Minha exposição abre amanhã.
Há uma sensação boa no ar em relação a tudo isso. Como se pela primeira vez eu estivesse fazendo as coisas direito, de modo profissional. Com press-release e imagens de divulgação, convites a pessoas influentes e lobby em outras exposições para que as pessoas apareçam. É um lado que nenhum artista gosta de admitir que existe, porque todos gostam de fazer de conta que ser artista plástico é só fazer arte. Mas tem um pouco de política e marketing na coisa toda. Acabo de receber uma ligação de um contato na Veja. E recebi outro e-mail que divulga assuntos relacionados a teatro e cinema citando a exposição. Uma nota também foi colocada no site do espaço onde vou expôr.
O dia hoje foi passado organizando a montagem. Detalhes, detalhes. No meio disso tudo, comecei a perceber coisas gostosas de comentar que acabei esquecendo de escrever por aqui. Outros detalhes. Esqueci de contar como o fundo do quadro da Raposa e as Uvas, onde aparecem meu avô e minha avó, foi feito com vinho de verdade, em uma daquelas cenas bizarras que só artista protagoniza. Esqueci de mencionar que, no verso do Entre Quatro Paredes (com a Cacilda e meus avôs), lê-se a palavra "Estocolmo", porque a tela foi reaproveitada de outra que não chegou a ir pra frente, e que eu comecei na época em que a filha do Sílvio Santos tinha voltado do sequestro proclamando seu amor pelos sequestradores (e que me lembrou um certo artista que eu vi na Casa da Xiclet). E também esqueci de comentar que em uma ou outra tela, pode-se ver bem fraco o meu emblema do leão, que tinha sido gravado em stencil no verso de algumas das telas como uma espécie de assinatura, até que percebi que a tinta atravessava a tela e interferia no quadro da Mary Stuart, com a Cleyde Yáconis. Óbiamente parei com essa brincadeira. Finalmente, não mencionei por aqui que o fundo do Chá e Simpatia foi decidido três dias antes da abertura da exposição, e executado com sobras de material de transferência do Entre Quatro Paredes.
A rigor, nada disso importa a quem vai ver a exposição. Mas eu sou louco por pequenos detalhes. Eles fazem parte da vivência desse ano que se passou na compania destes atores e personagens. E tem muitos deles escondidos nos cantos das telas de amanhã.
Bits and pieces of my life that everyone ignores when I speak, but someone reads when I write.
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sexta-feira, setembro 03, 2010
segunda-feira, agosto 23, 2010
Exposição "Homenagem"

" A série de telas aborda a geração teatral que iniciou o teatro profissional em São Paulo nos anos 50, e conta não só com referências a meus avos Sérgio Cardoso e Nydia Lícia, mas também a Cacilda Becker, Cleyde Yáconis e Maria Della Costa, entre outros. Também fazem parte da exposição programas e textos originais da época em que as peças foram encenadas."
Comecei hoje a divulgar a exposição das telas que iniciei há quase um ano. Sinto que poderá ser a minha primeira exposição com qualidade profissional, tanto nos trabalhos, quanto na organização do evento. Resta saber se conseguirei atrair a atenção desejada e como poderei aproveitar o que vier desta exposição, sendo que pouco menos de uma semana depois dela eu estarei embarcando para Londres.
Meu Deus, como o tempo passa rápido quando estamos no caminho certo!
Enfim, deixo aqui os detalhes:
Exposição HOMENAGEM
De 4 a 18 de Setembro (segunda a sexta, das 10h às 18h30 e sábados das 10h às 14h)
Abertura dia 4 de Setembro, das 11h às 16h
Espaço Augôsto Augusta
Rua Augusta 2161
Fones: (11) 3082-1830
www.augosto.com.br
quinta-feira, abril 15, 2010
Chá e Simpatia
Minha avó apareceu recentemente em um programa do Ronnie Von para falar do TBC e dos livros que ela escreveu sobre os atores e o teatro em si. Achei uma graça o programa, e a homenagem do apresentador a ela e ao trabalho da Imprensa Oficial, que publica esses e muitos outros livros biográficos sobre o teatro brasileiro.
Em um ponto da entrevista, ele perguntou a ela qual fora a peça mais especial que ela tinha feito. Ela pensou por alguns segundos e respondeu: "Chá e Simpatia". Lembro de ter ouvido falar da importância da peça na época, que questionava o preconceito contra a homossexualidade masculina em uma sociedade muito conservadora. E repentinamente me deu vontade de fazer mais um quadro para a série do TBC sobre essa peça. Seria uma homenagem direta à minha avó, que até então só apareceu no quadro do Entre Quatro Paredes e mesmo nele, apenas como uma de três atores homenageados no quadro (os outros sendo meu avô Sérgio e Cacilda Becker). O interesse pelo quadro aumentou quando ela comentou no programa que meu avô dirigiu a peça. Descobri com alguma pesquisa que a peça fora montada três vezes e ele de fato tinha dirigido duas delas, a terceira sendo dirigida por minha avó, baseada na direção dele.
Mas foi quando comecei a ler o roteiro da peça (olha que chique: o original, que minha avó usara para decorar as falas de sua personagem), que percebi as outras semelhanças deliciosas entre realidade e ficção.
Na realidade, eu ocupo um quarto nos fundos da casa de minha avó, subindo um lance de escadas, onde faço meu ateliê. Eu: um jovem aspirante a pintor envolto em questionamentos sobre masculinidade, frutos dos anos de abuso na escola por parte de valentões que viam na minha escolha pelas artes um claro indício de homossexualidade. Ela: uma histórica atriz de teatro que transita entre as reminiscências de sua época vanguardista e os modos e pose europeus que ela exerce no dia a dia, frutos de sua infância na Itália.
Na ficção, Tom ocupa um quarto no segundo andar da casa de Laura, subindo um lance de escadas. Ele: um jovem aspirante a músico envolto em questionamentos sobre sexualidade, frutos dos recentes abusos no colégio por parte de valentões que vêem em sua escolha por atividades mais amenas e sensíveis um claro indício de homossexualidade. Ela: uma ex-atriz de teatro que transita entre as reminiscências de sua época nos palcos e os modos e pose de dona de casa americana que ela exerce no dia a dia, frutos de seu casamento com o professor do colégio interno.
Em um ponto da entrevista, ele perguntou a ela qual fora a peça mais especial que ela tinha feito. Ela pensou por alguns segundos e respondeu: "Chá e Simpatia". Lembro de ter ouvido falar da importância da peça na época, que questionava o preconceito contra a homossexualidade masculina em uma sociedade muito conservadora. E repentinamente me deu vontade de fazer mais um quadro para a série do TBC sobre essa peça. Seria uma homenagem direta à minha avó, que até então só apareceu no quadro do Entre Quatro Paredes e mesmo nele, apenas como uma de três atores homenageados no quadro (os outros sendo meu avô Sérgio e Cacilda Becker). O interesse pelo quadro aumentou quando ela comentou no programa que meu avô dirigiu a peça. Descobri com alguma pesquisa que a peça fora montada três vezes e ele de fato tinha dirigido duas delas, a terceira sendo dirigida por minha avó, baseada na direção dele.
Mas foi quando comecei a ler o roteiro da peça (olha que chique: o original, que minha avó usara para decorar as falas de sua personagem), que percebi as outras semelhanças deliciosas entre realidade e ficção.
Na realidade, eu ocupo um quarto nos fundos da casa de minha avó, subindo um lance de escadas, onde faço meu ateliê. Eu: um jovem aspirante a pintor envolto em questionamentos sobre masculinidade, frutos dos anos de abuso na escola por parte de valentões que viam na minha escolha pelas artes um claro indício de homossexualidade. Ela: uma histórica atriz de teatro que transita entre as reminiscências de sua época vanguardista e os modos e pose europeus que ela exerce no dia a dia, frutos de sua infância na Itália.
Na ficção, Tom ocupa um quarto no segundo andar da casa de Laura, subindo um lance de escadas. Ele: um jovem aspirante a músico envolto em questionamentos sobre sexualidade, frutos dos recentes abusos no colégio por parte de valentões que vêem em sua escolha por atividades mais amenas e sensíveis um claro indício de homossexualidade. Ela: uma ex-atriz de teatro que transita entre as reminiscências de sua época nos palcos e os modos e pose de dona de casa americana que ela exerce no dia a dia, frutos de seu casamento com o professor do colégio interno.
domingo, fevereiro 28, 2010
O vestido de Cacilda
São 3 da manhã e, pela primeira vez em muito tempo, estou tendo dificuldades para dormir. Por isso estou fazendo o que a minha geração faz: desabafando no blog. A razão da minha insônia de hoje, claro, foi um comentário a respeito de uma pintura. Hesito em escrever isso porque eu sei o quanto minha mãe enche-se de remorso quando eu me incomodo com os comentários dela, mas sim, foi um comentário dela sobre uma foto da pintura de Cacilda. Não tenha remorso, mã... A verdade é que, de tempos em tempos, eu preciso de gente disposta a me dizer as dolorosas verdades, porque tem coisas e sentimentos a respeito do meu trabalho que eu escondo de mim mesmo e preciso de uns chacoalhões para desenterrar e ser obrigado a lidar com eles.
Eu tinha falado em fugir da foto e cheguei a dar um passo tímido em direção a algo mais gestual na hora de fazer o vestido de Cacilda na pintura. Mas continua sendo um vestido, e continua sendo uma interpretação da foto. Passos tímidos não bastam. Eu mesmo estava insatisfeito e frustrado com aquilo, querendo mais. Porém estava me convencendo (me sabotando) a deixar passar e seguir em frente, a me contentar com um trabalho de menor qualidade. Até que minha mãe questionou angustiada antes de sair para o teatro: "algum dia você vai ter que colocar mais do que você está sentindo na pintura e menos da foto." Aí que eu não pude negar que, de fato, eu estava pendurado na ilustração da foto de novo. De outra maneira, mas estava. O quadro tinha pouco ou quase nada de gestual e muita pintura ruim...
Agora estou aqui, revirando na cama e remoendo a ansiedade de chegar no ateliê e violentar aquela pintura com o máximo de tinta branca que eu tiver no estoque. E não é só isso: questiono a relevância da Entre Quatro Paredes que também não me satisfez. Aliás, por um detalhe que também veio de um comentário de minha mãe e que eu acho que ela tem total e completa razão (como de costume).
Vamos, ansiedade, deixa-me dormir! Afinal, não vou poder fazer nada a respeito disso agora. Morro de vontade de ter o ateliê em casa. Ou em algum lugar onde eu possa ir quando me baterem estas angústias construtivas e às três da manhã perpetrar atos selvagens de violência pigmentária...
Eu tinha falado em fugir da foto e cheguei a dar um passo tímido em direção a algo mais gestual na hora de fazer o vestido de Cacilda na pintura. Mas continua sendo um vestido, e continua sendo uma interpretação da foto. Passos tímidos não bastam. Eu mesmo estava insatisfeito e frustrado com aquilo, querendo mais. Porém estava me convencendo (me sabotando) a deixar passar e seguir em frente, a me contentar com um trabalho de menor qualidade. Até que minha mãe questionou angustiada antes de sair para o teatro: "algum dia você vai ter que colocar mais do que você está sentindo na pintura e menos da foto." Aí que eu não pude negar que, de fato, eu estava pendurado na ilustração da foto de novo. De outra maneira, mas estava. O quadro tinha pouco ou quase nada de gestual e muita pintura ruim...
Agora estou aqui, revirando na cama e remoendo a ansiedade de chegar no ateliê e violentar aquela pintura com o máximo de tinta branca que eu tiver no estoque. E não é só isso: questiono a relevância da Entre Quatro Paredes que também não me satisfez. Aliás, por um detalhe que também veio de um comentário de minha mãe e que eu acho que ela tem total e completa razão (como de costume).
Vamos, ansiedade, deixa-me dormir! Afinal, não vou poder fazer nada a respeito disso agora. Morro de vontade de ter o ateliê em casa. Ou em algum lugar onde eu possa ir quando me baterem estas angústias construtivas e às três da manhã perpetrar atos selvagens de violência pigmentária...
quarta-feira, fevereiro 24, 2010
Cacilda e Cleyde
Os últimos quadros da série do TBC (por enquanto) já estão em produção.
O da Cacilda fazendo a Dama das Camélias entrou em sua looooonga fase final. O vestido branco dela foi feito com grossas camadas de tinta que têm um certo movimento mais tosco de pinceladas. Não dá pra fazer uma coisa fotográficamente perfeita e nem era essa a minha intenção. A idéia era experimentar um pouco mais a pintura gestual, coisa que eu raramente faço porque nunca estou satisfeito com os resultados. Faz parte daquela coisa de abandonar um pouco a foto e "colocar um pouco mais de mim na pintura". Acho uma coisa curiosa e nova, agora que cansei de copiar fotos. Ficou interessante, mas eu imaginava ainda mais tinta, ainda mais peso. Se eu fizer isso, vai demorar meses pra secar. E eu não tenho todo esse tempo.
Esse vestido da Cacilda está virando uma coisa com vida própria. Escolhe sua própria forma e já anda se espalhando pelo ateliê. Borrões de tinta branca são encontrados nos lugares mais improváveis, e às vezes descubro minhas mãos manchadas sem nem mesmo ter chegado perto do quadro. Pelo menos o vestido continua intacto, sem dedadas acidentais (então de onde vem tanta tinta?)...
Longe (mas nem tanto...) do cavalete, na mesa do ateliê, o novo quadro da Cleyde Yaconis fazendo a rainha Elizabeth em Mary Stuart foi começado hoje. Vai ficar uma coisa bem estilo arte "hi hi", pois a imagem será uma enorme cabeça de Elizabeth pensando em uma guilhotina. Tá, eu sei, ela não morreu guilhotinada e nem guilhotinou a Mary Stuart, que morreu decapitada à moda antiga, com um machado. Mas tem um humor com um quê de memento mori no fato de uma cabeça real estar pensando em guilhotinas. Há outro detalhes sobre a tal guilhotina, mas se eu postar por aqui, ele perde a graça...
De resto, resolvi encarar o ateliê com certo ar empresarial e diversificar a produção. Estou com outras coisas menores em andamento e recentemente tenho desenhado um pouco e feito experiências em papel. Não suponho que vá dar em nada digno de exposição, mas ajuda muito a pensar. Além disso, serve de meio para executar aquelas idéias menores, que dariam obras legais mas que eu não tenho saco ou tempo pra executar em telas grandes, caras e logisticamente complicadas, porque eu perderia o interesse em questão de dias. Sem falar que são coisas fora da minha técnica habitual e esse tipo de coisa confunde quem está tentando me levar a sério e sacar o "meu estilo". Comentários, experimentos técnicos, piadinhas sem graça, questões políticas.
Outro projeto menor são quadrinhos pequenos que eu estou desenvolvendo pra dar de presente. Foi uma idéia que me ocorreu outro dia, mas tenho tanto pra falar sobre ela, que é melhor deixar para outro post, outro dia, assim que o primeiro deles sair.
O da Cacilda fazendo a Dama das Camélias entrou em sua looooonga fase final. O vestido branco dela foi feito com grossas camadas de tinta que têm um certo movimento mais tosco de pinceladas. Não dá pra fazer uma coisa fotográficamente perfeita e nem era essa a minha intenção. A idéia era experimentar um pouco mais a pintura gestual, coisa que eu raramente faço porque nunca estou satisfeito com os resultados. Faz parte daquela coisa de abandonar um pouco a foto e "colocar um pouco mais de mim na pintura". Acho uma coisa curiosa e nova, agora que cansei de copiar fotos. Ficou interessante, mas eu imaginava ainda mais tinta, ainda mais peso. Se eu fizer isso, vai demorar meses pra secar. E eu não tenho todo esse tempo.
Esse vestido da Cacilda está virando uma coisa com vida própria. Escolhe sua própria forma e já anda se espalhando pelo ateliê. Borrões de tinta branca são encontrados nos lugares mais improváveis, e às vezes descubro minhas mãos manchadas sem nem mesmo ter chegado perto do quadro. Pelo menos o vestido continua intacto, sem dedadas acidentais (então de onde vem tanta tinta?)...
Longe (mas nem tanto...) do cavalete, na mesa do ateliê, o novo quadro da Cleyde Yaconis fazendo a rainha Elizabeth em Mary Stuart foi começado hoje. Vai ficar uma coisa bem estilo arte "hi hi", pois a imagem será uma enorme cabeça de Elizabeth pensando em uma guilhotina. Tá, eu sei, ela não morreu guilhotinada e nem guilhotinou a Mary Stuart, que morreu decapitada à moda antiga, com um machado. Mas tem um humor com um quê de memento mori no fato de uma cabeça real estar pensando em guilhotinas. Há outro detalhes sobre a tal guilhotina, mas se eu postar por aqui, ele perde a graça...
De resto, resolvi encarar o ateliê com certo ar empresarial e diversificar a produção. Estou com outras coisas menores em andamento e recentemente tenho desenhado um pouco e feito experiências em papel. Não suponho que vá dar em nada digno de exposição, mas ajuda muito a pensar. Além disso, serve de meio para executar aquelas idéias menores, que dariam obras legais mas que eu não tenho saco ou tempo pra executar em telas grandes, caras e logisticamente complicadas, porque eu perderia o interesse em questão de dias. Sem falar que são coisas fora da minha técnica habitual e esse tipo de coisa confunde quem está tentando me levar a sério e sacar o "meu estilo". Comentários, experimentos técnicos, piadinhas sem graça, questões políticas.
Outro projeto menor são quadrinhos pequenos que eu estou desenvolvendo pra dar de presente. Foi uma idéia que me ocorreu outro dia, mas tenho tanto pra falar sobre ela, que é melhor deixar para outro post, outro dia, assim que o primeiro deles sair.
terça-feira, fevereiro 23, 2010
Batendo a cabeça na parede
Parece-me um pouco mais difícil, nesta nova vida, lidar com as frustrações. Antes, enquanto eu estava vivendo naquela espécie de letargia da minha carreira na publicidade, eu conseguia de fato ignorar os insucessos. Nunca receber a ligação daquela agência famosa para a qual eu mandei o currículo, não ganhar aquela concorrência que me fez trabalhar no sábado sem ganhar nada por isso, levar dois anos pra ser promovido... Nada disso tinha muita influência no meu ânimo já apático.
Mas aí veio o acordar e eu fiz tudo isso e mudei de vida. E agora, acordado, já não consigo mais ignorar as falhas.
Chegaram os resultados dos dois salões para os quais eu me inscrevi. São salões importantes, relevantes no cenário das artes. Um deles, do Centro Cultural São Paulo, tinha tudo pra dar certo: eles têm os direitos autorais das fotos do Fredi Kleeman que eu estou usando para fazer a série do TBC. Imaginei que eles adorariam fazer uma exposição com o meu material. Seria bom para mostrar o acervo deles, para aproveitar o momento atual de memória do teatro brasileiro, e de quebra seria ótimo para mim. Todo mundo sai ganhando. Mas eles recusaram o pré-projeto. O golpe mais doloroso é que a comissão julgadora tinha entre seus membros a Dora Longo Bahia, minha ex-orientadora. E mesmo com tudo isso, não deu certo.
Eu sei, eu sei. Ainda é muito cedo. Não dá pra esperar que eu seja vitorioso na primeira tentativa. A carreira de arte é uma coisa masoquista, e você precisa insistir muito e vencer pela insistência até algo dar certo. Lembro de minha mãe fazendo um paralelo entre isso e a carreira de cientista. Algo sobre como era necessário mandar o projeto científico para trezentas revistas e ser recusado em todas elas. E fazer isso várias vezes até alguém aceitar. Eu sei que é parte do meu caminho também fazer isso. Mais do que nunca, eu queria ter a possibilidade daquela apatia que eu tinha antes em relação à carreira. "Tudo bem, esquece e toca em frente". Mas agora que eu estou prestando mais atenção na vida e tudo é mais real e importante, isso fica cada vez mais difícil.
Tudo bem... esquece... e toca em frente.
Mas aí veio o acordar e eu fiz tudo isso e mudei de vida. E agora, acordado, já não consigo mais ignorar as falhas.
Chegaram os resultados dos dois salões para os quais eu me inscrevi. São salões importantes, relevantes no cenário das artes. Um deles, do Centro Cultural São Paulo, tinha tudo pra dar certo: eles têm os direitos autorais das fotos do Fredi Kleeman que eu estou usando para fazer a série do TBC. Imaginei que eles adorariam fazer uma exposição com o meu material. Seria bom para mostrar o acervo deles, para aproveitar o momento atual de memória do teatro brasileiro, e de quebra seria ótimo para mim. Todo mundo sai ganhando. Mas eles recusaram o pré-projeto. O golpe mais doloroso é que a comissão julgadora tinha entre seus membros a Dora Longo Bahia, minha ex-orientadora. E mesmo com tudo isso, não deu certo.
Eu sei, eu sei. Ainda é muito cedo. Não dá pra esperar que eu seja vitorioso na primeira tentativa. A carreira de arte é uma coisa masoquista, e você precisa insistir muito e vencer pela insistência até algo dar certo. Lembro de minha mãe fazendo um paralelo entre isso e a carreira de cientista. Algo sobre como era necessário mandar o projeto científico para trezentas revistas e ser recusado em todas elas. E fazer isso várias vezes até alguém aceitar. Eu sei que é parte do meu caminho também fazer isso. Mais do que nunca, eu queria ter a possibilidade daquela apatia que eu tinha antes em relação à carreira. "Tudo bem, esquece e toca em frente". Mas agora que eu estou prestando mais atenção na vida e tudo é mais real e importante, isso fica cada vez mais difícil.
Tudo bem... esquece... e toca em frente.
terça-feira, janeiro 26, 2010
Sobre tempo
Hoje de manhã, voltando de mais uma das aulas de inglês, fui pensando bastante sobre tempo. Tenho muito o que pensar sobre tempo.
Tenho sentido a urgência e vontade de que o tempo passe. Meu maior desejo seria já estar no pós-Londres, com o mestrado feito, podendo fazer ainda a licenciatura e começar a dar aulas no meu antigo colégio. Com o salário e as perspectivas de carreira de lá, eu sentiria que minha vida estaria novamente no lugar certo, no tempo certo, e não com esse atraso monstruoso. Imagino que deixaria de sentir pena de mim mesmo por estar fazendo bicos e sobrevivendo a duras penas, enquanto todos meus antigos colegas já têm carreiras consolidadas e salários que os permitem tocar a vida em frente. Mais do que isso, eu teria um propósito e estaria fazendo algo de construtivo no mundo. Não que as aulas de inglês não sejam algo de construtivo, mas não consigo me dedicar a elas como eu gostaria. My mind just isn't in it...
E no entanto, se esse meu desejo fosse realizado, eu perderia o ano em Londres. Com todas as delícias e agonias instigantes que ele certamente vai me trazer. Todas as pessoa interessantes a conhecer e as experiências que mudam a sua vida para sempre. Além disso, perderia a possibilidade (ainda que remota...) de conseguir um emprego na TATE Modern e trabalhar do lado do quadro da Dorothea Tanning [1]e das obras do Anish Kapoor.
Em outro assunto relacionado ao tempo, queria ter de volta esses últimos meses para poder recomeçar a série do TBC. Não é que eu esteja totalmente insatisfeito com ela, mas algo curioso aconteceu nas últimas semanas, me preparando para o quadro da Cacilda no Dama das Camélias: eu acho que finalmente me enchi de retratar pessoas desse jeito. De copiar todas as diferenças tonais de uma foto e tentar chegar o mais perto da semelhança absoluta. Quero daqui pra frente usar outras técnicas, coisas mais instigantes. E acho que adoraria ter feito isso com os quadros que já terminei. Minha Lexy me diz que eu sou o artita, que posso fazer isso quando quiser. Mas não teria tempo de ter tudo isso pronto para as exposições que quero fazer este ano antes de viajar. O tempo, infelizmente, é sempre muito pouco.
Continuo remoendo sobre as conveniências de tempo desse projeto do TBC. Não existiria melhor tempo para fazê-lo do que agora. Soube pelos jornais que o TBC foi comprado pela Funarte, que pretende reabri-lo com novidades, incluíndo um centro de memória do teatro brasileiro, onde uma exposição do meu trabalho viria bem a calhar. Mais recentemente, uma notícia contou que o próprio teatro Sérgio Cardoso está com planos de reformas para melhor utilizar suas salas de ensaio, incluíndo também fazer um centro cultural com espaços de exposição. Eles têm planos de abrir o espaço com exposições sobre o próprio Sérgio Cardoso e sobre Paschoal Carlos Magno, ambos personagens históricos que dão nome às salas principais do teatro. Gostaria muito de ver como posso me infiltrar nesses assuntos.
E no entanto, por mais conveniente que seja o tempo, ainda é tarde demais para Nino Amato, amicíssimo da família, que estava gerenciando o teatro até sua morte. Como passa o tempo: nem me lembro se isso foi há um ou dois anos. Tenho pressa em terminar esse projeto antes que mais pessoas importantes percam a chance de vê-lo em vida.
Em um comentário em um post recente, o Lala's - com quem felizmente retomei contato após muito tempo - comentou algo que achei pertinente. Tendo estudado análise e começado a clinicar, ele concluiu sobre mim que eu estou frequentemente invalidando meu momento atual e sonhando sobre dias melhores. Achei justo e preciso.
E quiçá este post inteiro tenha sido mais uma lamentação desse tipo.
Tenho sentido a urgência e vontade de que o tempo passe. Meu maior desejo seria já estar no pós-Londres, com o mestrado feito, podendo fazer ainda a licenciatura e começar a dar aulas no meu antigo colégio. Com o salário e as perspectivas de carreira de lá, eu sentiria que minha vida estaria novamente no lugar certo, no tempo certo, e não com esse atraso monstruoso. Imagino que deixaria de sentir pena de mim mesmo por estar fazendo bicos e sobrevivendo a duras penas, enquanto todos meus antigos colegas já têm carreiras consolidadas e salários que os permitem tocar a vida em frente. Mais do que isso, eu teria um propósito e estaria fazendo algo de construtivo no mundo. Não que as aulas de inglês não sejam algo de construtivo, mas não consigo me dedicar a elas como eu gostaria. My mind just isn't in it...
E no entanto, se esse meu desejo fosse realizado, eu perderia o ano em Londres. Com todas as delícias e agonias instigantes que ele certamente vai me trazer. Todas as pessoa interessantes a conhecer e as experiências que mudam a sua vida para sempre. Além disso, perderia a possibilidade (ainda que remota...) de conseguir um emprego na TATE Modern e trabalhar do lado do quadro da Dorothea Tanning [1]e das obras do Anish Kapoor.
Em outro assunto relacionado ao tempo, queria ter de volta esses últimos meses para poder recomeçar a série do TBC. Não é que eu esteja totalmente insatisfeito com ela, mas algo curioso aconteceu nas últimas semanas, me preparando para o quadro da Cacilda no Dama das Camélias: eu acho que finalmente me enchi de retratar pessoas desse jeito. De copiar todas as diferenças tonais de uma foto e tentar chegar o mais perto da semelhança absoluta. Quero daqui pra frente usar outras técnicas, coisas mais instigantes. E acho que adoraria ter feito isso com os quadros que já terminei. Minha Lexy me diz que eu sou o artita, que posso fazer isso quando quiser. Mas não teria tempo de ter tudo isso pronto para as exposições que quero fazer este ano antes de viajar. O tempo, infelizmente, é sempre muito pouco.
Continuo remoendo sobre as conveniências de tempo desse projeto do TBC. Não existiria melhor tempo para fazê-lo do que agora. Soube pelos jornais que o TBC foi comprado pela Funarte, que pretende reabri-lo com novidades, incluíndo um centro de memória do teatro brasileiro, onde uma exposição do meu trabalho viria bem a calhar. Mais recentemente, uma notícia contou que o próprio teatro Sérgio Cardoso está com planos de reformas para melhor utilizar suas salas de ensaio, incluíndo também fazer um centro cultural com espaços de exposição. Eles têm planos de abrir o espaço com exposições sobre o próprio Sérgio Cardoso e sobre Paschoal Carlos Magno, ambos personagens históricos que dão nome às salas principais do teatro. Gostaria muito de ver como posso me infiltrar nesses assuntos.
E no entanto, por mais conveniente que seja o tempo, ainda é tarde demais para Nino Amato, amicíssimo da família, que estava gerenciando o teatro até sua morte. Como passa o tempo: nem me lembro se isso foi há um ou dois anos. Tenho pressa em terminar esse projeto antes que mais pessoas importantes percam a chance de vê-lo em vida.
Em um comentário em um post recente, o Lala's - com quem felizmente retomei contato após muito tempo - comentou algo que achei pertinente. Tendo estudado análise e começado a clinicar, ele concluiu sobre mim que eu estou frequentemente invalidando meu momento atual e sonhando sobre dias melhores. Achei justo e preciso.
E quiçá este post inteiro tenha sido mais uma lamentação desse tipo.
terça-feira, janeiro 19, 2010
Arte "hi-hi"
"Meu, eu detesto fazer manha de artistinha!" eu disse à Lexy antes de desligar o telefone. Acho manha de artista uma coisa ridícula. O cara se desespera porque a pintura, desenho, foto ou o que seja não está saíndo como ele queria. E no entanto, é só uma pintura.
Nota-se, obviamente, que ando me desesperando por causa do Entre Quatro Paredes. Mas não vou me alongar nos detalhes.
Hoje de manhã, estive servindo de guia de exposição para minha mãe durante nossa visita à exposição de grafite que ficará no MASP até o mês que vem. Lá, passeando pela cores vivas e explicando para minha mãe sobre a filosofia de grafiteiros e pixadores e a luta pelo espaço público, tive uma epifania sobre meu próprio trabalho.
Lembrei-me de uma das tensas sessões de sexta na casa da Dora, durante meu último ano do curso de artes. Ela nos passou um texto que falava sobre obras com um humor "ha-ha" e obras com um humor "hi-hi". As obras "ha-ha" eram piadas completas, com sua lógica e punchline. As obras "hi-hi" tinhas seu detalhe engraçadinho, uma tiradinha surreal qualquer. Daquele tipo de coisa que você vê, dá aquele sorrisinho de canto de boca ou risadinha ("hi-hi") e segue adiante porque não tem nenhuma grande elocubração mental ali. Nenhuma grande crítica social, nenhuma verdade universal, nenhuma grande descoberta.
De parte do artista, ele não está realmente quebrando a cabeça para fazer algo que vai mudar o mundo. Ele só está fazendo aquilo porque "é legal", "deu na telha", "parecia uma boa idéia". Pelo deleite estético ou humorístico da coisa. Uma boa parte dos grafiteiros, dos meus ex-colegas de faculdade e dos artistas jovens em geral faz arte assim. A vasta maioria das galerias comercializa arte assim. É despretensioso. É engraçadinho. Mas acima de tudo, é fresco, gostoso, fácil de apreciar. É jovem.
E é o que está faltando em quantidades industriais na minha pintura.
Durante o almoço que tivemos depois da exposição, minha mãe disse uma daquelas coisas que vou ficar mastigando por alguns dias. Disse ela que eu sempre vejo detalhes e pontos de vista que ninguém vê. Mas na hora da pintura, eu copio fotos. Eu faço o que todo mundo vê. Tenho aprendido a ouvir um pouco mais a minha mãe. Minha avó também comentou algo parecido dia desses: perguntou por que eu copiava as fotos em vez de fazer as imagens "do meu jeito".
Minha Dama das Camélias já rodopia na minha cabeça de um modo diferente, menos conservador, menos preso à foto. Estou louco pra começar!
Nota-se, obviamente, que ando me desesperando por causa do Entre Quatro Paredes. Mas não vou me alongar nos detalhes.
Hoje de manhã, estive servindo de guia de exposição para minha mãe durante nossa visita à exposição de grafite que ficará no MASP até o mês que vem. Lá, passeando pela cores vivas e explicando para minha mãe sobre a filosofia de grafiteiros e pixadores e a luta pelo espaço público, tive uma epifania sobre meu próprio trabalho.
Lembrei-me de uma das tensas sessões de sexta na casa da Dora, durante meu último ano do curso de artes. Ela nos passou um texto que falava sobre obras com um humor "ha-ha" e obras com um humor "hi-hi". As obras "ha-ha" eram piadas completas, com sua lógica e punchline. As obras "hi-hi" tinhas seu detalhe engraçadinho, uma tiradinha surreal qualquer. Daquele tipo de coisa que você vê, dá aquele sorrisinho de canto de boca ou risadinha ("hi-hi") e segue adiante porque não tem nenhuma grande elocubração mental ali. Nenhuma grande crítica social, nenhuma verdade universal, nenhuma grande descoberta.
De parte do artista, ele não está realmente quebrando a cabeça para fazer algo que vai mudar o mundo. Ele só está fazendo aquilo porque "é legal", "deu na telha", "parecia uma boa idéia". Pelo deleite estético ou humorístico da coisa. Uma boa parte dos grafiteiros, dos meus ex-colegas de faculdade e dos artistas jovens em geral faz arte assim. A vasta maioria das galerias comercializa arte assim. É despretensioso. É engraçadinho. Mas acima de tudo, é fresco, gostoso, fácil de apreciar. É jovem.
E é o que está faltando em quantidades industriais na minha pintura.
Durante o almoço que tivemos depois da exposição, minha mãe disse uma daquelas coisas que vou ficar mastigando por alguns dias. Disse ela que eu sempre vejo detalhes e pontos de vista que ninguém vê. Mas na hora da pintura, eu copio fotos. Eu faço o que todo mundo vê. Tenho aprendido a ouvir um pouco mais a minha mãe. Minha avó também comentou algo parecido dia desses: perguntou por que eu copiava as fotos em vez de fazer as imagens "do meu jeito".
Minha Dama das Camélias já rodopia na minha cabeça de um modo diferente, menos conservador, menos preso à foto. Estou louco pra começar!
quarta-feira, janeiro 13, 2010
Sobre a Dama das Camélias
Diferente do que fiz com Ralé, onde me vali apenas do relato de minha avó sobre a trama e do material impresso ao qual tive acesso; e diferente do que estou fazendo com Entre 4 Paredes, onde fui atrás da minha experiência pessoal com a peça e do que eu lembrava do texto; estou pesquisando um pouco mais antes de me lançar à pintura da Cacilda. Por enquanto, infelizmente, tudo que tenho são pedaços crus de informação dos mais variados tipos.
Li o texto da peça na versão cinquentona e amarelada que minha avó tinha guardada (apesar dela não participar da peça) e procurei com algum afinco para encontrar alguma imagem que não estivesse entre as exaustivamente usadas para a divulgação da peça. O resto veio da internet.
A peça foi escrita por Alexandre Dumas Filho. Parece que Marguerite Gautier, a.k.a. Dama das Camélias, foi inspirada em grande escala na vida da cortesã Marie Duplessis, cujo nome real era Rose Alphonsine Plessi (já temos aí camélias, rosas e margaridas...). Assim como a personagem, ela morreu de tuberculose aos 23 anos de idade. Duplessi foi dama de companhia do próprio Dumas, além de vários homens poderosíssimos. Essa homenagem póstuma do autor rendeu referências históricas como a ópera La Traviata de Verdi (onde a protagonista também tem nome de flor: Violeta) e, mais recentemente, o Moulin Rouge.
Duplessi morreu em 1847. Embora muitos dos seus pertences tenham sido leiloados para pagar dívidas, diz-se que teve um funeral pródigo atendido por centenas de pessoas.
Esse último fato e o texto da peça me deixaram pensando por algum tempo. As cortesãs eram de fato algo vagamente comparável às gueixas japonesas, por serem versadas na arte de agradar aos homens de poder. Eram também uma companhia intelectual, além de estética e sexual. A própria Duplessi sabia ler e escrever em uma época onde eram raras as mulheres letradas, para que pudesse se manter informada dos assuntos do mundo. As cortesãs eram pagas para acompanharem os homens "tanto em ambientes privados como nos sociais". Deviam ser alegres, inteligentes, educadas e cultas, além de belas. Ou seja, ainda que a própria peça de Dumas mostre que as cortesãs não eram muito bem vistas na sociedade francesa, pessoalmente acho que elas tinham virtudes que íam além da dona-de-casa comum ou da prostituta. Ter a companhia de uma boa cortesã deveria ser um deleite caro, porém inigualável pelo qual compreendo que muitos homens pagariam pequenas fortunas.
Quando trabalhei no pub em Londres, entrei em contato com essa filosofia de vida onde servir a outra pessoa não era em nenhum modo algo humilhante e servir bem, sem queixas do cliente, uma espécie de arte. No entanto, a única palavra destinada a essas mulher que serve aos homens parece ser "puta". Principalmente hoje, no pós-Feminismo.
No caso de Duplessi, de luxo.
Li o texto da peça na versão cinquentona e amarelada que minha avó tinha guardada (apesar dela não participar da peça) e procurei com algum afinco para encontrar alguma imagem que não estivesse entre as exaustivamente usadas para a divulgação da peça. O resto veio da internet.
A peça foi escrita por Alexandre Dumas Filho. Parece que Marguerite Gautier, a.k.a. Dama das Camélias, foi inspirada em grande escala na vida da cortesã Marie Duplessis, cujo nome real era Rose Alphonsine Plessi (já temos aí camélias, rosas e margaridas...). Assim como a personagem, ela morreu de tuberculose aos 23 anos de idade. Duplessi foi dama de companhia do próprio Dumas, além de vários homens poderosíssimos. Essa homenagem póstuma do autor rendeu referências históricas como a ópera La Traviata de Verdi (onde a protagonista também tem nome de flor: Violeta) e, mais recentemente, o Moulin Rouge.
Duplessi morreu em 1847. Embora muitos dos seus pertences tenham sido leiloados para pagar dívidas, diz-se que teve um funeral pródigo atendido por centenas de pessoas.
Esse último fato e o texto da peça me deixaram pensando por algum tempo. As cortesãs eram de fato algo vagamente comparável às gueixas japonesas, por serem versadas na arte de agradar aos homens de poder. Eram também uma companhia intelectual, além de estética e sexual. A própria Duplessi sabia ler e escrever em uma época onde eram raras as mulheres letradas, para que pudesse se manter informada dos assuntos do mundo. As cortesãs eram pagas para acompanharem os homens "tanto em ambientes privados como nos sociais". Deviam ser alegres, inteligentes, educadas e cultas, além de belas. Ou seja, ainda que a própria peça de Dumas mostre que as cortesãs não eram muito bem vistas na sociedade francesa, pessoalmente acho que elas tinham virtudes que íam além da dona-de-casa comum ou da prostituta. Ter a companhia de uma boa cortesã deveria ser um deleite caro, porém inigualável pelo qual compreendo que muitos homens pagariam pequenas fortunas.
Quando trabalhei no pub em Londres, entrei em contato com essa filosofia de vida onde servir a outra pessoa não era em nenhum modo algo humilhante e servir bem, sem queixas do cliente, uma espécie de arte. No entanto, a única palavra destinada a essas mulher que serve aos homens parece ser "puta". Principalmente hoje, no pós-Feminismo.
No caso de Duplessi, de luxo.
segunda-feira, dezembro 28, 2009
Truques fáceis
Acho que em todo tipo de arte há truques fáceis.
São aquelas manobras conceitualmente banais, mas que surtem efeito rápido, chamam a atenção do público e causam maravilhamento em quem observa. Elas são experiências agradáveis, ainda que desimportantes. A harmonia de duas vozes com uma oitava de diferença é um exemplo na música: não é nenhuma novidade técnica, mas é muito prazeirosa para quem ouve.
Comecei a prestar atenção em truques fáceis quando estudamos na faculdade o escultor pop suéco Claes Oldenburg. Ele fez uma carreira do maior dos truques fáceis: escala. Qualquer coisa, não importa o quão banal, torna-se digna de contemplação e maravilhamento se feita em uma escala grande o suficiente. Oldenburg fazia tudo gigantesco. Grampos de roupa, comida, utensílios domésticos... tudo de mais mundano. Conceitualmente, é uma banalidade. Mas causa um impacto... er... enorme. Não é à toa que muitos pintores recorrem a tamanhos pouco práticos de tela: você pode até deixar ela em branco que já é um deleite de se ver.
Na pintura, outro truque fácil é volume. Luz de um lado, sombra de outro e seu desenho já ganha um ar de profissionalismo. Lembro de uma época na infância onde descobri volume no desenho. Desenhei o mesmo vaso incontáveis vezes, com a luz de um lado e a sombra do outro. Demorou um pouco pra experimentar o truque em outras formas.
Houve uma época em que eu teria associado truques fáceis à baixa qualidade ou falta de talento do artista. Como se apenas o difícil e complexo fosse relevante. Hoje acho que depende do contexto. Truques fáceis estão aí para serem usados. O que se faz com eles é o que define o bom artista, na minha opinião.
Estou quase terminando de pintar minha avó no quadro do Entre Quatro Paredes. Achei que fosse demorar mais. A pintura foi produzida em um crescendo de dificuldade, começando com a imagem mais fácil de Cacilda com seu rosto sem volume, passando pelo meu avô com as sombras duras no rosto e o casaco cheio de penumbras sinuosas, até deixar minha avó por último por causa do cabelo. Este lhe cai em longas madeixas detalhadas da cabeça que pende para trás, agarrada pelas mãos de violência leve do meu avô. Achei que fosse demorar uns três dias pra fazer todos os volumes daquele cabelo. Levei apenas um. Com o dobro de horas de trabalho normais, mas apenas um. Resta arrumar o rosto.
Cabelos são outro truque fácil. Um macete de pincelada fácil de aprender e que todo mundo acha lindo. O caso da minha avó foi bem mais elaborado, mas é em tese a mesma coisa. E talvez seja o efeito de ter passado cinco horas pintando aquilo, mas acho que está roubando a cena do resto.
Falta fazer o fundo, com várias das surpresas escondidas que estavam no quadro da Maria Della Costa e o detalhe dos sofás, sobre o qual acredito ter encontrado uma solução gostosa. Aguardem fotos em alguns dias.
São aquelas manobras conceitualmente banais, mas que surtem efeito rápido, chamam a atenção do público e causam maravilhamento em quem observa. Elas são experiências agradáveis, ainda que desimportantes. A harmonia de duas vozes com uma oitava de diferença é um exemplo na música: não é nenhuma novidade técnica, mas é muito prazeirosa para quem ouve.
Comecei a prestar atenção em truques fáceis quando estudamos na faculdade o escultor pop suéco Claes Oldenburg. Ele fez uma carreira do maior dos truques fáceis: escala. Qualquer coisa, não importa o quão banal, torna-se digna de contemplação e maravilhamento se feita em uma escala grande o suficiente. Oldenburg fazia tudo gigantesco. Grampos de roupa, comida, utensílios domésticos... tudo de mais mundano. Conceitualmente, é uma banalidade. Mas causa um impacto... er... enorme. Não é à toa que muitos pintores recorrem a tamanhos pouco práticos de tela: você pode até deixar ela em branco que já é um deleite de se ver.
Na pintura, outro truque fácil é volume. Luz de um lado, sombra de outro e seu desenho já ganha um ar de profissionalismo. Lembro de uma época na infância onde descobri volume no desenho. Desenhei o mesmo vaso incontáveis vezes, com a luz de um lado e a sombra do outro. Demorou um pouco pra experimentar o truque em outras formas.
Houve uma época em que eu teria associado truques fáceis à baixa qualidade ou falta de talento do artista. Como se apenas o difícil e complexo fosse relevante. Hoje acho que depende do contexto. Truques fáceis estão aí para serem usados. O que se faz com eles é o que define o bom artista, na minha opinião.
Estou quase terminando de pintar minha avó no quadro do Entre Quatro Paredes. Achei que fosse demorar mais. A pintura foi produzida em um crescendo de dificuldade, começando com a imagem mais fácil de Cacilda com seu rosto sem volume, passando pelo meu avô com as sombras duras no rosto e o casaco cheio de penumbras sinuosas, até deixar minha avó por último por causa do cabelo. Este lhe cai em longas madeixas detalhadas da cabeça que pende para trás, agarrada pelas mãos de violência leve do meu avô. Achei que fosse demorar uns três dias pra fazer todos os volumes daquele cabelo. Levei apenas um. Com o dobro de horas de trabalho normais, mas apenas um. Resta arrumar o rosto.
Cabelos são outro truque fácil. Um macete de pincelada fácil de aprender e que todo mundo acha lindo. O caso da minha avó foi bem mais elaborado, mas é em tese a mesma coisa. E talvez seja o efeito de ter passado cinco horas pintando aquilo, mas acho que está roubando a cena do resto.
Falta fazer o fundo, com várias das surpresas escondidas que estavam no quadro da Maria Della Costa e o detalhe dos sofás, sobre o qual acredito ter encontrado uma solução gostosa. Aguardem fotos em alguns dias.
sexta-feira, dezembro 25, 2009
Vovô
Terminei esta semana de pintar meu avô no quadro do Entre Quatro Paredes. Acho que, pelas festas de Dezembro, não terminarei este dentro do mês como queria. Mas tudo bem.
Em um dos jantares natalinos, uma das tias da Lexy se enganou e me chamou de Sérgio. Sei que o engano não tinha nada a ver, mas imaginei por um momento que ela talvez estivesse vendo semelhanças entre eu e meu avô e falando o nome dele como ato falho.
Já fui mais parecido com meu avô. Hoje, a barba e os óculos, os traços da família de meu pai e outras pequenas peculiaridades me distinguem da figura dele. Mas na infância, a semelhanca era tamanha que muita gente apontava. Tanto para os aspectos físicos como de personalidade. Cheguei a acreditar, na inocência da infância onde tudo é possível, que talvez eu pudesse ser uma reencarnação dele.
No quadro, os detalhes semelhantes estavão lá. O formato do rosto, o cabelo liso que eu tinha quando criança e uma animosidade nos olhos e sobrancelhas. Até mesmo a violência sem força. E algo na boca, que apesar de não ser exatamente igual à minha, me lembrava qualquer coisa. Trabalhar com essa imagem teve o gosto de trabalhar com a minha própria imagem. Ou a estranheza de estar na presença de um outro idêntico a mim.
Não é nada que me incomode. Pelo contrário. Me incomodaria talvez em pintar homens por causa do erotismo de traçar e obcecar com o rosto de uma pessoa, mas quando se trata de uma imagem assim, é como acariciar a si mesmo. Um deleite nascísico.
Em um dos jantares natalinos, uma das tias da Lexy se enganou e me chamou de Sérgio. Sei que o engano não tinha nada a ver, mas imaginei por um momento que ela talvez estivesse vendo semelhanças entre eu e meu avô e falando o nome dele como ato falho.
Já fui mais parecido com meu avô. Hoje, a barba e os óculos, os traços da família de meu pai e outras pequenas peculiaridades me distinguem da figura dele. Mas na infância, a semelhanca era tamanha que muita gente apontava. Tanto para os aspectos físicos como de personalidade. Cheguei a acreditar, na inocência da infância onde tudo é possível, que talvez eu pudesse ser uma reencarnação dele.
No quadro, os detalhes semelhantes estavão lá. O formato do rosto, o cabelo liso que eu tinha quando criança e uma animosidade nos olhos e sobrancelhas. Até mesmo a violência sem força. E algo na boca, que apesar de não ser exatamente igual à minha, me lembrava qualquer coisa. Trabalhar com essa imagem teve o gosto de trabalhar com a minha própria imagem. Ou a estranheza de estar na presença de um outro idêntico a mim.
Não é nada que me incomode. Pelo contrário. Me incomodaria talvez em pintar homens por causa do erotismo de traçar e obcecar com o rosto de uma pessoa, mas quando se trata de uma imagem assim, é como acariciar a si mesmo. Um deleite nascísico.
quinta-feira, dezembro 17, 2009
Sobre sofás
Há duas semanas comecei a levar a sério a pintura do Entre Quatro Paredes com meus avos e Cacilda. De início não tinha muita idéia do que fazer com este. Então desenterrei da minha biblioteca o texto da peça, que consegui de minha avó na época em que a estava ensaiando com Lee na faculdade. Os insights vieram naturalmente, quase uma idéia nova por dia. Agora tenho a impressão de que talvez fique melhor e mais completo do que o quadro de Maria Della Costa.
O começo do quadro foi meio confuso. Enquanto desenhava a foto escolhida na tela, pensei muito nos trios da peça: três atores, três sofás de cores distintas, três paredes no cenário (a quarta sendo a platéia). Quase por instinto, comecei a pintar cada ator de uma cor diferente. Lembrava de uma técnica que uma professora tinha me ensinado, de pintar a imagem toda de uma cor e depois pintar por cima. O óleo é meio transparente, e daria uma tênue impressão da cor de baixo. Vovó apareceu e me contou que cada personagem tivera uma cor específica em sua montagem de 1950. Cores diferentes das que eu estava usando. Lá fui eu começar de novo...
Na semana passada, comecei a pintar Cacilda. E enquanto o fazia, as idéias finais do que fazer no quadro apareceram. O fundo da tela, a questão dos sofás na peça, as cores.
Em algum momento, li o texto de novo e achei a parte onde os personagens falam dos sofás. Estelle, a personagem de minha avó, faz manha porque está colocada em um sofá com uma cor que não combina com a sua. É um diálogo gostoso, porque de imediato deixa claras as atitudes de todos eles, o detalhe dos sofás e o nome de cada um, quando eles se apresentam.
Fiquei com uma vontade de colocar isso no site do quadro.
Ah, verdade... Acho que não contei por aqui. Estou pensando em fazer um pequeno hotsite para cada quadro. Uma experiência hipertextual como se faz hoje com bons filmes: você tem a experiência do filme e, se quiser obcecar um pouco mais com o assunto, explora o site, encontra mais informação e aumenta sua experiência sobre o que estava no filme. Já estou terminando o da Maria Della Costa.
Voltando ao assunto, fiquei com vontade não de colocar o texto, visto que ninguém teria paciência para ler, mas de fazer uma gravação. Três pessoas declamando o texto em determinada parte do site. Eu, obvia e narcisicamente, seria Garcin. E nada me tira até agora da cabeça que eu deveria pedir a Lee que fizesse Inês. Mas isso seria factível? Há tantas questões a considerar... Não nos falamos há talvez um ano ou mais. E será que ela aceitaria? Ou julgaria isso tudo como uma tolice e ignoraria o convite? De qualquer forma, seria a voz perfeita. Com as mesmas qualidades que a de Cacilda.
O começo do quadro foi meio confuso. Enquanto desenhava a foto escolhida na tela, pensei muito nos trios da peça: três atores, três sofás de cores distintas, três paredes no cenário (a quarta sendo a platéia). Quase por instinto, comecei a pintar cada ator de uma cor diferente. Lembrava de uma técnica que uma professora tinha me ensinado, de pintar a imagem toda de uma cor e depois pintar por cima. O óleo é meio transparente, e daria uma tênue impressão da cor de baixo. Vovó apareceu e me contou que cada personagem tivera uma cor específica em sua montagem de 1950. Cores diferentes das que eu estava usando. Lá fui eu começar de novo...
Na semana passada, comecei a pintar Cacilda. E enquanto o fazia, as idéias finais do que fazer no quadro apareceram. O fundo da tela, a questão dos sofás na peça, as cores.
Em algum momento, li o texto de novo e achei a parte onde os personagens falam dos sofás. Estelle, a personagem de minha avó, faz manha porque está colocada em um sofá com uma cor que não combina com a sua. É um diálogo gostoso, porque de imediato deixa claras as atitudes de todos eles, o detalhe dos sofás e o nome de cada um, quando eles se apresentam.
Fiquei com uma vontade de colocar isso no site do quadro.
Ah, verdade... Acho que não contei por aqui. Estou pensando em fazer um pequeno hotsite para cada quadro. Uma experiência hipertextual como se faz hoje com bons filmes: você tem a experiência do filme e, se quiser obcecar um pouco mais com o assunto, explora o site, encontra mais informação e aumenta sua experiência sobre o que estava no filme. Já estou terminando o da Maria Della Costa.
Voltando ao assunto, fiquei com vontade não de colocar o texto, visto que ninguém teria paciência para ler, mas de fazer uma gravação. Três pessoas declamando o texto em determinada parte do site. Eu, obvia e narcisicamente, seria Garcin. E nada me tira até agora da cabeça que eu deveria pedir a Lee que fizesse Inês. Mas isso seria factível? Há tantas questões a considerar... Não nos falamos há talvez um ano ou mais. E será que ela aceitaria? Ou julgaria isso tudo como uma tolice e ignoraria o convite? De qualquer forma, seria a voz perfeita. Com as mesmas qualidades que a de Cacilda.
terça-feira, novembro 17, 2009
Maria Della Costa
Terminei na semana passada a parte de pintura do primeiro quadro que estou fazendo sobre as atrizes do TBC. Acho que finalmente consigo fazer um quadro em um mês. Foi uma coisaa complicada, porque fui experimentar uma técnica de transferência de imagens impressas para a tela que o Rauschemberg usava. Muito frustrante quando essas coisas não dão certo. Mas eu sou teimoso e acabei gastando uma semana nisso até que desse certo.
Apesar de ter motivos pessoais para começar a série com uma cena do Entre Quatro Paredes (encenado por minha avó, meu avô e Cacilda Becker), por ter ensaiado a peça com a Lee há muitos anos, cedi ao apelo visual da belíssima Maria Della Costa. Na peça Ralé, de Maxim Gorki, dirigida por Flamínio Bollini Cerri, ela encarna a bela e perigosa esposa de um dono de cortiço, que trama a morte do marido e agride a própria irmã ao perceber que seu amante passa a interessar-se por esta. Trajando um longo vestido, ela aparece em uma das fotos em uma pose que lembra as musas do cine noir.
Há algumas semanas, soube por minha avó que Maria Della Costa estaria dando autógrafos no lançamento de sua biografia. Aproveitei a chance para conhecê-la de perto. Simpaticíssima, não se negou a tirar uma foto comigo depois de saber de quem eu era neto.
Apesar de ter motivos pessoais para começar a série com uma cena do Entre Quatro Paredes (encenado por minha avó, meu avô e Cacilda Becker), por ter ensaiado a peça com a Lee há muitos anos, cedi ao apelo visual da belíssima Maria Della Costa. Na peça Ralé, de Maxim Gorki, dirigida por Flamínio Bollini Cerri, ela encarna a bela e perigosa esposa de um dono de cortiço, que trama a morte do marido e agride a própria irmã ao perceber que seu amante passa a interessar-se por esta. Trajando um longo vestido, ela aparece em uma das fotos em uma pose que lembra as musas do cine noir.
Há algumas semanas, soube por minha avó que Maria Della Costa estaria dando autógrafos no lançamento de sua biografia. Aproveitei a chance para conhecê-la de perto. Simpaticíssima, não se negou a tirar uma foto comigo depois de saber de quem eu era neto.
quarta-feira, novembro 04, 2009
Atualizando
Quase um mês sem atualizar isso aqui... E eu que queria transformá-lo em um blog sério, estou indo por um péssimo caminho.
No começo de Outubro, terminei o primeiro quadro da nova série. Apelidado de "A Casa na Colina", mas oficialmente sem título, foi a tentativa de transformar uma tela que eu não conseguia continuar mas não queria jogar fora em algo útil. O resultado me satisfez, embora eu já tenha me dado conta de como poderia ter feito uma pintura ainda melhor. No fim das contas, ficou um quadro gostoso. E eu ainda fiz um vídeo da evolução dele.
O resto do mês de Outubro foi algo de um desperdício benéfico. Pois embora eu não tenha cumprido a promessa de uma obra por mês, tive muitos trabalhos como freelancer e ganhei uma considerável quantidade de dinheiro. Ah, se todos os meses fossem tão produtivos nesse aspecto...
De fato, eu tinha planos para a próxima obra em Outubro, um objeto em vez de uma pintura. Mas não tive coragem. Sabe, esta primeira pintura que fiz lidava com um dos três aspectos que hoje eu identifico da questão masculista: o sentimento de inferioridade do homem atual em relação à mulher atual. Os outros dois aspectos são a ausência da figura do pai/mestre e o uso do sexo como mecanismo de controle do homem. Meu objeto de Outubro tinha a ver com este último. Mas então lembrei de outros trabalhos que fiz que lidavam com sexualidade tão abertamente, e de como no fim acabavam sendo obras vazias, desnecessariamente chocantes e muito frustrantes. Trastes que hoje perambulam o ateliê embalados e cobertos para sempre porque meu pudor não me permite mostrar. Não acho que seja o caso desta obra, mas estou sendo prudente. Ainda estou me acostumando com a idéia. Se eu achar que passou tempo suficiente e ainda não me envergonhei dela, voltarei a entreter a idéia de produzir a peça.
Agora em Novembro, a brincadeira vai tomar outros rumos. A idéia seria produzir algo baseado no terceiro aspecto, a ausência do mestre/pai. Mas em conversas produtivas com o Marco Guerra, um professor de história da arte amigo de minha avó, surgiu outra idéia interessante que talvez renda as minhas primeiras exposições realmente relevantes. Ele interessou-se pelos meus retratos da época da faculdade e sugeriu que eu fizesse retratos dos meus avos, importantes figuras do teatro nacional e principalmente do surgimento do TBC (Teatro Brasileiro de Comédia). A sugestão não poderia vir em melhor hora. Lexy está pesquisando o TBC para seu trabalho de graduação e estamos descobrindo farto material a respeito daquela época.
Assim que resolvi tomar a idéia do professor Guerra e jogar do meu jeito. Peguei os últimos dias de Outubro que me restavam para fazer pesquisa com minha avó, procurando peças relevantes, atrizes fortes e diretores que fizeram história naquela época. E ontem comecei a produção das primeiras duas pinturas dessa série. Todas explorando atrizes do TBC em peças que lhes proporcionaram personagens femininas fortes como as mulheres pós-Feminismo. As imagens de referência são do fotógrafo Fredi Kleeman, que acompanhou o surgimento do TBC, fotografando os primeiros ensaios e as apresentações históricas.
O professor diz que, se eu conseguir produzir essas obras até o começo do ano que vem, poderia me arranjar uma exposição em uma galeria na Augusta. A idéia muito me interessa. Mas ainda que isso não aconteça, seria a forma perfeita de abordar o pessoal do teatro do meu avô e organizar uma exposição por lá. Tenho certeza que isso chamaria alguma atenção. Pelo assunto, pela relação dos avós e do neto, e quem sabe até pela qualidade das obras.
O resto do mês de Outubro foi algo de um desperdício benéfico. Pois embora eu não tenha cumprido a promessa de uma obra por mês, tive muitos trabalhos como freelancer e ganhei uma considerável quantidade de dinheiro. Ah, se todos os meses fossem tão produtivos nesse aspecto...
De fato, eu tinha planos para a próxima obra em Outubro, um objeto em vez de uma pintura. Mas não tive coragem. Sabe, esta primeira pintura que fiz lidava com um dos três aspectos que hoje eu identifico da questão masculista: o sentimento de inferioridade do homem atual em relação à mulher atual. Os outros dois aspectos são a ausência da figura do pai/mestre e o uso do sexo como mecanismo de controle do homem. Meu objeto de Outubro tinha a ver com este último. Mas então lembrei de outros trabalhos que fiz que lidavam com sexualidade tão abertamente, e de como no fim acabavam sendo obras vazias, desnecessariamente chocantes e muito frustrantes. Trastes que hoje perambulam o ateliê embalados e cobertos para sempre porque meu pudor não me permite mostrar. Não acho que seja o caso desta obra, mas estou sendo prudente. Ainda estou me acostumando com a idéia. Se eu achar que passou tempo suficiente e ainda não me envergonhei dela, voltarei a entreter a idéia de produzir a peça.
Agora em Novembro, a brincadeira vai tomar outros rumos. A idéia seria produzir algo baseado no terceiro aspecto, a ausência do mestre/pai. Mas em conversas produtivas com o Marco Guerra, um professor de história da arte amigo de minha avó, surgiu outra idéia interessante que talvez renda as minhas primeiras exposições realmente relevantes. Ele interessou-se pelos meus retratos da época da faculdade e sugeriu que eu fizesse retratos dos meus avos, importantes figuras do teatro nacional e principalmente do surgimento do TBC (Teatro Brasileiro de Comédia). A sugestão não poderia vir em melhor hora. Lexy está pesquisando o TBC para seu trabalho de graduação e estamos descobrindo farto material a respeito daquela época.
Assim que resolvi tomar a idéia do professor Guerra e jogar do meu jeito. Peguei os últimos dias de Outubro que me restavam para fazer pesquisa com minha avó, procurando peças relevantes, atrizes fortes e diretores que fizeram história naquela época. E ontem comecei a produção das primeiras duas pinturas dessa série. Todas explorando atrizes do TBC em peças que lhes proporcionaram personagens femininas fortes como as mulheres pós-Feminismo. As imagens de referência são do fotógrafo Fredi Kleeman, que acompanhou o surgimento do TBC, fotografando os primeiros ensaios e as apresentações históricas.
O professor diz que, se eu conseguir produzir essas obras até o começo do ano que vem, poderia me arranjar uma exposição em uma galeria na Augusta. A idéia muito me interessa. Mas ainda que isso não aconteça, seria a forma perfeita de abordar o pessoal do teatro do meu avô e organizar uma exposição por lá. Tenho certeza que isso chamaria alguma atenção. Pelo assunto, pela relação dos avós e do neto, e quem sabe até pela qualidade das obras.
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