", mas oficialmente sem título, foi a tentativa de transformar uma tela que eu não conseguia continuar mas não queria jogar fora em algo útil. O resultado me satisfez, embora eu já tenha me dado conta de como poderia ter feito uma pintura ainda melhor. No fim das contas, ficou um quadro gostoso. E eu ainda fiz um vídeo da evolução dele.
O resto do mês de Outubro foi algo de um desperdício benéfico. Pois embora eu não tenha cumprido a promessa de uma obra por mês, tive muitos trabalhos como freelancer e ganhei uma considerável quantidade de dinheiro. Ah, se todos os meses fossem tão produtivos nesse aspecto...
De fato, eu tinha planos para a próxima obra em Outubro, um objeto em vez de uma pintura. Mas não tive coragem. Sabe, esta primeira pintura que fiz lidava com um dos três aspectos que hoje eu identifico da questão masculista: o sentimento de inferioridade do homem atual em relação à mulher atual. Os outros dois aspectos são a ausência da figura do pai/mestre e o uso do sexo como mecanismo de controle do homem. Meu objeto de Outubro tinha a ver com este último. Mas então lembrei de outros trabalhos que fiz que lidavam com sexualidade tão abertamente, e de como no fim acabavam sendo obras vazias, desnecessariamente chocantes e muito frustrantes. Trastes que hoje perambulam o ateliê embalados e cobertos para sempre porque meu pudor não me permite mostrar. Não acho que seja o caso desta obra, mas estou sendo prudente. Ainda estou me acostumando com a idéia. Se eu achar que passou tempo suficiente e ainda não me envergonhei dela, voltarei a entreter a idéia de produzir a peça.
Agora em Novembro, a brincadeira vai tomar outros rumos. A idéia seria produzir algo baseado no terceiro aspecto, a ausência do mestre/pai. Mas em conversas produtivas com o Marco Guerra, um professor de história da arte amigo de minha avó, surgiu outra idéia interessante que talvez renda as minhas primeiras exposições realmente relevantes. Ele interessou-se pelos meus retratos da época da faculdade e sugeriu que eu fizesse retratos dos meus avos, importantes figuras do teatro nacional e principalmente do surgimento do TBC (Teatro Brasileiro de Comédia). A sugestão não poderia vir em melhor hora. Lexy está pesquisando o TBC para seu trabalho de graduação e estamos descobrindo farto material a respeito daquela época.
Assim que resolvi tomar a idéia do professor Guerra e jogar do meu jeito. Peguei os últimos dias de Outubro que me restavam para fazer pesquisa com minha avó, procurando peças relevantes, atrizes fortes e diretores que fizeram história naquela época. E ontem comecei a produção das primeiras duas pinturas dessa série. Todas explorando atrizes do TBC em peças que lhes proporcionaram personagens femininas fortes como as mulheres pós-Feminismo. As imagens de referência são do fotógrafo Fredi Kleeman, que acompanhou o surgimento do TBC, fotografando os primeiros ensaios e as apresentações históricas.
O professor diz que, se eu conseguir produzir essas obras até o começo do ano que vem, poderia me arranjar uma exposição em uma galeria na Augusta. A idéia muito me interessa. Mas ainda que isso não aconteça, seria a forma perfeita de abordar o pessoal do teatro do meu avô e organizar uma exposição por lá. Tenho certeza que isso chamaria alguma atenção. Pelo assunto, pela relação dos avós e do neto, e quem sabe até pela qualidade das obras.